O que você faria ao se deparar com uma garrafa cujo rótulo diz “extremely rare” ou “extremamente raro”?
Bem, este é o caso do Glenmorangie 18 anos, produzido pela destilaria homônima localizada em Tain, na Escócia. E tudo bem que fora de nosso país ele nem seja tão raro assim. Mas continua sendo uma preciosidade.
O Glenmorangie 18 anos é maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano que antes continham bourbon whisky, e de carvalho europeu, que maturaram vinho jerez. O processo consiste em maturar por quinze anos o destilado em barricas de ex-bourbon, e depois transferir aproximadamente 30% dele para barricas de ex-jerez. As duas partes então passam mais três anos nas diferentes barricas, até serem reunidas para criar o Glenmorangie 18 anos.
A destilaria Glenmorangie é conhecida por possuir os alambiques mais altos de toda a Escócia. Isso porque os primeiros alambiques da destilaria teriam sido comprados de uma fábrica de gim. Os atuais são reproduções maiores daqueles primeiros. A altura dos alambiques, aliada a seu formato, fazem com que apenas os vapores mais leves do processo de destilação cheguem ao seu topo, o que produz um whisky leve e elegante.
O resultado é um whisky sofisticado, com final frutado (frutas cristalizadas) cítrico e adocicado. Ainda bem que ele não é tão raro assim, não?
O Cão Engarrafado já fez a prova de vários Glenmorangies! Conheça-os aqui.
Você sabe quem foi São Patrício? São Patrício – St. Patrick, em inglês – foi um missionário cristão, de nacionalidade irlandesa, que viveu durante o século quinto. St Patrick’s é também o santo padroeiro da Irlanda. Por ser um orgulho nacional para os irlandeses, seu dia é comemorado tanto naquele país quanto internacionalmente.
O St. Patrick’s Day, comemorado no dia 17 de março, tornou-se uma data reconhecida pelas igrejas católica e anglicana, bem como parte da ortodoxa e luterana a partir do século dezessete. O dia comemora a vida de São Patrício, bem como a chegada do cristianismo na Irlanda. As comemorações variam bastante. Celebrações públicas geralmente envolvem paradas e festivais, bem como a utilização de indumentárias da cor verde ou contendo trevos estampados – o símbolo de St. Patrick.
Até aí, tudo bem.
Acontece que, naquela época havia restrições religiosas bem mais severas sobre o consumo de álcool e de certos tipos de alimentos. Entretanto, naquele dia, no dia de São Patrício, essas restrições eram suspensas. Por isso, com o tempo, as famosas comemorações do St. Patrick’s Day passaram a envolver, na maioria das vezes, quantidades consideráveis de álcool.
Você pode até sair de ZZ Top. Só que verde.
Atualmente, por ser uma festa tradicionalmente irlandesa, as bebidas mais consumidas são cerveja – com uma cor verde meio nojenta – e whiskey. Whiskey irlandês. Por se tratar de um blog de whisky, a escolha deste Cão foi óbvia. Para comemorar a data, optei por uma expressão incomum do whiskey irlandês mais consumido no mundo. O Jameson Black barrel Select Reserve, também conhecido em alguns países como Jameson Small Batch.
O Jameson Black Barrel Select Reserve é composto, principalmente, pelo espírito proveniente da tripla destilação em alambiques de um mosto que contém tanto cevada maltada quanto não maltada. Entretanto, pequena quantidade de whisky de grão é adicionada para criar o equilíbrio ideal. A mistura entre o destilado da cevada e o de grãos é feito somente após o processo de maturação do whiskey.
Aliás, a maturação do Black Barrel é também bastante diferente daquela do tradicional Jameson. A versão mais comum de nosso irlandês matura entre cinco e sete anos. Já no caso do Black Barrel, o processo é um pouco mais longo. O whiskey é maturado entre sete e doze anos. A maturação ocorre tanto em barricas que antes continham vinho jerez quanto bourbon.
As barricas de ex-bourbon – tanto para a parte do destilado proveniente do alambique quanto para o whisky de grão – são duplamente torradas (double charred) o que confere um sabor rico e muito específico a este whiskey. Esta segunda torra é exclusiva do Black Barrel. Nenhum outro whiskey do portfólio permanente da Jameson é maturado nestas barricas. Nem mesmo as expressões mais caras.
Após passarem pelo processo de double charred os barris ficam com a cor escura, preta, devido ao contato com o fogo direto. Épor isso que ele foi carinhosamente chamado de Jameson Black Barrel. Aqui está um vídeo que mostra como é feita a torra das barricas.
Barricas sendo torradas
Por conta da maior proporção do destilado proveniente do alambique, o Jameson Black Barrel Select Reserve é bem mais encorpado que seu irmão mais jovem. Isso é somado ao tempo de maturação mais extenso, tornando-o um whiskey bem mais complexo e interessante do que a versão tradicional da marca.
Se você é fã de whiskies irlandeses, mas está procurando algo mais encorpado e forte, o Jameson Black Barrel Select Reserve é para você. No entanto, há uma má noticia. Ele não está disponível em nosso país.
Por aqui, apenas a versão tradicional da marca por ser encontrada nos supermercados e lojas virtuais. Entretanto, o Black Barrel pode, com sorte, ser comprado nos Duty-Free Shops de aeroportos internacionais, e em alguns países vizinhos, como Chile e Uruguai. A nós, resta aguardar a boa vontade da Pernod Ricard – detentora da marca – para trazer a expressão para o Brasil.
Com um pouco da ajuda de São Patrício, talvez ele chegue por aqui! Vamos torcer.
JAMESON BLACK BARREL SELECT RESERVE
Tipo: Irish Whiskey
Marca: Jameson
Região: N/A
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: Frutado, adocicado, leve aroma de vinho e de baunilha.
Aí vai mais uma cerveja maturada em barricas de whiskey para a sua quarta-feira. Esta é a Cuvee Delphine, produzida pela cervejaria Struise, da Bélgica.
A Cuvée Delphine foi criada pela Struise bieren/Struise beers (Cervejaria Struise) utilizando sua Black Albert Imperial Stout, e maturando-a por doze meses em barricas que antes foram usadas para maturar o bourbon Four Roses. É isso mesmo. Um ano inteiro!
O rótulo, onde se lé “Truth Can Set You Free” (“A Verdade Poderá Te Libertar”) é uma obra de arte de Delphine Boël, artista plástica belga e – alegadamente – filha não reconhecida do Rei Albert II. Até hoje Delphine luta na justiça para que seja reconhecida como legítima descendente do rei. Caso vocês não tenham notado a sutileza da piada, a Cuvée Delphine é uma Black ALBERT maturada. Ou seja, uma descende da outra.
Esta expressão do bourbon Four Roses que aparece na foto é maturada entre cinco e seis anos em barricas virgens de carvalho americano. A mesma barrica que, mais tarde, é usada para maturar a Cuvée Delphine.
Ontem, quando cheguei do escritório, a Cã perguntou se – ao invés de jantarmos fora – eu não queria pedir comida. Eu disse que sim, claro, afinal, estava cansado. E indaguei a ela o que queria. Pizza? Não, pizza não quero, estou gorda. Japonês? Não, quero algo quente. Uma massa? Não. Árabe então? Não, árabe não também. Hambúrger foi a derradeira opção, igualmente recusada. Mas afinal, amada Cã, o que você quer pedir? Ah, não sei, o que você quiser está bom para mim.
Na verdade, eu queria qualquer coisa. Só não queria pensar muito. Tenho dias assim. Esse era um deles. No trabalho, me disseram para ouvir Penderecki enquanto traduzia um contrato de M&A, porque música clássica auxiliava na concentração. Mas o máximo que queria ouvir era Rolling Stones. Durante o almoço, recomendaram que pedisse o polvo. Mas eu queria mesmo era um belo mexidão. Me disseram para ver um filme do Godard. Mas meu desejo mesmo era ver um J. J. Abrams.
Por fim, falaram que eu deveria ler Dostoievski. Aí concordei, afinal, a vida é muito curta para desperdiçá-la com literatura ruim. Mas hoje não, hoje eu não leria nada. Aliás, cinema, literatura e whisky tem muita coisa em comum. Os três funcionam como panaceias infalíveis contra uma rotina quase mecanicamente opressora. São catalisadores de ideias. E isso é ótimo.
Isso é ótimo quase sempre. Mas as vezes, as vezes não. Se você, assim como eu, está num desses dias que não quer ver o Godard, ler o Dostoievski, comer o polvo e preparar um acordo infinito com inúmeros termos no dialeto bretão, mas quer apenas algo ótimo e palatável com apenas o mínimo necessário de massa encefálica, aí vão seis whiskies que você pode tomar com gelo e ficar absolutamente satisfeito.
JOHNNIE WALKER BLACK LABEL
Sua reputação o precede. O Black Label é, provavelmente, o blended whisky premium mais conhecido do mundo. Possui mais de um século de vida. Composto por mais de quarenta single malts e grain whiskies, maturados por, no mínimo, doze anos, o Black Label possui um equilíbrio quase cirúrgico. Ele é bom o suficiente para se tomar puro, mas também fica ótimo com gelo. Saiba tudo sobre ele aqui.
CHIVAS REGAL EXTRA
O Chivas Regal Extra é simplesmente fenomenal. É um whisky cuja complexidade facilmente faz frente a whiskies bem mais caros, e cujo perfil de sabor consegue aguentar bem a diluição do gelo. Ao contrário do que ocorre com a maior parte dos blended whiskies disponíveis no mercado, a maioria dos single malts que o compõe são maturados em barricas que antes continham vinho jerez. Isso lhe confere um forte sabor frutado e de especiarias. Leia mais sobre ele aqui.
FAMOUS GROUSE FINEST
Orçamento apertado não é motivo para se tomar whisky ruim. O Famous Grouse Finest está aí para provar isso. Sua fórmula leva alguns dos single malts mais respeitados da Escócia, como The Macallan, Glenturret e Highland Park. É suave, complexo e despretensioso. Nada mal para uma garrafa que custa pouco mais do que cem reais. Ficou curioso? Leia mais sobre ele aqui.
JOHNNIE WALKER DOUBLE BLACK
Se você, assim como eu, é um fã de tudo aquilo que é defumado, o Double Black é para você. Sua composição leva single malts jovens de Islay, região famosa por produzir whiskies turfados, como Caol Ila e Lagavulin. O gelo reduz a impressão da fumaça, mas fica longe de eliminá-la. Assim, se seu ideal de felicidade sem esforço é um churrasco líquido e gelado, Double Black on the rocks deve ser sua pedida. Leia sobre ele neste post.
GRANT’S
Se é suavidade o que você procura, o Grant’s é para você. Em seu coração está o single malt mais vendido no mundo, o Glenfiddich. É um whisky leve e equilibrado, predominantemente frutado e adocicado e pouquíssimo enjoativo. Funciona bem puro e fica ótimo com gelo. Praticamente um vinho de mesa. Só que muito melhor.
QUALQUER UM
Qualquer um mesmo. Afinal, o whisky é seu, e você bebe ele como quiser. Apenas lembre-se que, para promover uma degustação analítica da bebida, tentando perceber todos seus aromas e sabores, o gelo talvez não seja a melhor opção. O gelo torna as papilas gustativas menos sensíveis, e atrapalha bastante nesse trabalho. Para isso, o ideal é mesmo experimentá-lo puro, ou com algumas gotas de água. Leia mais sobre isso aqui.
E se nada disso funcionar, meus caros, aí minha recomendação é outra. Neste caso, leia um Dostoievski ou assista um Godard. Coma frutos do mar sofisticados e ouça musica minimalista polonesa. E faça tudo isso acompanhado de, talvez, um Macallan Ruby, Glenmorangie Quinta Ruban, Laphroaig 18 anos ou Glenfiddich 15 anos. Afinal, às vezes tudo que precisamos mesmo é refletir um pouco.
Quando era criança, meu prato preferido era macarrão. Preferencialmente, com qualquer molho que possuísse mais de cem calorias por colher de sopa. Quatro queijos e molho branco eram meus favoritos, de longe. Talvez por isso, quando adolescente, eu estivesse um pouco acima do peso. Nada demais. Uns dezessete, vinte quilos. No mínimo.
Lá pelos meus dezenove anos de idade, resolvi que faria uma reeducação alimentar, de forma que eu e meu umbigo pudéssemos novamente nos encarar. Assim, comecei a dispensar a sobremesa, troquei o molho branco pelo de tomate e incluí em meu cardápio algo inimaginável para mim. Salada.
E a medida que o tempo passou, comecei a adquirir preferências por alguns alimentos que antes desprezava. Peixes, por exemplo. Frutos do mar. Chocolate amargo. E ainda que meus horizontes tenham se expandido consideravelmente durante essa minha expedição pelo mundo da gastronomia, a verdade é que o bacon e o macarrão sempre tiveram seu espaço reservado no meu coração gástrico.
Hoje em dia, uma das minhas massas preferidas quando quero relembrar a aurora de minha maioridade é o clássico carbonara. O Carbonara é a versão adulta dos meus tão estimados pratos de infância. Ele é também a prova de que coisas boas juntas normalmente resultam em algo incrível. Afinal, como poderia uma mistura de spaghetti, ovo, bacon e queijo dar errado?
Errado, jamais. Mas isso não significa que ela não pode ser aprimorada. Aprimorada não, modificada. Ou melhor, revisitada. Não revisitada para descartar o clássico. Mas para homenageá-lo. Tanto é que tiramos o bacon e colocamos o salmão defumado. Ainda que com bacon também vá ficar uma delícia.
Então, meus queridos leitores, preparem-se para tomar nota. Aí vai mais uma receita da queridíssima Cã Engarrafada. Um humilde tributo a um dos melhores pratos da história. Uma modesta fusão entre uma cantina e um saloon. A versão bluegrass da cozinha italiana.
A receita abaixo é para duas pessoas. Bem servido. Bem servido mesmo.
O Whiskey-Carbonara (com salmão defumado)
INGREDIENTES
200g de spaghetti (ou a massa de sua preferência)
3 gemas de ovos e 2 ovos inteiros
200g de Salmão defumado
uma porção (generosa) de queijo pecorino (ou parmesão mesmo). Uma porção generosa é uma medida discricionária, que depende de quanto você gosta de queijo. A Cã utilizou 1 xícara de chá de queijo, já ralado. Mas podia ser mais. Para que o molho atinja a consistência desejada, opte por um queijo ralado mais fino.
2 doses de whiskey. A Cã utilizou o Woodford Reserve. Mas qualquer – qualquer mesmo – bourbon vai servir.
pimenta do reino a gosto
sal a gosto
alho a gosto
PREPARO
Deixe uma panela de água com um pouco de sal no fogo, para ferver. O tempo que levará para ferver, mais o tempo de cocção da massa é tudo que você precisa para preparar o molho.
Fora do fogo, em um outro recipiente, bata as 3 gemas e 2 ovos junto com o queijo pecorino (ou parmesão) ralado, o whiskey, um pouco de pimenta do reino, sal (a gosto) e o alho. Bata bem. Sem preguiça, até que a mistura assuma a aparência de uma massa de bolo, mas mais mole. Se quiser, adicione uma colher de creme de leite para evitar que o ovo “frite” ao entrar em contato com a massa quente. Por fim, junte o salmão.
Avalie se a massa já está boa. Em caso afirmativo, desligue o fogo, escorra a massa e a devolva para a panela em que estava sendo fervida (com o fogo desligado!)
Pegue a mistura batida de whiskey, queijo ralado com ovo e salmão e a despeje sobre o macarrão (lembre-se que a panela que contém a massa deve estar quente, porém fora do fogo direto). Misture rapidamente e sirva. O calor da massa irá aquecer e cozinhar um pouco o molho.
Se estiver inspirado, decore o prato com um ramo de cebolinha. Se der tudo certo, uma vista aérea do prato será mais ou menos assim:
Você sabia que além das próprias destilarias, na Escócia há empresas independentes, especializadas em buscar e comprar barris e maltes específicos para produzir edições limitadas independentes? É o caso desta garrafa da foto, fotografada pelo Cão na Barbearia Corleone.
Isto é um Laphroaig 15 anos, com 53% de graduação alcoólica, engarrafado pela Douglas Laing & Co. para sua finada linha de single malts Director’s Cut. Esta é uma das únicas 314 garrafas no mundo desta edição. Todas foram preenchidas com o conteúdo de um único barril (single barrel), sem sofrer qualquer diluição ou adição de corante caramelo.
A Laphroaig é uma das mais famosas destilarias da região de Islay, conhecida por seus whiskies com aroma e sabor defumado e turfado, graças ao processo de secagem da cevada maltada utilizando uma fogueira de peat (turfa). O Cão Engarrafado já fez a prova de todos os whiskies da destilaria disponíveis em nosso país, como o excelente Laproaig 18 anos, e os clássicos Quarter Cask e 10 anos.
A Laphroaig é também a única destilaria da Escócia que possui o Royal Warrant do Príncipe de Gales. Um Royal Warrant significa que, na teoria, aquela marca fornece um serviço ou produto de altíssimo nível para a corte real. Ou que a marca – a destilaria, no caso – é profundamente admirada por certa celebridade de sangue azul. No caso da Laphroaig, seu entusiasta é o Príncipe Charles. Sua expressão favorita da destilaria é, justamente, o 15 anos.
Já a Douglas Laing & Co. é uma engrrafadora independente, fundada em 1948, voltada para whiskies artesanais, de pequenos lotes e barricas únicas. Ela foi fundada por Fred Douglas Laing, que mais tarde incorporou seu filho, Fred Hamilton Laing. A empresa continua familiar até hoje. Tanto é que os dois senhores narigudos (é para sentir melhor os aromas!) pintados na parte inferior do rótulo representam Fred Sr. e Jr.
Algumas semanas são mais importantes do que outras. A última, por exemplo, foi coroada pela realização de dois eventos importantíssimos. O primeiro deles foi o Oscar 2016. Uma festa eivada de polêmica, mas cujo clímax foi uma premiação que deveria ter sido realizada há muito tempo. O Oscar para o Leonardo DiCaprio. Existem certezas mais absolutas que outras. Mas no rol de certezas absolutamente absolutas, esta é provavelmente uma das maiores. O Leonardo DiCaprio merecia receber um Oscar.
DiCaprio é um caso interessante. Começou como um ídolo adolescente, mas galgou uma impressionante carreira como ator, tendo participado de produções sobre a batuta de alguns dos mais importantes diretores da atualidade, como Woody Allen, Clint Eastwood e Martin Scorcese. Ele já foi agente secreto, falsário, milionário decadente e, por três vezes, expoente da sociedade e cultura americana.
Sua indicação ao Oscar deste ano me obrigou a revisitar sua lista de filmes. E ainda que eu não escolha minhas películas com base nas estrelas masculinas, fiz uma constatação interessante. Eu provavelmente já vi todos os filmes do Leonardo DiCaprio depois de Titanic. E isso é engraçado, porque a participação de Leonardo DiCaprio no elenco nunca foi um fator determinante para eu escolher o que assistir. Minha conclusão então foi a seguinte. Eu provavelmente já vi todos os filmes de Leonardo DiCaprio porque o Leonardo DiCaprio não tem filmes ruins.
Tá bom, talvez ele tenha um ou dois ruins.
O outro evento que alçou essa semana à condição de extraordinária foi uma degustação de whiskies da linha 1824 da The Macallan, organizada pela Aurora, representante do single malt no Brasil, a Barbearia Corleone e, bem, este blog. Isso mesmo. O Cão Engarrafado.
Além dos conhecidos Amber, Sienna e o fantástico Ruby, os convidados puderam experimentar dois coquetéis elaborados com Macallan Amber. Um Apricot Whisky Sour e uma espécie de Boulevardier, que ao invés de Campari levava dois tipos de vermute. A degustação foi conduzida a três (ou seis) mãos, pelo brand manager Maurício Leme, o embaixador da Macallan no Brasil, Gianpaolo Morselli e por este Cão que vos escreve.
As informações passadas na apresentação mostraram por que The Macallan é – com razão – um dos single malts mais respeitados do mundo. O cuidado com os detalhes em todo o processo produtivo chega a ser exaustivo. Por exemplo, a destilaria é uma das únicas do mundo que conta com um profissional cuja única função é avaliar e escolher cada uma das barricas que irá maturar o whisky. É o master of wood, função hoje desempenhada por Stuart MacPherson.
Foi explicado que os Macallan não levam corante caramelo, e que os whiskies da série 1824 são produzidos considerando três fatores básicos. Aroma, sabor e cor. Estes três pilares devem sempre possuir uma constância, de acordo com o altíssimo padrão de qualidade da destilaria.
Uma curiosidade divulgada por Gianpaolo é que apenas dezesseis por cento do destilado – produzido no meio do processo de destilação no alambique – vira single malt. Do restante, nove por cento (quatro e meio de cada ponta) vai para blended whiskies, como Famous Grouse. O restante é simplesmente descartado. Foi também mencionado que a The Macallan realiza rodízio na posição de suas barricas nos warehouses. Se quer saber a razão disso, leia aqui.
Mesa montada antes da degustação. Ansiedade!
Os convidados tiveram também a oportunidade de se divertir com histórias dos bastidores do single malt. Numa das situações narradas por Maurício Leme, Bob Dalgarno, o whisky maker da marca, tentava acertar a cor de determinado lote de Macallan Amber. Ainda que o aroma e o sabor estivessem corretos, a cor estava quase imperceptivelmente diferente da costumeira.
Bob então, após muitas reflexões sobre cada uma das milhares de barricas, ligou – às três horas da madrugada – para o distillery Manager da Macallan, responsável por toda a operação da destilaria e das grandes warehouses onde ficam as barricas. O whisky maker lhe pediu que separasse duas barricas específicas, que seriam a solução daquele improvável problema cromático. O Distillery Manager então, no breu da madrugada, praticamente invadiu o armazém da destilaria e separou as amostras, entregando naquela mesma noite a Dalgarno. O que impressiona na história é que a The Macallan possui mais de 230.000 barricas, e seu whisky maker conseguiu, somente pela lembrança e insistência, apontar duas específicas que salvariam aquele lote de Amber.
Aliás, não seria exagero dizer que o Macallan Amber, foi a estrela da noite. Além de ter brilhado durante a prova, foi o whisky utilizado nos os dois drinks oferecidos no evento. Ele é o segundo single malt na hierarquia da linha 1824, logo após o Macallan Gold. É também a expressão de entrada da destilaria aqui no Brasil.
A maturação do Macallan Amber ocorre em uma combinação de barricas de primeiro e segundo uso, tanto de carvalho americano quanto carvalho europeu. O tempo de maturação aqui é irrelevante. O que se procura é consistência, bem como um perfil de aroma, sabor e cor. A proporção das barricas utilizadas não é claramente divulgada, mas sabe-se que, no caso do Amber, a predominância é de carvalho americano. Todas as barricas utilizadas na linha 1824 foram previamente usadas para envelhecer vinho Jerez espanhol.
Quem deixou esse louco apresentar?
Por conta de sua maturação, o Macallan Amber é o que apresenta notas de caramelo e baunilha mais claras. Ele é o whisky mais adocicado da linha e, provavelmente, o mais versátil. Por isso sua escolha para a elaboração dos coquetéis.
Após experimentar os coquetéis e, mais uma vez, revisitar os The Macallan da série 1824, lembrei-me do Leonardo DiCaprio. Mas não porque single malts excepcionais me façam rememorar atores masculinos. E nem porque grandes filmes ficam ainda melhores acompanhados de uma dose de um bom single malt – ainda que isso também seja verdade.
É que existe uma grande semelhança entre os filmes DiCaprio e os The Macallan. Uma semelhança tão curiosa quanto a escolha de filmes do ator. Uma semelhança que fica clara ao se alinhar todas as expressões do single malt disponíveis em nosso país. É que realmente, meus caros, não existe um Macallan ruim.
MACALLAN AMBER
Tipo: Single Malt sem idade definida
Destilaria: Macallan
Região: Speyside
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: Aroma de baunilha e frutas. Levemente cítrico.
Sabor: Mel, baunilha, cítrico, frutas cristalizadas. Final longo, frutado e com especiarias.
Com água: Final torna-se mais curto e o whisky fica menos picante. As notas doces e frutadas se ressaltam.
Algumas pessoas são simplesmente extraordinárias. Einstein, Da Vinci, Bach e a Monica Bellucci são bons exemplos disso. Outras, entretanto, não são nada além de ordinárias. Um excelente exemplo de uma pessoa que se enquadra nesta segunda categoria foi o Sr. Thomas Parr.
Tomas Parr foi um inglês que teria nascido em meados do século quinze e levado sua vida de uma forma absolutamente normal, dividindo seus dias entre tomar leite talhado e comer queijo estragado. E ninguém aqui estaria falando sobre Thomas Parr hoje se não fosse um simples detalhe. Um detalhe que torna sua vida ordinária absolutamente extraordinária. Extraordinariamente longa. O homem viveu por cento e cinquenta e dois anos e nove meses.
Cento e cinquenta e dois anos e nove meses. Para você ter uma ideia, Thomas Parr teve um caso extraconjugal aos cem anos de idade, e quando sua esposa morreu, casou-se com sua amante, aos cento e vinte e dois. E permaneceu casado por mais trinta anos. É uma vida muito longa. Mesmo para os padrões de Ozzy Osbourne e Keith Richards.
A improvável morte deste Gandalf da vida real aos cento e cinquenta e dois despertou a curiosidade de médicos importantes da época, como William Harvey. Afinal, depois de todo esse tempo, por que parar agora? Realizada a autópsia, descobriu-se que seus órgãos aparentavam muito menos idade, e que, provavelmente, Thomas teria usado a certidão de nascimento de seu avô como sua própria.
Thou shalt not pass – disse Thomas Parr ao Balrog.
A verdade é que, até hoje, ninguém sabe ao certo se Thomas realmente viveu mais de um século e meio. Mas a lenda do homem foi suficiente para alça-lo à fama. Tanto é que ele foi imortalizado (como se ele precisasse) em pinturas de Van Dyk e Rubens, bem como recebido improváveis homenagens. Uma delas foi emprestar seu nome ao blended whisky Grand Old Parr 12.
O Grand Old Parr foi lançado em 1871 pelos irmãos James e Samuel Greenlees, conhecidos comerciantes de bebida do século dezoito. Nas cabeças deles, batizar seu mais importante blended whisky de Old Parr ressaltaria o tempo de maturação do produto, algo que, na época, era considerado sinônimo de qualidade.
Após uma série de fusões e aquisições, o Grand Old Parr passou a fazer parte do portfólio da Diageo, a gigante por trás também da Johnnie Walker. Atualmente, seus single malts base são Glendullan e Cragganmore. Todos os whiskies – sejam eles de grão ou single malts – que compõe o Grand Old Parr 12 são maturados por, no mínimo, doze anos.
Atualmente, o principal mercado consumidor do Grand Old Parr é a América Latina. E, por aqui, é uma opção bem decente para um blended whisky premium, como alternativa aos famosíssimos Chivas Regal e Johnnie Walker. Ele é um whisky bem mais oleoso do que a média dos blended 12 anos, e é incrivelmente complexo para sua idade.
Aí vai uma curiosidade. A imagem de Thomas Parr utilizada na parte superior do rótulo sofreu pouquíssimas alterações durante o tempo de vida do whisky – que está quase chegando à de Thomas – e é uma reprodução do retrato pintado por Rubens, proeminente pintor barroco, citado acima.
E também detentor de um proeminente bigode.
Por aqui, uma garrafa do Old Parr sai, em média, por R$ 170,00. É um preço comparável àquele dos blended whiskies premium, como o Black Label e Chivas Regal Extra. Escolher entre eles é, na verdade, uma questão de gosto. O Old Parr é um whisky excelente para que se propõe.
O Grand Old Parr é um caso de sucesso silencioso. Independentemente de qualquer campanha de marketing, o blend tornou-se conhecido e respeitado entre os Brasileiros. E não é para menos. Ele é suficientemente complexo para ser degustado puro. Mas sua verdadeira vocação é o serviço com gelo ou agua. Neste caso, o whisky faz frente a concorrentes muito mais caros.
Independentemente de sua idade – seja você jovem ou tenha cento e cinquenta anos – o Old Parr 12 é um whisky que vale a pena ser experimentado. Vida longa ao velho Parr.
GRAND OLD PARR 12 ANOS
Tipo: Blended Whisky com idade definida (12 anos)
Marca: Old Parr
Região: N/A
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: caramelo, frutado e levemente (bem levemente) cítrico.
Sabor: melaço (melaço mesmo, ou mel de engenho!), frutado, cítrico. Finalização longa, com um pouco de café.
Com água: A água torna o whisky mais adocicado, e o cítrico fica menos evidente. Este Cão recomenda que seja consumido com água (ou gelo).
Gosta de whiskies defumados? Conheça o Peat Monster, um blended malt produzido pela Compass Box Whisky Co., famosa por seus whiskies ultra premium, cujas fórmulas contêm alguns dos mais famosos single malts escoceses.
O coração do Peat Monster é o Caol Ila, single malt também usado na composição do Johnnie Walker Double Black. Além dele, a expressão leva uma bela quantidade de Laphroaig e de Ardmore. A mistura é feita exclusivamente de single malts.
A Compass Box Whisky Co. foi criada por John Glaser, executivo que antes trabalhou como diretor de marketing na Johnnie Walker. Glaser resolveu abandonar a empresa e fundar sua própria marca, dedicando-se a produzir apenas whiskies de altíssima qualidade, especialmente blended malts. Uma das expressões mais famosas é, justamente, o Peat Monster.
Segundo a Compass Box, o Peat Monster é “um whisky para amantes de whiskies defumados multifacetados e complexos. O que o torna perfeito para o estilo da Compass Box é o equilibrio que a riqueza e dulçor sutil das barricas de single malt das highlands fornece aos whiskies defumados de Islay e das ilhas. Este é o grande benefício de combinar single malts de diversas destilarias; nós não estamos limitadps a produzir algo de apenas uma destilaria. Como um produtor de vinho, misturando uvas varietais diferentes, podemos criar camadas de complexidade.”
A Compass Box também tornou-se recentemente bastante conhecida por uma campanha – por ela encabeçada – por maior transparência no mundo dos whiskies. De acordo com John Glaser, em sua opinião, os blenders deveriam divulgar ao consumidor, de forma clara e completa, a proporção, idade e natureza de cada um dos whiskies que compõe a fórmula de seus blends. A empresa foi, inclusive, penalizada pela Scotch Whisky Association por fazer justamente isto, com dois de seus lançamentos – O Compass Box Flaming Heart e Compass Box This is Not a Luxury Whisky.
Não é este John Glaser. Este é o JON Glaser.
O Peat Monster é engarrafado em sua cor natural (ou seja, não há adição de corante caramelo) e nenhum de seus componentes é filtrado a frio. O whisky apresenta notas turfadas e defumadas, mas possui um certo aroma cítrico que o diferencia da maior parte dos whiskies deste estilo. Ele é leve e ao mesmo tempo complexo. Realmente, um whisky monstruosamente bom.
COMPASS BOX PEAT MONSTER
Tipo: Blended Malt sem idade definida
Marca: Compass Box Whisky Co.
Região: N/A
ABV: 46%
Notas de prova:
Aroma: Aroma cítrico mas predominantemente defumado. Mais esfumaçado do que medicinal.
Sabor: Frutas cítricas, pimenta do reino, cravo, especiarias. Sabor defumado “cristalino”. Final longo e defumado.
Sabe, vou contar um negócio para vocês. Eu queria gostar mais de vinho. E eu sei que gostar de whisky também é bacana, e que whisky é a melhor bebida do mundo. Mas vinho é algo bem mais amplamente consumido. E, além de tudo, ainda faz bem à saúde.
Eu quase invejo aquelas pessoas, sentadas nos restaurantes elegantes, girando suas enormes taças bojudas com o líquido rublo dentro. Rodopiam, observam a bebida contra a luz e comentam sobre as lágrimas que escorrem pelas bordas do cálice. Aproximam suas narinas cuidadosamente dos copos e fazem um comentário de um verdadeiro connoisseur. É sempre um comentário digno de um sommelier. Meu sonho é poder dizer algo como “meu deus, como adoro o blend entre Malbec, Cabernet Franc e Melot” e realmente entender o que estou falando.
Como disse acima, vinho também faz bem à saúde. Ele reduz as chances de infarto, doenças coronárias e diabetes. Auxilia na prevenção ao Alzheimer, à demência e uma porção de cânceres diferentes. O resveratrol, substância encontrada nas sementes e películas de uvas e vinho tinto, é um antioxidante poderoso. As propriedades terapêuticas do vinho eram conhecidas desde a antiguidade. Ele era considerado como uma alternativa segura a beber agua, além de ter sido usado como remédio contra diarreia e letargia. O vinho é praticamente o elixir da imortalidade.
Só que acontece que, ainda que eu goste de tomar vinho, ele nunca foi minha bebida de preferência. Sempre tive uma clara tendência pela cerveja e pelo whisky. O que é triste, porque ao longo de minha curta existência – graças ao baixo consumo de vinho – jamais poderei falar sobre o terroir da França ou sobre as parreiras em Napa Valley.
Queria ser tipo o Paul Giamatti
Quer dizer, isso é o que eu pensava, até ser apresentado ao New York Sour. O New York Sour é uma fusão entre aquela taça de vinho que você gostaria de ter tomado no jantar e um whisky sour. O New York Sour junta o melhor de dois mundos. Ele é um verdadeiro blend de bom gosto, que torna pacífico o convívio entre as duas bebidas mais elegantes do universo.
De acordo com David Wondrich, historiador especializado em coquetelaria, apesar do sugestivo nome, o New York Sour não foi criado em Nova Iorque, mas sim em Chicago. Um bartender daquela cidade, em meados de 1880, começou a decorar seus whisky sour com um poquinho de vinho tinto. Naquela época, o coquetel era conhecido como Continental Sour ou Southern Whisky Sour.
Mas durante a época da lei seca norte-americana, a invenção tornou-se popular na cidade de Nova Iorque. O vinho e o limão camuflavam a qualidade duvidosa do whisky disponível na época. Assim, o costume rebatizou a invenção de New York Sour.
Assim, caros leitores, abram suas melhores garrafas de Bordeaux e desçam seu precioso conteúdo em suas grandes e côncavas taças. Tomem um gole e preparem-se para conhecer um coquetel que faz o que todo mundo diz para você não fazer. Misturar um destilado com um fermentado. O New York Sour.
NEW YORK SOUR
INGREDIENTES
1/2 dose de vinho tinto (não precisa ser o Bordeaux que você está degustando. Aposte em algo mais humilde. Um vinho mais encorpado como um Syrah será melhor do que algo mais delicado, como Pinot Noir. E não, eu continuo não entendendo muito de vinhos)
2 doses de whiskey (este Cão usou Jack Daniel’s Sinatra Select. Mas o bom e velho Jack Daniel’s Old No. 7 ou um Wild Turkey funcionarão perfeitamente bem).
1 dose de suco de limão
¾ dose de calda de açúcar (leia aqui como preparar esta calda)
1 colher de chá de clara de ovo (opcional – não vou complicar a vida de vocês ou esbarrar em preconceitos)
Gelo
Coqueteleira
Colher de sobremesa
Copo baixo
PREPARO
Coloque na coqueteleira a calda de açúcar, o whiskey, a clara de ovo e o suco de limão, junto com algumas pedras de gelo. Bata vigorosamente por uns quatro segundos. Forte mesmo.
No copo baixo, coloque três pedras de gelo pequenas ou uma bem grande, e depois desça o conteúdo da coqueteleira (filtrando o gelo que estava lá dentro, claro).
Finalmente, aproxime cuidadosamente a colher de sobremesa da superfície do coquetel. Vá despejando delicadamente o vinho sobre a parte côncava da colher, para que ele fique na superfície do coquetel e não se misture com o resto.
Pronto. Agora só falta contemplar a fusão universal do que há de melhor no universo etílico. Tudo bem, guardem o resto do Bordeaux para mais tarde.