Sobre o Necessário e o Supérfluo – Whiskies para seu bar em casa

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Estamos no carnaval. O Carnaval é o feriado mais festivo do ano. A festa está em toda parte. Nos bloquinhos de rua, no sambódromo, no boteco na esquina da sua casa. Todo mundo – literalmente – transpira Carnaval. Há festas para todos os bolsos e gostos musicais. Para mim, entretanto, o grande apelo do Carnaval é o feriado. Quatro dias e meio para fazer o que bem quiser. E o que bem quiser, normalmente, significa trocar o calor e a cerveja quente na rua por um bom  whisky no conforto do lar. Ou isso, ou viajar com a Cã e a querida Cãzinha.

Mas aí acabo desembocando em um problema. Eu não sei arrumar uma mala. É uma incapacidade que me acomete desde criança, mas que, por mais esquisito que seja, piorou à medida que fiquei mais velho. Provavelmente porque, quando eu era criança, minha mãe revisava minha mala. Ela tirava os dez gibis que coloquei lá dentro, e os substituía pela minha escova de dente e meia dúzia de cuecas, que eu sempre esquecia.

Minhas malas são verdadeiras caixas surpresa. Mas a surpresa é quase sempre desagradável. Como, por exemplo, quando fui para um casamento, no interior, e esqueci de levar o cinto do terno, que estava largo. Aí passei a festa inteira segurando a calça, de uma forma discreta, para evitar um escândalo. E vou contar um negócio para vocês. É muito difícil comer canapés com um copo de whisky na mão e segurar as calças ao mesmo tempo.

O engraçado é que eu sempre esqueço as mesmas coisas. Esses itens miúdos, cotidianos e desprezíveis. Produtos para uso diário, quase ritualístico e automático. Escovas de dente, pente, desodorante, chinelos. Eu nunca esqueci meu isqueiro para charutos, por exemplo, nem meu fone de ouvido. Aliás, para os itens que eu gosto, acabo até pecando pelo excesso.

 

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Eu adoro arrumar mala

Mas não é só durante a montagem de malas que este problema ataca. Na hora de escolher whiskies também. Porque eu acabo escolhendo por gosto, e não necessidade. Aí percebo que meu bar está completamente dominado por whiskies defumados, e não têm nenhum blend decente para servir para meu sogro, que me observa com olhar reprovador enquanto tento convencê-lo a tomar vodka mesmo.

Organizar seu bar de casa é um clássico problema de economia. Ou, para muitos, é como escolher quais festas frequentar durante o Carnaval. Porque o espaço e os recursos são limitados, e o desejo, ilimitado. Mas para auxiliá-lo nessa árdua tarefa de tornar seu bar o mais democrático possível, elaborei uma lista com os cinco tipos de whisky que não podem faltar.

Como de costume os links clicáveis levarão à prova detalhada de cada um, feitas por este canídeo.

BLEND DEMOCRÁTICO

Blend democrático é aquele whisky que todo mundo conhece, e quase todo mundo gosta. São os coringas do seu bar. Funcionam tanto para tomar puro quanto com gelo. Servem também para preparar coquetéis e até mesmo cozinhar.  É o whisky que você vai tomar com seus amigos quando o papo não for whisky. E eu te garanto que será uma delícia.

Minha sugestão clássica para não passar aperto é o Chivas 12 anos ou o Dewar’s 12. Se preferir ir para algo mais econômico, o Famous Grouse é uma excelente ideia. Além deles, essa categoria tem uma infinidade de opções. Exemplos são o Johnnie Walker Red Label e Black Label, Old Parr, Buchanan’s 12 e Ballantine’s Finest.

SINGLE MALT ADOCICADO

Single Malts adocicados seriam aqueles que agradam a maioria dos paladares, e cujo espectro de sabores não está muito longe dos blends democráticos. Aqui, usei a palavra “adocicado” apenas como contraponto aos whiskies defumados, que são a categoria de baixo. Estes são, normalmente, a porta de entrada para aqueles que começam a se interessar por single malts.  Falando de uma forma bem genérica, são os clássicos whiskies da região de Speyside e das Highlands.

E é aqui que a brincadeira começa a ficar mais séria. Porque a sua escolha depende de quanto você quer gastar para equipar seu bar. Os whiskies mais em conta dentro dessa categoria são Glenfiddich e Glenlivet 12 anos e o Glen Grant. Há outras excelentes opções que não custam, necessariamente, o equivalente ao saldo da balança comercial de Lichtenstein. O Glenfiddich 15 anos é um excelente exemplo, assim como o Glenlivet 18 anos e Dalmore 15 anos. Dentro da (cobiçada) categoria ultra premium, temos o Macallan Ruby e, mais recentemente, O Rare Cask.

Se quiser sugestões mais aprofundadas de single malts em cada faixa de preço, leia o Post Especial de Natal do Cão Engarrafado.

WHISKY DEFUMADO

Este é o whisky que você servirá para mostrar algo novo para seus amigos, para tomar puro ou usar na coquetelaria, se sua intenção for fazer um drink defumado, como o Penicillin.

Em nosso país, há poucas opções de whiskies claramente defumados. Double Black, Black Grouse, Ardbeg e Laphroaig são os únicos que aterrissam em nossas terras e são facilmente encontráveis. Não dá para errar com qualquer dos quatro. Entretanto, tenha em mente que a defumação dos dois blends – Black Grouse e Double Black – deles é menor, o que pode restringir o seu uso.

BOURBON

Como você já deve saber, Bourbons são whiskeys americanos. Dentro dessa categoria – e apenas para fins de referência – incluí os Tennessee Whiskeys.

Bourbons normalmente são uma variação sobre um mesmo tema. Um tema excelente, que envolve caramelo e baunilha. Além disso, são vitais para a coquetelaria. São a base de coquteis como o Old Fashioned, Manhattan, Whiskey Sour, entre outros.

Assim, trate de escolher um bom Bourbon para seu bar. Minha sugestão é o Woodford Reserve, ou o Evan Williams Black, considerando custo-benefício. Se preferir um perfil mais seco, o Bulleit Bourbon ou o Wild Turkey Rye lhe servirão bem.

O SEU PREFERIDO

Aqui vale tudo. Talvez você tenha um gosto mais aventureiro, e seu whisky preferido seja, provavelmente a próxima garrafa que você irá comprar, seja ela qual for. Mas pode ser que você simplesmente já tenha encontrado sua alma gêmea etílica.

Seja qual for o caso, lembre-se de sempre ter seu whisky preferido em casa. Aliás, esta é a única garrafa que jamais pode faltar em seu bar. Porque até pode ser importante levar cuecas, escova de dentes e cintos sociais para viagens. Mas, como diria Oscar Wilde, A única coisa necessária é o supérfluo.

Drops – The Glenturret Sherry

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Gosta do The Famous Grouse? Se respondeu sim, então conheça o Glenturret Sherry, edição especial da destilaria que é também o lar da famosa marca do tetraz (isso é o nome do pássaro do rótulo. Não. Aquilo não é um peru.)

A Glenturret, localizada nas  Highlands Escocesas, fornece maltes para quase todas as expressões do Famous Grouse. Os outros single malts mais usados são The Macallan e Highland Park. Como consequência, apenas uma pequena parte da produção da Glenturret é engarrafada como single malt. A destilaria, além disto, é alegadamente – na verdade, de forma autoproclamada – a destilaria mais antiga ainda em funcionamento da Escócia.

O Glenturret Sherry é uma edição especial limitada, sem idade definida. Ela  foi maturada em barricas tanto de carvalho americano quanto de carvalho europeu que antes continham vinho jerez. Isso proporciona  sabores de frutas e especiarias, com um leve sabor adocicado e de baunilha.

Se estiver planejando uma viagem para a Escócia, não deixe de visitar a Glenturret. Você terá a oportunidade de fazer um tour pela destilaria, além de conhecer detalhadamente todo o processo de produção de um dos blended whiskies mais famosos do mundo (ele tem até famoso no nome), o Famous Grouse.

Sobre a Força – Glenlivet Founder’s Reserve

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Este não é um post sobre whisky. Me desculpem pela decepção. Este é um post sobre um modesto filme que transformou a internet em uma convulsão maníaca. Este é mais um post sobre Star Wars. Mas pode continuar lendo. Eu prometo que não contarei nenhum spoiler para estragar sua experiência. Ou talvez um só. Nada grave. Prometo que valerá a pena.

Quando soube que J. J. Abrams dirigiria um novo filme da saga, fiquei apreensivo. Apreensão que só aumentou quando descobri que alguns personagens dos episódios IV, V e VI apareceriam. É que eu realmente gostava dos três primeiros filmes, e não queria ninguém estragando a imagem de Han Solo, Leia e mesmo Luke para as gerações vindouras.

Mas assim que me sentei na cadeira de cinema, percebi que meus medos eram completamente infundados. O Despertar da Força é um caso raro de sucesso absoluto. Os números estão aí para comprovar. Ele arrecadou, só nas primeiras semanas, um bilhão de dólares. Foi a abertura de maior sucesso da história do cinema.

Na modesta opinião deste ébrio Canídeo, o sucesso reside no equilíbrio. Mas não no equilíbrio da Força. No equilíbrio irretocável entre os elementos clássicos da saga e a inovação necessária para trazer Star Wars para o século XXI. O filme dialoga tanto com o publico mais jovem, que assistirá um filme da franquia pela primeira vez, quanto com os geeks mais, diremos, maduros. Aqueles que já cansaram de tentar usar a força para pegar a fita cassete que estava ao lado do VHS sem se levantar. Tipo, bom, tipo eu.

Vem fitinha, vem...
Vem fitinha, vem…

Em outras palavras, ainda que os principais elementos sejam clássicos, O Despertar da Força é um dos filmes mais inovadores da série. É, por exemplo, a primeira vez que uma mulher está no papel de protagonista. E também é a primeira vez que um desumano stormtrooper é humanizado.

Tive uma sensação parecida de apreensão quando soube, no começo do ano passado, que em alguns países – incluindo o Brasil – o clássico Glenlivet 12 anos seria substituído pelo Founder’s Reserve, uma expressão da destilaria sem idade definida. Substituir o Glenlivet 12 anos era uma grande responsabilidade. Ele é, ainda hoje, o rótulo mais vendido da segunda marca de single malts mais vendida do mundo. Era como substituir o Han Solo em um Star Wars. Sério. Era quase impossível.

Mas a Foça interveio. E tive a oportunidade – apenas recentemente – de provar, em primeira mão, o whisky que substituirá no Brasil uma das expressões mais antológicas de uma das maiores destilarias do mundo. E, mais uma vez, reconheci que minhas preocupações eram completamente infundadas.

O Founder’s Reserve é um whisky extremamente leve e bebível, com o equilíbrio e os sabores cítrico e frutado característicos da marca. Entretanto, se comparado ao 12 anos, ele é muito mais leve e adocicado. Uma inovação que, certamente, agradará aos paladares daqueles que estão se aventurando pela primeira vez no território dos single malts.

Para falar a verdade, ainda que – em mercados como o Brasil – o Founder’s Reserve vá entrar em cena ao mesmo tempo que o doze anos sairá, substituir não é a palavra mais correta. Primeiro porque o 12 anos continuará existindo em muitos países. Em segundo, porque são produtos bem distintos. Nas palavras de Ian Logan, embaixador global da marca, “com o Founder’s Reseve, estamos aprimorando (o whisky de entrada da destilaria), dando-lhe um ângulo mais moderno. Não se trata de substituir a expressão doze anos”.  E, na opinião deste humilde cão, eles foram muito bem-sucedidos nesta missão.

Como muitos single malts escoceses, o Founder’s Reserve é maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano de primeiro uso, que antes continham Bourbon whisky, com outras barricas de carvalho americano que já haviam maturado The Glenlivet antes. Essa combinação permitiu que Alan Winchester, o master distiller da marca, produzisse um whisky consistente, escolhendo e combinando as barricas pelo sabor, e não pelo tempo de maturação em seus armazéns.

Outra vantagem pouco observada sobre a ausência de idade é que, com isso, é possível sentir com mais clareza as características próprias do whisky, dadas pelos seus alambiques, no caso da Glenlivet, em forma de lanterna. Estas características estão presentes em todos os whiskies da marca, mas acabam ficando mais mascaradas – alguém aqui pensou no Kylo Ren? – em expressões com maturação mais prolongada.

E como ficou bom!
E como ficou bom!

O nome do whisky foi escolhido em homenagem ao fundador da destilaria, George Smith. George foi o primeiro homem a legalizar sua destilaria em 1823. Seu produto era tão bom que ganhou a simpatia de homens importantes da época, como o Duque de Gordon. Se quiser saber mais sobre essa história, confira o post do Cão sobre o Glenlivet 18 anos.

No Brasil, o preço sugerido pelo Glenlivet Founder’s Reserve é de R$ 166,90 (cento e sessenta e seis reais e noventa centavos). É um preço equiparável a blended whiskies premium, como o Chivas Regal Extra e o Johnnie Walker Black Label. O Founder’s Reserve será quase o single malt mais acessível a venda em nosso país. O que faz dele uma excelente escolha para aqueles que estão começando a experimentar single malts.

O Glenlivet Founder’s Reserve é O Despertar da Força da The Glenlivet. É um whisky que agradará tanto os fãs já catequizados da marca quanto aqueles que estão dando seus primeiros passos no mundo dos whiskies single malt. Assim, quando ele chegar aos bares e às prateleiras das lojas físicas e virtuais, não deixe de experimentar. Afinal, você realmente deixaria de ver um filme como o Star Wars?

GLENLIVET FOUNDER’S RESERVE

Tipo: Single Malt sem idade definida (NAS)

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: claramente cítrico, com frutas vermelhas.

Sabor: sabor frutado e levemente cítrico. Final de médio para longo, com baunilha e açúcar refinado. Muito leve e fácil de ser bebido.

Com água: a água reduz o sabor adocicado, permitindo que o sabor frutado e cítrico seja sentido com mais clareza.

Preço (sugerido pela marca): R$ 166,90 (cento e sessenta e seis reais e noventa centavos)

 

Um pretexto para beber (e recitar poesia) – Burns Night

Hoje é um dia muito importante para o whisky. Vinte e cinco de janeiro é a data de nascimento do poeta escocês Robert Burns.

Robert Burns, também conhecido como o bardo de Ayrshire, é considerado o poeta mais importante de toda a história da Escócia. Nascido no século dezoito, ele foi um pioneiro no movimento romântico, bem como um ícone cultural e político. Burns abordou em sua obra temas tão diversos quanto socialismo, liberalismo, mulheres, amores platônicos e cultura popular.

A maior parte da obra de Burns foi escrita em Scots, dialeto escocês. Um de seus mais notórios poemas é “Address to Haggis”, que, em uma tradução mais ou menos safada, significaria algo como “Homenagem ao Haggis” ou “Homenagem a uma Salsicha”. Ou talvez, de uma forma mais livre “Ode ao Salsichão de Bode”. É isso mesmo, eu não escrevi errado. É um poema sobre um embutido. Um embutido que consiste, basicamente, das tripas moídas e cozidas de um bode, embutidas em seu estômago. O prato preferido de Burns.

Haggis
Quem tá com fome?

Até aí, Robert Burns, admirador do reino das salsichas, não tem muitos pontos de tangência com whisky. Mas acontece que Robert Burns é um orgulho nacional. Um orgulho nacional como Haggis – ainda que eu tenha dificuldade de entender de onde vem este orgulho – e, claro, como whisky.

Dada a importância histórica do poeta, bem como a tendência das pessoas de agregar coisas boas para criar um momento ótimo, comemora-se o nascimento de Robert Burns de uma forma bastante escocesa. Comendo Haggis e bebendo whisky. Um costume que poderia ser facilmente adotado por nós.

Só que Haggis não é lá o prato mais apetitoso do mundo – confie neste Cão, ele comeu mais de uma vez. Então, meus caros, minha sugestão é fazer o que nós, brasileiros, fazemos de melhor. Adaptar o costume.

Preparem uma boa linguiça calabresa de tira-gosto, sirvam-se de uma dose de seu whisky preferido e sentem-se confortavelmente em suas poltronas, contemplando este acalentador 25 de janeiro.

Se estiverem com alma poética, podem recitar a Homenagem ao Haggis, traduzido (e mais ou menos adaptado) ebriamente por este Cão que vos escreve.

Sério, leiam. É fantástico.

ODE AO HAGGIS – ROBERT BURNS

Bela e plena é sua honesta e alegre face

Grande mestre da raça das salsichas!

Acima de todas elas é o seu lugar

Estômago, tripa ou intestinos,

Você é digno de uma graça

Tão longa quanto meu braço

A grande travessa você preenche

Suas curvas como uma colina distante

Seu espeto seria capaz de reparar um moinho

Em tempo de necessidades

Enquanto através de seus poros o orvalho condensa

Como esferas âmbar

Sua faca vê um rustico fio de trabalho

E a ti corta imediatamente

Destrinchando suas vívidas entranhas brilhantes

Como uma fossa

E então, ah, que gloriosa visão

Vaporosamente quente, rico.

Então, colher a colher, o exagero e o esforço,

O derradeiro do Diabo, os convivas avançam

Até que suas barrigas inchadas, uma a uma

Estejam curvadas como um tambor

Aí o ancião da mesa, quase a explodir

“que delícia” murmura.

E será que o ragu francês

Ou uma mistura que enojaria uma porca

Ou fricassê que a faria vomitar

Em nojo perfeito

Olhe com escárnio e desdenho

Para tal jantar?

Pobre diabo, vê-lo sem sua escória

Tão débil quanto um desvigorado ataque

Suas frágeis pernas, como fortes açoites

Seu punho, uma noz;

Uma inundação de sangue em um campo de batalha

Ah, que impróprio!

Mas veja o Camponês, alimentado de haggis

A terra trêmula ressoando sua marcha,

Aplaudam em seu amplo punho, uma lâmina

Que ele fará assoviar

E pernas, braços e cabeças cortará

Como os brotos de cardo

Seus poderes, que conduzem a humanidade

E lhe apresenta suas contas e impostos

A Velha Escócia não quer nada aguado

Que se espalha em pratinhos de madeira

Mas se quiser ouvir sua prece graciosa

Dê a ela um Haggis!

Starman – Johnnie Walker Black Label

Blacklabel4 - Copia

Talvez eu tenha más notícias. Quer dizer, más notícias caso você seja um extraterrestre, um ermitão, ou tenha se isolado em um local sem internet, televisão, rádio ou telefone pelas últimas três semanas. Mas, olha, eu duvido que você já não saiba o que vou dizer. Afinal, você está lendo este post, o que indica que há uma conexão ativa entre vossa senhoria e o mundo exterior. De qualquer forma, aí vai.

David Bowie faleceu.

E nem me venha falar que isso não faz diferença, e que você nem gostava tanto de David Bowie assim. Porque até pode ser que você não seja um apreciador de suas músicas, mas sua influência em nossa sociedade é absolutamente incontestável. O homem por trás de Ziggy Stardust antecipou e criou tendências na música, na moda e na cultura de nosso tempo. Aliás, Bowie era um camaleão de tendências, adaptando-se com maestria e potencializando-as como ninguém.

Ainda bem que nem todas as modas pegaram.
Ainda bem que nem todas as modas pegaram.

Bowie vendeu mais de cento e quarenta milhões de gravações ao longo de sua vida. Ganhou nove álbuns de platina, onze de ouro e oito de prata. Atuou em grandes sucessos, como O Grande Truque e Labirinto e compôs canções antológicas, como The Man Who Sold the World, Heroes, Under Pressure, Ashes to Ashes, Life on Mars, Modern Love, Ziggy Stardust, Starman e minha preferida, Space Oddity. Sob o alter ego de Ziggy Stardust, o compositor lançou The Supermen e Ziggy Stardust. Bowie era o cara. Mesmo quando ele estava se passando por outro cara.

Então, meu caro, se você me disser que não gosta do David Bowie, é melhor que você realmente saiba do que está falando.

No mundo dos whiskies, o mesmo vale para o Johnnie Walker Black Label. O Black Label é, sem a menor sombra de dúvida, o whisky mais conhecido do mundo. Ele está por toda parte. Ele estava naquela festa de casamento que você foi, no restaurante que você jantou, na prateleira do supermercado em que você fez suas compras do mês e – porque não – na dispensa da sua casa. Mas este sucesso não é gratuito.

Ele é um blended whisky composto por mais de quarenta single malts e grain whiskies. Todos eles – sejam eles single malts ou de grãos – devem ser maturados por um mínimo de doze anos. Os single malts mais importantes em sua composição advém das destilarias Cardhu, Talisker e Caol Ila, além de outras maravilhas do portfólio da Diageo.

Talvez isso se dê porque, ao longo do tempo, a fórmula do Black Label foi sendo alterada. Acontece que blended whiskies dependem de disponibilidade dos single malts que o compõe. Além disso, o objetivo de um blended whisky é que haja constância. Assim, sua composição pode ser alterada em prol do sabor final, caso, em determinada época, certo single malt esteja rareando. E não há nenhum mal nisso. Assim como Bowie, o Black Label deslizou irrepreensível por décadas de vida.

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Sério mesmo?

Aliás, uma vida bem longa. O Black Label foi criado há mais de um século. Mesmo antes da Johnnie Walker se chamar Johnnie Walker, ele já existia. Seu nome era Walker’s Old Highland, mais tarde rebatizado de Extra Special Old Highland. Foi apenas em 1909, quando a companhia já estava sob o comando de Geroge e Alexander Walker, netos de John Walker, que o whisky recebeu o nome que tem hoje.

Além de estar em toda parte, ele é também uma celebridade incontestável. Ele fez aparições em filmes como Blade Runner, Tinker Taylor Soldier Spy (O Espião Que Sabia Demais) e O Clube de Compras Dallas. Mais filmes bons do que o Nicholas Cage fez em toda vida dele.

Entre os prêmios mais recentes, Johnnie Walker Black Label recebeu classificação de ouro liquido pela Jim Murray’s Whisky Bible de 2014, e conquistou medalha de ouro na Scotch Whisky Masters do mesmo ano.

E tudo bem, você tem todo o direito de não gostar do Black Label. Mas, admita, ele merece respeito. Ele é provavelmente o primeiro whisky que passa a ser tratado com desprezo quando se começa a experimentar single malts. Mas é também o primeiro que volta a ser admirado quando atingimos uma certa maturidade de gosto pela bebida. Ele é o eterno porto seguro, que sempre estará lá, em constante transformação, mas sempre excelente.

O Black Label é realmente o David Bowie dos whiskies.

JOHNNIE WALKER BLACK LABEL

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 12 anos

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: especiarias, levemente frutado e defumado.

Sabor: frutado, levemente cítrico, com baunilha e nozes. Sabor residual defumado e de especiarias. É incrível como ele funciona bem, mesmo puro.

Com água: A água torna o whisky menos frutado e aumenta a impressão de defumação e dulçor. Funciona bem com água também (veja só!).

Preço: R$ 160,00 (cento e sessenta reais)

Drops – Jack Daniel’s Silver Select

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Gosta de Jack Daniel’s? Então conheça o Jack Daniel’s Silver Select, uma versão vendida exclusivamente nos Duty-Frees de aeroportos internacionais.

O Silver Select é, resumidamente, uma versão turbinada do Jack Daniel’s Single Barrel, engarrafado com menos diluição, resultando em uma graduação alcoólica maior, de 50%. Isso o torna mais adocicado, mas também bem mais picante e – talvez – até um pouco mais agressivo.  Assim como o Single Barrel, cada garrafa do Silver Select é preenchida com o conteúdo de um único barril. Isso faz com que garrafas de barris diferentes sejam levemente distintas.

A Jack Daniel’s reserva apenas os melhores barris para seu Silver Select. São aqueles guardados nas partes mais altas do armazém, onde há maior variação de temperatura, acelerando o processo de maturação. Segundo a marca, apenas um em cem barris são escolhidos para as expressões Silver Select e Single Barrel.

A marca não divulga sua idade. Segundo eles, o que importa é o sabor final do produto. Talvez eles estejam certos, porque o Silver Select é realmente muito bom!

Assim como nos demais whiskeys da marca, o destilado do Silver Select passa por um filtro de carvão vegetal de bordo (maple tree) de três metros de profundidade, antes de ser maturado. Como explicado anteriormente por aqui, este processo tem como objetivo filtrar impurezas, reduzindo o sabor de grão característico de whiskeys americanos.

A Jack Daniel’s é, atualmente, a maior produtora de whiskey dos Estados Unidos. Toda sua produção é realizada na cidade de Lynchburg, no condado de Moore, estado do Tennessee. Só que quem trabalha por lá, não pode beber whiskey. É que há uma lei seca em vigor naquele condado, que proíbe expressamente a venda de bebida alcoólicas.

O Cão Engarrafado já fez um post completo sobre seu irmão, o delicioso Jack Daniel’s Single Barrel, este sim, disponível em nosso país.

JACK DANIEL’S SILVER SELECT

Tipo: Tennessee Whiskey

Destilaria: Jack Daniel’s

ABV: 50%

Notas de Prova:

Aroma: aroma de caramelo e mel. Álcool pronunciado.

Sabor: Adocicado, com baunilha e mel. Bastante picante. Final longo com bastante baunilha.

Disponibilidade: Duty free shops

 

Seis Personagens (fictícios) Que Amam Whisky

Bond

 

Se você acompanha o Cão Engarrafado há algum tempo, provavelmente já sabe que um dos meus maiores interesses – além de whisky, claro – é cinema. Um bom filme funciona quase tão bem quanto uma dose de algum bom whisky. Nos relaxa, diverte, deixa tudo um pouco mais interessante e nos faz funcionar numa rotação diferente. Cinema é whisky filmado. Ou, se preferir, whisky é cinema líquido.

Só que eu tenho um habito meio obsessivo. Eu tenho mania de tentar identificar todos os rótulos dos whiskies que aparecem nos filmes. Na verdade, não só em filmes. Em quase tudo que assisto. Séries de televisão, documentários do Animal Planet (não aparecem muitos whiskies por lá, infelizmente) e até programas culinários.

Essa semana, enquanto revia, pela décima vez, James Bond entornar um Macallan em Skyfall, tive a ideia de criar um post que, na verdade, é mais um exercício mental. Tentar lembrar dos mais icônicos personagens que – assim como eu – são apaixonados pela melhor coisa que existe em estado líquido. Whisky.

Então, meus caros, preparem suas pipocas de microondas e ajeitem-se confortavelmente no sofá. Vamos relembrar os mais incríveis ébrios fictícios da sétima arte.

JAMES BOND

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Não dá para começar essa lista com mais ninguém. James Bond é, talvez, o ícone do bom gosto etílico. O espião entende de tudo – de Jerez a whisky escocês – e bebe como se não houvesse amanhã. Bond é também um apreciador da boa coquetelaria, tendo até mesmo criado, por conta própria, uma variação do clássico Dry Martini: o famoso Vesper, batizado em homenagem à personagem de Eva Green em Casino Royale, sua única paixão verdadeira.

O whisky de preferência de 007 é Macallan. O single malt de Speyside aparece em diversas cenas de Skyfall. No último filme lançado da franquia, Spectre, Bond toma Macallan em seu quarto de hotel. Sua paixão pela destilaria é bem conhecida, até mesmo de seus maiores inimigos, como Silva, estrelado por Javier Bardem.

Além de The Macallan, o espião, no filme Die Another Day (Outro Dia Para Morrer), toma Talisker, e, em The World is Not Enough (O Mundo Não é o Bastante), ele se aventura no ramo dos bourbons, bebendo Jack Daniel’s.

JESSICA JONES

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O novo seriado da Netflix conta a história de Jessica Jones, uma heroína com força sobrehumana. Além de levantar carros ingleses caros e derrubar paredes, outro poder que a personagem possui é beber de uma forma cavalar.

Mas, ao contrário de James Bond, a jovem não faz muita distinção de marca ou nacionalidade do que está em seu copo. Durante o seriado, Jessica é vista tomando uma variedade impressionante de whiskies. Dentre eles, Cutty Sark, Teacher’s, Jim Beam, Wild Turkey (101, no gargalo), Heaven Hill, Four Roses e Tincup. Em quantidades que provavelmente fariam 007 se apaixonar novamente.

HARVEY SPECTER

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Um dos advogados mais famosos do mundo da ficção, Harvey é praticamente o James Bond do mundo jurídico. O sócio sênior da Pearsons Specter Litt é um apaixonado por tudo aquilo que transpira luxo e bom gosto. Dentro do ramo automobilístico, o personagem já foi visto dirigindo Aston Martins, Bentleys, Lexus e Mercedes-Benz. Seus ternos são feitos sob medida, e seu nó de gravata é sempre o Windsor duplo. É difícil de fazer, mas nada é difícil para Harvey Specter.

No ramo etílico, Specter concorda com Bond (qualquer relação entre os nomes é mera coincidência). Seu whisky de preferência é The Macallan. Harvey tem uma paixão especial pela expressão 18 anos da destilaria.

JACK TORRANCE

Jack não é exatamente um exemplo de equilíbrio mental. O personagem estrelado por Jack Nicholson em The Shining (O Iluminado) distribui seu tempo – com a maestria que apenas Kubrick teria – em datilografar mecanicamente e repetidamente a mesma frase em sua máquina de escrever, sofrer surtos psicóticos e alucinações e tentar matar sua família com um machado. Enfim, três atividades de uma pessoa bem ajustada.

Jack, entretanto, é apaixonado por whiskey. Sua marca de preferência? Bem, diremos que Jack, estrelado por Jack, adora Jack. Neste caso, servido com gelo. De preferência por um barman imaginário, em um bar decrépito.

RON BURGUNDY

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Ron Burgundy, o âncora jornalístico vivido por Will Ferrell em Anchorman (e Anchorman 2, ainda que esse não mereça muita menção) adora “poesia, um copo de whisky, e seu amigo Baxter, claro”. Sua frase mais famosa é “I love scotch. Scotchy scotch scotch. Here it goes, down into my belly.” Ou “Eu amo whisky. Whisky, Whisky, Whiskinho. Lá vai ele, descendo para minha barriguinha”.

A paixão por whisky do personagem é tão notável que, para o lançamento do segundo filme da franquia, um blend foi criado em sua homenagem. Seu nome é Ron Burgundy, produzido pela Old St. Andrews Distillery. A fórmula conta com diversos whiskies, especialmente de Speyside e Islay.

DESMOND HUME

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Existe uma amistosa rivalidade entre os fãs da série Lost sobre qual é o melhor personagem. Jack Shephard ou Sawyer. Eu não tenho dúvidas. O melhor personagem não é nenhum deles. É o escocês Desmond Hume.

Desmond é um cara obstinado. Ele passa uma temporada inteira da série apertando um botão para evitar que algo que ele não sabe bem o que é aconteça. Isso porque ele consegue – mais ou menos – prever o futuro.

Desmond não nega suas origens. Ele aprecia uma boa cerveja, principalmente da Iniciativa Dharma, e é apaixonado por um bom whisky. Sua marca de preferência, infelizmente, não existe. É o MacCutcheon. Mais especificamente, o MacCutcheon 60 anos.

 

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Desmond não possui frases célebres sobre whisky. Provavelmente porque ele prefere beber calado, pensando em seu amor proibido. Mas é dele uma das frases mais memoráveis do seriado inteiro, que utilizarei para fechar este post.

See you in another life, brother.

Clássico Moderno – Glenlivet 18 anos

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Sabe qual o maior problema dos remakes? É que raramente são melhores que os originais. Um claro exemplo disso é o filme Cidade dos Anjos. Caso você não saiba, Cidade dos Anjos é baseado em um filme europeu chamado Asas do Desejo, dirigido por Wim Wenders. Asas do Desejo esteve, por muito tempo, no meu top dez filmes preferidos de todos os tempos. Já Cidade dos Anjos, bem, esse passou longe.

O argumento dos dois filmes é praticamente o mesmo. Um anjo que decide abrir mão da existência eterna para tornar-se humano. Em Asas do Desejo, sua motivação é compreender o significado da vida e experimentar e o prazer – e o sofrimento – de ter carne e osso. Essa experiência é personificada em uma bela trapezista de circo, pela qual o anjo se apaixona. O filme é de um existencialismo extremamente sutil, todo em preto e branco, e conta com as antológicas atuações de Bruno Ganz e Solveig Dommartin.

Já Cidade dos Anjos é um pouco diferente. Em Cidade dos Anjos, um querubim estrelado por Nicholas Cage desenvolve uma paixão platônica pela Meg Ryan, que é uma médica. Ele não dá a mínima para o significado da vida ou a natureza humana. Ele está simplesmente obcecado em faturar a cirurgiã. Então começa a persegui-la angelicalmente, como um pervertido angelical, que seriamente devia ir para a cadeia angelical.

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Nicholas Cage interpretando seu melhor personagem: o Nicholas Cage.

Mas como Meg – que convenientemente é o único ser humano que consegue ver anjos – não é muito normal, ela acha seu doentio stalker irresistível, e resolve passar o resto de sua existência com ele. Existência, esta, que não durará muito. Tudo isso ao som de uma música dos Goo Goo Dolls que me faz chorar. Chorar de desgosto.

Mas ao contrário de Hollywood, a indústria do whisky sabe o valor da tradição. Um exemplo é o Glenlivet 18 anos. O Glenlivet 18 anos é talvez a versão mais clássica de uma das mais clássicas destilarias, localizada em uma clássica região produtora de single malts – Speyside. Não dá para ficar mais clássico que isso, exceto se você for, sei lá, um arquiteto de talento duvidoso.

O Glenlivet 18 anos é maturado em barricas de carvalho americano que antes continuam bourbon whiskey, bem como barricas de carvalho europeu que antes maturaram vinho jerez. Há uma combinação de barricas de primeiro e segundo uso, com objetivo de criar constância e dar harmonia ao produto final.

Conforme já falado neste blog, a Glenlivet é atualmente uma das maiores destilarias em volume de produção do mundo.  o Glenlivet é o single malt mais vendido nos Estados Unidos, e o seguindo mais vendido no mundo, apenas atrás do Glenfiddich. O rótulo mais vendido é seu doze anos, ainda que o quinze e o dezoito estejam perto.

O destilado produzido pela Glenlivet é pouco oleoso se comparado a outras destilarias famosas da região de Speyside, como Aberlour e Glenfarclas. Isso se deve ao formato de seus alambiques, que possuem pescoços altos, em formato de lanterna.

Um pouco de história. Na Escócia, no início do século dezenove, um homem chamado George Smith destilava whisky de forma ilícita dentro do ducado do Duque de Gordon. E ainda que ilegal, a destilaria era famosíssima. Chamava-se Glenlivet. Mas o duque não sabia de nada. Ele nem suspeitava. Aliás, ele não tinha a mais rasa ideia do que seria aquele pequeno estoque de Glenlivet em seu suntuoso hall. Talvez algum anjo – invisível – tenha o deixado lá. Ou não.

Meu deus, como esses barris foram aparecer aqui? Que conveniente!
Meu deus, como esses barris foram aparecer aqui? Que conveniente!

Acontece que – por uma coincidência admirável – em 1823, o Duque de Gordon, de forma completamente altruísta e desinteressada, apoiou a alteração de legislação que permitia que destilarias adquirissem uma licença para funcionar de forma lícita. E quando o Rei George IV permitiu que as elas adquirissem uma licença para legitimar suas atividades, curiosamente, a Glenlivet foi uma das pioneiras. A história é cheia de coincidências.

A Glenlivet era tão conhecida, mas tão conhecida, que as demais destilarias da Escócia, até metade do século passado, utilizavam seu nome como denominação de origem em seus rótulos. Não era incomum, por exemplo, encontrar garrafas estampadas com o nome Aberlour-Glenlivet, por exemplo. Em meados da década de oitenta, entretanto, a Glenlivet adquiriu o direito legal de utilização exclusiva do nome The Glenlivet, e pôs fim a essa casa-da-mãe-joana do mundo etílico.

O Glenlivet 18 anos custa, no Brasil, em torno de R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais). Ele é um dos mais acessíveis single malts dezoito anos disponíveis em nosso mercado, junto com o Glenfiddich 18 anos. Se você é fã dos whiskies clássicos, certamente apreciará este single malt. Ele é como um bom filme existencialista. Sutil, equilibrado, complexo, sem grandes surpresas, mas extremamente agradável. Um clássico moderno. E, ainda bem, sem remakes.

GLENLIVET 18 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 18 anos

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, com mel, baunilha e especiarias.

Sabor: sabor frutado, com bala de caramelo e mel, levemente cítrico, apimentado e com final longo e amargo.

Com água: o sabor fica mais adocicado e menos picante, mas as especiarias se sobressaem. O final fica mais curto.

Preço: R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais)

 

 

 

Drops – Armorik Whisky Breton

armorik

Já experimentou algum whisky Francês? O país da champanhe e do vinho também produz excelentes single malts. Este é o Armorik, produzido na destilaria Warenghem,na região da Bretanha.

A Warenghem, além de whisky, produz também hidromel e algum outros destilados, como um licor de menta e uma espécie de triple sec. O carro chefe, entretanto, é mesmo o whisky. E o Armorik Classic – a expressão aqui retratada – é sua versão de entrada, e, naturalmente, a mais vendida.

Apesar de possuir mais de cem anos de idade, a destilaria apenas recentemente ganhou destaque internacional. A razão disso, provavelmente, foi a reformulação do portfólio de whiskies por ela produzidos e o refinamento dos métodos de produção. Entre as mudanças, houve o maior emprego de barricas de ex-jerez e a diversificação de versões.

O Armorik é um whisky sem idade definida, maturado em barricas de carvalho americano que contiveram bourbon whisky, com uma pequena parte maturada em barricas de ex-jerez. Ele possui aroma e sabor frutado, com mel, baunilha e açúcar mascavo.

Praticamente um Crème Brulée em estado líquido!

 

 

Especial de Final de Ano – Whisky e Réveillon

Chivas Extra - Copia

O passado não importa muito. O que importa são seus planos para o futuro. Anime-se com seus planos para o futuro”. Quando ouvi essa frase de um conhecido há uma dezena de réveillons passados, logo me animei. Me animei, porque tudo que havia planejado para meu futuro era terminar aquela taça de prosecco. E, ao termina-la, me encostar novamente no balcão do bar para pedir a próxima. Afinal, é ano novo. Eu posso.

O ano novo é uma festa interessante. Aliás, é minha data comemorativa coletiva preferida. Não é muito difícil, já que eu odeio natal, não suporto a monomania do carnaval e não ligo muito para a páscoa. Mas a verdade é que o réveillon traz um temporário otimismo ingênuo até mesmo para as pessoas mais taciturnas.

Com o tempo, aprendi que não adianta muito fazer planos para o ano vindouro. Nem ouvir conselhos. Porque não importa qual foi sua promessa ou a recomendação. Ano que vêm, você provavelmente estará pesando a mesma coisa que está agora. E continuará trabalhando com o mesmo empenho e visitando a academia com a mesma frequência.

reveillon
Um brinde a isso

Você, inclusive, estará bebendo a mesma quantidade que bebe o ano inteiro. Quer dizer, com exceção da própria festa de réveillon. Porque as festas de réveillon são a única oportunidade no ano inteiro que é permitido beber até atingir a descortesia sem ferir qualquer convenção social. Aproveite.

Na verdade, os melhores planos que se pode fazer antes do ano novo é de como aproveitar a festa de ano novo. E ainda que a expectativa seja sempre melhor do que a realidade, o réveillon traz oportunidades interessantes. Como, por exemplo, a de harmonizar seu whisky preferido com alguma comida elegante. E é aqui que eu quero chegar.

Antes de tudo, vou dar a má notícia. Na verdade, whiskies não funcionam muito bem para serem degustados junto com alimentos. Exceto, talvez, com queijos. Nisso, os whiskies perdem para os vinhos e cervejas. E tudo bem se você quiser tentar experimentá-los juntos, afinal, a comida é sua e o whisky também. Mas meu conselho é que você tome o whisky antes ou depois do prato. Tipo uma entrada. Ou uma sobremesa. Ou uma pré-sobremesa. Ou uma pós-sobremesa. Ou antes e depois de cada prato. É réveillon. Ninguém vai te condenar.

Dito isso, vamos fazer um intensivo de um parágrafo sobre harmonizar alimentos. A harmonização pode ser feita por semelhança ou por contraposição. Na harmonização por semelhança – como você já deve ter deduzido – procuram-se pontos de tangência entre o prato e a bebida. Um prato leve e adocicado, assim, é harmonizado com uma bebida doce e delicada. Já a harmonização por contraponto é o contrário. Busca-se ressaltar as características do prato combinando-o com uma bebida que apresenta as características opostas.

Assim, escolhi quatro pratos – mais ou menos – comuns no réveillon, e apresentarei alguns whiskies que podem combinar, tanto por semelhança quanto por contraposição – com eles.

1) Lombo de porco (com farofa de frutas secas)

Minha mãe sempre dizia que eu devia comer lombo no réveillon para evoluir na vida. Porque o porco fuça para frente, enquanto que o frango cisca para trás. Por isso, eu não podia comer frango no réveillon. Talvez este seja outro motivo que me faz gostar tanto dessa festa. Afinal, abrir mão de um dos alimentos mais detestáveis do mundo por um dos mais geniais nunca foi um grande sacrifício.

Lombo por semelhança – Whiskies adocicados e leves, como Jameson, Glen Grant, Johnnie Walker Gold Label Reserve, Glenmorangie Original ou Nectar D’Or e Chivas Regal 12 anos.

Lombo por contraposição – Whiskies de caráter medicinal e encorpados, como Laphroaig Quarter Cask e Laphroaig 18 anos. Johnnie Walker Double Black pode funcionar.

2) Bacalhau

Olha, eu não sei de onde veio a tradição de se comer bacalhau no réveillon. Eu suspeito que minha família tenha introduzido esse costume para aproveitar o bacalhau que sobrou do natal. Pode parecer oportunismo, mas eu não me importo. Bacalhau é uma delícia. Eu poderia comer bacalhau em todas as datas comemorativas do ano. E nas não comemorativas também.

Bacalhau por semelhança – Essa é fácil. Whiskies salgados, como Old Pulteney, ou defumados e cítricos, como Ardbeg Ten.

Bacalhau por contraposição – Whiskies adocicados e encorpados, com alguma maturação em barricas de carvalho europeu, como Macallan Ruby, Balvenie Doublewood, Chivas Extra.

Nem sempre como bacalhau. Mas quando eu como, é para economizar.
Nem sempre como bacalhau. Mas quando eu como, é para economizar.

3) Salmão Defumado

Tenho duas claras preferências alimentícias. Comidas cruas e comidas defumadas. E o Salmão defumado atende, com louvor, os dois requisitos. Melhor, só se for com uma dose de whisky.

Salmão defumado por semelhança – whiskies defumados e frutados. Johnnie Walker Double Black e Black Grouse ficam ótimos. Um whisky muito forte poderá esconder o sabor do salmão, como, por exemplo, o Laphroaig Quarter Cask.

Salmão defumado por contraposição – whiskies com notas de caramelo e baunilha. Bourbons, como Woodford Reserve e Jack Daniel’s.

4) Arroz com lentilhas (ou só lentilhas)

A tradição de se comer lentilhas no ano novo é bem conhecida. Diz-se que guardar alguns grãos na carteira traz prosperidade e dinheiro para o próximo ano. Dinheiro, só se for aquele que não ficou sujo daquele caldo nojento. Tirando que você teria que lavar a sua carteira. Assim, limite-se a comer as lentilhas.

Lentilhas por semelhança – Whiskies  de corpo médio e neutros. Glenfiddich 12 anos, Glenlivet 12 anos, Johnnie Walker Black Label e Famous Grouse. Há uma infinidade de opções aqui.

Lentilhas por contraposição – Whiskies com predominância de jerez. Macallan Ruby, Dalmore 15 anos, Glenfiddich 15 anos e Chivas Extra. Ainda que eu não entenda bem porque alguém quer sentir melhor o gosto de lentilhas.

Seja qual for sua harmonização, lembre-se que o mais importante é respeitar seu gosto, se divertir, e confraternizar – com moderação – com seus amigos e conhecidos. Faça suas promessas, mas não as leve muito a sério. Aliás, nem leve este texto muito a sério. Teste suas próprias combinações. Aproveite seu ano novo.

Ah, aí vai um conselho que talvez seja bom você seguir. Tente não se afogar pulando as sete ondas.

Nos vemos no ano que vem.