Sobre o Necessário e o Supérfluo – Whiskies para seu bar em casa
Estamos no carnaval. O Carnaval é o feriado mais festivo do ano. A festa está em toda parte. Nos bloquinhos de rua, no sambódromo, no boteco na esquina da sua casa. Todo mundo – literalmente – transpira Carnaval. Há festas para todos os bolsos e gostos musicais. Para mim, entretanto, o grande apelo do Carnaval é o feriado. Quatro dias e meio para fazer o que bem quiser. E o que bem quiser, normalmente, significa trocar o calor e a cerveja quente na rua por um bom whisky no conforto do lar. Ou isso, ou viajar com a Cã e a querida Cãzinha.
Mas aí acabo desembocando em um problema. Eu não sei arrumar uma mala. É uma incapacidade que me acomete desde criança, mas que, por mais esquisito que seja, piorou à medida que fiquei mais velho. Provavelmente porque, quando eu era criança, minha mãe revisava minha mala. Ela tirava os dez gibis que coloquei lá dentro, e os substituía pela minha escova de dente e meia dúzia de cuecas, que eu sempre esquecia.
Minhas malas são verdadeiras caixas surpresa. Mas a surpresa é quase sempre desagradável. Como, por exemplo, quando fui para um casamento, no interior, e esqueci de levar o cinto do terno, que estava largo. Aí passei a festa inteira segurando a calça, de uma forma discreta, para evitar um escândalo. E vou contar um negócio para vocês. É muito difícil comer canapés com um copo de whisky na mão e segurar as calças ao mesmo tempo.
O engraçado é que eu sempre esqueço as mesmas coisas. Esses itens miúdos, cotidianos e desprezíveis. Produtos para uso diário, quase ritualístico e automático. Escovas de dente, pente, desodorante, chinelos. Eu nunca esqueci meu isqueiro para charutos, por exemplo, nem meu fone de ouvido. Aliás, para os itens que eu gosto, acabo até pecando pelo excesso.

Mas não é só durante a montagem de malas que este problema ataca. Na hora de escolher whiskies também. Porque eu acabo escolhendo por gosto, e não necessidade. Aí percebo que meu bar está completamente dominado por whiskies defumados, e não têm nenhum blend decente para servir para meu sogro, que me observa com olhar reprovador enquanto tento convencê-lo a tomar vodka mesmo.
Organizar seu bar de casa é um clássico problema de economia. Ou, para muitos, é como escolher quais festas frequentar durante o Carnaval. Porque o espaço e os recursos são limitados, e o desejo, ilimitado. Mas para auxiliá-lo nessa árdua tarefa de tornar seu bar o mais democrático possível, elaborei uma lista com os cinco tipos de whisky que não podem faltar.
Como de costume os links clicáveis levarão à prova detalhada de cada um, feitas por este canídeo.
BLEND DEMOCRÁTICO
Blend democrático é aquele whisky que todo mundo conhece, e quase todo mundo gosta. São os coringas do seu bar. Funcionam tanto para tomar puro quanto com gelo. Servem também para preparar coquetéis e até mesmo cozinhar. É o whisky que você vai tomar com seus amigos quando o papo não for whisky. E eu te garanto que será uma delícia.
Minha sugestão clássica para não passar aperto é o Chivas 12 anos ou o Dewar’s 12. Se preferir ir para algo mais econômico, o Famous Grouse é uma excelente ideia. Além deles, essa categoria tem uma infinidade de opções. Exemplos são o Johnnie Walker Red Label e Black Label, Old Parr, Buchanan’s 12 e Ballantine’s Finest.
SINGLE MALT ADOCICADO
Single Malts adocicados seriam aqueles que agradam a maioria dos paladares, e cujo espectro de sabores não está muito longe dos blends democráticos. Aqui, usei a palavra “adocicado” apenas como contraponto aos whiskies defumados, que são a categoria de baixo. Estes são, normalmente, a porta de entrada para aqueles que começam a se interessar por single malts. Falando de uma forma bem genérica, são os clássicos whiskies da região de Speyside e das Highlands.
E é aqui que a brincadeira começa a ficar mais séria. Porque a sua escolha depende de quanto você quer gastar para equipar seu bar. Os whiskies mais em conta dentro dessa categoria são Glenfiddich e Glenlivet 12 anos e o Glen Grant. Há outras excelentes opções que não custam, necessariamente, o equivalente ao saldo da balança comercial de Lichtenstein. O Glenfiddich 15 anos é um excelente exemplo, assim como o Glenlivet 18 anos e Dalmore 15 anos. Dentro da (cobiçada) categoria ultra premium, temos o Macallan Ruby e, mais recentemente, O Rare Cask.
Se quiser sugestões mais aprofundadas de single malts em cada faixa de preço, leia o Post Especial de Natal do Cão Engarrafado.
WHISKY DEFUMADO
Este é o whisky que você servirá para mostrar algo novo para seus amigos, para tomar puro ou usar na coquetelaria, se sua intenção for fazer um drink defumado, como o Penicillin.
Em nosso país, há poucas opções de whiskies claramente defumados. Double Black, Black Grouse, Ardbeg e Laphroaig são os únicos que aterrissam em nossas terras e são facilmente encontráveis. Não dá para errar com qualquer dos quatro. Entretanto, tenha em mente que a defumação dos dois blends – Black Grouse e Double Black – deles é menor, o que pode restringir o seu uso.
BOURBON
Como você já deve saber, Bourbons são whiskeys americanos. Dentro dessa categoria – e apenas para fins de referência – incluí os Tennessee Whiskeys.
Bourbons normalmente são uma variação sobre um mesmo tema. Um tema excelente, que envolve caramelo e baunilha. Além disso, são vitais para a coquetelaria. São a base de coquteis como o Old Fashioned, Manhattan, Whiskey Sour, entre outros.
Assim, trate de escolher um bom Bourbon para seu bar. Minha sugestão é o Woodford Reserve, ou o Evan Williams Black, considerando custo-benefício. Se preferir um perfil mais seco, o Bulleit Bourbon ou o Wild Turkey Rye lhe servirão bem.
O SEU PREFERIDO
Aqui vale tudo. Talvez você tenha um gosto mais aventureiro, e seu whisky preferido seja, provavelmente a próxima garrafa que você irá comprar, seja ela qual for. Mas pode ser que você simplesmente já tenha encontrado sua alma gêmea etílica.
Seja qual for o caso, lembre-se de sempre ter seu whisky preferido em casa. Aliás, esta é a única garrafa que jamais pode faltar em seu bar. Porque até pode ser importante levar cuecas, escova de dentes e cintos sociais para viagens. Mas, como diria Oscar Wilde, A única coisa necessária é o supérfluo.

























