Saratoga Cocktail – Diversidade

Meu pai costuma dizer que o tempero da vida é a diversidade. Tenho que concordar com meu progenitor. Ainda mais em uma época do ano quanto o carnaval. Os bloquinhos são um exemplo. Fico fascinado com o ânimo das pessoas para ir nos bloquinhos, mas, tenho que assumir, não me vejo participando de um nem por dinheiro. Nem por dinheiro não, nem por whisky.

Sou totalmente a favor de qualquer manifestação de alegria, ainda mais uma tão espontaneamente agregadora quanto o carnaval. Em especial os bloquinhos de rua. Não ligo nem um pouco para o trânsito causado, e – como dono de um bar recém aberto – nada me revolta a falta de movimento trazida pelas festividades. Mas os bloquinhos reúnem três coisas absolutamente equivocadas: cerveja ruim quente, suor e muita gente.

Aliás, gente já seria um motivo mais do que justificável para me demover dos planos carnavalescos. Com calor, ainda pior. Odeio passar calor. Nem piscina quente, eu gosto. Aliás, nunca entendi essa tara das pessoas por piscinas quentes. Que coisa mais sem graça. Para qualquer atividade em uma piscina ficar minimamente interessante, é necessário adicionar ao menos um de dois elementos – álcool ou jogo.

Credo

Talvez tenha sido com essa mentalidade, justamente, que um tal de John Morrissey, um irlandês nascido nos Estados Unidos, resolveu abrir um casino em Saratoga Springs em 1864. É que o lugar era tipo Jurerê Internacional dos americanos no começo do século dezenove. Os pornograficamente ricos aproveitavam as águas naturalmente cálidas para relaxar. O lugar era tão famoso que o empresário Gideon Putnam decidiu abrir lá um spa – aproveitando as maravilhosas e entediantes caldas minerais de Saratoga. Nada mais do que natural que, da união do tédio e do dinheiro, surgisse então um casino.

Durante a curta vida do casino de John – que foi fechado no começo do século vinte por conta do recrudescimento das leis que combatiam álcool e apostas – surgiram algumas receitas bastante curiosas de coquetéis. Mas apenas um sobreviveu ao oblívio do tempo. O Saratoga Cocktail, que leva rye whiskey, vermute, bitters e brandy. Ou conhaque, se você tiver uma casa em Jurerê.

A sobrevivência do Saratoga Cocktail se deu, em boa parte, por sua menção no icônico livro de Jerry Thomas, “The Bar-tenders Guide”, de 1887, bem como por sua facilidade de preparação. Porém, não se engane – o sucesso de seu Saratoga dependerá, essencialmente, dos ingredientes utilizados em sua composição.

Durante uma semana, realizei o sacrifício de testar algumas combinações diferentes. Descobri que o Saratoga se beneficia de um vermute mais apimentado – como, por exemplo, o Carpano ou Cinzano 1757 – ao invés de algo mais delicado. O brandy deve trazer mais madeira – o Fernando de Castilla funcionou bem. Quanto ao Rye Whiskey, não há muita escolha. O único disponível em nosso país é o Wild Turkey Rye, que, apesar da baixa graduação alcoólica, funciona bem.

Assim, meus caros leitores, coloquem suas cartas na mesa e tomem nota de um coquetel tão fácil quanto se afogar bêbado numa piscina quente, e bem mais agradável do que passar calor no bloquinho. O belíssimo…

SARATOGA COCKTAIL

INREDIENTES

  • 1 dose (30ml) de vermute tinto
  • 1 dose (30ml) de rye whiskey
  • 1 dose (30ml) de brandy
  • 2 dashes de Angostura Aromatic Bitters

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com bastante gelo.
  2. Mexa por aproximadamente 4 segundos
  3. desça em uma taça coupé ou copo baixo, sem gelo.

Buffalo Trace Bourbon – Gabarito

Hoje vou contar para vocês a história do mais perfeito carro do mundo. Tão perfeito que falhou miseravelmente. O Ford Edsel. Ele foi lançado em 1957, após uma exaustiva pesquisa, que questionava os consumidores sobre o que esperavam de um automóvel. Centenas de pessoas opinaram sobre sua criação.

O Edsel possuía basicamente tudo que era tecnologicamente possível na indústria automobilística dos anos cinquenta. Direção hidráulica, câmbio automático, freios auto-ajustáveis e até uma grelha frontal que parecia uma tampa de privada que fora violentamente arrancada e depois perfurada. Acontece que, tentando ser bom em tudo, o Edsel era péssimo.

Só de ver a parte da frente, rolam uns movimentos peristálticos.

O motor era forte, mas como ele tinha que ser espaçoso, era também pesado. A direção tinha que ser leve, mas sem sacrificar a performance, o que o deixava sua manobrabilidade no meio do caminho entre um navio de cruzeiro e um trator. E para terminar este – literalmente – fracasso rolante, o carro era tão caro quanto um Porsche. Este é o problema de tentar agradar a todos. É quase impossível.

Porém, no mundo do whiskey americano, há um rótulo que talvez tenha conseguido. O Buffalo Trace. Se aliens descessem dos céus e perguntassem a todos os bebedores o que esperam de um bourbon, para depois produzi-lo, o resultado seria muito próximo do Buffalo Trace. Incluindo seu preço. Ele agrada a todos, tem um valor razoável, e qualidade sensorial excelente. É o tipo de whiskey que atrairá tanto o novato – graças a seu perfil adocicado e pouco apimentado – quanto o bebedor mais experiente, que busca algo com bom custo-benefício.

O Buffalo Trace é produzido pela destilaria homônima, localizada no Kentucky, e pertence à Sazerac Company. Jim Murray, o famoso autor da Bíblia do Whisky, uma vez nomeou a Buffalo Trace como a melhor destilaria do mundo. Ainda que, para mim, isto pareça uma hipérbole, não é difícil entender a lógica de Jim. A Buffalo Trace produz rótulos com excelente custo-benefício (como o Buffalo Trace e Eagle Rare), bem como produtos sofisticadíssimos e nichados, como a Antique Collection, Weller e o mundialmente cobiçado Pappy Van Winkle. Este último, com garrafas que podem chegar a mais de dois mil dólares.

O Buffalo Trace Bourbon compartilha com alguns rótulos irmãos uma mashbill (receita do mosto) baixa em centeio. Ainda que a destilaria não divulgue os números exatos, um palpite educado seria menos de 10% de centeio, 10% cevada maltada e o restante milho. É a mesma receita de diversos rótulos mais sofisticados da Buffalo Trace, como o querido Eagle Rare, Stagg Jr e o sofisticado George T. Stagg. A diferença entre os rótulos está na escolha dos barris, e na graduação alcoólica de engarrafamento.

Pappy, também produzido pela Buffalo Trace, mas com outra receita.

Como produto, o Buffalo Trace Bourbon é relativamente jovem. Ele foi criado somente em 1999, logo após a reabertura da destilaria. Reza a lenda que um visitante indagou porque não havia qualquer rótulo que levasse o mesmo nome daquele lugar. Sem resposta, e após uma série de discussões, o time da Sazerac Company pediu ao master distiller Elmer T. Lee que criasse um bourbon especial – e acessível – o suficiente para carregar o nome Buffalo Trace.

Sensorialmente, o Buffalo Trace é um bourbon incrivelmente encorpado – especialmente considerando seu preço – com aroma e sabor adocicados, com baunilha e toffee, e apenas um final elegantemente apimentado e amadeirado. É curioso como apesar da mashbill alta em milho, o whiskey atinja um equilíbrio interessantíssimo entre a influência da madeira e do destilado. Isso é bem raro em rótulos que compartilham preço e receitas semelhantes de outras destilarias.

Se você é um iniciante no mundo dos bourbons, e procura um rótulo que possa resumir tudo que se espera do estilo, o Buffalo Trace foi criado para você. Mas, por outro lado, se você já tem experiência com whiskey, e apenas quer algo para alimentar a zona de conforto, o Buffalo Trace também não decepcionará.

BUFFALO TRACE BOURBON

Tipo: Bourbon
Destilaria: Buffalo Trace
País/Região: Estados Unidos – Kentucky
ABV: 45%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

Notas de prova:

Aroma: caramelo, toffee, baunilha.
Sabor: caramelo, toffee, mel. O final é longo e suave, com um agradável apimentado.

Disponibilidade: à venda em varejistas selecionados e na Caledonia Store.

Murray McDavid e as Engarrafadoras Independentes

Mil e uma utilidades. Energia que dá gosto. A verdadeira maionese. Todo mundo usa ou use e abuse. Todas as frases anteriores são slogans de marcas famosas. Mas eu nem precisava contar isso para vocês, porque vocês já sabiam. É impossível não pensar no Pão de Açúcar quando alguém fala “lugar de gente feliz”, ainda que eu já tenha ido bem contrariado pro supermercado.

Quase todos os slogans trazem uma mensagem comum. São positivos e alegres, e transmitem valores como autenticidade ou confiança. Quase todos, porque há uns poucos bem esquisitos por aí. Como, por exemplo, o da engarrafadora independente Murray McDavid. O slogan deles, em gaélico, é clachan a choin.

Antes de contar o que clachan a choin significa, deixe-me falar um pouco sobre a Murray McDavid. Sua sede atualmente é a destilaria de Coleburn, na região escocesa de Speyside. Ela é uma das mais prolíficas engarrafadoras independentes da Escócia. Caso você não saiba, engarrafadoras independentes são empresas que visitam e escolhem barris de diversas destilarias – que não pertencem a ela – e produzem sua própria linha de whiskies. Às vezes, edições bastante limitadas. Outras, nem tanto.

Clachan

O sucesso de uma engarrafadora independente reside, em boa parte, na sua criatividade. Em sua capacidade de produzir edições improváveis, que mantém o caráter de certa destilaria, mas que são suficientemente distintas daquelas produzidas por esta. Uma engarrafadora independente deve produzir algo novo, mas com ferramentas que já estão lá e não foram criadas por ela. Ela deve pensar diferente. Ser rebelde e desafiadora. E aí é que está.

Clachan a Choin significa “o saco do cãozinho”. Ou, em uma tradução talvez grosseira, porém mais fiel, “as bolas do cachorro”. Uma frase que, convenhamos, não precisa de muitas explicações para transmitir uma sensação de rebeldia. Que a Murray McDavid fez muito bem. Seja com suas linhas mais exclusivas (que levam a marca Murray McDavid), seja com seus produtos mais acessíveis, da ACEO Spirits.

Este Cão Engarrafado teve a oportunidade de provar algumas destas criações por conta da visita do embaixador da Murray McDavid ao Brasil. Que, incrivelmente, é um brasileiro. João Pedro Medeiros. Durante a viagem, o representante realizará degustações em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio, o evento – em parceria com a Whisky Rio – acontecerá no dia 13 de março, no Bota Restaurante. Já em São Paulo, a degustação será no Caledonia Whisky & Co.

Dentre os whiskies provados, selecionei quatro que – dentro da minha lógica esquisita – representam bem o espírito (tunts) da Murray McDavid. O primeiro é um single grain scotch whisky produzido pela Girvan. Que só pelo estilo já seria bem distinto, mas tem uma maturação bem especial. Ele é finalizado em barricas que antes continham vinho madeira. Para um single malt, essa finalização já é bem incomum. Para um single grain, ainda mais. Por conta do pouco corpo, a maturação fica bem evidente. É um whisky leve, agradável, adocicado e frutado.

Girvan – diferente da destilaria que todos imaginam

O segundo é o Half and Half, um blended scotch que leva maltes não divulgados de Speyside e Lowlands. A maturação ocorreu principalmente em barricas de carvalho americano. Porém, após blendado, o whisky foi transferido para barris de vinho jerez espanhol para finalização. Sensorialmente, é um whisky mais convencional – adocicado e com um leve sabor de ameixa seca, proveniente da finalização.

O terceiro é o Mulben Moor, um single malt de uma destilaria – alegadamente – não divulgada, mas que a gente sabe que é a Auchroisk. A maturação ocorreu em barricas de ex-bourbon de carvalho americano, e carvalho europeu de ex-vinho Madeira. É um single malt curiosamente cítrico, reminiscente de casca de limão. É mais intenso do que os anteriores. A finalização é longa, frutada e apimentada.

O derradeiro é o Peatside, um blended malt turfado. É uma edição limitada, com apenas 848 garrafas em todo mundo. Maturado em barricas de carvalho americano, e depois transferido para duas barricas de vinho do porto, é um whisky bastante defumado, com notas de frutas em calda e pimenta do reino. A graduação alcoólica é bem elevada – 50%.

Se quiser saber mais sobre a Murray McDavid e os engarrafadores independentes, acompanhe o Cão Engarrafado nas próximas semanas! Faremos uma cobertura do evento de São Paulo e entrevistaremos o embaixador. Aqui sim, é lugar de gente feliz. De dar gosto!

Celebridades e suas marcas de whisky

Esses dias estava vendo um programa sobre os passatempos das celebridades. Um que me chamou a atenção foi o Nicholas Cage. Ele coleciona animais raros. Uma vez, o Nicholas Cage comprou um polvo de 150 mil dólares, porque, segundo ele, isso aprofundaria sua compreensão sobre outras formas de vida, e melhoraria sua carreira. Sinceramente, moluscos devem ter um péssimo gosto por cinema, porque só de ver a cara do Nicholas Cage, já pulo pra outro filme.

Outro que me surpreendeu foi o Tommy Lee Jones. Além de ser especialista em interpretar ele mesmo nos mais variados papéis, Tommy é um entusiasta ferrenho do polo equestre. O ator cria cavalos para o jogo – conhecidos como ponies – em seu rancho no Texas, financia dois times e tem um centro de treinamento de polo em Buenos Aires. Já a Angelina Jolie possui uma enorme coleção de adagas, e o Brad Pitt, de bonecas da Barbie. O que talvez explique o relacionamento conturbado entre os dois.

É pra isso que eu pago internet.

Há, porém, celebridades com hobbies – ou talvez negócios paralelos – menos aleatórios. Muitas delas, por exemplo, gostam tanto de whisky que resolveram lançar suas próprias marcas. Um passo que, para mim, parece absolutamente natural: o que mais eu poderia fazer, se fosse pornograficamente famoso e rico? Esta matéria apresenta cinco destes famosos que são malucos como a gente. Mas tão malucos, que até parecem normais.

David Beckham – Haig Club

Talvez o mais clássico exemplo de um whisky criado por uma celebridade, o Haig Club de Beckham é um single grain, produzido pela destilaria escocesa Cameronbridge. O rótulo é uma parceria entre o jogador de futebol, seu parceiro de negócios Simon Fuller e a gigante Diageo, detentora da Cameronbridge.

O Haig Club foi desenvolvido para ser um whisky muito fácil de ser bebido, bem pouco oleoso, suave e adocicado. A ideia é que funcione como uma “porta de entrada” para aqueles que acham que não gostam da melhor bebida do mundo. O que talvez seja uma estratégia insanamente perigosa, considerando o sabor do Haig Club. Longe de mim fazer qualquer julgamento, mas, ao prová-lo, tive dúvidas se realmente gostava de whisky.

Bob Dylan – Heaven’s Door Whiskey

O projeto Haven’s Door nasceu de uma parceria entre Dylan e o fundador da marca de whiskeys americanos Angel’s Envy, Marc Bushala. Caso você não tenha percebido, o nome é uma referência a sua famosa “Knockin’ on Heavens Door”, e cria um interessante paralelo com a marca de Bushala – Angel’s Envy.

O portfólio de lançamento contou com três whiskeys. Um bourbon que passa por um processo de filtragem em carvão, semelhante àquele dos Tennessee whiskeys; um Rye Whiskey finalizado em barris que antes contiveram charutos (!), e um Double Barrel, finalizado em barris americanos tostados.

Como aconteceu com a Angel’s Envy, a Heaven’s Door ainda não possui destilaria – esta provavelmente abrirá suas portas em 2020. Atualmente, seus whiskeys são curados, comprados de uma destilaria não divulgada, mas que a gente sabe que é a MGP.

Metallica – Blackened American Whiskey

O Blackened American Whiskey foi criado pela banda Metallica em pareceria com o destilador David Pickerell, e é um blend de whiskeys americanos finalizado em barris de brandy. Curiosamente, cada lote de Blackened vem acompanhado de uma playlist única, feita para interagir com a bebida.

A medida que o whiskey descansa nos barris de finalização, a música é tocada para que o whiskey dentro se mova, e interaja melhor com a madeira. O movimento e a quantidade de interação depende da música tocada, assim, a variação da musica cria nuances de um lote para o outro

A explicação pseudo-científica dá uma certa vergonha alheia. Mas, assumo, adoraria experimentar uma dose ouvindo a regravação do sucesso de Thin Lizzy – Whiskey in The Jar.

Conor McGregor – Proper No. Twelve

Tanto no octógono quanto nos negócios, o lutador de MMA Conor McGregor parece gostar de uma boa briga. E de whiskey irlandês. Por isso, acaba de lançar sua própria marca, a Proper Number Twelve.

Ao contrário da tendência das celebridades – de lançar produtos luxuosos que encapsulam seu lifestyle – o whiskey de Gregor é acessível, tanto financeiramente quanto sensorialmente. Por lá, custa em torno de vinte e cinco libras, e é destilado pela Old Bushmills Distillery, na Irlanda do Norte.

Sam Heughan – The Sassenach

O que seria mais apropriado para um escocês que interpreta um escocês em uma série sobre a Escócia – The Outlander? Lançar uma marca de whisky, claro. Aliás, não apenas uma marca, mas uma companhia inteira voltada para a produção de blended whiskies – a Great Glen Company.

Criei a Great Glen Company para criar produtos em que acredito, usando minha tradição e paixão como inspiração”, disse ele. “No momento, estamos trabalhando na minha marca de whisky com nosso primeiro lançamento em breve” – disse Sam.

Minha querida Cã Engarrafada é apaixonada pela série e pelo ator. E, pelo jeito, muito em breve, eu serei também.

Teacher’s Highland Cream (Escocês)

Hanna Arendt uma vez escreveu que ” Das coisas tangíveis, as menos duráveis são as necessárias ao próprio processo da vida. O seu consumo mal sobrevive ao acto da sua produção “. Se não fosse por um hiato de poucas décadas – e talvez minhas dúvidas sobre as preferências alimentares da filosofa – poderia jurar que Hannah escrevera o excerto depois de pedir uma batata frita de delivery.

Há poucos alimentos mais efêmeros do que a batata frita de delivery. Nem carne, nem massas, sofrem tanto. Nem mesmo o hambúrguer, companheiro inseparável da batata frita, apanha desse jeito. Vinte minutos em um espaço confinado, no baú do entregador, são suficientes para transformar a mais deliciosa e crocante fatia em um negócio frio, mole e murcho. Batatas fritas definitivamente não viajam bem.

Folclore

Outro produto que sempre ouvi que não era o mesmo depois da viagem – neste caso, uma transatlântica – é o whisky Teacher’s. Produzido na Escócia e transportado em tanques estanques, o Teacher’s era cortado (diluído) e engarrafado no Brasil. O processo tornava a logística mais barata, e permitia que o Teacher’s tivesse preço de combate por aqui sem sacrificar a qualidade. Porém, ouvira de mais de um bebedor que havia diferenças entre os dois.

Naturalmente, graças à minha perseverança em relação a assuntos inúteis, resolvi fazer o teste. Quando viajei para a Escócia pela primeira vez, fiz uma importação espontânea de uma garrafa de Teacher’s em minha mala. Logo que cheguei ao meu hotel, pedi um whisky. O Teacher’s engarrafado na Escócia. O bartender me olhou esquisito – afinal, dentre mais de trezentos rótulos naquele bar, era inexplicável que tivesse escolhido aquele para começar.

Observei o bartender descer uma dose do Teacher’s engarrafado na Escócia sob olhares curiosos do restante da brigada do bar. Daí, tirei da mochila uma garrafa daquele engarrafado no Brasil, e pedi uma taça. Ouvi um murmurar de interesse. Brasileiro maluco. Dei um gole em cada um, e empurrei as doses em direção ao bartender, que esticou o braço, em sinal de que havia aceitado minha oferta. Ao provar os dois, acenou afirmativamente com a cabeça. É, eles eram diferentes. Não muito, mas o suficiente para que percebêssemos. Expliquei para ele a lenda urbana que havíamos acabado de comprovar, e tudo ficou claro.

O Teacher’s engarrafado no Brasil era mais adocicado e leve. A fumaça estava lá, mas mais discreta, contida. O engarrafado na Escócia era mais seco, enfumaçado e intenso. Se aproximava mais do single malt que compõe seu coração, o Ardmore. Indaguei sobre o que poderia ter causado essa diferença. Podia ser a viagem da matéria prima, o Teacher’s não cortado, até o Brasil. Poderia ser a nossa água. Ou, então, talvez fosse uma diferença de lote. Não chegamos a qualquer conclusão.

Muitos anos mais tarde, tive a oportunidade de refazer a comparação. Mas no Brasil. É que a Beam-Suntory, empresa mãe da Teacher’s, decidiu trazer o whisky engarrafado na Escócia para nosso país, ao invés de continuar a engarrafá-lo por aqui. O evento de lançamento aconteceu em um lugar muito especial. O Caledonia Whisky & Co., nosso bar em São Paulo, e contou com a presença de Paula Limongi, embaixadora da marca, e Walter Celli, CEO da Beam-Suntory para Brasil, Paraguai e Uruguai.

Um Cão, uma Destilady e um CEO (Foto: Ale Virgílio)

Os convidados assistiram um discurso de Paula Limongi e deste Cão Engarrafado, e provaram três rótulos. O Teacher’s 12 anos, lançado em Recife há pouco mais de um ano, o Laphroaig Select e o Teacher’s engarrafado na Escócia. Walter Celli também falou, e explicou sobre os novos planos da marca e seu posicionamento “Acreditamos que os consumidores de whisky estão cada vez mais exigentes. Teacher’s teve
seu papel fundamental em tornar o scotch acessível no país, mas agora entendemos que os brasileiros, em especial os nordestinos, em todas as classes sociais, estão mais rigorosos e entendem que um whisky engarrafado na Escócia tem seu diferencial

Sensorialmente, a experiência que tive no Brasil foi muito semelhante àquela na Escócia, anos atrás. O Teacher’s engarrafado por lá é menos alcoólico e mais defumado. Parece um produto mais lapidado do que o que outrora era vendido por aqui. Há um claro ganho em equilíbrio do blend, que, apesar de simples, parece ser mais bem acabado.

Mexer no processo de produção de um whisky tão bem sucedido no Brasil como o Teacher’s pode parecer um contrassenso. Porém, este Cão somente poderia aplaudir a decisão da Beam-Suntory. Com essa decisão, há melhor padronização do whisky, preservando seu excelente custo-benefício. É como se a batata frita de delivery agora fosse preparada em casa.

TEACHER’S HIGHLAND CREAM

Tipo: Blended Whisky
Marca: Teacher’s
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

Notas de prova:

Aroma: levemente esfumaçado, com suave aroma cítrico.

Sabor: frutado, cítrico, com final levemente defumado. Não é um whisky muito complexo. O sabor de álcool é bem aparente, mas não chega a atrapalhar.

Onde comprar: todo lugar, praticamente, e na Caledonia Store, inclusive.

Royal Salute Malts Blend – Diversificação

Certa fez, Henry Ford, ao falar de seu Ford Model T disse “O cliente pode ter seu carro pintado de qualquer cor, desde que essa cor seja preta“. Ainda que sarcástica, a declaração tinha todo sentido. Não havia espaço para o supérfluo. O Model T fora criado para ser acessível – e nisso, foi incrivelmente bem-sucedido.

O primeiro Ford Model T saiu da fábrica em setembro de 1908. No ano seguinte, mais de dez mil automóveis foram produzidos. O último – tão preto quanto o primeiro – deslizou da linha de produção em 1927. Foram dezoito anos. Nesse período, perto de quinze milhões de Model T foram produzidos. Todos, quase idênticos – exceto por alguns pequenos detalhes internos.

Pelo menos tinha conversível

Na época do iPhone X e Xs, manter inalterado um bem de consumo por dezoito anos pode parecer um enorme contrassenso. Por outro lado, a inércia da Ford não pareceu afetar as vendas do Model T – que entrou na história como um dos mais bem sucedidos automóveis de todos os tempos.

Uma marca cuja trajetória foi muito semelhante àquela do Ford Model T é a Royal Salute. Desde sua criação, em 1953, o único whisky em sua linha permanente foi o querido Royal Salute 21 anos, hoje conhecido como Signature Blend. Ainda que, neste caso, haja opções de cor – tres vezes mais do que do Model T.

Em 2019, porém, a marca finalmente decidiu diversificar seu portfólio perene, introduzindo dois novos whiskies. Um blended scotch whisky de vinte e um anos, defumado: o Royal Salute Lost Blend (já revisto por aqui) e o Royal Salute 21 Malts Blend – o primeiro blended malt da marca, que acaba de desembarcar no Brasil. As cores também foram revistas. O blend clássico vêm somente na cor azul. O turfado possui um decanter preto, enquanto o blended malt ficou com o verde.

Este é um movimento corajoso da Royal Salute. Criar um blended malt não é algo trivial. Blended whiskies recorrem bastante à porção de whisky de grão. Ela é a tela em branco, a tabula rasa, onde o quadro – o perfil sensorial – será pintado. A porção de grain whisky traz delicadeza e suavidade, e confere um pano de fundo para que os maltes brilhem.

No caso de um blended malt – que utiliza apenas single malts em sua mistura – a técnica de equilíbrio é semelhante. Mas o desafio é muito maior, porque não se pode recorrer ao grain whisky. A construção depende exclusivamente do equilíbrio entre os single malts – elementos que possuem personalidade bem mais forte. E, no caso do Royal Salute Malts Blend, há ainda mais um agravante: a idade mínima deve ser vinte e um anos.

De acordo com Sandy Hyslop, o criador do Royal Salute Malts Blend, em entrevista exclusiva para este Cão Engarrafado, “Ele usa mais carvalho americano. Tem Strathisla na mistura, também Longmorn. Alguns maltes verdadeiramente clássicos. Mas, obviamente, sendo um blended malt, foi para o lado frutado” e continua “Estamos usando mais de 21 single malts diferentes na mistura. É complexo. Cada barril é individualmente analisado, e no final você tem algo que é bastante frutado. É como pêssegos e xarope. É bem adocicado.

Sandy, durante evento em Seoul

Já Mathieu Deslandes, diretor de marketing da Royal Salute, ao ser indagado sobre a criação de um blended malt, em oposição a um blend com whisky de grão, disse “Nós, como marca, fomos criados como um blend, então permanecemos fiéis a isso. É verdade que o perfil do sabor do single malt é algo que vem se desenvolvendo muito. É algo que é mais forte em termos de personalidade, menos suave. Por isso, foi interessante entrar nesse campo como uma forma de diversificar nosso portfólio para o consumidor“.

Sensorialmente, o Royal Salute Malts Blend é um whisky adocicado, com frutas em calda, mel, caramelo e baunilha. Há um certo apimentado residual, bem discreto. O álcool é extremamente bem integrado. Não há qualquer sinal de turfa. Apesar de ser um blended malt, há um tema bem claro, reminiscente de um single malt. Um tema adocicado e frutado, muito bem elaborado.

Tanto para o apaixonado pela Royal Salute, quanto o entusiasta de whiskies, o Malts Blend é um lançamento entusiasmante. É a prova de que blended malts podem ser tão bons ou melhores que single malts, e um sinal de renovação de uma das mais cobiçadas marcas de blended scotch. Assim, se puder, prove o Royal Salute Malts Blend. Você, inclusive, pode escolher qualquer cor para o frasco. Desde que seja verde.

ROYAL SALUTE MALTS BLEND

Tipo: Blended Malt
Marca: Royal Salute
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: 21 anos

Notas de prova:

Aroma: Adocicado, com frutas em calda e creme brulee.
Sabor: adocicado, com compota de frutas, baunilha, bananas, creme brulee. Final longo e apimentado.

Onde comprar: Caledonia Store e outras lojas brasileiras

Bebendo o Oscar 2020 – Relacionando filmes e whisky

Estava pensando sobre algumas tradições. Coisas banais, que fazemos todo dia, sem nem perceber. Tipo cumprimentar alguém com um aperto de mão. Além de ser um negócio que não tem muita lógica, é uma prática meio anti-higiênica. Cara, eu sei lá onde você enfiou essa sua mão, mas vamos contribuir para a disseminação de todo tipo de moléstia. Aperta aqui. Isso sem mencionar quando a mão do coleguinha está molhada. Isso aí é água mesmo, seu porco?

Mas tradições são assim. Elas não precisam fazer sentido. Como, por exemplo, uma que criei aqui no Cão Engarrafado, e que reúne dois dos meus maiores interesses. Cinema e whisky. Há quatro anos, lancei uma matéria comparando os filmes do Oscar com certos rótulos. O post fez sucesso, e repeti a fórmula nos anos seguintes. É um post absolutamente inútil, que só seve mesmo para exercitar minha quase perturbadora capacidade de abstração.

Escolhi três indicados ao prêmio de melhor filme, que assisti e relacionei com suas almas gêmeas do mundo da melhor bebida do mundo. Da ingenuidade infantil de Jo Jo Rabbit à aflitiva agonia de Coringa, os indicados ao Oscar de 2020 estão incríveis (aliás, bem melhores do que nos anos interiores). Mas ficam ainda melhores com uma dose de whisky do lado. Vamos a eles.

JO JO RABBIT

Jo Jo Rabbit conta a história de Jojo Betzler, um menino de 10 anos durante o regime nazista. O garoto se vê como um ferrenho anti-semita, e descobre que sua mãe esconde, em casa, uma menina de dezesseis anos de origem judaica.

De certa forma, Jo Jo Rabbit se aproxima de dois outros filmes indicados ao Oscar no passado: Green Book e A Vida é Bela. Sua maior qualidade é também seu pior defeito. Que é tratar com leveza e às vezes até ingenuidade um assunto geralmente é tratado com severidade. No caso de Jo Jo, o regime nazista e o antissemitismo. O humor funciona – especialmente naquilo que não é dito – mas também acaba atrapalhando. Não há peso histórico onde deveria (sem spoilers aqui).

Se fosse um whisky, Jo Jo Rabbit seria, provavelmente, o Glenlivet Founder’s Reserve. Um single malt adocicado, leve e extremamente bebível, mas produzido com todo cuidado e atenção que somente uma das maiores e mais respeitadas destilarias do mundo poderia fazer.

CORINGA / THE JOKER

Não há muito a falar sobre The Joker além do que já foi extensamente dito e divulgado. Apesar de ser ambientado em Gotham City e de haver um certo Thomas Wayne, o filme não se parece como algo derivado de um universo de super-heróis. Não há nada de sobre-humano em the Joker, exceto, talvez, pela patológica violência de Fleck.

Além disso – como já disse por aqui – o filme de certa forma subverte a lógica do cinema. Todo mundo sabe como The Joker vai acabar. É como Titanic: a gente sabe que o navio vai afundar. O que importa, e interessa, é aquilo que acontece e leva àquele final.

Mas a melhor característica do filme é, de longe, sua atuação. Nem o roteiro (que é fraco) e nem a fotografia (que é ótima) estão aos pés da representação de Joaquin Phoenix. O ator é um megazord de coringas. Ele consegue aliar o humor de Jack Nicholson com a raiva de Heath Ledger, e, bom, sei lá o que o Jared Leto estava fazendo, então vamos deixar esse daí de lado.

Se fosse um filme, The Joker seria um Port Charlotte Scottish Barley. Esquisito, enfumaçado, medicinal, intenso, meio áspero nas pontas, mas excelente.

ONCE UPON A TIME IN HOLLYWOOD / ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD

Era uma Vez em Hollywood, dirigido por Quentin Tarantino, conta duas histórias paralelas. Uma totalmente inventada, e a outra também inventada, mas esparsamente baseda em fatos reais. A primeira é a de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator que já viu dias melhores. Outrora um astro de filmes de guerra e westerns, Dalton agora luta para reerguer sua carreira, ao lado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt).

A segunda é a história de Sharon Tate, uma atriz que existiu de verdade, e que foi brutalmente assassinada por uma seita de jovens maníacos seguidores de Charles Manson. Há outros personagens de Hollywood de verdade mas de mentirinha, como Roman Polanski e Steve McQueen.

Era Uma Vez em Hollywood é um clássico filme de Tarantino. Diálogos irônicos e espirituosos e uma violência gráfica que se torna até cômica, de tão exagerada. Se fosse um whisky, o filme provavelmente seria o recém-chegado Buffalo Trace. Eminentemente americano e intenso, com uma complexidade quase informal.

Robert Burns Single Malt – de ratos e flores

Se você acompanha o Cão há um tempo, já deve ter ouvido sobre Robert Burns. Ele foi o mais importante poeta escocês de todos os tempos, e um enorme expoente do movimento romântico. A envergadura de suas obras é enorme. Burns tratou de assuntos de enorme distinção. Da iniquidade social do século dezoito a sua paixão por embutidos de caprinos.

Em uma de suas mais conhecidas obras, o poeta discorre por mais de três estrofes sobre o sabor inigualável de uma buchada de bode. Em outras duas, se martiriza por ter esmagado com seus pés uma margarida – a florzinha – e uma toca de ratos. O último inclusive, inspirou o escritor Sidney Sheldon ao batizar seu romance “The Best Laid Plans”. É capaz de ter também servido de inspiração para o James Blunt, mas vamos manter um nível administrável aqui.

“#chatiado”

Mas não foi apenas nas artes que Robert Burns inspirou criações incríveis. Na área das bebidas, o poeta é uma influência importantíssima. Foi em sua homenagem que um dos mais importantes coquetéis de scotch whisky foi nomeado – o Bobby Burns. E também em sua referência que a Arran, destilaria localizada na ilha homônima na Escócia, batizou sua linha de blended whiskies e malt, que acabam de chegar no Brasil.

Os Robert Burns são importados pela Single Malt Brasil em duas versões. Um blended scotch whisky de entrada, que – naturalmente – usa Arran como coração, e um single malt, o tema desta prova. Parece contra-intuitivo que uma destilaria possua duas linhas distintas, sendo que uma delas possui tanto blends quanto single malts. Mas a estratégia é mais focada no mercado de consumo do que, efetivamente, na marca. Robert Burns são mais acessíveis, tanto em perfil sensorial quanto financeiramente.

O Robert Burns Single Malt é um whisky relativamente jovem e simples, mas muito agradável. A maior parte das barricas usadas em sua maturação são de carvalho americano de ex bourbon – que trazem toffee e caramelo. Estas, correspondem a aproximadamente setenta por cento de seu volume. Os trinta restantes são barricas de carvalho europeu de ex-jerez, que trazem um certo apimentado seco, com frutas cristalizadas.

Apesar de ser um single malt de entrada, a Arran tomou alguns cuidados um tanto incomuns. O primeiro é sua graduação alcoólica, de 43%, e não 40%, como boa parte das destilarias faz atualmente. Estes 3% adicionais são bem vindos, e contribuem para o final apimentado e seco do whisky. O segundo é sua cor natural – mesmo em sua linha de entrada, a Arran não utiliza corante caramelo.

A Arran.

Comparativamente a seu irmão de destilaria, o Arran Lochranza, o Robert Burns é um whisky mais apimentado e seco, e bem menos floral. Ainda que o tema – bourbon com um leve toque de jerez – seja semelhante, o perfil sensorial das duas garrafas é bem distinto. Considerando a diferença de preço, escolher entre um e outro recai mais sobre gosto pessoal do que custo-benefício – se é que “custo-benefício” possa ser um termo usado para descrever uma bebida.

Se você procura um single malt acessível, com perfil sensorial mais seco e apimentado e muito agradável, o Robert Burns Single Malt é seu whisky. Ele é perfeito para se beber despretensiosamente, ou, talvez, harmonizar com alimentos apimentados, ou, quiçá, uma bela sessão de poesia sobre roedores, flores ou embutidos.

ARRAN ROBERT BURNS SINGLE MALT

Tipo: Single Malt
Destilaria: Arran
País/Região: Escócia – Highlands
ABV: 43%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

Notas de prova:

Aroma: mel, compota de frutas, baunilha
Sabor: mel, baunilha, frutado. Final médio, com cereais, açúcar e pimenta.

Macallan Double Cask 12 Anos – Genética

A genética é uma coisa linda. É incrível que, apesar de parecer tão intangível, seja ela a responsável por quase tudo que fazemos. Como reagimos a estímulos, alguns de nossos gostos, nossas fobias naturais e nossa compleição física. Tudo isso, de certa forma, é influenciado pela genética.

Veja o exemplo de meu querido filho, o Cãozinho. O Cãozinho é, fisicamente, bem parecido comigo. Mas o mais surpreendente mesmo são as semelhanças imateriais. Ele tem uma aptidão natural para o desastre. Algo que só pode ser explicado pela carga cromossômica que lhe transferi. Ele tropeça no próprio pé e derruba coisas que segurava do nada. Ele também é um voraz devorador de absolutamente qualquer coisa – onivoridade compartilhada com o pai glutão.

Além disso, não é a criança mais atenta que eu conheço. Toda vez que o vejo parado, mirando fixo para um horizonte imaginário, sei exatamente o que está se passando por sua cabeça. Tudo. Tudo menos o que está à sua volta. E, num repente, ele – digo, nós – voltamos à realidade com aquele semblante meio bobo, como se tivéssemos sido teleportados para a realidade. Somos parecidos demais para não ser isso. Eu só sou trinta e dois anos mais velho, e consigo disfarçar melhor.

Oi, que?

Se eu não soubesse, poderia dizer que há DNA também no mundo do whisky. Destilarias cujos rótulos parecem descender de um único pai. Que compartilham as mesmas características. Uma delas é a The Macallan. Há diferenças entre eles, claro. Mas há também uma espécie de código comum. Desde adocicado Triple Cask, até o luxuoso e vínico Oscuro (hoje Reflexion) há um perfil sensorial que se mantém constante pela linha inteira. Uma personalidade oleosa, vínica e absolutamente deliciosa. E com Macallan Double Cask 12, que acaba de desembarcar no Brasil, não é diferente.

O Macallan Double Cask 12 anos é maturado em dois tipos distintos de barricas, ambas “temperadas” – nas palavras da destilaria – com vinho jerez espanhol. Barris de carvalho americano e carvalho europeu. As barricas de carvalho americano trazem notas adocicadas e florais, como mel, caramelo e baunilha, mas, graças ao “tempero” com o vinho espanhol, há um intenso frutado seco. Já o emprego das barricas de carvalho europeu traz complexidade sensorial, trazendo especiarias, taninos e frutas secas. Em conjunto, isso se traduz como um whisky adocicado e frutado no começo, que, progressivamente vai se tornando mais seco e apimentado no paladar. Este perfil sensorial é uma espécie de DNA da destilaria, presente em quase todos seus rótulos.

Outra característica particular da The Macallan é o perfil de seu destilado. A destilaria possui os alambiques mais baixos de toda a Escócia. Seus lyne arms são voltados para baixo, para maximizar a condensação e reduzir o refluxo. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso. Para contrabalancear uma hipotética agressividade, o corte do coração da The Macallan é justíssimo: Apenas dezesseis por cento do destilado – produzido no meio do processo de destilação no alambique – vira single malt. Do restante, nove por cento (quatro e meio de cada ponta) vai para blended whiskies, como Famous Grouse. 

Os alambiques da nova e impressionante destilaria da The Macallan (fonte: scotchwhisky.com)

A The Macallan se diz localizada em Speyside, conhecida como o coração da produção escocesa de whisky.  Entretanto, Craigellachie – onde a destilaria  se localiza – faz parte do território das Highlands, de acordo com a autorregulação vigente. A destilaria adquiriu sua licença para funcionar em 1824, mas fora fundada bem antes disso, por um fazendeiro chamado Alexander Reid.

No Brasil, o Macallan Double Cask 12 anos custa, em média, R$ 600 (seiscentos reais). É um valor relativamente alto. Mas é, também, uma das melhores alternativas para os amantes de whiskies maturados em barricas de jerez. Assim, se você gosta de whiskies oleosos e puxados para o vinho fortificado, experimente o Macallan Double Cask 12. E se você realmente gosta deste perfil, não adianta resistir, ou tentar agir de outra forma. Não há como fugir da genética.

MACALLAN DOUBLE CASK 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade declarada (12 anos)

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, baunilha, vinho adocicado, passas.

Sabor: Caramelo, baunilha e um certo aroma frutado, com frutas secas e cristalizadas. Final longo e vínico.

Disponibilidade: Varejistas selecionados inclusive a Caledonia Store

Caledonia Whisky & Co – Abrimos um Bar!

Quando, há mais de cinco anos, começamos com o Cão Engarrafado, não sabíamos direito para onde iríamos. Sabíamos, por exemplo, que provaríamos muitos whiskies. Suspeitávamos que nossa paixão por drinks e cervejas também encontraria uma forma de participar deste espaço virtual. Mas jamais pensamos que chegaríamos ao ponto de, por exemplo, julgar um campeonato de coquetelaria, ou viajar para o outro lado do mundo apenas para provar, em primeira língua, dois novos e maravilhosos whiskies de certa marca de luxo.

Alguns caminhos pareciam naturais. Incorporar receitas e abordar os universos tangentes àquele do whisky, por exemplo. Outros exigiram uma certa apneia. Desenvolver cursos e degustações, por exemplo, e sair do ambiente virtual para o palpável. Mas, de todos estes, de longe, o que mais exigiu fôlego, temeridade e quiçá uma boa quantidade de imprudência é este que vos apresento. Um bar totalmente voltado para a cultura do whisky em São Paulo. O Caledonia Whisky & Co.

Se pudesse resumir, de uma forma bem simples, sobre a essência do Caledônia, seria esta: Ele é o Cão Engarrafado materializado. É um bar em que o vedete é o whisky – escocês, japonês, americano, irlandês ou de qualquer parte do mundo. Mas que também abraça tudo aquilo de bom que se relaciona à bebida.

Nosso coração

Há coquetéis autorais (como o delicioso King James e o lúdico Volstead), clássicos clássicos (manhattan) e clássicos obscuros (BeelzeBob), com e sem whisky. Há cervejas incríveis, dentre elas, uma Imperial Stout criada pela Cervejaria Dádiva, e maturada em barris de carvalho, somente para nós. E pratos. Pratos que são ora britânicos, ora brasileiros, como o querido Scotch Egg (o nosso bolovo), hambúrgueres americanos com um toque inglês, e pratos essencialmente ingleses.

Na carta do Caledônia, há algo como cento e trinta whiskies. Reunimos quase tudo que há disponivel oficialmente no Brasil – dos blends standard, como Passport, Bells e Teacher’s, até single malts super exclusivos, como o Macallan Reflexion – uma das pouco mais de dez garrafas que desembarcaram por aqui. As doses são de 25ml, para permitir que o cliente prove uma boa variedade de whiskies diferentes sem machucar fígado ou bolso, mas há também doses duplas, de 50ml. Réguas de degustação temáticas – de escolhas sérias como o Speyside Trio, até uns mais descontraídos, como os preferidos deste Cão que vos escreve.

Já nossa carta de coquetéis – que não poderia faltar – foi criada por Rodolfo Bob, bartender premiado, vencedor do Patrón Perfeccionists. Ela conta a história do whisky em cinco drinks. Da migração dos monges da península ibérica até a Escócia, passando pela Irlanda, até os tempos atuais, com a retomada da coquetelaria e o consumo dos single malts. Sem olvidar de períodos importantes da história, como a Lei Seca (Volstead) e o começo da destilação nos Estados Unidos (Mount Vernon). Há também uma boa quantidade de clássicos incontornáveis, como o Penicillin, Manhattan, Maker’s Mark Old Fashioned e New York Sour. E uma carta periódica de obscuros, que hoje conta com o incrível e – de sugestivo nome – BeelzeBob, uma singela homenagem ao pai de nossa carta.

King James, um de nossos autorais.

E o Caledônia não é apenas um bar. É loja também. Por exemplo – se você experimentou um belo Glenlivet Code como dose no salão, terá desconto para levar uma garrafa pra casa. A preço de empório mesmo, não de bar. Há alguns produtos bem exclusivos, como a linha dos single malts da Arran, e um certo gim japonês com alma de whisky, o Roku Gin, que acabou de desembarcar no brasil pelas mãos da Beam Suntory.

E, claro, não poderíamos esquecer daquilo que mais nos incentivou a ter um espaço próprio. A parte educacional. Nossos eventos agora possuem um ambiente dedicado e fixo. Há um andar de salão conversível em sala de aula. Periodicamente, promoveremos degustações e cursos por lá. O espaço também poderá funcionar como uma sala privada, para eventos de marcas e empresas.

Temos uma ótima equipe, e estamos bem animados com o Caledonia. E um tanto apreensivos também. Ter um espaço e cuidar de pessoas não é algo trivial. Mas, pensando aqui, depois de tantos parágrafos, talvez tenha sido a mais natural das consequências do Cão Engarrafado. A gente não sabia, mas era tudo uma questão de tempo.

Sala de aula

CALEDONIA WHISKY & CO.

Endereço:

Rua Vupabussu, 309, Pinheiros, São Paulo – SP

Funcionamento:

Bar: de terça a sábado, das 18:00 às 24:00. Domingo e segunda-feira fechado.

Loja: de segunda a sábado, das 12:00 às 24:00. Domingo fechado.

Capacidade máxima: 70 pessoas

Telefone: 11 3031-0840

Instagram: @caledoniawhiskyco