Drink do Cão IV ou Fidedignidade – Smoked Rob Roy

robroy

Toda vez que assisto um filme de Hollywood baseado em fatos reais, tenho o mesmo pensamento. Que aquilo aconteceu com gente bem mais feia, e mais ou menos daquele jeito. Geralmente, mais para menos do que para mais. E Rob Roy, estrelado por Liam Neeson e dirigido por Michael Caton-Jones, não é uma exceção.

O filme chegou por aqui com o nome de Rob Roy: A Saga de Uma Paixão. Um título bem cretino, que já indicava que a história real de Robert Roy MacGregor e aquela retratada na tela teriam poucos pontos de contato. E tudo bem que é divertido assistir o Liam Neeson matando todo mundo (aliás, só por isso fizeram Busca Implacável 1, 2 e 3, certo?), mas tudo tem limite.

Primeiro, Robert Roy era horroroso. Não que o Liam seja um exemplo de beleza masculina, mas seu grau de semelhança com Rob é o mesmo que eu tenho com um nematelminto. Em segundo, o filme simplesmente desliza sobre acontecimentos históricos importantíssimos, como a batalha de Glen Shiel, capitulo essencial na vida do herói escocês. Ao invés disso, o diretor insiste em focar a trama em Robert e sua esposa, Mary, cumprindo com suas obrigações conjugais em um campo florido de urze.

 

Separados no nascimento
Separados no nascimento

Mas Robert Roy MacGregor não inspirou apenas filmes medíocres. Em 1894, um bartender do hotel Waldorf Astoria em Nova Iorque criou um coquetel em sua homenagem. Na verdade, a homenagem foi indireta. O drink teria sido criado como referência à opereta homônima, composta por Reginald De Koven e Harry Smith, que contaria a historia do herói escocês. Nunca assisti à opereta, mas não me surpreenderia se ela fosse mais fiel à realidade do que o filme. Afinal, até uma adaptação feita por minha filha de um ano e meio usando bonecos de meia seria mais fidedigna.

O coquetel Rob Roy é, basicamente, um Manhattan, substituindo-se o bourbon por whisky escocês. Até aí, algo um tanto óbvio. Mas a genialidade por trás dessa substituição elementar é que, como há variedade de sabores muito maior em whiskies escoceses do que bourbons, pode-se criar versões diferentes do coquetel, trocando-se apenas seu ingrediente central.

Foi isso que fez o amigo Fernando Lisboa, já citado neste blog. Como coquetel de boas vindas a uma degustação de peated whiskies promovida pela Single Malt Brasil no último sábado, o bartender utilizou um whisky turfado, o Black Grouse, e brincou um pouco com as proporções do coquetel. O resultado foi genial. O drink, que já era bom, ficou excelente. Afinal, tudo que já é bom, melhora quando defumado.

Assim, desta vez este Cão fugirá do tradicional, e ensinará a versão melhorada – na minha opinião, claro – do famoso coquetel. Peguem seus smartphones e tablets, porque aí vai a segunda aula de mixologia por Coquetéis Treze e este ébrio canídeo que vos escreve:

SMOKED ROB ROY:

INGREDIENTES:

Para fazer o coquetel você vai precisar de:

  • 50ml de algum whisky defumado (este Cão fez com o Johnnie Walker Double Black. Fernando Lisboa faz com Black Grouse. Os dois ficam bons. Ardbeg funciona também, mas neste caso, reduza um pouco a proporção, senão o single malt dominará completamente o coquetel).
  • 25 ml de vermute ( como já sabem, ou não, este Cão normalmente usa Carpano Antica Formula. Mas o coquetel ficará bem decente também com Carpano Classico. Só evite o Punt e Mes).
  • Angostura (nem tente substituir por outra coisa. Exceto se você for um ás da coquetelaria, e por algum motivo, em algum momento da sua existência, tiver se dado ao trabalho de comprar outro bitter não disponível no Brasil, como o da Bitter Truth. Se não, vá de Angostura mesmo)
  • Gelo
  • taça de martini ou taça coupé (isso é aquela taça que o Leonardo DiCaprio segura e brinda com a câmera na adaptação de Grande Gatsby. É também a taça da foto acima. Suba lá e veja novamente)
  • Mixing glass (ou qualquer outro copo grande e largo que você possa usar para misturar os ingredientes)
  • Strainer (ou qualquer peneira de cozinha mesmo)
  • Laranja Bahia (opcional)

PREPARO:

Gele a taça. Pode coloca-la no freezer, mas o jeito mais rápido e eficiente é colocar algumas pedras de gelo e água dentro dela, até o momento em que for transferir o coquetel.

No mixing glass, coloque três pedras de gelo e os dois ingredientes líquidos do coquetel. Vire o vidrinho de angostura e dê umas duas chacoalhadas (dois dashes), de forma que algumas gotas caiam sobre o coquetel. Utilize uma colher para mexer a mistura por uns três ou quatro segundos.

Transfira o conteúdo do mixing glass para o copo com gelo, utilizando a peneira ou strainer. A ideia é que o líquido passe sem o gelo, para não diluir mais.

Opcional – você pode dar um toque cítrico adicionando um pedaço de uns três centímetros da casca da laranja bahia. Basta jogá-lo dentro do coquetel.

Pronto. Quando terminar este, pode tentar com outro whisky ou ingrediente à sua escolha. Há grandes chances de ficar genial. Ou, pelo menos, melhor do que o filme estrelado por Liam Neeson.

One thought on “Drink do Cão IV ou Fidedignidade – Smoked Rob Roy

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *