Bebendo o Oscar 2020 – Relacionando filmes e whisky

Estava pensando sobre algumas tradições. Coisas banais, que fazemos todo dia, sem nem perceber. Tipo cumprimentar alguém com um aperto de mão. Além de ser um negócio que não tem muita lógica, é uma prática meio anti-higiênica. Cara, eu sei lá onde você enfiou essa sua mão, mas vamos contribuir para a disseminação de todo tipo de moléstia. Aperta aqui. Isso sem mencionar quando a mão do coleguinha está molhada. Isso aí é água mesmo, seu porco? Mas tradições são assim. Elas não precisam fazer sentido. Como, por exemplo, uma que criei aqui no Cão Engarrafado, e que reúne dois dos meus maiores interesses. Cinema e whisky. Há quatro anos, lancei uma matéria comparando os filmes do Oscar com certos rótulos. O post fez sucesso, e repeti a fórmula nos anos seguintes. É um post absolutamente inútil, que só seve mesmo para exercitar minha quase perturbadora capacidade de abstração. Escolhi três indicados ao prêmio de melhor filme, que assisti e relacionei com suas almas gêmeas do mundo da melhor bebida do mundo. Da ingenuidade infantil de Jo Jo Rabbit à aflitiva agonia de Coringa, os indicados ao Oscar de 2020 estão incríveis (aliás, bem melhores do que nos anos interiores). […]

Dalmore Cigar Malt Reserve – Forma e Função

Esta matéria foi originalmente escrita para o website charutando.com.br . Porém, com o lançamento oficial do Dalmore Cigar Malt Reserve no Brasil, reproduzimos aqui o conteúdo. Ferdinand Porsche uma vez disse “Se analisarmos a função de um objeto, seu formato geralmente se tornará óbvio”. Em outras palavras, a concepção, o desenho de certo objeto, deve ser escrava de seu propósito. Ferdinand Porsche realmente entendia muito sobre o design de automóveis, mas, provavelmente, nunca viu um talher de peixe na vida. Vou começar pelo garfo. O garfo de peixe é simplesmente um garfo comum, sensivelmente menor, mais gordo e com um dente a menos. E não há nada de especial nele além disso. Nada em seu projeto torna a tarefa de levar o animal marinho à boca mais fácil. Por essa razão, o garfo de peixe simplesmente não deveria existir. Mas o pior não é ele. O pior mesmo é a faca de peixe. A faca de peixe é um dos objetos da cutelaria que mais me intriga. Porque, para falar a verdade, ela não é boa para nada. Mas ela é especialmente ruim para se usar no peixe. Aquela reentrância – cujo propósito deveria ser auxiliar na separação das espinhas […]

Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal

Sol alto no limpo céu de verão de 1809. Uma multidão tão vasta quanto eclética se reunia sobre a grama de Newmarket Heath. Havia homens, mulheres e crianças de tão distintas classes sociais que aquele mais parecia um experimento babélico da estratificação social inglesa do século dezenove. Fazendeiros locais dividiam espaço com fidalgos e burgueses. Em comum, semblantes que ora demonstravam curiosidade, ora antecipação. Do meio do burburinho – tão comum nestas grandes aglomerações – se podia distinguir uma frase “mil milhas em mil horas, por mil guineas“. Aquela era a aposta de um homem e a razão de tamanha reunião. Seis semanas antes, o Capitão Robert Barclay havia apostado contra seu conhecido, James Wedderburn-Webster, que ele conseguiria correr mil milhas em mil horas por mil guineas. Um desafio que, mesmo para os padrões atuais, seria um tanto arrojado. Não apenas fisicamente, ainda que correr vinte e quatro milhas por dia, ao longo de seis semanas, já esteja no limiar do impossível. Mas financeiramente também. Mil guineas, atualmente, corresponderiam a aproximadamente quatro milhões de libras – ou vinte e quatro milhões de reais. Aquele realmente não era um desafio para um homem qualquer. Mas o Capitão Barclay estava longe de […]

Kilchoman Port Cask Matured (2018)

Uma vez, contei a vocês como me apaixonei à segunda vista pela incrível Bowmore. O que não contei é que, na mesma viagem, me desiludi com uma destilaria que antes nutria altas expectativas. A Kilchoman – na data de minha viagem, a menor, mais jovem e mais promissora destilaria da ilha de Islay, famosa por seus whiskies enfumaçados. Não que tenha detestado o lugar. Longe disso. Considerando seu tamanho e juventude, a Kilchoman se saía muito bem. Mas a comparação, talvez injusta de certo ponto de vista, com algumas de suas vizinhas, como Bruichladdich e Bowmore, à deixava em desvantagem. Não havia nada de errado com os maltes da Kilchoman. Mas, minha impressão, é que não havia nada de extraordinário também. Porém, foi apenas bons dois anos depois, em outra viagem e do outro lado do Oceano Atlântico, que minha impressão se dissipou. Durante uma visita ao incrível Flatiron Room de Nova Iorque, pude provar o Kilchoman Port Cask Matured – single malt da destilaria com 50% de graduação alcoólica, e finalizado em barris de vinho do porto. E, como vocês sabem, tenho uma certa obsessão por whiskies e vinhos do porto. O Kilchoman Port Cask Matured 2018 é o […]

Chivas Regal Mizunara – Tentáculos

O Japão. Uma nação tão bizarramente fascinante quanto fascinantemente bizarra. Por muitos séculos, especialmente por se tratar de um país insular, o Japão desenvolveu sua cultura com pouquíssima influência exterior. E daí surgiram uma porção de coisas mesmerizantes, como palácios, culinária, samurais e trens que chegam a trezentos quilômetros por hora. E apareceram também algumas coisas bem esquisitas. O Japão, aliás, tem uma tolerância incrível ao esquisito. Por exemplo, melancias quadradas. Lojas de abraço. Privadas que tocam música. Gente usando orelhas de gato – aliás, uma obsessão incompreensível por felinos, que talvez só seja superada em sua inexplicabilidade pela adorada pornografia com tentáculos. Se vocês duvidam de mim, basta googlar. Ou melhor, não façam isso não. Dados nunca morrem. Daqui duzentos anos, seu legado digital ainda estará manchado por pornografia com tentáculos (não clique aqui, por exemplo). E tem o whisky. Os japoneses também são obcecados por whisky. Tanto é que no começo do século vinte, dois malucos – Masataka Taketsuru e Shinjiro Torii – resolveram que produziriam whisky tão bom como o escocês por lá. E conseguiram. Atualmente, o whisky japonês é uma febre tão grande que a própria Escócia voltou seus olhos – e língua – para o […]

Royal Salute Snow Polo Edition – Sofisticação galopante

Corrida de pombos. Se você me perguntasse qual um dos esportes preferidos da família real inglesa, eu jamais diria corrida de pombos. Mas de acordo com a revista Vogue, a atividade é apreciada pela realeza desde 1886, quando o rei Leopoldo II da Bélgica os presenteou com algumas dessas (nem tão) galantes e velozes aves. O que me intriga é que tal trufe seja considerada um esporte. Afinal, o único que se esforça é o pombo. Mas a família real inglesa também pratica outros esportes, diremos assim, menos sedentários. Como, por exemplo, o Rugby, jogado pelos príncipes William e Harry; e o esqui na neve, favorito de Charles. Porém, talvez, o jogo mais essencialmente real – que mais encapsule a sofisticação dos fidalgos mais queridos do mundo – é o polo equestre. De novo, conforme a Vogue, Philip, Charles, William e Harry praticaram ou praticam o esporte. O Polo Equestre é tão querido que até o pequeno George já possui uma daquelas marretinhas engraçadas. Assim, é natural que uma marca de whiskies inspirada na realeza britânica como a Royal Salute, e que com ela compartilhe valores como sofisticação e elegância, preste homenagem a tão querido passatempo real. Daí que surgiu […]

Arran Machrie Moor – O Cão Defumado

Tendo nascido numa época que predatava o uso indiscriminado da internet, vi minha infância afligida por muitas dúvidas de grande relevância. Uma delas – que me atormentava toda vez que tomava café da manhã – era: quem, afinal, estava representado na caixa da farinha Quaker? E outra indagação ainda mais angustiante, mas da mesma natureza: quem era o simpático velhinho do luminoso do KFC? Se pudesse pesquisar essas coisas online, seria fácil. Saberia que o distinto senhor do frango frito é o Coronel Sanders, importante personagem da história norte-americana. E que o – tampouco jovem – homem da farinha de aveia Quaker é, na realidade, ninguém. Ele fora desenhado de acordo com a fé dos Quaker, para representar os valores de honestidade, integridade, pureza e força. Todo esse conhecimento estaria na ponta de meus dedos, bastasse uma rápida pesquisa pela Internet. Mas não. Tive que esperar a democratização da tecnologia para aplacar minha aflição indagatória. Recentemente me vi mais uma vez curioso sobre a embalagem de algo. Desta vez, um whisky. O Machrie Moor, expressão defumada da destilaria Arran, localizada na ilha homônima. É que o whisky possui um simpático cão ilustrado em seu rótulo. Uma imagem bonita, mas que […]

Lançamento da linha Royal Salute na Coréia do Sul

Sempre fui apaixonado por livros. Gosto de ler quase tudo, ainda que tenha lá meus autores favoritos. Prefiro prosa à poesia, e tenho certa tendência pela ficção. Mas também aprecio um poema ou alguma biografia, desde que escritos com esmero. Assistir um filme ruim, de vez em quando, até tudo bem. São apenas duas horas. Mas a vida é curta demais para subliteratura. Meu interesse pela leitura despertou ainda como Cãozinho, quando ouvia contos de fadas contados pelo Cão pai. Como qualquer criança, me fascinavam as histórias fantásticas, em países distantes, eivados de mágica e populados por reis, rainhas, alquimistas e criaturas mágicas. Castelos e objetos insólitos complementavam a atmosfera cativante. E ainda que sempre me colocasse no papel de algum personagem da história, imaginava que contos de fadas pertenciam ao mundo do faz-de-conta. Na atrocidade de nossa realidade, eles não passariam de um gênero literário. Mas, aparentemente, estava enganado. Como num átimo de magia, tive um de meus mais improváveis desejos concedidos. Quer dizer, ao menos para um apaixonado por whiskies, como este Cão. É que fui convidado pela Pernod-Ricard para viajar até a Coréia do Sul – um país bem distante – para provar, antes de todo mundo, […]

Arran The Bothy – Sobriedade

Tenho uma relação complicada com uma porção de coisas. Comida, automóveis, plástico bolha (afinal, sucumbo à tentação de estourá-los ou uso para proteger garrafas?). E antibióticos. Porque eu entendo a importância dos antibióticos – afinal, eles nos permitiram escolher entre a dor de estômago ou uma morte lenta, definhante e de dor excruciante. Mas eu detesto tomá-los. E nem é porque dá gastrite, ou pela disciplina do horário. Mas porque tenho que parar de beber. Por. Dez. Dias. Toda vez que tomo antibiótico e me deparo com uma garrafa de whisky, me sinto como meus confrades quadrúpedes observando aquela televisão de cachorro na padaria. Impotentes, sofregamente observando o frango girar, mas incapazes de se desvencilhar daquela visão. Foi justamente o que aconteceu com o The Bothy, recém-importado para o Brasil pela Single Malt Brasil. Recebi minha garrafa no segundo dia de antibióticos um tratamento de dez. Passei oito languidos dias olhando de soslaio a garrafa fechada sobre minha estante. Até que, depois de doze horas do último comprimido, numa bela quarta-feira, finalmente estava livre. Desci o líquido na taça com antecipação. Era a primeira vez que provava o whisky. Seu aroma me atingiu quase instantaneamente. Tomei um minigole. Com graduação […]

Chivas Regal XV – Sofisticação despojada

Esses dias fui almoçar no shopping, e vi uma bolsa feminina de palha na vitrine de uma loja de grife. Olha, eu não presto muita atenção bolsas, mas aquela era uma bem bonita. Ela tinha um ar elegante, mas sem ser pretensioso. Pensei em comprar para a Cã, de aniversário de casamento. Fazia um bom tempo que não dava um presente para ela. Entrei na loja em passos largos, me sentindo resoluto. A Cã iria amar a surpresa. Passei uns minutos observando a bolsa, braços pra trás, simulando interesse pela peça e aguardando que alguém me atendesse. Uma vendedora, notando minha encenação, se aproximou. Gostou da bolsa? Sim, queria dar pra minha esposa. A vendedora então tirou a bolsa da vitrine e a apoiou num mostruário. Passando a mão delicadamente por sua lateral – da bolsa – disse. Olha só, a palha é tratada com um produto especial para ser durável. E o design é italiano. É um design despojado, mas elegante, perfeito pra levar pra praia. Seja pra Pipa ou pra Mikonos. Nossa, realmente, é muito bonita, muito especial – retruquei, tentando chegar logo à parte do preço. A vendedora então puxou, com o cuidado de quem desarmava uma […]