Cameron’s Kick – Inominado

 

Hoje vou inverter o texto. É que vou falar de um coquetel que ninguém conhece bem a história. Um drink que leva orgeat, limão siciliano e dois tipos de whisky – irlandês e escocês. Mas cuja origem é totalmente desconhecida. E a razão do nome, mais ainda. O Cameron’s Kick. Nem grandes estudiosos da coquetelaria possuem a mais rasa ideia de quem era esse tal de Cameron. E por que o coquetel teria sido batizado em homenagem a um chute do ilustre desconhecido. A nós, resta apenas especular.

Talvez o drink seja uma homenagem ao diretor James Cameron, e a vontade que eu tenho de chutar a cabeça dele depois de ter perdido três horas da minha vida vendo Avatar. Aliás, sei lá porque eu resolvi ver Avatar, já que eu sabia que o filme tinha três horas e era dirigido pelo mesmo cara que me fez perder outras cinco horas e meia, ao todo, assistindo o Titanic e o Segredo do Abismo. Pelo menos tem True Lies e Terminator. Que não compensam o naufrágio que são os outros dois filmes. Mas deixam a situação um pouco melhor.

Gente, mesmo com um cara voando num míssil, esse filme é melhor.

Pode ser também que tenha sido um tributo ao ex-primeiro ministro inglês David Cameron, e sua incrível capacidade de chutar – e ser chutado – por todo mundo, independente de credo ou origem, ganhando o ódio de grupos tão distintos quanto o Estado Islâmico, a União Européia e a Escócia.

A teoria mais plausível, entretanto – considerando a data em que o drink primeiro figurou na literatura especializada – é que ele tenha sido batizado em louvor à batalha de Inverlochy, quando o Clan Cameron lutou lado a lado com os irlandeses e derrotou o Clan Campbell, em 1645. O que faz sentido, já que a receita leva tanto Irish quanto Scotch Whisky.

Seja como for, a primeira aparição do Cameron’s Kick foi no Savoy Cocktail Book de Harry Craddock, em 1930. Mais tarde, em 2005, a mistura figurou no Killer Cocktails, de David Wondrich. Este Cão, porém, tomou conhecimento do drink durante um evento organizado pelo Difford’s Guide, que contou com o mestre Spencer Amereno atrás do balcão – o Discerning Drinker’s Club. Na oportunidade, o bartender preparou uma receita sensivelmente diferente, com orgeat de baru.

O Cameron’s Kick é aquela espécie de coquetel que tem tudo para dar errado. Porém, o drink se mostra inacreditavelmente equilibrado e complexo. O orgeat – calda de amêndoas – cria um contraponto excelente com o limão, e ressalta a característica amadeirada dos whiskies. Há, porém, um ponto curioso, que talvez mereça um pouco mais de atenção. A dupla base, que conta com irish whiskey e scotch whisky em proporções iguais. É algo que não faz muito sentido – há whiskies tanto escoceses quanto irlandeses que, sozinhos, poderiam suprir a falta do outro na mistura.

Assim como o nome do coquetel, nos resta especular. Este Cão, porém, possui uma teoria. É que antes de 1930, especialmente durante a época da lei seca norte-americana, boa parte das destilarias escocesas produzia malte defumado. Essa era uma característica de muitos whiskies de Campbeltown – a cidade que outrora foi considerada a capital mundial do whisky, e contava com mais de vinte destilarias. Então, talvez, esta seja a intenção por trás da curiosa dupla base. Talvez seu criador tenha pensado em algum whisky defumado, mas ao escrever a receita, especificou apenas whisky escocês – que teria sua pungência aliviada pelo irlandês.

Nossa, que interessante.

Outro ponto que merece atenção é a calda de amêndoas, conhecida como orgeat. Há produtos industriais que podem economizar seu tempo nesse estágio, ainda mais se você estiver com pressa para beber. Porém, estas caldas possuem um dulçor muito superior àquele que seria o resultado de um produto artesanal. Então, se utilizar uma delas, tome cuidado para que o coquetel não fique excessivamente doce. Reduza a quantidade, ou dilua um pouco a calda.

Enfim, minha intenção aqui não é desperdiçar seu tempo, meu caro – se fosse isso, te recomendaria ir ver Titanic ou O Segredo do Abismo ou quase qualquer coisa do James Cameron sem o Schwarzenegger. Minha intenção é que você beba melhor. Então, sem mais especulações ou planos sequência, aí vai a receita do tão misterioso quanto excelente Cameron’s Kick. Seja lá quem for esse sujeito.

CAMERON’S KICK

INGREDIENTES

  • 30ml irish whiskey
  • 30ml scotch whisky
  • 15ml suco de limão siciliano
  • 10ml orgeat
  • gelo
  • parafernália para bater
  • taça coupé

PREPARO

  1. Adicione, em uma coqueteleira, todos os ingredientes com bastante gelo
  2. bata vigorosamente
  3. desça o conteúdo da coqueteleira em uma taça coupé.

 

Tullamore D.E.W. – Drops

Quando ela pedia whisky, sempre escolhia Tullamore Dew. Se você é fã de literatura sueca, provavelmente está familiarizado com a citação anterior. Ou não. Porque, também, há coisas mais importantes para atentar enquanto se lê um livro do que as preferências etílicas dos personagens. Quer dizer, a não ser que você seja eu.

A citação vem do bestseller “The Girl With a Dragon Tattoo”, miseravelmente traduzido como “Os homens que não amavam as mulheres”, talvez em uma brincadeira sem o menor sentido com um filme do Truffaut. Seja como for, o livro é um belo romance policial, que alçou fama após uma excelente adaptação do cinema sueco, e foi posteriormente (quase) arruinado por uma (quase) medíocre versão americana.

A frase faz referência ao whiskey preferido de Lisbeth Salander, uma das personagens centrais da trama. A referência ao Tullamore D.E.W. é tão importante – e relembrada ao longo da obra – que a Tullamore Dew a estampou em seu website por bastante tempo.

A Tullamore D.E.W. é a segunda maior destilaria de whiskey da Irlanda em volume de vendas – apenas atrás da Midleton, responsável pela Jameson. Ela foi fundada por Daniel E. Williams – por isso as iniciais D.E.W. – e atualmente pertence à William Grant & Sons, a mesma proprietária da Glenfiddich, Balvenie e da recente e monstruosa Ailsa Bay.

A Tullamore

O Tullamore D.E.W. é composto de três tipos de whiskey, se assim pudermos chamá-los. Malte de cevada, à moda dos single malts, grão destilado em alambiques de cobre, e grão destilado em destiladores contínuos. As três porções são produzidas praticamente sob o mesmo teto. A maturação e o engarrafamento também ocorrem in-loco, o que faz com que a destilaria tenha controle sobre praticamente todos os estágios de produção do whiskey.

Sensorialmente, é um whiskey leve, com notas herbais, de baunilha e caramelo. Não há fumaça, e o corpo é bem leve. Aliás, em matéria de aroma e sabor, é muito próximo de seu maior concorrente – o Jameson. E para apreciá-lo, você não precisa ser uma hacker durona. É um whiskey que não demanda qualquer esforço para ser bebido e que agradará a maioria dos paladares.

TULLAMORE D.E.W.

Tipo: Irish Whiskey

Marca: Tullamore

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Frutado, adocicado, baunilha.

Sabor: Frutado, adocicado. Final médio, com caramelo, madeira e baunilha.

Chivas 25 anos – Arquitetura Orgânica

Menos é mais somente quando mais é demais“. A máxima, quase um trava-línguas, é de Frank Lloyd Wright, e uma provocação a Mies van der Rohe e a Bauhaus.

O renomado arquiteto acreditava que a forma deveria acompanhar a função. Wright também dizia que cada projeto deveria ser individual, de acordo com sua localização e sua finalidade. As edificações projetadas por Wright são sofisticadas e belas, mas de uma sofisticação orgânica, quase natural. É como se fizessem parte do ambiente, e dele tivessem nascido e evoluído.

Uma de suas obras mais célebres é o museu Guggenheim, em Nova Iorque. Ele foi projetado e construído entre 1943 e 1959 – seis meses após o falecimento de Wright. Linhas infrequentemente retas e uma rampa que lhe serve de espinha dorsal – e que também permite que o visitante vá, aos poucos, experimentando e descobrindo o prédio – o fazem incrivelmente impactante.  Até hoje o Guggenheim continua como um dos mais expressivos prédios da metrópole, ao mesmo tempo orgânico e impactante para sua localização.

Se fosse um whisky, o museu Guggenheim provavelmente seria o Chivas Regal 25 anos. Sofisticado, mas ao mesmo tempo equilibrado e harmônico. E, assim como o museu, com seus alicerces fortemente fincados no solo da maior metrópole americana – Nova Iorque.  O blend original fora criado em 1909 pelo master blender Charles Howard, e voltado para a alta sociedade daquela cidade. Com alto percentual de single malts, a ideia da marca era oferecer uma experiência mais complexa, sofisticada e elegante seus exigentes consumidores.

O blend original

Por um breve período, o Chivas Regal 25 anos – muitas vezes referido como o primeiro scotch whisky de luxo do mundo – foi um enorme sucesso. Porém, em 1914, por conta da Primeira Guerra Mundial, as rotas de exportação para os Estados Unidos foram comprometidas. E a Chivas Regal, que encontrara no mercado norte-americano sua maior base de consumidores, deixou de exportar seu whisky.

O atual Chivas 25 anos é um tributo àquela primeira expressão da Chivas Regal, que também possuía um quarto de seculo de maturação. Noventa e oito anos depois, em 2007, a Chivas Regal relançou aquela que teria sido sua mais sofisticada e célebre expressão. Seu evento de lançamento não poderia ter ocorrido em outro lugar senão, claro, Nova Iorque. A cidade que lhe alçou à fama internacional.

O  responsável pela composição do atual Chivas Regal 25 anos foi Colin Scott, atual master blender da Chivas Regal. Aliás, Colin trabalha para a marca desde 1973, e se tornou master blender em 1989. Incrivelmente, sua trajetória na Chivas Regal é mais longeva até mesmo do que sua luxuosa criação.

O coração do atual Chivas Regal 25 anos é o single malt Strathisla. A destilaria homônima, onde é produzido, é uma das mais antigas da Escócia, e passou a desempenhar um papel central nos blends da marca ao ser adquirida pela Seagram’s, em 1950. Localizada na região de Speyside, ela é também o lar espiritual da Chivas Regal. Seus whiskies são extremamente aromáticos, e possuem sabor frutado, floral e de especiarias. Nas palavras de Colin Scott, “este clássico single malt de Speyside é profundamente frutado, com uma gama de sabores de nozes e flores, e é o coração de todos os blends da Chivas Regal

Colin Scott no lançamento de uma edição limitada do Chivas Regal 25, em Dubai.

Sensorialmente, o Chivas 25 anos é delicado e floral e quase organicamente equilibrado. Nenhuma nota se sobressai de forma artificial. Há um certo sabor de malte, equilibrado pela madeira, que traz nozes e frutas vermelhas. O final é longo e remete a anis e frutas em calda. E por mais difícil que seja declarar isto, a defumação é imperceptível – se existir – e não faz a menor falta neste blend.

O Chivas Regal 25 anos foi extremamente bem recebido, tanto pelo público quanto pela mídia especializada. Jim Murray, em sua Whisky Bible de 2010, lhe atribuiu 95 pontos, elegendo-o como o melhor blended scotch whisky com idade superior a dezoito anos. Além disso, o whisky recebeu medalha dupla de outro na San Francisco World Spirits Competition em 2013 na categoria de Blended Scotch, e prata na International Wine & Spirits Competition de 2017 na categoria de blends de luxo.

No Brasil, uma garrafa do Chivas Regal 25 anos custa em torno de R$ 1.900,00 (mil e novecentos reais). Nesta faixa, é um exercício de futilidade falar sobre custo-benefício. O que se compra – e o que se recebe com louvor – é a exclusividade, o refinamento e a sofisticação. Assim como o Guggenheim museum somente poderia ter sido construído em Nova Iorque, o Chivas Regal 25 somente poderia ter nascido da Chivas. Uma marca com centenária experiência no mercado de luxo. Os criadores do primeiro blended whisky de luxo do mundo.

CHIVAS REGAL 25 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 25 anos

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: floral e amadeirado, com amêndoas e alcaçuz.

Sabor: suave e equilibrado, com frutas vermelhas, amêndoas, madeira. Poucas especiarias. Final longo e progressivamente mais adocicado, com mais alcaçuz.

Com água: A agua torna o whisky menos adocicado.

Preço: R$ 1.900,00 (mil e novecentos)

Jack Daniel’s Bottled in Bond – Drops

Se você é um apaixonado por whiskey americano, talvez você saiba que sua época embrionária não foi nada gloriosa. De fato, apenas uma pequena fração do que era destilado no século dezenove na América poderia hoje ser considerado um american whiskey, de acordo com nossos padrões atuais. O publico também não ajudava muito – os cowboys estavam longe de serem grandes degustadores sofisticados.

O que importava era, bem, ficar bêbado.  Então qualquer coisa que envolvesse muito álcool era bem recebida nos saloons. Muitas vezes, o que se bebia nem era whisky. Mas sim álcool neutro misturado com algo que lhe desse cor ou algum sabor, para emular a bebida real. Essas fusões podiam incluir uma pletora de coisas, desde melaço até glicerina e ácido sulfúrico. Aliás, boa parte dos casos de pessoas que ficaram cegas bebendo algo que acreditavam ser whiskey – como reza a lenda – aconteceu por conta dessas combinações.

Uma das tentativas de resolver a questão – e fazer o público deseducado beber melhor – partiu do Governo Federal dos Estados Unidos. Em 1897, foi promulgado o “Bottled in Bond Act”. De acordo com esta lei, whiskies que atendessem a certos requisitos de qualidade poderiam estampar, orgulhosamente, em seus rótulos, a expressão “Bottled in Bond”. Os requisitos eram (a) ser produzido em uma única temporada de destilação (de janeiro a junho, ou de junho a dezembro), por uma única destilaria; (b) maturar em uma “bonded warehouse” sob a supervisão do governo por no mínimo 4 anos; e (c) possuir 50% de graduação alcoólica.

O Jack Daniels Bottled In Bond, tema desta prova, presta homenagem a esta lei. Aliás, engarrafamentos “Bottled in Bond” têm sido uma tendência. De acordo com a destilaria “Durante a decada de 1890, o Sr. Jack Daniel’s engarrafou seu whiskey na hoje familiar garrafa quadrada, para garantir sua qualidade “Até que o selo fosse violado”. O governo dos Estados Unidos então entrou na onda, e divulgou o “Bottled in Bond Act” identificando whiskey produzido em uma unica destilaria, de uma única temporada, maturado em um armazém alfandegário e engarrafado a 100 proof (50% ABV).

Outros rótulos Bottled in Bond (foto: Serious Eats / Vicky Wasik)

A história real, porém, não é bem assim. O Governo norteamericano não promulgou a lei porque o lendário Jack teria colocado seu whiskey na garrafa quadrada. A garrafa foi criada apenas para identificar o produto da Jack Daniel’s mais facilmente, atestando sua qualidade. Em outras palavras, não há uma relação direta entre a garrafa quadrada e o Bottled in Bond Act. Exceto que as duas coisas aconteceram em um intervalo de tempo de menos de três anos e que, discutivelmente, participaram da mesma tendência. A garrafa quadrada da Jack Daniel’s é datada de 1895, e o Bottled in Bond Act, de 1897.

Além de prestar homenagem à lei, como seria de se esperar, o Jack Daniel’s Bottled in Bond segue todos seus requisitos. O que, sensorialmente, não faz muita diferença, se compararmos com o tradicional Jack Daniel’s Old No. 7. Exceto por um detalhe bem importante. A graduação alcoólica. O Jack Daniel’s Bottled In Bond possui 10 pontos percentuais a mais de álcool, se comparado ao seu irmão mais comum. Algo mais do que notável.

Sensorialmente, o Jack Daniel’s Bottled in Bond é mais apimentado e alcoólico que o Old No. 7 – o que é de se esperar. Ele é também um pouco mais adocicado. Na verdade, a expressão que mais se compara a ele não é o mais tradicional dos Jack Daniel’s, mas sim uma edição especial. O Jack Daniel’s 150th Anniversary Edition, que também possui 50% ABV. Comparado a ele, o Bottled in Bond parece menos amadeirado e mais doce, ainda que essa diferença seja quase marginal, e somente perceptível com mais clareza se bebidos lado a lado.

Ainda que tenha o visual vintage do Old No. 7 , o Jack Daniel’s Bottled in Bond é bem recente. Ele foi lançado no segundo semestre de 2018. Porém,  já está disponível nos principais aeroportos com terminal internacional no Brasil, nas lojas de Duty Free. Seu preço é de US$ 42,00 (um pouco superior àquele do Old No. 7, mas, ainda assim, razoável).

Se você é um fanático pelos produtos da Jack Daniel’s, gosta de whiskeys com graduação alcoólica relativamente alta ou apenas aprecia uma boa história, não deixe de conferir o Jack Daniel’s Bottled in Bond. E ao contrário do whiskey servido no tempo das diligências, a gente te garante que a única cegueira que ele poderá te dar é aquela da admiração.

JACK DANIEL’S BOTTLED IN BOND

Tipo – Tennessee Whiskey

ABV – 50%

Região: N/A

País: Estados Unidos

Notas de prova

Aroma: adocicado, caramelo, açúcar mascavo, baunilha.

Sabor: adocicado, frutas em calda, baunilha, mel, especiarias. Um pouco de acetona. Final longo, um pouco agressivo, com baunilha e toffee.

Com água: a água torna o final mais adocicado e curto.

Uso de whisky na coquetelaria – Transgressão

Hoje irei direto ao ponto. Sem longas introduções ou comparações, mesmo porque haverá oportunidade para isto no meio deste texto.

Há alguns dias lancei um post sobre um coquetel que sou apaixonado. O Rusty Compass. Ele é resultado do cruzamento entre um Blood and Sand e um Rusty Nail, e leva whisky turfado. Uma bela proporção de whisky insanamente turfado, capaz de superar o dulçor trazido pelo Drambuie. Depois de testar quase à exaustão e embriaguez, joguei a metafórica toalha e admiti – o melhor resultado levava Ardbeg. Um single malt de mais de trezentos reais. Era um drink tão delicioso quanto desesperadoramente caro.

Resolvi lançá-lo no Cão com essa ressalva. Relativizei um pouco a história, e até mesmo recomendei misturar outro whisky, e reduzir o Drambuie. Já esperava receber alguma repreensão de algum leitor, mas uma delas me pegou desguarnecido. É um pecado misturar whisky, whisky é pra tomar puro, já é cheio de sabor, ainda mais single malt. Me surpreendi. Eu não posso preparar coquetéis com whisky?

Meu futuro, depois de ter feito um Rusty Compass.

Deixe-me mudar o objeto para outro destilado. A vodka. Dave Wondrich uma vez disse que a ”A vodka é o peito de frango desossado e sem pele da coquetelaria – tudo tem a ver com o tempero“. Isso porque a vodka é um destilado cujo objetivo é ter o sabor mais neutro possível – ainda que, na prática, possamos notar até mesmo diferenças sensoriais por conta do terroir, como apontou Marcelo Sant’Iago, do Difford’s Guide.

Aliás, ela diverge da maioria dos destilados justamente por conta dessa característica, da busca pela neutralidade. Enquanto buscamos complexidade sensorial em destilados sofisticados, como whiskies e conhaques caros, procuramos o contrário na vodka. Quanto mais pura e neutra – ou seja, quanto menos sabor – mais sofisticada ela será.

Em relação à vodka, não há qualquer polêmica. Tanto entusiastas da vodka – devo confessar que conheço poucos – quanto produtores não veem qualquer problema em utilizar o destilado em coquetéis. Aliás, o mercado da vodka sempre foi essencialmente baseado na coquetelaria. Quando o consumo de gim aumentou, graças à preparação de coquetéis com o destilado, há alguns anos, o de vodka encontrou seu declínio.

Talvez isso tenha a ver com o fato da vodka ser, justamente, um destilado neutro. O que lhe dá sabor é a mistura. O whisky, porém, é uma bebida carregada de sabor. Seja por conta de seu new-make spirit defumado, no caso de certos maltes e blends, seja por conta de sua maturação em diferentes tipos de barricas, o whisky, sozinho, já possui imensa complexidade sensorial. Assim, alegadamente, utilizá-lo em um coquetel seria uma frivolidade.

Isso, no entanto, é uma tremenda simplificação. Talvez por preguiça, ou talvez pela enorme oferta de informações, em contraste com a escassez de tempo, somos induzidos a pensar – e escolher – entre pólos de dicotomias. Não há exceção ou ponderação, apenas absolutos. A é oposto a B, e só há A e B. Não há tons de cinza, exceto na subliteratura. E isso não apenas empobrece o discurso, como cria falácias. Mas já que você, querido leitor, chegou até este ponto do texto, vejo que esta é uma boa oportunidade para conduzir uma saudável – e cada vez mais rara – reflexão.

QUALQUER WHISK(E)Y.

Vou começar por uma observação simples. A Scotch Whisky Association (SWA) – a entidade de autorregulação escocesa responsável por produzir as mais importantes regras sobre Scotch Whisky – em seu website oficial, menciona a utilização de whisky em coquetéis. Segundo ela “não há regras para que tipo de scotch whisky deve ser usado em um coquetel, ainda que você vá descobrir que os blended scotch whiskies funcionam bem e são os mais comummente utilizados“.  A associação, inclusive, enumera e ensina a preparar algumas receitas. Então, bem, se a associação oficial escocesa responsável pela produção de whisky disse que pode, então, quem seria este canídeo para discordar?

Sede da SWA, onde todo mundo vai pro inferno quando morrer.

Além disso, há o argumento histórico. O (discutivelmente) primeiro coquetel do mundo – O Old Fashioned – utilizava whiskey. Whiskey, bitters, açúcar e gelo. Não há vodka, halls ou picolé. Drinks clássicos importantíssimos e muito mais antigos do que esta discussão purista, também. Como o Manhattan e o La Louisiane. Na realidade, o debate sobre o uso ou não de whisky como um insumo da coquetelaria nem deveria existir. O que deveria existir é uma discussão sobre qual whisky.

Para isto, deixe-me lançar mão de outra parábola. Imagine que você vá preparar um spaghetti carbonara. Há uma receita que pede queijo grana padano – que, aqui no Brasil, tem oferta escassa e preço um tanto elevado. Você, então, resolve substituir por parmesão. Não é a mesma coisa, mas a diferença não será tão gritante, exceto se seu paladar for muito treinado ou refinado. A receita vai funcionar. Talvez não tão bem quanto aquela de grana padano, mas ficará agradável. Porém, se você usar outro queijo muito diferente, um queijo frescal, por exemplo, ou requeijão, o resultado será muito diferente.

Você não precisa utilizar o queijo mais caro do supermercado, curado desde os tempos faraônicos e extraído das tetas de uma cabra virgem. Mas tampouco o mais barato. O custo de certo ingrediente é importante, mas não pode ser o único critério. Sua escolha deve se balizar no sabor da sua refeição. Em qual resultado você quer obter. Talvez um queijo mais curado e forte seja melhor do que algo mais delicado e cremoso para aquela receita. Da mesma forma – e voltando para o mundo do whisky – um coquetel como o La Louisiane exige um whiskey mais seco e picante – algo como um Bulleit ou Wild Turkey Rye – sob pena de ficar muito doce por conta do Benedictine.

OK. MAS NÃO COM SINGLE MALTS.

Bem, não é apenas a SWA que promove o uso de whisky na coquetelaria. Muitas marcas renomadas também o fazem. E nem estou falando de blends. A Glenfiddich, por exemplo, em seu website, enumera algumas receitas de drinks que levam seus maltes. Há, inclusive, uma criada pelo embaixador brasileiro da Glenfiddich, Christiano Protti. A Glenlivet, em seu website internacional, possui uma aba inteira apenas de coquetéis com seu malte – uma delas, inclusive, leva Glenlivet 15 anos, para aqueles que imaginam que apenas rótulos de entrada devem ser usados. A Auchentoshan, conhecido single malt das Lowlands escocesas, foi além. Desenvolveu um rótulo com o auxílio de bartenders, justamente para o uso em coquetéis – o Bartender’s Malt.

Todos os envolvidos também irão para o inferno.

Mas tudo bem, porque talvez você imagine que tudo isso é meramente marketing, e que whisky deve ser tomado apenas puro. Porque, sei lá, talvez não faça mesmo sentido usar um Glenfiddich onde se pode usar algo mais humilde. Há, entretanto, um elemento que deveria superar qualquer polêmica e abrir o gradiente entre o branco e o preto. Um elemento cada vez menos usado nos dias de hoje. O bom senso. Algo capaz de enriquecer a experiência sensorial. E não apenas por futilidade ou ostentação, como seria o caso de utilizar um whisky caro só por seu preço – mas por propósito. Meu caso, justamente, com o Rusty Compass.

Em certos casos, você somente conseguirá atingir determinado perfil sensorial se utilizar um single malt. Outro exemplo é um dos meus coquetéis favoritos – o Penicillin. O Penicillin é basicamente o remédio pra garganta da sua avó, se sua avó for uma entusiasta do whisky. Ele leva gengibre, mel, limão e dois tipos de whisky. Um frutado e outro bastante defumado – na receita original, o Compass Box Peat Monster, um blended malt de nicho, bastante defumado. Porém, por falta deste whisky no Brasil, as únicas opções que temos com perfil semelhante são single malts. Ardbeg 10 e Laphroaig 10.

Em casos como este, o uso do single malt não atende um capricho. Mas tem um propósito claro. Sensorialmente, é impossível atingir o mesmo resultado utilizando um whisky de outra categoria. É uma situação distinta da troca de um whisky mais em conta por outro mais caro – ou um single malt – com o mesmo perfil de sabor.

No final, o que mais importa é que a experiência seja boa. Da mesma forma que um entusiasta de whiskies investirá mais em uma garrafa mais sofisticada para ter uma experiência mais complexa, alguém que preza por seus coquetéis escolherá com esmero e propósito o whisky de sua receita, pelo mesmo motivo. A classificação nem importa tanto, ou, ao menos, não deveria importar.

O que todos buscamos é satisfação e alegria. E, para isso, há muito mais caminhos do que simplesmente A ou B.

Johnnie Walker Wine Cask Blend

Gosto é um negócio engraçado. Porque há uma miríade de coisas que eu sempre gostei. Peixe e western, por exemplo. Há outras que quis gostar, assim, voluntariamente. E aí passei a admirá-las por insistência. Como negroni e aquela cebola grelhada incrível com um pouquinho de azeite e sal.

Mas há outras coisas que não consigo gostar, independente de minha pertinácia. Uma delas é jazz. Eu chego às vezes até a ouvir um Miles Davis ou Thelonious Monk enquanto fumo um charuto, só pelo bem do cliché. E nessas situações, ainda que me sinta bem, quase não presto atenção na música. Jazz não me agride, mas não me seduz. E eu queria que fascinasse.

Outra dessas coisas é vinho. Queria muito gostar e conhecer vinho. Mas em parte por conta de minha natureza, em parte por uma questão de ter que escolher frentes de combate, sei muito pouco sobre vinho. Tanto é que minha bússola sensorial é invertida. Uma vez, me serviram um Jerez oloroso. Experimentei com atenção e logo concluí. Tem gosto de Macallan. Ou Aberlour, talvez.

E é curioso isso, porque a esfera dos vinhos não apenas tangencia a do whisky, como nela desempenha um papel importantíssimo. Há centenas de whiskies maturados em barricas previamente usadas por vinho. Não apenas single malts. Há blends que buscam inspiração no mundo dos vinhos. Um desses é o novo Johnnie Walker Wine Cask Blend, que acaba de chegar ao Brasil.

O Johnnie Walker Wine Cask Blend faz parte da série Blender’s Batch da Johnnie Walker, que produz rótulos – no conceito deles – experimentais. Como, por exemplo, o Johnnie Walker Red Rye Cask Finish, já revisto por aqui. No caso do Wine Cask Blend, a experiência fica por conta do uso de whiskies que passaram parte de sua maturação em barricas previamente utilizadas para maturar diferentes tipos de vinho.

Nas palavras da Johnnie Walker, mal traduzidas por este Cão “este blend único é influenciado pela experimentação da maturação em barricas de vinho, um projeto iniciado pelo master blender da Johnnie Walker, Jim Beveridge, há quase uma década. Em 2015, Aimee Gibson, do time de blenders da Johnnie Walker, assumiu parte do projeto e por experiências próprias, desenvolveu um maravilhoso novo whisky para a série Blender’s Batch“.

Aimee e sua criação

A empresa continua “Este blend acessível inclui whiskies maturados em barris de vinho. Ele é produzido com maltes das highlands, como Clynelish, e speyside, como Roseisle. Ele também inclui whiskies de grão bastante cremosos, como os de Cameronbridge. O resultado é um whisky leve e vibrante, com notas de frutas do pomar e do bosque“.

É uma declaração triplamente curiosa. Em primeiro, porque não há nada de experimental em maturar whiskies em barricas de vinho. A Glenmorangie, por exemplo, dedica boa parte de seu portfólio permanente a expressões finalizadas em diferentes tipos de vinho, como sauternes, jerez e porto. A Benromach até possui versões maturadas em Sassicaia e Chateau Sissac, e a Bruichladdich acaba de lançar o divino Port Charlotte MRC:01, defumado e parcialmente maturado em barricas de ex-Mouton Rothschild. Esta é uma prática relativamente comum, ainda que seja, talvez, um pouco mais rara com blended whiskies.

Em segundo lugar, a declaração não aponta de quais vinhos vieram as barricas do Wine Cask Blend, e nem qual a proporção dos whiskies maturados nessas barricas. E isso é estranho, porque Sauternes, Porto, Madeira, Jerez, Merlot, Dolcettos e Moscatel são todos vinhos. E, em sua boa maioria, tão distintos quanto um Laphroaig é de um Glenfiddich. Talvez a Johnnie Walker se refira a tintos. Mas isso é tão vago quanto especulativo.

E, finalmente, por conta de Roseisle. Para este Cão, esta é a primeira vez que a empresa menciona sua enorme destilaria de Speyside. Inaugurada em 2010, a planta é capaz de produzir quase dez milhões de litros por ano – um pouco menos do que a Glenfiddich – e foi projetada para fornecer diferentes tipos de single malt especialmente para a elaboração de blends sob a égide da Diageo.

Roseisle (veja os alambiques no interior da estrutura de vidro)

Sensorialmente, o Johnnie Walker Wine Cask Blend é um whisky leve e agradável. O álcool está relativamente bem integrado – mas talvez menos do que no Red Rye Cask Finish –  e a influência vínica é discreta, ainda que perceptível. Há uma predominância leve do dulçor do mel e da baunilha, vindo do whisky de grão e parte dos componentes de malte sobre o frutado e apimentado das barricas de vinho. Enfim, um whisky muito fácil de ser bebido. Um bebedor desatento seria capaz de percorrer quase um terço da garrafa sem qualquer esforço.

Se você é apaixonado pela Johnnie Walker, procura um whisky com excelente custo benefício, ou gosta de vinhos, experimente o Wine Cask Blend. Alás, experimente mesmo se não for um enófilo e mesmo se não gostar da marca do andarilho. É um whisky que – apesar da singeleza – entrega uma experiência bem agradável e além de honesta. Pensando bem, talvez agora eu me arrisque a dizer que realmente gosto de vinhos. O jazz que me aguarde.

JOHNNIE WALKER BLENDER’S BATCH WINE CASK BLEND

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Doce e frutado, com creme de baunilha.

Sabor: Mais creme de baunilha, malte, discretamente turfado. Final adocicado e frutado, com baunilha.

Disponibilidade: disponível no Brasil – Preço médio de R$ 110,00.

Drops – Port Charlotte MRC:01

 

Há pouco mais de um ano viajei, ao lado de alguns amigos, para a ilha dos maltes defumados. Islay. Passamos lá três dias, e visitamos quase todas as destilarias da ilha, dentre elas, a Bruichladdich. Naquela oportunidade, nossa guia serviu alguns whiskies diretamente de barris. Dentre eles, um pequeno notável. Um Port Charlotte bastante jovem, retirado de uma barrica gravada com o nome de um lendário chateau francês – Mouton Rothschild.

Fiquei imediatamente enfeitiçado por ele. Aquele era um whisky excepcional – o melhor que experimentei durante toda a viagem. Pensei, porém, que talvez a impressão tenha se dado por conta do ambiente. Provar um whisky direto de um barril, em uma belíssima destilaria costeira, eleva qualquer experiência. Talvez aquele Port Charlotte não fosse tudo aquilo – afinal, é mais fácil se apaixonar por um malte no frio de Islay, ao lado de um poético armazém de pedra e cercado de amigos, do que no calor escaldante de São Paulo, sozinho na frente de um computador.

Paixão ao primeiro gole

Quando voltei para casa, uma certa languidez etílica tomou conta de mim. Jamais teria a oportunidade de provar aquele whisky de novo e entender o que tanto me impressionara. Ao menos era o que imaginava, porque quase um ano depois, a Bruichladdich anunciou o lançamento de algo que me pareceu bem semelhante a ele. Quando soube disso, tive uma extrassístole. Não podia perder a chance de ter uma garrafa. Cheguei ao absurdo de ligar para a destilaria e comprar a ampola por telefone, para que entregassem na casa de um amigo que mora no exterior. Levaria algum tempo, mas meu querido MRC:01 finalmente chegaria até mim.

O apaixonante Port Charlotte MRC:01 faz parte de uma série especial limitada da Bruichladdich, denominada Cask Exploration Series (Série de Exploração de Barricas). De acordo com a destilaria “com mais de 200 diferentes tipos de barricas maturando em nossos armazéns, nossa série de exploração de barricas demonstra a influencia da madeira em nosso destilado turfado. Engarrafado a 59,2% de graduação alcoólica, e limitado em números, introduzimos o Port Charlotte MRC:01 2010. Destilado a partir de 100% cevada escocesa da região de Invernessshire, este destilado adocicado e frutado passou tempo em barris de primeiro uso de whiskey americano e de segundo uso de vinho francês. Estes componentes foram então combinados e maturados por um ano extra nos melhores barris de carvalho europeu da margem esquerda de Bordeaux.

Em outras palavras, a Bruichaddich quer dizer que a maturação de seu Port Charlotte MRC:01 é fracionada. 50% matura por seis anos em barricas de carvalho americano de ex-bourbon de primeiro uso. Os outros 50%, em carvalho de ex-vinho francês de segundo uso. As duas partes então são reunidas, e passam um ano extra em barris de carvalho europeu que contiveram o vinho Mouton Rothschild – o tal vinho da margem esquerda de Bordeaux. Daí vem o código “MRC” – Mouton Rothschild Cask.

O Chateau

Sensorialmente, o Port Charlotte MRC:01 é um exagero. A fumaça é claramente sentida, junto com uma certa salinidade, que complementa perfeitamente o adocicado vínico proveniente das barricas de carvalho europeu de vinho francês. É um whisky superlativo em tudo, que fica curiosamente equilibrado. E ainda que pareça contra-intuitivo, a exagerada graduação alcoólica de 59,2% contribui para essa estranha sensação de equilíbrio – com uma graduação mais baixa, talvez o whisky ficaria adocicado demais.

Sinceramente, não sei se o MRC:01 foi o mesmo whisky que provamos direto do barril, naquele armazém. Porém, se não for o mesmo, é bem provável que seja uma criatura bem semelhante. E igualmente – ou talvez mais – arrebatadora. É realmente inusual se apaixonar à primeira vista – ou gole – por um malte. Mas consolidar e elevar esta impressão depois da segunda vez é ainda mais raro. Independente do lugar, situação e humor – o Port Charlotte MRC:01 é um whisky excepcional.

BRUICHLADDICH PORT CHARLOTTE MRC:01

Tipo – Single Malt com idade definida – 7 anos

ABV – 59,2%

Região: Islay

País: Escócia

Notas de prova

Aroma: Frutado, com um certo pêssego, e ao mesmo tempo defumado, com bastante maresia.

Sabor: Salgado, algas marinhas. Frutas vermelhas e fumaça. O final é longo, picante e progressivamente defumado e medicinal, mas também com um dulçor que lembra pêssegos em calda. Vínico, mas mais adocicado do que taninoso.

Com água: A água torna o whisky um pouco mais adocicado, e reduz a impressão de pimenta e das especiarias.

Whiskies para comprar no Duty Free V

Este é um post sazonal, que já teve três edições. Depois, leia a primeirasegundaterceira e quarta aqui, se quiser.

Janeiro é o mês de muita coisa. Da continuidade dos boletos. Das chuvas torrenciais e dos alagamentos. De passar um calor incivilizado, e tentar se refrescar lavando o rosto na pia, somente para descobrir que tá tão quente, mas tão quente que até a água que estava dentro do cano está quente. Janeiro é o mês da cerveja estupidamente gelada, da caipirinha e da praia. Janeiro não é bem um mês pra whisky.

Mas Janeiro é também o mês das viagens. De sair do calor da cidade pra ficar fedido, cremoso e queimado em algum outro lugar de sol fustigante, mas, quiçá, com uma vista mais bonita ou uma brisa um pouco mais fresca. Ou de tirar o passaporte do fundo daquela pasta de documentos, pegar o avião e tentar fugir pra algum lugar com uma temperatura menos abrasadora. Mas não sem antes passar na loja do Duty Free.

E é aí que eu quero chegar. Janeiro talvez não seja o melhor mês para beber whisky. Mas é um dos melhores pra comprar. A oferta do freeshop é ligeiramente diferente daquela de nossa terra natal. E assim, abre-se a oportunidade para comprar algo diferente, ou exclusivo. Assim, aí vai mais uma lista de whiskies que podem ser facilmente encontrados nos Duty Frees de aeroportos brasileiros, no embarque ou desembarque de voos internacionais. Organizados por preço, do maior para o menor.

GLENFIDDICH RARE OAK 25 ANOS

Preparem-se para sentir mais calor ainda. Primeiro, vou escrever o óbvio. É um Glenfiddich com um quarto de século de maturação. Somente isto já seria suficiente para que você, querido e abastado leitor, comprasse uma dessas ampolas. Porém, se apenas isto não for razão suficiente, aqui vão mais algumas.

O Glenfiddich 25 anos é uma expressão exclusiva de Duty Free de uma das mais famosas destilarias de toda a Escócia. Sua maturação acontece em uma combinação de barricas de carvalho americano de de ex-bourbon, e barricas de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez espanhol. É um whisky mais vínico e bem mais pungente do que seu irmão (um pouco) mais velho, o Excellence 26 anos, já revisto por aqui. E, para o gosto deste Cão, melhor.

De acordo com a destilaria “mais de duas décadas e meia de maturação cuidadosa resultaram neste whisky intrigante e complexo, que é um presente para o paladar. Grandes barricas (botas) espanholas gradualmente proporcionam um sabor frutado profundo e rico ao líquido, enquanto barricas de carvalho americanos menores trazem a infusão de notas de baunilha e um leve apimentado a este single malt de prestígio

E como não há almoço de graça – especialmente durante viagens aéreas, o Glenfiddich 25 anos custa a pechincha de US$ 429,00 (quatrocentos e vinte e nove dólares).

JURA THE ROAD

A Jura é uma das mais polivalentes destilarias da Escócia. Há expressões para todos os gostos. De delicadas e adocicadas a defumadas e pungentes, passando pelo vínico e rico. O Jura The Road é um exemplo deste último. Sua maturação acontece em duas etapas. A primeira, em barricas de carvalho americano de ex-bourbon. A segunda, em barris de ex-vinho jerez de carvalho europeu. O whisky é engarrafado a 43.6% de graduação alcoólica.

O The Road faz parte de uma série de quatro lançamentos da Jura para Duty Free, batizada de Jura Sherry Cask Collection. A diferença entre elas é o tempo de maturação, a graduação alcoólica e o tipo de barrica de ex-jerez utilizada na maturação. Em ordem, do mais barato para o mais caro, a Sherry Cask Collection conta com The Sound, The Road, The Loch e The Paps.

O preço é de US$ 82,00 (oitenta e dois dólares)

CHIVAS REGAL XV

Um dos mais recentes lançamentos da Chivas Regal, o XV está posicionado entre o Chivas Extra e o maravilhoso Chivas 18 anos. A ideia é reduzir a lacuna de preço que há entre as expressões, adicionando mais um degrau. Mais um degrau do jeito que a Chivas costuma fazer – de uma forma espetacularmente sofisticada.

O Chivas XV – como seu nome sugere – possui quinze anos de maturação mínima. Seu blend é composto por boa parte de whiskies finalizados em barricas de Conhaque de Grande Champagne. Algo que têm se tornado uma tendência, mas que ainda é bem pouco ortodoxo. Isso agrega complexidade sensorial ao whisky, trazendo notas vínicas, de caramelo e frutas vermelhas. O whisky foi especialmente pensado para ser consumido tanto puro quanto em coquetéis, de uma forma pouco sisuda

De acordo com Richard Black, diretor de marketing global da marca, “Foi um movimento decisivo para nossa categoria. Chivas XV representa um lado mais contemporâneo do whisky escocês e encoraja seus consumidores a criar experiências memoráveis que perdura para muito além da celebração”. O preço é de US$ 69,00

JACK DANIEL’S BOTTLED IN BOND

Deixe-me explicar o que significa “Bottled in Bond”. No final do século dezenove, o consumo de whiskey nos Estados Unidos era bastante alto. A qualidade, porém, não era das melhores – muitas garrafa eram preenchidas por destilados sem procedência, e a proliferação de destilarias clandestinas era grande. Para resolver a questão, o governo federal daquele país promulgou o “Bottled in Bond Act”.

A lei determinava que certos whiskeys que atendessem aos requisitos lá dispostos pudessem utilizar a expressão “Bottled in Bond” em seus rótulos – como se fosse um selo do INMETRO pro goró. De acordo com ela, para que o whiskey pudesse ser orgulhosamente estampado com a frase, ele deveria (a) ser produzido em uma única temporada de destilação (de janeiro a junho, ou de junho a dezembro), por uma única destilaria; (b) maturar em uma “bonded warehouse” sob a supervisão do governo por no mínimo 4 anos. e (c) possuir 50% de graduação alcoólica.

O Jack Daniel’s Bottled in Bond segue todos estes requisitos, e presta homenagem àqueles produzidos no século dezenove. O que, aliás, é interessante – a icônica garrafa quadrada da marca data de 1895, e o Bottled in Bond Act foi publicado apenas dois anos depois, em 1897. Mas nada disso importa. Tudo é storytelling. O que importa é que ele é uma garrafa de um litro de Jack Daniel’s a 50% ABV. Precisa de mais alguma informação pra comprar? Ah, custa US$ 42,00 (quarenta e dois dólares).

Glenfiddich Fire & Cane – Drops

A primeira dose de 2019 para o Cão Engarrafado. Queria algo que fugisse do óbvio, mas que, ao mesmo tempo, trouxesse alguma familiaridade. Algo que se relacionasse com o espírito do ano novo. Aquela sensação de renovação, mas alicerçada nas mesmas convicções e atitudes. Enfim, algo que soasse novo, experimental, mas que na verdade fosse apenas uma visão, por outro ângulo, de algo conhecido. Não demorou muito para me decidir. Escolhi o Glenfiddich Fire & Cane.

O Glenfiddich Fire & Cane é a quarta expressão da Glenfiddich Experimental Series – da qual fazem parte também o Project XX, Winter Storm e IPA Cask, já revisto nestas páginas caninas. Como sua intuição semântica já deve ter indicado, a série se dedica a whiskies com alguma característica considerada, pela Glenfiddich, como experimental. Uma finalização incomum – como no caso do IPA – ou um processo de blending inusual, como o Project XX.

Experimental Series

No caso do Glenfiddich Fire & Cane, o alegado experimento fica por conta de duas características. A primeira delas é o uso de barricas de rum para finalização – provavelmente Wood’s ou Sailor Jerry, que fazem parte do portfólio da William Grant & Sons. A destilaria não divulga o tempo exato de finalização, mas a influência do rum pode ser notada claramente, especialmente no aroma do Fire & Cane. A segunda é a utilização de malte defumado. Algo comum para certas destilarias, mas bastante raro no caso da Glenfiddich.

Este Cão, porém, têm dificuldade de ver onde o Fire & Cane é experimental. Especialmente para a Glenfiddich, não há muita novidade. Basta lembrar que o maravilhoso Glenfiddich 21 anos é também finalizado em barris de rum. E que o Caoran Reserve, Glenfiddich Vintage Cask e  a edição comemorativa do 125º aniversário também utilizam malte turfado, que traz a sensação de fumaça. Assim, são duas técnicas que a destilaria possui larga experiência. De experimental, o Glenfiddich Fire & Cane talvez tenha apenas o nome. Com uma certa boa vontade interpretativa, poderia dizer que é a comunhão das duas técnicas em um único líquido.

125th Anniversary Edition. Defumado diplomado.

Seja como for, o Glenfiddich Fire & Cane é um whisky bem bom. O defumado – um defumado seco, pouco medicinal – é muito bem complementado pelo dulçor frutado da finalização em rum. E ainda que o nome sugira um whisky intenso, o Fire & Cane é dócil e extremamente palatável. Talvez, até demais. Na opinião deste Cão, o Fire & Cane se beneficiaria de uma graduação alcoólica mais alta do que seus 43%, algo capaz de introduzir uma certa pimenta, uma agressividade que completaria o tema enfumaçado e frutado.

Mas apesar destas inofensivas observações, há algo irrepreensível em relação ao Fire & Cane. Algo que muitos podem considerar frívolo, mas que está longe de ser. Seu visual. A garrafa é uma das mais belas que este Cão já viu. Ao vivo, ela é ainda mais impressionante. Mesmo ao lado de ampolas belíssimas, como o Glenmorangie Signet, o Fire & Cane se destaca de uma forma elegantemente desafiadora. Talvez seja isso. Talvez seja aí que esteja sua característica mais experimental. É impossível estar na presença de uma garrafa e não se sentir tentado a provar uma dose.

Você já deve ter adivinhado que o Glenfiddich Fire & Cane não virá ao Brasil. Nenhuma das expressões da Experimental Series desembarcou por aqui. Porém, nos Estados Unidos e em alguns países europeus, ele é uma garrafa fácil de se encontrar. E mesmo que não tenha muita coisa de experimental ou inovador- assim como seu ano novo – é uma dose capaz de trazer todo otimismo do recém-iniciado ano.

GLENFIDDICH FIRE & CANE

Tipo: Single Malt Whisky sem idade definida

Destilaria: Glenfiddich

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Frutado, com pera, coco e caramelo torrado.

Sabor: Frutado, com coco e toffee. Final levemente apimentado, com mel, coco e fumaça.

Preço: USD 60,00 (sessenta dólares – fora do Brasil)

Morning Glory Fizz – Da Continuidade

Foto: Tales Hidequi

A última matéria de 2018. Em menos de dois dias, teremos mais trezentos e sessenta e cinco outros para fazer novamente tudo que fizemos de errado nos anteriores. Mas não sem antes aproveitar as últimas horas do ano de uma forma alegremente inconsequente, e desastrosamente otimista. Algo que certamente lhe trará lembranças no dia seguinte. Lembranças, essas, reavivadas pela boca seca, enxaqueca e fotofobia. Feliz veisalgia nova, meu caro leitor.

Assim, talvez a melhor forma de se iniciar um novo ano não seja com falsas promessas. Mas sim reparando a igualmente épica e desastrosa última noite do ano anterior. E é aqui que entra o Morning Glory Fizz. Um café da manhã em forma de coquetel, que leva whisky, absinto (ou pastis), suco de limão, água com gás e, claro, uma clara de ovo, para dar sustento.

Se sua consciência não lhe permite beber um coquetel de café da manhã, ainda que você deseje, deixe-me ajudá-lo a dissipar essa hipocrisia. Durante o século XIX, essa era uma prática muito comum. Os coquetéis traziam mais disposição e vigor aos jovens pela manhã. Muitos drinks que hoje conhecemos nasceram deste hábito, como o Between the Sheets, Pick me Up e o Red Snapper.

Há, inclusive, uma razão científica por trás disso tudo. Como já explicado por aqui, a ressaca pode ser causada por ingestão excessiva de metanol, que vira formaldeído e ácido fórmico dentro de nós. O metanol está presente, em pequena quantidade, em quase todas as bebidas alcoólicas, por ser um produto derivado da fermentação. A melhor forma de expulsar rapidamente o metanol do corpo é – juro que não estou brincando – bebendo mais álcool. Com moderação, claro. A moderação que você não teve na noite anterior.

Que sede que dá!

E foi justamente para isso que o Morning Glory Fizz nasceu. Um remédio para a ressaca. Ele teria sido criado em meados de 1880. Sua primeira aparição foi no livro How to Mix Drinks, de 1884 de um certo Winter. Pouco depois, apareceu em outra publicação, cujo autor é desconhecido, chamada Scientific Barkeeping – o que, suspeito, tenha a ver com o fato do drink ser usado como remédio. Posteriormente, também em obras de Harry Johnson, e, mais recentemente, Dale DeGroff.

Este Cão, porém, descobriu a existência do coquetel apenas há alguns meses – ah, esse incrível e infinito mundo da coquetelaria – e de uma forma gloriosa. Pelas mãos do bartender Spencer Amereno Jr., durante uma degustação de coquetéis com Chivas Regal, organizada pelo Difford’s Guide. Na oportunidade, provamos também o Cameron’s Kick, Trilby #1 e uma interessantíssima leitura do Rob Roy, além de duas expressões recém-lançadas da marca – O Chivas XV e o Ultis. Aquela foi uma noite que merecia um Morning Glory Fizz pela manhã.

Como é de se esperar de um coquetel centenário, há algumas variações da receita do Morning Glory Fizz. A receita abaixo, porém, é uma reprodução daquela divulgada no Difford’s Guide. Com apenas uma diferença na produção. O absinto, ou pastis. A original pede que se bata o absinto junto com os demais ingredientes na coqueteleira. Para o gosto deste Cão, porém, essa alternativa tornará o absinto – ou pastis – forte demais. Algo que também poderá não agradar a maioria dos leitores, com paladar moderno. Assim, a sugestão é que o absinto seja utilizado apenas para untar o copo, e o excesso, descartado – como se faria com um Cocktail a La Louisiane ou Sazerac.

Assim, meus caros, munam-se de uma caneta e abram suas ainda intocadas agendas para este glorioso ano vindouro. E tomem nota. Um coquetel que talvez não seja capaz de apagar todos os seus erros passados. Mas que, certamente, tornará o momento presente muito mais agradável. Uma forma incrível de se iniciar um novo ano. O Morning Glory Fizz.

MORNING GLORY FIZZ

INGREDIENTES

  • 2 doses (60ml) de scotch whisky (Spencer usou Chivas Extra. Use um whisky mais seco, ou vínico. Um whisky muito doce tornará o coquetel desequilibrado, e demandará reduzir o açúcar)
  • 3/4 dose (22,5ml) de suco de limão siciliano
  • 1/2 dose (15ml) de xarope de açúcar
  • 1/2 dose (15ml) de clara de ovo pasteurizada
  • Absinto ou Pastis para untar a taça
  • Água com gás
  • gelo
  • parafernália de sempre para bater
  • copo highball

PREPARO

  1. Adicione um pouco de absinto ou pastis em um copo highball, e vá aos poucos untando suas bordas. Descarte o excesso. Ou beba, afinal, você nem almoçou ainda e já está fazendo um coquetel, deixe de ser hipócrita.
  2. Adicione, em uma coqueteleira, o whisky, o suco de limão, o xarope de açúcar e a clara de ovo. Sem gelo, por enquanto. Bata vigorosamente. Isso é um dry shake e melhorará a textura de seu coquetel. Leia mais sobre isso aqui.
  3. Abra a coqueteleira, adicione gelo e bata novamente. Desça o conteúdo para o copo higball.
  4. Complete com água com gás ou club soda.
  5. Beba e contemple. Um ano que começa com um Morning Glory Fizz tem tudo para ser glorioso.

Se tiver dúvidas sobre o preparo ou preferir algo mais gráfico, confira clicando aqui o vídeo do Clube do Barman, onde Rafael Mariachi, mixologista da Pernod-Ricard, ensina a preparar o drink.