Angel’s Envy Bourbon – Drops

Uma vez contei por aqui minha obsessão por single malts finalizados em vinho do porto. Talvez seja a ascendência portuguesa, talvez seja apenas bom gosto nato, não sei. Mas acontece que basta ver um whisky que passou por essa barrica, que me sinto irremediavelmente compelido a prová-lo. Imagine então, quando descobri um bourbon que passa pelo mesmo processo – O Angel’s Envy Bourbon.

O maior diferencial do Angel’s Envy Bourbon – assim como seu irmão, o Angel’s Envy Finished Rye, já revisto por aqui – é justamente sua maturação um tanto incomum. O whiskey, depois de passar em torno de cinco anos em barris de carvalho americano virgens e tostados, é finalizado por um período de três a seis meses em barricas de vinho do porto. Isso traz ao whiskey um certo aroma vínico doce e frutado, reminiscente de passas – s´p que bom.

A ideia de finalizar um whisky em um barril previamente utilizado por outra bebida não é novo. Há muito é usado na Escócia – as pioneiras foram Glenmorangie e Glen Moray. Mas, nos Estados Unidos, a técnica é ainda pouco utilizada e somente ganhou corpo quando a Woodford Reserve e seu outrora master distiller, Lincoln Henderson, decidiram experimentá-la em versões especiais limitadas da destilaria. Lincoln Henderson, este, que mais tarde, alguns anos antes de falecer, fundou a Angel’s Envy.

Lincoln Henderson (fonte: Angel’s Envy)

A Mashbill (a receita de seu mosto fermentado) do Angel’s Envy Bourbon é composto de 72% milho, 18% centeio e 10% cevada maltada. É uma receita muito próxima a de outro bourbon whiskey famoso por finalizações inusitadas, o Woodford Reserve. É também uma mashbill com uma quantidade considerável de centeio, que traz equilíbrio ao dulçor proporcionado pelo milho.

O lançamento do Angel’ Envy Bourbon aconteceu em 2011. Porém, até 2015, a Angel’s Envy não possuía uma destilaria própria. Seus whiskies eram produzidos pela Midwest Grain Products of Indiana (MGP) sob encomenda da Angel’s Envy, que fazia a curadoria sobre os barris e desenhava o perfil do produto. A MGP – outrora uma enorme destilaria da Seagram’s – também produz ou produziu whiskey sob encomenda para diversas outras marcas, como George Dickel, High West, Redemtion e Smooth Ambler. Atualmente, porém, os whiskies da Angel’s Envy são produzidos em uma destilaria própria, no Kentucky.

Infelizmente, o Angel’s Envy Bourbon não está disponível no Brasil. Porém, se você gosta de bourbons com maturações inusitadas, ou se – assim como eu – tem uma certa obsessão por whiskies com finalização vínica, tente provar o Angel’s Envy Bourbon.

ANGEL’S ENVY BOURBON

Tipo: Bourbon

Marca: Woodford Reserve

Região: N/A

ABV: 43,3%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo. Açúcar mascavo, mel, frutas secas.

Sabor: Caramelo, mel, baunilha, creme brulee. Final longo e progressivamente mais frutado, com passas.

Disponibilidade: lojas internacionais

Bourbon Month – Woodford Reserve

Setembro é um mês cheio. É quando nos despedimos do tão querido inverno para receber a – ultimamente – tão soalheira primavera. Há também uma pletora de celebrações. Como o impopular dia da compreensão mundial, em franca decadência, e o dia do barbeiro, em meteórica expansão. Ou o intrigante dia dos símbolos nacionais, e o paradoxal dia do gordo, que prega a importância da magreza.

Mas nenhuma dessas efemérides é tão importante quanto o Mês da Herança Nacional do Bourbon (National Bourbon Heritage Month), celebrada nos Estados Unidos desde 2007. E neste ano de 2019, o website Difford’s Guide se uniu à marca Woodford Reserve para trazer a comemoração ao Brasil. Durante este mês, uma série de estabelecimentos preparou coquetéis exclusivos com o bourbon.

Participam da ação os bares e restaurantes Banqueta, Benzina, Burle Bar, Caju, DOT, Drosophyla, Espaço 13, Fortunato, Guarita, Lateral, Maní, Modern mamma Osteria, Mundi Bar, Olívio, Praia Bar, Picco, Tavares, Tre Biccheri, Sylvester e Vista. Este Cão conferiu algum deles – como o Praia, e morreu de vontade com outros, como o do Espaço 13, que leva spray de whisky turfado.

O Royal Fashioned do Burle Bar.

Foi também muito divertido ouvir as histórias por trás daqueles coquetéis. Gustavo Rômulo, do Burle Bar, por exemplo, contou que decidiu usar o licor Chambord em seu Royal Fashioned em homenagem ao castelo homônimo – o Chateau de Chambord – na França. “Queria trazer este ar real para o coquetel, já que estamos em um palácio (O Palácio Tangará, hotel em que está o Burle Bar) rodeado por um verde que nem parece de São Paulo“.

Já Igor Bauer, do Banqueta Bar, de Moema, usou xarope de lúpulo e bitter artesanal de café. O bartender confidenciou que a ideia de desenvolver um xarope de lúpulo veio de uma visita a um bar vizinho – o La Fraternité Beer Shop, especializado em cervejas. Bauer fez diversos testes, com lúpulos diferentes, alguns mais florais, outros mais amargos, até atingir o equilíbrio. O ingrediente leva azzaca e cashmere.

Old Fashioned com xarope de lúpulo do Banqueta Bar

E Talita Simões, sócia do Praia, em Pinheiros, chegou bem perto do Old Fashioned tradicional, mas com um toque especial. Talita utilizou xarope de ameixa amarela (sherry plum) e bitters artesanais produzidos na casa, para trazer personalidade ao coquetel.

O Old Fashioned do Praia: licor de ameixa amarela

As comemorações do Bourbon Month vão até 30 de setembro – algo intuitivo, já que se trata de um mês celebrativo. Até lá, se estiver em São Paulo, visite as casas participantes e prove as criações. E pode ir no começo da semana também, a gente te entende – o dia da compreensão mundial está aí para isso.

Jack Daniel’s Tennessee Fire

Na década de oitenta, o bom-senso era algo bastante relativo. Especialmente se você fosse criança. Se você discorda, acompanhe-me em um flashback. Afinal, a internet se regojiza com flashbacks. Nos anos oitenta, um palhaço quimicamente alterado concorria com uma moça com figurino questionável como principal atração televisiva infantil. Nos anos oitenta, podia passar produto tóxico no machucado, andar no banco de trás sem cadeirinha e comer chocolate em forma de cigarro.

Aliás, falando em chocolate em forma de cigarro, os doces eram divididos em dois tipos. Os de essência ambígua – como os tais cigarrinhos, pirulito chupetinha e pirocóptero – e os que causavam sufocamento. Como Bolin Bola e aquela bala que parecia uma hemácia. Porém, dentre todas, minha preferida (integrante do segundo grupo) sempre foi a bala de canela. Aquela redondinha e durinha, bem do tamanho do meu esôfago.

Que delí…ghhwwaaa

E ainda que eu não seja tão nostálgico de minha impúbere época, seus sabores ficaram gravados com muita clareza em minha memória. Tanto que, recentemente, me senti transportado novamente para a infância ao provar uma bebida cujo sabor reminisce bastante aquele da balinha. Aliás, não só relembra, como é praticamente a versão líquida dela. O Jack Daniel’s Tennessee Fire. Um licor cuja base alcoólica é o mundialmente conhecido Jack Daniels Old No. 7, com adição de “um licor de canela de produção própria“.

Antes de prosseguir, devo aqui fazer novamente um esclarecimento. O Jack Daniels Tennesse Fire não é whiskey. De acordo com Code of Federal Regulations – o documento que estabelece as regras de classificação das bebidas nos EUA – caso haja a mistura de quaisquer frutas, flores, plantas ou substâncias que proporcionam sabor – como é o caso do Tennessee Fire – a bebida será um cordial ou licor. Além disso, sua graduação alcoólica, de 35%, é inferior ao mínimo de 40% permitido.

Então, antes que você engasgue ao tentar comparar o Jack Daniels Tennesse Fire com qualquer whiskey, tenha em mente que sua natureza é distinta. E como somos maduros, sabemos que não devemos comparar coisas essencialmente diferentes. Aliás, como um licor, o Jack Daniel’s Tennessee Fire está mais próximo de seu irmão Jack Daniel’s Honey ou de um Fireball do que – incrivelmente – o whiskey que lhe serve de base.

Tennessee Fire e seus irmãos

Sensorialmente, o Jack Daniel’s Fire não tem nada de agressivo, como seu nome sugeriria. O sabor predominante é, obviamente, canela. Há um final que remete a baunilha com um leve apimentado. É uma bebida fácil, sem muita complexidade e doce, mas longe de ser enjoativa. Aliás, pelo contrário: como nas balinhas de canela, o impulso é dar mais um gole. Gelada – como é sua sugestão de consumo – a canela fica ainda mais pronunciada, e a impressão de dulçor se alivia.

O Jack Daniel’s Tennessee fire foi lançado em 2014 nos Estados Unidos. No Brasil, até 2018, sua distribuição era tímida – apenas São Paulo e região Sul. Porém, em 2019, a Brown-Forman, proprietária da destilaria, decidiu disponibilizá-lo em todo território nacional. Segundo Luiz Schmidt, diretor de Marketing da Brown-Forman para América do Sul, Central e Caribe, o seu processo de expansão foi uma resposta a uma demanda do consumidor brasileiro “O sabor intenso e o seu uso em momentos de alta energia, que é a proposta de Fire, têm grande aceitação localmente”.

Se você, ainda adulto, continua adorando aquelas outrora tão famosas balinhas de canela, amará o Jack Daniel’s Tennessee Fire. Afinal, ele é praticamente a versão aprimorada da guloseima. E há uma enorme vantagem – com ele, não há qualquer risco de sufocamento.

JACK DANIEL’S TENNESSEE FIRE

Tipo: Licor

Destilaria: Jack Daniel’s

ABV: 35%

Notas de Prova:

Aroma: canela, calda de açúcar.

Sabor: adocicado, com canela, calda de açúcar. Final levemente apimentado e com baunilha.

Disponibilidade: lojas brasileiras

*a degustação da bebida tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Baltic Bourbon – Beer Drops

Que setembro é o mês do bourbon você já sabe – afinal, isso já foi ostensivamente noticiado por aqui. A efeméride existe desde 2007, quando o senador Jim Bunning popôs um projeto de lei sobre o tema, que foi aprovado por unanimidade pelo senado americano. Afinal, mais um pretexto para beber bourbon whiskey nunca é demais.

Nos estados unidos, a festa mais tradicional que comemora a herança desta bebida tão americana é o Kentucky Bourbon Festival, que este ano acontece de 18 a 22 de setembro. Durante a festividade, há eventos para todos os gostos. Como, por exemplo, um café da manhã de panquecas com bourbon. E uma degustação em um hangar do aeroporto de Bardstown, durante o pôr do sol. Há também infinitas aulas de coquetelaria e harmonização com a bebida.

Mas – e como acontece com tudo que é bom – as celebrações não se limitaram aos Estados Unidos. E, para falar a verdade, nem ao mundo do bourbon. É que aqui no Brasil, a cervejaria Avós, de São Paulo, acaba de lançar um rótulo comemorativo. A Baltic Bourbon, uma baltic porter envelhecida em barris previamente encharcados com o bourbon whiskey Jim Beam.

A Baltic Bourbon é a segunda cerveja de uma série da Avós, que utiliza uma baltic porter – por eles batizada de Old Baltic – como sua base. O primeiro lançamento também se inspirou em uma data comemorativa internacional, a Negroni Week. Naquela oportunidade, a Avós maturou sua cerveja em barricas encharcadas de Campari.

A Baltic Negroni

Sensorialmente, a Baltic Bourbon tem corpo médio – uma característica bastante desejada, em uma época que porters e stouts se colocam no limiar entre o estado sólido e líquido – e pouca carbonatação. O aroma remete a coco queimado, café e chocolate. O whiskey está mais presente na finalização, como um delicioso adocicado de mel com baunilha.

Se puder, prove a Baltic Bourbon. Ela é o tipo de cerveja que agradará tanto beek geeks quanto apaixonados por whiskey americano. Mas se ainda assim você precisar de um pretexto, lembre-se que estamos em setembro – o mês mais deliciosamente etílico do ano.

BALTIC BOURBON

Cervejaria: Avós

País: Brasil

Estilo: Baltic Porter

ABV: 8%

Notas de Prova:

Aroma: Café, caramelo, baunilha

Sabor: Corpo e carbonatação média. Nada ácida. Café, chocolate amargo. Coco queimado. O final traz um floral de baunilha e toffee, proveniente das barricas de Jim Beam.

Fancy Free – Bourbon Month

Há uma centena de datas comemorativas bem aleatórias durante o ano. Uma das minhas preferidas é o dia 01 de fevereiro. É o dia do Eletricitário Gaúcho. Gosto da data porque ela é bem específica – eletricitário já é difícil, imagina gaúcho. Outra que me fascina, pelo motivo contrário, é 02 de fevereiro, o dia seguinte. O Dia Mundial das Zonas Úmidas. O que, afinal, são as zonas úmidas? É um eufemismo para o dia do banheiro?

Mas no quesito aleatoriedade, poucas celebrações ganham de uma que toma um mês inteiro. Janeiro, o Mês da Digestão da Ameixa Seca Californiana. Chega a ser dadaísta. E é ainda mais admirável que seu gênio criador foi Arnold Scwarzenegger. Em 2009 o então governator determinou que aquele seria o mês dedicado a “encontrar deliciosas formas de integrar a ameixa seca na sua dieta e na de seus entes queridos“.

Mr. Dried Plum

E tudo bem que janeiro é mesmo meio parado, que tá todo mundo de férias, e às vezes bate um tédio. Mas passar um mês inteiro sendo criativo com ameixas secas está longe de meu conceito de diversão, mesmo nos mais entediantes dias. O mês de Setembro – um tanto mais agitado – porém, compensa toda a irrelevância da aleatória comemoração de janeiro. É que nos Estados Unidos, setembro é o Mês da Herança Nacional do Bourbon (National Bourbon Heritage Month).

Durante este mês, há uma série de festividades que comemoram a bebida essencialmente americana. A cidade de Bardstown, no Kentucky, inclusive, realiza um festival que celebra a história do Bourbon. O costume é até regulamentado por lei. Em 2007 o senador Jim Bunning propôs o projeto que, obviamente, foi aprovado por unanimidade – afinal, bourbon whiskey é bem mais gostoso que ameixa seca.

E neste ano de 2019, o website Difford’s Guide se uniu à marca Woodford Reserve para trazer a comemoração ao Brasil. Por aqui, o mês do bourbon será celebrado em diversos bares, com versões clássicas e autorais de um dos mais emblemáticos coquetéis que leva bourbon whiskey – o Old Fashioned. Embalado por tão distinta iniciativa, este Cão resolveu humildemente contribuir. Para isso, escolheu um coquetel clássico, variação do tão querido Old Fashioned. O Fancy Free.

O Fancy Free é, basicamente, um Old Fashioned, onde o torrão ou a calda de açúcar foram substituídos por licor de maraschino (que é uma cereja, e não uma ameixa, antes que você me pergunte). A receita primeiro apareceu em 1941, num livro curiosamente intitulado Crosby Gaige’s Cocktail Guide and Ladies Companion – O Guia de Coquetéis e Companheiro Feminino de Crosby Gaige. Seja lá o que um companheiro feminino for.

Acontece que o Fancy Free é aquele tipo de coquetel que é tão simples, mas tão simples, que há uma irremediável necessidade de complicá-lo. Assim como sua inspiração, o Old Fashioned – que coleciona receitas com os mais variados ingredientes. No caso do Fancy Free, as variações vão do whiskey utilizado até o tipo de serviço e o preparo. O que é até irônico, se pensarmos que seu nome significa justamente “sem sofisticação”.

Falemos das variações. O tal (suspeito que um tanto misógino) supra mencionado Companheiro Feminino indica que o drink seja mexido e servido em uma taça coupé, bordeada com açúcar. O livro aponta bourbon whiskey como base. Já outro livro um tanto mais famoso, o Death & Co., recomenda o uso de Rittenhouse 100 Rye, um whiskey de centeio. Além disso, aponta que o serviço deve ser feito sem açúcar nas bordas, em um copo baixo, com uma pedra grande de gelo. Como um Old Fashioned.

Por fim, o website Difford’s Guide sugere o bourbon Woodford Reserve como base. Além disso, curiosamente, pede que o coquetel seja batido ao invés de mexido, e servido em uma taça coupé – à moda de um Blood and Sand. O que talvez faça sentido, de forma a atenuar o dulçor do Maraschino, e trazer uma certa cremosidade ao drink.

A versão do Difford’s Guide

Detesto complicar o que já está singelamente intrincado. Mas devo declarar que prefiro uma mistura de duas das receitas. A sugestão de serviço do Death & Co, mas com as proporções e o bourbon indicado pelo Difford’s Guide. Afinal, o nome do coquetel transpira simplicidade – e nada mais sofisticadamente singelo do que um Old Fashioned. Com um bourbon equilibrado, como o Woodford Reserve.

Assim, meus caros, munam-se de seus mixing glasses e bailarinas e preparem-se para brindar um dos mais importantes meses celebrativos do ano. E se quiser comer uma ameixa seca e enviar energias positivas (tunts) para os eletricitários gaúchos durante o preparo, eu deixo. Com vocês, o coquetel que traz uma bela dose de ironia em seu nome. O Fancy Free.

FANCY FREE

INGREDIENTES

  • 60 ml (2 doses) de Bourbon Whiskey (este Cão recomenda Woodford Reserve)
  • 15ml licor de maraschino (Luxardo)
  • 2 dashes (sacodidelas) de Angostura Aromatic Bitters
  • 2 dashes de Angostura Orange Bitters
  • Parafernália para misturar
  • copo baixo

PREPARO

  1. Adicione, em um mixing glass, bastante gelo e todos os ingredientes líquidos. Mexa por aproximadamente cinco segundos.
  2. Com o auxílio de um strainer, coe a mistura e desça em um copo baixo com um gelo grande, ou alguns menores.

Wild Turkey Rare Breed – Drops

Me disseram que toda vez que eu falo da Wild Turkey, eu faço alguma piadinha com peru. E que a piada nunca teve graça, e agora tem menos ainda, porque todo mundo já sabe que vou falar de peru ou do duplo sentido intrínseco à palavra quando menciono a destilaria. Então, hoje, em protesto, não vou mencionar nenhuma ave e nem fazer qualquer introdução. Vou direto ao ponto.

O Wild Turkey Rare Breed é uma edição limitada anual, lançada pela primeira vez em 1991. Atualmente, o nímero do lote não consta da garrafa, mas é possível identificar garrafas de lotes diferentes por conta da graduação alcoolica. É que o Wild Turkey Rare Breed é um bourbon “batch proof” – a expressão americana para o conhecido “cask strength”. Ou seja, um whiskey que não passa por qualquer diluição após sua retirada das barricas. E, como cada barril se comporta de uma forma diferente, quando misturados, a graduação alcoólica varia.

A receita do mosto (mashbill) do Wild Turkey Rare breed é a mesma dos demais whiskies de sua família. O cereal predominante é, obviamente, milho (75%), com participação de centeio (13%) e cevada maltada (12%). Ainda que a Wild Turkey não divulgue, de acordo com o site Breaking Bourbon, o Wild Turkey Rare Breed é uma mistura de whiskeys com idade entre 6 e 12 anos.

Longe de mim fazer qualquer relação, mas um peru selvagem vive bem menos. De 3 a 5 anos, por exemplo.

A graduação alcoólica de entrada nos barris é baixa (em torno de 55%) o que resulta em um bourbon “barrel proof” de graduação etílica comparativamente baixa, mas com grande influência da madeira. Aqui, há uma curiosidade contra-intuitiva. A graduação etílica de engarrafamento é superior àquela de entrada nos barris – na amostra provada, por exemplo, é de 112,8 proof, ou seja, 56,4%. Isso porque alguns barris, durante a maturação, perdem mais água do que álcool devido à evaporação no clima seco do Kentucky, e o ABV sobe.

Sensorialmente, o Wild Turkey Rare Breed é um bourbon whiskey incrivelmente apimentado para sua mashbill – sinal da influência das barricas – com final longo e amadeirado. Há um adocicado de calda de caramelo e um pouco de baunilha, especialmente na finalização. É um whiskey que funciona bem puro, mas que demanda algumas gotas de água para apresentar todo seu potencial.

Se você gosta de bourbon whiskeys intensos, com bastante influência da madeira e graduação etílica elevada, o Wild Turkey Rare Breed é uma excelente escolha. Me desculpem se chegaram até aqui no texto, mas, não posso evitar. O Wild Turkey Rare Breed é realmente do peru.

WILD TURKEY RARE BREED

Tipo: Bourbon Whiskey

Marca: Wild Turkey

Região: N/A

ABV: 56,4% (variável)

Notas de prova:

Aroma: Caramelo, baunilha, pimenta do reino.

Sabor: Calda de caramelo, pimenta do reino, taninos. Mais pimenta, final longo com baunilha.

Com Água: A água reduz um pouco a impressão picante.

Entrevista com Mathieu Deslandes – Diretor de Marketing da Royal Salute

O supérfluo é uma coisa extremamente necessária“, escreveu Voltaire. Eu, autor de um blog sobre um dos mais supérfluos artigos do mundo – whisky – tenho que modestamente concordar com o aparente paradoxo de Voltaire. Whisky é uma necessidade desnecessária – como automóveis esportivos, roupas de grife e aquela torneira de cozinha de casa de rico, que tem uma molinha enrolada. Meu deus, como quero uma torneira daquelas!

Há um irremediável desejo no supérfluo. Afinal, é de nossa natureza almejar o que ainda não alcançamos. Ou melhor, almejar uma variação que consideramos melhor daquilo que já temos. Uma torneira normal não é um objeto de desejo. Uma daquelas sofisticadas sim, ainda que sua função seja, essencialmente, a mesma. De Voltaire, passo para Chanel, que disse que “o luxo é a necessidade que surge quando o necessário já foi satisfeito“.

No mundo dos whiskies, isso fica absolutamente claro. A grande maioria das marcas busca transmitir algum valor ligado ao luxo. Sofisticação. Elegância. Esclarecimento. Exclusividade. E poucas fazem isto com tamanha maestria quanto a Royal Salute. A começar pela idade de seu produto de entrada. Como se autodefinem, ao referenciar a idade mínima de vinte e um anos “a Royal Salute começa onde os demais terminam“.

Atualmente, o homem responsável por enfeitiçar as pessoas com toda magia da Royal Salute é Mathieu Deslandes, diretor de marketing da marca. A convite da Royal Salute, este Cão teve a incrível oportunidade de entrevistá-lo durante sua viagem a Coréia do Sul – onde foram lançadas duas novas expressões do portfólio permanente da marca.

E a impressão que tive é que Mathieu Deslandes não é apenas diretor da marca. Mas sua encarnação. Sofisticado, mas ao mesmo tempo bem humorado e gentil, o diretor explicou sobre a motivação por trás da diversificação do portfólio, bem como as especificidades do mercado de luxo. E é esta conversa que você confere aqui, com exclusividade.

Me conte um pouco sobre os novos produtos. Por que diversificar o portfólio?

Na verdade, estamos apelando para o amante do whisky, na Royal Salute. Quando você chega a este nível de qualidade, não é por acaso, mas porque você ama whisky e quer experimentar algo mais.

E, durante os últimos vinte anos, tem havido muito mais opções de whiskies, especialmente liderados por single malts, com propostas muito diversas. Então, parece-me que, se quisermos defender o whisky de luxo, não podemos ser apenas um. Temos de oferecer aos nossos consumidores a oportunidade de experimentar algo diferente, de descobrir.

E eu acho que o que é fascinante sobre o trabalho que fizemos com Sandy Hyslop, o master blender, é o quanto podemos diferenciar o sabor do whisky apenas pela escolha dos barris, e pela escolha do líquido que você usa. Você verá hoje à noite a diversidade que podemos obter, ainda sendo um whisky de 21 anos de idade.

A razão pela qual escolhemos 21 anos é que faz parte do DNA da Royal Salute. Quando a marca foi criada, foi criada como um 21 anos. E 21 é uma referência à Twenty One Gun Salute. Então, não é uma idade por acidente. É uma idade com um forte significado. E é por isso que comemorar essa idade é tão importante para nossa narrativa.

E por que um blended malt (The Malts Blend)? E qual o diferencial do The Lost Blend?

Tudo é um blend para nós. Na Royal Salute acreditamos em blends. Não é que os blended whiskies sejam melhores que os single malts, ou que os single malts sejam melhores que os blends.

Há uma referência que costumamos usar. Single malts são solistas na música. E os blended whiskies são como uma orquestra. Você pode ter um bom intérprete solo ou um mau intérprete solo. Você pode ter uma orquestra boa ou ruim.

Mas nós, como marca, fomos criados como um blend, então permanecemos fiéis a isso. É verdade que o perfil do sabor do single malt é algo que vem se desenvolvendo muito. É algo que é mais forte em termos de personalidade, menos suave. Por isso, foi interessante entrar nesse campo como uma forma de diversificar nosso portfólio para o consumidor (no caso do Malts Blend).

Royal Salute Malts Blend

Para o Royal Salute 21 The Lost Blend, há bastante whisky vindo de Caperdonich, uma destilaria que foi desativada, que tem um perfil apurado de sabor, então você encontrará este perfil de sabor mais forte nele.

Royal Salute possuía uma das mais belas embalagens do mundo. Por que mudar? E por que a embalagem é importante? Ela afeta a experiência?

Creio que a embalagem afeta sim a experiência do consumidor. É a primeira coisa que você vê antes de beber. Você vê uma garrafa, você vê uma caixa. Então, é uma maneira de comunicar o que você quer expressar sobre a marca. Mas tem que ser consistente. Tem que ter consistência do que você bebe e o que você vê.

E o segundo aspecto é importante porque, nessa faixa preço, há muitas pessoas dando Royal Salute de presente. E, como sabemos, quando você dá um presente, a embalagem também é importante. Então, o que achamos interessante sobre essa evolução foi usar a embalagem mais como uma narrativa.

Escolhemos trabalhar com Kristjana Williams, a artista por trás das ilustrações, para expressar a história de um zoológico real. O que estava acontecendo na torre de Londres – um lugar onde todos os animais que os reis e rainhas recebiam como presente eram mantidos. É uma história verdadeira, com leões, elefantes. É o que queríamos retratar na ilustração, na nossa narrativa. De uma forma criativa e artística, porque o consumidor de luxo hoje espera essa audácia e criatividade

Storytelling?

Storyelling. Por isso que encontramos uma boa combinação entre o lado de fora da caixa, que é mais conservador, mais sério. Mas porque nós diferentes, usando o interior de uma caixa para usar a narrativa

Ilustração Kristjana Williams para Royal Salute

De todos os lugares do mundo. Por que a Coréia?

A Ásia, globalmente, quando se trata de whisky de prestígio, é um mercado importante. Segundo, porque a Coréia especificamente, se você combinar o que vendemos no mercado doméstico com o que vendemos em duty free – porque muitos clientes coreanos compram em freshops – fazem da Coreia a nacionalidade número 1 das pessoas que compram Royal Salute.

Mas para ser honesto, fizemos eventos de pequena escala, um em Nova York e outro em Londres, porque quando se trata de luxo, não há limites. O luxo é global. Então, precisávamos ter certeza de que estávamos fazendo uma referência nos EUA e outra na Europa.

O que há de diferença no mercado de luxo para o mercado normal? E o que acha sobre o mercado de whiskies de luxo na América do Sul e Brasil?

O que é diferente no luxo é que não há meio-termo. Não há meio-termo na qualidade, nem meio-termo em qualquer coisa que você faça, porque há uma expectativa de que algo seja excepcional quando você compra luxo.

Então, neste mindset, tento comparar com outras marcas de luxo que não são bebidas alcoólicas, ao invés de comparar com outras marcas que são whisky que não são de luxo. O que é importante para nós é ter uma mentalidade de luxo. E a mentalidade do luxo é ser excepcional em tudo que fazemos – o whisky, o pacote, a experiência, a comunicação. Tudo tem que ser excepcional.

Falando sobre o Brasil – em todos os mercados do mundo, há um espaço para pessoas que estão à procura de luxo. O Brasil é um grande mercado para o whisky. As pessoas gostam e conhecem whisky. O importante é que desenvolvamos uma cultura sobre o whisky de luxo. Talvez já esteja lá para champanhe. Provavelmente menos para o whisky.

Mas é nossa responsabilidade nos conectarmos com o influenciador certo, o bartender, restaurante, consumidor, imprensa, revista, seja o que for, para falar sobre Royal Salute, porque provavelmente o problema de Royal Salute não é sua qualidade, mas o fato de não ser conhecido. Portanto, nossa primeira missão em muitos países do mundo é garantir que a Royal Salute seja conhecido. Mas de uma maneira muito diferente você faria com um whisky mais acessível. O que importa não é o número de pessoas que você alcança, mas a qualidade da maneira como você as alcança e a experiência.

Não temos nada a dizer sobre fazer algo a curto prazo. Mas algo mudando o jogo e a longo prazo. E isso requer tempo.

Os 4 whiskies com maior graduação alcoólica a venda no Brasil

Humphrey Bogart, na adaptação de O Falcão Maltês, disse que o problema do mundo é que todos estão algumas doses atrasados. Tive que concordar. Muita coisa melhora com um pouquinho de whisky – compromissos familiares e festa do escritório, por exemplo. É como aquela frase pronta, que circula na internet. “Odeio quando dizem que não preciso de whisky para me divertir. Eu também não preciso também de tênis para correr – mas ajuda um bocado.”

Arrisco aqui complementar o sofismo. Se o objetivo for correr o mais rápido possível, alguns tênis são bem melhores que outros. E se a ideia for chegar ao ponto de achar graça até no palhaço do seu chefe que não te dá aumento há três anos, alguns whiskies são bem mais eficientes do que outros. O que vale, aqui, é a graduação alcoólica. Quanto maior, mais rápido você atingirá seu objetivo.

#goal

Mas um whisky com graduação alcoólica elevada não é apenas um atalho para chegar àquele divertido estágio em que os limites sociais se tornam um pouco embaçados. É muito mais do que isso. Eles costumam ser mais intensos também, por serem menos diluídos, e apresentarem maior concentração de congêneres. Como, por exemplo, esteres, ácidos e aldeídos, responsáveis por trazer sabor àquela incrível bebida.

Óbvio que há infinitas exceções, já que fatores como o tipo de destilação e o formato do alambique desempenham um papel importantíssimo na separação dos congêneres do mosto fermentado. Porém, de uma forma bem simplista, poderíamos dizer que certo whisky com maior graduação alcoólica, geralmente, será mais intenso também em sabor.

Assim, sempre preocupado com o bem estar de seus leitores, este Cão preparou uma lista com os quatro whiskies mais alcoólicos à venda oficialmente no Brasil. Porque, afinal, ninguém corre uma maratona descalço.

ARRAN MACHRIE MOOR CASK STRENGTH

O nome denuncia um whisky com uma característica bem incomum no Brasil. Cask Strength. São whiskies que não sofrem qualquer diluição após serem retirados do barril. A graduação alcoólica do Machrie Moor Cask Strength é de 56,2% – a maior já vista por aqui.

Sensorialmente, o Machrie Moor Cask Strength é um whisky extremamente enfumaçado e picante, com uma nota frutada doce que remete a pêssegos. Com um pouco de água – algo como um terço da dose – a pungência é aliviada, e um aroma salino é revelado. Porque, de doce, já tem a vida depois de duas doses desse daqui.

ARRAN THE BOTHY

Se você ficou impressionado com o Machrie Moor, mas não suporta o aroma defumado, então seu número é o The Bothy. Sua graduação alcoolica é de 53,2%. A maturação acontece em barris de carvalho americano que contiveram bourbon whiskey, e depois em barris menores, chamados quarter casks, também de carvalho americano – um processo que eleva a influência da madeira no destilado muito mais rapidamente do que se fossem usados barris tradicionais.

WILD TURKEY 101 BOURBON

O Wild Turkey 101 é, talvez, até hoje, o mais conhecido whiskey do portfólio da famosa marca do peru selvagem. Possui graduação alcoólica de 50% – bem alta para um bourbon em sua faixa de preço. E tem mais – o whiskey sai das barricas com graduação alcoólica bem semelhante àquela do engarrafamento. 54,5%. Ainda que ele não possa ser considerado “barrel proof”, em que não há qualquer diluição, o Wild Turkey 101 chega bem perto disso.

O Wild Turkey 101 possui sabor adocicado e ao mesmo tempo picante, com caramelo e mel. O final é médio, seco e também picante. É um bourbon whiskey que funciona tanto para ser tomado puro quanto para coquetelaria, onde sua graduação alcoólica elevada é muito bem vinda.

BRUICHLADDICH THE CLASSIC LADDIE

O Bruichladdich The Classic Laddie é um animal recessivo no mundo do whisky. Produzido com cevada escocesa, não filtrado a frio e sem a adição de qualquer corante caramelo. E com graduação alcoólica superior à grande maioria dos single malts à venda por aí. Cinquenta por cento.

Se você procura um whisky de alta octanagem, mas com sabor agradável até mesmo para aqueles que não estão acostumados com single malts – ou whiskies de alta octanagem, claro – o Bruichladdich The Classic Laddie é a melhor escolha.

Aberlour A’Bunadh – Drops 2019

John Wick pode te estrangular usando um telefone sem fio. Uma vez, John Wick foi para Marte – é por isso que lá não há vida. Tudo bem, essas frases na verdade são de Chuck Norris. Mas elas poderiam, muito bem, ser adaptadas para o personagem mais hiperbolicamente mortal do cinema de ação. Ainda bem que ele gosta de cães, senão, eu mesmo ficaria preocupado.

Ao longo dos três filmes, o matador de aluguel despachou duzentas e noventa e nove pessoas. É bastante – quase uma por minuto de filme. Em comparação, o coitado do Rambo matou apenas duzentas e vinte pessoas. E, para isso, ele precisou de um filme a mais. O que talvez torne a franquia John Wick a mais sanguinolenta e mortalmente intensa da história do cinema.

Magoado

Mas o mais incrível é que, apesar dessa chacina, o filme parece até se desenrolar naturalmente. Quer dizer, não tem nada de normal em matar alguém usando um cavalo, um lápis, ou um livro. Mas, no universo vil de John Wick, essas mortes apresentam uma naturalidade quase harmoniosa. Afinal, é o John Wick, o que você espera que ele vá fazer com um livro numa biblioteca? Ler?

Se fosse um whisky, Wick seria, certamente, o Aberlour A’Bunadh. Exagerado em quase tudo mas, ao mesmo tempo, de uma naturalidade assustadora. Aliás, é justamente isso que seu nome indica. A’Bunadh, em gaélico, quer dizer “original” – uma homenagem de sua destilaria, a Aberlour, aos processos tradicionais de produção de single malts, do começo do século XX.

O Aberlour A’Bunadh é um single malt sem idade declarada, produzido em edições limitadas anuais, cuja graduação alcoólica frequentemente supera os 60%. Sua maturação ocorre exclusivamente em barricas de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez. Essa combinação – jerez e alta octanagem – é até frequente no mundo do whisky. Porém, o equilíbrio alcançado pelo A’Bunadh é bastante raro.

Parte dessa característica se dá por conta de seus alambiques. a destilaria utiliza alambiques, que têm formato de pêra e são relativamente baixos. Seus lyne arms são voltados para baixo, para maximizar a condensação e reduzir o refluxo. Para reduzir a pungência de seu new-make, a Aberlour possui um processo bastante vagaroso de destilação. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso, mas menos agressivo do que aparentaria.

Os alambiques da Aberlour (fonte: Whisky.com)

Se você gosta de whiskies extremamente intensos e vínicos, o Aberlour A’Bunadh será seu preferido por muito tempo. E espero que não seja morto por dizer isso, mas tenho certeza que John Wick só bebe bourbon em seus filmes porque ele nunca provou o Aberlour A’Bunadh.

ABERLOUR A’BUNADH (BATCH 63)

Tipo: Single Malt com sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Aberlour

Região: Speyside

ABV: 61,0% (variável de acordo com o lote)

Notas de prova:

Aroma: frutado e adocicado, com especiarias.

Sabor: frutado, frutas vermelhas e passas (mas de um jeito bom). Final longo, vínico e picante.

Com água: o sabor fica mais adocicado e menos picante.

Disponibilidade: Lojas internacionais

The Rapscallion – Das Trocas

Há umas semanas, fui numa hamburgueria nova que abriu aqui perto de casa. Olhei o menu. Hambúrguer de shimeji, linhaça, soja. Acenei pro garçom, que se dirigiu até minha mesa com um sorriso condescendente, talvez antecipando minha indagação. “Só tem hamburger vegano, não tem de carne, carne mesmo?” perguntei.

Não tem, essa é nossa proposta. Prova o vegano, você vai achar super gostoso nem vai notar a diferença. O de shimeji é nosso carro chefe, parece até hambúrguer de picanha” . Ponderei por alguns instantes, mas decidi deixar o preconceito de lado e provar aquele (nem tão) convidativo disco de fungos moídos. A primeira mordida me deixou intrigado. Na segunda, levantei o braço. O garçom prontamente se aproximou inclinando a cabeça para frente, como se curioso sobre o que viria – “Gostou?” – perguntou. “Cara não é ruim, mas tá longe de um hambúrguer de picanha. Aquela melancia grelhada da Bela Gil tá mais perto de churrasco do que isso tá de um hambúrguer de picanha“.

O garçom, então, fechou a cara e me entregou a conta, como se eu não fosse digno daquele espaço. Fiquei incomodado. Até porque tinha gostado do sanduíche. Só não parecia hambúrguer de picanha. Aquele era o problema. A comparação criara expectativa. Bastava me dizer que era bom, e pronto. “não parece com nada, mas é super gostoso. Aliás, peço antecipadas desculpas à supra mencionada Bela Gil, na remota possibilidade dela ler este post. Mas melancia grelhada não dá. E nem dá pra dizer que aquele emaranhado de pupunha é igual a spaghetti. É ótimo, mas é uma coisa completamente distinta.

Igualzinho macarrão né – Deixa eu pensar, não.

Lembrei desse meu episódio ao provar um coquetel que amei. O The Rapscallion – um drink que poderia até ser considerado uma variação de Rob Roy, não fosse completamente diferente. Mas igualmente delicioso. O The Rapscallion leva scotch whisky – preferencialmente Talisker, mas com uma história curiosa de substituições que não envolvem linhaça – vinho jerez PX e Pastis. Que você pode substituir por absinto, por exemplo.

O The Rapscallion ganhou fama em 2007, ao aparecer na carta do recém-inaugurado Ruby Bar, em Copenhague, que hoje figura na lista dos 50Best Bars. Adeline Shepherd, fundadora do Ruby, teria desenvolvido o drink alguns anos antes, junto com o colega Craig Harper, quando trabalhava em Edimburgo. De acordo com Craig “Em 2003 eu e a Adeline abrimos um bar chamado The Hallion em Edimburgo, e colocamos o drink na carta, feito com Johnnie Walker Black Label (…). Depois do The Hallion, me esqueci do coquetel, até que a Adeline o aprimorou em seu bar Ruby. Talisker funciona muito melhor

De acordo com seus criadores, Rapscallion é uma gíria escocesa, que define uma espécie de malandro. Uma pessoa sem reputação ou dignidade – o que até parece um paradoxo, considerando que o coquetel alcançou fama internacional de uma forma incrivelmente rápida.

A primeira aparição do The Rapscallion na literatura especializada foi no The PDT Cocktail Book, de Jim Meehan, em 2011. A receita lá reproduzida recomendava o uso de absinto ao invés de pastis – principalmente porque a oferta de pastis nos Estados Unidos, na época, era bem escassa – ou quase inexistente. Por conta da receita publicada por Meehan, no entanto, a maioria daqueles que conhecem o The Rapscallion creem que o coquetel leve absinto

Na singela opinião deste Cão, o uso de pastis ou absinto no coquetel é uma questão de gosto. O absinto ressaltará o aroma de alcaçuz, enquanto o pastis, de anis. Eu, com toda incoerência que é própria de nossa raça humana, adoro a primeira essência, mas tenho minhas reservas com a segunda. Assim, com toda vênia pela receita original, prefiro a versão de Meehan, que leva absinto.

Apesar da tenra idade, o The Rapscallion já coleciona uma série de variações. Alias, um fenômeno bastante incomum, próprio de drinks clássicos, ou daqueles que receberam o corolário muito rapidamente, como é o caso do Penicillin. Mas estou a divagar.

Uma dessas versões, servida no incrível Death & Co. de Nova Iorque leva o single malt Aberlour A’Bunadh e um toque de licor de maraschino. É uma versão mais difícil de ser feita – afinal, o perfil do A’Bunadh não é facilmente substituível. Mas o resultado é tão bom, mas tão bom, que este Cão resolveu incluir como uma opção (se você é contra o uso de single malts em coquetéis, clique aqui, ou leia a nota no final da receita).

A versão do Death & Co: Aberlour ao invés de Talisker.

Se você gosta de coquetéis que colocam o whisky em evidência, prepare e prove o The Rapscallion. É um drink memorável, que merece muito mais do que o meteórico reconhecimento atual. E não, você não pode substituir ele por um Manhattan, por exemplo.

1 – THE RAPSCALLION

Original, mas com absinto

INGREDIENTES

  • 2 doses de Talisker 10 anos (você pode arriscar com Johnnie Walker Double Black, apenas reduza um pouco a proporção de jerez PX, para não acentuar demais o dulçor do drink)
  • 1 dose de jerez PX (este Cão usou Maestro Sierra PX)
  • Absinto (ou pastis)
  • taça coupé ou copo baixo
  • parafernália para misturar

PREPARO

  1. Bordeie (ou unte) a taça ou copo com o absinto (ou o pastis).
  2. Adicione os demais ingredientes em um mixing glass com gelo, e misture.
  3. Desça, coando, a mistura no copo untado.

2 – THE RAPSCALLION

Sherry bomb, com licor de maraschino

INGREDIENTES

  • 2 doses de Aberlour A’Bunadh (tá bom, peguem qualquer whisky que seja bastante vínico. Não será a mesma coisa, mas o coquetel continuará ótimo, como, por exemplo Whyte & Mackay 13 ou Chivas Extra)
  • 1/4 dose de vinho jerez PX
  • 1 colher de sobremesa de licor de maraschino (Luxardo)
  • Absinto
  • Single malt defumado (como, talvez, o Laphroaig 10 anos), ou blend bastante defumado, para bordear.
  • Taça coupé ou copo baixo
  • parafernália para misturar

PREPARO

  1. Bordeie (ou unte) a taça ou copo com o whisky defumado. Nem vou falar pra descartar o excesso. Beba as gotinhas que sobraram.
  2. Adicione os demais ingredientes em um mixing glass com gelo, e misture.
  3. Desça, coando, a mistura no copo untado de whisky.

NOTA: Tanto a receita original quanto a variação do Rapscallion pedem single malts, ainda que de perfis distintos. Na opinião deste Cão, se houver algum outro whisky, preferencialmente um blended scotch, com perfil sensorial semelhante, a substituição pode ser feita tranquilamente. No entanto, a prática mostrou que o uso de um blend pode afetar bastante o sabor do drink, e desequilibrá-lo (por exemplo, o Double Black é um blend defumado, mas seu perfil sensorial é muito diferente daquele do Talisker, que é mais marítimo). De qualquer modo, sinta-se livre para usar o whisky que desejar, ainda que, neste caso, este Cão recomende fortemente o uso dos maltes.