Bowmore Vintner’s Trilogy 18 – Manzanilla Cask – Drops

Talvez você seja um apreciador de vinhos. Ou, talvez, você goste apenas de whisky. Mas há uma coisa inegável. O mundo daqueles possui uma enorme influência no deste. Isso fica claro observando a quantidade de whiskies que possuem alguma espécie de maturação em barricas previamente utilizadas para vinho.

Um exemplo é o recente lançamento da Johnnie Walker aqui no Brasil – o Blender’s Batch Wine Cask. Outra, o maravilhoso Port Charlotte MRC:01, finalizado em barris de ex-Mouton Rothschild. Mas não apenas eles. Há uma miríade de maltes e blends envelhecidos em barricas de vinho de diferentes tipos, como jerez, porto, madeira e sauternes.

Barricas na Bowmore

Há, porém, uma certa dificuldade em se trabalhar com barricas de vinho quando se tem um malte predominantemente defumado. Em muitos casos, os aromas e sabores frutados daquele fermentado acabam sobrepujando o enfumaçado do new-make. E, em outros, é o contrário – a fumaça eclipsa a barrica e seu conteúdo prévio.

Encontrar um equilíbrio é difícil. Exige conhecimento e tempo. Mas isso, a Bowmore – a mais antiga destilaria da ilha de Islay – tem de sobra. Eles são reconhecidamente uma das destilarias que mais bem trabalha com essas influências aparentemente conflitantes.

Prova disso é a Vintner’s Trilogy, lançada ao longo do ano passado e retrasado pela empresa. É um trio de Bowmores que celebram a influência do vinho no universo do whisky. O mais jovem da tríade é o Bowmore 18 Manzanilla Cask, tema desta prova. Além dele, fazem parte da trilogia um Bowmore de 26 anos maturado em vinho tinto e um 27, em porto.

A maturação do Bowmore 18 Vintner’s Trilogy Manzanilla Cask é fracionada. Primeiro, o new-make spirit passa 13 anos em barris de ex-bourbon. Depois, seu conteúdo é transferido para barricas que previamente continham jerez manzanilla – um tipo de vinho jerez raramente utilizado por whiskies, cujas destilarias preferem Oloroso e PX – onde passa os cinco anos restantes. É uma finalização bem longa, para quaisquer padrões. Basta lembrar que, em comparação, a finalização do Glenmorangie Lasanta é de apenas dois anos.

O Bowmore 18 Vintner’s Trilogy Manzanilla Cask também possui uma graduação alcoólica bem generosa. 52.5%. É a mais alta da trilogia, contra 48,7% do 26 anos, e 48,3% do primogênito. Faz sentido, na verdade. À medida que o whisky matura, a tendência é que sua graduação alcoólica diminua. Assim, naturalmente, se houver pouca ou nenhuma diluição, as expressões mais maturadas serão menos alcoólicas.

A trilogia

Vou pedir licença aqui, para ignorar minha imparcialidade canina. Porque o Bowmore 18 Vintner’s Trilogy Manzanilla Cask é absolutamente incrível. É um whisky complexo, que apresenta notas frutadas, açúcar mascavo, gengibre, fumaça e turfa. O sabor seco do jerez manzanilla se equilibrou perfeitamente com a influência costal e turfada do malte.

Mas há um ponto negativo em relação a ele. Sua disponibilidade. O Bowmore 18 Vintner’s Trilogy não está à venda em nosso país. E se esgotou na maioria das lojas conhecidas do exterior também. O que prova que não importa muito se você é um enófilo ou um amante de whiskies. O
Bowmore 18 Vintner’s Trilogy Manzanilla Cask mostra que mesmo com as influências mais díspares, é possível produzir um whisky fantástico.

BOWMORE 18 VINTNER’S TRILOGY MANZANILLA CASK

Tipo: Single Malt com idade definida – 18 anos.

Destilaria: Bowmore

Região: Islay

ABV: 52.5%

Notas de prova:

Aroma: turfado e defumado, com frutas vermelhas e gengibre.

Sabor: Início picante e enfumaçado, que rapidamente se desenvolve para um frutado seco, com frutas vermelhas (mirtilo, talvez?) e carvão.

Com Água: Adicionar água ressalta os sabores frutados, e traz à tona um aroma cítrico muito agradável.

Sobre a Transparência no mundo do Whisky

Estamos na era da transparência. Transparência essa, movida em grande parte pela desconfiança generalizada. Duvidamos da mídia, das grandes empresas. E das pequenas também. Desconfiamos das intenções das pessoas e do altruísmo. Duvidamos do troco do taxista, da conta do bar – que para mim é sempre surpreendente – e da nossa filha, quando ela diz que ainda não assistiu Patrulha Canina hoje. Tudo é matéria para escrutínio.

Mas apesar disso, é engraçado que aceitamos a pouca informação no mundo do whisky. Porque, se você pensar bem, sabemos muito pouco sobre aquilo que estamos bebendo. Na maioria das vezes aceitamos as meias-informações e nos damos por satisfeitos. Basta que o produto tenha um sabor agradável e seja consistente. E a maioria dos produtores não só está de acordo com isso, como comemora.

Sabemos, por exemplo, que a base do Chivas Regal 12 anos é Strathisla. E sabemos que o componente mais jovem lá dentro tem doze anos. Com o Johnnie Walker Blue Label, sabe-se apenas que a base é Royal Lochnagar. Mas não passa muito disso. Não sabemos ao certo quais são os outros maltes e whiskies de grão, tampouco sua idade.

Pois é, não tem 21 anos.

A razão disso é uma norma da Scotch Whisky Association (SWA), que proíbe que um produtor comunique ao consumidor sobre os detalhes da idade dos componentes de um whisky, exceto pelo mais jovem. Assim, um blend com doze anos estampados no rótulo pode, na verdade, conter uma boa parcela de algo bem mais maturado. Mas isso não pode vir expresso em sua embalagem. O produtor também tem a faculdade de esconder a idade. Nesse caso, a única garantia que se tem é que o componente mais novo tem mais de três anos de barril – esta é a idade mínima para que possa ser engarrafado como whisky, de acordo com a própria SWA.

Acontece que há um claro movimento no mercado atual. Os consumidores querem saber mais. Eles querem transparência. Entender quais são os ingredientes em letras pequenas de certo refrigerante. Saber quanto de Tripolifosfato de Sódio e Polifosfato de Sódio tem naquele nugget, ainda que ele não saiba bem para que servem esses elementos. Ou quanto de carne bovina tem no hamburger cem por cento bovino daquela lanchonete famosa. Bem, você entendeu meu ponto.

A TRANSPARÊNCIA

Um dos maiores bastiões na guerra a favor da maior transparência no mundo do whisky é a Compass Box Whisky Co., e seu fundador, John Glaser. A empresa tinha como prática expor, de forma completa e clara, todos os componentes de seus blends. A informação era tão detalhada que seria possível – caso alguém tivesse acesso ilimitado a todos os barris do mundo – reproduzir com exatidão qualquer dos whiskies da empresa.

Era uma coisa linda. Para alguém como eu, saber que meu querido Compass Box Peat Monster continua exatamanete 20% de Ledaig e 40% de Laphroaig era motivo de regojizo toda vez que tomava um gole. Aliás, foi justamente por conta dessa transparência que tive a curiosidade de provar o Peat Monster pela primeira vez. Aquelas eram – e ainda são – duas de minhas destilarias favoritas.

É como se alguém decidisse fazer um tartar de haddock defumado!

Mas isso, certo dia, teve fim. De acordo com Glaser “Por quase quinze anos contamos às pessoas a idade exata de todos os componentes de nossos blends. Cem por cento, sendo totalmente transparentes. Sabíamos desde o começo que isso não era estritamente legal, mas sentíamos que a lei não servia para o propósito que tinha sido feita. Nós estavamos apenas esperando pelo dia que alguém fosse nos repreender em relação a isso. E esse dia finalmente chegou“. Glaser se referia ao puxão de orelha público que recebeu da SWA, ao divulgar a exata composição de seu This is Not a Luxury Whisky.

Por conta dessa represália, a Compass Box lançou uma campanha propondo mudanças na regulamentação, para obter maior transparência no mundo do whisky. Ela encorajava outros produtores a se juntar, e possuía um abaixo-assinado para consumidores. Em menos de um dia, três mil pessoas haviam assinado a petição, e marcas de renome se juntaram à ela. Uma delas foi a Bruichladdich, famosa destilaria de Islay, conhecida por suas posições progressistas.

SOBRE INTENÇÕES

Para falar a verdade, a campanha de Glaser é multifacetada. Ela pode parecer bem intencionada, e na verdade é. Mas é também autopromocional. A Compass Box Whisky Co. é uma empresa de nicho, com posicionamento iconoclasta, produzindo blended whiskies de altíssima qualidade para um público também nichado – pessoas que sabem e procuram produtos que fogem do mainstream, e que não se importam em pagar mais caro por qualidade. Seu volume de produção e posicionamento de mercado permitem que escolha ingredientes de – literalmente – dar água na boca. E seu público tem esclarecimento suficiente para saber o que querem beber.

Porém, para os grandes produtores, esta transparência é um problema. Muitos consumidores buscam apenas consistência. E para conseguir essa consistência, estes produtores mudam constantemente os ingredientes de seus blends, bem como sua proporção. Por conta disso, uma transparência total seria um absoluto inferno. Imagine justificar para milhares de consumidores por que há menos Talisker e mais Caol Ila naquele lote específico de Double Black, por exemplo.

De certa forma, é a mesma discussão que encontramos ao falar do corante caramelo, já visto por aqui. Muitas empresas – a Compass Box incluída – alardeiam não utilizar o componente em seus produtos. Outras destilarias, como Springbank e Bruichladdich, também. Essa atitude – ainda que pareça um passo de honestidade em direção ao consumidor – é também uma estratégia de marketing. Anunciar que nenhum corante é utilizado em sua produção cria um diferencial e aponta o produto para um público interessado nisso. Ou, de uma forma mais direta, cria um diferencial e destaca o produto para os entusiastas.

Tonalidades

De volta à Compass Box. Com o avançar da campanha – e a resistência da SWA e de muitos produtores – a Compass Box então encontrou um meio-termo. A lei não determina total confidencialidade. Os produtores podem divulgar as receitas de seus whiskies na internet, por exemplo, para alguém que expressamente as procure. E foi justamente isso que ela fez. Ainda que não esteja expressa na garrafa, você pode solicitar à empresa, online, que lhe transmita as receitas. Isso, em tese, garante transparência apenas para quem busca transparência.

O PONTO DA SWA

Mas não há maniqueísmo no mundo real. A própria SWA também é bem intencionada. Sua regulamentação, na verdade, busca também proteger o consumidor, mas por outro ângulo. Dar liberdade para o produtor anunciar exatamente o que está em seu blend pode causar um movimento inverso. Imagine, que alguém pode produzir mil litros de um whisky dez anos, e pingar apenas algumas gotas de um single malt com mais de três decadas de idade. Anunciar que aquele seria um blend balzaquiano seria absolutamente injusto. E é justamente essa a proteção que a lei oferece. Balizando por baixo, evita-se que alguém superfature ou supervalorize seu produto. Algo que, discutivelmente, Compass Box e Bruichladdich fazem.

É claro que o inverso também pode acontecer. Imagine um whisky composto 99,4% de single malts com mais de vinte anos de idade, mas com apenas 0,6% de um componente com apenas três anos. Para seu produtor, há apenas duas opções. A primeira, esconder a idade e parecer ainda menos transparente. A outra, estampar orgulhosamente seus três anos no rótulo. A Compass Box Whisky Co. ironizou isso com seu Three Year Old Deluxe. Entenda a história aqui.

Assim, meus queridos leitores, ao invés de apoiarem seus copos na mesa e se prepararem para um combate virtual, sentem-se e reflitam. Mesmo um assunto de tamanha singeleza como quanta informação deve ser passada no rótulo de uma bebida é multifacetada. E como um prisma ou um brilhante, há beleza nisso. É isso que faz o whisky uma bebida tão diversificada, capaz de agradar a um público tão diverso quanto apaixonado. Não importa muito o que está no seu copo – um Springbank puro ou um Cutty Sark com gelo. Levantem-os e brindem à diversidade.

Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare Port Ellen

Em 1888, numa mina localizada em Kimberly, na África do Sul, foi feita uma descoberta extraordinária. Extraordinariamente valiosa. O outrora terceiro maior diamante do mundo, de uma translúcida cor de whisky. Batizado de De Beers – por conta da empresa de mineração que o encontrou – o brilhante, depois de lapidado, possuía mais de 230 quilates. Isso é realmente muito, caso você não seja um entusiasta da gemologia.

A pedra, que adquirira fama internacional, foi então comprada pelo marajá Bhupinder Singh, da Índia, em 1889. O monarca juntou a gema a mais 2.930 diamantes – alguns deles raríssimos – de sua coleção, e comissionou a Casa Cartier para criar uma das maiores peças de joalheria de todos os tempos. Um colar cerimonial, chamado Patiala. A peça final, produzida com platina, tinha mais de mil quilates. Em seu centro, reluzia o enorme De Beers.

Enfim, uma joia para uso casual.

Mas – e desculpem pela paráfrase medíocre – nem tudo eram diamantes no céu. Em meados de 1950, o enorme colar desapareceu do tesouro real, e assim permaneceu por mais de quatro décadas. Em 1998 ele foi encontrado pela própria Cartier em uma joalheria de Londres, mas sem suas pedras mais preciosas – dentre elas, o De Beers.

Se fosse um whisky, o colar cerimonial do marajá seria, com toda certeza, um Johnnie Walker Blue Label Ghost and Rare Port Ellen. Uma das mais sofisticadas criações da marca do andarilho à venda em nosso país. E, em seu centro, fazendo as vezes do De Beers, estaria o raro e cobiçado malte da destilaria desativada Port Ellen.

A Port Ellen, localizada na ilha de Islay – considerada por muitos a joia da coroa dentre os silent stills da Escócia – produzia um single malt muito semelhante ao Lagavulin. Ela foi desativada em 1983 e convertida em malting floor, para fornecer malte para as demais destilarias do grupo Diageo – que já possuía outras duas na ilha.

De lá pra cá, como aconteceu com a Brora, foram lançadas edições especiais limitadíssimas de Port Ellen, tanto pela própria Diageo quanto engarrafadoras independentes, utilizando seu estoque remanescente. Por conta de sua raridade e fama, estas garrafas passaram a atingir valores progressivamente mais altos em leilões. Em 2017, num plot twist digno de um colar de marajás, foi anunciada sua reativação, que, segundo estimativas, ocorrerá em 2020.

Perspectiva artística da Port Ellen após a reativação

O Blue Label Ghost & Rare Port Ellen é a segunda expressão da linha Blue Label que leva maltes de silent stills – o nome dado a destilarias que cessaram sua produção. A primeira foi o Blue Label Ghost & Rare Brora, lançado no Brasil em 2018, que tinha como coração a famosa destilaria Brora, das Highlands Escocesas, desativada em 1983 – e também com reativação anunciada.

De acordo com Guilherme Martins, diretor de Reserve da Diageo no Brasil “A série Ghost and Rare proporciona uma viagem pelas destilarias icônicas da Escócia que tem suas reservas cada vez menores. No ano passado, em sua primeira edição, a homenagem foi para a prestigiada destilaria Brora; agora é a vez de celebrar Port Ellen”

Além de Port Ellen, sua preciosa peça central, o Blue Label Ghost & Rare Port Ellen leva mais duas gemas raras. São whiskies de grain distilleries* silenciosas – Carsebridge, desativada em 1983, e Caledonian, silenciada em 1988. O blend se completa e equilibra com o uso de maltes de destilarias ainda ativas, como Mortlach, Dailuaine, Cragganmore, Blair Athol e Oban.

Caledonian (fonte: Whisky.com)

Segundo a Johnnie Walker, o Blue Label Ghost & Rare Port Ellen é um whisky “com camadas adocicadas de baunilha cremosa e ondas progressivas de frutas cítricas, malte e frutas tropicais – tudo perfeitamente equilibrado pelo caráter enfumaçado e marítimo de Port Ellen, que perdura na finalização“. Seja lá o que ondas progressivas de frutas cítricas significar.

Deixando de lado o caráter poético, as notas de prova acima não estão longe da verdade. O Ghost & Rare Port Ellen é um blend equilibrado e complexo, que apresenta um sabor vínico e adocicado no início, e que, progressivamente, se torna delicadamente enfumaçado. Ele está par a par com o Ghost & Rare Brora, seu predecessor e – melancolicamente, na opinião deste Cão – é notavelmente superior ao Blue Label tradicional em complexidade sensorial.

No Brasil, uma garrafa do Blue Label Ghost & Rare Port Ellen tem preço sugerido de R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais). É bastante dinheiro, em valores absolutos. Mas é também uma rara oportunidade de se provar um blend de qualidade sensorial excelente, produzido com um dos maltes mais raros de toda Escócia. Praticamente uma joia líquida. E se eu fosse você, experimentaria. Antes que ele misteriosamente desapareça.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL GHOST & RARE PORT ELLEN

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 43,8%

Notas de prova:

Aroma: Mel, frutas vermelhas, pimenta do reino.

Sabor: frutas vermelhas, caramelo, baunilha. Final progressivamente enfumaçado e seco, com baunilha e pimenta do reino.

Preço Médio: R$ 1500,00 (mil e quinhentos reais)

*grain distilleries são destilarias que produzem whisky de grão, que utilizam principalmente cereais não maltados (e uma pequena proporção de cevada maltada). A destilação ocorre, na maioria das vezes, em um destilador contínuo, e não em alambiques de cobre, como seria com um single malt. Sensorialmente, grain whiskies são menos oleosos, e geralmente – por terem seu new-make mais neutro – deixam o caráter do barril bastante claro. São usados, essencialmente, para conferir drinkability a blends, ainda que haja alguns single grains excepcionais no mercado internacional.

Jura The Road – Drops

Jura é uma ilha curiosa. Curiosamente pouco populosa. A ilha – uma das maiores das Hébridas Internas, com mais de trezentos e sessenta e sete quilômetros quadrados – já contou com uma população superior a mil habitantes. Porém, atualmente, a ilha abriga em torno de duzentos habitantes. O que dá, numa conta bem porca, dá uma pessoa a cada dois quilômetros.

Por conta de sua diminuta população, a ilha possui apenas um hotel e uma única igreja. Além disso, sua malha viária não é exatamente extensa. Há somente uma estada, a A846. Ou melhor, metade de uma. Porque a A846 continua em Islay, ilha vizinha a Jura.

Jura, assim, conta apenas com o essencial. Mas o essencial na Escócia, claro, inclui uma destilaria. A Island of Jura, que recentemente lançou uma nova linha de expressões para o mercado de duty free. Seus rótulos homenageiam pontos geográficos importantes de sua ilha natal. E, naturalmente, a A846 não ficou de fora, com o Jura The Road (A Estrada).

O portfólio de travel retail

De acordo com a destilaria “Em Jura, há apenas uma estrada para se dirigir. Ela emerge da região selvagem ao norte, e acompanha a linha da costa em sua jornada sinuosa ao sul, até chegar à destilaria. É uma rara peça feita pelo homem em nossa paisagem indomada, e é tudo que precisamos. Aqui, mantemos as coisas simples. Preferimos deixar a complexidade para o nosso whisky

A maturação do Jura The Road acontece em barricas de ex-bourbon de carvalho americano, e é finalizado por um prazo não declarado em barris que antes contiveram vinho jerez PX de vinte anos. Sensorialmente, é um whisky de corpo médio, delicado, e com um final vínico discreto. É um whisky equilibrado e muito agradável.

Apesar de não estar à venda no Brasil, para os viajantes, não é difícil conseguir uma garrafa do Jura The Road. O single malt está à venda nos duty-free de aeroportos internacionais brasileiros, e custa US$ 82,00 (oitenta e dois dólares). E vá por mim – ele será a experiência mais próxima da jornada pela única estrada de Jura, e você nem precisa sair do lugar.

JURA THE ROAD

Tipo: Single Malt sem idade declarada

Destilaria: Jura

País/Região: Islands – Hebrides

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com canela e vinho fortificado.

Sabor: frutado, com vinho fortificado e gengibre. O final é progressivamente vínico e lembra passas.

Com água: A água o torna mais adocicado e menos vínico.

Preço: US$ 82,00

FEW Bourbon Whiskey – (um pouco mais do que um) Drops.

Lynchburg, Tennessee. Clermont, Kentucky. Quase qualquer apaixonado por whiskeys relacionará, rapidamente, estes lugares à sua bebida favorita. Afinal, lá estão as destilarias das mundialmente famosas Jack Daniel’s e Jim Beam, respectivamente.

Mas mesmo se você for um entusiasta do destilado norte-americano, é bem provável que nunca tenha ouvido falar em Evanston, Illinois. Bem, mesmo porque não havia nada de extraordinário em Evanston, Illinois, até 2011. Quer dizer, exceto uma curiosa história sobre a lei-seca norte americana.

É que a cidade foi um dos berços do movimento de temperança americano, que, mais tarde, culminou no nobre experimento. A Woman’s Christian Temperance Union – WCTU (algo como a União de Temperança Cristã) teve como sua segunda líder Frances E. Willard, nascida em Evanston. Foi sob sua tutela, a partir de 1879, que o movimento ganhou força, até conseguir, finalmente, que a lei seca fosse adotada nacionalmente. Além disso, depois de sua morte, sua casa se tornou a sede da WCTU.

Mas antes disso, Evanston já era uma cidade seca. Em 1855 a cidade inaugurou a Northwestern University. Ao recepcionar seus primeiros alunos, a instituição peticionou ao Estado que determinasse um raio de 4 milhas a partir de seu centro, onde seria proibida a venda e consumo de bebidas alcoólicas. “nenhuma bebida espirituosa, vínica ou outros fermentados alcoólicos devem ser vendidos sob licença, ou de outra forma, dentro de 4 milhas do local da referida Universidade (…) sob pena de vinte e cinco dólares por cada ofensa” – dizia a lei.

Por conta de toda essa história, é muito estranho que Evanston tenha sido escolhida para sediar uma das mais importantes destilarias artesanais dos Estados Unidos. Mas foi justamente o que aconteceu. A FEW foi fundada em 2011 por Paul Hletko, um ex advogado especializado em propriedade intelectual. Atualmente, além de bourbon, a destilaria produz um rye whiskey, um single malt e três diferentes gins.

Paul Hletko, pensando o que destilar em seguida.

De acordo com Hletko, em entrevista concedida ao site Popular Mechanics, “fazemos destilados de grãos porque estamos no celeiro do país “, e continua “Somos capazes de obter nosso milho, trigo e centeio regionalmente, em grande parte de cooperativas.”

E que grãos. O FEW Bourbon é composto 70% de milho, 20% de centeio e 10% de cevada maltada de duas fileiras – algo relativamente incomum no mundo do whisky, mas que faz sentido para Hletko. Aquela cevada é produzida localmente. Sensorialmente, e apesar da alta proporção de milho, o FEW é um bourbon relativamente seco e apimentado, graças ao percentual de centeio utilizado em sua mashbill.

A maturação do FEW Bourbon acontece em barris de carvalho americano virgens comprados de uma tanoaria na Minnesota. “Como a estação de cultivo livre de gelo é mais curta lá, os grãos mais firmes da madeira produzem um melhor equilíbrio de pimenta e baunilha e tornam os taninos mais intensos.“, explica Paul.

Infelizmente, o FEW Bourbon não chega ao Brasil. Mas é uma demonstração clara de um movimento crescente na indústria de whisky. A produção de destilados de excelente qualidade, em micro destilarias, com métodos inovadores e atenção especial a todos os detalhes. É uma bebida focada em um grupo de consumidores que busca não apenas um produto sensorialmente agradável – mas que tenha um diferencial, seja em sua produção ou história.

E quanto mais improvável a história – como a da FEW, aliás – melhor.

FEW BOURBON WHISKEY

Tipo – Bourbon Whiskey

ABV – 46,5%

Região: N/A – Evanston, Illinois

País: Estados Unidos

Notas de prova

Aroma: caramelo, malte, especiarias, canela.

Sabor: Caramelo, pimenta do reino. Há um sabor bem interessante de cravo e canela, que complementam o adocicado do whiskey. Final longo e floral.

Com água: A água torna o whiskey menos apimentado e mais seco.

Scofflaw Cocktail – Neologismo

Neologismo. A criatividade humana aplicada à linguagem. O berço de palavras, para suprir necessidades ou lacunas. A prova de que a língua não é pétrea ou falecida, mas fluida e viva – em constante mudança.

Se você acha que escrevi algo abobado, então dê uma googlada. Eles são onipresentes. O drone comprado no camelódromo. A foto photoshopada da blogueira. O computadorês, aliás, é campeão – deletar, resetar, escanear e (um preferido meu) boostar. Com dois “ós”, por favor, e sem me trollar, porque com um só, é outra coisa.

Mas a coquetelaria não fica muito para trás. Coquetel mesmo, a palavra, já foi um neologismo. Ela deriva do inglês cocktail, que, por sua vez, pode ter vindo da corruptela de uma palavra creole – cockley. Ou de uma história bizarra envolvendo gengibre e o derrière (esse nao é um neologismo) de mamíferos de grande porte. Ninguém sabe ao certo.

Outro neologismo na coquetelaria – mas em inglês – foi Scofflaw, que pouco tempo depois virou um drink. A palavra, que significa “zomba-lei” era usado para descrever justamente o público alvo do coquetel. Os homens que desafiavam a lei seca e bebiam. A palavra ganhou um concurso promovido por Delcevare King, para criar o termo que descrevesse este perigoso criminoso e incutir consciência nas pessoas de bem.

Que absurdo

Mais tarde – e maravilhosamente, em minha singela opinião – o nome foi usado de uma forma irônica para batizar um drink. Que curiosamente não foi inventado nos Estados Unidos, ainda que tenha sido cunhado em 1924, durante a Lei-Seca. Ele é apenas uma homenagem àqueles valentes – e abastados – bebedores, dispostos a atravessar um oceano para satisfazer sua lascívia etílica. Seu criador foi um certo Jock, do Harry’s Bar New York, localizado em Paris. E não Nova Iorque, apesar do sugestivo nome do estabelecimento.

A receita original do Scofflaw pede 1/3 whiskey de centeio, 1/3 vermute frances, 1/6 suco de limão e 1/6 grenadine. Este Cão, porém, talvez prefira a versão adaptada de Gary Regan, que coloca o Rye Whiskey em evidência, em proporção semelhante à do Manhattan.

Assim, caros leitores, aí vai a receita de mais uma maravilhosa mistura criada durante o Nobre Experimento. Retirem seus tábletes – outro neologismo, ou talvez estrangeirismo que define estes instrumentos tão inúteis quanto fascinantes – do armário e tomem nota. O Scofflaw.

SCOFFLAW COCKTAIL

(receita de Gary Regan)

INGREDIENTES

  • 60ml Bourbon ou Rye Whiskey
  • 30ml Vermute seco
  • 7,5ml suco de limão siciliano
  • 15ml grenadine
  • 2 dashes orange bitters (no Brasil, a opção mais fácil é Angostura Orange)
  • parafernália para bater
  • taça coupé

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em uma coqueteleira com gelo. Chacoalhe com força.
  2. Desça o conteúdo em uma taça coupé, coando com um strainer.

Obs – Se você ainda assim achar o coquetel doce, experimente reduzir o grenadine e elevar o limão siciliano. Este Cão recomenda 15ml de limão siciliano para 10ml de grenadine, mantendo-se as mesmas medidas de vermute, whiskey e bitters.

Bacardi Reserva Limitada – Um rum com alma de whisky.

Certa feita, comentei um pouco sobre o simpático canídeo fotografado na página inicial deste infame blog. O Maverick, meu querido cão de estimação. Na oportunidade, contei que o Maverick nasceu cachorro, mas com alma de gato. O que pouca gente sabe, entretanto, é que possuo outro animal, com o problema diametralmente oposto. Um gato que acha que é cão.

Seu nome é Byron – em homenagem ao fidalgo escritor maldito. E, assim como ele, o Byron tem umas obsessões esquisitas. Mas, no caso do felino, a fixação não é sexual. Mas é por fones de ouvido. Só de ver um fone de ouvido, o Byron já fica louco para destroçá-lo em milhares de pedaços – uma atividade que desperta em mim doses iguais de desespero e ódio.

Mas isso não importa. O que importa, é que ele acha que é um cachorro. Ele nos recepciona na porta, quer ficar sempre junto, ama lamber nossas mãos e adora, de idolatria, a ração canina que o Maverick despreza. O Byron, por fora, é um gato. Mas, por dentro, há aquele coração inconsequente brincalhão de todo canídeo. Ele é o gato perfeito para qualquer um que ama cachorros.

Tá, não exagera.

Se fosse um rum, o Byron seria, muito provavelmente, o Bacardi Reserva Limitada. Lançado recentemente pela Bacardi no Brasil, ele é o rum com mais alma de whisky que já tive o prazer de provar.

Mas as semelhanças não são meramente sensoriais. Assim como muitos whiskies, o Bacardi Reserva Limitada é maturado em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. A maturação leva, em média, doze anos. O que pode parecer pouco no universo dos scotch whiskies. No entanto, deve-se lembrar que, ao invés das temperaturas agradavelmente gélidas da Escócia, tem-se o escaldante sol caribenho, que acelera bastante o processo de amadurecimento.

Inicialmente, o Bacardi Reserva Limitada era reservado para a família de Facundo, fundador da Bacardi. Sua produção comercial se iniciou timidamente em 2003. Porém, era necessário ir a Porto Rico para se comprar uma garrafa. Em 2010, no entanto, o rum passou a ser disponibilizado mais amplamente. E agora finalmente chegou ao Brasil oficialmente.

Além do Reserva Limitada, a Bacardi lançou mais duas novas expressões em nosso país. O Añejo 4 anos – desenvolvido especialmente para coquetelaria – e o Añejo 10 anos, posicionado um pouco acima da outrora coroa da marca no Brasil, o Bacardi Ocho. Além destes, há ainda os conhecidos Carta Blanca e Carta Oro.

Parte do novo portfólio da Bacardi

Sensorialmente, o Bacardi Reserva Limitada apresenta notas de coco, caramelo, açúcar mascavo e laranja. O final é longo e traz um delicioso sabor de frutas. O álcool – a 40% de graduação – é contido e bem discreto. Os aromas e sabores são delicados e equilibrados. Nada nele é excessivo ou tenta roubar a cena. É um rum que prima pela delicadeza e pelo equilíbrio. De certa forma, o tema aqui me lembrou o Dewar’s 25 anos – um blended scotch super-premium, que também preza pela complexidade sem exageros.

Se você é apaixonado por whiskies, o Bacardi Reserva Limitada é o seu rum. Ele atenderá as expectativas até dos mais sofisticados apaixonados pela bebida tipicamente escocesa. Não importa se você é um apaixonado por cães ou uma cat-person.

BACARDI RESERVA LIMITADA

Tipo: Rum

Marca: Bacardi

País: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e frutado, com couro.

Sabor: leve e extremamente delicado. Muito equilibrado, com coco, caramelo, açúcar mascavo e laranja. Final longo e frutado, com um pouco de couro.

Preço: R$ 750,00 (setecentos e cinquenta reais)

*a degustação do rum tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Bacardi Legacy – Final Nacional

O almoço de segunda-feira é, talvez, a refeição mais detestável da semana. Há a vã tentativa de compensar os excessos do fim de semana com alguma saladinha safada e um suco natural, aliada ao prognóstico de uma longa semana de trabalho. Enfim, uma atividade que não incita muita emoção, nem no campo gastronômico, nem no psicológico.

Devo dizer que nunca me empolguei com a previsão de um almoço de segunda-feira. Isto é, até ontem. Porque, à convite da Bacardi, este Cão Engarrafado participou de um almoço bem especial. E bem pouco ortodoxo para o primeiro dia útil da semana: um churrasco na famosa Corrientes 348, em São Paulo, com Jose Sanchez Gavito, Maestro de Ron dos runs da Bacardi.

Light

O almoço, acompanhado de uma degustação do incrível novo portfólio da marca no Brasil, marcou o dia da final da etapa nacional do Bacardi Legacy. Um campeonato de coquetelaria internacional, que desafia os bartenders de todo o mundo a criarem o coquetel que tenha o maior potencial de se estabelecer como um clássico e deixando seu legado na coquetelaria, ao lado de drinks como o Daiquiri, Mojito, Cuba Libre e inúmeros outros clássico originalmente criado com rum Bacardi.

Na oportunidade – além do já conhecido Bacardi Ocho – provamos três lançamentos da marca por aqui. O Añejo 4 anos – desenvolvido especialmente para coquetelaria – o Añejo 10 anos, posicionado um pouco acima do Ocho e o incrível Bacardi Reserva Limitada, um rum super-premium capaz de fazer frente a blended scotch whiskies sofisticados (e que, mais tarde, terá seu foco neste infame blog)

Parte do portfólio

Gavito contou uma série de curiosidades sobre a produção dos runs da Bacardi. Uma das mais interessantes – na opinião deste geek que vos escreve – é sobre a posição das barricas no armazém. Ao invés de serem mantidas deitadas, como seria em uma warehouse de whisky, os barris com rum são armazenados em pé. Isso, de acordo com o Maestro, facilita o transporte e economiza espaço.

Depois de nosso almoço, seguimos para o Benzina Bar, para acompanhar o trabalho dos jurados da Bacardi para escolher o finalista nacional, que disputará a final mundial. Foram três competidores: Ariel Todeschini da Motta com seu Lazo, Michelly Rossi com o Dandara Cocktail e Tom Oliveira com seu Ocho Maneras.

Ocho Maneras

E após três excelentes apresentações, o vencedor foi escolhido. Tom Oliveira. Sua criação, o Ocho Maneras, leva Martini Extra Dry, St. Germain, orange bitters, solução salina e, claro, Bacardi Ocho, que lhe serve de base.
Ele possui elementos que remontam clássicos de whiskey, como Manhattan e Old Fashioned, mas é feito com o rum.

Tom Oliveira trabalhou em bares como The Edge, Lions, Alberta #3 e Home SP. Atualmente, está à frente da Casa Quatro Oito, em Florianópolis.

Quer saber mais detalhes sobre o Ocho Maneras e obter a receita? Então acesse o Mixology News – responsável pela cobertura oficial do evento!

Singleton of Dufftown – Curva de Aprendizado

Quando tinha uns quatorze, quinze anos, resolvi que aprenderia a falar russo. Sei lá porque decidi aprender russo. Talvez porque eu não fosse esquisito o suficiente já, trinta quilos acima do peso, jogando RPG e desenhando no intervalo das aulas do que outrora era conhecido como colegial.

Meus pais, sempre dispostos a estimular meus interesses mais excêntricos, logo encontraram uma excelente professora. Fazia duas aulas por semana. Falar já era bem difícil, mas o pior de tudo mesmo era ler. E o alfabeto cirílico não ajudava nem um pouco.

Depois de um ano, minha professora me deu um livro pra ler sozinho. Três Porquinhos. Indaguei se não havia uma leitura mais interessante. Meu querido, todo mundo precisa começar do básico. Você não vai entender, se eu te der um Pushkin, Maiaskovski ou Dostô. Acenei com a cabeça. No final, não entendia direito nem mesmo a história do trio de suínos. Mas conhecia a versão em português, e assim consegui preencher as lacunas de minha inabilidade linguística.

три свиньи

Essa semana, me vi recordando do conto infantil na língua eslava ao provar um single malt recém chegado ao Brasil. O Singleton of Dufftown – mais um da tríade (não posso deixar de notar a coincidência com o número de porcos) de Singletons que desembarcou em nosso país.

Os Singletons são um grupo de expressões de diferentes destilarias pertencentes à Diageo, cujos rótulos são destinados a iniciantes neste inebriante mundo dos single malts. Além de Dufftown, fazem parte do conjunto Glen Ord e Glendullan.

Como o nome sugere, o Singleton of Dufftown é produzido na destilaria Dufftown, na cidade homônima. Tipo aquele filme do Adam Driver, em que tudo tem o mesmo nome, só que com menos poesia, e mais álcool. Naquela cidade, também se localizam destilarias bastante conhecidas, como Glenfiddich, Mortlach, Balvenie, Glendullan e Kininvie.

A destilaria Dufftown é uma das maiores em volume de produção do portfólio da Diageo – perdendo apenas para a Caol Ila e a gigante Roseisle. Apesar disso, menos de 5% de sua produção é engarrafada como single malt. O restante é destinado a blends, especialmente o conhecido Bell’s.

Sensorialmente, o Singleton of Dufftown é um single malt bem simples, adocicado e que aparenta pouco maturado. Ele não chega a ser agressivo – aliás, longe disso. Mas também, não há muita profundidade. Seu perfil de sabor foi feito para agradar, não surpreender – assim como o conhecido conto infantil. Ou por acaso foi um plot twist pra você, o lobo não conseguir derrubar a casa de tijolos?

Aliás, combina super bem com os protagonistas!

A maturação do Singleton of Dufftown acontece em barricas de carvalho americano de ex-bourbon whiskey, “com uma alta proporção de barricas de carvalho europeu“. Essa última frase é da própria destilaria – tão empolgante quanto vaga. Afinal, qual a proporção? E o que havia dentro dessas barricas antes de receber o new-make ou whisky?

De qualquer forma, se você está começando no mundo dos single malts, e procura uma aposta segura e pouco custosa, o Singleton of Dufftown é seu whisky. Só não procure muita novidade – é um malte que oferece uma experiência bem semelhante a um blended scotch whisky premium padrão. Mas talvez isso nem seja ruim. Melhor partir de terra firme. Tchekhov e sua gaivota que nos aguarde

SINGLETON OF DUFFTOWN 12 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida (12 anos)

Destilaria: Dufftown

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, com mel, açúcar, baunilha.

Sabor: mel, amêndoas, malte, grãos. Final médio e adocicado

Com água: A água ressalta a base de grãos

Disponibilidade: disponível no Brasil – R$ 220,00, em média – à venda aqui.

Mortlach 16 anos – Drops

Deixe-me começar o texto de hoje com um pouco de autoajuda. O importante é reconhecer os próprios erros. Mas não apenas isso. Porque, bom, eu reconheço uma infinidade de coisas, como que exagerei no almoço ou que bebi demais certo dia. E apesar disso, apesar de jurar, de barriga estourando e embriagado, que jamais farei isso novamente, sei que isso é uma mentira tão efêmera quanto minha sensação de enfastiamento e vertigem.

O importante não é perceber que errou. O importante é mudar. E ainda que meu empenho não seja dos melhores, o da Mortlach – famosa destilaria localizada em Speyside – é.

É que há alguns anos, um dos rótulos mais disputados da linha Flora & Fauna da Diageo era um certo Mortlach 16 anos – já revisto aqui. Era um whisky pungente, vínico e ao mesmo tempo sulfuroso. Tão bom que elevou a fama da Mortlach e levou sua proprietária e reformular seu portfólio, dando destaque à destilaria.

O problema é que a outrora nova linha não era, nem de perto, tão boa quanto a expressão predecessora. A maturação em ex-bourbon – predominante naquela linha – não agradou. Tampouco o preço, que se elevara a ponto de tornar os Mortlach tão ou mais caros do que as mais custosas destilarias da Escócia.

Levou alguns anos, mas a Diageo notou que havia algo errado. E inspirando-se na fama daquele primeiro Flora & Fauna, lançou um novo portfólio. Com um novo dezesseis anos, que presta tributo direto àquela primeira expressão, tão admirada.

Flora e Fauna

Segundo a Mortlach “Por 70 anos a Mortlach foi o segredo mais bem guardado do mundo do whisky. Durante este tempo, ele fou usado quase exclusivamente como base para scotch whiskies (…). Finalmente, em 1992, decidimos que era hora de libertar ‘o monstro de Dufftown’, e lançar um elegante 16 anos, permitindo que poucos privilegiados (…) pudessem experimentar o caráter complexo de Mortlach

Este Single Malt Scotch Whisky é inspirado pela icônica e gratificante primeira expressão do 16 anos. Ela foi maturada somente em barricas de jerez para trazer notas apimentadas e adocicadas, sobre uma complexidade brutal, sinônimo de Mortlach.”

Assim como seu predecessor, o Mortlach 16 anos é vínico e apimentado, com aroma elegantemente sulfuroso – algo característico da destilaria e de seu incomum processo de destilação. Porém, ainda que seja um whisky excelente, o Flora & Fauna – se comparado lado a lado – é mais complexo e bem acabado.

De qualquer modo, o Mortlach 16 anos – e toda nova linha da destilaria – é uma corajosa assunção de um erro, e uma tentativa louvável de recuperar o respeito que a destilaria ganhara no passado – não pela propaganda, mas pelo sabor. E isso somente já seria motivo suficiente para experimentá-lo.

MORTLACH 16 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 16 anos

Destilaria: Mortlach

Região: Speyside

ABV: 43,4%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com influência vínica e frutada. Levemente sulfúrico

Sabor: Oleoso. Frutado e vínico. Vinho fortificado. Final longo e sulfurico

Preço: 80 GBP

Disponibilidade: Lojas internacionais