Amistoso – Chivas Regal 18 vs Ballantine’s 17 anos

Avanti. Não, não a expressão em italiano. Mosler. SSC. Hennessey. Não, não o conhaque. Os carros. Se você não for um completo obcecado por automóveis, há uma bela chance de jamais ter ouvido falar de alguma – ou qualquer uma – dessas marcas. Mas não precisa ficar com vergonha. Elas são obscuras mesmo. Produzem carros de performance para um nicho de entusiastas e não são muito conhecidas do público leigo. O contrário, por exemplo, de Ferrari e Lamborghini.

Ferrari e Lamborghini são tão conhecidas que qualquer pessoa, mesmo que jamais tenha pilotado qualquer um deles – meu caso – quando indagadas, demonstrarão preferência. É uma rivalidade clássica. Uma rivalidade, aliás, que vai muito além de gosto. A contenda entre Lamborghini e Ferrari, que se estende até os dias atuais, é histórica. Vou contar pra vocês.

Na década de 1960, as Ferraris eram o máximo em automóveis esportivos de luxo. Tanto é que um tal de Ferruccio Lamborghini – um rico proprietário de uma mecânica de tratores – possuía uma. Mas Ferruccio não estava satisfeito. Seu vasto conhecimento em mecânica, adquirido durante a segunda guerra mundial e seu negócio de tratores, apontava que havia espaço para melhora naquelas incríveis máquinas. E como todo entusiasta meio sem noção, Ferruccio resolveu que seria uma boa ideia apontar estes erros para o presidente da companhia – Enzo Ferrari.

Acontece que Enzo não ficou muito satisfeito com as críticas de alguém que, em sua concepção, não passava muito de um mecânico de máquinas rurais. E com a delicadeza de um trator, mandou o mecânico ir, proverbialmente, carpir um lote. Ferruccio, inconformado, decidiu desafiar a Ferrari e produzir um automóvel esportivo melhor do que aquele que havia comprado. Assim nascia a Lamborghini – que, até os dias de hoje, é constantemente comparada com a marca de Enzo. Carros com propósitos e público semelhantes. Mas, em seu coração, essencialmente distintos.

Pra carpir o lote com sofisticação.

Uma batalha parecida com esta poderia ser travada entre dois blended scotch whiskies muito queridos no Brasil. O Chivas 18 anos e o Ballantine’s 17. Assim como Ferrari e Lamborghini – aplicadas as devidas adaptações para o mundo do whisky – são dois blends super premium com perfil sensorial e preço semelhantes, que costumam ser frequentemente comparados entre entusiastas e apreciados da melhor bebida do mundo.

Mas não é apenas o perfil de sabor dos whiskies que é parecido. A batalha é, na verdade, quase um braço de ferro entre irmão – algo que talvez acirre ainda mais a animosidade. É que tanto o Ballantine’s 17 quanto o Chivas 18 pertencem à Pernod-Ricard, multinacional francesa também responsável por single malts como The Glenlivet, Aberlour e Strathisla, a vodka Absolut e o conhecido – e delicioso – gim Beefeater.

O coração do Chivas 18 anos é o single malt Strathisla, que lhe empresta um claro perfume floral e frutado, comparável a jasmim. Além dele, o blend emprega uma boa quantidade de Longmorn, além de uma discreta quantidade de um single malt de Islay, que não é divulgado.  Ao todo, o Chivas Regal 18 é uma mistura de algo entre dez e sessenta single malts e grain whiskies (o número real é um segredo muito em guardado), todos eles maturados por, no mínimo, dezoito anos em barricas de carvalho. O blend foi elaborado por Colin Scott, master blender da Chivas Regal.

A Strathisla

Já o Ballantine’s 17 anos possui, em sua base, os maltes das destilarias
Scapa, Glenburgie, Miltonduff e Glentauchers. É uma combinação interessante, que une um whisky delicado e mineral – Scapa – a whiskies secos e adocicados da mainland escocesa. Além, claro, de whisky de grão e proporção menor de whiskies de outras destilarias. Atualmente, o master blender responsável por ele é Sandy Hysop, que possui mais de trinta anos de experiência como blender.

Colocados lado a lado, o Chivas 18 é mais floral e delicado. O Ballantine’s 17, por sua vez, traz mais dulçor, e é mais frutado e intenso. Em ambos os casos, o álcool é extremamente bem integrado – graças à longa maturação do grain whisky, que costuma levar mais tempo para ter sua pungência atenuada. O sabor residual do Chivas 18 é mais longo e floral, enquanto que o Ballantine’s 17 começa doce e torna-se progressivamente seco. Ainda que possuam perfil de sabor semelhante, Ballantine’s 17 e Chivas Regal 18, quando colocados lado a lado, se mostram bem distintos.

Escolher um ou outro, como tudo na vida, é uma questão de gosto. E ainda que este Cão tenha uma leve propensão pela criação de Colin Scott (leia mais sobre isso aqui) a verdade é que o Ballantine’s 17 anos e Chivas 18 são dois dos melhores blended whiskies super-premium à venda em nosso país. Independente de sua preferência, e ainda que sua preferência seja por single malts, é quase impossível não gostar deles. São blends que entregam complexidade, personalidade e drinkability como poucos. Porque, afinal, entre Ferrari e Lamborghini, qual a melhor? A que eu tiver a oportunidade de dirigir, é óbvio.

BALLANTINE’S 17 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida (17 anos)

Marca: Ballantine’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, mel, especiarias e um pouco de fumaça.

Sabor: Adocicado no início e progressivamente  frutado, final médio, com um pouco de fumaça e vinho fortificado.

Com Água: Água torna o whisky mais adocicado e ressalta a fumaça.

CHIVAS REGAL 18 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 18 anos

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma claramente floral, com baunilha. Adocicado, com defumação muito, muito discreta.

Sabor: extremamente suave, com frutas em calda, chocolate, baunilha e um pouco de especiarias. É um whisky menos agressivo do que o Chivas Regal Extra, ainda que igualmente complexo.

Com água: A agua torna o whisky menos adocicado. É um blended whisky que funciona melhor sem gelo.

Chivas Regal Ultis – Drops

Sob o céu noturno desanuviado, do ducentésimo andar de um prédio de ferro e vidro, observava o trânsito. Dezenas de milhares de pares de luzes, formando enormes cordões iluminados. Alguns brancos. Outros, vermelhos, De lá de cima, até o caos do tráfego fica bonito. Deve ter a ver com esse silêncio contemplativo proporcionado pelo espesso vidro antirruído. Ou é isso, ou é a taça em minha mão. Meia dose do Chivas Ultis

Aquela era a primeira vez que provava o whisky. E não poderia haver oportunidade mais perfeita. Estava no escritório da Chivas, em São Paulo, a convite da Difford’s Guide. E ainda que a coquetelaria fosse a estrela da noite, minha atenção se voltou quase que instintivamente àquele Ultis – provavelmente o mais importante recente lançamento da marca escocesa.

O Chivas Regal Ultis é o primeiro blended malt da famosa marca escocesa. Em seu coração estão single malts de apenas cinco destilarias, pertencentes ao grupo Pernod-Ricard. Allt A’Bhaine, Braeval, Longmorn, Tormore e, claro, a magnífica Strathisla, lar espiritual da Chivas Regal. Por ser um blended malt, não há o emprego de whisky de grão. A utilização de apenas cinco maltes em sua composição é uma homenagem aos cinco master blenders que passaram pela Chivas Regal – dentre eles, o criador do Ultis, Colin Sott.

Não, o Javier não é um deles.

Nas palavras da Chivas “desde 1909, apenas cinco homens dominaram o estilo da casa Chivas Regal, e o Ultis presta homenagem a esta força de visão, comprometimento e domínio pelos Master Blenders da marca. O Chivas Regal Ultis é um whisky de luxo, com sabores complexos, coloração dourada e um aroma poderoso e rico, fazendo-o perfeito para celebrar o sucesso compartilhado com amigos.

Dos milhões de barris no estoque dos Chivas Brothers, apenas 1% foi selecionado a mão pelo time de blenders para criar o Chivas regal Ultis. Este método tradicional de avaliar individualmente cada barrica garante a qualidade superior do blend. O processo de destilação ocorre exclusivamente em alambiques de cobre, capturando a essência do caráter generoso e suave, característico da Chivas Regal. “

Se você for um whisky-geek e observar atentamente, há um ponto curioso sobre a fórmula do Ultis. Ocorre que blended malts costumam levar em seu coração whiskies de regiões diferentes da Escócia. A ideia é que estes whiskies, com diversos perfis sensoriais, quando combinados, criem equilibrio e complexidade. Um exemplo clássico é o Johnnie Walker Green Label, que leva os defumados Talisker (da ilha de Skye), e Caol Ila (de Islay) e os frutados Craggranmore e Linkwood (ambos, de Speyside).

Mas o Ultis é uma exceção a essa regra. Todos os maltes de sua receita provém da região de Speyside, e possuem perfil sensorial semelhante.
Pode parecer quase uma escolha equivocada, mas, na verdade, é um enorme acerto. O Ultis, nesse sentido, se distancia de um blend padrão – que procura agradar pela diversidade sensorial – e se aproxima de um single malt. Ao invés de trazer um pouquinho de tudo, o Ultis aposta na complexidade de um único perfil de sabor. Um frutado amadeirado, aliás, bem caraterístico dos Longmorn.

Se você – assim como este Cão – é um admirador dos whiskies da Chivas Regal, ou se procura algo com aquele perfil sensorial, mas um pouco mais intenso, o Ultis é seu whisky. É um blend que torna qualquer oportunidade que se pode prová-lo como perfeita.

CHIVAS REGAL ULTIS

Tipo: Blended Malt sem idade declarada (NAS)

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com mel, nozes e uma certa baunilha.

Sabor: Mais intenso do que a maioria dos Chivas. Frutas em calda, mel, panetone. Final frutado com baunilha discreta. Malte.

Disponibilidade: Lojas Internacionais



Entrevista com Danny Dyer – Embaixador Mundial da Grant’s

Os smartphones foram, talvez, a melhor invenção dos últimos quinze anos. Não por serem aparelhos práticos e versáteis, que contém todo o conhecimento do mundo a, literalmente, o toque de nossos dedos. E nem por nos ajudarem a economizar preciosos minutos em um mundo cuja maior commodity é, justamente, tempo. Não, a função mais importante mesmo é disfarçar minha fobia social.

O smarphone é um escudo. Um verdadeiro campo de força invisível. Ao descer os olhos e deslizar os polegares opositores sobre a tela preta, tudo é perdoado. Não há remorso no silêncio, mesmo no ambiente mais constrangedoramente social do mundo – o elevador. Com meu celular na mão, nunca mais precisei falar do tempo, do jogo de futebol que eu não vi ou qualquer outra aleatoriedade.

E pode parecer um contra senso isso, especialmente vindo de alguém cujo trabalho é, essencialmente, comunicação. Mas não é. Tenho uma enorme dificuldade em conversar. Tenho medo dos silêncios constrangedores. E de parecer enfadonho. Ou animado demais. Isso, claro, sóbrio. Depois de umas duas doses, posso conversar sobre tudo – das especificações técnicas do colisor de hádrons ao último sucesso “juntos e shallow now“.

Assim, quando recebi o convite da Interfood de realizar uma entrevista exclusiva com Daniel Dyer, o embaixador mundial da Grant’s, para aprender sobre a recente reformulação visual da marca, fiquei tenso. Mas nos primeiros minutos que encontrei Danny, percebi que meus medos eram completamente infundados. E não era apenas o Old Fashioned de Grant’s no meu copo. O papo fluiu, para mim, tão bem como new-make spirit descendo pelo spirit safe da Glenfiddich.

Nova identidade visual da Lady Gaga e Bradley Cooper

Danny foi escolhido entre mais de cinco mil participantes em um dos maiores concursos da indústria da bebida. O programa se chamava “The Greatest Job Interview in the World” e tinha como objetivo, justamente, escolher um embaixador para a nova fase da Grant’s. Que, agora, conta com as palavras “Triple Wood” nos rótulos de algumas expressões de seu portfólio, bem como uma garrafa bem mais sofisticada. Mas a melhor pessoa para explicar tudo isto não sou eu. É Danny. Vamos a ele.

Para começar, você tem viajado muito. Qual foi a sua melhor experiência?

Eu recebo essa pergunta algumas vezes. Eu não tenho o que mais gosto. Eu tenho aquelas que foram um grande choque para mim. Porque eu não viajei muito antes de conseguir este emprego. E o maior choque que tive foi quando fui para a África. Você tem uma ideia de como é, mas você realmente não sabe até chegar lá.

Fui para a Tanzânia e depois para o Quênia, Nairobi. Nós fomos de carro da Tanzânia para o Quênia, e quando chegamos a Nairobi, achei que fosse um lugar completamente diferente. Era como um lugar com muita energia, e muito atual. Foi a primeira vez que vi pessoas com Grant’s em suas mesas. Isso nunca acontece. Eu fiquei muito surpreso e passei ótimos momentos lá.

Então, o que você achou do Brasil? E quais foram suas expectativas?

O Brasil é ótimo. Eu não sabia o que esperar. Exceto pelo futebol. Eu sou um grande fã de futebol, eu amo o Celtics. E o Brasil pra mim sempre foi futebol. Quando cheguei aqui, foi bem cedo de manhã, e fui direto para o bar Guilhotina (para um guest bartending e apresentação para o on-trade). E a partir daí, me senti mais confortável. Fui bartender por alguns anos, então, a partir daí, tive uma melhor ideia do cenário.

Desde o primeiro momento, todos foram muito atenciosos, amigáveis e calorosos comigo, Compartilhando seus conhecimentos, eu sabia que estava em um abiente legal. Quando você vê os bartenders, você sabe como os consumidores serão, como a vida noturna será. Pessoas muito amigáveis.

Tudo indo bem, meu chefe disse que eu voltarei para o Brasil no próximo ano e espero ter mais tempo para explorar e conhecer os lugares. Dedos cruzados para que eu volte no próximo ano!

Vamos falar de whisky. Me conta um pouco mais sobre o Grant’s.

Eu acho que o Grant’s é uma ótimo blend. Tudo está equilibrado. O objetivo de todo blend é este. Quando a Escócia produzia apenas single malts, muito antes do licenciamento das destilarias, vendíamos nossos single malts para os ingleses. E eles diziam que era muito duro, muito forte. E assim, decidimos misturá-lo, para facilitar para o paladar inglês. Para mim, um blend deve ser essa mistura perfeita de partes trabalhando juntas. Eu gosto de todos os uísques, mas para mim, Grant’s é o que se destaca. É um Speyside clássico.

Que bom que você mencionou Speyside. Vocês só usam maltes Speyside na mistura?

Não não. Na verdade, usamos 25 maltes diferentes de toda a Escócia. Alguns não são do nosso portfólio. E nós temos nossa destilaria de uísque de grão, que é uma enorme coluna, com mais de 30 metros (100 feet). É impressionante. O uísque de grãos é feito com trigo ao invés de cevada e eu tive a oportunidade de prová-lo. E, sensorialmente, é frutado, lembra pera. E quando você tem a oportunidade de provar o single grain maturado, o sabor lembra aquelas balinhas de fruta americanas, com cremosidade.

Você tem que pensar que 60% da mistura vem do grain whisky, então quando você tem o grain whisky mais procurado em toda a indústria – Girvan – você está se saindo bem. E nós ainda temos Brian Kinsman como nosso master blender e Kelsie como seu aprendiz de blender. Eles têm que pegar 25 maltes únicos de todos os tipos, que devem combinar com o grain whisky. E deve haver consistência. Há cinco anos, hoje e daqui mais cinco anos, Grant’s tem que ter o mesmo sabor. A coisa mais difícil no portfólio é esta – novas destilarias estão morrendo e algumas nascem. Então não é como se houvesse uma receita. Isso muda o tempo todo.

A destilaria da Grant’s, Girvan.

Conte-me mais sobre a “Triple Cask Maturation”, a maturação em três barricas distintas, que está no rótulo do Grant’s.

Isso é algo que já fazíamos há bastante tempo. Usamos estes três tipos de barris para maturar todos os nossos whiskies. Mas ninguém sabia disso. E no ano passado, com o lançamento da nova garrafa e o novo portfólio, chegou a hora de contar às pessoas sobre a qualidade de nosso blended scotch whisky.

Então, os três barris são o de carvalho virgem, o de bourbon de reuso e carvalho americano de ex-bourbon de primeiro uso. Quando você está bebendo Grant’s puro, você percebe uma pimenta, que é do carvalho virgem.. Um sabor tânico, seco e de carvalho. O bourbon de primeiro uso traz certas notas clássicas de bourbon, baunilha, avelãs, açúcar mascavo. E, finalmente, com os barris de reuso você obtém o caráter da destilaria, porque a influência do barril é menor e o new-make spirit aparece.

Usar o carvalho virgem é muito raro na indústria do uísque escocês. Vocês usam muito isso?

Bem, eu não tenho certeza se deveria te dizer, eu poderia ter problemas. Bem, desculpe Brian, aqui vai. Usamos cerca de 5% de carvalho virgem. 5% da garrafa é de carvalho virgem. A razão é que é que ele é muito intenso. O sabor é super forte. E isso traz esse tempero e afeta bastante a cor também. Parece um barril de jerez, mas quando você prova, tem aquele sabor tânico de carvalho. E isso é apenas 5%;

E a composição? Quais são os maltes centrais lá? Glenfiddich e Balvenie? E a nova destilaria, Ailsa Bay?

Abrimos Ailsa Bay para ser quase uma réplica do Balvenie e como ela é operada. Não vou dizer que é a destilaria mais avançada tecnologicamente, mas é incrivelmente avançada. Uma pessoa pode executar todo o show, é muito impressionante. Eu passei algum tempo com o stillman lá, e ele me explicou que você pode realmente mudar como o mosto se comporta até – não me entenda mal, há seis telas na frente do cara, mas eles realmente sabem exatamente o que está acontecendo e o que vai acontecer se você mudar algum parâmetro. O Triple Wood e o Grant’s Smoky têm o Ailsa Bay, e você pode realmente sentir isso na mistura.

Ailsa Bay ainda tem também uma serpentina de refrigeração de aço inoxidável, ao invés de cobre. Como você sabe, o cobre limpa o new-make, remove os compostos sulfúricos. Mas o aço faz com que os aromas de fumaça e sulfuroso passem. Quando eu vi pela primeira vez, ainda pensei “não pode fazer tanta diferença“. Mas faz. E é apenas um malte, uma pequena porção do blend. Um malte muda tudo.

Alambiques da Ailsa Bay (fonte: scotchwhisky.com)

Agora, Glefiddich e Balvenie são enormes destilarias de single malt. Então, de novo, provavelmente serei morto por dizer isso, mas cerca de 6 ou 7 anos atrás paramos de usar Balvenie em Grant’s apenas porque o mundo do uísque está ficando louco por single malts. Então, Glenfiddich faz Glenfiddich e Balvenie faz Balvenie. Não há Glenfiddich ou Balvenie nos blends, porque é tudo engarrafado como single malt. Infelizmente, não podemos usá-los. Mas há inúmeras outras destilarias que podemos usar, de acordo com nossas especificações e nossos padrões, nos blends.

Me fale sobre o rebranding. Por que é importante colocar as informações sobre os barris no rótulo?

Eu acho que os consumidores estão ficando mais espertos. No passado, havia muito sobre o produto ainda estar na família e escolher os melhores grãos e tudo mais, mas acho que qualquer um pode dizer isso, certo?

Não se trata de chamar sua atenção na prateleira do duty-free. Mas parecer e soar ainda melhor. Então, para um bartender, quando a garrafa parece boa e eles sabem a história, faz sentido.

Quando colocamos “Triple Wood” lá, embora nem todos que comprem uísque sejam tão geek quanto você e eu, eles entendem a importância. A madeira é 60% do sabor que vem na mistura. Isso é o que está afetando o sabor. Mas não é apenas o nome. é a mudança da garrafa. A garrafa velha é um pouco como um cara alto e desengonçado. A nova garrafa é mais forte, parece mais forte. E os consumidores também se sentem assim. Muito mais confiantes!

A nova garrafa

E é verdade, isso é ótimo.

Sim, a informação procede, é real, não é papo furado.

Grant’s deve ser para todos. Grant’s tem um estigma de ser o whisky do vovô. Não é. A qualidade do líquido é tão boa que é uma pena que alguém não se permita experimentá-lo. Então, se temos que mudar a garrafa e o nome para isso, para mostrar o quanto somos realmente bons, então que assim seja. Agora podemos começar a mostrar. Nós fazemos isso há 125 anos, então estamos fazendo algo certo. Somos a terceira maior empresa de bebidas alcoólicas do mundo e a terceira mais vendida do mundo.

E mais. O Grant’s recebeu muitos prêmios. Dentre eles, o IWSC, que é super importante. No ano passado, Grant ganhou prêmio de destilaria do ano. Também ganhou produtor de uísque escocês do ano. E não é um caso único. Ganhou prêmio de produtor do ano por 12 vezes.

E esta é a maior mudança que fizemos em nosso portfólio por um longo tempo. Não é só o nome. É também o lema do nosso clã “Stand Fast“. Significa manter-se firme em seus pontos de vista, ficar com sua família e amigos e crescer forte juntos, e é isso que a Grant’s acredita. Também temos o que chamamos de “nosso músculo”, “nosso mestre” e “nosso criador”. Nosso músculo faz os barris. Nosso mestre mistura nosso uísque juntos. E o criador, faz o uísque. E nós somos a única destilaria do mundo a ter os três sob o mesmo teto.

É uma bela história, e você parece saber de trás pra frente. Você é embaixador há quanto tempo? E quantos países você já foi?

Por dezoito meses. E perdi a conta dos países. Mas pelo menos 20. Eu estive em Amsterdã na semana passada. E daqui, eu vou para o México, depois para a África. É ótimo, eu amo isso.

Nossa, quanta coisa. Aliás, você foi selecionado entre cinco mil participantes. Me conta da entrevista para virar o embaixador de Grant’s.

Essa pergunta sempre me faz rir. Foi a coisa mais louca que aconteceu. Um ano e meio atrás eu estava trabalhando em um bar de uísque, e um dos meus amigos me ligou um dia e me perguntou se eu queria viajar pelo mundo. Eu não tinha Instagram ou qualquer coisa, e não ligava muito pra midia social. Ele me mostrou o concurso da Grant’s, o “Greatest Job Interview in the World”.

Então eu fiz um certo Instagram, comprei algumas garrafas de Grant’s e convidei meus amigos, bartenders, para fazer alguns coquetéis. Na verdade, não me lembro muito daquela noite, mas um coquetel foi feito e postado. E algumas semanas passaram, e eu recebi um e-mail com “parabéns”, seguido rapidamente por “você está entre os 250 finalistas”. Então, parabéns e 250!

O e-mail dizia que eu tinha que fazer um vídeo para explicar meu ponto de vista como embaixador. Se fosse escolhido, iria para Dufftown (onde está Glenfiddich, pertencente à Grant’s). Então chamei um amigo, que é cineasta e ator – eu também costumava ser ator. E eu disse: “Eu sei o que eu quero fazer, eu tenho o script na minha cabeça, nós vamos até ao Water of Leith em Edimburgh. Traga sua câmera, ok? ”. Bebemos uma dose de Grant’s de café da manhã naquele dia. E no primeiro take foi perfeito, e nós o enviamos. Uma semana depois, eu estava entre os 20 finalistas.

Belo cenário para um vídeo!

E foi ótimo. Eu não sei se você já esteve em um lugar cheio de fãs de uísque e entusiastas. O pessoal de Grant’s é otimo em escolher pessoas. Havia uma grande energia lá. Eles conseguiram pegar 20 pessoas que não eram apenas entusiastas, mas não eram afetados ou metidos sobre o assunto. Fizemos muitos desafios e lembro-me do último dia, em que tomamos algumas boas doses para celebrar. E no dia seguinte, logo de manhã, estávamos todos alinhados logo ao lado da loja na Glenfiddich. Eu fui o segundo nome que eles chamaram. Eu comecei a chorar. Foi demais.

E aí me disseram que eu viajaria para a Rússia e depois para Taiwan ao longo de dez dias para apresentar Grant’s. E aqueles dez dias foram os dez dias mais loucos da minha vida. Eu desembarquei na Rússia e foi um vôo e tanto. Eu estava exausto, mas muito animado. E nos próximos três dias com a equipe na Rússia, eu não dormi. Eu preparava coquetéis em todos os bares. Eu chegava em um bar e alguém dizia “vai pra trás do balcão”. “Você tem certeza?” “sim, certeza, vai pra trás do balcão”. Então, bom, eu tenho uma lembrança confusa do que era a Rússia, mas muito divertida. Em certo ponto resolvi também declamar poesia escocesa para os russos. “Eu vou mandar aqui uns Robbie Burns”. E ainda arrematei com Bukowski.

Depois, fui pra Taiwan. e os lugares não poderiam ser mais diferentes. A Rússia tem uma máscara que, quando você a remove, passa a amá-la. Mas em Taiwan, eu tinha pessoas aleatoriamente correndo até mim e me cumprimentando porque eu era um pouco diferente. Foi fantástico. Eles tinham alguns desafios, ou tarefas, como eles chamavam. Um deles era uma harmonização de pratos com Grant’s. Foi realmente lindo.

Por fim, eu fui para a Austrália e conheci o time lá. Justin, que é o nosso embaixador do Monkey Shoulder, estava lá e me disse “você deve estar morrendo, vamos te dar uma folga”. E assim que saí do avião e fui para o hotel ele disse “É brincadeira, você está prestes a atravessar a Sydney Harbour Bridge”. E novamente, eu preparei coquetéis em toda parte. Em um barco, inclusive!

E quando voltei para casa, me senti estranho. Eu fui trabalhar alguns dias depois, e foi como se uma parte de mim tivesse sido removida. Foi como “Estou aqui, estou fazendo isso, mas tudo mudou“. E cerca de três semanas depois recebi um telefonema do nosso diretor de marca na época, ele disse “você conseguiu o emprego!”. Eu estava olhando para a parede ao telefone, e disse: “você tem certeza?“, E eu gritava, xingava e dizia “Me desculpe, mas você tem certeza?“. De lá, contei a novidade aos meus pais, e foi ótimo.

Vamos falar rapidamente sobre coquetéis. qual é seu preferido?

Eu acho que Old Fashioned. Old Fashioned mostra realmente o que é o uísque. Mas há um que eu amo só porque eu absolutamente odiava como um bartender. Qual é o coquetel que odiamos porque estamos a dez minutos do fechamento do bar e alguém pede um ou dois e, de repente, todo mundo está pedindo igual. Sabe qual é? Expresso Martinis!

E um Expresso Martini com o Grant’s é ótimo. Porque você muda o sensorial neutro da vodka por algo mais carregado, e isso o torna ainda mais quente.

De volta ao uísque – qual é o seu uísque favorito de Grant’s?

Gosto muito do Grant’s defumado, o Grant’s Triple Wood Smoky Blend. Eu também amo o finalizado em barris de cerveja ale, o Ale Cask. Foi o primeiro uísque a ser finalizado em um barril de cerveja. Não foi Glenfiddich IPA. Este foi vinte anos depois. O Sr. Balvenie (David Stewart, master blender da Balvenie) fez isso em 1996. E eu ainda acho que é um dos melhores Grant’s por aí.

Mas o que eu mais gosto é provavelmente o Rum Cask. Na minha segunda semana no trabalho, fui ver Brian Kinsman e ele tinha esses whiskies na frente dele. E ele disse “você vai experimentar alguns whiskies”. “Está bem”. “Então, o que você pensa sobre eles?”. E eu disse “bem, eles são muito legais”. E ele me perguntou “o que você escolheria?” E eu escolhi um. Ele então olhou para mim e disse: “Você acabou de escolher Grant’s Rum Cask”. E eu disse “não, sério mesmo?” Isso me deixou muito feliz!

Nossa. Pelo jeito, você e Grant’s foram feitos um para o outro!

Sim, acho que faz sentido!

Drops – Aberlour 15 Select Cask Reserve

Ah, a França, o país mais gourmet do mundo. Tão gourmet que a palavra gourmet é francesa. Só de queijos, são mais de mil. Mil tipos diferentes e oito categorias. E tem os vinhos. Por ano, são produzidas mais de 7 bilhões de garrafas de vinho no território francês. Isso sem contar os brandies, como o cognac e armagnac.

Com tanto queijo e álcool, seria de se supor que a França jamais beberia uma gota de bebida importada. Porque, gente, quando dá pra fazer todo dia um queijo-e-vinho diferente e arrematar com um conhaquinho, quem iria pensar em algo vindo de além da fronteira?

Mas a realidade é surpreendente. A França é um dos maiores consumidores de whisky do mundo. Per capita, aliás, é o consumo mais alto do mundo. 2,15 litros por ano por habitante. Pra você ter uma ideia de como isso é muito, o Brasil – mesmo comigo e com a cidade do Recife elevando a média – consome apenas 0,24 litros per capita da bebida.

E naquele país, uma das marcas de single malt mais apreciadas é o Aberlour. Talvez seja por conta do perfil sensorial voltado para o mundo dos vinhos. Ou talvez por ser quase impossível falar Aberlour com sotaque francês sem fazer biquinho. Não sei. Mas o fato é os franceses são apaixonados pela destilaria. Tão apaixonados que a própria Aberlour lançou um rótulo exclusivo para seu mercado. O Aberlour 15 Select Cask.

É que o Aberlour 15 – o normal – é um dos rótulos preferidos dos habitantes da terra do croissant. Mas muitos procuravam algo mais encorpado. Algo que fizesse frente aos brandies mundialmente admirados daquela nação. A Aberlour, então, criou seu Select Cask Reserve. É um Aberlour 15 anos, mas com uma seleção de barris um pouco diferente, ainda que não claramente divulgada, mas que privilegia os sabores de caramelo e baunilha vindos do carvalho americano.

Sensorialmente, o Aberlour 15 Select Cask Reserve é oleoso, mas bem mais dócil do que parece. Há um bom equilíbrio entre o adocicado e o frutado vindo das barricas de vinho. O final é longo e também frutado, com um apimentado muito agradável. A 43% de graduação alcoólica, é o tipo de whisky capaz de agradar tanto bebedores mais experientes quanto iniciantes.

Assim, se você for afortunado (talvez literalmente) o suficiente para visitar a França, saiba que o país não tem apenas uma história incrível, bebidas excelentes, pratos deliciosos, cultura monumental e moda elegantíssima. Há também whiskies escoceses exclusivos, mon ami. E – como o Aberlour 15 anos Select Cask Reserve – excelentes.

ABERLOUR 15 ANOS SELECT CASK RESERVE

Tipo: Single Malt com idade definida – 15 anos

Destilaria: Aberlour

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado e adocicado, com baunilha e mel.

Sabor: frutado, com maçã, frutas vermelhas e carmelo. Final longo e progressivamente vínico e picante.

Com água: o sabor fica mais adocicado e menos picante.

Disponibilidade: Lojas internacionais

(Ainda mais) quatro personagens que amam whisky

Este é um post sazonal sobre personagens que amam whisky. Para ler os demais posts, clique aqui para o primeiro, aqui para o segundo e aqui para o terceiro.

Que o whisky é um catalisador de criatividade, ninguém duvida. O escritor William Faulkner, por exemplo, sempre mantinha uma garrafa ao alcance das mãos enquanto escrevia. Já Charles Bukowski, com todo seu ar hipster maldito, adorava boilermakers mesmo antes deles terem se tornado cool.

Dalton Trumbo – roteirista responsável por filmes como Papillon, Arenas Sangrentas e Spartacus – também não dispensava um bom whisky escocês ao exercer sua criatividade. E Samuel Clemens, conhecido pelo pseudônimo de Mark Twain, sempre possuía um bom pretexto para consumir a melhor bebida do mundo: “Eu sempre tomo whisky escocês a noite para prevenir dor de dente. Eu nunca tive dor de dente, e vou lhe dizer mais, eu não pretendo ter também

Muitas vezes o whisky permanece do lado real da obra ficcional. No entanto, ocasionalmente, o whisky passa a fazer parte da história. Afinal, há uma pletora de personagens que, assim como nós, compartilham do amor pela melhor bebida do mundo. Assim queridos leitores, aí vai mais uma lista com quatro indivíduos da ficção que, assim como nós, não dispensam um bom whisky.

Ron Swanson

Olha, tenho que admitir que somente ressuscitei este tema por conta de Ron Swanson, do seriado Parks & Recreation. Ron é um funcionário público mau-humorado, que trabalha ativamente para que a prefeitura da cidade ficcional de Pawnee, Idiana, seja mais morosa e ineficiente.

Ele despreza quase todo mundo, mas ama tudo que se relaciona ao universo eminentemente masculino. Carne, caça, embutidos e, claro, whisky. Seu malte de preferência é o incrível Lagavulin. A relação do personagem – e de Nick Offerman, ator que o impersonaliza – é tão forte que a própria destilaria convidou Nick para realizar alguns vídeos sobre ela. Para saber mais, acesse My Tales of Whisky, no YouTube

Arthur Bach

Arthur é o protagonista do filme homonimo, de 1981. Vivido por Dudley Moore, Arthur é um ébrio milionário novaiorquino à beira da falência. Para se salvar da miséria, arranja um casamento com Susan Johnson, herdeira de outro afortunado senhor, relacionado a seu pai. Arthur, porém, se vê dividido entre a conveniência e a paixão ao conhecer uma garota chamada Linda Marolla, estrelada por Liza Minelli.

Uma das frases mais famosas do filme vem de Arthur em uma inspiração etílica “Nem todos nós que bebemos somos poetas. Alguns de nós bebemos por não ser poetas“.

Tenente Archie Hicox

Há um espaço no inferno especial para quem desperdiça um bom scotch“. É com essa frase que o Achie Hicox, tenente britânico, começa seu discurso ao se ver no impasse final do filme Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino – no que, na opinião deste Cão, é a melhor cena do filme.

Não há menção sobre a marca do whisky, mas, pelo semblante do militar, é daquele tipo bom de morrer.

Rooster Cogburn

Rooster Cogburn é um Agente Federal (US Marshall) norte-americano, veterano da Guerra Civil, que é tão destemido quanto ébrio. Sua primeira aparição foi no filme True Grit, de 1968, vivido por John Wayne, e, posteriormente, Rooster Cogburn (1975) e True Grit: A Further Adventure (1978). Mais recentemente, foi reencarnado no corpo de Jeff Bridges, na regravação pelos Irmãos Coen do primeiro filme, em 2010.

Rooster não faz muita distinção do whiskey que bebe. Mas seu tipo preferido é um “genuíno estoura cabeça duplamente retificado, envelhecido em um tonel” ou, no original – que faz mais sentido – “Genuine, double-rectified bust head. Aged in the keg

Entrevista com Alexandre Campos – Especialista e sócio da Single Malt Brasil.

Escrever o Cão Engarrafado, para mim, na maioria das vezes, é um prazer imensurável. Também, pudera. Sou um entusiasta do whisky, e apaixonado por ler e escrever. E a espinha dorsal do trabalho é justamente este – beber e teclar, algo que eu já faria mesmo se não tivesse o blog. Na maioria dos dias, a escrita segue desatada. Mas, muito raramente, não. Tem dias que eu mesmo não aguento o som da minha voz – quero dizer, o tlec tlec das teclas do meu computador.

Além disso, eu sou um só, e a gente sabe que o tempero da vida é a diversidade. E o imprevisto também, nada como ser quase visto nu na frente da geladeira pela sua sogra, mas isso é outro papo, e estou a divagar. Assim, resolvi diversificar. Este é o primeiro de uma série especial de posts do Cão Engarrafado que eu não escrevi. É isso aí. São entrevistas com nomes importantes do mundo do whisky, seja no Brasil ou, quando possível, internacionalmente. A ideia é que o entrevistado diga o que pensa. Este Cão apenas transcreverá as palavras – o que, de certa forma, soa tentadoramente relaxante.

E para estrear este espaço, o Cão Engarrafado convidou Alexandre Campos. Alexandre é especialista em whisky formado pela Wine and Spirits Education Trust de Londres. É colecionador de whisky e ministra cursos voltados para o destilado no Brasil. Tanto é que, bem, foi ele um dos professores deste Cão Engarrafado que vos escreve. E, por isso, é uma enorme honra canina poder entrevistá-lo.

Campos é também sócio da Single Malt Brasil – uma loja virtual de bebidas, especialmente voltada para whisky. Recentemente, a empresa realizou sua primeira importação – single malts da destilaria Arran, localizada nas ilhas escocesas, e uma das mais jovens e promissoras do país.

1) Alexandre, você é um dos maiores especialistas em whisky no Brasil. Além da Single Malt Brasil, sei que é colecionador e um grande entusiasta deste inebriante mundo da melhor bebida do mundo. Como começou essa sua paixão por whisky?

Em tecnologia há um conceito chamado early adopters. Que são os pioneiros a adotar certa tecnologia. Eu sou um pouco assim com as bebidas. Sempre fui inteirado nas novidades e lançamentos no Brasil. Na década de 90 tomava Erdinger, que foi uma das primeiras cervejas especiais a chegar ao Brasil. Tinha também uma ligação com o mundo do charuto, que fumo desde meus vinte e três anos. E por isso sempre procurei experiências sensoriais novas.

Mas o grande turning point foi quando me mudei para o Reino Unido. Em 2005 fui para a universidade de Manchester, para fazer meu MBA. Manchester fica até mais perto da Escócia que Londres. E eu pude fazer seguidas viagens à escócia para visitar destilarias de whisky.

Lugar feio pra estudar.

Antes eu tinha uma coleção pequena de whiskies, com rótulos tradicionais. Com minha ida ao Reino Unido, fiz uma coleção mais criteriosa, com whiskies considerados de coleção. E durante meu MBA fiz um projeto de seis meses para a Diageo, e pude me inteirar do que era o mundo das bebidas onde não conhecia – o marketing, comercial, prospecção de mercados. E é nesse ambiente, de 2005 pra cá, que fui aprendendo cada vez mais do mundo do whisky. Prestando inclusive consultoria para destilarias na Escócia que querem importar para o Brasil, e na parte comercial.

6) Bom, você deve ter tido a oportunidade de provar whiskies incríveis. Quais mais te marcaram? Ou melhor, a pergunta que todo mundo faz pra mim – qual seu whisky preferido?

Bom, eu tive a oportunidade de provar whiskies bem caros e envelhecidos, Whiskies de 50, 60 e até 70 anos, que foi o caso do Glenlivet 70 da Gordon McPhail que provei no Whisky Show de Londres. Mas o curioso é que os whiskies que mais me marcaram não tem uma relação direta com o tempo de envelhecimento.

Por exemplo o Bowmore Port Cask 16 anos, que foi uma edição de 1990. Esse whisky eu bebi num cruzeiro, e minha sogra tava junto. A gente bebeu uma garrafa inteira, eu e minha sogra. O whisky era muito bom.

Talisker 10 é outro. Eu estava começando a ampliar meu horizonte no mundo do whisky, estava em um bar de musica latina em Londres. Olhei pra prateleira, vi o nome, Talisker. O barman colocou a dose e, ao prová-la, veio aquele aroma defumado, de algas marinhas, que me cativou. O Talisker 10 marcou.

Talvez o melhor que eu tenha provado na vida foi o Macallan Oscuro, que nada tem a ver com tempo de envelhecimento. Provei no Whisky Live de Londres, e gostei tanto que comprei duas garrafas. Essas duas não existem mais, foram bebidas ao longo desses anos, infeliz – ou felizmente. Bowmore 8 anos foi outro, do Feis Ile Festival de 2008, com 8 anos de envelhecimento. 800 garrafas no mundo, apenas. Um whisky jovem, que me marcou e que, inclusive, trouxe para degustação do Rio de Janeiro que fiz e foi eleito o preferido do dia. Prevaleceu até sobre o Bunnahabhain 25.

Um bem maturado foi o Glenfarclas 52, que tomei no Whisky Show de Londres. Quem serviu a dose foi o John Grant, da Glenfarclas. Na época o Glenfarclas era importado para o Brasil por outra importadora, e o John Grant estava bem entusiasmado de ter entrado no Brasil. Quem sabe agora a gente não resgata esse trabalho né?

2) Pegando aí o lado acadêmico. Para o pessoal que está começando a estudar sobre whisky. O que recomenda que façam? Recomenda algum livro ou curso?

Tem dois livros que acho muito interessantes. O World Whiskey do Charles Maclean, e o Atlas Mundial do Whisky, do Dave Broom. Esses são especiais, mas qualquer literatura desses dois é boa.

Eu recomendo aos iniciantes que procurem livros que tenham como elemento central a história e a produção de whisky. E que evitem livros voltados para reviews de whisky. Porque reviews são pessoais, vão muito do gosto. É uma coisa muito superficial se atentar somente a o que é o “melhor” whisky do ponto de vista de um escritor ou profissional do mundo das bebidas. Essa parte dos reviews vem natural, à medida que a pessoa vai provando mais whiskies.

World Whiskey, de Charles Maclean

Existe outro caminho, que é bem interessante, que é dos cursos e degustações. A própria Single Malt Brasil promove esses cursos introdutórios e avançados, e degustações de whisky. A gente tenta promover no mínimo um curso por mês, em alguma cidade do Brasil. No momento nossos cursos estão mais concentrados em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. É legal, para entender de whisky em si, mas para também conhecer pessoas, fazer networking e novas amizades.

2.1.) Legal. E o que acha desses cursos mais genéricos, que falam de diferentes bebidas?

Os cursos mais genéricos são interessantes. Os destilados seguem processos muito parecidos. O processo de produão de single malt é parecido com o processo de conhaque e da cachaça de alambique. Então, nesses cursos mais genéricos, as pessoas aprendem processos que são familiares não só a whisky mas a outros destilados também.

Tem uma escola em São Paulo, chamada Enocutura, que promove cursos no Brasil inteiro, e a Single Malt Brasil também pretende promover esses cursos mais genéricos no futuro.

3) Bom, vamos à parte prática. Eu acho que já sei a resposta disso. Mas como você enxerga o cenário do whisky no Brasil?

O mercado de whisky não é nada trivial no Brasil. É um mercado difícil de ser desenvolvido, e boa parte disso se deve a elevada tributação que a bebida sofre, tanto do governo estadual quanto federal. É considerado um produto supérfluo, de luxo, e tem uma alíquota de ICMS muito elevada. E isso faz com que o desenvolvimento seja difícil.

Além disso, há uma grande burocracia para aprovar whiskies no Brasil antes de realizar uma importação. A combinação dessa carga tributária elevada com a burocracia rigorosa, para aprovação e importação dos whiskies, acaba tornando o mercado difícil de ser desenvolvido.

Por outro lado, é um mercado promissor. Fazendo uma comparação com outros países da America do Sul, estamos atrás em termos de ofertas de rótulos e versões diferentes de whiskies. Especialmente single malts. Então há um espaço grande para desenvolver a importação de rótulos diferentes. É um mercado diferente, e o Brasil carece desses rótulos. É isso que a Single Malt Brasil tem tentado desenvolver nos últimos anos. Fizemos a nossa primeira importação, dos Arrans, e pretendemos importar outras versões da própria Arran quanto de outras destilarias.

A Arran

3.1) Especificamente em relação aos single malts, como você enxerga nosso mercado?

Olha, se o mercado de whisky já é dificil de ser trabalhado por causa de tributação e burocracia, o de single malt é ainda mais complicado. A oferta de single malts é menor do que a de whiskies blended. Então, isso faz com que as destilarias procurem mercados mais atrativos. Não apenas de volume, mas de preço. E os mercados atrativos atualmente são Estados Unidos, Europa Ocidental e Ásia. Então a America do Sul e Africa, por terem renda per capita menor, são menos atrativos.

Convencer uma destilaria a vender seus produtos no brasil não é fácil. Por causa do volume baixo, aliado a tributação alta e excesso de burocracia documental, muitas destilarias refutam exportar pro Brasil. Isso pode ser visto pelo lado ruim. É um mercado difícil de ser trabalhado. Mas vendo o lado bom, é que, uma vez vencida a burocracia inicial, os processos vão se repetindo. Quando vencemos uma barreira documental com certa destilaria, fica mais fácil seguir com essa destilaria. E uma destilaria acaba animando a outra a exportar. É um processo que pode se retro-alimentar num futuro próximo. E é nesse sentido que a Single Malt Brasil vem tentado desenvolver esse trabalho pioneiro e vencer barreiras, que não são intransponíveis, mas são elevadas para importação.

4) Recentemente a sua empresa, a Single Malt Brasil, fez sua primeira importação. Alguns rótulos da destilaria Arran. Como nasceu esse projeto e se desenvolveu?

Bom, a Single Malt Brasil trabalha no varejo. O projeto nasceu da atuação da loja no varejo. Observamos que faltava variedade de rótulos no mercado. Por conta dessa carência, e considerando desinteresse das destilarias na Escócia e importadores de aumentar a oferta de single malts, decidimos atuar no segmento de importação também. A single Malt acredita que o mercado brasileiro tem potencial, e os brasileiros precisam ter acesso a whiskies de melhor qualidade sensorial. Então o projeto nasceu com essa ideia, de oferecer mais single malts ao mercado brasileiro, ampliando a oferta e dentro da ideia de que nosso mercado tem atrativo e potencial.

Hoje são poucos single malts importados para o Brasil. São umas trinta versões diferentes. Nossos próprios vizinhos da America do Sul importam o dobro que a gente importa. O Brasil é um país grande que tem um mercado grande e precisa de uma empresa que faça esse trabalho pioneiro de oferecer whiskies de melhor qualidade. É o que temos tentado fazer nos últimos anos.

4.1) E a repercussão tem sido boa?

Até o momento, a repercussão de nossa importação dos Arran não podia ter sido melhor. Há interesse pela imprensa e entusiasmo pela Arran. A Arran estava tentando entrar no Brasil faz tempo. Tentaram anteriormente por dois importadores e não conseguiram. Então ficamos muito felizes por ter conseguido concluir esse projeto e colocar a Arran no Brasil.

E com os consumidores, a repercussão tem sido boa. Muitas perguntas, gente que não conhece a Arran no Brasil mas tem interesse em conhecer. E muita gente que já adquiriu os primeiros single malts que lançamos – o Arran Lochranza, Machrie Moor Cask Strength e o Arran 18. Então, até aqui, estamos muito felizes de ter efetivado esse projeto, e em breve, vamos lançar outras versões da Arran também.

Arran 18, expressão mais sofisticada da Arran trazida pela SMB

5) Bacana. Planos para trazer mais destilarias? Alguma marca/destilaria você adoraria poder trazer para o Brasil?

Tem muitas destilarias que a Single Malt teria interesse de trabalhar no Brasil. Mas tem duas que a gente gostaria especialmente de importar. Que são dois maltes excepcionais. Glen Scotia e Bunnahabhain. A primeira já começamos a ter uma conversa preliminar, e talvez consigamos importar num futuro próximo. E a Bunnahabhain, por ser uma destilaria icônica de Islay, que destoa um pouco da tradição de Islay, conhecida por ter whiskies enfumaçados. São maltes não defumados em seu core range, e belíssimos.

Essas duas teríamos vontade grande de trabalhar com eles. Compass Box é outra marca que adoraríamos trazer para o Brasil. Já entramos em contato com eles também. Mas, no momento, não sabemos se seguiremos adiante com a ideia de trazê-los para cá.

Bonus Track, Ale. Gostei da história do Bowmore e da sua sogra. Alguma outra história diremos, pitoresca?

Cara, em 2010 fui no Feis Ile, festival de Islay. Eu tinha reservado um bed and breakfast, mas não conhecia a dona. Quem me recebeu na porta foi o esposo dessa senhora. Ao me receber ele disse “Alex, do Brasil, você veio pro Feis Ile, então vem cá, vamos beber uns whiskies especiais que eu tenho”. Esse sujeito era o Harold Hastie, uma figura muito querida em Islay. Ele trabalhava na guarda costeira e era pescador. Ele recebia edições especiais das destilarias de Islay. Ele até tem uma edição que a Bruichladdich lançou, em sua homenagem.

Foi o Harold que descobriu o tal do yellow submarine. Era um submarino pequeninho para detectar minas, que pertencia à marinha britânica, que eles tinham esquecido em Islay em 2005. Aí o Harold Hastie e o cunhado dele pescaram o submarino. Naturalmente, avisaram a marinha britânica. Mas a marinha negou, disse que não tinha esquecido submarino nenhum. Aí o Harold resolveu pegar o submarino e colocar no quintal dele.

Só que Islay recebe muitos turistas. E eles ficavam tirando foto do equipamento no quintal do Harold. E isso gerou repercussão, chamou atenção da BBC, que fez um documentário sobre o tal do submarino esquecido. Aí a marinha pediu desculpas e disse que ia lá tirar o submarino no quintal do Harold, porque, de fato, era deles.

Mas enfim, naquela noite eu fui lá, bebi os whiskies com o Harold. Começamos às 10 da manhã. Tinha coisas incríveis, Port Ellen, Lagavulin 25, Laphroaig 30. Eu não recusei nenhum. As quatro eu estava completamente bêbado. Só fui acordar as seis horas da tarde do dia seguinte, e perdi dois dias de festival. Foi complicado.

Resiliência – Arran 18 anos

O rapper Will-I-Am uma vez disse que o mundo não precisa de mais uma opinião. Verdade. O mundo, na verdade, não precisa de mais um de uma porção de coisas. Brigaderia, paleteria mexicana, barbearia com cerveja. Escritório de advocacia, broker de bitcoin, partido político. Gente que reclama sem apresentar solução. Gente que reclama. Gente.

Apesar disso, admiro quem envereda por alguns destes caminhos. É preciso mais do que coragem para tomar a iniciativa de abrir mais uma hamburgueria artesanal, por exemplo. É preciso certa inconsequência, uma resiliência que beira a teimosia, e – talvez acima de tudo – amor próprio e autoconfiança tão grandes que quase chegam ao delírio de vaidade.

O mesmo acontece com whisky na Escócia. Em um país de aproximadamente oitenta mil quilômetros quadrados e que conta com mais de cem destilarias de whisky, é difícil imaginar que alguém pudesse ter o destemor para abrir mais uma. Mas foi justamente o que aconteceu em 1995. Naquele ano, Harold Currie (cuja história oportunamente será contada por aqui), ex-diretor da Chivas Regal, fundou a Arran Distillers próxima ao vilarejo de Lochranza, na ilha de Arran.

Harold (fonte: scotchwhisky.com)

Em 1998 a Arran lançou seu primeiro single malt. De lá para cá, o portfólio se expandiu de forma inacreditável. Atualmente, são mais de dez expressões. Há, por exemplo, single malts com idade declarada, como o 10, 14 e 18 anos. E também alguns sem idade definida, como Lochranza e Quarter Cask. Existe também uma linha com finalizações especiais, em barricas de vinho jerez, vinho do porto e sauternes. Há até mesmo uma linha de single malts defumados – os conhecidos Machrie Moor. Apesar da juventude, a Arran conta com um dos portfólios mais variados de toda Escócia.

E dentre todas estas expressões, uma das mais respeitadas é o Arran 18 anos. Inicialmente lançado para comemorar os vinte e um anos da destilaria como uma edição especial, o Arran 18 anos passou a integrar o portfólio permanente da Arran, graças a seu enorme sucesso. Na época, James MacTaggart, Master Distiller, declarou “Este é um engarrafamento muito importante para nós. Como a expressão mais madura dos maltes da Arran, ele representa o melhor de nossa destilaria, neste nosso vigésimo primeiro aniversário“.

A Arran

O Arran 18 anos é maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey e carvalho americano de ex-jerez. A proporção é de 70% bourbon para 30% vinho. A graduação alcoólica é de 46%. Assim como a maioria das expressões da destilaria, O Arran 18 anos não é filtrado a frio (saiba mais sobre isso aqui) e nenhum corante é utilizado (entenda).

O resultado é um single malt equilibrado e frutado com aroma cítrico e de caramelo, e com um incrível final que poderia definir como achocolatado. É uma demonstração incrível do que a Arran foi capaz de alcançar em tão pouco tempo.

Em 2016, o Arran 18 anos recebeu premio máximo na Scottish Field Whisky Challenge, e em 2018 foi vencedor da World Whisky Awards na categoria de single malts das ilhas com idade entre 13 e 20 anos. Nada mau para o primeiro whisky a atingir a maioridade na história da jovem destilaria.

Realmente, o mundo não precisa de mais uma opinião. Mas – se me permitirem que dê a minha – ele precisa de muitas, mas muitas novas destilarias. Destilarias como a Arran, destemidas o suficiente para produzir whiskies incríveis. O Arran 18 anos é a prova de que a Arran, apesar de sua juventude, está longe de ser apenas mais uma mediocre hamburgueria, paleteria mexicana, escritório de advocacia ou blog de whisky.

Ela é a prova de que o mundo jamais ficará saturado de coisas boas.

ARRAN 18 ANOS

Tipo: Single Malt 18 anos

Destilaria: Arran

Região: Higlands (Islands)

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, creme brulée. Malte.

Sabor: Frutado, com um fundo cítrico muito agradável. Caramelo. Final longo frutado, com baunilha. Pouco apimentado.

Com água: A água ressalta os aromas de baunilha e torna o whisky um pouco mais seco.

Preço: R$ 625,00 na importadora oficial, a Single Malt Brasil.

Jameson Caskmates IPA Edition – Simbiose

Eu não vejo muita televisão. Normalmente, quando me sento à frente do aparelho, é para ver um filme ou – mais raramente – série em algum serviço de streaming. Não tenho nem o costume e nem a disciplina necessária para acompanhar qualquer programa transmitido em horário fixo. Tanto que tenho uma contraditória relação de desprezo e admiração por quem consegue, religiosamente, acompanhar uma novela, por mais prosaica que seja.

Mas na semana passada, sei lá por que, resolvi ligar a TV. E logo fui absorvido por um documentário no Discovery Channel que mostrava a relação entre os crocodilos e uma destemida ave chamada tarambola. Que você conhece, apesar de não saber que conhece. É aquele passarinho que fica palitando os dentes do réptil, que, por sua vez, se abstém de transformá-lo em tira-gosto em troca da satisfação de limpeza bucal. E olha, acho que é um tradeoff bem bom, porque, pra um jacaré, satisfação bucal deve ser algo bem importante.

Fale Aaaaaaligator.

A relação dos dois é conhecida como uma espécie de simbiose. Uma cooperação animal, onde espécies diferentes se relacionam para o benefício de ambas. Há outros infinitos exemplos, como a anêmona e o peixe-palhaço, e a moreia e aquele peixinho azul. E como tudo na minha vida se relaciona a whisky, logo pensei em um exemplo próprio no mundo etílico. A destilaria Midleton, produtora do Jameson Irish Whiskey e a cervejaria Franciscan Well com seu Jameson Caskmates IPA Edition, que acaba de chegar ao Brasil.

Essa é a segunda simbiose – digo, colaboração, entre a destilaria e a cervejaria. Em 2014, a Midleton lançou somente na Irlanda uma expressão de Jameson finalizada em barris de de whiskey que foram usados para maturar cerveja stout da Franciscan Well. Deixe-me deixar mais claro: Barris de carvalho utilzados para maturar Jameson, posteriormente usados para a cerveja e retornados à Jameson para finalizar seu whiskey. A expressão foi um sucesso, e, em 2015, a destilaria lançou seu Jameson Caskmates Stout Edition mundialmente. E o que seguiu, dois anos mais tarde, foi a segunda edição da série, dessa vez, finalizado em barris de cerveja India Pale Ale, e tema desta prova.

O processo de maturação do Jameson Caskmates IPA Edition é bem semelhante àquele da Stout Edition. A Jameson – ou melhor, a Midleton – cedeu à Franciscan Well alguns barris previamente usados para maturar seu whiskey, para que essa envelhecesse sua Chieftain IPA. Algum tempo depois, a cervejaria retornou as barricas à Midleton, que as preencheu com seu whiskey.

Não há indicação de idade no Caskmates, nem de seu prazo de finalização. Este Cão, porém, num palpite educado, diria que é bem semelhante à do Jameson tradicional. A influência do destilado é, sensorialmente, parecida, ainda que Jameson Caskmates IPA Edition possua uma nota vegetal bem discreta que não se encontra na expressão clássica – e que, obviamente, é trazida pela finalização nos barris de cerveja.

De acordo com a Jameson “tendo descansado em barricas de IPA, este whiskey irlandês triplamente destilado apresenta a suavidade que os consumidores esperam do estilo, mas com notas de lúpulos, cítricas florais. O whiskey pode ser servido puro, com gelo ou harmonizado com uma cerveja. ” O que, apesar de não ter testado até então, reconheço que é uma ideia excelente.

Uma refeição completa

No Brasil, uma garrafa de 750ml do Jameson Caskmates IPA Edition custa, em média, R$ 150,00 (cento e cinquenta reais). É aproximadamente trinta reais mais caro do que o tradicional Jameson Irish Whiskey de um litro, com volume menor. Porém, mesmo assim, é uma diferença que compensa – nem que seja somente pela experiência de se provar um irish whiskey finalizado em barris de cerveja. Algo bem incomum, até mesmo no exterior.

Se você, assim como este Cão, é um entusiasta também do mundo da cerveja, ou se já é fã do Jameson Irish Whiskey tradicional, prove o Jameson Caskmates IPA Edition. E, se puder, combine com a India Pale Ale de sua preferência. Dentre todas, esta é, certamente, a mais inebriante simbiose do mundo.

JAMESON CASKMATES IPA EDITION

Tipo: Irish Whiskey

Marca: Jameson

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e floral, com baunilha.

Sabor: Frutado, adocicado. O final é progressivamente mais vegetal, mas não chega a ser amargo.

Preço: R$ 150,00

(travel) Drops – Glenlivet Master Distillers Reserve Small Batch

Há nove anos viajei com a Cã para o Peru. Foi uma viagem incrível, apesar de alguns nauseantes detalhes. Coisas bobas, tipo não conseguir respirar, comer ou beber água durante quatro dias a tres mil e trezentos metros de altitude, na maravilhosa cidade de Cuzco. Naquela oportunidade, conhecemos também Macchu Picchu, Lima e a região de Paracas e Ica – o que compensou um pouco o estado vegetativo trazido pela soroche.

Gostamos tanto da viagem que resolvemos repeti-la, nove anos depois. Menos a parte de Cuzco, porque, bom, porque a gente é teimoso, mas valorizamos nossa liberdade respiratória e cardíaca. E como não poderia carregar todos meus whiskies comigo, resolvi escolher um companheiro de viagem etílico. A decisão foi fácil – logo no aeroporto comprei um Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch. Um single malt polivalente e muito saboroso, perfeito para uma pletora de situações, como aquelas proporcionadas por essas incríveis viagens internacionais.

O Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch é o mais sofisticado dos maltes da linha Master Distiller’s Reserve da The Glenlivet, vendida exlcusivamente no travel retail – os nossos conhecidos freeshops. Além dele, há a versão de entrada, o Master Distiller’s Reserve original, e uma versão intermediária, que parte da maturação ocorre numa solera vat – um enorme tanque de madeira, que nunca é totalmente esvaziado.

A linha Master Distiller’s Reserve

A maturação do Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch é um tanto misteriosa. De acordo com a destilaria, é uma “combinação de ex-jerez, carvalho americano e carvalho tradicional“. O que, traduzindo, significa que o wisky passa por barricas de carvalho americano de ex-bourbon, carvalho europeu de ex-jerez e – pausa dramática para algo bem inusual – barricas de carvalho virgens. O tipo de carvalho destas últimas não é divulgado, porém, este Cão suspeita que seja europeu.

Pouco se sabe sobre os detalhes da maturação do Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch. Seu tempo de envelhecimento e a proporção exata das barricas não é divulgada. Muito provavelmente, porque varia de lote para lote, para padronização. O que se sabe é que a proporção de barricas de primeiro uso é maior do que nas demais expressões da linha. O que é ótimo. Barricas de primeiro uso transferem compostos responsáveis por certos aromas e sabores mais rapidamente para o whisky, aumentando a influência da madeira e os tornando mais intensos, na maioria dos casos.

Tive bons dez dias para me acostumar com os sabores e aromas do whisky. Sensorialmente, o Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch traz um interessantíssimo sabor de café, com amargor e especiarias em evidência. Há um residual cítrico, bastante discreto, mas excelente. É um whisky muito fácil de ser bebido e sensorialmente bem acessível. O álcool, a 40%, é pouquíssimo sentido – e, na opinião deste canídeo, poderia até mesmo ter percentual mais elevado, o que tornaria o whisky mais intenso.

Se você gosta de whiskies frutados e amadeirados, com excelente drinkability, o Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch é seu whisky. Ele é perfeito para acompanhá-lo em qualquer viagem, e se sai bem nos mais variados ambientes – de um ensolarado e cálido dia numa bela praia até um dia frio numa bela paisagem montanhosa. Mas se este for o caso, siga o conselho deste Cão – certifique-se antes que há ar suficiente para respirar.

GLENLIVET MASTER DISTILLER’S RESERVE SMALL BATCH

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutado e adocicado, com café e laranja.

Sabor: frutado e amargo com um certo aroma torrado que lembra café. Final longo e progressivamente cítrico e carregado de baunilha.

Disponibilidade: Duty Frees. Preço médio de US$ 150,00 (cento e cinquenta dólares)

Relevância – Arran Machrie Moor Cask Strength

A cobertura jornalística de alguns veículos é fascinante. Desde que o Caetano Veloso parou o carro no Leblon, me deslumbro com a relevância de algumas notícias. Como, por exemplo, da galinha que sobreviveu a um incêndio no Acre, e foi rebatizada de Fênix. Mas acho que a que mais me enfeitiçou recentemente foi de um rapaz que foi hospitalizado após comer uma pimenta – talvez por conta de meu interesse gastronômico em condimentos.

A pimenta pivô do quase trágico acidente é a Carolina Reaper. Ela foi criada pelo californiano Ed Currie, proprietário de uma companhia com um nome bem sugestivo: Pucker Butt Pepper Company – numa tradução esdrúxula, Cia. de Pimentas Bunda Enrugada. Algo que, suspeito, tenha algo a ver com o processo, diremos assim, pós-digestivo da Carolina Reaper.

A tal pimenta é considerada desde 2013 a mais forte do mundo pelo Guiness. Algumas delas chegam a dois milhões e duzentas unidades de Scoville (SHU) – escala usada para medir a picância destes belos frutos. Para você ter uma ideia, aquele Tabasco tradicional que você tem em casa mede de 2.500 a 5.000 SHU. E aquela habanero, que você acha super ardida e pinga só uma gotinha, como se temperasse a comida com ácido sulfúrico, tem só sete mil SHU.

a Fênix, depois de comer uma Carolina Reaper

No mundo dos whiskies, se houvesse algo comparado à Carolina Reaper, seriam os whiskies Cask Strength. Mas antes de prosseguir, permita-me uma breve explicação sobre este conceito. A maioria dos whiskies – do clássico Jack Daniel’s até o sofisticado Glenfiddich 25 – quando são retirados das barricas e misturados, sofrem certa diluição com água. A ideia é que os whiskies tenham sabor mais suave, e agradem a mais paladares. Além disso, mais diluição significa que, para um mesmo número de barris, mais garrafas serão produzidas.

Porém, há whiskies que não sofrem qualquer diluição – a graduação alcoólica do engarrafamento é a mesma do barril. Estes são conhecidos como Cask Strength. Isso resulta em graduações alcoólicas muitas vezes estapafúrdias para a maioria dos seres humanos – algo entre cinquenta e sessenta e cinco por cento.

O Arran Machrie Moor Cask Strength é um desses whiskies. E mais. Ele é o primeiro whisky assim a ser vendido oficialmente em terras brasileiras. Fruto da primeira importação da Single Malt Brasil, loja especializada na bebida, sediada no Rio de Janeiro. De acordo com Alexandre Campos, sócio da empresa “Inauguramos uma nova fase para o whisky no Brasil. Conseguimos importar um malt Cask Strength da Arran. Feito inédito até então. Estamos muito entusiasmados com as possibilidades que temos. Nosso maior objetivo é colocar o nosso país na rota dos whiskies de prestígio. E trabalharemos para levar o melhor aos consumidores brasileiros

Tamanha empolgação tem motivo. A graduação alcoólica do Machrie Moor Cask Strength é de 56,2% – a maior já vista por aqui. Isso lhe traz maior intensidade de sabor. Além disso, permite que você, nobre entusiasta, escolha quanto de água adicionará a seu whisky. A quantidade de água adicionada alterará suas características sensoriais, e ressaltará aromas e sabores diferentes. É como se, dentro de uma garrafa, você tivesse uns três whiskies diferentes

A maturação do Machrie Moor Cask Strength ocorre em barricas de carvalho americano. Não há indicação de idade. Porém, este Cão estima que a média seja de uma década. Ocorre que a defumação do Machrie Moor é próxima dos 20 ppm. E, para atingir tamanha sensação de fumaça, é necessário um destilado jovem, já que, à medida que matura, os fenóis responsáveis por essa impressão são atenuados.

Barrica de Peated Whisky da Arran

Sensorialmente, e sem a adição de água, o Machrie Moor Cask Strength é um whisky extremamente enfumaçado e picante, com uma nota frutada doce que remete a pêssegos. Com um pouco de água – algo como um terço da dose – a pungência é aliviada, e certos aromas salinos e marítimos podem ser sentidos. Não é um whisky fácil. Mas é extremamente recompensador.

A destilaria Arran tem uma história curiosa. Ela foi fundada por Harold Currie – que não tem qualquer relação com o Ed da pimenta – em 1993, com produção inciada em 1995. Perto de certas destilarias bicentenárias da Escócia, ela é somente um adolescente. Porém, nestes poucos anos, a Arran produziu um extenso portfólio de whiskies. De whiskies fortemente enfumaçados até florais e delicados, a destilaria encontrou seu espaço e demonstrou polivalência em um mercado considerado, por muitos, difícil e saturado.

Se você é do tipo que coloca pimenta até na sobremesa, acha que o bacon sempre podia ser um pouquinho mais defumado ou acha que tem muito gelo na sua caipirinha, o Machrie Moor Cask Strength será sua paixão etílica por muito tempo. E vá por mim, essa é a notícia mais relevante que você lerá sobre o mundo do whisky em um bom tempo. Sobre o mundo do whisky, claro – porque não dá pra concorrer com a Fênix, ou o Caetano e seu carro no Leblon.

ARRAN MACHRIE MOOR CASK STRENGTH

Tipo: Single Malt sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Arran

Região: Higlands (Islands)

ABV: 56,2%

Notas de prova:

Aroma: fumaça, iodo. Frutas em calda.

Sabor: Frutado e salgado. Pimenta do reino. Final longo, enfumaçado e picante.

Com água: a água ressalta as notas adocicadas e picantes, e reduz a impressão de fumaça.

Preço: aproximadamente R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) – à venda exclusivamente na Single Malt Brasil.