Cinco Destilarias (quase) Novas para prestar atenção em 2024

Um paralelepípedo de polaca do alasca empanado, um queijinho safado e molho tártaro, que nem é tão tártaro assim. Tudo isso, emoldurado por duas metades de um brioche fofinho. Não parece grande coisa, mas causou um enorme rebuliço. É o McFish, lanche que saiu do cardápio do McDonald’s em 2019 – justamente porque vendia pouco. Em 2024 a rede anunciou sua volta, por tempo limitadíssimo. Anúncio recebido com gritos de glória pelos fãs da (discutivel) refeição. Eu incluso.

Entendo, perfeitamente, o alvoroço. É que o McFish realmente não é nada demais. Exceto pelo que representa. Ele é visto como o útlimo bastião de algo gastronomicamente aceitável para os foodies, na rede de lanchonetes. Quando saiu, ninguém ligou. Mas depois de um tempo, bateu saudades. E e o que quase não vendia, passou até a ter campanha pra sua volta. Que, aliás, durou pouquíssimo.

O mundo do whisky já passou por umas dessa, também. Exemplo é a Port Ellen. A destilaria foi fechada em 1985, numa época que o mercado de whisky passava por maus bocados. A Diageo possuía três destilarias em Islay – Lagavulin, Caol Ila e Port Ellen – e buscava reduzir custos. A escolha foi justamente fechar aquela que fosse menor e menos conhecida. O que eles não imaginavam é que, em quarenta anos, uma garrafa que custava pouco menos de cinquenta libras, passaria a ser vendida por quatro mil. Tudo por conta do fechamento e escassez dos estoques.

O frenesi foi tamanho que a Diageo anunciou, décadas mais tarde, planos para reabrir a Port Ellen. E não apenas ela. Brora também, irmã da Clynelish, fechada pelo mesmo motivo, pouco tempo depois. Os anúncios, entretanto, são tempestivos. Atualmente a indústria do whisky vive uma época maravilhosa, especialmente para single malts. Há um interesse crescente por produtos exclusivos, e o acesso à informação aumentou muito a curiosidade do consumidor sobre a categoria. Assim, separei aqui cinco destilarias para ficar de olho em 2024. De clássicas rejuvenescidas até bebês etílicos.

PORT ELLEN

Como narrado acima, a Port Ellen foi fechada em 1983 pela DLC – mais tarde, Diageo – por repercussões do whisky loch. Na época, era um malte pouco conhecido, e de produção bem limitada. A maioria de seus whiskies era destinada a produção de blends. Porém, por conta de seu perfil sensorial, ela podia ser facilmente substituída por Caol Ila ou Lagavulin no caso da DLC.

A Port Ellen somente não foi completamente demolida porque as demais destilarias de Islay entraram em uma espécie de acordo informal, pela qual se comprometiam a comprar cevada maltada lá produzida. A destilaria funcionou por mais de trinta e cinco anos, então, como um “malting floor” – uma espécie de fábrica de cevada maltada. Em 2017, percebendo o crescente interesse do mercado por “ghost distilleries“, a Diageo anunciou que a reabriria – projeto que foi concluído em 2024.

ROSEISLE

A Roseisle nasceu da Diageo em meados de 2010, como uma super-destilaria projetada para produzir maltes para blends. Assim como numa destilaria japonesa, a palavra de ordem é variedade. Assim, doze de seus quatorze alambiques podem ter o material de seus condensadores “shell and tube” trocados – entre cobre e inox. A troca permite produzir whiskies mais sulfúricos e pesados, ou adocicados. O tempo de fermentação também pode ser ajustado, para obter um malte mais ou menos herbal.

Ainda que tenha sido projetada para fornecer maltes para blends, e que não tenha exatamente uma identidade como single malt, a Roseisle lançou, em 2023, seu primeiro single malt. Parte dos Special Releases da Diageo, era um whisky de corpo médio, herbal e adocicado.

DALMUNACH

A Dalmunach foi construída em 2014 pela Pernod-Ricard, onde antes ficava a finada Imperial – demolida um ano antes. Projetada como uma das mais modernas e tecnológicas destilarias de toda Escócia, a Dalmunach, ainda assim, preservou algumas características arquitetonicas de sua predecessora.

Assim como a Roseisle, a Dalmunach é capaz de produzir maltes com diferentes perfis sensoriais, e seu principal objetivo é abastecer o mercado de blends da Pernod-Ricard. Especialmente Chivas e Ballantine’s. Há, entretanto, alguns engarrafamentos oficiais de Dalmunach, que podem ser comprados ao visitar as destilarias do grupo Pernod-Ricard.

HOLYROOD

2023 teve uma boa quota de novos whiskies. Em setembro, a Holyrood Distillery, localizada no coração de Edimburgo, anunciou também seu primeiro whisky. Inaugurada em 2019, a fábrica produzia especialmente gim – aguardando pacientemente os três anos necessários para que seu new-make envelhecido pudesse ser considerado whisky aos olhos da SWA.

Foram produzidas 8.188 garrafas, que acabaram em poucos dias pela The Whisky Shop. De acordo com a Holyrood, os próximos lançamentos terão foco em diferentes leveduras – algumas, pouco utilizadas na produção de whisky.

RAASAY

Ela é a primeira destilaria legalizada da ilha de Raasay. Foi aberta em 2017 pela R&B Distillers. Dedicada a produzir single casks, a destilaria lançou em 2021 seu primeiro malte de linha. Era composto de whiskies turfados e tradicionais, maturados em barris de ex-rye, carvalho virgem e carvalhou europeu de ex-vinho tinto da região de Bordeaux.

Sobre o Inovador e o Trivial

Fiquei curioso ao saber da novidade, mas imaginei que levaria mais tempo para vê-la ao vivo. Essas coisas são assim. Você ouve a notícia, mas acha que elas jamais chegarão a você. Tanto é que, quando vi, demorei alguns segundos para registrar. Era sábado, no meio do shopping. Um cara magrinho, com uma máscara que lhe dava ares de cosplay do frango da Sadia. Braços na altura do peito, como se regesse uma orquestra. Era o Apple Vision Pro.

Mais surpreendente do que o rapaz, porém, era seu entorno. Algumas pessoas paravam e ficavam olhando, como se estivessem testemunhando uma manifestação do capiroto. Outras, andavam apressadas, olhando pro lado. Provavelmente também imaginando que aquilo fosse uma encarnação do tinhoso. O ser humano mais indiferente, em toda situação, era o próprio usuário. Que agora parecia tocar air guitar.

Maurício de Sousa – VISIONário

Fiquei pensando se essa não teria sido a reação das pessoas ao ver um carro pela primeira vez – lá, em mil, oitocentos e muitos. Ou uma tela de projeção de cinema. Há um mito, inclusive, que durante uma das primeiras exibições de L’arrivée d’un train en gare de La Ciotat, dos Lumiére, a audiência se abaixou, imaginando que o trem projetado fosse atingí-la. Seja como for, inovações quase sempre trazem sentimentos mistos.

O mundo dos whiskies é um micro-universo disso. Entusiastas, como nós, buscam experimentar sabores novos. É a curiosidade que nos move. Não fosse assim, permaneceríamos em nossa zona de conforto bebendo sempre aquele mesmo whisky que primeiro arrebatou nosso coração etílico. O conceito macroeconômico da escassez define bem este ímpeto: os recursos são limitados, enquanto o desejo, ilimitado. Não é possível – nem financeiramente, nem hepaticamente, experimentar tudo.

E como o que nos move é a curiosidade, naturalmente, a menção de alguma inovação é sedutora. Um Glenfiddich finalizado em barris de sidra de Sommerset. Ou talvez um Lagavulin que passa por barricas de tequila. Um Dewar’s finalizado em barricas de mezcal, também. Nossa mente já começa a divagar sobre a união daqueles sabores.

E, obviamente, a industria sabe disso. Divulgar algo que soa inédito traz muito mais retorno – midiático e financeiro – do que focar sempre no mesmo produto. O exemplo mais claro, ainda que pouco conhecido no Brasil, são os Diageo Special Releases. São edições anuais limitadas dos mais famosos single malts da Diageo. A cada ano, a linha muda. E, muitas vezes, trazem inovações – uma forma inteligente, inclusive, de medir a receptividade de algo no mercado sem se comprometer com um produto perene. Há whiskies espetaculares lá no meio. E outros, nem tanto.

Pokemon Go versão whisky geek

Mas o sabor da bebida, neste caso, é menos importante. Porque ele já terá sido comprado antes de ter seu lacre cuidadosamente removido, ou violentamente arrancado, a depender do ímpeto do bebedor. É, mais ou menos, como o ingresso para um filme. Depois da bilheteria, tudo é por conta e risco do cinéfilo. O que vende é o trailer – ou melhor, o rótulo – não o filme.

Certa vez, há muito tempo, o embaixador de uma marca me confidenciou que um whiskey finalizado em IPA foi escolhido em detrimento de outro, em Stout, porque todo mundo bebe IPA. Ainda que a maioria das IPAs do mundo passe longe de barris. E que ele não concordava, porque o último era bem melhor que o primeiro. Mas que o apelo do marketing foi mais alto. Relembrar essa história, inclusive, torna inevitável fazer o paralelo com a própria indústria cervejeira – onde quase tudo hoje é Hazy, NEIPA ou Pastry, com textura pastosa e ABV capaz de embebedar um pequeno rinoceronte. Não é culpa das cervejarias – é o que o mercado consome.

A estratégia é inteligente, mas esbarra no conceito macroeconômico de alguns parágrafos acima. Os recursos são limitados, o desejo, não. Assim, em alguns casos, produz-se whiskies medíocres ou, no máximo, curiosos, em detrimento daqueles que realmente seriam de beber de joelhos. Mas, infelizmente, menos inovadores e sedutores. É mais fácil ficar curioso sobre o sabor de um Mortlach maturado em porto do que o ducentésimo segundo Glenfarclas maturado em jerez. Por falta de uma palavra melhor e menos chocante, há uma vulgarização do que é produzido, em prol da decisão imediatista do consumidor.

Tentação

Em uma outra oportunidade, um brand manager de uma grande importadora me disse uma frase que me impactou. “Mau, se não dá pra explicar em duas frases, não vai vender“. Fiquei intrigado, mas concordei, e comecei a traçar paralelos. Se um reels no Instagram não te impacta de cara, a tela é rolada pra baixo. Se os quatro primeiros compassos de uma música do Spotify não agradam, a próxima está a um clique. A abundância de oferta traz essa urgência. Não faria nem sentido ser diferente no mundo do whisky.

E é uma pena, mas, é também bacana. Não há nada de errado em ter abundância de oferta. O problema é que esta abundância leva a um comportamento superficial. A decisão de comprar uma garrafa é tomada nas primeiras frases. “Aged in Apple Cider Brandy Casks” é o suficiente para trazer curiosidade ao consumidor a ponto de adquirir a bebida.

Devo, aqui, porém, deixar claro que não sou, de forma alguma, contrário a inovação. É a inovação que mantém a indústria viva. É por meio dela que novos consumidores são recrutados. Divulgar a inovação é a espinha dorsal de meu trabalho, inclusive – o Cão não existira, não fosse ela. E com ela, coisas maravilhosas surgem, também. Como um certo Port Charlotte MRC:01, um Chivas 18 Mizunara ou um Lagavulin finalizado em mezcal.

É importante, portanto, encontrar um equilíbrio entre a busca por inovação e a valorização da tradição. Devemos celebrar a criatividade e as novas experiências, mas não podemos esquecer que o mais importante em um bom whisky é que ele seja bom. Sensorialmente bom. No nariz e na língua. Não no plano das ideias.

Assim como as primeiras pessoas que presenciaram o cinema ou o automóvel, a indústria do whisky está em constante evolução, e cabe a nós, consumidores conscientes, navegar por esse universo com discernimento, apreciando as inovações genuínas e reconhecendo o valor daquilo que já é consagrado. No final, o que importa é a experiência individual de cada um com a bebida. Que cada um explore, experimente e encontre os whiskies que lhe tragam mais prazer, sejam eles inovadores ou clássicos, raros ou acessíveis.

Lone Oak – St Patrick’s Special

Ontem eu tomei três banhos. Foi o mínimo necessário, considerando o calor de trinta e sete graus, com sensação térmica de trezentos e setenta. Ar condicionado se tornou a prioridade número um para todos os lugares que frequento. Convidem-me para sair somente para lugares confinados com Elgin, Daikin, LG ou Fujitsu com mais de dezoito mil BTUs. Se sofrer um acidente em casa, cair da escada, bater a cabeça, deixe-me morrer lentamente, mas no fresco. Morrer no frio tem muito mais dignidade.

Em vista das temperaturas absurdas, dizer que hoje é St Patrick’s Day soa até irônico. Lá em Dublin está nublado. Máxima de quatorze graus, mínima de confortáveis sete. Por lá, um whisky puro seguido de uma Guinness à temperatura ambiente parece um excelente programa. Aqui, entretanto, provavelmente a única forma de consumir whisky é em um coquetel. Um coquetel refrescante.

E é aí que entra o Lone Oak. Ele foi criado por Jillian Vose do famoso Dead Rabbit, de Nova Iorque. O bar – ou melhor, Irish Pub – que pegou fogo, e voltou. Os ingredientes são todos verdinhos, também. Então, não há necessidade de usar aquele corante alimentício que parece plutônio. Nele vai irish whiskey, chartreuse verde, limão, bitters e um interessante xarope de pistache. Já que pistache está na moda. É sobre ela que falaremos a seguir.

Oscar Wilde, famoso escritor irlandês, uma vez disse que a simplicidade é a máxima sofisticação. Para obter o xarope de pistache, então, você tem duas opções. A primeira é adicionar 255 gramas de pistaches crus, sem cascas, em um tupperware. Encher de água, até cobrir, e deixar descansar por 30 minutos. Coar, e depois bater os pistaches em um liquificador com 590ml de água quente, no pulse. Despejar a mistura em um outro tupperware, deixar descansar por duas horas e depois coar com um chinois, espremendo. Assim você obterá um leite de pistache.

parece difícil, e é.

Aí, você precisará cozinhar este leite de pistache numa panela, junto com 400g de açúcar demerara, para cada 355ml de leite de pistache. Tem que aquecer, mas não pode ferver. Se ferver, tem que voltar pro parágrafo do Oscar Wilde e fazer tudo de novo. Quando estiver frio, adicionar 7ml de água e 7ml de álcool neutro de cereais. Todo esse trabalho – que será muito maior a quarenta graus na sombra – dura duas semanas na geladeira.

A segunda opção é ir ao supermercado ou pedir um xarope de pistache no delivery – exceto se você tiver um bar inteiro de coquetelaria ao seu dispor. Há alguns bem decentes, como o da Monin e da Mathieu Teisseire. Para reduzir o dulçor excessívo destes xaropes prontos, basta diluir com água. A proporção vai do gosto do bebedor. Oscar Wilde, em toda sua sabedoria, certamente escolheria esta alternativa. Que, inclusive, é termicamente mais agradável.

Recomendo beber o Lone Oak de frente para o ar-condicionado, de cuecas, em casa. Se tiver algum adereço de St. Patricks, pode vestir. Um chapéu, talvez, seja o mais indicado. Nada que vá atrapalhar o aprazível conforto térmico conquistado.

LONE OAK

INGREDIENTES

  • 60 ml irish whiskey (a única opção no Brasil é Jameson, infelizmente. Se tiver algo diferente, use)
  • 7,5 ml de Chartreuse Green
  • 22,5 ml de suco de limão siciliano
  • 22,5 ml de xarope de pistache (já concordamos sobre isso!)
  • 2 dashes de Angostura bitters
  • quantidades copiosas de gelo (aproveite e passe uns na nuca, para refrescar)

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em uma coqueteleia (menos os gelos que você passou na nuca)
  2. Bata vigorosamente até ficar com calor – vai levar uns três segundos
  3. Desça em uma taça coupé previamente resfriada
  4. Aproveite!

Havana Club Unión Cohiba Atmosphere – Crocs de Frango

Comfort food e comfort fashion. Um mundo em que a alta gastronomia e a moda são conjuntamente estraçalhadas, como um comedor voraz faria com pequenos pedaços de frango frito em um balde. Extravagância, colesterol, design e desgosto. Tudo junto, materializado, nos pés dos consumidores. Este foi o resultado de uma das colaborações mais inusitadas do mundo: KFC e Crocs.

Sim, você leu certo. A marca de calçados conhecida por seus designs confortáveis e, digamos, peculiares, se uniu à gigante do fast food para criar uma coleção de tamanha ousadia que desafia a lógica e a sanidade. Isso em meados de 2020, quando o mudo já passava um dos maiores perrengues das últimas décadas. O resultado foram sandálias com estampas de frango frito, tamancos com aroma de batata frita e jibitz em forma de baldes de frango. Uma demonstração de que a mente criativa por trás dessa união profana não tinha limites.

Cara, tem um nugget no sapato!

A combinação, entretanto, até faz sentido – apesar da tenebrosa execução. São marcas enraizadas no conforto. Afinal, comer frango frito de crocs só poderia ser mais confortável se feito nu. Além disso, a colaboração transpira liberdade individual. Essa é, aliás, a grande ideia de collabs entre marcas. Trazer valores compartilhados, elevando o lifestyle do consumidor. Nem que este estilo de vida seja o de couch potato.

Uma colaboração bem distinta da anterior, que transpira luxo e exclusividade, é o rum Havana Club Unión Cohiba Atmosphere. Como seu instinto semântico já deve ter sugerido, ele nasceu da primeira colaboração entre duas das mais icônicas marcas cubanas – o rum Havana Club e os charutos Cohiba. Este é um ponto importante. O rum foi desenvolvido especialmente para ser harmonizado com os charutos da Cohiba. Mais especificamente, o incrível Siglo VI. Não é simplesmente uma harmonização cultural – mas, também, sensorial desde sua origem.

As mentes criativas por trás do Havana CLub Unión Cohiba Atmosphere foram o maestro roneiro Asbel Morales – o master blender do mundo dos runs – e o cigar sommelier Fernando Fernandez. De acordo com a Havana Club, Asbel se inspirou na forma com que as folhas de tabaco são matruradas e combinadas, na capa, capote e alma do charuto. Numa declaração quiçá um pouco lacônica da marca “o rum é uma mistura de pequenos lotes de nossos runs mais raros, maturados e combinados diversas vezes

Parte do estoque em maturação da Havana Club

No mundo do whisky “pequenos lotes” e “raros” são palavras usadas, normalmente, como um fator multiplicador mágico, capaz de mais do que quintuplicar o preço de determinada bebida. No universo do rum, a matemática parece ser semelhante. Uma garrafa do Havana Club Unión Cohiba Atmosphere é apenas sensivelmente mais barata que uma caixa de Cohiba Siglo VI. Seria injustificável, não fosse um único motivo. O Havana Club Unión Cohiba Atmosphere é absolutamente maravilhoso.

E a declaração acima não tem nada de hiperbólica. Comprei uma garrafa há mais ou menos um ano, para presentear a Cã em seu aniversário – que é uma apaixonada por runs. Gostamos tanto que fizemos um pacto: beber sempre juntos, em quantidades iguais. Um pacto que quebrei ao produzir esta matéria – e que culminou numa contenda conjugal e no sumiço da garrafa por conta de minha melhor metade.

Sensorialmente, o Havana Club Unión Cohiba Atmosphere traz notas de caramelo, coco, frutas secas e café. A evolução na boca é espetacular. Ele começa adocicado e encorpado, e vai progressivamente se tornando amargo e enfumaçado, até terminar em uma nota achocolatada bem evidente. É um rum que beberia no lugar de muito whisky – e não há nada de leviano na declaração.

Detalhe da luxuosa caixa do rum

A Havana Club foi fundada em 1878 por um senhor chamado José Arechabala, em Cuba. Os runs da marca são elaborados com ingredientes 100% cubanos. A cana de açúcar vem da ilha, e a levedura, usada na fermentação, foi desenvolvida pela própria Havana Club. A destilação acontece tanto em alambiques quanto em coluna. A maturação ocorre quase exclusivamente em barris de carvalho americano.

Para todos aqueles que são apaixonados por runs exclusivos, ou que procuram um parceiro líquido para os mais sofisticados charutos, o Havana Club Unión Cohiba Atmosphere é perfeito. É um rum que comprova a altíssima qualidade de Havana Club, e o esmero de Asbel e Fernando em sua criação. Pode até beber antes de comer frango frito. Calçando Crocs, claro.

HAVANA CLUB UNIÓN COHIBA ATMOSPHERE

Tipo: Rum

País: Cuba

Marca: Havana Club

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e frutado, com coco, café e frutas secas

Sabor: Equilibrado e encorpado. Adocicado, com caramelo e baunilha no começo. O final é longo e intenso, com fumaça, chocolate e café

Left Hand Cocktail – Mashup

Perdoem-me pelo título impreciso. Mas o tema desta matéria não é coquetelaria. Mas Mashups. Se você nao conhece o jargão, mashup é um trabalho criativo – que pode ser uma música ou um filme – criado a partir da combinação de dois ou mais outras músicas ou filmes. O termo é também usado por webdevelopers para definir “uma aplicação que que usa conteúdo de mais de uma origem para criar um novo serviço disponibilizado em uma única interface gráfica“. Mas, para evitar sonolência, deixarei de discorrer sobre a derradeira definição.

Mashups podem ser feitos, virtualmente, de qualquer material audiovisual. A única regra é que combinem, de alguma forma. E, mesmo assim, às vezes, nem precisam. A grande sacada é que, no começo, o mashup traz a impressão de ser algo já conhecido. Mas, aos poucos, ao revelar sua natureza híbrida, distorce essa impressão. Caso não tenha entendido ainda, veja a música abaixo – um mashup de Soundgarden com Green Day. Recomendo fortemente que ouçam à medida que avançam neste texto.

De certa forma, mashups podem ser usados na culinária e na coquetelaria, também. Não quando alguém faz uma pizza de sushi, por exemplo. Ou um acarajéburguer, ainda que este último desperte minha curiosidade gastronômica. Mas quando dois pratos ou coquetéis se fundem para criar algo completamente novo, ainda que reminiscente de seus progenitores.

É esse o caso do Left Hand, coquetel criado por Sam Ross – o mesmo cara do Penicillin e Paper Plane – no Milk & Honey, na época que fazia parte do time de Sasha Petraske. O próprio Sam Ross define o coquetel como “o resultado de um caso de amor entre um Manhattan e um Negroni“. O Left Hand leva Bourbon, Campari, vermute doce e alguns dashes de bitters de chocolate. Além do último ingrediente, o que o separa de um boulevardier é a proporção.

Aliás, essa é uma lição preciosa. Assim como no mashup, coquetéis completamente distintos podem ser criados somente pela variação de suas medidas. Não é apenas a diferença entre um coquetel equilibrado e outro desequilibrado. Mas de dois drinks que funcionam, mas tem personalidades completamente diferentes, ainda que usem os mesmos componentes. É justamente este o caso do Left Hand – que na verdade está mais para um Valentino de bourbon do que para qualquer de seus pais ideológicos supramencionados.

De acordo com matéria do website liquor.com, o Left Hand não foi o único filho da combinação. “nós criamos uma série de drinks ‘Hand’. (…) O Right Hand era uma variação com rum maturado, Tres Hands usava mezcal e tequila, e o Smoking Hand whiskies de Islay e Highlands“. O que, mais do que uma declaração, parece um convite para testar o coquetel com outros ingredientes.

Então, queridos leitores destros e canhotos. Amantes de Negroni, Boulevardier, Manhattan, Valentino ou simplesmente desesperados para finalizar aquela garrafa de bourbon, não se desesperem. Aqui está o Left Hand, para dar aquela mãozinha.

LEFT HAND

INGREDIENTES

  • 50ml Bourbon Whiskey
  • 25ml Campari
  • 25ml Vermute Tinto (este cão usou Rosso Antico. A receita original usa Carpano Antica Formula)
  • 2 dashes de Bitters de chocolate (a receita pede Bittermen’s. Pode ir de Angostura Chocolate Bitters, estamos no Brasil)
  • Parafernália para misturar
  • Cereja maraschino (se for pra colocar a de chuchu, melhor ir sem)

PREPARO

  1. Misture todos os ingredientes (menos a cereja, gênio) em um mixing glass, com bastante gelo
  2. desça em uma taça coupé e coloque uma cereja maraschino como guarnição

Blue Label Elusive Umami – The Prestige

Você está procurando o segredo. Mas você não vai encontrar porque, é claro, você não está realmente procurando. Você realmente não quer resolver isso” . Essas são as derradeiras linhas de “The Prestige” – e também, uma valiosa lição de marketing. Aliás, as duas coisas – marketing e mágica – tem muita coisa em comum.

Mágicos utilizam diferentes técnicas para distrair sua platéia. Eles empregam prestidigitação, distração, ilusões ópticas e auditivas, adereços especialmente construídos, bem como técnicas psicológicas verbais e não verbais, como sugestão, hipnose e preparação. É uma dança elaborada entre o que é mostrado e o que é escondido, entre o que parece ser e o que realmente é. É parecido, de certa forma, com o marketing. Um bom storytelling pode nos induzir a sentir algo, ainda que aquilo não seja a realidade.

De certa forma, é isso que ocorre com o Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami, blended whisky de luxo que acaba de desembarcar no Brasil por, aproximadamente, 2,5 mil reais. O Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami, é uma criação do chef Kobayashi, do restaurante Kei, de tripla estrela Michelin, em Paris, e da master blender Emma Walker. Que curiosamente não é da mesma família de John Walker, mas que parecia predestinada a trabalhar para a marca. Aliás, se me permitem uma digressão, a Johnnie Walker deve contratar seus master blenders pelo sobrenome, porque é muita coincidência um Beveridge logo antes de uma Walker.

A walker beverage with Walker and Beveridge

Enfim, de acordo com a marca, Walker e Kobayashi criaram “um blended whisky equilibrado, unindo sabores salgados e adocicados, com notas de laranja sanguínea, frutas vermelhas, especiarias doces de madeira (?), carne defumada, sal e pimenta, culminando em um final doce de frutas.” Kobayashi, inclusive, humildemente recomenda que se consuma o Johnnie Walker Elusive Umami puro, acompanhado de caviar – justamente para intensificar o sabor umami. Sorte minha que dá pra comprar esturjão oscietra grávido na feira.

Aliás, vamos falar dessa palavra misteriosa. O Umami. Ele foi identificado pelo químico japonês Kikunae Ikeda em 1909. Ikeda, ao comer uma tigela de dashi, notou que estava sentindo algo delicioso que não poderia ser descrito por um dos quatro sabores básicos. Com tempo e conhecimento de sobra, ele foi ao laboratório até descobrir exatamente o que sentira. Como um mágico desvendando o truque do rival.

E ele conseguiu. Tecnicamente, umami se refere a glutamato – um tipo de aminoácido, que ocorre naturalmente em muitos alimentos, como carne, peixe, vegetais e vários produtos lácteos. Quando o glutamato se decompõe – o que acontece ao cozinhar um pedaço de carne, ou maturar um queijo, por exemplo – ele se transforma em L-glutamato. E é aí que as coisas ficam gostosas. Umami. Yummi. Compreendem?

E talvez o leitor sagaz já tenha entendido para onde vou enredando. É que o whisky não se chama Blue Label Umami, mas, sim, Blue Label Elusive Umami. E o sobrenome do meio traz uma pista preciosa. Elusive é, em inglês, “indescritível”. O Umami Indescritível. Mas é também “esquivo”, “ardiloso”, “ilusório”. Essa abrangência semântica revela o que realmente é o whisky. Ele não é umami, e a Johnnie Walker obviamente sabe disso. Não mais que qualquer whisky com notas costeiras, como Old Pulteney, Talisker ou Clynelish – que, aliás, é provavelmente sua base.

A bela Clynelish, que produz whiskies sulfúricos e com perfil costeiro

Das três vezes que provei, tive a mesma impressão. Ele tem um equilíbrio incrível sweet-salty, que nos induz a pensar no umami. Em boa parte, por causa da palavra estampada no rótulo. E isso, por um lado, é bem interessante. Porque ele é um blended whisky delicioso, com notas frutadas, adocicadas e salgadas. Que mostra, aliás, a razão pela qual blended whiskies existem. Justamente para unir whiskies de perfis completamente distintos, e construir algo muito mais complexo, mas ainda delicado e agradável. Mas, por outro lado, tira um pouco da singularidade do lançamento.

E eu sei que você chegou até este inconclusivo desfecho, apenas para saber se deve ou não comprar o Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami. E a resposta é depende. Se você procura um blended whisky de luxo, extremamente elegante, com perfil marítimo e frutado, o Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami é perfeito. E deve ser ainda mais perfeito com caviar. Entretanto, se sua curiosidade foi aguçada pela misteriosa palavra que sugere o quinto sabor, talvez este seja um para pular. A ilusão não está, enfim, na mão do mágico. Mas sim, nos olhos do espectador.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL ELUSIVE UMAMI

Tipo: Blended Whisky

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, amendoas, levemente sulfúrico

Sabor: frutado e vínico. Final progressivamente enfumaçado e iodado. Alcool muito bem integrado, com especiarias, cravo, canela. Levemente sulfúrico

The Macallan 25 – Bolo Real

Abro, com o cuidado de quem desarma uma bomba, a fatura de meu cartão de crédito. O fim do ano não ajudou. Faço uma apostinha mental: se for menor que certo valor, fico sem beber hoje. Confiro o número com perplexidade. Clonaram meu cartão – sussurro, severamente, para minha esposa. Não é isso não, é que eu passei o cabelo e a maquiagem da festa de fim de ano nele. Pisco de incredulidade. Mas a turma da maquiagem usou fulerenos endoédricos pra fazer o brilho e justificar esse preço?

O que sucedeu foi uma discussão conjugal que culminou numa reflexão óbvia, mas necessária. Cada um tem uma percepção diferente de valor das coisas. Pra mim, é um absurdo pagar o equivalente às reservas de capital de Honduras em uma maquiagem. Mas beber este valor é justificável. E tem gente ainda mais louca. Teve um cara que pagou 7.500 (sete mil e quinhentas libras) por um pedaço de bolo de frutas do casamento da Kate com o Príncipe William. Isso foi em 2014, três anos depois do casamento.

Aliás, bolos de frutas e whisky tem vários pontos de tangência. O perfil de sabor é um deles. Outra coisa, é que bolos de frutas podem durar décadas. Isso tem a ver com a pouca umidade, e talvez com o fato de que tem tão pouca coisa interessante lá dentro, que o doce é desprezível até para bactérias. De acordo com alguns malucos, bolos de frutas ficam até melhores depois de alguns anos. Algo que é verdade para whisky.

Fica, vai ter bolo.

É o caso, por exemplo, do The Macallan 25 Sherry Oak, que desembarcou oficialmente no Brasil há alguns meses. O rótulo é conhecido com um dos melhores da famosa e luxuosa destilaria. É também um dos mais caros à venda no Brasil, apenas atrás do 30 anos e do The Macallan M Decanter. Uma garrafa custa aproximadamente 27 mil reais. Ou seja, o equivalente a meio pedaço de bolo do casamento real – para você ver que preço é algo realmente relativo.

O The Macallan 25 anos é maturado exclusivamente em barricas de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez. A The Macallan, inclusive, encomenda um jerez produzido especialmente para temperar – ou melhor, curar – estas barricas. Não há informação se são de primeiro ou segundo uso. Entretanto, considerando o equilíbrio sensorial do malte, o palpite educado é que tais barris já tenham sido previamente usadas para maturar alguma expressão mais jovem da destilaria. Isso permite que se chegue ao ponto de equilíbrio mais tarde, tornando o whisky mais delicado.

EXPLICA ESSA HISTÓRIA DE TEMPERAR

Vou transcrever, a seguir, três parágrafos que já estiveram na prova do The Macallan 18 anos Sherry Oak, porque eu sei que este é um assunto polêmico e que merece atenção. Se você não quiser saber, ou já tiver lido antes, só pula pro próximo capítulo. Nos vemos lá. Ou não.

A The Macallan utiliza, de uma forma um pouquinho confusa, a palavra “seasoned” em seus rótulos – traduzido para cá como temperado – para explicar as barricas da linha Sherry Oak. “Maturados em barris temperados de vinho jerez”, dizem os rótulos. Essa é uma situação irônica. Uma destilaria que guarda tantos segredos, ao tentar esclarecer algo para o consumidor, causou ainda mais confusão. A confusão foi ainda maior porque a frase foi incluída após um rebranding da marca. O que poderia indicar que havia também uma guinada de processo. Mas nada disso aconteceu. Ao menos, não no mesmo momento do emprego da expressão.

A introdução da expressão “seasoned” serviu apenas para apontar algo que a The Macallan já fazia. E demonstra seu cuidado especial com as suas barricas. A destilaria encomenda de tanoarias espanholas, como a Tevasa, Vasyma e Hudosa, barris de carvalho europeu temperados com um jerez produzido sob medida para a The Macallan. Em outras palavras – o controle sobre o processo passa pela padronização do jerez também. Aquele jerez não é produzido para ser comercializado. Mas, tão somente, para trazer sabor às barricas que mais tarde serão preenchidas com o new-make da The Macallan.

Armazéns da Macallan

O tempo, aqui, também é chave. Há um equilíbrio fino entre a potência do barril e a influência de jerez. O prazo que o barril deve guardar o vinho espanhol deve ser somente suficiente para que este entre em seus poros, e influencie no sabor do whisky. Mas, não grande o suficiente para roubar a potência da madeira. É um tradeoff, numa progressão bem ardilosa. Mais tempo pode, discutivelmente e até certo limite, trazer mais influência do indrink, mas menos da madeira. Seja como for, a própria The Macallan diz que o prazo de cura – que aliás, é um termo bem melhor do que tempero – é de um a dois anos.

EXCLUSIVIDADE E SABOR

Assim como ocorre com o The Macallan 18 anos, o 25 anos é uma edição limitada anual. A a justificativa oficial é que, como barricas se comportam de formas distintas, cada ano trará um perfil sensorial levemente diferente para o whisky. Este Cão, entretanto, suspeita que seja uma razão mais comercial. Estampar o ano no rótulo faz com que o ávido colecionador se veja obrigado a comprar uma – ou três – garrafas anualmente, ao invés de apenas uma vez na vida. Ainda mais considerando a altíssima capacidade de padronização e qualidade da The Macallan.

A destilaria

Sensorialmente, o The Macallan 25 anos traz notas de – wait for it – bolo de frutas, alcaçuz, pimenta do reino e cravo. É um whisky curiosamente delicado para a The Macallan, fruto do quarto de século de maturação. Mas é também oleoso, com um sabor resinoso, típico dos maltes mais maturados. Dizer que é um whisky único que vale o investimento seria uma hipérbole. Mas é um líquido que, indiscutivelmente, tem sabor de caro.

Por vinte e sete mil reais, é difícil recomendar o The Macallan 25 anos. Apelar para a lógica, neste caso, é um exercício de futilidade. Nada que eu disser justificará o preço. E obviamente a The Macallan sabe disso. Macallans são produtos de luxo, criados para mexer com o desejo, status e exclusividade. Nada de errado aqui. Um bolo de frutas ordinário dificilmente custará mais do que poucas dezenas de reais. Já o – e note o artigo definido aqui – bolo de frutas do casamento real é algo diferente. Ele não é um bolo de frutas. Ele é um objeto que transmite muito mais sobre seu comprador do que sobre si mesmo.

Mas, se me permitem um último sussurro, e que ninguém me ouça, é bom demais.

THE MACALLAN 25 ANOS SHERRY OAK

Tipo: Single Malt

Destilaria: The Macallan

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: uvas passas, especiarias, gengibre, frutas cristalizadas, açúcar mascavo.

Sabor: Frutas secas, ameixas secas, uvas passas, figos secos. Final longo e delicado, puxado para o açúcar mascavo e passas.

Como (não) beber whisky – Um post des-educativo

 

Antes de tudo, preciso dizer que isto é um não post. Ou melhor, um post deseducativo. Se você veio até aqui a procura de informação, ou de como degustar seu whisky e parecer um especialista, recomendo fortemente que fuja o mais rápido possível. Ou então leia esta matéria aqui. Essa aí sim, é educativa. Comportada e informativa. Esta aqui não. Esta é aquele conselho pernicioso do seu amigo perverso.

Passei as últimas semanas relendo um de meus livros preferidos. Cem Anos de Solidão, de Garcia Marquez. Resolvi reler porque queria realmente conhecer os personagens. Da primeira, apenas prestei atenção na história, mas não dei muita importância a quem era quem. Dessa segunda vez não. Dessa vez fiz anotações, montei a árvore genealógica da família e anotava, ao lado do nome, características físicas e de personalidade dos Buendía.

Demorei exatos trinta e cinco dias para ler o livro. O mesmo que tinha me levado dez da primeira vez. E fiquei pensando. Eu tinha gostado mais da obra da primeira vez. Quando me ative somente à história. Me pegava torcendo por Macondo e por aquela família. Pensei que fosse por conta da ausência do elemento surpresa – da primeira vez, não sabia o que aconteceria com os personagens. Mas depois de um tempo eu entendi. Não era nada disso. Era a espontaneidade.

Han YOLO

E aí que me ocorreu. Eu faço isso com whisky. Às vezes fico tão preocupado em descrever certa expressão, apontar suas características sensoriais e adivinhar, na língua, qual o tipo de jerez que repousara na barrica antes dela receber whisky, que deixo de aproveitar o  momento. E pior, em certas situações, me armo de tal forma que até deixo de perceber coisas.

Aconteceu comigo uma vez que provei o Talisker 10 anos. Da primeira vez, fiz tudo hermeticamente. Glencairn, silêncio, computador na frente, conta-gotas ao lado. Da segunda, resolvi que ia beber o tal malte assistindo “True Grit“. Achei que seria uma harmonização interessante, pela elegante impetuosidade em comum entre a película e o malte.

E aí, de guarda baixa e totalmente despreparado, percebi um monte de coisa que não tinha percebido – como certa salinidade, quase reminiscente de algas marinhas. Quanto mais hermético, mais preocupado com o hermeticismo fiquei. Coloquei o whisky em segundo plano e ainda deixei de aproveitar o momento. E notei algo bem esquisito.

Percebi que a espontaneidade é quase tão importante quanto o método, ao provar determinado whisky. Que, para entende-lo, deve-se beber em situações completamente distintas, e com objetivos quase diametralmente opostos. Resolvi, então, explicar uma coisa meio óbvia. Como beber whisky. O que fazer, o que não fazer. Então vamos do básico. Degustação analítica e beber por prazer.

DEGUSTAÇÃO ANALÍTICA

Aqui, a ideia é entender a bebida. Tentar descrevê-la, com seus descritores aromáticos e sabores. Ter prazer aqui, obviamente, é uma consequência. O que é maravilhoso, porque, como diria um grande professor, a indústria dos parafusos não proporciona oportunidades como esta. Mas, aqui, deve-se atentar mais à forma, para atingir um resultado.

Na degustação analítica, bebe-se sempre puro, ou com um splash de água. Às vezes, nem se bebe. Só se sente o aroma da bebida, como fazem certos escritores especializados no destilado. Algumas pessoas bebem e cospem. É, parece feio, mas acontece e é técnico – tem até um baldinho bem conhecido da turma dos vinhos, a cuspideira. Cuspir pra fora ou pra dentro é escolha pessoal.

Cuspa aqui

Não se preocupe muito se, no começo, não conseguir descrever direito os aromas e sabores. Isso – para a maioria das pessoas – é uma construção que leva tempo. O que pode ajudar é relacionar com algum contexto. Por exemplo, você pode ter dificuldade de entender o aroma de baunilha. Mas conseguirá encontrá-lo com mais facilidade se relacionar com bolo ou Crème brûlée. Defumado, com churrasco. E por aí vai.

Não se deve colocar gelo ao fazer uma degustação analítica. A redução da temperatura muda a percepção dos sabores. O amargo fica mais amargo, e doce menos doce. Além disso, por estar gelado, as papilas gustativas ficam menos sensíveis, e perceber aromas delicados se torna bem mais complicado. Além disso, perde-se controle da real diluição.

BEBER POR PRAZER

Já beber por prazer, vale tudo. Você pode colocar gelo, pode misturar com outros ingredientes e criar coquetéis, pode tomar com água pura, água com gás, tônica, o que for. Aqui, a única regra é beber de forma responsável. É como da segunda vez, que resolvi acompanhar o filme com um whisky.

Assim como na degustação analítica, ter uma companhia de bebida é importante. Mas, no primeiro caso, trocam-se impressões sobre o líquido no copo. Na segunda, o whisky é coadjuvante. Conversem sobre o que preferirem, o importante é produzir dopamina.

Assim, o conselho que não deve ser observado deste Cão Engarrafado é o seguinte. Deguste seu whisky. Preste atenção nas notas, procure descriptores aromáticos e de paladar. Gire a taça lentamente, sinta os aromas, adicione água, tome nota, dê um minigole e deixe deslizar pela sua língua. Isso é importante. Mas, também, beba. Com moderação, é óbvio, mas experimente o whisky quando o foco não for ele. Você perceberá que uma bebida realmente bem-feita transitará perfeitamente entre os dois momentos. Whiskies foram feitos para serem aproveitados – para trazer prazer.

Fanciulli Cocktail – Da Ordem

As vezes, não basta talento. É preciso, também, um pouco de sorte. Este foi o caso de Francesco Fanciulli, líder da banda de fuzileiros navais does Estados Unidos, de 1892 até 1897. Inclusive, o breve período de liderança do compositor toscano já sugere que algo imprevisto se deu com sua carreira. Em seu caso “descumprimento de uma ordem oficial, uso de linguagem chula para com um oficial e conduta que prejudica a boa ordem e disciplina“.

A verdade é que Fanciulli era um excelente compositor. Mas não tão bom quanto John Philip Souza, seu predecessor. Ainda que sob sua batuta – literalmente – a banda tivesse recebido reconhecimento no meio, inclusive, internacionalmente, quem brilhava ainda era Souza. Tanto é que, em Junho de 1897, Francesco recebeu a ordem de um superior de tocar “El Capitán”, composta por Souza.

Fanciulli surtou, e foi colocado sob prisão domiciliar. Foi necessária a intervenção de Theodore Roosevelt – na época secretário da marinha dos Estados Unidos – para que o bom homem voltasse ao trabalho. Apesar disso, em 1897, recebeu a notícia que seu posto não seria renovado.

Mas a história – especialmente a etílica – tem uma forma curiosa de corrigir injustiças. Porque, hoje, não há nenhuma mistura chamada John Philip Souza – talvez porque soe como um péssimo nome para um coquetel – mas há um Fanciulli. Ele foi publicado em 1931 no Old Waldorf Bar Days, de Albert Stevens Crockett, e sobreviveu até os dias de hoje.

O Fanciulli é, basicamente, um Manhattan, mas com uma nota mentolada, pelo uso de Fernet Branca. A receita original pede bourbon whiskey, mas, este Cão, talvez prefira Rye. O whiskey de centeio trará mais apimentado e herbal, enquanto o bourbon apresentará um certo dulçor. A escolha, aqui, depende mais do bebedor do que, efetivamente, do equilíbrio do drink. O vermute é uma questão importante também. Fernet é intenso, e demanda um vermute a altura. Punt e Mes ou um Rosso Antico entrarão marchando com convicção.

Enquanto o desafortunado Francesco pode não ter mantido o posto desejado, sua vingança líquida, o coquetel Fanciulli, permanece firme nos bares, mostrando que na vida, assim como nos drinks, o amargor pode, eventualmente, se transformar em um sabor irresistivelmente notável. Quem diria que um toque de Fernet Branca poderia ser a nota que faltava para que Souza fosse finalmente superado…

FANCIULLI COCKTAIL

INGREDIENTES

  • Rye Whiskey (ou bourbon…)
  • Vermute tinto
  • Fernet Branca
  • parafernália para misturar
  • taça coupe

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com bastante gelo.
  2. Mexa e verta numa taça coupé resfriada

Old Pulteney Huddart – Mitologia

Não abre essa janela, você está de cabelo molhado, pode entrar um golpe de ar e você ficar resfriado” – todos já ouvimos essa frase de alguém. Provavelmente, no seio de infância, de algum adulto mal-informado. “Cuidado para não engolir o chiclete, porque ele vai ficar grudado pra sempre no seu estômago” é outra. Que é mentira também. O chiclete sai por baixo em alguns dias, totalmente incólume – como o milho.

São tantos exemplos que dá pra fazer um texto só deles. Boa parte envolve água, ou a praia. Não pode nadar por uma hora depois de comer qualquer coisa. Depende, se você não comer um boi inteiro e depois bancar o Michael Phelps, não tem muito perigo. Tomar banho quando está chovento forte é arriscado, porque você pode ser eletrocutado por um raio. Não vira o olho esquisito, porque se bater um vento, você fica assim pra sempre – e ainda pega um resfriado, considerando o primeiro mito.

A gente acredita em um monte de besteira. São noções passadas de geração a geração, que, em boa parte, servem para não precisar explicar algo complicado. Ou só por estupidez, mesmo. Existem noções assim em todas as áreas de conhecimento, e, claro, o mundo do whisky não sai ileso dessa. Há dezenas de mitos e lendas ao redor da produção de whisky – boa parte, perpretrada pela própria indústria. Um deles é que o whisky maturado ou produzido ao lado do mar fica salgado.

Essa é a Glenmorangie. Lá atrás, o mar.

É acolhedor acreditar em diversos mitos que podem explicar de forma descomplicada algo. Assim como crer que são as correntes marinhas e o spray das ondas que traz o sabor salgado ao seu copo favorito. É romântico. É quase gráfico – você vê, na televisãozinha mental da sua cabeça, aquela onda na rebentação pedregosa de alguma praia gelada da Escócia. Mas, é só parcialmente verdadeiro.

Há alguns meses, fiz uma matéria só sobre isso. Na oportunidade, expliquei como a impressão salina vem principalmente de compostos químicos – DMS, DMDS e DMTS – que nos remetem ao aroma da praia. E que há whiskies produzidos e maturados literalmente colados ao mar, como é o caso de Glenmorangie, que não retém qualquer aroma salino. E que incrivelmente há mais sódio em whiskies que não tem gosto de mar, como Glenfarclas, do que em whiskies bem salgadinhos, como é o caso do tema de nossa prova, o Old Pulteney Huddart.

O Huddart, aliás, é um exemplo precioso. Porque, além de salgado, ele é defumado. Mas o gosto de sal não vem de sal, e o gosto de fumaça não vem – diretamente – do uso de turfa no processo de secagem de sua cevada maltada. Mas, na verdade, do uso de barris que contiveram whisky turfado antes. O Old Pulteney Huddart, se fosse um filme, seria um daqueles metalinguísticos, que ao todo tempo te convencem que aquilo não é a realidade, mas, sim, um filme.

A maturação do Old Pulteney Huddart ocorre em barris de carvalho americano de ex-bourbon, tanto de primeiro quanto segundo uso. Depois, o whisky é transferido por um período não especificado para barricas de carvalho americano que antes contiveram alguma versão turfada de AnCnoc – ou melhor, Knockando. O processo de maturação faz com que o new-make da Pulteney absorva parte do líquido preso nas porosidades do barril, trazendo um sabor levemente enfumaçado para o single malt.

Este aroma discreto de fumaça, aliado à salinidade natural do Old Pulteney, produzem um single malt com características clássicas costeiras – com notas de iodo, fumaça, esparadrapo (ainda que bem pouco) e algas marinhas. Há um dulçor de açúcar demerara, também, e um leve sulfúrico. A impressão é que o Huddart é, de fato, um whisky produzido com cevada turfada – ainda que isso não seja real.

AnCnoc Peatheart: o single malt turfado que empresta a turfa ao Huddart

A nota de enxofre vem da destilação. Os alambiques de primeira destilação da Pulteney tem uma espécie de bulbo, quase tão grande quanto sua base, para incentivar refluxo, e topo reto. O lyne arm sai da lateral do alambique. Já os de segunda destilação contam com purificadores e condensadores em forma de serpentina, que adicionam oleosidade e este curioso perfil um pouco malcheiroso.

O Old Pulteney Huddart chegou recentemente ao Brasil, importado pela Cia. Hibernia de Bebidas – da qual este Cão faz parte. O whisky está à venda em varejistas selecionados, como o Caledonia, a Single Malt Brasil e a Alexandrion Experience, em São Paulo. Junto com ele, chegaram também o Old Pulteney 12 anos e o AnCnoc 12, ambos já revistos por aqui.

Para aqueles que procuram um single malt levemente turfado, com perfil de algas marinhas e adocicado, o Huddart é a escolha perfeita. E nem é porque nós que escolhemos. Mas, cuidado. Antes de comprar, seca bem o cabelo e cospe o chiclete. E só por precaução, melhor sair de óculos – vai que bate um vento. Tá bom que tudo isso pode parecer uma grande mentira. Mas, melhor se prevenir.

OLD PULTENEY HUDDART

Tipo: Single Malt Whisky

Destilaria: Pulteney

Região: Highlands (Wick)

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: enfumaçado, adocicado e iodado, com algas marinhas.

Sabor: Adocicado, com baunilha. Algas marinhas. Final longo e enfumaçado