Suntory The Chita – Carpe Diem

Uma amiga colocou uma imagem bonita. Fonte cursiva, aurora do dia, com a mensagem “que o hoje seja aproveitado sem o peso do ontem ou a expectativa do amanhã“. Balancei a cabeça com desgosto. Isso não é catártico, é infantil e egoísta. Se eu aproveitar o hoje sem o peso do ontem ou a expectativa do amanhã, vou torrar minha conta bancária com whisky sem pensar na minha família. Não vou tomar banho e vou esquecer de cortar a unha, porque, poxa, que perda de tempo cortar a unha, deixa pra amanhã, hoje tá boa pra coçar atrás da orelha.

Aquilo que pode aparentar libertador, talvez seja apenas infantil e irresponsável. Quase todas as nossas atitudes são alicerçadas em experiências passadas. Recorremos ao passado para planejar nosso futuro. Não viver no presente é ser racional. Nós não vencemos como espécie por viver no presente – mas por planejar nosso futuro.

E tem a parte do whisky. É que se todos pensássemos assim, somente no agora, não haveria whisky. Whisky demanda planejamento e paciência. Talvez o exemplo mais clássico aqui seja o fenômeno que ocorreu, há alguns anos, com os whiskies japoneses. Os bons whiskies japoneses – ao menos single malts e blends – sumiram das estantes, substituídos por outros um tanto oportunistas. Em boa parte, porque não haviam se preparado para o próprio avassalador sucesso.

E talvez você não saiba, mas há um ponto bem angustiante sobre whiskies japoneses. Acontece que quase não há leis no Japão relativas à produção e comercialização de whisky. E, por conta disso, é permitido – ou melhor, não é ilegal – que um whisky destilado e maturado em outro país e engarrafado no Japão seja rotulado como whisky japonês. Isso dá oportunidade a novos empreendedores. Empreendedores no ramo de ludibriar o consumidor, engarrafando whiskies medíocres e cobrando o preço de japoneses.

Katherine Hepburn – tão japonesa quanto alguns whiskies japoneses

Os produtores sérios – Nikka, Suntory e uma meia dúzia de outros – porém, tiveram que buscar outra saída. Uma delas, foi lançar whiskies sem idade declarada (NAS) e aguardar que seu estoque envelhecesse novamente. Afinal, nenhum whisky chega aos dezoito anos sem que se tenham passado dezoito anos. Outra, foi lançar produtos alternativos. Gins, por exemplo, como o Toki. E whisky de grão. E é aqui que entra o Suntory The Chita.

A destilaria Chita, fundada em 1973, pertencente ao grupo Suntory, foi, por muito tempo, uma heroína anônima. Poucas vezes lembrada, mas parte indissociável de blends japoneses de renome, como os Hibiki. Em 2015, porém, movida pela escassez de whiskies japoneses no mercado, a Suntory resolveu colocá-la em evidência. O The Chita, um single grain japonês sem idade foi lançado.

A ideia da Suntory é que o The Chita, leve e aromático, pudesse ser usado para elaborar highballs, muito populares no Japão. Aos poucos, porém, incentivado pela expansão da coquetelaria no mundo, o The Chita passou a ser exportado.  Inclusive para o Brasil.

Há pouca informação sobre o processo de produção do The Chita para nós, mortais. Porém, de acordo com o website Malt, que faz referência ao livro Whisky Rising, de Stefan van Eycken, a destilaria utiliza milho como seu cereal base. A destilação acontece em destiladores contínuos, que podem ser combinados de diferentes formas para atingir oleosidades diferentes de seu new-make.

Colunas de destilação da Chita

Para aumentar a complexidade, uma combinação de barricas – dentre elas, jerez, vinho tinto e bourbon – é empregada. Algo que, convenhamos, é bem raro no mundo dos whiskies de grão. Isso torna o The Chita um whisky muito leve e adocicado, com notas de coco e frutas tropicais, especialmente banana. Ele é pouquíssimo agressivo, bem agradável, fácil, e realmente perfeito como base de coquetéis, especialmente os de perfil mais cítrico.

Se você procura um whisky leve e adocicado para preparação de drinks, mas com perfil diferente dos bourbons, o The Chita será uma agradável surpresa. E, se me permite, experimente o The Chita também puro. Porque, bom, devemos sempre pensar no futuro para todas as decisões que tomamos. Mas somente às vezes, em raríssimos casos, nos sentimos confortáveis o suficiente para viver no presente, despretensiosamente relaxar, embarcar no momento e deixar as expectativas de lado. E o The Chita é um desses casos.

SUNTORY THE CHITA

Tipo: Single Grain Whisky

Destilaria: Chita 

País: Japão

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, coco, caramelo, banana.

Sabor: Coco bastante aparente, mel, banana, frutas amarelas. O final é médio e com bastante baunilha.

Highball Cocktail – Simplicidade Intrincada

Foto: Tales Hideki

Há coisas que parecem simples, mas são, na verdade, extremamente intrincadas. Os japoneses tem até uma palavra pra isso. Shibusa – ou shibui. Que na minha (assumo, limitada) interpretação da cultura oriental, poderia ser traduzido – não sem alguma perda – como “austero”. Shibusa definiria algo que fosse despojado de ornamentação excessiva. Algo que tivesse um equilíbrio fino entre o elegante e o bruto, o formal e o espontâneo. Entre o simples e o complexo.

A palavra é, geralmente, aplicada a objetos – mais frequentemente, arte e moda. Ainda que quase tudo possa ser Shibusa. Pode ser uma comida. Que, aliás, cunhou o termo “shibui”, até hoje utilizado como sinônimo de adstringente. Uma bebida ou um coquetel, também. Por exemplo – e como não poderia deixar de ser – o Highball.

O Highball é o tipo de coquetel que é incrivelmente fácil e ao mesmo tempo, inacreditavelmente intrincado. Se a frase anterior lhe parece um paradoxo, deixe-me explicar. Produzir um whisky-soda, ou melhor, misturar whisky com qualquer coisa com bolhas, é bem fácil. Se meu cachorro tivesse polegares opositores, ele provavelmente faria tranquilamente. A questão, aqui, são os detalhes que permeiam os ingredientes, e o cuidado no preparo.

Em primeiro, é preferível que o copo – tradicionalmente uma caneca alta – esteja bem gelado. Aliás, é melhor que esteja tudo bem gelado: club soda, whisky, copo e (já que estamos falando obviedades) o gelo. Atenção especial para este ingrediente. Um gelo opaco, com muito ar represado em seu interior, poderá diluir muito rapidamente, e atrapalhar na carbonatação (as bolhinhas).

Tá, vai com calma, campeão!

Prefira um gelo mais translúcido – não necessariamente grande. Aliás, falando nas bolhinhas, este é outro ponto importante. Use club soda, ou uma água com gás neutra com bastante gás. Bastante mesmo, a ponto de ser quase imbebível pura. A temperatura baixa, aliada à diluição com gelo e whisky tratarão de equilibrar o gás.

Tradicionalmente, o highball leva apenas gelo, whisky e club soda. Porém, nada impede que você sofistique sua receita. No Caledonia Whisky & Co., nosso bar em São Paulo, por exemplo, servimos com uma lasca de gengibre e uma folha de limoeiro. Essas adições aromáticas são super bem vindas, e ajudam a trazer complexidade para a mistura. Um chá delicado também pode ser uma boa ideia, mas cuidado para não exagerar – lembre-se de shibui. A nota predominante deve ser do whisky, com a leveza da água carbonatada.

Como muitos coquetéis clássicos, a origem do highball é discutível. A ideia de misturar uma bebida alcoolica com algo carbonatado data do final do século dezenove nos Estados Unidos (há um coquetel chamado Simplificatore no Bartender’s Manual de Harry Johnson, de 1900). Porém, os responsáveis por sua popularização são, indiscutivelmente, os japoneses. Na década de vinte os japoneses já consumiam whisky com club soda. Em meados de 1960, Shinjiro Torii, fundador da Suntory, abriu uma cadeia de bares chamados “Torys”, que serviam o drink. Aí, a popularidade da mistura decolou.

Mas vamos deixar este post simples. Aí vai uma receita tão simples quanto misturar whisky e água com gás, mas tão intrincada quanto fazer um niguiri.

Talvez mais.

HIGHBALL (AKA HAIBORU):

INGREDIENTES

  • 1 dose (30ml) de Whisky (escolha um whisky que tenha uma influência clara de madeira ou turfa. Se pegar algo delicado, a tendência é que ele perca força por conta da água carbonatada).
  • 3 doses (90ml) de Club Soda ou água com gás (escolha uma que tenha bastante gás!)
  • Gelo bom
  • Copo alto ou caneca previamente gelada
  • adições aromáticas (seja criativo)
  • aparato para mexer

PREPARO

  1. Gele tudo. Copo, whisky, água com gás. Gele até o gelo, só pra ter certeza.
  2. Adicione na caneca (ou copo) gelada, o gelo. Ele deve ser suficiente para cobrir quase todo copo. Se conseguir produzir um gelo grande e comprido, melhor. Senão, vá com pedras grandes – isso vai garantir que a diuluição e a carbonatação estejam corretas.
  3. adicione o whisky e a club soda
  4. mexa suavemente com a colher bailarina, como se puxando o whisky do fundo para cima. Não exagere.
  5. Se quiser, adicione uma lasca de gengibre, ou algum elemento aromático que você goste. Lembre-se que o higball é um coquetel delicado!

Aberlour A’Bunadh Alba – Drops

Há uma analogia bem conhecida, utilizada para comparar single malts e blended whiskies. Diz-se que single malts são como um solista tocando uma música para um único instrumento. Como um violoncelo, executando a Suíte No. 1 de Bach. Há um único tema, um fio condutor, uma única nota maravilhosamente – ou não – tocada por vez.

Já blends são uma orquestra. Há diversas notas de naturezas distintas ecoando ao mesmo tempo. O que compõe o som é a harmonia. Cada instrumento possui sua função, e contribui um pouquinho para o equilíbrio do arranjo. É difícil isolar uma única nota da orquestra – como é difícil separar um único malte de um blend – mas isso não importa. O que importa é o som do conjunto.

Se pudesse estender a analogia, diria que o Aberlour A’Bunadh é como Mistlav Rostropovitch tocando um único – e maravilhoso – lá em seu violoncelo. Com vibrato e tudo. Pouquíssimos single malts tem um tema mais definido do que o Aberlour A’Bunadh. No caso, um tema vínico, profundo e alcoólico. O Aberlour A’Bunadh clássico é o epitome de um whisky maturado em carvalho europeu de ex-jerez – nenhum outro single malt define melhor o estilo.

A’Bunadhs

No entanto, sempre me pareceu curioso que a Aberlour não tivesse a contrapartida em carvalho americano de bourbon whiskey. Até poderia fazer sentido – afinal, o carvalho europeu aporta mais complexidade – mas aquilo soava como uma oportunidade desperdiçada. Até agora. A Aberlour lançou em 2019, exclusivamente no mercado americano, o Aberlour A’Bunadh Alba.

O Aberlour A’Bunadh Alba é produzido exatamente da mesma forma que o clássico A’Bunadh. Sem corante caramelo, filtragem a frio ou qualquer diluição. E com maturação em um único tipo de barril. Mas, no caso, carvalho americano que antes contivera bourbon whiskey. Por isso, inclusive, o nome “Alba” – um trocadilho engraçadinho com “quercus alba”, o nome científico do carvalho americano, e o nome gaélico pelo qual a Escócia era conhecida.

Sensorialmente, o Aberlour A’Bunadh Alba traz notas de caramelo, baunilha, mel e pimenta do reino. Porém, o álcool é bem presente. Ainda mais do que na versão original, maturada em carvalho europeu. Para sentir as notas mais delicadas, é necessário aguardar algum tempo com o whisky no copo e adicionar água. Aliás, bastante água. Mas, a partir daí, o whisky se torna menos interessante também. No caso específico do A’Bunadh, o carvalho americano de ex-bourbon funciona bem como uma tela em branco, mas, sozinho, não se sustenta tão bem como o europeu.

Infelizmente, nem o Alba nem o A’Bunadh original estão à venda oficialmente no Brasil. É uma pena. Ele apresenta uma oportunidade interessante, especialmente para os entusiastas do mundo do whisky. Comparar como determinada madeira influencia nas características sensoriais do whisky, mesmo com um new-make de personalidade. Compará-lo com o A’Bunadh tradicional é divertido e interessante, e, só por isso, justifica sua existência. De volta à nossa analogia. Como um violoncelo solo, ele talvez não funcione tão bem. Mas numa dupla de cordas, é absolutamente perfeito.

ABERLOUR A’BUNADH ALBA (Batch 1)

Tipo: Single Malt com sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Aberlour

Região: Speyside

ABV: 57,1% (variável de acordo com o lote)

Notas de prova:

Aroma: caramelo, açúcar mascavo, compota de frutas.

Sabor: frutas amarelas, caramelo, mel, baunilha, pimenta do reino. Final longo e muito picante.

Com água: o sabor fica mais adocicado e menos picante.

Disponibilidade: Lojas internacionais

Fettercairn 12 – Brilho do Sol

A vida moderna, também, é geralmente uma opressão mecânica, e o álcool é o único alívio mecânico” uma vez escrever o velho Ernst, em tom quase profético. Opressora e compressora, essa vida moderna. Ainda mais no último mês. Comprimido em casa, sem poder sair, realmente, uma dose de whisky é quase um abraço – hábito que, aliás, também está oprimido.

Talvez seja por isso que tenha bebido tanto whisky ultimamente. Graças à quarentena, meu novo hábito etílico prescinde horários. Uma da tarde é um momento totalmente aceitável para começar. O sol a pino, escondido por trás da laje, exige algo floral e delicado. Algo com um certo frescor, sofisticado, porém com um perfil de sabor casual. Como, por exemplo, o single malt Fettercairn 12 anos, recém chegado ao Brasil.

O Fettercairn 12 anos é um whisky perfeito para qualquer momento. Sensorialmente, traz frutas maduras e cítricas, e um toque de pimenta do reino. Não chega a ser um whisky delicado, mas está aquém da intensidade de um Dalmore, ou algum monstro defumado de Islay. De certa forma, faz sentido. A Fettercairn está posicionada como uma marca super-premium. Nada mais natural que, sensorialmente, seja acessível mesmo para o leigo, acostumado com produtos de luxo.

A Fettercairn possui algumas características bastante incomuns em sua produção – para um whisky geek, muitíssimo interessantes. Por exemplo, entre 1995 e 2009, os condensadores de seus alambiques eram feitos de aço inoxidável, ao invés de cobre, o que trazia uma nota sulfúrica para o whisky. Em 2009, os condensadores passaram a ser de cobre. Para auxiliar na condensação do new-make, há (até hoje) uma espécie de anel de canos perfurados, que derramam água sobre o braço do alambique, para resfriá-lo e incentivar a condensação. Isso o torna um pouco mais leve – há mais refluxo.

Alambique da Fettercairn com água descendo pelo pescoço (fonte: Whisky Exchange Blog)

Além disso, no passado, os alambiques de primeira destilação eram preenchidos de mosto quase até seu limite de volume. Para evitar que o mosto vazasse, a destilaria empregava reservatórios de sabão neutro, não perfumado, que era despejado sobre o mosto em aquecimento para evitar que produzisse muita espuma e transbordasse. Isso mesmo, sabão. Atualmente, porém, esses alambiques são operados de uma forma diferente – seu volume é de vinte e cinco mil litros, e a carga, treze mil litros.

Há pouquíssimos engarrafamentos oficiais da Fettercairn. O malte sempre foi utilizado largamente na indústria de blended whiskies, como matéria prima – especialmente nos blends da Whyte & Mackay. Além do 12 anos, tema desta prova e única expressão que desembarca no Brasil, a marca possui também três rótulos super-maturados: 28, 40 e 50 anos.

No Brasil, uma garrafa de Fettercairn 12 anos custa, em média, R$ 550,00 (quinhentos e cinquenta reais). É um preço bem elevado, que o coloca ombro a ombro com outros rótulos super-premium no mercado, como o Macallan Double Cask 12 e o – fogo amigo – Dalmore 12 anos. Porém, comparativamente a eles, o Fettercairn é bem mais delicado, adocicado e floral. Aqui, há um claro tradeoff – a intensidade dá espaço para a drinkability.

Assim, se você procura um whisky sensorialmente delicado e extremamente bebível, o Fettercairn é perfeito. Ele é praticamente aquele abraço que não podemos mais dar. E só para fechar com Shaw o que comecei com Heminway: ele é brilho de sol líquido – infelizmente, o único brilho possível.

FETTERCAIRN 12 ANOS


Tipo: Single Malt
Destilaria: Dalmore
País/Região: Escócia – Higlands
ABV: 43%
Idade: 12 anos

Notas de prova:

Aroma: caramelo, açúcar mascavo.
Sabor: caramelo,açúcar de confeiteiro. Pimenta do reino. Final médio e adocicado.

Code Nine Single Malt – Produtividade

Shakespeare escreveu King Lear durante a quarentena da peste bubônica. Já Isaac Newton desenvolveu o alicerce de sua teoria da gravidade. E Giovanni Boccaccio escreveu uma de suas mais famosas obras. O Decameron: uma coletânea de mais de cem contos contados por um grupo de sete pessoas que se refugiavam da Morte Negra em Florença. O livro, mais tarde, tornou-se também uma das mais clássicas obras do cinema, dirigido por Pasolini.

Eu, por outro lado, ganhei um quilo e meio e fiz uma porção de descobertas. Todas elas, baseadas na mais pura e entediante contemplação. Como, por exemplo, que o rei de copas é o único dos quatro naipes que tem bigode. Que morcegos ficam de ponta cabeça mas fazem xixi com o rabo pra baixo. E também que crianças fazem em torno de duzentas e noventa perguntas por dia – exceto pelas minhas, que devem fazer umas quatro mil. Quatro mil cada uma.

E ainda fecha o olhinho de alívio.

E tem também a tensão do bar fechado. Só de pensar no Caledonia de portas cerradas, me dá uma angústia e falta de ar mesmo sem COVID-19. Para aliviar um pouco a tensão, estabeleci uma meta. De experimentar – no sentido amplo de experiência – uma coisa nova por dia, no mínimo. Pode ser um filme, um prato, uma bebida. Pode até ser um shampoo, ainda que eu não me veja como alguém interessado em testes cosméticos. Já fiz sushi caseiro, provei uma itubaína com marca de supermercado e provavelmente assisti umas cem horas de filme. E, nessa toada, experimentei um whisky bem inusual que há algum tempo pretendia provar. O Code Nine – um single malt brasileiro produzido em Blumenau.

Seu criador é Bruno Mafra, que também produz o licor de canela Witch On Fire, já revisto em nosso Instagram. De acordo com Bruno, “A história do code da Witch on Fire se misturam. Porque o Code Nine surgiu justamente pela busca da melhor formula possível do witch. Foram dois anos, em que a gente testou rye, bourbon, single malt. E o último fornecedor que tivemos acesso, com um blend específico de barris, nos impressionou muito. As notas eram bem diferenciadas e tinha qualidade. O custo era maior que esperávamos mas compensava. O Code Nine a gente bebe faz tempo, aliás. A gente recebia amigos em casa que conheciam whisky e elogiavam bastante o produto

Somos uma marca cigana, focada em entregar produto de qualidade com melhor custo benefício possível. Acreditamos que conseguimos um custo-benefício bom até mesmo para a produção de drinks“. De acordo com Bruno, este é um ponto importante: os bartenders possuem um trabalho de educação, de apresentação e valorização do produto para o público, que de outra forma não seria atingido. Produzir um drink com Code Nine leva o amante de coquetelaria a conhecer e experimentar o produto.

Witch on Fire, licor de canela produzido com a base do Code 9

A destilação ocorre numa destilaria que loca sua capacidade ociosa para a empresa de Bruno – a Xanadu. É uma destilaria de cachaça artesanal, localizada em Blumenau, Santa Catarina. No mundo cervejeiro, isso é bem comum. Cervejarias bastante conceituadas utilizam o espaço de outras para produzir suas cervejas – o trabalho é elaborar a receita e supervisionar a produção. São as chamadas “ciganas”.

A maturação do Code Nine passa por barricas de carvalho americano de ex-bourbon e barris de carvalho europeu e americano de reuso. Esses barris – americanos e europeus de reuso – passam por uma raspagem e nova torra. A Xanadu também realiza o corte (a diluição do whisky para atingir a graduação etílica de engarrafamento). Segundo Bruno, nos primeiros lotes, não foi usado corante caramelo, ainda que o rótulo indique o produto – a ideia é que a embalagem esteja em conformidade com qualquer alteração por conta de padronização.

Sensorialmente, o Code Nine é um whisky adocicado, com uma curiosa nota de chocolate, que me remete a outro whisky bem pouco ortodoxo – o australiano Starward. Ainda que seja um whisky jovem, com o new-make spirit aparente, a maturação é bem resolvida, e o álcool não incomoda nem um pouco. Há notas de ameixas e uvas passas, açúcar mascavo e baunilha. O final é adocicado e pouco apimentado.

Se você procura um whisky que foge do comum, mas que entrega um ótimo custo-benefício, o Code Nine talvez seja uma boa pedida. Você não precisa ser Newton, Boccaccio ou Shakespeare para transformar sua quarentena em um período de ótimas descobertas – ainda que etílicas.

CODE NINE SINGLE MALT

Tipo: Single Malt

Destilaria: Xanadu/Code9

País: Brasil

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: açúcar mascavo, chocolate, mel, uvas passas.

Sabor: Bastante adocicado, com sabor que remonta chocolate. Uvas e ameixas passas. Final longo, levemente alcoolico e apimentado, mas também achocolatado.

Balvenie Portwood 21 – Quarentena

Estou há nove dias de quarentena. Mas talvez sejam onze. Os dias da semana não importam mais. A quarentena deu todo um novo sentido para o carpe diem. Eu acordo quando acordar, durmo quando dormir e como quando tiver fome. Minha agenda é do mais cândido vazio. Não há mais horário para nada. É socialmente aceitável beber whisky às nove horas da manhã.

Não tenho feito muito exercício, também. A única coisa que tenho exercitado ultimamente é meu ódio. Por exemplo, pelas pessoas que em breve morrerão de inanição mas com a bunda limpa, depois de terem saqueado todo papel higiênico do supermercado. Já tentei uma série de passatempos, dos mais sofisticados – xadrez com a Cã – até os mais triviais, como tentar engolir a própria língua e tentar não pensar em nada, mas continuar pensando em não pensar.

Há, porém, algo positivo. Tenho aproveitado o tempo para provar whiskies que há tempos tinha em casa, mas jamais abrira. Talvez por falta de coragem. Talvez por aguardar um momento especial. Bem, não há momento mais especial do que agora, uma segunda-feira. São nove e trinta e dois da manhã, e todo mundo aqui em casa está dormindo. Para melhorar, a internet acabou de parar de funcionar.

Tão eu.

Observo o armário de whiskies com serenidade. Tenho todo tempo do mundo para escolher, mas a decisão não leva mais de dez segundos. O Balvenie Portwood 21 anos. Um single malt bastante sofisticado, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente delicado. Razão pela qual preferi guardá-lo para provar com o paladar fresco. Bem, não há paladar mais fresco do que aquele de alguém que acabou de sair da cama e nem tomou café.

Abro a garrafa. À medida que desço meia dose do whisky no copo e observo a oleosidade média da bebida, penso como a moral é elástica. Em qualquer outra situação, sentiria bastante remorso daquilo que fazia. Mas hoje não. Há algo sobre a quarentena que sublima qualquer fragmento de culpa aqui. É como se a natureza ontológica do tempo comprovasse o Eternalismo – passado, presente e futuro são um só.

Aproximo meu nariz da taça. Ah, como amo o aroma de whiskies vínicos maturados em barricas de vinho do porto numa manhã apocalíptica. Poderia passar boa meia hora apenas no aroma. Há figos, frutas vermelhas em calda, cerejas. Há uma certa baunilha com mel de engenho também. É uma bebida de elegância inacreditável. Equilibrio não – o Balvenie Portwood 21 é claramente vínico. Mas uma delicadeza elegante cada vez mais rara.

Um pequeno lampejo de remorso. Olho em volta, para me assegurar que ninguém me flagrou com uma taça antes das dez da manhã. Mas não, todos dormindo e eu no mais hermético isolamento, digital e fisicamente. Dou um gole. Percorro, com calma, o líquido na boca. No paladar, o Balvenie Portwood 21 é ainda mais delicado do que no aroma. É isso que 21 anos em uma barrica podem trazer de benefício. Imaginem, uma quarentena de vinte e um anos!

Aproveito para ler a letra miúda da garrafa – algo que apenas quem dispõe de todo tempo do mundo faria. “Na produção do Balvenie Portwood, nosso malt master seleciona cuidadosamente reservas raras de Balvenie e as transfere para barricas de vinho do porto, para uma maturação de alguns poucos meses. O primeiro período de maturação de mais de duas décadas abranda o destilado, e cria seu caráter. A segunda maturação é o coração do The Balvenie Portwood, e produz um single malt de complexidade incrível. Provado regularmente por Dave Stewart, o Malt Master da Balvenie, para garantir que apenas a medida certa de influência seja trazida pelas barricas de vinho do porto.”

Dave Stewart

Lembro-me, por um momento, que a Balvenie foi uma das pioneiras na técnica empregada neste whisky. A finalização em barricas distintas, conhecida como cask finishing. Algo criado e aperfeiçoado durante décadas pela própria The Balvenie e outras destilarias, como Glenmorangie e Glen Moray. É uma técnica tão simples quanto genial, que traz ao whisky complexidade sensorial, unindo influências de distintas barricas.

Dou mais um gole e finalizo a dose. O final é longo, mas não chega e ser picante. Não é também tão vínico quanto se espera. O Balvenie Portwood 21 é bem mais suave no paladar do que no aroma. Se pudesse, recomendaria o Balvenie Portwood 21 para todos aqueles que adoram whiskies vínicos como The Macallan, mas procuram algo mais delicado, mais suave, com uma sofisticação quase semelhante àquela de blends ultra-luxuosos, como os Royal Salute.

Paro por um momento. Tenho a clara impressão de que alguém me observa. Olho para os lados, mas nada. Finalmente, dou meia volta e vejo o Sazerac, meu querido cãozinho, que me observa com olhar de interesse. Nenhum traço de reprovação em seu olhar. Claro, cães não sabem que horas são, nem que dia da semana é hoje. Cães acordam quando acordarem, dormem quando dormirem, e comem como eu, a todo instante. Cães não guardam nada para momentos especiais e aproveitam cada pequeno momento.

Se há algo de bom sobre a quarentena, é esta. Ela me fez mais Cão do que nunca.

BALVENIE PORTWOOD 21 ANOS

Tipo: Single Malt
Destilaria: Balvenie
País/Região: Escócia – Speyside
ABV: 40%
Idade: 21 anos

Notas de prova:

Aroma: compota de frutas, vinho fortificado, baunilha.
Sabor: compota de frutas, vinho fortificado. Baunilha, pimenta do reino. Final longo, adocicado e frutado. Muito complexo e agradável.

(mais) quatro whiskies que fazem falta no Brasil

Esta é a segunda edição de um post sobre whiskies que fazem muita falta no Brasil. Para ler a primeira edição, clique aqui .


Talvez o momento atual, com um virus que tirou do Aedes Aegypti o monopólio sobre o apocalipse, não seja o ideal pra contar isso. Mas eu adoro viajar. E apaixonado por whiskies e comida que sou, uma das coisas que mais me fascina é a gastronomia.

Amo descobrir novos sabores e juro que não há quase nada que eu não provaria. No Peru – quando viajei no ano passado – por exemplo, a primeira coisa que eu resolvi experimentar foi cuy. Que por aqui é conhecido como o fofinho e amável porquinho da índia. É uma iguaria no país, e restaurantes bem conceituados servem o prato. No final, me decepcionei. Tem gosto de frango, e eu detesto frango. Mas a experiência valeu a pena.

Outra coisa que eles tem por lá são refrigerantes diferentes. Mais ou menos a mesma história das tubaínas por aqui, mas alguns são bem grandes e famosos. O maior deles é a Inca Kola. Se eu pudesse definir o que é a Inca Kola, em uma frase, eu diria que ela tem o gosto da cor. E a cor é um verde quase radioativo. Detestei Inca Kola. Mas a Cã, por outro lado, adorou. Gostou tanto que descobriu um restaurante em São Paulo que tem o refrigerante, e comprou uma dúzia de garrafinhas.

Eca.

Quando voltei para casa, não senti a mais rasa falta de porquinho da índia ou Inca Kola. Por outro lado, já me vi nostálgico de certos whiskies que provei em outras viagens – como quando estive na Escócia – e oportunidades. Enumerei alguns abaixo, num exercício que, se fosse um pouco mais sensível, teria feito brotar lágrimas de saudades.

Bowmore

Olha, eu tenho que assumir que coloquei Bowmore na lista por uma questão um tanto egoísta. Sou apaixonado pela destilaria e acho injusto que tenha que passar vontade. Mas, além disso, há outros bons motivos para termos este clássico de Islay por aqui.

Primeiro, a Bowmore pertence à Beam-Suntory, que já importa alguns rótulos pertencentes a ela para cá, como, por exemplo, os Laphroaig – além, claro, do onipresente Teacher’s, que agora é engarrafado lá na Escócia. Isso sem falar dos whiskies japoneses, que já passaram férias em nosso país.

Em segundo, porque poucas destilarias conseguem equilibrar tão bem o sabor enfumaçado e medicinal com a influência de barricas de vinho, especialmente ex-jerez. E, aqui no Brasil, não há nenhum single malt defumado com influência vínica.

Highland Park

Highland Park é uma das mais cobiçadas marcas de single malt escocês. Sensorialmente, se aproximam do Talisker, mas tendem a ser mais intensos. São apenas levemente enfumaçados, bastante oleosos e com maturação aparente. A maioria dos rótulos passa por alguma barrica de carvalho europeu.

A destilaria Highland Park pertence ao Edrington Group, que também é proprietário da popstar The Macallan e da Glenturret, coração do Famous Grouse. Por aqui, boa parte dos rótulos do grupo são trazidos pela importadora Aurora. Porém, o único single malt que desembarca é The Macallan – que é um sucesso estrondoso. Talvez seja hora de diversificar!

(qualquer outro) Rye Whiskey

Ryes são avistamentos frequentes fora de nosso país. Afinal, são a espinha dorsal de boa parte da coquetelaria com whisk(e)y – o Sazerac, Vieux Carré e La Louisiane são exemplos. Porém, aqui no Brasil, o único rótulo que temos é o Wild Turkey Rye. Que é um whiskey bem feito, apesar da graduação alcoólica baixa, que às vezes atrapalha ao elaborar receitas.

Porém, não seria nenhum sacrifício ter mais opções. Quiçá o Jack Daniel’s Rye, ou o Bulleit Rye, ou o clássico dos clássicos, Sazerac Rye.

Aberlour

Encontrar um whisky com bom custo-benefício e que tenha estagiado em barricas de vinho ex-jerez espanhol não é nada fácil por aqui. Os rótulos mais óbvios são o The Macallan Double Cask e Dalmore 12. Mas ambos custam mais de meio milhar de reais. O recém-chegado Tamnavulin também é uma boa opção, mas infrequente.

Fora do Brasil, os Aberlour são um oásis do estilo. A destilaria se especializou em produzir maltes maturados em barricas de vinho jerez, e transformou isso em uma assinatura. São single malts profundos, intensos, carregados de especiarias, pimenta e taninos. Perfeitos para acompanhar um belo charuto.

A Aberlour pertence atualmente à Pernod-Ricard, detentora também das marcas Chivas Regal, Jameson e Royal Salute. A multinacional possui mais de dez destilarias na Escócia, mas a única que chega ao Brasil é sua campeã de vendas. A Glenlivet.

Sobre o tema do momento – COVID-19

Talvez vocês não saibam, mas acho que este é ao mesmo tempo o melhor e pior momento para descobrirem. Há mais ou menos três meses abrimos um bar em São Paulo. O Caledonia Whisky & Co. É um lugar que, se eu pudesse definir com uma frase, seria “ele é o Cão Engarrafado materializado”. Tudo que tem por aqui, tem lá. Coquetéis, comida e whisky. Mais de cento e vinte rótulos diferentes de whisky.

Por quase três meses, recebemos clientes e amigos, e tem sido uma absoluta delícia. Temos inclusive, já alguns “habitués”- se é que podemos considerar que realmente existem clientes recorrentes em uma casa que, se fosse um bebê, ainda estaria fazendo fezes explosivas. Mas bem, espiritualmente citando Allen Saunders, há coisas que acontecem enquanto fazemos planos, e essa coisa foi o COVID-19.

Durante esta semana, nos perguntamos bastante se deveríamos suspender nossas atividades por conta do COVID-19. Mas, como dizem, muitas vezes as respostas para nossas indagações estão nas próprias indagações. Suspender um estabelecimento comercial com pouco menos de três meses de vida, que depende cem por cento de seus clientes no lugar físico não é uma decisão trivial. É uma apneia para todos – clientes e equipe. Mas é o tipo de decisão cujo singelo enunciado já traz a resposta.

Por mais que desejássemos oferecer alguma hospitalidade durante estes tempos incertos, a prioridade estava clara desde o começo. É – e sempre foi – a segurança e a saúde de nossa equipe, clientes e comunidade. Clientes maravilhosos e destemidos, que saíram de sua zona de conforto para conhecer um lugar novo criado por dois malucos apaixonados por whisky. E uma equipe que por algum motivo acreditou em nós, e tem feito um trabalho excepcional. É preciso uma bela porção de coragem para isso.

Gente corajosa

Por conta disso, e imbuídos de uma coragem quiçá semelhante, que a partir de 17/03, o Caledonia Whisky & Co. suspendeu suas atividades. Suspendeu, porque claro que, em breve, voltaremos. Avaliaremos diariamente as medidas do governo e o avanço da pandemia para definir nossa volta – torcendo para que seja breve. Preferimos nos resguardar agora, do que arriscar um fôlego muito maior no futuro. Mas é importante dizer que nada adianta fazermos nossa parte. Dependemos, também, de você, querido leitor.

Fiquem em casa e peçam para seus amigos, vizinhos e familiares fazerem o mesmo. Não sejam rebeldes – não há nada, exceto o absolutamente essencial para sobrevivência, que não possa ser adiado. Uma viagem, um culto, um cinema, um show, uma festa. Não se cobrem e não deixem ser cobrados. Seu #wanderlust, sua fé (sua divindade entenderá, se ela não entender, é culpa de seus representantes. Mude de religião. O mundo está cheio delas), cinefilia, audiofilia ou sociofilia podem aguardar. O mundo raríssimas vezes é binário. Mas desta vez é. Há o certo e o errado. E o certo é ficar em casa.

Na hipótese altamente improvável de você não saber ainda, a gente explica. O COVID-19 pode ser transmitido pelo ar ou por contato pessoal com todo tipo de fluido corporal nojento que você não gostaria de ter contato nem se a pessoa fosse saudável: gotículas de saliva, espirro, tosse e catarro. E tudo que decorre disso, como toque ou aperto de mão, e contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos. Atenção redobrada com os botões do elevador e da maquininha de cartão de crédito. Mas eu nem preciso falar isso, porque você não vai pegar o elevador e apertar os botões, porque vai ficar em casa. Se ainda tiver dúvidas, leia esse especial do Bar Virtual sobre o COVID-19

Assim, cuidem dos seus, não assumam riscos desnecessários. Mesmo que você seja um jovem bêbado tão resiliente quanto um ratel, aposto que há alguém em seu círculo social que faz parte do grupo de risco. Um pai cardíaco, um amigo com problemas respiratórios. Assim, sejam solidários. Lavem as mãos constantemente. Não encostem no rosto. Usem álcool gel sempre. Não compartilhem copos – nem mesmo de um maravilhoso Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare. Não cumprimentem pessoas com as mãos – mesmo porque, se você não vai sair de casa, não tem ninguém pra cumprimentar com as mãos.

Mas nem tudo é desespero. Aqui, no Cão Engarrafado, a versão imaterial do Caledonia Whisky & Co., traremos a vocês as novidades do mundo do whisky, e uma porção de informações legais para você curtir daí, da segurança de seu lar. Aproveite a oportunidade para abrir aquela garrafa empoeirada de whisky que estava guardando para um momento especial. Ou prepare-se para testar alguns dos coquetéis de nosso bar em casa. Aguardem, as próximas semanas serão difíceis, mas melhores tempos virão.

Saratoga Cocktail – Diversidade

Meu pai costuma dizer que o tempero da vida é a diversidade. Tenho que concordar com meu progenitor. Ainda mais em uma época do ano quanto o carnaval. Os bloquinhos são um exemplo. Fico fascinado com o ânimo das pessoas para ir nos bloquinhos, mas, tenho que assumir, não me vejo participando de um nem por dinheiro. Nem por dinheiro não, nem por whisky.

Sou totalmente a favor de qualquer manifestação de alegria, ainda mais uma tão espontaneamente agregadora quanto o carnaval. Em especial os bloquinhos de rua. Não ligo nem um pouco para o trânsito causado, e – como dono de um bar recém aberto – nada me revolta a falta de movimento trazida pelas festividades. Mas os bloquinhos reúnem três coisas absolutamente equivocadas: cerveja ruim quente, suor e muita gente.

Aliás, gente já seria um motivo mais do que justificável para me demover dos planos carnavalescos. Com calor, ainda pior. Odeio passar calor. Nem piscina quente, eu gosto. Aliás, nunca entendi essa tara das pessoas por piscinas quentes. Que coisa mais sem graça. Para qualquer atividade em uma piscina ficar minimamente interessante, é necessário adicionar ao menos um de dois elementos – álcool ou jogo.

Credo

Talvez tenha sido com essa mentalidade, justamente, que um tal de John Morrissey, um irlandês nascido nos Estados Unidos, resolveu abrir um casino em Saratoga Springs em 1864. É que o lugar era tipo Jurerê Internacional dos americanos no começo do século dezenove. Os pornograficamente ricos aproveitavam as águas naturalmente cálidas para relaxar. O lugar era tão famoso que o empresário Gideon Putnam decidiu abrir lá um spa – aproveitando as maravilhosas e entediantes caldas minerais de Saratoga. Nada mais do que natural que, da união do tédio e do dinheiro, surgisse então um casino.

Durante a curta vida do casino de John – que foi fechado no começo do século vinte por conta do recrudescimento das leis que combatiam álcool e apostas – surgiram algumas receitas bastante curiosas de coquetéis. Mas apenas um sobreviveu ao oblívio do tempo. O Saratoga Cocktail, que leva rye whiskey, vermute, bitters e brandy. Ou conhaque, se você tiver uma casa em Jurerê.

A sobrevivência do Saratoga Cocktail se deu, em boa parte, por sua menção no icônico livro de Jerry Thomas, “The Bar-tenders Guide”, de 1887, bem como por sua facilidade de preparação. Porém, não se engane – o sucesso de seu Saratoga dependerá, essencialmente, dos ingredientes utilizados em sua composição.

Durante uma semana, realizei o sacrifício de testar algumas combinações diferentes. Descobri que o Saratoga se beneficia de um vermute mais apimentado – como, por exemplo, o Carpano ou Cinzano 1757 – ao invés de algo mais delicado. O brandy deve trazer mais madeira – o Fernando de Castilla funcionou bem. Quanto ao Rye Whiskey, não há muita escolha. O único disponível em nosso país é o Wild Turkey Rye, que, apesar da baixa graduação alcoólica, funciona bem.

Assim, meus caros leitores, coloquem suas cartas na mesa e tomem nota de um coquetel tão fácil quanto se afogar bêbado numa piscina quente, e bem mais agradável do que passar calor no bloquinho. O belíssimo…

SARATOGA COCKTAIL

INREDIENTES

  • 1 dose (30ml) de vermute tinto
  • 1 dose (30ml) de rye whiskey
  • 1 dose (30ml) de brandy
  • 2 dashes de Angostura Aromatic Bitters

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com bastante gelo.
  2. Mexa por aproximadamente 4 segundos
  3. desça em uma taça coupé ou copo baixo, sem gelo.

Buffalo Trace Bourbon – Gabarito

Hoje vou contar para vocês a história do mais perfeito carro do mundo. Tão perfeito que falhou miseravelmente. O Ford Edsel. Ele foi lançado em 1957, após uma exaustiva pesquisa, que questionava os consumidores sobre o que esperavam de um automóvel. Centenas de pessoas opinaram sobre sua criação.

O Edsel possuía basicamente tudo que era tecnologicamente possível na indústria automobilística dos anos cinquenta. Direção hidráulica, câmbio automático, freios auto-ajustáveis e até uma grelha frontal que parecia uma tampa de privada que fora violentamente arrancada e depois perfurada. Acontece que, tentando ser bom em tudo, o Edsel era péssimo.

Só de ver a parte da frente, rolam uns movimentos peristálticos.

O motor era forte, mas como ele tinha que ser espaçoso, era também pesado. A direção tinha que ser leve, mas sem sacrificar a performance, o que o deixava sua manobrabilidade no meio do caminho entre um navio de cruzeiro e um trator. E para terminar este – literalmente – fracasso rolante, o carro era tão caro quanto um Porsche. Este é o problema de tentar agradar a todos. É quase impossível.

Porém, no mundo do whiskey americano, há um rótulo que talvez tenha conseguido. O Buffalo Trace. Se aliens descessem dos céus e perguntassem a todos os bebedores o que esperam de um bourbon, para depois produzi-lo, o resultado seria muito próximo do Buffalo Trace. Incluindo seu preço. Ele agrada a todos, tem um valor razoável, e qualidade sensorial excelente. É o tipo de whiskey que atrairá tanto o novato – graças a seu perfil adocicado e pouco apimentado – quanto o bebedor mais experiente, que busca algo com bom custo-benefício.

O Buffalo Trace é produzido pela destilaria homônima, localizada no Kentucky, e pertence à Sazerac Company. Jim Murray, o famoso autor da Bíblia do Whisky, uma vez nomeou a Buffalo Trace como a melhor destilaria do mundo. Ainda que, para mim, isto pareça uma hipérbole, não é difícil entender a lógica de Jim. A Buffalo Trace produz rótulos com excelente custo-benefício (como o Buffalo Trace e Eagle Rare), bem como produtos sofisticadíssimos e nichados, como a Antique Collection, Weller e o mundialmente cobiçado Pappy Van Winkle. Este último, com garrafas que podem chegar a mais de dois mil dólares.

O Buffalo Trace Bourbon compartilha com alguns rótulos irmãos uma mashbill (receita do mosto) baixa em centeio. Ainda que a destilaria não divulgue os números exatos, um palpite educado seria menos de 10% de centeio, 10% cevada maltada e o restante milho. É a mesma receita de diversos rótulos mais sofisticados da Buffalo Trace, como o querido Eagle Rare, Stagg Jr e o sofisticado George T. Stagg. A diferença entre os rótulos está na escolha dos barris, e na graduação alcoólica de engarrafamento.

Pappy, também produzido pela Buffalo Trace, mas com outra receita.

Como produto, o Buffalo Trace Bourbon é relativamente jovem. Ele foi criado somente em 1999, logo após a reabertura da destilaria. Reza a lenda que um visitante indagou porque não havia qualquer rótulo que levasse o mesmo nome daquele lugar. Sem resposta, e após uma série de discussões, o time da Sazerac Company pediu ao master distiller Elmer T. Lee que criasse um bourbon especial – e acessível – o suficiente para carregar o nome Buffalo Trace.

Sensorialmente, o Buffalo Trace é um bourbon incrivelmente encorpado – especialmente considerando seu preço – com aroma e sabor adocicados, com baunilha e toffee, e apenas um final elegantemente apimentado e amadeirado. É curioso como apesar da mashbill alta em milho, o whiskey atinja um equilíbrio interessantíssimo entre a influência da madeira e do destilado. Isso é bem raro em rótulos que compartilham preço e receitas semelhantes de outras destilarias.

Se você é um iniciante no mundo dos bourbons, e procura um rótulo que possa resumir tudo que se espera do estilo, o Buffalo Trace foi criado para você. Mas, por outro lado, se você já tem experiência com whiskey, e apenas quer algo para alimentar a zona de conforto, o Buffalo Trace também não decepcionará.

BUFFALO TRACE BOURBON

Tipo: Bourbon
Destilaria: Buffalo Trace
País/Região: Estados Unidos – Kentucky
ABV: 45%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

Notas de prova:

Aroma: caramelo, toffee, baunilha.
Sabor: caramelo, toffee, mel. O final é longo e suave, com um agradável apimentado.