Bebendo o Oscar 2020 – Relacionando filmes e whisky

Estava pensando sobre algumas tradições. Coisas banais, que fazemos todo dia, sem nem perceber. Tipo cumprimentar alguém com um aperto de mão. Além de ser um negócio que não tem muita lógica, é uma prática meio anti-higiênica. Cara, eu sei lá onde você enfiou essa sua mão, mas vamos contribuir para a disseminação de todo tipo de moléstia. Aperta aqui. Isso sem mencionar quando a mão do coleguinha está molhada. Isso aí é água mesmo, seu porco?

Mas tradições são assim. Elas não precisam fazer sentido. Como, por exemplo, uma que criei aqui no Cão Engarrafado, e que reúne dois dos meus maiores interesses. Cinema e whisky. Há quatro anos, lancei uma matéria comparando os filmes do Oscar com certos rótulos. O post fez sucesso, e repeti a fórmula nos anos seguintes. É um post absolutamente inútil, que só seve mesmo para exercitar minha quase perturbadora capacidade de abstração.

Escolhi três indicados ao prêmio de melhor filme, que assisti e relacionei com suas almas gêmeas do mundo da melhor bebida do mundo. Da ingenuidade infantil de Jo Jo Rabbit à aflitiva agonia de Coringa, os indicados ao Oscar de 2020 estão incríveis (aliás, bem melhores do que nos anos interiores). Mas ficam ainda melhores com uma dose de whisky do lado. Vamos a eles.

JO JO RABBIT

Jo Jo Rabbit conta a história de Jojo Betzler, um menino de 10 anos durante o regime nazista. O garoto se vê como um ferrenho anti-semita, e descobre que sua mãe esconde, em casa, uma menina de dezesseis anos de origem judaica.

De certa forma, Jo Jo Rabbit se aproxima de dois outros filmes indicados ao Oscar no passado: Green Book e A Vida é Bela. Sua maior qualidade é também seu pior defeito. Que é tratar com leveza e às vezes até ingenuidade um assunto geralmente é tratado com severidade. No caso de Jo Jo, o regime nazista e o antissemitismo. O humor funciona – especialmente naquilo que não é dito – mas também acaba atrapalhando. Não há peso histórico onde deveria (sem spoilers aqui).

Se fosse um whisky, Jo Jo Rabbit seria, provavelmente, o Glenlivet Founder’s Reserve. Um single malt adocicado, leve e extremamente bebível, mas produzido com todo cuidado e atenção que somente uma das maiores e mais respeitadas destilarias do mundo poderia fazer.

CORINGA / THE JOKER

Não há muito a falar sobre The Joker além do que já foi extensamente dito e divulgado. Apesar de ser ambientado em Gotham City e de haver um certo Thomas Wayne, o filme não se parece como algo derivado de um universo de super-heróis. Não há nada de sobre-humano em the Joker, exceto, talvez, pela patológica violência de Fleck.

Além disso – como já disse por aqui – o filme de certa forma subverte a lógica do cinema. Todo mundo sabe como The Joker vai acabar. É como Titanic: a gente sabe que o navio vai afundar. O que importa, e interessa, é aquilo que acontece e leva àquele final.

Mas a melhor característica do filme é, de longe, sua atuação. Nem o roteiro (que é fraco) e nem a fotografia (que é ótima) estão aos pés da representação de Joaquin Phoenix. O ator é um megazord de coringas. Ele consegue aliar o humor de Jack Nicholson com a raiva de Heath Ledger, e, bom, sei lá o que o Jared Leto estava fazendo, então vamos deixar esse daí de lado.

Se fosse um filme, The Joker seria um Port Charlotte Scottish Barley. Esquisito, enfumaçado, medicinal, intenso, meio áspero nas pontas, mas excelente.

ONCE UPON A TIME IN HOLLYWOOD / ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD

Era uma Vez em Hollywood, dirigido por Quentin Tarantino, conta duas histórias paralelas. Uma totalmente inventada, e a outra também inventada, mas esparsamente baseda em fatos reais. A primeira é a de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator que já viu dias melhores. Outrora um astro de filmes de guerra e westerns, Dalton agora luta para reerguer sua carreira, ao lado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt).

A segunda é a história de Sharon Tate, uma atriz que existiu de verdade, e que foi brutalmente assassinada por uma seita de jovens maníacos seguidores de Charles Manson. Há outros personagens de Hollywood de verdade mas de mentirinha, como Roman Polanski e Steve McQueen.

Era Uma Vez em Hollywood é um clássico filme de Tarantino. Diálogos irônicos e espirituosos e uma violência gráfica que se torna até cômica, de tão exagerada. Se fosse um whisky, o filme provavelmente seria o recém-chegado Buffalo Trace. Eminentemente americano e intenso, com uma complexidade quase informal.

Robert Burns Single Malt – de ratos e flores

Se você acompanha o Cão há um tempo, já deve ter ouvido sobre Robert Burns. Ele foi o mais importante poeta escocês de todos os tempos, e um enorme expoente do movimento romântico. A envergadura de suas obras é enorme. Burns tratou de assuntos de enorme distinção. Da iniquidade social do século dezoito a sua paixão por embutidos de caprinos.

Em uma de suas mais conhecidas obras, o poeta discorre por mais de três estrofes sobre o sabor inigualável de uma buchada de bode. Em outras duas, se martiriza por ter esmagado com seus pés uma margarida – a florzinha – e uma toca de ratos. O último inclusive, inspirou o escritor Sidney Sheldon ao batizar seu romance “The Best Laid Plans”. É capaz de ter também servido de inspiração para o James Blunt, mas vamos manter um nível administrável aqui.

“#chatiado”

Mas não foi apenas nas artes que Robert Burns inspirou criações incríveis. Na área das bebidas, o poeta é uma influência importantíssima. Foi em sua homenagem que um dos mais importantes coquetéis de scotch whisky foi nomeado – o Bobby Burns. E também em sua referência que a Arran, destilaria localizada na ilha homônima na Escócia, batizou sua linha de blended whiskies e malt, que acabam de chegar no Brasil.

Os Robert Burns são importados pela Single Malt Brasil em duas versões. Um blended scotch whisky de entrada, que – naturalmente – usa Arran como coração, e um single malt, o tema desta prova. Parece contra-intuitivo que uma destilaria possua duas linhas distintas, sendo que uma delas possui tanto blends quanto single malts. Mas a estratégia é mais focada no mercado de consumo do que, efetivamente, na marca. Robert Burns são mais acessíveis, tanto em perfil sensorial quanto financeiramente.

O Robert Burns Single Malt é um whisky relativamente jovem e simples, mas muito agradável. A maior parte das barricas usadas em sua maturação são de carvalho americano de ex bourbon – que trazem toffee e caramelo. Estas, correspondem a aproximadamente setenta por cento de seu volume. Os trinta restantes são barricas de carvalho europeu de ex-jerez, que trazem um certo apimentado seco, com frutas cristalizadas.

Apesar de ser um single malt de entrada, a Arran tomou alguns cuidados um tanto incomuns. O primeiro é sua graduação alcoólica, de 43%, e não 40%, como boa parte das destilarias faz atualmente. Estes 3% adicionais são bem vindos, e contribuem para o final apimentado e seco do whisky. O segundo é sua cor natural – mesmo em sua linha de entrada, a Arran não utiliza corante caramelo.

A Arran.

Comparativamente a seu irmão de destilaria, o Arran Lochranza, o Robert Burns é um whisky mais apimentado e seco, e bem menos floral. Ainda que o tema – bourbon com um leve toque de jerez – seja semelhante, o perfil sensorial das duas garrafas é bem distinto. Considerando a diferença de preço, escolher entre um e outro recai mais sobre gosto pessoal do que custo-benefício – se é que “custo-benefício” possa ser um termo usado para descrever uma bebida.

Se você procura um single malt acessível, com perfil sensorial mais seco e apimentado e muito agradável, o Robert Burns Single Malt é seu whisky. Ele é perfeito para se beber despretensiosamente, ou, talvez, harmonizar com alimentos apimentados, ou, quiçá, uma bela sessão de poesia sobre roedores, flores ou embutidos.

ARRAN ROBERT BURNS SINGLE MALT

Tipo: Single Malt
Destilaria: Arran
País/Região: Escócia – Highlands
ABV: 43%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

Notas de prova:

Aroma: mel, compota de frutas, baunilha
Sabor: mel, baunilha, frutado. Final médio, com cereais, açúcar e pimenta.

Macallan Double Cask 12 Anos – Genética

A genética é uma coisa linda. É incrível que, apesar de parecer tão intangível, seja ela a responsável por quase tudo que fazemos. Como reagimos a estímulos, alguns de nossos gostos, nossas fobias naturais e nossa compleição física. Tudo isso, de certa forma, é influenciado pela genética.

Veja o exemplo de meu querido filho, o Cãozinho. O Cãozinho é, fisicamente, bem parecido comigo. Mas o mais surpreendente mesmo são as semelhanças imateriais. Ele tem uma aptidão natural para o desastre. Algo que só pode ser explicado pela carga cromossômica que lhe transferi. Ele tropeça no próprio pé e derruba coisas que segurava do nada. Ele também é um voraz devorador de absolutamente qualquer coisa – onivoridade compartilhada com o pai glutão.

Além disso, não é a criança mais atenta que eu conheço. Toda vez que o vejo parado, mirando fixo para um horizonte imaginário, sei exatamente o que está se passando por sua cabeça. Tudo. Tudo menos o que está à sua volta. E, num repente, ele – digo, nós – voltamos à realidade com aquele semblante meio bobo, como se tivéssemos sido teleportados para a realidade. Somos parecidos demais para não ser isso. Eu só sou trinta e dois anos mais velho, e consigo disfarçar melhor.

Oi, que?

Se eu não soubesse, poderia dizer que há DNA também no mundo do whisky. Destilarias cujos rótulos parecem descender de um único pai. Que compartilham as mesmas características. Uma delas é a The Macallan. Há diferenças entre eles, claro. Mas há também uma espécie de código comum. Desde adocicado Triple Cask, até o luxuoso e vínico Oscuro (hoje Reflexion) há um perfil sensorial que se mantém constante pela linha inteira. Uma personalidade oleosa, vínica e absolutamente deliciosa. E com Macallan Double Cask 12, que acaba de desembarcar no Brasil, não é diferente.

O Macallan Double Cask 12 anos é maturado em dois tipos distintos de barricas, ambas “temperadas” – nas palavras da destilaria – com vinho jerez espanhol. Barris de carvalho americano e carvalho europeu. As barricas de carvalho americano trazem notas adocicadas e florais, como mel, caramelo e baunilha, mas, graças ao “tempero” com o vinho espanhol, há um intenso frutado seco. Já o emprego das barricas de carvalho europeu traz complexidade sensorial, trazendo especiarias, taninos e frutas secas. Em conjunto, isso se traduz como um whisky adocicado e frutado no começo, que, progressivamente vai se tornando mais seco e apimentado no paladar. Este perfil sensorial é uma espécie de DNA da destilaria, presente em quase todos seus rótulos.

Outra característica particular da The Macallan é o perfil de seu destilado. A destilaria possui os alambiques mais baixos de toda a Escócia. Seus lyne arms são voltados para baixo, para maximizar a condensação e reduzir o refluxo. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso. Para contrabalancear uma hipotética agressividade, o corte do coração da The Macallan é justíssimo: Apenas dezesseis por cento do destilado – produzido no meio do processo de destilação no alambique – vira single malt. Do restante, nove por cento (quatro e meio de cada ponta) vai para blended whiskies, como Famous Grouse. 

Os alambiques da nova e impressionante destilaria da The Macallan (fonte: scotchwhisky.com)

A The Macallan se diz localizada em Speyside, conhecida como o coração da produção escocesa de whisky.  Entretanto, Craigellachie – onde a destilaria  se localiza – faz parte do território das Highlands, de acordo com a autorregulação vigente. A destilaria adquiriu sua licença para funcionar em 1824, mas fora fundada bem antes disso, por um fazendeiro chamado Alexander Reid.

No Brasil, o Macallan Double Cask 12 anos custa, em média, R$ 600 (seiscentos reais). É um valor relativamente alto. Mas é, também, uma das melhores alternativas para os amantes de whiskies maturados em barricas de jerez. Assim, se você gosta de whiskies oleosos e puxados para o vinho fortificado, experimente o Macallan Double Cask 12. E se você realmente gosta deste perfil, não adianta resistir, ou tentar agir de outra forma. Não há como fugir da genética.

MACALLAN DOUBLE CASK 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade declarada (12 anos)

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, baunilha, vinho adocicado, passas.

Sabor: Caramelo, baunilha e um certo aroma frutado, com frutas secas e cristalizadas. Final longo e vínico.

Caledonia Whisky & Co – Abrimos um Bar!

Quando, há mais de cinco anos, começamos com o Cão Engarrafado, não sabíamos direito para onde iríamos. Sabíamos, por exemplo, que provaríamos muitos whiskies. Suspeitávamos que nossa paixão por drinks e cervejas também encontraria uma forma de participar deste espaço virtual. Mas jamais pensamos que chegaríamos ao ponto de, por exemplo, julgar um campeonato de coquetelaria, ou viajar para o outro lado do mundo apenas para provar, em primeira língua, dois novos e maravilhosos whiskies de certa marca de luxo.

Alguns caminhos pareciam naturais. Incorporar receitas e abordar os universos tangentes àquele do whisky, por exemplo. Outros exigiram uma certa apneia. Desenvolver cursos e degustações, por exemplo, e sair do ambiente virtual para o palpável. Mas, de todos estes, de longe, o que mais exigiu fôlego, temeridade e quiçá uma boa quantidade de imprudência é este que vos apresento. Um bar totalmente voltado para a cultura do whisky em São Paulo. O Caledonia Whisky & Co.

Se pudesse resumir, de uma forma bem simples, sobre a essência do Caledônia, seria esta: Ele é o Cão Engarrafado materializado. É um bar em que o vedete é o whisky – escocês, japonês, americano, irlandês ou de qualquer parte do mundo. Mas que também abraça tudo aquilo de bom que se relaciona à bebida.

Nosso coração

Há coquetéis autorais (como o delicioso King James e o lúdico Volstead), clássicos clássicos (manhattan) e clássicos obscuros (BeelzeBob), com e sem whisky. Há cervejas incríveis, dentre elas, uma Imperial Stout criada pela Cervejaria Dádiva, e maturada em barris de carvalho, somente para nós. E pratos. Pratos que são ora britânicos, ora brasileiros, como o querido Scotch Egg (o nosso bolovo), hambúrgueres americanos com um toque inglês, e pratos essencialmente ingleses.

Na carta do Caledônia, há algo como cento e trinta whiskies. Reunimos quase tudo que há disponivel oficialmente no Brasil – dos blends standard, como Passport, Bells e Teacher’s, até single malts super exclusivos, como o Macallan Reflexion – uma das pouco mais de dez garrafas que desembarcaram por aqui. As doses são de 25ml, para permitir que o cliente prove uma boa variedade de whiskies diferentes sem machucar fígado ou bolso, mas há também doses duplas, de 50ml. Réguas de degustação temáticas – de escolhas sérias como o Speyside Trio, até uns mais descontraídos, como os preferidos deste Cão que vos escreve.

Já nossa carta de coquetéis – que não poderia faltar – foi criada por Rodolfo Bob, bartender premiado, vencedor do Patrón Perfeccionists. Ela conta a história do whisky em cinco drinks. Da migração dos monges da península ibérica até a Escócia, passando pela Irlanda, até os tempos atuais, com a retomada da coquetelaria e o consumo dos single malts. Sem olvidar de períodos importantes da história, como a Lei Seca (Volstead) e o começo da destilação nos Estados Unidos (Mount Vernon). Há também uma boa quantidade de clássicos incontornáveis, como o Penicillin, Manhattan, Maker’s Mark Old Fashioned e New York Sour. E uma carta periódica de obscuros, que hoje conta com o incrível e – de sugestivo nome – BeelzeBob, uma singela homenagem ao pai de nossa carta.

King James, um de nossos autorais.

E o Caledônia não é apenas um bar. É loja também. Por exemplo – se você experimentou um belo Glenlivet Code como dose no salão, terá desconto para levar uma garrafa pra casa. A preço de empório mesmo, não de bar. Há alguns produtos bem exclusivos, como a linha dos single malts da Arran, e um certo gim japonês com alma de whisky, o Roku Gin, que acabou de desembarcar no brasil pelas mãos da Beam Suntory.

E, claro, não poderíamos esquecer daquilo que mais nos incentivou a ter um espaço próprio. A parte educacional. Nossos eventos agora possuem um ambiente dedicado e fixo. Há um andar de salão conversível em sala de aula. Periodicamente, promoveremos degustações e cursos por lá. O espaço também poderá funcionar como uma sala privada, para eventos de marcas e empresas.

Temos uma ótima equipe, e estamos bem animados com o Caledonia. E um tanto apreensivos também. Ter um espaço e cuidar de pessoas não é algo trivial. Mas, pensando aqui, depois de tantos parágrafos, talvez tenha sido a mais natural das consequências do Cão Engarrafado. A gente não sabia, mas era tudo uma questão de tempo.

Sala de aula

CALEDONIA WHISKY & CO.

Endereço:

Rua Vupabussu, 309, Pinheiros, São Paulo – SP

Funcionamento:

Bar: de terça a sábado, das 18:00 às 24:00. Domingo e segunda-feira fechado.

Loja: de segunda a sábado, das 12:00 às 24:00. Domingo fechado.

Capacidade máxima: 70 pessoas

Telefone: 11 3031-0840

Instagram: @caledoniawhiskyco

Patsy Cocktail – Jack Daniel’s Tennessee Calling

Já contei isso por aqui, mas vou contar novamente. Quando era criança, me perguntavam constantemente o que eu queria ser quando crescer. Por uma efêmera fase, queria ser astronauta, até descobrir que eles bebiam o próprio xixi (leia mais sobre isso aqui). Depois, pensei em ser caminhoneiro. Mais tarde, piloto de helicóptero. Quando atingi a pseudo maturidade da adolescência, resolvi que seria desenhista. E quando menos percebi, por pura e espontânea pressão paterna, virei advogado.

Gosto de minha profissão, e não me arrependo. Mas, assumo, durante o exercício, poucas vezes vi espontaneamente acesa a chama da paixão pelo ofício. Longe de ser uma atividade natural, ser advogado foi um gosto adquirido. E por muito tempo permaneci assim, até, finalmente, descobrir a razão pela qual eu nasci. Ou não. Graças a um convite da Brown Forman.

É que os malucos da Brown, responsáveis pela Jack Daniel’s, resolveram me convidar para ser jurado da semifinal de um concurso de coquetelaria. O Jack Daniel’s Tennessee Calling, que aconteceu no final de novembro de 2019, no Tulum Bar, em São Paulo. E, devo dizer, foi um dos trabalhos mais divertido das minha vida. Avaliar coquetéis, ouvir histórias e inspirações e discutir com meus pares – e que pares – sobre as impressões sensoriais de cada criação foi uma experiência absolutamente fantástica. Eu faria isso todo dia. Ainda bem que, para minha própria segurança, é impossível.

Trabalho difícil

Mas vamos aos fatos. O Tennessee Calling é a competição de Jack Daniel’s voltada à coquetelaria e concebida para o desenvolvimento de bartenders. É o segundo ano da competição, cujo vencedor ganha uma viagem para o Tennessee, para ver com os próprios olhos os segredos da criação do tennessee whiskey mais famoso do mundo. Neste ano, a semifinal ocorreu no mesmo dia da final, e contou com dez competidores.

O corpo de jurados deste ano foi bastante heterogêneo: Adriana Pino, eleita em 2018 a melhor bartender do país no World Class Competition, Jéssica Sanchez, eleita em 2018 melhor bartender do ano pela Veja Comer & Beber e Prazeres da Mesa, Marquinhos Felix, Bead Bartender do grupo DRK e responsável pelo balcão do bar Fortunato, Gilberto Almendola, responsável pelo Balcão do Giba, do Paladar – Estadão e este Cão, que não fazia a menor ideia do que estava fazendo lá.

A proposta do campeonato seria preparar um coquetel para um encontro entre o Jack Daniel e o Frank Sinatra – uma reunião memorável, se fosse possível distorcer o espaço-tempo. E após uma acirradíssima disputa e um árduo trabalho de provar dez coquetéis incríveis, o finalista foi Raul Dias, bartender do próprio Tulum, com seu Patsy Cocktail. O drink leva Shrub de tomate clarificado, licor de amêndoas, mix cítrico, queijo grana padano – destaque para este incrível e delicioso ingrediente – e Jack Daniel’s Old No.7, claro.

De acordo com Raul “O nome Patsy é uma homenagem ao restaurante favorito de Frank Sinatra, o Patsy’s Italian, em Nova Iorque” e continua “me inspirei no prato preferido de Frank, um parmegiana de berinjela que a avó dele fazia, e usei o Old No. 7 – que representaria o presente de Jack para o Frank. Um shrub de tomate representa o parmegiana, e o licor de amêndoas é um tempero italiano. Já o mix cítrico representaria o segredo do chef“. E o grande toque especial – uma lasca de queijo grana padano, para harmonizar.

Ficou curioso? Então aí vai a receita do coquetel de Raul para que você, querido leitor, tente reproduzi-lo no conforto de seu lar – ainda que este Cão recomende que você prove o coquetel original das mãos do criador.

Raul e uma passagem aérea bem grande

PATSY COCKTAIL (por Raul Dias)

Ingredientes

  • 60 ml Jack Daniel’s Old No.7
  • 35 ml Shrub de tomate clarificado
  • 10 ml licor de amêndoas italiano
  • 20 mix cítrico
  • lasca de grana padano
  • tomilho
  • parafernália para bater

Preparo

  1. adicione todos os ingredientes (menos o queijo e tomilho) em uma coqueteleira e bata vigorosamente
  2. desça em uma taça, e finalize com a lasca de queijo e tomilho.
  • O shrub é feito de tomate italiano, açúcar, água, vinagre e vodka, e clarificado com claras em neve. Leia mais sobre ele aqui (em inglês)

Tamnavulin Double Cask – Derradeiro

Ano novo. Uma das poucas festas que realmente aprecio. O otimismo exacerbado e a hipocrisia de fazer planos para um ano inteiro, mas mergulhar na inconsequência de uma noite. Minha imagem mental do ano novo sempre trazia fogos de artifício – normalmente refletidos em um mar de sorrateiras ondas – e um burburinho animado de pessoas de branco, tomando espumante.

Mas aqui estou, no silêncio de meu quarto, na frente do computador, escrevendo. Não há fogos, nem champagne, nem barulho. Apenas um copo de single malt à meia luz e o tlec tlec produzido pelos meus dedos. Meu traje – no singular – neste momento não apenas seria inapropriado para participar de uma festa de ano novo como, provavelmente, seria impróprio para ir a qualquer lugar sem correr o risco de ser preso ou gerar um escândalo. E apesar disso tudo, sinto que estou justamente onde deveria.

Dois mil e dezenove foi um ano agitado. Foram mais de quarenta e dois whiskies revistos, dezessete coquetéis apresentados e dez matérias sobre todo tipo de abobrinha relacionada a whisky. Mas meu trabalho não estaria completo por aqui sem um último post. A prova de um single malt de Speyside que corajosamente entrou em nosso mercado sem muito alarde – como minha atual situação – mas que merece ser celebrado. O Tamnavulin Double Cask.

O Tamnavulin Double Cask é um single malt sem idade declarada, produzido pela destilaria Tamnavulin, em Speyside. Sua maturação ocorre principalmente em barricas de carvalho americano de ex-bourbon, antes de ser finalizado por um período não declarado em carvalho europeu de ex-jerez. Isso traz a ele notas adocicadas de mel e amêndoas e um certo (e curioso) marzipã. O final é médio e vínico. É um whisky sensorialmente simples, mas perigosamente fácil de beber – bem mais do que espumante no reveillón.

A Tamnavulin e sua acolhedora placa.

Mas não é apenas na língua que o Tamnavulin não faz feio. No bolso também. Seu preço médio está próximo dos duzentos reais. É bem bom para um single malt – ainda mais um que passa parte de sua vida em barricas previamente usadas para vinho jerez.

A Tamnavulin é uma destilaria relativamente jovem. Ela foi fundada em 1966 pelo grupo Invergordon, mais tarde, Whyte & Mackay. Seu objetivo era suprir uma demanda crescente por blended whiskies – razão pela qual era tão raro ver engarrafamentos de single malt da Tamnavulin. A destilaria, porém, foi fechada em 1995, devido ao declínio do consumo de whisky no mundo, e somente reaberta em 2007, quando sua proprietária, a Whyte & Mackay, foi comprada pela United Spirits.

O Tamnavulin Double Cask é como um ano novo passado em silêncio, trajes mínimos, calmamente fazendo aquilo que se gosta. Não é necessário muito alarde ou pirotecnia para trazer satisfação.

TAMNAVULIN DOUBLE CASK

Tipo: Single Malt sem idade declarada

Destilaria: Tamnavulin

País/Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: mel, amêndoas, gengibre, caramelo.

Sabor: frutado, com frutas vermelhas, uvas passas, marzipã. Final adocicado e vínico.

Quatro Coquetéis de Whisky para o Verão

Você, querido leitor, deve estar ansioso para o verão. Quase todo mundo está. Mas eu não. Peço perdão por emitir aqui uma nota dissonante, mas detesto o calor. E, consequentemente, nosso escaldante verão tropical.

É que são seis e meia da manhã de um sábado. Acordei há trinta minutos, em uma poça de suor, depois de passar metade da noite virando o travesseiro, em busca do lado mais fresco. Eu não percebi quando aconteceu, mas imagino que em algum momento no meio da madrugada o ar-condicionado parou de funcionar. E inexplicavelmente, como num processo de auto-imolação, meu quarto chegou à temperatura do sétimo círculo do inferno.

Bom dia.

No frio, temos escolha. É só colocar casaco, cobertor. Ou ligar um aquecedor. O frio traz oportunidades talvez até românticas. Como acender uma lareira – se você tiver uma, que não é meu caso. O calor não. O calor é desagradavelmente incontornável. No calor, mesmo com todo ar condicionado do mundo, a chance de você grudar na mobília ou no banco do carro é de cem por cento.

E tem a parte do whisky. Beber whisky é sempre uma delícia, mas é bem melhor no frio. O que, claro, não significa que haja certos artifícios que tornem o consumo da maravilhosa bebida mais fácil no calor. Como seu uso em coquetéis leves e refrescantes. Como, por exemplo, os quatro drinks abaixo. Vamos a eles.

Whiskey Mule

Se você vive no Planeta Terra da coquetelaria, é bem capaz que já tenha provado a versão clássica deste coquetel, o Moscow Mule. O drink galgou uma inacreditável fama nos últimos anos. Em boa parte, por conta de sua improvável apresentação na canequinha de cobre. Que, aliás, suspeito, alçou à fama também todo tipo de instrumento acobreado, de palitos de dente a luminárias de chão.

O Whiskey Mule é a versão melhorada do drink. Claro, porque leva whiskey. E, de quebra, a também já tão popular espuminha de gengibre e limão. Descubra como fazê-lo aqui.

Morning Glory Fizz

Foto: Tales Hideki

Como sugere o nome, o Morning Glory Fizz é um coquetel de café da manhã. Um hábito que, nos dias de hoje, parece tão anacrônico quanto perigoso. Mas nem sempre foi assim. Durante o século XIX, essa era uma prática muito comum. Os coquetéis traziam mais disposição e vigor aos jovens pela manhã. Muitos drinks que hoje conhecemos nasceram deste hábito, como o Between the Sheets, Pick me Up e o Red Snapper.

O perfil de sabor do Morning Glory Fizz é leve e refrescante, com alcaçuz ou anis em evidência, dependendo do ingrediente utilizado. Aprenda a prepará-lo aqui.

Seelbach

Se você, sofisticado leitor, adora degustar um espumante à beira da piscina para refrescar-se nestes tão tórridos dias de verão, o Seelbach é seu drink. Ele une o frisante fermentado com o melhor destilado do mundo. Whiskey. Além disso, a história de sua criação é digna de um filme de trapaça norte-americano. Leia tudo sobre ele aqui.

Jack Honey Lemonade

O Jack Honey Lemonade é uma criação da própria Jack Daniel’s, e uma aposta para a mais insuportavelmente quente estação do ano. Que, talvez, se torne um pouco menos insuportável com a ajuda de um coquetel como ele. A receita é quase tão fácil quanto beber:

  1. – Encha um copo alto com gelo;  
  2. – Despeje 50 ml de Jack Honey;  
  3. – Cubra com 30ml de limão siciliano;  
  4. – Complete com refrigerante de limão; 
  5. – Mexa. 

Dalmore Cigar Malt Reserve – Forma e Função

Esta matéria foi originalmente escrita para o website charutando.com.br . Porém, com o lançamento oficial do Dalmore Cigar Malt Reserve no Brasil, reproduzimos aqui o conteúdo.


Ferdinand Porsche uma vez disse “Se analisarmos a função de um objeto, seu formato geralmente se tornará óbvio”. Em outras palavras, a concepção, o desenho de certo objeto, deve ser escrava de seu propósito. Ferdinand Porsche realmente entendia muito sobre o design de automóveis, mas, provavelmente, nunca viu um talher de peixe na vida.

Vou começar pelo garfo. O garfo de peixe é simplesmente um garfo comum, sensivelmente menor, mais gordo e com um dente a menos. E não há nada de especial nele além disso. Nada em seu projeto torna a tarefa de levar o animal marinho à boca mais fácil. Por essa razão, o garfo de peixe simplesmente não deveria existir. Mas o pior não é ele. O pior mesmo é a faca de peixe.

A faca de peixe é um dos objetos da cutelaria que mais me intriga. Porque, para falar a verdade, ela não é boa para nada. Mas ela é especialmente ruim para se usar no peixe. Aquela reentrância – cujo propósito deveria ser auxiliar na separação das espinhas – é absolutamente inútil. Além disso, por não ter uma extremidade afiada, a faca acaba amassando o peixe, e deixando aqueles minipedacinhos impossíveis de serem comidos no prato. A faca de peixe é tão boa para comer peixe quanto um martelo de amassar carne seria.

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Por conta de minha experiência com talheres de peixe, já começo a desconfiar quando alguém me diz que existe algo especialmente e quase exclusivamente desenhado para uma função muito específica. A primeira vez que tive essa sensação com whiskies aconteceu quando fui apresentado ao Dalmore Cigar Malt Reserve. Segundo a destilaria Dalmore, o Cigar Malt foi especialmente desenvolvido para se harmonizar com bons charutos. É uma declaração corajosa, essa da Dalmore.

O Dalmore Cigar Malt Reserve é, na verdade, uma reinvenção do Dalmore Cigar Malt, descontinuado em 2009. A versão anterior, entretanto, era muito mais simples, e preenchia o espaço entre as expressões de doze e quinze anos da destilaria. A atual orgulhosamente se posiciona acima destas e abaixo do cobiçado Dalmore King Alexander III.

O Dalmore Cigar Malt Reserve foi desenvolvido por Richard Paterson, master blender da própria Dalmore e da marca Whyte & Mackay. O charuto utilizado por Paterson como referência para desenvolver o single malt foi o Partagas Serie D nº 4. E por essa escolha, eu somente poderia parabenizar Paterson.

O Cigar Malt Reserve é maturado em três diferentes tipos de barricas. Setenta por cento delas, botas de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez espanhol. Mais especificamente, vinho oloroso da Gonzalez Byass. O restante – trinta por cento – advém de barricas de carvalho americano que contiveram bourbon whisky e barricas de vinho Cabernet Sauvignon.

Segundo Paterson “meu objetivo ao criar o Cigar Malt Reserve foi proporcionar aos fãs de single malt uma experiência incomparável, mas produzir também uma expressão que harmonizasse com a maioria dos charutos extraordinários no mercado. Eu acredito que este novo whisky é uma expressão sucinta de prazer” – e continua – “Para realmente tirar o máximo da experiência, harmonize-o com chocolate amargo, café preto (sugiro colombiano, javanês ou de Ruanda) e um charuto robusto, como um Hoyo de Monterrey, Partagás ou Cohiba. Aqueça sua boca com um pouco de café, morda um pedaço do chocolate e agora tome um pequeno gole do whisky. Agora termine com uma boa baforada no charuto. Repita até o paraíso”.

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Na opinião deste Cão, se provado puro, o Cigar Malt Reserve é um excelente whisky, e provavelmente uma de suas expressões preferidas da famosa destilaria das highlands. Ele é um whisky oleoso, com aroma e sabor marcados claramente pelo jerez, mas mais seco e apimentado. Algo que, intuitivamente, combinaria muito bem com um belo habano.

Para realmente entender como o single malt funcionaria com charutos, entretanto, foi necessária árdua dedicação. Foram feitas quatro harmonizações com charutos diferentes, em dias diferentes – um Hoyo de Monterrey Serie Le Hoyo, um Partagas Serie E nº 2, um brasileiro Artist Line Robusto e, por fim, o Romeo y Julieta Churchills da foto. Na humilde opinião deste que vos escreve, o Cigar Malt se saiu melhor com os charutos mais suaves, ainda que seu benchmark tenha sido um charuto forte, como o Partagás.

Acontece que os charutos mais potentes acabaram eclipsando grande parte das sutilezas do whisky. Há, por exemplo, um certo sabor adocicado, que relembra, de longe, frutas em calda, e que fica quase completamente imperceptível com o Partagás.

O Dalmore Cigar Malt Reserve, entretanto, é um whisky polivalente, que entrega complexidade e sabor se tomado puro, e que corajosamente enfrenta qualquer charuto e se sai – quase sempre – muito bem. Posso garantir que ele está realmente longe de ser uma faca de peixes.

THE DALMORE CIGAR MALT RESERVE


Tipo: Single Malt sem idade definida (NAS)
Destilaria: The Dalmore
Região: Highlands
ABV: 44%


Notas de prova:


Aroma: aroma de caramelo e com frutas em calda. Leve cítrico.
Sabor: caramelho, frutas cristalizadas, frutas vermelhas. Final longo e progressivamente mais frutado (para frutas vermelhas). Leve sabor de baunilha.
Com Água: A agua ressalta o sabor frutado e reduz o final. É um whisky que se sai melhor puro.

Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal

Sol alto no limpo céu de verão de 1809. Uma multidão tão vasta quanto eclética se reunia sobre a grama de Newmarket Heath. Havia homens, mulheres e crianças de tão distintas classes sociais que aquele mais parecia um experimento babélico da estratificação social inglesa do século dezenove. Fazendeiros locais dividiam espaço com fidalgos e burgueses. Em comum, semblantes que ora demonstravam curiosidade, ora antecipação. Do meio do burburinho – tão comum nestas grandes aglomerações – se podia distinguir uma frase “mil milhas em mil horas, por mil guineas“.

Aquela era a aposta de um homem e a razão de tamanha reunião. Seis semanas antes, o Capitão Robert Barclay havia apostado contra seu conhecido, James Wedderburn-Webster, que ele conseguiria correr mil milhas em mil horas por mil guineas. Um desafio que, mesmo para os padrões atuais, seria um tanto arrojado. Não apenas fisicamente, ainda que correr vinte e quatro milhas por dia, ao longo de seis semanas, já esteja no limiar do impossível. Mas financeiramente também. Mil guineas, atualmente, corresponderiam a aproximadamente quatro milhões de libras – ou vinte e quatro milhões de reais. Aquele realmente não era um desafio para um homem qualquer.

Destaque para a indumentária de corrida do capitão

Mas o Capitão Barclay estava longe de ser um homem qualquer. Sua força física e estamina eram extraordinárias, e somente se equiparavam a seu espírito empreendedor e destemor. Tanto é que em 1825, fundou a destilaria Glenury, próxima ao rio Cowie, na Escócia – muito provavelmente com parte dos proventos recebidos de suas apostas. Destilaria, esta, que mais tarde se tornaria uma das únicas três a receber o royal warrant (leia mais sobre isso aqui) graças ao bom gosto de um certo Rei William IV – o que permitiu que a destilaria orgulhosamente se rebatizasse de Glenury Royal.

Mas toda gloriosa história não seria tão gloriosa não tivesse algum percalço. Neste caso, uma série de percalços enfrentados pela Glenury Royal – dentre eles um enorme incêndio – que culminaram em seu fechamento um século e meio mais tarde, em 1985. Naquele ano, sob a batuta da Diageo, a Glenury Royal foi fechada e demolida. Seu estoque, porém, sobreviveu – centenas de barricas maturando um líquido que jamais seria novamente produzido. E é justamente este precioso destilado que compôs o coração do mais novo – e último – lançamento da série Blue Label Ghost & Rare. O Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal.

Lançado em julho de 2019 no Reino Unido, e em Dezembro no Brasil, O Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare veio para completar o “trio de Blues” que evidencia destilarias que já foram demolidas ou desativadas. Os outros dois lançamentos da série foram o enfumaçado Ghost & Rare Port Ellen, e o carnudo Ghost & Rare Brora. Além de Glenury Royal, o blend leva boa parte de outras duas destilarias fantasmas, Pittyvaich e Cambus – esta última, uma destilaria de grão. Outros maltes como Glen Elgin, Inchgower, Glenlossie, Glenkinchie e Cameronbridge completam o blend.

A finada Glenury Royal (fonte: Malt and Oak)

Em comparação aos outros Blue Label Ghost & Rare, o último lançamento é mais adocicado e vínico, e menos turfado. De certa forma, sensorialmente ele se aproxima mais do Johnnie Walker Blue Label tradicional – aliás, do trio, é o que mais se parece com o queridinho Blue – mas traz uma experiência mais amplificada. É mais intenso em seus aromas frutados, e também traz a impressão de ser mais oleoso e complexo.

No Brasil, o Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal custa a pechincha de R$ 1.400,00 (mil e quatrocentos reais) aproximadamente. É bastante dinheiro – menos talvez para um certo Capitão Barclay. Mas, de certa forma, é um preço bem próximo àquele praticado em sua terra natal, o Reino Unido. Por lá, a garrafa custa algo como duzentas e setenta e cinco libras.

Determinar se este preço é justificado é bastante subjetivo. São aproximadamente quatrocentos reais a mais do que o Blue Label tradicional. Mas é apenas uma fração do preço de uma garrafa de Glenury Royal – o single malt – que custa mais de mil libras, ou seis mil reais, no mercado britânico. Assim, esta talvez seja uma ótima oportunidade para provar o whisky de uma destilaria silenciosa – uma oportunidade que jamais se apresentará desta forma. Ainda que, bem, esta lógica seja um tanto discutível.

E ainda que o Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal não tenha sido o favorito da série para este Cão Engarrafado – este titulo pertence ao Port Ellen – este continua sendo um blend extraordinário. Daqueles capazes de converter os apaixonados por single malts, e demonstrar todo conhecimento e talento da maior marca de whiskies do mundo – a Johnnie Walker. Se o Ghost & Rare Glenury Royal existisse na época do capitão Barclay, ele certamente seria o destino de certas mil guineas.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL GHOST & RARE GLENURY ROYAL

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 43,8%

Notas de prova:

Aroma: Adocicado e frutado, com frutas vermelhas, mel e baunilha.

Sabor: frutado (frutas em calda), nozes. Final longo, com açúcar mascavo, baunilha e frutas vermelhas. Álcool extremamente bem integrado.

Preço Médio: R$ 1400,00 (mil e quatrocentos reais)

Presentes para quem ama whisky – 2019

Estamos quase lá no Natal. Época de reencontrar todo mundo que você evitou o ano inteiro. De fazer aquela terrível retrospectiva do ano, e planejar o futuro, só para fazer uma nova retrospectiva desastrosa no ano seguinte. De descobrir que todo mundo da sua família detesta uva passa, mas, que por alguma razão que desafia a lógica, sempre tem uva passa na comida.

O Natal é a época de suar. Suar deitado, suar de pé. Suar parado e suar andando. Ligar o ar-condicionado do carro e mesmo assim ficar com as costas suadas, porque estão em contato com o banco. Porque nosso natal tropical acontece no comecinho do verão, e aquela tradicional decoração de neve é tão irritante quanto brega.

E, mais do que qualquer dessas coisas, Natal é época de presentes. Para aquela sua amiga que já tem tudo, aquele seu conhecido do escritório que é a pessoa mais desinteressante do mundo e você acha que ele devia ganhar meias, e também para seu amiguinho que adora whisky. E é aí que eu entro.

Aí vai uma lista de quatro whiskies para aquele seu amigo antenado nos últimos lançamentos. E para sua amiga que tem tudo também, porque whisky nunca é demais. E para o coleguinha chato, para ver se ele fica mais legal. Bom, sem mais tergiversações, vamos a eles.

JOHNNIE WALKER SONG OF ICE AND FIRE

Sério gente, eu até vou pular a descrição desses daqui. São dois blended whiskies inspirados em Game of Thrones. Precisa falar mais? Bom, então eu falo.

O Song of Fire é um whisky enfumaçado e medicinal, mas bastante leve. Sua inspiração é Daenerys Targaryen, e a garrafa estampa um imponente Drogon. Já o song of Ice é frutado, leve e adocicado, e relembra o Johnnie Walker Gold Label Reserve. Sua homenagem é a Jon Snow e seu pet espiritual, o Ghost.

Johnnie Walker Song of Ice e Johnnie Walker Song of Fire custam, juntos, R$ 215,00, e podem ser comprados clicando aqui. Individualmente, cada um custa R$ 119,90.

ARRAN THE BOTHY

O Arran The Bothy é um whisky frutado e cítrico, com final longo e apimentado. É um whisky sensorialmente bem acessível. Mas há um detalhe importante. Sua graduação alcoolica. O The Bothy possui 53,2% ABV. É bastante. Comparativamente, blends conhecidos como o Johnnie Walker Black Label e Chivas 12 possuem 40%.

Ele é produzido pela Arran, destilaria escocesa da região das ilhas, que possui também outras expressões bastante interessantes. Como, por exemplo, o Arran Port Cask Finish, finalizado em barricas de carvalho que antes continham vinho do porto, e o Arran Machrie Moor, defumado.

O The Bothy chega ao Brasil pela Single Malt Brasil, e-commerce especializado em whiskies. Por enquanto, ele somente pode ser comprado por lá. O que te garante pontos extras, afinal, você encontrou uma garrafa que nem mesmo seu amiguinho sabia que existia em terras tupiniquins. Custa R$ 375,00, e pode ser comprado clicando aqui.

MACALLAN DOUBLE CASK 12

(Fonte: creativegourmet.com)

Recém-chegado ao Brasil, o Macallan Double Cask 12 anos possui um intrigante processo de maturação. Ele é uma combinação de barris virgens de carvalho americano (não de ex-bourbon, como seria a tradição) temperados com vinho jerez espanhol e barricas de carvalho europeu previamente utilizados também para jerez. Tudo isso, maturado por, no mínimo, 12 anos.

Para os apaixonados pela destilaria preferida de James Bond e Harvey Specter, o Macallan Double Cask 12 anos é perfeito. E também para todos aqueles que adoram whiskies vínicos, oleosos e complexos. Sério, quem não gostaria de receber um desses?

O Macallan Double Cask 12 anos custa, em média, R$ 550,00.

ROYAL SALUTE SNOW POLO EDITION

Este é para aquele seu amigo de gosto refinado. O Royal Salute Snow Polo Edition faz parte de uma categoria de whiskies inédita em nosso mercado – e bem rara mesmo na Escócia. Ele é um blended grain scotch whisky, produzido somente com whiskies de grãos, em destiladores contínuos. Mas whiskies de grão bastante especiais. Seguindo a tradição da Royal Salute, o Polo Edition possui 21 anos de maturação mínima. Ele foi criado por Sandy Hyslop, diretor de blending da Chivas Regal

O Snow Polo edition da Royal Salute é a terceira expressão da Polo Collection, uma linha de whiskies de edição limitada – lançados em um único lote, uma única vez – que celebram (bem, acho que isso será óbvio) o pólo equestre. Sofisticação galopante.

O Royal Salute Snow Polo Edition custa aproximadamente R$ 1.000,00 , e está à venda na DrinksandClubs.

DALMORE CIGAR MALT RESERVE

Seu presenteado gosta de charutos e whisky? Então nada mais perfeito do que o Dalmore Cigar Malt Reserve, recém-chegado ao Brasil e importado pela Casa Flora. Ele foi desenvolvido por Richard Paterson, master blender da própria Dalmore e da marca Whyte & Mackay. O charuto utilizado por Paterson como referência para desenvolver o single malt foi o Partagas Serie D nº 4. E por essa escolha, eu somente poderia parabenizar Paterson.

Segundo Paterson “meu objetivo ao criar o Cigar Malt Reserve foi proporcionar aos fãs de single malt uma experiência incomparável, mas produzir também uma expressão que harmonizasse com a maioria dos charutos extraordinários no mercado. Eu acredito que este novo whisky é uma expressão sucinta de prazer”

O Dalmore Cigar Malt Reserve custa em torno de R$ 1.100,00.