Cutty Sark Prohibition – Abstinência

Há uns meses decidi que não tomaria mais café. Começara com uma curiosa dor de estômago, e pensei, em minha ingenuidade, que devia escolher frentes. Renunciar ao whisky seria absolutamente impossível. Então, abri mão do segundo líquido que mais consumia – o que me parecia fácil. Café, para mim, soava mais como um hábito do que realmente uma necessidade. Um desses muitos rituais diários meio desnecessários que temos, tipo tomar banho e escovar os dentes. Mas eu estava enganado.

Os primeiros dois dias correram quase sem problemas, apesar de uma malemolência incontornável. No terceiro, abri um saco de café só para sentir o cheiro. No quarto, finalmente venci minha força de vontade. Concluí empiricamente que café pra começar o dia é tão necessário quanto whisky para terminá-lo. Fiz meio balde de coado e tomei cinco espressos. No final da tarde, minha mandíbula tremia de emoção. Ou de cafeína, vai saber. Aí fiquei pensando como seria o mundo se eu não pudesse beber café. Uma coisa levou a outra, e imaginei se eu não pudesse beber whisky.

Me lembrei que isso já aconteceu. Em 16 de Janeiro de 1919, nos Estados Unidos. Foi o conhecido Volstead Act, ou Lei-Seca Norte-Americana. O Volstead Act proibida o comércio, transporte e produção de quaisquer bebidas “intoxicantes” em todo o território americano, e durou até 5 de dezembro de 1933. Em outras pal avras, a lei – batizada por conta de Andrew Volstead, presidente do comitê judiciário que a produziu – tornava o feliz e antes descomplicado ato de embriagar-se muito mais difícil. Mas, veja bem, não impossível.

Não impossível porque, obviamente, a proibição não impediu que as pessoas buscassem seu inebriante néctar à margem da lei. Havia duas opções. A primeira, produzir seu próprio destilado, correndo o risco de morrer por intoxicação de álcoois superiores ou ficar cego. A segunda, quiçá um pouco mais segura, de recorrer a importadores independentes (isto é um eufemismo). Um deles foi o William McCoy, um dos mais conhecidos “rum runners” – o apelido dado aos contrabandistas de bebidas durante o Volstead Act. McCoy trazia o blended whisky Cutty Sark, que ganhou notoriedade naquela época por sua drinkability. A expressão “The Real McCoy” inclusive foi cunhada naquela época e é até hoje usada pra definir algo de qualidade.

E é em homenagem a esta história que a Cutty Sark lançou seu Cutty Sark Prohibition, blended whisky que acaba de desembarcar no Brasil. A garrafa preta opaca e o rótulo em preto e branco – ao invés do tradicional amarelo – são, inclusive, inspiradas nas garrafas escuras popularmente usadas durante o Volstead Act. A graduação alcoolica de 50% – atipicamente alta para um blend – também. Ocorre que, durante a Lei Seca, as viagens navais para os Estados Unidos eram perigosas. Assim, os contrabandistas preferiam trazer destilados com graduação mais alta. “qual o sentido de importar água?” diziam.

The Real McCoy

A criação do Cutty Sark Prohibition coube a master blender Kirsteen Campbell. Ainda que os maltes não sejam revelados, a marca declara que “todos os single malts utilizados no Cutty Sark Prohibition vem de carvalho americano de primeiro uso que antes contiveram jerez, trazendo notas predominantes de baunilha e toffee. Parte dos whiskies de grão podem ter sido maturados em barris de carvalho europeu de ex jerez de refil, mas a influência final no caráter do whisky destas barricas será mínima“. A marca também afirma que as barricas selecionadas por Kirsteen estão sujeitas aos controles mais estritos de qualidade da indústria do Scotch Whisky – e isso é refletido no produto final.

Aliás, deduzir os maltes que compõe o Cutty Sark Prohibition é uma tarefa quase impossível. A Cutty Sark, antes pertencente ao Edrington Group – o mesmo da The Macallan e Highland Park – foi vendido para a La Martiniquaise-Bardinet em 2018. O acordo entre os grupos previa que em determinado período de transição, o Cutty Sark continuaria a ser produzido (blended) pelo Edrington. Mas, é bem possível que sua receita tenha mudado ao longo do tempo, visto que a prioridade é a padronização sensorial. Qualquer palpite entre Glen Moray e Glenturret pode estar correto.

E há outro detalhe importante para os entusiastas. O Cutty Sark Prohibition não é filtrado a frio. Isso é bastante incomum, porque a maioria dos blends passa por este processo. A filtragem é usada para remover a turbidez formada quando ésteres e ácidos graxos no whisky se tornam instáveis em graduações alcoólicas mais baixas (como, por exemplo, quando adicionamos água ao whisky). O processo de “marrying” – combinação em barricas antes do engarrafamento – permite que o Cutty Sark Prohibition passe por uma filtragem a temperatura mais alta “Prohibition é o único whisky não filtrado a frio da linha Curry Sark. Os ésteres e ácidos graxos somente se tornam instáveis abaixo de 46%, e isso torna desnecessária a filtragem a frio” declara a Cutty Sark.

Sensorialmente, o Cutty Sark Prohibition é intrigante. Às cegas, ele poderia ser facilmente confundido com um single malt. Há uma textura incomum para um blend – bem mais oleoso do que se espera. Talvez por causa de sua graduação alcoólica. Como no Cutty Sark tradicional, não há qualquer sinal de fumaça. O whisky é adocicado, com notas de toffee e baunilha, e um fundo frutado bem equilibrado. Apesar da graduação, o álcool é relativamente bem integrado. Ainda que o perfil de sabores seja próximo do Cutty Sark de entrada, o Prohibition é um whisky muito superior.

O Cutty Sark Prohibition começa a ser vendido no Brasil oficialmente em outubro de 2021, por aproximadamente R$ 125 (cento e vinte e cinco reais). É um tremendo preço pelo que ele oferece, especialmente para os entusiastas mais puristas. Não filtrado a frio, maturado em barris de ex-jerez e com graduação etílica de cinquenta por cento, o Cutty Sark Prohibition não é apenas uma referência à época da lei-seca. Mas um tributo a qualquer um que aprecia bons whiskies. Este é – como bem alardeado inclusive em seu rótulo – “The Real McCoy”.

CUTTY SARK PROHIBITION

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Cutty Sark

Região: N/A

ABV: 50%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e floral, com baunilha e caramelo.

Sabor: frutas amarelas, adocicado, mel, caramelo. Final relativamente longo e adocicado, com toffee e pimenta do reino.

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Sobre whisky, vinho, barris e procedência

Oloroso, PX, Fino. Vinho tinto, branco, francês. Bourbon whiskey. Não importa se você é um bebedor de whisky experiente, ou começou agora a achar – equivocadamente – que single malts são melhores que blends. Certamente já viu estampado em algum rótulo expressões como esta. Elas indicam, de uma forma meio lacônica, de onde vieram os barris que maturaram aquele whisky. Isso é importante. Algumas marcas afirmam que mais de 70% dos sabores da bebida vêm da maturação. E o indrink, como é conhecida a bebida que antes maturou nos barris usados pelo whisky, é parte importante disso. Afinal, boa parte da riqueza sensorial vem dessa bebida.

O curioso, entretanto, é que poucas marcas divulgam detalhes sobre a proveniência de seus barris. Preferem usar termos genéricos, como, por exemplo, ex-bourbon. Ou ex-jerez. Mas nem todos os whiskeys americanos e vinhos fortificados espanhóis são criados igualmente. Aliás, nenhuma bebida é. E isso fica evidente ao experimentar whiskies diferentes, mas com algo em comum. Um dos melhores exemplos – e que tive o privilégio de experimentar recentemente, foram Benromach Chateau Cissac & Sassicaia.

Benromach Chateau Cissac & Sassicaia.

Benromach Sassicaia e Chateau Cicssac fazem parte da série de Wood Finishes de 2011, lançados pela Benromach. A produção dos dois é praticamente idêntica. Destilados em 2011 e engarrafados em 2019 a 45% de graduação alcoólica. Ambos passam aproximadamente sete anos da vida em barris de carvalho americano de ex-bourbon, para que depois sejam finalizados por um pouco menos de dois anos em barris que antes contiveram vinho. E é aí que está a diferença, e onde fica interessante. Chateau Cissac e Sassicaia, como você já deve ter presumido, foram o conteúdo prévio destes barris de finalização.

Vamos começar pelo Sassicaia. A vinícola Tenuta San Guido, localizada na região de Maremma, na Toscana, possui uma apelação de origem própria, conhecida como Bolgheri Sassicaia. Este vinho – Sassicaia – é conhecido como um dos supertoscanos originais – o que, para um ignorante dos vinhos como este que vos escreve, significa que a expectativa de preço supera o número três na quarta casa decimal. As uvas usadas em sua produção são Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. O vinho, depois de fermentado, matura por 24 meses em barris de carvalho francês. Vinte por cento desses barris, inclusive, são virgens. As uvas são cultivadas em terreno pedregoso, o que, em tese, contribuiu para o perfil terroso destes vinhos.

Tenuta San Guido

Chateau Cissac, por sua vez, é uma propriedade histórica datada de 1769, localizada na região de Haut-Médoc, Bordeaux, na França. Seus vinhos ganharam fama internacional na década de 40, graças a um trabalho incessante de seu proprietário, Louis Vialard. As uvas utilizadas na produção são Cabernet Sauvignon (75%), Merlot e uma pequena quantidade de Petit Verdot. O solo da região é também pedregoso. A maturação ocorre em barris de carvalho francês de 225 litros, sendo que 40% virgens, por um tempo não divulgado.

A história fica ainda mais curiosa por conta de um elemento histórico. Sassicaia – que aliás, significa “campo de pedras” – foi criado como um vinho experimental em 1940 para rivalizar com os famosos Bordeaux. Para tanto, a Tenuta San Guido experimentou com diversas uvas francesas, até decidirem por Cabernet Sauvignon – a escolha se deu, em boa parte, por conta da similaridade do solo das regiões.

Pela descrição, os whiskies da Benromach seriam, praticamente, idênticos. Mas não é o que acontece. Na verdade, peralá – dizer que existe uma diferença magistral entre ambos seria, no mínimo, uma hipérbole. Há mais pontos de tangência do que divergência. Mas – considerando a similaridade das matérias primas e métodos de produção – as distinções no perfil sensorial dos dois são notáveis. O Sassicaia traz em primeiro plano uma nota cítrica, de laranja, enquanto o Chateau Cissac é mais seco e puxado para as frutas vermelhas. Sassicaia parece também mais intenso e menos defumado, enquanto Chateau Cissac evidencia melhor o – discreto – uso de turfa no new make.

A Benromach é uma das menores destilarias da região de Speyside, na Escócia. Ela foi fundada em 1898 e, mais tarde, tornou-se parte do conglomerado de destilarias da Diageo. Como era o costume da companhia, a destilaria foi desativada na década de oitenta, até ser vendida para a Gordon & MacPhail em 1993. A empresa, então, levou bons cinco anos até que em 1998 reativou seus alambiques e passou a produzir single malts apenas levemente enfumaçados – de 8 a 12 p.p.m., se isso significar algo para você.

Bruichladdich Port Charlotte OLC:01 e MRC:01

Os maltes da Benromach não são um caso isolado. Outras duas expressões que talvez façam coro – um pouco mais desafinado, no entanto – são os maravilhosos Port Charlotte OLC:01 e MRC:01.

O apaixonante Port Charlotte MRC:01 faz parte de uma série especial limitada da Bruichladdich, denominada Cask Exploration Series (Série de Exploração de Barricas). De acordo com a destilaria “com mais de 200 diferentes tipos de barricas maturando em nossos armazéns, nossa série de exploração de barricas demonstra a influencia da madeira em nosso destilado turfado. Engarrafado a 59,2% de graduação alcoólica, e limitado em números, introduzimos o Port Charlotte MRC:01 2010. Destilado a partir de 100% cevada escocesa da região de Invernessshire, este destilado adocicado e frutado passou tempo em barris de primeiro uso de whiskey americano e de segundo uso de vinho francês. Estes componentes foram então combinados e maturados por um ano extra nos melhores barris de carvalho europeu da margem esquerda de Bordeaux.

Em outras palavras, a Bruichaddich quer dizer que a maturação de seu Port Charlotte MRC:01 é fracionada. 50% matura por seis anos em barricas de carvalho americano de ex-bourbon de primeiro uso. Os outros 50%, em carvalho de ex-vinho francês de segundo uso. As duas partes então são reunidas, e passam um ano extra em barris de carvalho europeu que contiveram o vinho Mouton Rothschild – o tal vinho da margem esquerda de Bordeaux. Daí vem o código “MRC” – Mouton Rothschild Cask.

Já OLC:01, de acordo com a Bruichladdich “Parte da série Cask Exploration, nosso Port Charlotte OLC: 01 é uma das expressões mais incomuns que lançamos. É raridade dupla. Poucos single malts começam originalmente sua jornada em uma combinação tão complexa de barris. Poucos ainda completam sua jornada em barris de xerez genuínos Oloroso de uma boa bodega espanhola como Fernando de Castilla. Destilado em 2010, a partir da safra de cevada escocesa de 2009, este single malt foi primeiro envasado em uma variedade de barris ex-bourbon, ex-Syrah e ex-VDN (vin doux naturel). Em 2018, esta bebida espirituosa foi transferida para um pacote de barris de Oloroso que chegaram à nossa destilaria por recomendação pessoal do proprietário da bodega, Jan Pettersen.”

Ainda que haja diferenças razoáveis na maturação, OLC:01 e MRC:01 traçam um paralelo importante. A da proveniência das barricas. Estes single malts foram concebidos para que maturassem em barris específicos de vinho, de determinada região e produtor. Sensorialmente, o resultado fala por si. MRC é mais frutado, enfumaçado e adocicado – como sugere a maturação em um barril de vinho tinto francês de boa procedência. Já OLC é mais fechado, apimentado e puxado para o cravo, canela e frutas secas – algo característico dos jerez oloroso. A base é a mesma, e a idade é semelhante. A diferença sensorial acentuada reside na maturação. O que, para fazer um gancho para a terceira e última parte de nossa matéria, é algo que a Chivas Regal e seu master blender Sandy Hyslop já sabem.

Os cuidados da Chivas e seu Chivas Extra

O Chivas Extra foi originalmente lançado em 2015, como uma expressão sem idade declarada, e com participação grande de barris de ex-jerez em sua composição. Mais recentemente, em julho de 2020, a expressão passou por uma revisão, e teve sua fórmula e idade alteradas. O Chivas Extra ressurgiu como um blended scotch com 13 anos de maturação mínima. E foi na oportunidade de seu re-lançamento no Brasil que pude conversar com Sandy Hyslop, master blender da Chivas, e responsável pela revisão do Extra. Indaguei sobre a origem do vinho jerez usado e os cuidados para manter o padrão – afinal, para um blended scotch tão amplamente comercializado, padronização é importantíssima.

Sandy trabalhando

Conforme Hyslop “não compramos barris de jerez vazios quaisquer e mandamos para a Escócia. Nós vamos muito além disso. Compramos carvalho espanhol, que é temperado por dezoito meses na Espanha. Os barris são então montados e especificamos o exato oloroso que irá para os barris por mais um ano. E então eles são esvaziados e enviados para a Escócia. Tudo tem que ser rapido – eles tem que chegar na Escócia em 7 dias e serem preenchidos por whisky em 10 dias. E tudo isso acontece no inverno. Não fazemos no verão para evitar que o jerez se estrague

Conta mais.

A série da Benromach em barris de diferentes vinícolas demonstra algo que todo entusiasta de whisky já sabia – o conteúdo prévio do barril faz muita diferença. Não apenas o tipo de bebida. Mas, também, especificamente sua origem e características sensoriais. É por conta disso que diversas marcas, atualmente, chegam ao preciosismo de encomendar vinhos com características próprias, para garantir padronização sensorial – como é o caso dos vinhos jerez usados pela The Macallan e Chivas. E é por isso que destilarias como Bruichladdich dão tamanha atenção à origem de sua madeira. O whisky no copo é resultado de uma convergência de fatores com muitas variáveis – e a experimentação tem provado que, cada vez, mais, cada uma delas é especial.

Aberlour 14 anos Double Cask Matured

Cremona, janeiro de 2019. Café Chiave de Bacco. No salão, outrora preenchido por ruídos e vozes, ouve-se apenas sussurros. O lugar está cheio, mas todos os clientes falam baixo, como se qualquer barulho pudesse atrair monstros capazes de devorá-los. A barista Florencia Rastelli esbarra em uma xícara, que se espatifa num quase ensurdecedor tilintar. Todos, pávidos, congelam por alguns segundos. Parece cena de uma versão italiana de Birdcage. Mas, é a vida real.

É que Cremona é conhecida por ter sido o lar de grandes luthiers dos séculos dezesseis e dezessete – os artesãos especializados em criar os mais incríveis instrumentos de corda. Nomes como Stradivari e Guarnieri del Gesu. Seus violinos, violas e violoncelos são conhecidos como a perfeição em engenharia de som. Mas, mesmo a perfeição é efêmera. E os instrumentos, ainda que preservados, não duram para sempre.

Por conta disso, Leonardo Tedeschi, ex DJ, propôs à cidade um projeto igualmente perfeccionista – mas imediatamente aceito. Gravar, em um auditório, em silêncio total, alguns destes instrumentos. Foram empregados mais de trinta microfones tão sensíveis que conseguiam até mesmo captar a porta de um carro sendo fechada no exterior do auditório. Assim, para que o projeto tivesse sucesso, todo centro de Cremona teve que manter silêncio por cinco semanas.

Imagina o esforço dos italianos!

Parece um exagero, mas não é. Os Stradivari são considerados o zênite dos violinos, violas e cellos. Feitos a mão, artesanalmente, mas com atenção incomparável aos detalhes. A luteria foi fundada e comandada por Antonio Stradivari, cabeça de sua família. Stradivari estudou obsessivamente a sonoridade dos violinos, mexeu em suas proporções e no formato de seus cavaletes até atingir a precisão perfeita. Stradivari era um maluco. Mas, um maluco que entrou para a história.

Tamanha perfeição, ou melhor, obsessão, talvez somente se compare à história da Aberlour na época da aurora das destilarias escocesas. A Aberlour localiza-se na vila homônima, na região de Speyside. Ela foi fundada em 1897 por James Fleming, um empresário que comercializava grãos, e fazendeiro da região. A construção da Aberlour foi controlada nos mínimos detalhes Fleming – do material n das paredes, do chão à disposição, formato e operação dos washbacks e alambiques. O resultado foi uma destilaria por vinte e um anos considerada impecável. Por exatos vinte e um anos porque em 1898 a Aberlour pegou fogo. Todo seu equipamento e boa parte do estoque foi, literalmente, pelos ares.

Naquela época, a Aberlour já pertencia a outros proprietários, Robert Thorne & Sons, que também gozavam de algum nível de obsessão. Com o fogo, veio a oportunidade de fazer algo que lhes traria o maior regozijo – melhorar coisas já perfeitas. Dessa vez, a supervisão sobre a reconstrução coube a Charled Doig, considerado o maior perito da época na Escócia. E ainda que parte dos equipamentos, configuração e regime de produção tenha sido alterado, a Aberlour manteve o mesmo caráter de seu fundador – o de um produto artesanal, mas meticulosamente produzido.

O nome Aberlour – apesar de muitas vezes pronunciado com sotaque francês por aqui – na verdade é gaélico, e significa “a boca do ribeirão balbuciante“. Uma (nem tão clara) referência à fonte de Saint Drostan – origem da água utilizada na destilaria. Atualmente, entretanto, a ligação é meramente espiritual. A Aberlour utiliza águas de diferentes fontes localizadas na montanha de Ben Rinnes.

A Aberlour utiliza dois pares de alambiques – dois wash stills e dois spirit stills – para sua destilação. É um número econômico, que mostra que o caráter artesanal da destilaria se mantém mesmo nos dias de sucesso atuais. Suas bases e pescoços são largos, e os lyne arms voltados para baixo. Não há quaisquer traços no desenho que incentivem o refluxo. É uma configuração clássica para privilegiar a passagem de congêneres, e criar um new-make oleoso e intenso. Entretanto, apesar do sugestivo design, o caráter do destilado da Aberlour é surpreendentemente equilibrado. Isso acontece, provavelmente, por conta do regime de destilação empregado. Ao invés de destilar rapidamente, as bateladas levam um bom tempo, o que aumenta o contato com o cobre, e reduz a pungência do destilado.

Alambiques da Aberlour (fonte: Undiscovered Scotland)

O que nos leva ao whisky tema desta prova. O Aberlour 14 Double Cask. Originalmente lançado para o mercado de Duty Free, é – como boa parte dos whiskies da destilaria – duplamente maturado em uma combinação de barris de oloroso e barris de carvalho americano de primeiro uso. Veja bem – não é finalização. É uma maturação paralela. A proporção de barricas utilizadas, entretanto, não é divulgada pela destilaria – muito provavelmente porque ela varia, já que a ideia é manter o padrão da expressão.

Sensorialmente, Aberlour 14 Double Cask traz notas de cravo, caramelo salgado, chocolate e um aroma frutado bem característico e encantador. É um whisky intenso, mas nada agressivo. A maturação está em perfeito equilíbrio com a oleosidade. Para os apaixonados por jerez, é também (perdão pelo clichê engraçadinho) um copo cheio. As notas estão lá, todas claras, quase como se dispostas meticulosamente em ordem por James Fleming. É como se ele mesmo dissesse, num devaneio de perfeição “olha, agora você vai sentir cravo. Frutas secas. Ameixa. Passas. Agora pimenta. Pronto”.

No Brasil, uma garrafa do Aberlour 14 Double Cask sai por R$ 489. É um excelente preço, considerando que outros whiskies com maturação semelhante em barris de jerez – e com idade estampada no rótulo – custam, praticamente, o dobro. Assim, se você é daqueles que adora whiskies vínicos e intensos, ou simplesmente procura um single malt delicioso, o Aberlour 14 Double Cask é seu whisky. Puro ele já é uma delícia. Mas, minha recomendação pessoal é degustar ao som da Partita No. 3 de Bach. Em um Stradivarius, claro.

ABERLOUR 14 DOUBLE CASK MATURED

Tipo: Single Malt com idade definida – 14 anos

Destilaria: Aberlour

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutado e adocicado. Frutas cristalizadas e alcaçuz.

Sabor: frutado, com maçã, frutas vermelhas e carmelo. Final longo e vínico, com frutas cristalizadas. Floral e apimentado.

Lamas Caledonia III – Trilogia

Um homem, um prédio, um monte de terroristas. Parece a receita para um filme desastroso. Mas, é o início de uma das trilogias mais famosas do cinema de Hollywood – Duro de Matar (Die Hard). Se você discorda, apenas lembre-se que, antes de Duro de Matar, Bruce Willis não tinha ido muito além de Uma Gata e um Rato. O filme é uma tempestade perfeita – um vilão incrível e um anti-herói de regata, num longa que combina perfeitamente ação e suspense.

O segundo não fica atrás. Parece até que a ideia é tão ruim, mas tão ruim, que dá a volta inteira e fica boa. A sequência, que acontece num aeroporto, consegue manter o sarrafo bem alto. E o terceiro e derradeiro é ainda mais megalomaníaco. O problema é ampliado para uma cidade inteira e envolve o Samuel L. Jackson. E a gente sabe que quando o Samuel L. Jackson aparece, o caso é complicado.

Afinal, ele é o único jedi que tem um sabre roxo

Trilogias são difíceis. Criar o primeiro sucesso é complicado. Mas, na verdade, o terceiro é tão difícil quanto. As expectativas devem ser não apenas atendidas como superadas. E não dá pra ser mais do mesmo. E é nisso que Die Hard funciona super bem – bom, ao menos até o terceiro filme. Deve haver novidade. E foi pensando nisso que a Lamas e o Caledonia lançaram o Lamas Caledonia III.

 O Lamas Caledonia III é fruto da terceira colaboração entre a destilaria Lamas, de Minas Gerais, e o nosso querido bar de São Paulo, o Caledonia Whisky & Co. Nas primeiras duas edições, a fumaça estava em evidência. Os whiskies utilizavam maior parte de malte defumado na própria lamas com madeira de reflorestamento, e apenas uma pequena parcela de malte pilsen belga, tradicional. A finalização era semelhante também – ambas em vinho licoroso. A diferença estava no tempo de maturação e num pequeno ajuste de proporção entre as porções defumada e tradicional do malte.

Já o Lamas Caledonia III é um pouco diferente dos dois últimos single malts. Na verdade, um pouco não. O oposto. Mantivemos a maturação em vinho licoroso, mas invertemos a base. Agora, o que está mais em evidência é a porção não enfumaçada – com apenas um toque de fumaça no background. Ele utiliza 80% de malte tradicional, e 20% de malte defumado. Aqui, a defumação não é o tema, mas, tão somente, o tempero.

Como a maior parcela é composta de malte não defumado, a Lamas caprichou na maturação. Aqui, a finalização em barricas de vinho licoroso é realmente longa, especialmente para padrões brasileiros. Dezoito meses ao todo. Assim, a parcela não enfumaçada não é apenas um Lamas Verus. Mas, um whisky mais maturado, que pende para as notas frutadas e apimentadas do carvalho europeu – algo que foi muito bem vindo por conta da graduação alcoólica.

Aliás, assim como nas edições anteriores, a graduação alcoólica é de 50%. Parece proposital, mas, na verdade, é apenas uma grande coincidência. Durante o desenvolvimento do Lamas Caledonia III, conversamos bastante com Marcio Lamas – fundador da destilaria – sobre o equilíbrio das duas parcelas de malte. Provamos uma dezena de opções, com proporções e graduações alcoólicas distintas. E, mais uma vez, o 50% foi vencedor. Este pareceu para todos manter o melhor equilíbrio entre dulçor, intensidade e fumaça. Ademais, há a máxima da indústria do whisky, que postula que “é mais fácil colocar do que tirar“. Então, preferimos colocar mais whisky, para que o apreciador complete de água, se sentir necessário.

Barris da Lamas

O Lamas Caledonia III está à venda no Caledonia Whisky & Co. e na loja da Lamas do Mercado Central de Belo Horizonte. O preço é o mesmo – R$ 230,00. A tiragem é de mil garrafas, todas numeradas individualmente, tanto no rótulo quanto no estojo. Parece bastante, e na verdade, realmente é. Mas preferimos produzir mais whisky e permitir que mais apreciadores o provassem.

Para você, querido leitor, que adora whiskies brasileiros, ou é fã de nossas colaborações com a Lamas, o Caledonia III será uma grata surpresa. Ou, ao menos, é o que esperamos. Trilogias são feitas de filmes que, cada um, sozinho, tem uma identidade própria e completa. Mas é sempre o derradeiro que deixa a impressão mais perene.

LAMAS CALEDONIA 3

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 50%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo, frutas secas.

Sabor: Frutas em calda – cereja e ameixa. Especiarias. Final longo e progressivamente mais defumado.

Royal Salute Estancia – Hermanos

Fiquei pensando muito tempo sobre como começar este post, cujo tema é a Argentina. Pensei em falar de futebol, do Diego Maradona e da mano de dios. Ou do Papa Francisco, que é argentino. Mas não tenho propriedade pra falar de futebol, nem de religião. Meu conhecimento de futebol se equipara a aquele de um bidê. E religião não é tão diferente.

Então, vou falar de algo que eu entendo. Comida. Ou melhor, comer. A gastronomia da Argentina é indiscutivelmente maravilhosa. Das carnes com nomes esquisitos, como ojo de bife e tapa de cuadril (que mais soa como uma manobra sexual) à medialuna. A medialuna com dulce de leche, claro. Na área dos salgados, a Argentina também marca gol. Tem a empanada. E das bebidas, dribla outras nações facilmente com seus vinhos. Especialmente Malbec.

Pra falar a verdade, a Argentina é boa também em outras coisas. No cinema, por exemplo, eles tem o Ricardo Darin, que só perde do Nicholas Cage em ser o melhor ator que mais fez filmes ruins da história. E na música, com a única sofrência aceitável, o Tango. Isso todo mundo sabe. O que pouca gente tem conhecimento é que não é só no futebol e no bandoneón que a Argentina arrasa. Eles tem também são campeões mundiais em polo equestre.

Las pezuñas de Dios

A Argentina é tão famosa no Polo que o Tommy Lee Jones – sim, o do MIB – criou um haras lá para cuidar de seus cavalos e montou uma equipe toda própria. E foi essa vocação de nossos hermanos que recebeu a última homenagem da Royal Salute em sua linha de whiskies que fazem referência ao Polo equestre. O Royal Salute Estancia, finalizado em barris de vinho malbec argentino. A terceira melhor opção, mas a única que poderia ser aceita pela SWA – duvido que um blend com um ojo de bife ou uma alofajor dentro passaria sem restrições.

De acordo com Sandy Hyslop, master blender da Royal Salute “Para esta expressão singular, integramos perfeitamente os sabores robustos e altamente reconhecíveis dos barris de vinho Malbec com nossos delicados whiskies de 21 anos – uma tarefa que requer cuidado e atenção constantes” e continua “O Royal Salute Polo Estancia Edition” é um blended whisky excepcional (…) onde apenas os melhores barris de vinho malbec argentinos foram usados para finalização. A incorporação desta finalização em vinho Malbec não apenas nos permitiu dar ao blend uma nova dimensão, mas também ajudou a contar a história do lifestyle do polo argentino de uma forma multifacetada.

Ainda que a Royal Salute não divulgue abertamente qual vinho malbec argentino foi usado, podemos especular. A marca afirma que o Polo Estancia foi totalmente finalizado em Malbecs com “terroir boutique” da região de Cafayate. Não é preciso ser nenhum Roberto Bermúdez para deduzir que, muito provavelmente, foram usadas barricas da Bodega Etchart. A vinícola pertence ao grupo Pernod-Ricard, e localiza-se justamente em Cafayate. Corroboram com a tese o fato de que eles possuem um vinho Malbec que é, inclusive, comercializado no Brasil.

Elementar, meu caro Darín

Como os demais lançamentos da série de polo, e seguindo a tradição da Royal Salute, a idade estampada na garrafa é de vinte e um anos. Ou seja, o whisky mais jovem em sua composição passou mais de duas décadas maturando em barricas. O blend, entretanto, é diferente do tradicional Royal Salute. O Polo Edition não é simplesmente um Signature Blend com uma finalização extra. O whisky foi desenvolvido do zero, para garantir harmonia com a finalização em vinho tinto.

No mundo dos blends de ultra-luxo, a apresentação é essencial – e o Royal Salute Estancia marca ponto aqui também. A garrafa, de cor terracota, se junta a um estojo ilustrado pelo artista Charlie Davis, num visual elegante mas sem afetação. De acordo com a Royal Salute, a cor escolhida representa o sol argentino brilhando sobre as estancias de polo do país. Que, aliás, caso você esteja se perguntando, são grandes fazendas onde se pratica polo equestre por lá.

Sensorialmente, o Royal Salute Polo Estancia traz o floral característico da Royal Salute, com um final mais frutado e intenso. A finalização é mais longa, e remete a frutas vermelhas e especiarias. É um whisky bem diferente da última edição da série, o Snow Polo – um blended grain extremamente leve e adocicado. Aqui, a suavidade abre espaço para um whisky mais intenso, mas, também, extremamente equilibrado – DNA de todos os whiskies da marca de ultra-luxo.

É difícil não recomendar o Royal Salute Estancia. Apesar do preço de quatro dígitos, é um blended scotch que agradará tanto o entusiasta por whiskies, que sempre busca criatividade e intensidade, quanto o consumidor mais leigo, mas que procura experiências exclusivas e luxuosas. Assim como nossos hermanos, o whisky tem múltiplas vocações. Ah, e fica perfeito também ao som de Astor Piazzolla e acompanhado de um delicioso asado.

ROYAL SALUTE ESTANCIA

Tipo: Blended Whisky
Marca: Royal Salute
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: 21 anos

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, com um fundo de mel com especiarias.
Sabor: Frutado e complexo, com frutas vermelhas, gengibre e mel. Final longo, com gengibre e baunilha.

Sobre milho – Especial Bourbon Month

Quando eu era criança, uma vez, coloquei uma espiga de milho dentro do forno do fogão ligado, sem ninguém ver. Eu queria comer pipoca e fora ignorado por meus pais, apesar de meus protestos. Não sei quanto tempo esperei – deve ter sido bem mais do que uma hora – porque o resultado da experiência foi a carbonização da espiga e consequente imolação do forno. Depois que as chamas foram controladas, fiquei proibido de comer pipoca por tempo indeterminado, e descobri que milho de pipoca é diferente do milho da espiga, que a gente come.

Quando cresci e comecei a me interessar por whisky, aprendi também que o milho da espiga que comemos também é diferente do milho do bourbon. E por sorte, dessa vez, não foi necessário qualquer empirismo. Mesmo porque secar, moer, fermentar e destilar uma espiga encontrada na feira é bem mais difícil do que botar fogo em utilidades domésticas. E é isto que vou contar para vocês hoje – como há milhares de milhos!

Vamos começar a destrinchar esta espiga com uma rememoração. Para que um bourbon whiskey possa ser assim chamado, ele deve seguir as seguintes premissas, dispostas no Code of Federal Regulations, title 27, part 5, subpart C. (i) o destilado deve ser produzido nos Estados Unidos, e sair dos destiladores com o máximo de 80% de graduação alcoólica; (ii) deve ser feito com ao menos 51% de milho; (iii) o destilado deve ir para os barris tostados (charred) e virgens de carvalho com o máximo de 62.5% de graduação alcoólica (normalmente diluído com água, para que se alcance essa quantidade limite de álcool); e (iv) deve ser engarrafado com no mínimo 40% de graduação alcoólica. 

Esqueça as demais regras para concentrar na alínea (ii). Cinquenta e um por cento ou mais de milho. Naturalmente – tá bem, talvez não tão naturalmente assim – a próxima indagação seria sobre o tipo de milho. E isso é importante. Numa analogia quiçá um pouco forçada, se você perguntar a uma vinícola sobre qual uva é usada para produzir determinado vinho, dificilmente a resposta será “uva vermelha” – e se for, melhor fugir rapidamente.

Há subespécies e nuances de uvas. E, com o milho usado na produção de bourbon whiskey, a história não é tão diferente. Nem todos os milhos são criados igualmente. O milho da espiga que comemos é distinto daquele da pipoca. Que, por sua vez, é diferente também do usado na produção de whiskey. Vamos a eles.

Variedades de milho – não seja um pamonha.

Milho doce

Milho doce (sweet corn – Zea mays convar. saccharata var. rugosa) é a variedade mais consumida por nós como alimento. Ele é resultado de uma mutação recessiva nos genes do milho, que controlam a conversão de açúcar em amido. A colheita do milho doce acontece, também, precocemente se em comparação com as outras variedades. Ele é colhido e consumido em sua “fase de leite” – quando os açúcares ainda não se converteram em amido, e o grão está mole.

O teor de açúcar do milho doce é maior do que das demais variedades. Por isso, e como você já deve ter suspeitado por conta do nome, ele é mais doce que os outros. Isso o torna perfeito também para fazer todo aquele tipo de delícia com milho que amamos, como pamonha, curau e broas. Só, por favor, tenham um pouco de bom senso e não coloquem no pastel. Milho no pastel não faz o menor sentido. Nem na pizza.

Sério, precisa?

Milho de pipoca

O milho da pipoca é de uma variedade denominada Zea mays everta. Ele é colhido maduro – ao contrário do doce. Seu cultivo é feito para que ele tenha uma pequena quantidade de umidade e óleo em seu interior, com bastante amido. Ao ser aquecido, a parte líquida de seu interior se expande, rompe a casca dura, resfria e se torna, bem, pipoca. Se você observar atentamente, notará, inclusive, que o formato dos grãos é diferente. O milho doce é mais achatado, enquanto que o milho da pipoca é arredondado.

E como nenhum assunto é suficientemente complexo, o milho da pipoca possui uma subdivisão, de acordo com a forma com que ele se torna pipoca: cogumelo ou floco de neve. Os que explodem em forma de cogumelo normalmente são usados para pipoca doce, porque são menos propensos a quebrar, e talvez fiquem mais bonitinhos coloridos. Já o que parece um floco de neve é servido salgado – em cinemas, por exemplo – porque tendem a formar uma pipoca maior.

Outros Milhões de usos

Há ainda outras variedades de milho, com milhões (pega essa) de propósitos. Há, por exemplo, o Flint Corn (Zea mays var. indurata), usado muitas vezes como ração animal e para fazer polenta – por mais específico que isso possa parecer. Ou o flour corn (Zea mays var. amylacea), que é mais mole, e fácil de moer. Por isso, é usado bastante para fazer amido de milho.

Existe também o pod corn (Zea mays var. tunicata), ou milho selvagem, que não é cultivado pra nada porque tem umas folhinhas ao redor dos grãos que deixam tudo difícil e desagradável. E também o milho peruano, conhecido como choclo, que possui grãos bem grandes, e normalmente é seco, frito e salgado, e fica uma delícia acompanhando seu bourbon preferido. Nenhum destes tipos, entretanto, é usado amplamente para se produzir whisky. Para isto, há uma variedade diferente, conhecida como Dent Corn.

Aí sim, bem-vindo no Ceviche (fonte: Saveur)

Milho de bourbon

O milho mais utilizado na indústria do Bourbon Whiskey é o Dent Corn (Zea mays var. indentata) ou, em português de uma forma cretinamente traduzida, milho dentado. Mais especificamente, yellow dent No. 1 ou 2. O nome vem do formato de seus grãos, que tem (adivinhem) uma espécie de cavidade, que lembra um dente. O Dent Corn é amplamente cultivado no Kentucky e o Tennessee, e é usado também para outros fins, além do whiskey. Como, por exemplo, para alimentar gado, fazer etanol – o combustível mesmo, não o potável – e produtos plásticos.

Dent Corn

O milho dentado possui mais amido e menos açúcar do que a variedade doce, o que o torna perfeito para ser moído e fermentado. Para tanto, ele é colhido maduro, em uma fase que seus grãos já estão secos e, normalmente, avermelhados ou amarronzados – o que torna todo o processo de transformá-lo em pó bem mais fácil, e garante que há mais amido que açúcar em sua composição.

A maioria das destilarias americanas compra seu dent corn como commodity. Isso significa que, para os grandes produtores de whiskey, a origem específica do grão é irrelevante. Contando que ele seja dent corn. Isso garante estabilidade no preço da principal matéria prima para produção da bebida. Ou, em outras palavras, garante que o milho seja sempre comprado barato, para que a produção de whiskey continue economicamente viável.

Apesar disso, muitas destilarias menores, pertencentes ao movimento das craft distilleries norte-americanas, tem resgatado variedades diferentes de milho. Como por exemplo a Firestone & Robertson, tema de uma interessante matéria para a Food & Wine , ou a famosa Widow Jane, que possui um projeto com duas variedades de “heirloom corn” – Bloody Butcher e Wapsie Valley – chamado Baby Dent. O argumento é que, primando por especificidade e não por rendimento, pode-se ter variedades de milho capazes de trazer sabores específicos à bebida.

Assim, da próxima vez que experimentar um bourbon, comer milho da espiga ou enlatado, fizer pipoca ou polenta, lembre-se que o milho tem um milhão de utilidades, mas, também, milhares de usos, com milharais distintos (gente, estou bom nisso!). E pode tudo, a única coisa que não pode é colocar milho na pizza e no pastel. Aí não, aí é muita humilhação.

Auchentoshan American Oak – Da resiliência

Mauro Prosperi teria sido apenas um policial italiano comum, não fosse seu apetite por aventura. Em 1994, se inscreveu na Marathon de Sables, uma corrida de seis dias e duzentos e cinquenta quilômetros no deserto do Saara, considerada até hoje uma das mais perigosas e difíceis do mundo. O ponto de partida é Foum Zguid e a linha final é Zagora, ambos no Marrocos. E talvez você esteja aí imaginando que o policial se tornou uma incrível subcelebridade depois de ter vencido com louvor a árdua prova. Mas não foi bem isso que aconteceu. Mauro tornou-se notável por permanecer vivo.

No quarto dia, correndo sozinho no sétimo lugar, Prosperi foi atingido por uma tempestade de areia. A tormenta foi tão forte que o obrigou a se enrolar em um cobertor, para evitar que fosse mortalmente ferido. Mas, ainda que desorientado, Prosperi estava determinado a manter seu sétimo lugar. Por isso, correu mais de trezentos quilômetros. Trezentos quilômetros na direção errada. Trezentos quilômetros, na direção errada, por nove dias. Trezentos quilômetros, na direção errada, por nove dias até atravessar a fronteira do Marrocos e chegar a Tindouf, na Argélia.

Ao perceber que estava perdido, Mauro tentou se suicidar cortando os pulsos usando uma caneta esferográfica. Mas, felizmente, graças à enorme competência de seu corpo em sobreviver, apesar do pouco auxílio do sistema nervoso central, o esforço foi infrutífero. Seu sangue tinha tão pouca água que, com a areia do deserto, aglutinou e fechou os ferimentos. Percebendo que o suicídio não seria uma opção fácil, Mario decidiu sobreviver. Depois de nove dias comendo morcegos e bebendo urina, o italiano foi encontrado por um grupo tuaregue, refugiado em uma mesquita abandonada, e resgatado.

Logo ali, pertinho!

Uma história de sobrevivência parecida, talvez, seja a da Auchentoshan, tradicional destilaria das Lowlands escocesas. A Auchentoshan foi fundada em 1823 próxima ao vilarejo de Clydebank por um fazendeiro chamado John Bullock, e sobreviveu a provações inacreditáveis para uma jovem destilaria. Em 1828 Bullock faliu, e passou a Auchentoshan para seu filho, Archibald, que faliu também um ano depois. Em 1834 ela foi comprada por John Hart e Alexander Filshie, com quem permaneceu por 44 anos. Em 1877, Filshie quase faliu, e se viu obrigado a vender a Auchentoshan para a empresa C. H. Curtis, que então a vendeu em 1903 para John & George MacLachlan. Nessa época, a taxação do scotch whisky era tão pesada que quase inviabilizava qualquer operação totalmente legalizada – as destilarias das Lowlands começaram a fechar, uma a uma.

O começo do século vinte viu a região de Clydebank tornar-se um enorme polo industrial, com um importante porto e um dos maiores estaleiros da Escócia. O que podia ter sido incrível, não fosse a Segunda Guerra Mundial. Por conta da indústria naval e de seu porto, Clyde foi incessantemente bombardeada pela Luftwaffe. Para proteger a fábrica de navios, os escoceses utilizaram um artifício curioso. Com o uso de luzes e refletores, disfarçaram a A82 – uma estrada que passa próxima à destilaria – fazendo-a parecer com o rio Clyde. O que foi ótimo para o estaleiro e péssimo para a destilaria, que foi equivocadamente bombardeada e viu mais da metade de seu estoque em maturação ir, literalmente, pelos ares.

Mas, apesar de todos os percalços, a Auchentoshan sobreviveu. E sobreviveu mantendo seus tradicionais métodos produtivos – a tripla destilação, por exemplo, atualmente raríssima não apenas nas Lowlands, como em toda Escócia. Após passar de mãos em mãos mais um par de vezes, terminou com a Morrison Bowmore Distillers Ltd., que foi comprada pela Beam-Suntory – atual proprietária da destilaria, e importadora oficial do Auchentoshan para o Brasil. O que nos leva, finalmente, ao tema desta prova. O recém lançado Auchentoshan American Oak – seu single malt de entrada, e um excelente custo-benefício.

O estaleiro de Clydebank, com o famoso Queen Mary em construção.

O Auchentoshan American Oak é o single malt de entrada da Auchentoshan, e é maturado exclusivamente em barris de primeiro uso de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Ele foi lançado originalmente em 2014 para substituir o Auchentoshan Classic. Ainda que não seja divulgado oficialmente, o timing sugere que os barris usados pela Auchentoshan sejam de Jim Beam e Maker’s Mark. Foi em 2014 que a Suntory se fundiu à Jim-Beam, e deu à empresa japonesa (e à Auchentoshan) acesso quase irrestrito à tanoaria americana.

Sensorialmente, o Auchentoshan American Oak é um single malt leve e aromático, com uma suave nota vegetal. Por conta da tripla destilação, seu new-make é pouquíssimo oleoso e congenérico, e coloca o barril em evidência. Barris, estes, que trazem notas de caramelo, mel e baunilha. Apesar de ser um whisky sem idade declarada e jovem, a maturação traz equilíbrio ao single malt, e o torna perfeito para qualquer momento em que seja socialmente aceitável beber um single malt. Aliás, talvez seja por isso que os habitantes de Glasgow tenham batizado a Auchentoshan de “breakfast whisky” ou “whisky de café-da-manhã”.

O traço mais marcante do Auchentoshan American Oak – e de sua destilaria – é, certamente, a tripla destilação. Outrora tradição nas Lowlands escocesas, o processo caiu em desuso. Tanto é que, atualmente, talvez a tripla destilação seja sinônimo de Irlanda, e não Escócia. Aliás, mesmo com o atual retorno das destilarias de single malt à região, com Rosebank, Ailsa Bay e Glenkinchie, por exemplo, a Auchentoshan é a única que destila seu wash três vezes. E não é um processo simples – não é como simplesmente colocar o resultado da segunda destilação em um terceiro alambique. Eu explico – simplificadamente, pra ninguém tentar suicídio com canetas Bic.

Alambiques da Auchentoshan (fonte: Whisky Science)

A primeira destilação acontece normalmente. O wash é carregado no wash still, que produz os tradicionais low-wines. Estes, então, são carregados no spirit still de segunda destilação. Aqui, tradicionalmente, cabeça e cauda (foreshots e feints) seriam separadas do coração. Mas, na Auchentoshan, apenas a cauda é cortada na segunda destilação. Todo produto da cabeça e do coração é então carregado no alambique de terceira destilação. E, aí sim, há o corte da cabeça. Já a cauda – aquela, da segunda destilação – é reservada, e recolocada no wash still da próxima batelada. Este processo (aparentemente) maluco tem um motivo. Economia. Redestilando a cauda na próxima carga e a cabeça na terceira destilação, aproveita-se o máximo de álcool possível, trazendo leveza e personalidade ao new-make.

O Auchentoshan American Oak está à venda em nosso país, e custa aproximadamente R$ 260 (duzentos e sessenta reais – em agosto de 2021). É um excelente custo-benefício, e um ótimo whisky tanto para os entusiastas quanto para aqueles que agora começam a provar single malts. E você nem precisa correr uma maratona ou realizar grandes percalços para experimentá-lo – apenas ter bom gosto e um leve apetite por aventura.

AUCHENTOSHAN AMERICAN OAK

Tipo: Single Malt (NAS)

Destilaria: Auchentoshan

Região: Lowlands

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente de caramelo e baunilha, com um pouco de canela e grama cortada.

Sabor: Caramelo, mel, baunilha. Pouco oleoso, com um fundo vegetal bem interessante. Final médio, com canela, pimenta do reino e mais baunilha.

A venda no Caledonia Whisky & Co. , (e na Loja Virtual) em varejistas selecionados.

Kentucky Buck – Whiskey de bermudas.

Trinta graus. Trinta graus no meio do inverno, em São Paulo. Céu tão limpo que parece até que passaram aquele filtro do Photoshop que usavam na Playboy na década de noventa, e de vez em quando sumia o umbigo de alguma modelo. Cara, como eu odeio calor. Ainda mais um calor assim inesperado, no meio da mais deliciosa estação do ano, que é o inverno. Inverno é pra ser deliciosamente frio, cinza, nublado e taciturno.

Aliás, já que abri a porta mimizenta, tem outra coisa que me dá raiva no calor. Quando alguém chega e diz que tá um dia tão lindo, só porque faz sol e tá quente. Não tá não, meu jovem, tá um tempo desgraçado de quente, propenso a todo tipo de coisa nojenta, tipo virilha suada, proverbiais pizzas debaixo do braço, meias úmidas e mullets pegajosos pingando. Não há elegância que resista a trinta graus no inverno. Se o príncipe William duque de Cambridge morasse aqui, a indumentária tradicional seria bermuda, chinelos e litrão na mão. É, eu sei que litrão é cringe. Sabe o que mais é cringe? Passar calor.

A única vantagem desse clima incivilizado é a possibilidade de beber coisas refrescantes. O que, pra falar a verdade, nem é bem uma vantagem, porque eu posso beber coisas refrescantes no frio, e passar mais frio, que é uma delícia. Mas, enfim, é um pretexto para testar algo novo. Como, por exemplo, o ridiculamente simples Kentucky Buck. Um coquetel tão fácil, mas tão fácil de fazer que você nem vai ficar suado.

Meu sonho.

Antes, vamos a algumas informações importantes. Buck não é o coquetel em si, mas uma classe de drinks. Uma classe bem permissiva, aliás. São aqueles que consistem em um destilado (qualquer, não precisa ser whisky), ginger beer, talvez algum agente de dulçor e algum cítrico. Que pode ser limão, laranja, toranja, blood orange, chinotto, grapefruit ou seja lá o nome que você dá praquelas laranjas. Aliás, será que alguém da geração Z pode me dizer se é cringe chamar toranja de grapefruit ou o contrário?

O Kentucky Buck, no caso, leva bourbon whiskey, suco de limão siciliano, xarope de açúcar, angostura bitters e ginger beer. A receita original contém morangos. Mas como todos os morangos poderiam ser extintos da face da terra em conjunto com os frangos (leia mais sobre esse meu outro ódio clicando aqui), deixar isso como opcional, e alternativamente recomendar um elegante zest de limão siciliano. Porque o blog é meu, e o drink tem que ficar bom pra mim. Mas, tenha em mente que o coquetel original foi criado com morangos. Nada é perfeito.

Aliás o autor desta mistura refrescante foi o bartender Erick Castro, na época que trabalhava no Bourbon & Branch and Rickhouse, em São Francisco. Mais tarde, em 2013, Erick abriu seu próprio bar, o Polite Divisions. Em pouco tempo, o Kentuck Buck se tornou um drink bem conhecido, especialmente por conta de sua familiaridade de sabores – realmente, é difícil não gostar – leveza e versatilidade. Bem, sem mais enrolações, vamos à receita. Afinal, já estou suado de tanto digitar.

KENTUCKY BUCK

INGREDIENTES

  • 50ml de bourbon whiskey (este cão usou Maker’s Mark)
  • 25ml de suco de limão siciliano
  • 1 dash (isso é uma sacodida, cuidado pra não passar calor) de Angostura Bitters
  • Ginger Beer (usei London Essence. A maioria vai funcionar. Se pegar uma ginger muito doce, reduza o xarope de açúcar)
  • 15ml xarope de açúcar
  • 2 morangos com as folhinhas cortadas (respira fundo, ou não respira e deixa de fora)
  • copo alto
  • parafernália para bater

PREPARO

  1. Adicione o xarope de açúcar, limão e um morango (ou não!) numa coqueteleira. Amasse tudo, como se estivesse fazendo uma caipirinha.
  2. adicione o whisky e bastante gelo, e bata.
  3. desça a mistura em um copo alto, com bastante gelo, e complete com a ginger beer
  4. finalize com mais um morango, ou um zest de limão siciliano e um dash de Angostura Bitters.

Lagavulin 11 Offerman Edition Guiness Cask Finish – Drops

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui


Eu viajei pelo mundo e experimentei muitas tentativas de criar néctares agradáveis, mas é apenas esta destilação de Islay; uma pequena e carismática ilha escocesa que conquistou meu paladar. Sim, e meu coração junto.” A frase é de Nick Offerman, o ator que vive – ou melhor, que é – Ron Swanson na vida real. Offerman é um fã incondicional da Lagavulin. Tão apaixonado que criou e produziu uma série de curtas sobre sua paixão – o que, pra falar a verdade, não é tão estranho assim, eu faria o mesmo.

Ocorre que Offerman é uma celebridade. E, como uma celebridade, há a possibilidade de exercer sua paixão de uma forma pouco acessível para pessoas normais. Como, por exemplo, lançar sua própria série de whiskies em parceria com a Lagavulin. E é daí que surgiu o Lagavulin Offerman Edition: Guiness Cask Finish, tema desta prova.

Na verdade, o Lagavulin 11 Offerman Edition: Guiness Cask Finish não é a primeira colaboração entre Offerman e a destilaria de Islay, mas sim, a segunda. A primeira edição – um Lagavulin 11 anos – foi lançado em Outubro de 2019. Daquela vez, sem finalizações especiais. Apenas um single malt de uma das melhores destilarias da Escócia, produzido com todo cuidado, escolhido e curado por Nick.

O storytelling aqui é bem elaborado. Um curta-metragem estrelado por Offerman e seu pai (no mundo real!) ilustram os dois tomando Guiness. Nick recebe uma ligação emergencial da Lagavulin, que lhe explica que acabaram os barris. O entusiasta, então, resolve o problema de uma forma pouco ortodoxa – considerando a paixão do pai pela Guiness, encomenda barricas daquela cervejaria para que envelheçam seu single malt favorito. Recomendo assistir o vídeo – que leva uns dez minutinhos – e é bem melhor que esta descrição com spoilers.

Tá, talvez seja um pouco estranho ter um telefone de disco na mesa do bar.

Como você já deve ter presumido, o Lagavulin 11 Offerman Edition: Guiness Cask Finish é um Lagavulin com 11 anos de maturação, finalizado em barris de cerveja Guiness. Mais especificamente, barris utilizados pela Guiness em sua Open Gate Brewery, localizada em Baltimore, Maryland. De acordo com a Lagavulin, o single malt é uma rica combinação das “notas intensas de turfa e madeira carbonizada” provenientes do whisky, com notas mais doces de café, chocolate escuro e caramelo dos antigos barris Guinness.

Sensorialmente, o Lagavulin Offerman Edition é, curiosamente, quase um whisky didático. Todas as notas que deveriam estar lá, estão. É como se Nick pegasse em sua mão, com sua tradicional delicadeza, e explicasse. Agora, você vai perceber fumaça. Iodo e sal, com um pouco de medicinal. Agora você vai começar a sentir um sabor de chocolate, café, malte. Mais um pouquinho de fumaça, pimenta do reino – agora vá lá e faça uma cadeira de marcenaria. É incrível como a complexidade deste malte está distribuída ao longo da prova.

Infelizmente e como você já deve ter presumido, o Lagavulin 11 Offerman Edition: Guiness Cask Finish não está à venda no Brasil. Nem qualquer Lagavulin, para falar a verdade. Mas, caso você tenha a sorte de pescar um destes peixes raros – outro passatempo de Nick e seu pai – não deixe de prová-lo. É sim, um single malt endossado por uma celebridade. Mas, não daquele jeito que conhecemos. É um whisky incrível, com um storytelling capitaneado por um verdadeiro entusiasta.

LAGAVULIN 11 ANOS OFFERMAN EDITION GUINESS CASK FINISH

Tipo: Single Malt com idade definida – 11 anos

Destilaria: Lagavulin

Região: Islay

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: carvão, esparadrapo, chocolate, café.

Sabor: bastante defumado e rico. Os sabores se sucedem como em uma fila: fumaça, iodo, esparadrapo, chocolate e café. Final defumado e apimentado.

Whisky gentilmente oferecido e provado em companhia do amigo Nilo. Obrigado!

Bowmore 12 anos – Renúncias

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre escreveu que somos livres porque podemos escolher. Mas que cada escolha é uma renúncia. Já o dinamarquês Søren Kierkegaard – aliás, não faço a menor ideia de como se pronuncia um ó cortado – delineou que é o ato de fazer escolhas que traz significado à vida. O que é bem curioso vindo de um cara cujo sobrenome é uma variação de Kirkegård, que significa cemitério em sua lingua, e que morreu aos quarenta e dois anos de idade. Mas deixemos o senso deturpado de ironia de lado.

Pela doutrina da dupla sertaneja do existencialismo Søren e Sartre, somos a soma de nossas escolhas. Não das pequenas, claro, porque você pode escolher comer um dogão um dia, miojo na outra e depois uma pizza, e isso não fará muita diferença na sua existência, exceto se continuar se alimentando estupidamente por um longo prazo. Mas, das maiores. Escolher um ofício significa renunciar a todos os outros, por exemplo. Deixar de escolher algo também, porque não tomar qualquer decisão é, na verdade, decidir pela passividade.

Nem comecem com o “te tornas…”.

Entretanto, as escolhas são limitadas por nossas possibilidades. A liberdade, para eles, na verdade não está em poder ser YOLO e sair correndo pelado no meio da Avenida Paulista cantando a música da fazendinha do Bita e os Animais. Mas de ter arbítrio, e se responsabilizar por aquilo que escolheu – e saber que correr nu em lugares públicos entoando canções infantis traz consequências. A liberdade carrega uma boa carga de responsabilidade. Por isso, algumas escolhas são terrivelmente angustiantes. Eu, por exemplo, não tive muitas dúvidas quando decidi que queria aprender violoncelo aos quatorze anos, porque não tinha muito a perder. Mas refleti por um bom tempo antes de seguir a profissão de advogado – algo que, pensando em retrospectiva, não adiantou muita coisa.

Desde que comecei a me interessar por whiskies, até agora, já fui algumas vezes indagado sobre minha destilaria favorita. E, por muito tempo, deixei de escolher. Talvez porque elegendo um, sentisse que excluiria os demais. Mas, pensando bem, o fascínio que tenho pelo destilado resida, em boa parte, nisso. Eu posso escolher um preferido – isso não me impede de apreciar os outros. É uma escolha sem muitas consequências. Então, está aí. Pela primeira vez, escrito aqui, neste Cão Engarrafado, notícias de ontem. Minha destilaria favorita é Bowmore. E ela acaba de desembarcar no Brasil com seu Bowmore 12 anos – o tema desta prova.

O Bowmore 12 anos é maturado principalmente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. E ainda que a influência vínica pela qual os Bowmore sejam admirados não esteja lá – ao menos não escancarada – o Bowmore 12 anos traz a mesma genética de sofisticação de seus irmãos mais maturados. A palavra de ordem, aliás, parece ser sofisticação, e não intensidade. Ele é indiscutivelmente um single malt de Islay. Todas as credenciais estão lá: enfumaçado, medicinal e iodado. Mas, há também espaço para que o barril brilhe, e um equilíbrio que perigosamente te convida para o próximo gole.

O malte usado no Bowmore 12 anos é produzido em boa parte na própria destilaria. Ela é uma das únicas da Escócia que mantém ativos seus malting floors. E ainda que não seja autossuficiente em seu processo de malteação – parte dele é comprado da Port Ellen Maltings – aproximadamente 40% de toda cevada utilizada é malteada sob seu teto. O malte é turfado a a 25 partes por milhão de fenóis – quase cirurgicamente no meio do caminho entre Ardbeg e Laphroaig e os amenos Bunnahabhain e Bruichladdich.

Vamos a alguns fatos para geeks. A fermentação da Bowmore leva entre quarenta e sessenta horas, e produz um wash (mosto fermentado) com 7% de graduação alcoólica. Os alambiques de primeira destilação são carregados com 65% de sua capacidade. Já os de segunda destilação – à moda da Lagavulin – são quase inteiramente preenchidos: 92% de sua capacidade total. A destilação é rápida (7 horas). O corte começa aos 74% e termina aos 61,5%. Os braços dos alambiques são retos, com pouco refluxo. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso, e com um caráter vegetal que este Cão absolutamente idolatra.

Washbacks da Bowmore

A fermentação da Bowmore acontece até hoje em washbacks de pinho. São cinco ao todo. Cada um, batizado com o nome de um fundador da destilaria. Na década de oitenta, a Bowmore tentou trocar seus washbacks por versões de aço inox. Mas, notando que havia uma sensível diferença de sabor, voltaram aos tradicionais tanques de fermentação. Diz-se que parte do caráter frutado e vegetal presente no new-make da Bowmore advém, justamente, da maturação em tais washbacks.

O Bowmore 12 anos começa a ser vendido no Brasil em Agosto de 2021, e o preço proposto é de R$ 420,00 (quatrocentos e vinte reais). O que parece um valor razoável, considerando o preço dos demais single malts de Islay disponíveis em nosso mercado. Seja como for, experimente o Bowmore 12 anos. Afinal, de acordo com Kierkegaard , são essas escolhas que trazem (um excelente) significado à vida.

BOWMORE 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos.

Destilaria: Bowmore

Região: Islay

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: turfado, defumado e iodado. Aroma vegetal.

Sabor: Início defumado e seco, com caramelo e baunilha. Herbal, com pimenta do reino, fumaça e esparadrapo.

A venda no Caledonia Whisky & Co. em dose e garrafa.