Dewar’s 25 – Sobre a Passagem do Tempo

    Tenho pensado bastante sobre o tempo. Não o calor, frio e a chuva, porque  todo mundo sabe que esse tempo é doido, e às vezes faz frio de manhã, calor a tarde e chove a noite, e a gente sai com um guarda roupa de coisa que nem vai usar. Não me refiro a este tempo. Me refiro à passagem de segundos, minutos, horas, dias, meses e anos. Àquele tempo, tema da famosa refutação de Borges. A essência da qual somos feitos, do rio que me arrebata, do tigre que me devora, da quarta dimensão. Esse tempo é algo interessante. Ele destrói. Nada é permanente. A passagem do tempo traz desordem, caos, decadência e degradação. Dê tempo suficiente a algo, que aquilo sempre entrará em colapso e deixará de existir. Mas nem tudo é drama. O tempo, para nós, também possui uma face reparadora. A nostalgia. A nostalgia apara as arestas pontudas da memória, e ressalta aquilo que outrora fora bom. Nossa memória tende a atenuar o sofrimento e reacender a felicidade. Deve ser alguma forma de proteção. E não é somente com nossa lembrança que o tempo possui essa função, diremos, cosmética. Com o whisky também. A […]

Backer Três Lobos Single Malt – Promissão

Quando nasci, meu pai tinha um Puma dourado. E desde minha mais tenra infância, eu adorava o carro. E, provavelmente, meu pai também. Porque ele ficou com o Puma por uns bons cinco anos depois de meu nascimento.  O problema é que o carro tinha apenas dois lugares, e eu – como era uma criança – não podia andar no banco da frente. O que, claro, não impedia meu pai de me colocar sentado naquele tablado duro, atrás do banco do passageiro, para dar umas voltas comigo. Nos anos oitenta, cadeirinha, cinto de segurança e bom senso eram opcionais. E as leis da física provavelmente também, porque à medida que crescia, deixava de caber naquele – tão fascinante quanto desconfortável – espaço. Com cinco anos de idade, minha coluna vertebral descrevia a angustiante curva do vidro traseiro, e minha cabeça acompanhava, em batidinhas surdas contra o teto do carro, o péssimo asfalto da cidade. Para falar a verdade, não era só banco traseiro que faltava no Puma. Ele era um automóvel espartano, ainda que muito bem feito. O que, claro, o tornava ainda mais fascinante. Quando meu pai finalmente o trocou por um Monza – em que eu podia me […]

Method and Madness Single Pot Still

Esses dias sonhei que tinha ido a uma festa, de pijama. Caso você não tenha se atentado ao artigo, deixe-me ressaltá-lo. Não uma festa do pijama, o que já seria bem estranho na minha idade. Mas uma festa convencional, só que vestindo um pijama. Aliás, um desses bem clássico, listradinho, com um calção azul marinho. No sonho, eu parecia ser o único ciente de que estava com roupa de dormir. O que, independente da opinião alheia, me dava bastante vergonha. Tentava me convencer que podia ser pior. Que eu podia estar fantasiado. Fantasiado de frentista de filme pornô ou de Barney – o dos Flintsones, claro, não o Stinson. Mas aquilo não adiantava. É uma espécie de sentimento de reluzente inadequação. Fiquei pensando, depois, como seria se isso acontecesse no mundo real. Se eu fosse de pijama pro trabalho, por exemplo. Imagino que as pessoas me mandariam para casa, ou me dariam algo pra vestir. Ou secretamente tirariam fotos para postar nas redes sociais. Ou, talvez, me respeitassem. Eu estaria lá, vestido confortavelmente para desafiar tradições e mostrar que eu poderia ser melhor usando pijamas. Talvez o pessoal da destilaria irlandesa Midleton tenha sonhado isso também. Ou talvez tenham simplesmente decidido, […]

Drops – Bowmore Feis Ile 2008

Você sabe o que é a Feis Ile? Feis ile é a maior festa anual da ilha de Islay, famosa pela produção dos whiskies turfados. Feis Ile celebra a cultura de Islay. Há aulas de gaélico, peças tradicionais, campeonatos de golfe e boliche e infinitas degustações de whisky. Há também uma miríade de atividades curiosas. Como, por exemplo, observação pública de aves e campeonato de pesca com mosca, além de shows de grupos de folk-rock. Mas nada disso é muito importante. O importante são as garrafas comemorativas. Para a Feis Ile, as destilarias de Islay costumam lançar edições limitadas comemorativas, muitíssimo concorridas por colecionadores – e por certas lojas, que preferem comprar direto da fonte e guardar as garrafas, para que valorizem. Por conta disso, durante a festa, a ilha é invadida por centenas de turistas e entusiastas da melhor bebida do mundo. Alguns chegam a acampar do lado de fora das destilarias para ter a chance de colocar as mãos em uma dessas edições. Outros, porém, tem mais sorte. Graças à generosa insanidade da Single Malt Brasil este Cão teve a oportunidade de provar uma dessas singelas jóias. O Bowmore Feis Ile 2008, servido em uma degustação no Rio de […]

Sobrevivência – Chivas Regal 12 anos

Admiro pessoas determinadas a sobreviver. Esses, que atravessam quaisquer revezes, graças à sua inabalável resiliência. E nem estou falando de profissionais, como o Bear Grylls. Porque claro, tudo que você espera do Bear Grylls é mesmo que ele coma uma lesma nojenta, durma dentro de um camelo morto, beba xixi e todas essas coisas asquerosas, afinal essa é a profissão dele. Ninguém assiste o programa dele pra vê-lo tomando um vin de table ao lado da Tour Eiffel, né? Me refiro aos amadores mesmo. Aqueles que de seus débeis e muitas vezes mutilados corpos conseguiram extrair uma força sobre-humana apenas para passar mais alguns anos nesse nosso medíocre mundo. Como, por exemplo, a Juliane Koepcke. A Juliane Koepcke foi a única sobrevivente do vôo 508 da LANSA. O avião dela foi atingido por um raio e se desintegrou no meio do ar. A Juliane, presa em sua cadeira, foi lançada de uma altura de três mil metros sobre a floresta peruana. Incrivelmente, Juliane sobreviveu à queda, mas com uma das clavículas quebradas e gravemente ferida. Praticamente rastejando, e alimentando-se de um saquinho de balinhas – a única comida que tinha – Juliane encontrou um riacho. Seu braço estava infeccionado e […]

The Macallan Edition No. 3 – Aroma Exclusivo

Dama-da-noite tem cheiro de dente quebrado. Não para todo mundo, mas para mim. Sempre que sinto o aroma da flor, passo discretamente a língua sobre minha arcada, enquanto sinto um descompasso de alívio no coração. Ufa, é só a flor, nada caiu dessa vez. É que aos oito anos de idade, quebrei um dente. Corria no jardim da minha avó, ao entardecer, ao lado de alguns vasos de dama da noite. Lembro-me vividamente da luz crepuscular, do aroma de jasmim, e do desequilíbrio sucedido pelo apagão e o gosto de ferrugem na boca. Até hoje, se sinto o aroma de dama-da-noite, sou remetido, involuntária e automaticamente àquela lembrança. A memória olfativa é algo poderoso. Essa clareza de reminiscência tem um nome. Fenômeno Proustiano. É uma homenagem ao escritor francês Marcel Proust, que descreveu em seu “Em Busca do Tempo Perdido” como o aroma de biscoitos molhados no chá remontava a casa de sua tia. A ciência, inclusive, já se debruçou sobre este fenômeno. De acordo com pesquisadores ingleses, a vividez de lembranças trazidas por odores ocorre por conta de nossa conformação cerebral. A região do cérebro que processa odores está situada no interior do sistema límbico, ligado às emoções. E […]

Wild Turkey 81 – Sobre aves granjeiras

  Não é segredo pra ninguém que eu odeio frango. Não é que eu não como frango, porque eu como quase qualquer coisa. Sério, se você me servir algo bem nojento, como, sei lá, olho de bode ou aquele ovo verde chinês, talvez eu tenha alguns segundos de ponderação. Mas, depois disso, há uma enorme possibilidade que eu vá provar. Aí, talvez, depois, eu vá dizer que aquele negócio é bem ruim ou absolutamente asqueroso, e ele entre no rol de coisas que eu provavelmente vou comer de novo porque sou teimoso, mas não gosto. E o frango está aí. Eu como frango com desgosto. Não é um preconceito – preconceito seria se eu nunca tivesse provado – mas um pós-conceito. Eu já comi frango. Várias vezes. Em. Infinitos. Lugares. E é sempre ruim. Eu odeio tanto frango que uma vez fui pra uma fazenda no interior e visitei um galinheiro. Uma galinha, talvez farejando (galinhas farejam?) o ódio no ar, não pensou duas vezes. Me atacou em um voo tão agressivo quanto ridículo. E aí passei a não gostar de frango vivo, também. Mas a beleza do mundo é a diversidade. Do outro lado do espectro da ojeriza por […]

Drops – Royal Salute Eternal Reserve

O meu tem dez. Ah, já o meu tem quinze. Coitados, o meu aqui tem vinte e um. Nossa, vinte e um só – o meu é infinito. Pode parecer brincadeira de moleque. Mas é, na verdade, um dos mais recentes lançamentos da Royal Salute, marca super-premium de blended whisky escocês. O Royal Salute Eternal Reserve. Cuja idade – apesar do sugestivo “eternal” – na verdade, é de 21 anos. Mas que leva whiskies cada vez mais maturados em sua mistura. A ideia por trás do Royal Salute Eternal Reserve é bem simples, na verdade. Nas palavras da Royal Salute “A primeira criação do Royal Salute The Eeternal Reserve começou com a preparação de 88 barricas de whiskies incrivelmente raros e preciosos, todos com idade superior a vinte e um anos. Estes whiskies foram cuidadosamente selecionados utilizando dois critérios. Primeiro, que cada whisky possuísse um final excepcionalmente longo, e que poderia se estendido posteriormente mediante um processo de blending e harmonização e, em segundo, que os whiskies escolhidos pudessem ser maravilhosamente harmonizados em cada novo lote e ainda mantivessem seu estilo próprio para sempre Uma vez selecionados, os preciosos whiskies foram blendados, e depois harmonizados em 88 barricas no Royal […]

Jack Daniel’s 150th Anniversary Edition

Se você assistiu ao filme Magnólia, talvez esteja familiarizado com o Premio Darwin. Mas se não estiver, eu explico. O Prêmio Darwin é uma espécie de Oscar póstumo, que premia indivíduos que conseguiram, graças à total ausência de inteligência, se remover da cadeia hereditária humana de uma forma espetacularmente idiota. Ou seja, se mataram de jeitos estúpidos. Como, por exemplo, o americano que, inconformado com o barulho que sua caminhonete fazia, resolveu que tentaria descobrir de onde vinha o ruído olhando embaixo do automóvel. Enquanto ele estava em movimento. A sessenta quilômetros por hora. Ou o adolescente do Texas que  praticou roleta russa usando uma pistola semiautomática. Ou o nosso próprio representante deste proeminente prêmio, o padre do balão, cuja fama prescinde explicações. Tanto é que foi cunhada em sua homenagem uma nova expressão “tão doido quanto o padre do balão“. O que muita gente não sabe é que há um personagem muito famoso que poderia, muito bem, ter recebido um prêmio desses. É o Sr. Jasper Newton “Jack” Daniel, o ilustre criador do whiskey americano mais consumido no mundo. Segundo registros históricos, Jasper possuía um cofre em seu gabinete. Certo dia, frustado por não lembrar a combinação, deu um chute […]

Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare Brora

Quando você presta atenção no tédio, ele se torna inacreditavelmente interessante. Quem primeiro proferiu essa frase foi Jon Kabat-Zinn. Um cara que nunca havia ouvido falar na vida, e que, para falar a verdade, ainda não sei bem quem é. Mas tenho a sensação de que ele está certo. Porque descobri sua frase justamente em uma tarde em que tentava aliviar um pouco o tédio pesquisando frases espirituosas. O tédio é, talvez, o pai de grandes descobertas. E das pequenas também. Foi o tédio que me fez assistir Berlin Aexanderplatz, do Fassbinder, por longas quinze horas. E aprender – com uma ajudinha da internet – que leite de hipopótamo é rosa, que polvos tem três corações, e que a Universidade de Oxford é mais antiga que o Império Asteca. Mas acho que uma das descobertas mais legais que o tédio me proporcionou recentemente foi sobre o caviar do Esturjão Beluga Albino. O caviar do esturjão beluga albino é caríssimo, ainda mais se for de uma variedade conhecida como Almas. Essa é provavelmente a comida mais cara do mundo. Um quilo custa vinte e cinco mil dólares. É que o tal do peixe, que vive no Mar Cáspio, é raríssimo. E […]