Bebendo o Oscar III – Filmes & Whiskies

Este é um post sazonal. Para ler as edições passadas, de 2017 e 2018, clique nos mencionados aqui.

Uns bebem para esquecer. Outros bebem para lembrar. A frase, repetida em cancões de Ben Harper e dos Eagles, se aplica perfeitamente ao whisky. Mas poderia, também, muito bem funcionar para o cinema.

Porque muitos assistem filmes para esquecer de seus problemas. Parabolicamente sair do corpo e viver outra vida. Outros, porém, usam as telas para relembrar. De seu passado, ou do pretérito do mundo. Refletir sobre questões importantes ou entender o status quo.

Os indicados ao Oscar de melhor filme de 2019 atendem aos dois públicos. E a todos no meio do caminho. Seja pelo ora visceral, ora romântico retrato da sociedade mexicana da década de setenta em Roma, seja pelo lugar comum bem executado de Nasce uma Estrela.

E para acompanhar estes longas, nada melhor do que, bem, whisky. Mas não qualquer whisky. Um que harmonize por semelhança com a película. Que lhe ressalte as características. Ou que amplie a sensação de conforto, paixão ou intensidade trazida por eles.

Assim, ai vão quatro filmes assistidos por este Cão e devidamente combinados com o melhor destilado do mundo. Tudo, meu caro leitor, para que você tenha a melhor experiencia – etílica e cinematográfica – possível.

GREEN BOOK

Green Book, dirigido por Peter Farelly, conta uma história alegadamente real. Da jornada de um pianista negro – Don Shirley, vivido por Mahershala Ali – pelo sul dos Estados Unidos no ano de 1962. Seu motorista e segurança é Anthony Vallelonga (Viggo Mortensen), um descendente de italianos violento e deseducado, que cria um contraponto com Don, um homem instruído e sofisticado.

A história é uma espécie de bromance entre os personagens, em um mundo hostil e preconceituoso. Aliás, o maior mérito de Green Book talvez seja, porém, seu maior defeito. Que é o de tratar com leveza e graça assuntos que devem ser abordados com severidade. Como a segregação racial nos Estados Unidos na década de sessenta e o papel da educação formal na estratificação social. Para isso, ele às vezes usa subterfúgios um tanto baratos, como, diremos, frango frito.

Seja como for, é um filme que agradará tanto aqueles que assistem para pensar quanto aqueles que o veem apenas para se divertir. Neste sentido, ele é muito parecido com certo Royal Salute 38 Anos – um blended scotch whisky sofisticado e complexo, mas também muito agradável e fácil de ser bebido.

A FAVORITA

O nome do filme – The Favorite, em inglês, que não indica o gênero – é quase uma provocação clarividente de sua indicação ao Oscar. É uma tragicomédia dirigida por Yorgos Lanthimos, que trata de ciúmes e poder na corte da rainha Ana, monarca inglesa do século XVIII. Em seu centro estão a rainha, sua confidente e melhor amiga, Sarah Churchill (Rachel Weisz) e Abigail, uma ex-fidalga que encontra seu rumo ao lado de Sarah e, mais tarde, Ana.

Há aqui dois elementos que tornam A Favorita quase, bem, o favorito. A cinematografia de Robbie Ryan, que evidencia o hermeticismo da vida na corte, e a atuação de Olivia Colman como uma rainha debilitada, mentalmente desequilibrada e carente. Aliás. Não assistam a Favorita pelo roteiro. Nem mesmo pela cinematografia. Assistam pela atuação de Olivia Colman. É boa assim.

A direção de Lanthimos também é boa, ainda que em mais ou menos meia dúzia de cenas, sentisse que a piada pertencia mais a um A Louca Louca História de Robin Hood do que a uma bela película de época.

Se fosse um whisky, A Favorita seria um Dalmore 18 anos. Belo, encorpado e com o vinho jerez quase roubando a cena toda.

A STAR IS BORN

A Star Is Born, filme de estréia de Bradley Cooper como diretor, é uma conhecida fábula de Hollywood. Aliás, conhecida até demais. Essa é a terceira regravação da história. Mas, para meu alento, longe de ser a pior – este troféu pertence àquela da Barbara Streisand.

A película conta a história de Ally, interpretada pela Lady Gaga, uma garçonete com potencial enorme de se tornar uma estrela pop, e Jack, que a apadrinha e ensina os caminhos do show-business, vivido por Bradley Cooper. Jack é um conhecido cantor, mas que já viu dias melhores.

É a clássica história da ascensão e declínio de uma celebridade. A ascensão de Ally e o declínio de Jack. Por cento e trinta e cinco minutos. Sendo que, desses, uns bons cem são usados apresentando músicas inteiras, ou explicando coisas que não deviam ser explicadas para o expectador, exceto se o expectador nao for um homo sapiens sapiens.

De qualquer modo, o filme funciona, e as performances são bem sólidas. Se fosse um whisky, A Star is Born provavelmente seria um Jack Daniel’s 150th Anniversary Edition: mais do mesmo com diferenças conjunturais, mas bem executado.

VICE

Vice é bom por quase um paradoxo. Porque ele parece que não se leva a sério. Mas se leva, com uma linguagem que não se leva a sério. Entendeu?

O filme conta a história da subida ao poder de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante a gestão de George W. Bush. Apesar de ser fortemente galgado em fatos reais, a película constantemente quebra a quarta parede, mostrando que, bem, aquilo aconteceu de verdade, mas não daquele jeito, porque mesmo um filme sobre uma história real é uma obra de ficção.

O maior mérito de Vice – além da direção poderosa mas descontraída de Adam McKay – são as atuações. Christian Bale está praticamente irreconhecível como Cheney. E Sam Rockwell, genial como sempre, interpreta um Bush até melhor do que o Bush de verdade.

Se fosse um whisky, Vice seria um Famous Grouse. Um whisky sério, numa embalagem, assim, no mínimo descontraída.

8 thoughts on “Bebendo o Oscar III – Filmes & Whiskies

  1. Bom dia cão, como sempre você produz ótimos textos, parabéns! Gostaria de tirar uma dúvida… Visto que não existe material em português sobre o Glenmorangie the tayne, queria saber se tens alguma informação ou opinião sobre ele, e se compensa mais compra-lo que o the original.
    Um abraço!

    1. João, o Tayne é um duty-free exclusive maturado em Amontillado. Sinceramente, não acho grande coisa, e acho o custo/beneficio do Original 10 melhor. Mas, pelo mesmo preço, ou semelhante, talvez ficasse com o Tayne, só pra variar um pouquinho!

        1. Luziano, assisti o Roma, pensei em compará-lo, mas aí achei que seria pretensão minha. Mas, bom, já que você cutucou a onça, talvez… um… Glenfiddich 18? Sisudo, um pouco desafiador, com muita coisa acontecendo no background, mas, no final, extremamente recompensador e muitíssimo bem construído.

          Concorda?

  2. Confesso que não tenho visto muitos filmes ultimamente, mestre e curiosamente pelo que tenho lido o filme que mais vem agradando é o da Lady Gaga. Mérito dela ou falha dos demais haha?
    Mestre, aproveitando a oportunidade, gostaria de tirar uma dúvida a respeito de um tal de Macallan… ocorre que meu meu querido Double Cask 12y foi substituído pelo Gold Double Cask NAS e pelo que vi, nao está agradando nada. Pensei em arriscar o Lumina, me parece semelhante ao Triple Cask. Não sei se isso é exatamente bom ou ruim hahaha. E também não sei se 41,3% é tão diferente de 40% de ABV. Sugestões?
    Abraços!

    1. Fala mestre!

      Olha, eu iria pro lado do Triple Cask 12. Ou fugiria para a linha dos antigos duty free exclusive, com o Whiskymaker’s Edition, que é REALMENTE fantástico e um belíssimo custo-benefício.

      Mas se quiser ficar na linha nova, o Lumina é gostoso – só é muito caro pelo que oferece. O Terra é bem melhor, e o Quest, bom, acho que você pode ignorar o quest e passar direto pro Lumina.

  3. Vou ajudar o João Augusto dizendo que o Tayne foi o pior Glenmorangie que eu já tomei. Ele tem um sabor diferente advindo desse Amontilado Sherry e para o meu gosto pessoal não agradou nem um pouco. Do duty free atual, o Glenmorangie Duthac é bom, não é excelente nem espetacular, mas já é bem melhor que o Tayne.

    1. Vou te dizer que não foi o pior, mas está abaixo da linha média da destilaria sim, mestre. Você tem toda razão. É engraçado como esses lançamentos são irregulares.

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