Como Curar sua Ressaca – Whisky Bloody Mary

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A medida que vamos nos aproximando das festividades de final de ano, o mundo é acometido por uma estranha e inexplicável sensação de amor ao próximo. Mesmo que o próximo esteja bem longe de ser próximo. Provas disso são aqueles seus conhecidos, que você achou que haviam morrido, sido presos ou emigrado para algum lugar primitivo – afinal, você não tinha notícias deles há mais de dez meses – mas que, magicamente, reaparecem no final do ano. Reaparecem geralmente tentando combinar algum evento. E, normalmente, algum evento que envolve álcool.

Porque a verdade é que o álcool é um excelente lubrificante social. O álcool simplesmente vaporiza aquele momento meio constrangedor, quando o assunto acaba. E, se consumido de forma relativamente prudente, torna-se ferramenta essencial para sobreviver às inconvenientes festividades de final de ano.

Entretanto, o problema chave aí é a prudência. Porque ninguém está isento de cometer um erro e exagerar. E, com o exagero, vem a ressaca. Tanto a moral quanto a física. Contra a primeira, não há muito a fazer. Se você ficou nu, dançou sobre a mesa ou dormiu no chão, o melhor que tem a fazer é tentar esquecer, e não mencionar o assunto. Nunca. Nunca mais.

Nem se você tirar uma foto com o Tom Hanks.
Nem se você tirar uma foto com o Tom Hanks.

Já a ressaca física é remediável. Ela é cientificamente conhecida como veisalgia. Falarei um pouco sobre ela hoje, e como curá-la.

Etimologicamente, veisalgia é a combinação da terminação “algia”, vindo do grego άλγος (álgos), que significa dor, com a palava Kveis, proveniente do norueguês que significa – de forma brilhante, na minha opinião – o desconforto advindo da total, absoluta, exorbitante, insana e imprudente devassidão. Ou algo assim.

A ressaca pode ser causada por diversos fatores. O mais frequente deles é a desidratação e consequente perda de vitaminas hidrossolúveis e eletrólitos. A maioria destas vitaminas pode ser reposta pela ingestão de certos vegetais. O mais completo deles sendo, sem a menor dúvida, o tomate. O tomate possui vitaminas A e C, beta-caroteno e licopeno, um antioxidante. O tomate é o antídoto mágico contra a ressaca. Por isso, nunca se esqueçam: comam seus vegetais.

Entretanto, segundo o pesquisador Adam Rogers, autor do livro “Proof: The Science of Booze”, a desidratação não é a única causa da ressaca. Deve-se considerar a hipótese da veisalgia ser também causada por intoxicação por metanol.

O metanol está presente, em pequena quantidade, em quase todas as bebidas alcoólicas, por ser um produto derivado da fermentação. Nosso corpo transforma o metanol em formaldeído e acido fórmico. São estas substancias as responsáveis, em parte, pelos sintomas pouco agradáveis da ressaca.

bloody Mary
Como posso estar com tanta sede hoje se bebi tanto ontem a noite?

Não há muito a fazer para acelerar o processo de eliminação do metanol. Exceto por uma coisa. Algo que você jamais imaginaria: mistura-lo com álcool. Inclusive, em caso de intoxicação por metanol, é prática a injeção daquele, de forma a bloquear a transformação do metanol em formaldeído e ácido fórmico, e ganhar tempo.

Considerando o poder regenerador do tomate e a capacidade curativa do álcool, que os intrépidos bartenders do passado inventaram o Bloody Mary. O Bloody Mary é o clássico coquetel do rebound. Ele é composto, basicamente, por suco de tomate, tabasco, suco de limão, molho inglês e vodka. Há uma variação com gim, conhecida como Red Snapper.

Ninguém sabe ao certo como surgiu o Bloody Mary. A teoria mais aceita é que tenha tomado forma pelas mãos de Fernand Petiot, bartender parisiense do Harry’s Bar, um dos locais mais frequentados por Ernst Hemingway. O coquetel era uma das bebidas favoritas do escritor.

E ainda que o Bloody Mary e o Red Snapper sejam excelentes, eles possuem um defeito. Um único problema em sua cândida – ou talvez rubra – existência. Eles não levam whisky. Sorte que isso é completamente remediável.

Assim, preparem suas aspirinas e pastilhas efervescentes. Aí vai mais uma página para seu manual de sobrevivência no mundo pós-neuro-apocalíptico da veisalgia. Uma refeição completa em um copo. E, como de costume, com a melhor panaceia de todos os tempos: Whisky.

WHISKY BLOODY MARY

INGREDIENTES:

  • 2 doses de blended whisky ou whiskey*
  • 4 doses de suco de tomate
  • 1/3 dose de suco de limão
  • 2 a 3 dashes (sacudidelas) de molho inglês (Worcestershire Sauce)
  • Tabasco
  • Sal (se você quiser dar uma aprimorada, faça uma mistura de ½ sal e ½ salsão picado bem fininho)
  • Pimenta do reino.
  • Rodela de Limão (opcional)
  • Ramo de salsão (opcional)
  • Mixing Glass (ou qualquer vasilhame que você possa usar para misturar coisas)
  • Colher bailarina (ou qualquer colher que você consiga enfiar dentro do Mixing Glass sem colocar seus limpos dedos dentro do coquetel)
  • Copo Highball (alto) ou tumbler (baixo)
  • Três pedras de gelo pequenas, ou uma grande.

PREPARO:

  • Colocar todos os ingredientes bebíveis dentro do mixing glass. Não, o ramo de salsão e a rodela de limão não são bebíveis. Nem a colher bailarina. Se estiver em dúvida sobre o que é bebível ou não, ressaltei em itálico os itens que devem ser misturados nesta parte. Mexer cuidadosamente.
  • No copo do coquetel (que pode ser highball ou tumbler) colocar gelo. Descer – sem coar – os ingredientes misturados no mixing glass.
  • Se você estiver se sentindo sofisticado, decore o copo com o ramo de salsão e a rodela de limão, fazendo um corte no raio da fatia, e colocando-a na lateral do copo.

(*) Whisk(e)y – Você pode usar seu whisk(e)y de preferência aqui. Apenas tenha em mente que um bourbon deixará o coqutel mais adocicado, enquanto que um whisky defumado o tornará mais seco. Este Cão utilizou Famous Grouse dessa vez.

Especial de Natal – Um Manual de Como Presentear com Whisky

Especial de natal

Escolher presentes de natal nunca é fácil. Nem mesmo para a pessoa com que você mais tem intimidade no mundo. No meu caso, a Cã Engarrafada. Neste caso, o risco é errar. Não há espaço para errar com alguém que você conhece tão bem. Mas como já estamos casados a pouco mais de meio decênio, tendo galgado o dobro disso de namoro, recorri a uma praticidade arriscada. Perguntei a ela o que queria receber de presente.

E não me condene por ter sido direto. Porque realmente é romântico captar sinais e ir sorrateiramente reunindo informações e analisando reações para tentar descobrir o que sua melhor parte deseja. Mas isso também é trabalhoso e – caso sua inteligência emocional seja equivalente a de um crustáceo, como a minha – pode dar terrivelmente errado.

Após uns três segundos de uma ensaiada cara de dúvida, a Cã respondeu que queria uma bolsa, e que me daria um single malt. Uma bolsa, tudo bem, pensei. Qual a dificuldade em escolher uma bolsa? Bem menor do que a dela, ao escolher o whisky.

Minha ida ao shopping revelou que a tarefa era consideravelmente mais difícil do que eu havia previsto. Principalmente quando não há o menor espaço para erro. Afinal, em tese, eu sei o gosto dela. Mas existem infinitos modelos, tamanhos e acabamentos. Couro ou lona? Ferragens douradas ou prateadas? Pequena ou grande? Com alça transpassada ou não? Tudo que eu queria, naquele momento, era que alguém me guiasse pelo espinhoso caminho dos assessórios femininos.

 

Eu sinto sua dor.
Eu sinto sua dor.

E aí eu tive um alumbramento. Pensei que talvez as pessoas tivessem essa dúvida com whiskies também. Então, resolvi fazer um post de utilidade pública. Um mini-manual com recomendações para não errar no presente para seja quem for o ébrio presenteado.

Por onde começar? Blended whiskies? Single malts? Bourbons? Comprar o melhor que puder bancar? Ou investir no básico de qualidade? Dividi o post em categorias, de forma que será mais fácil que você, meu caro, veja um incontestável sorriso nos alcoólicos lábios de seu presentado. As faixas de preço são meras referências. Os whiskies clicáveis levarão você para suas respectivas provas, feitas por este canídeo, com informações detalhadas – mais ou menos – sobre cada um.

1) WHISKIES STANDARD (AKA Abaixo de R$ 100,00)

Pode ser que você seja simplesmente pornograficamente rico, ou tenha recebido um bônus fantástico de seu escritório de cobranças judiciais. Neste caso, meu conselho é que pule para o item 3, com uma rápida passada de olhos pelo item 2. Caso contrário, segure firme em minha mão virtual, que lhe guiarei pelo incrível mundo dos whiskies baratos.

Vamos combinar uma coisa. Não está fácil para ninguém. Mas não existe nenhuma razão para se envergonhar caso você, depois de cumprir com todas suas obrigações financeiras, tenha ficado apenas com alguns reais para investir em um mimo etílico. O importante é fazer o melhor investimento que puder com suas Dilmas – caso seu desejo seja este, claro. Aí vão algumas sugestões:

Blended Whiskies – Vá de Famous Grouse Finest ou Suntory Kakubin. Se prazer pudesse ser medido em partes por milhão (ppm), provavelmente estes dois teriam a maior concentração de partículas por Real despendido. Sério, não dá nem para se sentir culpado.

Single Malt – Aqui não há espaço para escolhas. O único single malt abaixo de R$ 100,00 é o Glen Grant. Pronto. Quiçá todas as escolhas da vida fossem tão fáceis quanto esta.

Bourbon/Whiskey – A eterna batalha entre Jack Daniel’s Old. No. 7, e Jim Beam. Escolha uma garrafa e entre no combate. Ou recorra a uma Suíça engarrafada, e leve um Wild Turkey. Mais peru por menos dinheiro.

2) WHISKIES PREMIUM (entre R$ 101,00 e R$ 350,00)

Quando digo Premium, me refiro, especialmente, aos famosos blended whiskies premim. Normalmente, os primeiros que você vê quando entra em algum bar. Os que estão na prateleira do meio do supermercado. Enfim, os que estão por toda parte.

Blended Whiskies – Essa é uma escolha emocional. Siga seu coração. Você tem duas opções mais óbvias: Johnnie Walker Black Label ou Chivas Regal 12 anos. Se quiser subir um discreto meio-degrau, invista no Chivas Extra ou Johnnie Walker Double Black (se seu gosto for para os defumados). Dentre as menos elementares, temos o Buchanan’s 12 anos. O Black Grouse também é uma boa opção se você se animou com o Double Black. Simples assim.

Single Malts – Não tem como errar. Glenfiddich 12, Glenlivet 12 ou Glenmorangie 10. Um pouco mais acima, temos uma miríade de single malts magníficos, como o Glenfiddich 15 anos, Balvenie Doublewood, Dalmore 15 anos, Glenmorangie Quinta Rubán e os incríveis-fundo-de-cinzeiro-com-maresia Laphroaig Quarter Cask e Ardbeg 10.

Bourbon/WhiskeyWoodford Reserve, Maker’s Mark, Jack Daniel’s Single Barrel. Fique nestas três opções e seja feliz.

A Kesha aprova
A Kesha aprova

3) WHISKIES SUPER PREMIUM (entre R$ 351,00 e R$ 900,00)

Whiskies super premium são aqueles que você pensaria duas vezes em tirar a garrafa da prateleira, com medo de escapar da sua mão. São aqueles destinados a quem realmente não está muito preocupado em gastar um pouco mais, e procura algo exclusivo. A vida tem te tratado bem. Isto é bom. Não precisa ter vergonha também. Bebemore a isto.

Blended Whiskies – Minha escolha clássica é sempre o Chivas Regal 18 anos. Entretanto, há outras opções excelentes, como o Royal Salute 21 e Buchanan’s 18 anos. Na linha Johnnie Walker, este Cão tem preferência pelo Platinum ao Blue Label. Mas isto é um gosto pessoal.

Single Malts – Aqui se pode investir em garrafas bem interessantes. Macallan Sienna é uma escolha certeira. Dalmore 18 anos e Glenfiddich 18 também são boas alternativas. No campo dos defumados, a única opção é o Laphroaig 18 anos, também conhecido – por mim – como amor líquido.

Bourbon/Whiskey –Nosso país carece de bourbons de valor quase extorsivo. O único é o Jack Daniel’s Sinatra Select. Um litro de delícia para beber como um integrante do Rat Pack.

4) WHISKIES ULTRA PREMIUM (acima de R$ 900,00)

Estas são as Lamborghinis e Ferraris do mundo etílico disponíveis no Brasil. Não dá para ficar muito melhor – ou mais caro – do que isso. Quer dizer, na verdade, dá. Mas aí estaríamos entrando na esfera das edições especiais, exclusivíssimas e raríssimas.

Então coloque seu Patek Phillipe sobre sua mesa de mogno maciço, acenda seu Cohiba Behike e contemple as opções de presente que poderá dar àquele seu afortunado (não tanto quanto você) amigo.

Ryco
Ryco

 

Blended Whiskies – Dentre os ícones, você poderá optar entre o Royal Salute 38 anos e o Johnnie Walker Odyssey. Se estiver com um humor lúdico, pode até fazer essa escolha com base no seu material de preferência: cerâmica ou cristal? Se quiser fugir dos dois gigantes, o Ballantine’s 30 anos é uma boa opção. Altíssimo luxo por menos da metade do preço de qualquer um dos anteriores.

Single Malts – Poucas destilarias têm coragem de trazer produtos nessa faixa de preço para nosso país. A mais destemida delas é a Glenfiddich, com seus Glenfiddich 21 e 26 anos. Há também o Dalmore King Alexander III, maturado em seis diferentes tipos de barrica. Os dois são absolutamente irrepreensíveis. Mas a estrela do show é mesmo o Macallan Ruby. É o mais acessível – mesmo que acessível aqui tenha quase um sentido irônico – dentre os mencionados. Se você é um cara, pense que ele é a Amber Heard engarrfada. Se você é uma menina, imagine o, deixe pensar, Ryan Gosling? Me ajudem aqui.

Bourbon – Infelizmente nenhum Bourbon entrou nessa extorsiva faixa de preço.

Caso o whisky que você está considerando não está nesta lista, não se desespere. Seja para presentear terceiros ou como forma de autoindulgência, siga sua intuição. Ou recorra à praticidade como este Cão, e pergunte logo o que seu presenteado quer receber. Afinal, ganhar whisky é sempre bom, mesmo sem surpresa.

Tabula Rasa – Glenfiddich 18 anos

 

Algumas pessoas têm manias estranhas. Quando era criança, tinha um coleguinha que gostava de morder gente. Ele tentava morder todo mundo, sem qualquer distinção de idade ou sexo. E de forma completamente gratuita. Como eu sabia de seu hábito, mantinha uma distância segura. Muito tempo depois, descobri que essa é uma compulsão mais ou menos comum, e que pode continuar durante a vida adulta. Chama-se Dacnomania.

Nunca pude perguntar a ele como esse curioso hábito começara. Na verdade, nunca me permiti esta oportunidade – ter um bife arrancado do meu braço não estava nos meus planos. Talvez minha curiosidade mórbida frente um dacnomaníaco fosse menor do que meu instinto de autopreservação.

Nham nham!
Nham nham!

Outra mania bem esquisita que vi – dessa vez em um programa de televisão – era de comer tijolos. Era uma moça, lá pelos seus trinta anos de idade. Seu pitoresco costume consistia em arrancar pequenos pedacinhos de parede, roer e depois engolir. Quando questionada, a moça disse que, quando criança, foi induzida por sua avó a tornar-se a primeira sommelier de paredes do mundo.

Sua avó lhe contara que seu pai comia papel de parede e argamassa quando infante. Fascinada pela história, a menina resolveu provar por conta. Eu imagino o momento em que ela resolveu experimentar parede pela primeira vez. “Poxa, tô aqui fazendo nada, tá me dando uma vontade meio incontrolável de usar uma britadeira pra arrebentar essa parede e fazer um lanchinho de boa. Putz, deve ser genético”.

E por mais esquisito que essa decisão possa parecer, toda mania – e todo interesse – tem uma origem desse tipo. O Cão Pai, por exemplo, é fascinado por arte. Seu interesse nasceu ao ganhar um livro sobre o assunto, com 12 anos de idade. Já o meu, muito menos saudável, é whisky.

E o responsável por essa monomania é o Glenfiddich 18 anos. Antes de conhecer o Glenfiddich 18 anos, eu era – relativamente – normal. Havia provado pouco mais de cinco marcas de whisky. Aquelas, que todo mundo conhece. E ainda que eu gostasse da bebida, consumi-la era uma atividade puramente social. Eu tinha apenas uma garrafa em casa – geralmente, um Chivas 18 – reservada para as ébrias visitas. Mas quando fiz vinte anos de idade, ganhei de um amigo que viajara para o exterior uma garrafa do Glenfiddich 18 anos. Um whisky apenas dois anos mais jovem do que eu.

Eu nunca havia bebido single malts antes. Mas como havia nascido com um espírito pouquíssimo jovem, já fumava charutos com aquela idade. Ao ganhar aquela preciosidade, resolvi que suspenderia temporariamente o hábito de pitar acompanhado de uma boa cerveja escura e daria uma chance para o whisky. E ainda

que nunca tenha comido paredes ou mordido pessoas, acredito que a experiência facilmente se equipararia. Porque, de lá pra cá, não parei mais.

Concordo.
Ele concorda.

O Glenfiddich 18 anos é composto por uma seleção de whiskies maturados por, no mínimo 18 anos, em barricas de carvalho americano, que antes continham bourbon whiskey, bem como barricas de carvalho europeu que continham vinho jerez Oloroso. Essa seleção é misturada em um puncheon (uma barrica de 700 litros) onde passa três meses, para que crie harmonia. Os puncheons são barricas que antes maturaram bourbon whiskey, e feitos de carvalho americano. Depois deste período, o whisky é engarrafado. Cada garrafa possui um número de lote impresso em seu rótulo. Este número diz respeito ao puncheon em que os whiskies foram misturados.

Partes dos alambiques da Glenfiddich ainda são aquecidos por fogo direto. Isso contribui para tornar o destilado mais encorpado e oleoso. A maioria das destilarias modernas utiliza vapor, uma vez que o fogo direto aumenta muito o custo de manutenção e reduz a vida útil dos alambiques.

No Brasil, uma garrafa do Glenfiddich18 custa, em média R$ 500,00 (quinhentos reais). Não é exatamente uma pechincha, em valores absolutos. Mas tudo na vida deve ser relativizado. Ele é uma centena de reais mais em conta do que um Dalmore com o mesmo tempo de maturação, e possui o mesmo preço de blended whiskies premium, como o Johnnie Walker Platinum Label e o Buchanan’s 18 anos.

O Glenfiddich 18 anos é, na opinião deste Cão, o mais equilibrado do portfólio permanente da marca, e – comparado a seus pares de outras destilarias, com o mesmo tempo de maturação – um excelente custo-benefício. E ainda que meu gosto tenha, aos poucos, se deslocado para os whiskies com caráter mais defumado, o Glenfiddich 18 anos sempre terá seu espaço reservado, tanto na minha dispensa quanto em meu rol de paixões etílicas. Afinal, foi o whisky que me fez gostar de whisky. E pode ser que isso seja apenas um delírio por conta de uma obsessão. Mas eu duvido que tijolo e gente – gastronomicamente falando – seja tão bom quanto esse whisky.

 

Sorte minha ter uma mania assim.

GLENFIDDICH 18 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 18 anos

Destilaria: Glenfiddich

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

 

Aroma: Caramelo e frutas cítricas. Adocicado.

Sabor: Frutado, com baunilha e açucar refinado. Final longo e progressivamente mais cítrico.  Levemente apimentado e com especiarias.

Com água: A água reduz os sabores cítricos e de especiarias. Recomendo tomar este whisky s

em diluição.

Preço: R$ 500,00 (quinhentos reais)

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Drops – Chivas Regal Chivas Revolve

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Na semana passada o Cão Engarrafado teve a oportunidade de participar de uma degustação às cegas de blended whiskies, sob o comando do mestre Cesar Adames, e com a participação dos amigos Maurício Salvi, do canal Whisky em Casa, Roberto Montemor, do blog O Toneleiro e Carlos Zibel Costa.

Após a prova, Cesar pediu que os participantes escolhessem o melhor. E o eleito foi esta curiosa garrafa da foto. O Chivas Revolve, um blend super-premium da Chivas Regal Brasil, produzido em quantidades limitadas e disponível para compra apenas em Duty-Free shops de aeroportos internacionais. O preço médio é de US$ 85,00 (oitenta e cinco dólares).

Apesar de não ter informação de nenhuma fonte confiável, este Cão suspeita que os principais maltes de sua mistura são Strathisla e Aberlour. O Chivas Revolve apresenta sabor de especiarias, mas sem perder o aroma floral característico da marca.

Além de ser uma delícia, a garrafa é quase, diremos, lúdica. Ela possui um pino ao centro, tipo um peão. Um peão cheio de um whisky delicioso. Um peão para adultos.

Uma variedade de edições do Chivas Revolve foi lançada ao longo dos anos. Havia versões com graduação alcoólica de 50%, e outras com idade estampada no rótulo – 17 anos. Porém, a edição à venda nos freeshops brasileiros atualmente não tem idade definida, e possui 40% de álcool.

Se estiver de passagem pelo terminal internacional de algum aeroporto neste final de ano, e estiver no clima de experimentar algo diferente e exclusivo, o Chivas Revolve não é má ideia.

CHIVAS REVOLVE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma floral, com baunilha e especiarias. Há um perfume característico do Chivas 18 anos.

Sabor: suave, com frutas em calda, especiarias e baunilha. É um pouco menos adocicado que o Chivas Regal 18. Há notas de caramelo e mel, e um final seco e floral.

Com água: A agua torna o whisky menos adocicado e ressalta o sabor de especiarias.

Preço: US$ 85,00 (oitenta e cinco dólares)

O Cão Sofisticado – Royal Salute 21 Anos

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Já estamos em dezembro, o mês mais monomaníaco do ano. Em dezembro tudo que se vê e ouve é Natal. Natal é a época de ser espetado pelos galhos de um pinheiro de mentira que você está tentando montar, enquanto passa um calor senegalês. É a época de ouvir músicas insuportáveis em lojas apinhadas, tentando comprar um presente para aquele seu parente distante que você esqueceu que existia.

Aliás, nem me venha dizer que você gosta do Natal exatamente porque consegue reencontrar seus parentes mais distantes. Porque eles são seus parentes mais distantes exatamente por isso. Porque se você – ou eles – se esforçasse um pouquinho mais, talvez pudesse vê-los mais de uma vez por ano. Exceto se for longe. Aí você tem uma boa justificativa. Por exemplo, eu. Para mim, neste caso, longe é qualquer lugar depois da drogaria que fica na esquina da minha casa.

Mas Dezembro é também o mês da generosidade. O mês de dar e receber presentes. E ainda que eu prefira as pessoas livres do efeito do Valuim que as acomete no Natal, é inegável a satisfação de receber uma boa lembrança. Principalmente de quem você realmente gosta. Mesmo que você não goste de muita gente, como eu.

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Meu nível de animação no Natal.

Assim, ai vai uma sugestão do Cão Engarrafado de algo que você poderá dar a seus queridos conhecidos nesta época de amor e generosidade que quase me faz vomitar um céu estrelado. E é para quem quer impressionar. Ou para quem não se importa de gastar alguns bons reais a mais para presentear bem. É o Royal Salute 21. O Royal Salute 21 anos é o whisky de entrada da marca homônima. A única marca de blended whiskies cujo exemplar mais barato possui 21 anos de maturação mínima.

A Royal Salute foi criada em 2 de junho de 1953 em homenagem à coroação da rainha Elizabeth II. Seu nome faz referência à saudação de 21 canhões, executada como honra militar durante eventos que envolvem a família real. A título de curiosidade, outras saudações com número menor de canhões são executadas para oficiais militares ou membros do governo.

Os Royal Salute vêm em garrafas de três diferentes cores: vermelho, verde e azul. Cada uma representa uma joia da coroa britânica: rubi, esmeralda e safira, respectivamente. Mas você não precisa ser um especialista em gemas para saber disso. Cada garrafa vêm com o nome de sua pedra homenageada na embalagem. Exceto pela cor da garrafa e da bolsa de veludo que a envolve, não há qualquer diferença em seu conteúdo – o blend é o mesmo para as três cores. E antes que alguém seja espertinho e me pergunte, a garrafa marrom da foto é de uma versão antiga, descontinuada.

E por falar no blend, o Royal Salute 21 anos leva single malts de destilarias consagradíssimas. Por ser uma marca de altíssimo luxo ligada à gigante Pernod Ricard, a Royal Salute tem à sua disposição alguns dos melhores barris de algumas das mais consagradas destilarias da Escócia, como a Strathisla. É como aquela sua tia, encarregada de comprar e preparar o peru de natal. Pode ser que fique um lixo. Mas com ingredientes melhores, há grandes chances de sua refeição ser bem mais agradável, mesmo com parentes indigestos.

Tá melhorando.
Tá melhorando.

Por tratar-se de um blended whisky com idade definida de vinte e um anos, todos seus whiskies, sejam eles single malts ou whiskies de grão, devem ser maturados por, no mínimo, a idade estampada em seu rótulo para que possam compor a mistura do Royal Salute 21.

O preço médio do Royal Salute 21 anos é de R$ 600,00 (seiscentos reais). Não é nada barato, ainda mais para um blended whisky. Obviamente, parte deste preço se deva à apresentação do whisky, incluindo uma bela garrafa de porcelana, produzida pela britânica Wade, bem como a bolsa timbrada, de veludo, em que o frasco vem acondicionado. Mas ninguém aqui disse que o líquido não está à altura de sua roupagem.

Assim como um natal em família, o Royal Salute 21 foi criado almejando a harmonia, suavidade e equilíbrio. Mas ao contrário da festividade, o whisky foi bem sucedido. Assim, não espere encontrar sabores fortes ou predominância clara de qualquer aroma específico. O Royal Salute 21 anos busca universalidade. Em outras palavras, este é um blend desenhado para ser palatável e agradável a todos, mesmo a quem não tem o costume de beber whisky.

E não se preocupe muito se você já tiver comprado os presentes de natal para todo mundo. Compre um Royal Salute 21 anos mesmo assim. Remunere sua proatividade. Presenteie-se.

ROYAL SALUTE 21 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 21 anos

Marca: Royal Salute

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Floral e frutado. Não há qualquer traço de defumação.

Sabor: Adocicado, mel, frutas secas e frescas. Muito pouco apimentado. Se há defumação em qualquer dos maltes que o compõe, ela é imperceptível no produto final.

Com Água: Adicionar agua reduz um pouco o sabor apimentado (que já é discreto) bem como os demais sabores do whisky. O conselho deste Cão é tomá-lo puro.

 Preço: em torno de R$ 600,00 (seiscentos reais)

 

 

Drink do Cão – Green Gimlet

green gimlet

Uma improvável gota de suor escorrendo pela lateral das minhas costas não deixa dúvidas. Estamos quase no verão. O verão é a estação do ano em que tudo gruda. Cadeiras, maçanetas, o metrô, o corrimão da escada e seus braços.  E também aquele seu coleguinha, cujos braços também estão pegajosos, e a uma distância preocupante dos seus. No verão, tudo adquire uma aderência meio porca.

O verão é uma prova de enduro físico infinito, em que o troféu é não chegar azedo no final do dia. Ele tem, inclusive, um odor característico. É aquele aroma que está no táxi que você pegou, no vagão do metrô que você entrou e no elevador do seu escritório. É algo que lembra um refogado de alho, cebola e pimenta. Um refogado de alho, cebola e pimenta absolutamente asqueroso.

Talvez eu tenha chegado prematuramente à andropausa, mas o calor do verão é quase insuportável. Quase porque eu não tenho opção. Quando está frio, eu posso simplesmente colocar uma jaqueta ou malha. No calor não. No calor, a melhor opção é ficar nu. Mas isso eu só posso fazer em casa e, mesmo assim, correndo o risco de grudar no mobiliário.

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Amém!

Além disso, o calor deixa o whisky quente. E tudo bem beber whisky na temperatura do sétimo circulo do inferno. Mas, às vezes – só as vezes – o que realmente precisamos é de uma bebida refrescante. Algo meio cítrico, gelado. Algo que whisky puro certamente não é, infelizmente. Mas não há motivo para se desesperar. Ensinarei aos senhores a preparar um coquetel que leva whisky e que, ao mesmo tempo, é refrescante. O Green Gimlet, uma variação moderna do clássico drink com gim.

Mas antes, um pouco de história. Ninguém sabe muito bem quando o Gimlet original foi criado. Uma teoria é que teria saído das mãos do almirante Sir Thomas Desmond Gimlette, que serviu a marinha britânica entre 1878 e 1913, como médico. Gimlette teria criado o coquetel para prevenir o escorbuto – causado pela falta de vitamina C no corpo – misturando limão com gim, para mascarar o sabor azedo da fruta.

Daí surgiu também outro coquetel, o grogue. O grogue era, basicamente, o Gimlet, mas com a substituição do gim por outro destilado qualquer. Ele fora inventado porque apenas os oficiais mais altos da marinha tinham acesso a gim, sendo que os demais marinheiros bebiam qualquer coisa que estivesse disponível – especialmente rum.

O coquetel tornou-se realmente popular em 1953, com o lançamento do livro “The Long Goodbye”, pelo escritor norte-americano Raymond Chandler. No romance, o detetive e protagonista Phillip Marlowe torna-se amigo de um homem chamado Terry Lennox. Em comum, os dois possuíam o gosto por se embriagar. Especialmente de Gimlet.

A versão ensinada nestas páginas canídeas, entretanto, não é a original de Gimlette, nem a ilustrada no livro de Chandler. Mas é a de Michel Dozois, bartender responsável pela carta de coquetéis do restaurante Church & State em Los Angeles e pela empresa Névé Ice. Dozois, no entanto, é mais conhecido por ter produzido todos os cubos de gelo para a série Mad Men. É isso mesmo. A série tem um profissional cujo único trabalho é se certificar que o gelo no copo de Don Draper seja sempre perfeitamente cristalino.

Como disse antes, a escolha desta receita, sobre todas as outras, é óbvia. Ela leva whisky:

GREEN GIMLET

INGREDIENTES

  • 3-4 folhas de manjericão + 1 ramo (opcional)
  • 2 doses de whisky (este Cão utilizou um Glenfiddich 12 anos. Mas pode ser qualquer whisky que não seja muito defumado ou puxado para o jerez. Tente com um Glenlivet 12, ou mesmo com um blend como o Suntory Kakubin ou Famous Grouse)
  • 1 dose de sumo de limão siciliano
  • 2/3 dose de calda de açúcar (simple syrup – a receita está logo abaixo)
  • Gelo
  • Copo baixo
  • Coqueteleira
  • Strainer (a.k.a. peneira)

PREPARO

O Green Gimlet

  1. Amasse com a mão as folhas de manjericão. Você pode também picar as folhas, ou então usar um pilão para amassa-las, caso queira que o sabor do manjericão fique mais forte.  Seja como for, depois deste processo, jogue as folhas em uma coqueteleira com quatro pedras de gelo.
  2. Adicione as duas doses de whisky e uma dose de sumo de limão siciliano, bem como os 2/3 de dose de calda de açúcar. Chacoalhe até você ficar com calor ou por uns quatro segundos. O que vier primeiro.

    Chacoalhe como um cão!
    Chacoalhe como um cão!
  3. Em um copo baixo, coloque mais três pedras de gelo (ou, se tiver, uma pedra grande, daquelas esféricas). Despeje o conteúdo da coqueteleira no copo com gelo, utilizando o strainer para peneirar os pedaços de folha que ficaram na mistura.
  4. Decore com um ramo de manjericão.

Calda de Açúcar

  1. Em uma panela, coloque partes iguais de açúcar e água (1 de água para 1 de açúcar).
  2. Aqueça e mexa até que todo o açúcar tenha se dissolvido na água.
  3. Não reduza muito. Deixe esfriar.

Drops – Old Pulteney 12 anos

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Você já experimentou um whisky salgado? Então conheça o Old Pulteney. Sua destilaria, conhecida como a destilaria mais ao norte na porção “continental” da Escócia, fica na cidade de Wick.

Existe uma discussão séria sobre a origem do sabor salgado do Old Pulteney. Muitos afirmam que advém de sua maturação. Ele seria o resultado de anos e anos de ondas quebrando no litoral rochoso, ao lado da destilaria, e do efeito da maresia nos barris.

Entretanto, os mais céticos afirmam que, para que fosse possível efetivamente sentir sabor de sal, seria necessário adicionar litros e litros de água salgada diretamente dentro de cada barril. Para estes, o gosto salgado do Old Pulteney não é sal.

O old Pulteney é um whisky frutado, com sabor de nozes e castanhas. Mas não quaisquer castanhas. Castanhas salgadas. Bem salgadas. Tipo aquelas que você come de tiragosto, enquanto toma whisky.

E ainda que este Cão não tenha certeza de onde vem este sabor, uma coisa ele pode afirmar: É bom demais.

Solo Suite – Laphroaig 10 anos

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Hoje vou falar de coisa séria. Falarei de cultura. De música erudita. Falarei do Arvo Pärt (pronuncia-se Pért, caso você esteja se perguntando o que um trema está fazendo em cima de um “a”). Arvo Pärt é um compositor nascido na Estônia, em 1935, e vivo até hoje. Arvo é responsável por composições antológicas, que você certamente já ouviu. Certamente já ouviu, mas nunca soube que eram dele. O exemplo mais claro é Spiegel im Spiegel.

Spiegel im Spiegel – que, em alemão, significa espelho no espelho – foi composto por Pärt em 1978, logo antes de abandonar a Estônia. A composição figurou em filmes como Gerry, de Gus van Sant e Dans le Noir Du Temps, um curta-metragem de Jean Luc Godard que trata sobre, bom, é difícil dizer com certeza sobre o que trata o curta de Godard. Mas este Cão suspeita que seja sobre a morte do cinema como arte, em uma era que tudo vira mercadoria.

A peça clássica foi originalmente escrita para violino e piano, em um estilo chamado tintinnabuli. O estilo, criado pelo próprio Arvo, e cujo nome é uma onomatopeia que beira o ridículo, é caracterizado por duas vozes.  Ambas tonais. Uma delas, varia sobre a tríade tônica (a nota, sua terça, e sua quinta). A outra, se move diatonicamente. Normalmente, as composições possuem caráter minimalista, que se reflete também na performance e no tempo lento e reflexivo. Entenderam? Não precisa entender. Como isto é um blog sobre whisky e não sobre música erudita, vou facilitar a explicação. Segundo o próprio Arvo, tintinnabuli é como uma numa única nota, que quando tocada em silêncio absoluto e de forma bela, é suficiente para promover conforto quase inabalável.

Arvo, mesmerizado com um sino.
Arvo, mesmerizado com um sino.

De certa forma, o Laphroaig 10 anos poderia ser comparado ao estilo de composição. Na opinião deste Cão, nenhuma outra expressão da Laphroaig é tão representativa de sua personalidade quanto seu  10 anos. Ele é um whisky bastante defumado e medicinal, com final claramente salgado. É o que todo jovem whisky de Islay gostaria de ser – marcante e simples, sem exageros. E ainda que não seja minha expressão preferida, não dá para discordar que é um excelente single malt.

Além do 10 anos, a Laphroaig produz uma gama de whiskies diferentes. O Laphroaig Quarter Cask, por exemplo, é extremamente forte, defumado e picante. A expressão 18 anos, entretanto, é mais equilibrada e refinada. O Select é uma versão suavizada da Laphroaig, com menos defumação e mais sabor herbal. Já o 15 anos está no meio do caminho entre o refinamento do 18 e a força bruta do Quarter Cask. Há também versões maturadas em diferentes barricas, como QA, PX e Triple Wood. E, por fim, temos o An Cuan Mor que é, bem o An Cuan Mor é a versão engarrafada da Eva Green em Os Sonhadores. Simples assim.

A Laphroaig já foi extensamente revista neste blog. Como sabem – ou não – seus whiskies têm caráter defumado por conta do processo de secagem da cevada maltada utilizando uma fogueira abastecida por turfa (peat). Ela foi fundada em 1815, pelos irmãos Donald e Alexander Johnston, e comemora em 2015 seu ducentésimo aniversário. Atualmente, pertence à Beam-Suntory, juntamente com a Maker’s Mark, Bowmore, Auchentoshan, e, claro, os japoneses Hibiki, Hakushu e Yamazaki.

Aí vai uma curiosidade inédita. A Laphroaig é a única destilaria da Escócia que possui o Royal Warrant do Príncipe de Gales. Um Royal Warrant significa que, na teoria, aquela marca fornece um serviço ou produto de altíssimo nível para a corte real. Ou que a marca – a destilaria, no caso – é profundamente admirada por certa celebridade de sangue azul. No caso da Laphroaig, seu entusiasta é o Príncipe Charles. A expressão 15 anos da destilaria é seu whisky preferido.

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Bomdimais!

Charles gosta tanto da destilaria que, na visita que fez à Laphroaig para conceder-lhe o Royal Warrant, destruiu o avião que pilotava em um pouso desastroso, apenas para passar algumas horas a mais na destilaria. Na oportunidade, além de arrebentar uma aeronave de vinte e cinco milhões de dólares, destruir a cerca de uma fazenda e assustar mortalmente um rebanho de ovelhas, o príncipe provou quase o portfólio inteiro da destilaria. Sorte que o avião ficou inutilizado, porque se pousar sóbrio já foi difícil, imagino como seria decolar de lá embriagado.

De volta ao whisky em tela. O Laphroaig 10 anos é maturado principalmente em barricas de carvalho americano, que antes continham Bourbon whiskey. No caso específico da Laphroaig, a vasta maioria das barricas deste tipo vêm da Maker’s Mark, famosa produtora de whiskey dos Estados Unidos.

Dentre os prêmios colecionados pelo jovem whisky de Islay, estão medalha dupla de ouro na San Francisco World Spirits Competition em 2010, 2011 e 2013, e medalha de ouro em 2007 pela International Spirits Challenge – ISC.

Se você está pensando em comprar seu primeiro single malt defumado, ou se ainda não experimentou nada da destilaria, talvez sua melhor escolha seja o Laphroaig 10 anos. Ele é o Spiegel im Spiegel dos whiskies de Islay. A prova de que a simplicidade também pode ser elegante. O Laphroaig 10 anos é o príncipe de Islay.

LAPHROAIG 10 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 10 anos.

Destilaria: Laphroaig

Região: Islay

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: turfado e defumado. Leve aroma de algas.

Sabor: Início defumado e seco, com carvão, bacon e sal. Final levemente picante.

Com Água: Adicionar agua muda pouco o sabor do whisky. O final picante é reduzido, assim como a sensação de iodo.

 Preço: em torno de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais)

Seis Famosos que Adoravam Whisky

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Este post começará com uma declaração óbvia. Whisky é bom. Muito bom. E todo mundo gosta de coisas boas.

Se não fosse assim, todo mundo beberia apenas água e comeria semente de linhaça. E tudo bem para todo mundo, porque semente de linhaça é um alimento funcional, que contém uma porção de ômegas diferentes, além de proteínas e fibras. Além disso, como você deve – ou não – ter visto na televisão, você pode substituir qualquer coisa por semente de linhaça, por exemplo.

Mas a verdade é que nós gostamos de coisas boas. E, em estado líquido, é difícil que alguma coisa seja melhor do que whisky. Assim, é compreensível que grandes nomes da história e celebridades – que são gente como a gente – também apreciem este néctar.

Portanto, aí vai uma seleção especial de seis personalidades famosas que eram frequentemente vistas com um copo de bom gosto na mão.

VINÍCIUS DE MORAES

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O distinto cavalheiro que inspirou o nome deste blog era, certamente, um entusiasta do whisky. É incerto, entretanto, qual era sua marca preferida. Há boatos de que era Teacher’s. Ou Buchanan’s. Ou talvez White Horse. A verdade é o título de whisky preferido do poeta é disputado historicamente entre quase todas as marcas do destilado.

Mas a teoria mais provável – e que este Cão acredita – é que Vinícius gostava, simplesmente, de whisky. E se lhe fosse perguntado qual seu preferido, a sua resposta seria muito semelhante àquela deste que vos escreve: o próximo que tomarei, é claro.

MARGARETH THATCHER

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A Dama de Ferro era uma senhora surpreendente. Foi a primeira mulher a ocupar a cadeira de primeiro ministro do Reino Unido, e cujo mandato foi o mais longo desde o Jarl (Earl) de Liverpool. Thatcher também bebia whisky diariamente e Cointreau em ocasiões especiais (não deveria ser o contrário?). Sua assistente pessoal, Cynthia Crawford, revelou em um documentário sobre a vida da primeira ministra que, em certa oportunidade, ela lhe disse “Minha querida, você não pode tomar Gim e Tônica no meio da noite. Você precisa de whisky para lhe dar energia!”

Assim como no caso de Vinícius, a marca preferida de Thatcher é disputada entre Bell’s e Teacher’s. Mas vou aqui dizer que é a última. Assim posso novamente fazer aquela piadinha fraca, e dizer que seu nome poderia até mesmo ser Margareth Teacher’s.

IGOR STRAVINSKI

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Nosso terceiro famoso que adorava whisky é russo. Igor Stravinski foi um dos mais importantes compositores de música erudita do século XX. Igor era um homem inteligente, muitíssimo educado e com uma gama variadíssima de interesses. Um deles era beber.

Mas no caso do compositor russo, não será preciso qualquer esforço de minha parte. Ele mesmo se encarregou, com (péssimo) senso de humor, de eternizar seu gosto pela bebida. Uma de suas frases mais famosas é “Meu deus, eu gosto tanto de beber whisky que, as vezes, acho que meu nome é Igor Stra-whisky”.

FRANK SINATRA

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Não é segredo que Frank gostava de ir aos copos. Assim como os outros membros do Rat Pack, o ator e cantor nutria uma paixão especial pela coquetelaria e destilados. Frank era também um homem muito exigente quando o assunto era sua birita. Victor Gower, bartender principal do hotel Savoy, em Londres, disse em uma entrevista que Sinatra atentava para os mínimos detalhes em seu Dry Martini, como, por exemplo, o nível do líquido – vai que alguém foi menos generoso hoje? – e a temperatura do copo.

A marca de  whisk(e)y preferida de Frankie era Jack Daniel’s. Ele gostava tanto, mas tanto do Tennessee Whiskey, que a marca homenageou seu célebre ébrio com a edição especial “Sinatra’s Select”, já revista por este Cão.

MARK TWAIN

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Samuel Clemens, também conhecido como Mark Twain, foi um proeminente escritor norte-americano, cujas obras mais conhecidas são As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn.

Além de ser considerado um dos mais importantes romancistas dos Estados Unidos de todos os tempos, Twain é autor de duas das melhores frases sobre whisky já ditas.  Em uma tradução livre, são “Eu sempre tomo whisky escocês a noite para prevenir dor de dente. Eu nunca tive dor de dente, e vou lhe dizer mais, eu não pretendo ter também” e “Muito de qualquer coisa é ruim, mas muito de um bom whisky jamais é o suficiente”.

WINSTON CHURCHILL

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Churchill é o segundo político dentre os famosos que adoravam whisky. O posto de primeiro ministro do Reino Unido deve ser muito estressante. Churchill, mais conhecido por seu talento como estadista e gosto por charutos, não negava uma boa dose de whisky. Alegadamente, sua rotina gastronômica consistia em um café da manhã reforçado, um copo de whisky com água com gás ou água tônica as onze (sim, onze) da manhã e champanhe durante seu almoço.

Certa oportunidade, Churchill confessou que não gostava de beber água. Disse “A água não foi feita para ser bebida. Para que seja palatável, é necessário adicionar whisky. Em um esforço diligente, aprendi a gostar dela”.

Segundo relatos, a marca preferida de whiskies do primeiro ministro era Johnnie Walker.

Fumaça Negra – Johnnie Walker Double Black

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Este texto foi originalmente escrito pelo Cão para a Single Malt Brasil no começo de 2015. Mas coisas boas sempre devem ser relembradas. Afinal, recordar é viver.

Vou ser objetivo com vocês. Eu adoro qualquer coisa consumível que seja defumada. Isso inclui sólidos e líquidos. Quer me ver feliz? Faça um jantar que inclua, em algum momento, calabresa defumada, bacon ou salmão defumado. Ou os três. Com um bacontini. Sim, isso é um Martini com bacon.

Inclusive, há uns meses atrás, durante uma visita ao supermercado, achei que tinha feito uma descoberta que mudaria para sempre minha vida. Fumaça líquida. Fumaça líquida é uma espécie de essência, que você pode borrifar em cima de alimentos, para deixá-los com um certo aroma de fumaça. Ou seja, delícia líquida. Comprei logo dois vidros. Na minha imaginação, eu poderia defumar tudo agora. Pense em um hambúrguer defumado, com pão defumado, queijo defumado e alface defumado. Perfeito!

Não, não tem nada a ver. Mas a música é boa.
Não, não tem nada a ver. Mas a música é boa.

Meus primeiros testes com a fumaça líquida foram ótimos. Inclusive, fiz um espaguete com azeite, alho, pancetta, fumaça líquida e mais umas coisinhas que ficou bem decente. Só que aí eu comecei a ficar corajoso. E com a coragem, veio naturalmente a estupidez. Alguém aí já tentou iogurte defumado? Eu já, e é horrível.

Houve apenas uma coisa que eu não tentei defumar. Whisky. Não tentei porque, em um lampejo de consciência dentro da minha histeria defumatória, admiti que jamais produziria algo semelhante a, por exemplo, o Johnnie Walker Double Black.

O Double Black foi lançado em 2010, ano em que grande parte do porfólio da Johnnie Walker foi reformulado. De acordo com a marca, seu master blender, Jim Beveridge, teria utilizado o famosíssimo Black Label como ponto de partida, para posteriormente alterar sua fórmula, aumentando a participação de single malts provenientes da costa oeste da Escócia, famosos por seu aroma com caráter defumado. Essa história, no entanto, é apenas parcialmente verdadeira. Afinal, o Double Black utiliza whiskies mais jovens que seu irmão, e cobra mais por isso. Os maltes, entretanto, são realmente quase os mesmos.

Assim como o hambúrguer cem por cento bovino do McDonald’s, a composição exata dos single malts que compõe o Double Black é mantida em absoluto segredo. Entretanto, ao contrário da carne bovina, podemos especular que o Double Black contenha whiskys das destilarias Cardhu, Oban e Talisker, com uma generosa adição de Caol Ila e Lagavulin. Estes últimos provenientes da ilha de Islay, e famosos por seu aroma de fumaça. Bom, essa é uma hipótese. A outra é que Jim Beveridge borrifou fumaça líquida em um Black Label. Mas olha, se pudesse apostar, apostaria na primeira teoria.

O Double Black é um blend sem idade determinada. Ou seja, a garrafa não informa a idade do whisky mais novo na sua composição. Ainda que muitos considerem um demérito, o no-age-statement permite que se crie um produto mais consistente e regular, buscando sabores específicos, como é o caso do Double Black. Isso é uma tendência até entre single malts de peso, como o Dalmore King Alexander III e o Macallan Ruby  (e aí, ainda acha isso um demérito?).

 

Eca, que nojo.
Eca, que nojo.

 

No Brasil, um Johnnie Walker Double Black custa em torno de R$ 170,00 (cento e setenta reais). É um preço alto para um whisky que é, basicamente, o clássico Black Label, com a utilização de maltes mais jovens com uma pitada de delícia defumada. Entretanto, ainda que tenha este preço um pouco, diremos, desestimulante, o Double Black continua sendo um dos whiskies mais baratos vendidos no Brasil cujo sabor e aroma é predominantemente defumado.

Se você está começando no mundo dos whiskys com aroma de fumaça, e está buscando algo versátil e ao mesmo tempo com custo-benefício razoável, o Double Black é minha sugestão. Ou isso, ou compre um pouco de fumaça líquida e borrife sobre o mundo.

Boa sorte.

JOHNNIE WALKER DOUBLE BLACK

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutado, levemente cítrico, com caramelo e fumaça. Lembra molho barbecue.

Sabor: bem mais defumado que o aroma. Levemente picante, com final defumado e um pouco salgado.

Com Água: Adicionar água torna os sabores defumado e picante menos evidentes, e evidencia o caráter frutado e adocicado.

Preço médio: R$ 170,00 (cento e setenta reais)