O Cão Viajante – Whiskies para comprar no Duty Free

Sabe, eu adoro viajar. Conhecer lugares novos, cenários e culturas é uma coisa fantástica.  Cada viagem tem seus pontos fortes, seus charmes. Talvez sejam as ruas de uma bela cidade, as ruínas de uma antiga catedral ou mesmo a praia de areia fininha daquela ilha paradisíaca. Ah, e a gastronomia. Para um Cão como eu, que é absolutamente fascinado por tudo que pode ser deglutido, experimentar novos temperos é uma das melhores experiências do mundo. Tudo sobre viajar é ótimo. Exceto, claro, a parte de chegar ao seu destino. Voar é um saco. Só para esclarecer, não é que eu tenha medo de aviões. Eu não tenho. Não tenho qualquer temor que o avião entre em estol e se arrebente no chão, nem que exploda porque havia alguma rachadura microscópica na fuselagem, muito menos que algum terrorista resolva tomar conta da cabine usando aqueles talheres ridículos de plástico. O que me incomoda mesmo é o voo. Do ponto A ao ponto B, há horas de desconforto, câimbra e uma intimidade nem sempre desejada com o passageiro do lado. Isso sem falar no ar-condicionado. Todo tipo de moléstia – e odor corporal – transmissível pelo ar circula livremente. E esse mesmo ar […]

Drops – Talisker Port Ruighe

Você gosta de vinho do porto? E de whiskies defumados? Bem, se a resposta for afirmativa para as duas perguntas, provavelmente você se tornará apaixonado pelo Talisker Port Ruighe. Lançado em 2013 como uma das novas expressões do portfólio permanente da destilaria Talisker, o Port Ruighe é maturado em uma combinação de barricas que antes contiveram bourbon whisky e vinho jerez e finalizado em pipas (isso é um tipo de barril) que antes envelheceram vinho do porto. Daí o nome espertinho, que remete tanto ao vinho fortificado português quanto ao antigo porto comercial da ilha de Skye – Port Ruighe, atualmente denominado Portree – onde a Talisker se localiza. Aliás, falando nisso, Skye é um dos mais belos cenários de toda a Escócia. A ilha, considerada como a maior extensão de terra das Hébridas Internas, possui uma geografia dramática. Há grandes barrancos à beira do oceano e grandes picos rochosos, entremeados por campos verdes e montanhas. Não é a toa que Skye é considerado um dos mais desejados destinos de lua de mel para os escoceses que não querem sair de sua terra natal. Talvez por conta do cenário paradisíaco, ou talvez por ser um dos single malts mais conhecidos da Escócia, a […]

Drops – Glen Scotia Double Cask

Às vezes nomes infelizes escondem bons produtos. Foi o caso, por exemplo, do Ford Pinto. Um ótimo automóvel dos anos setenta. Quer dizer, ao menos as unidades que não entravam em combustão espontânea. Não sei quanto a você, mas se eu não soubesse o que é um Pinto – sem trocadilhos aqui, veja que escrevi com “P” maiúsculo – daria simplesmente uma risada meio debochada, e pronto. Seguiria com a vida sem jamais prestar o devido reconhecimento – não sei bem por que – àquele automóvel. Este é o caso também do single malt Glen Scotia, cretinamente batizado de “vale escocês” em gaélico. Um nome óbvio e com todo ar de produto de segunda. Mas, no caso do Glen Scotia, esta impressão não poderia estar mais equivocada. É que assim como Springbank, a Glen Scotia é uma das únicas três destilarias sobreviventes de Campbeltown, cidade que fora, por muito tempo, considerada a capital mundial do whisky. A região, que chegou a contar com trinta e quatro destilarias durante a década de cinquenta, hoje possui apenas três delas. Springbank, Glen Scotia e Glengyle. Esta última, ressuscitada apenas no começo deste século. O que, aliás, causa uma certa confusão entre os admiradores da região. Porque o single malt denominado […]

Mais seis personagens que amam whisky

No começo deste ano, resolvi que faria um exercício mental em forma de texto. Resolvi que, sem qualquer consulta à internet, e recorrendo apenas à minha – progressivamente decadente – memória, enumeraria alguns personagens do cinema e televisão que apreciam whisky. Se você perdeu este post, leia-o aqui.  Mas vou confessar uma coisa. Quando escrevi aquele texto, fiquei um pouco receoso em contar uma mania que tenho. Que é a de tentar identificar todos os rótulos de whiskies que aparecem em filmes, mesmo que borrados, desfigurados ou virados. Essa maluquice, com o tempo, se estendeu também para outras coisas, como séries de televisão e até documentários. Mas depois de refletir um pouco, resolvi que a contaria. Porque como já disse Caetano, de perto, ninguém é normal mesmo. Os dois primeiros dias que sucederam o lançamento do post foram de uma certa tensão. Achei que alguém pudesse identificar algum traço psicopático em mim, que, ao invés de condoer-me com os personagens, ficava preocupado com o que estava no copo deles. Mas, para minha agradável surpresa, não recebi mensagens de ódio ou oferta de ajuda profissional. Não. Pelo contrário. Muitos leitores confessaram que faziam o mesmo, e até apontaram inúmeros personagens que […]

Drops – Longrow 14 anos

Você já ouviu falar de Springbank? E Campbeltown? Esta última é uma cidade escocesa, que já foi conhecida como a capital mundial do whisky. O vilarejo já chegou a abrigar trinta distilarias distintas. Entretanto, por conta da recessão da década de 30 e a lei seca norte-americana – um dos maiores mercados consumidores na época – apenas três destilarias sobreviveram. Glen Scotia, Glengyle e, claro, a famosíssima Springbank.   A Springbank produz três linhas distintas de whisky. A primeira, homônima – Springbank – é muito levemente turfada. Já a segunda, Hazelburn, não possui qualquer defumação, e é triplamente destilada, dando origem a um whisky adocicado e extremamente leve. Já a terceira – batizada de Longrow – é o oposto da segunda. É um whisky bastante defumado e relativamente oleoso.   A Springbank é uma das únicas da Escócia que ainda faz sua própria malteação – em malting floors na própria destilaria – e engarrafa seus próprios whiskies. Aliás, cem por cento do processo é feito completamente “in-house”. Da malteação ao engarrafamento, tudo ocorre sob o teto da lendária Springbank.   Os primeiros Longrow foram destilados na Springbank em 1973, como uma experiência do então presidente da destilaria, que queria provar que […]

Drops – St. Austell Smuggler’s Grand Cru

Tá com frio? Que tal uma cerveja com graduação alcoolica de 11,5% e maturada em barricas de whisky para aquecer? Essa é a St. Austell Smuggler’s Grand Cru. A St. Austell Brewery, localizada em Cornwall, é uma conhecidíssima cervejaria inglesa, famosa por cervejas como as curiosamente batizadas Proper Job e Big Job que significam, numa tradução tosca, Trabalho de Verdade e Trabalho Importante. Assim, se alguém te mandar arrumar um “Trabalho de Verdade”, não se ofenda mais. Vá para o bar. A Smuggler’s Grand Cru é uma edição especial da St. Austell. É uma Belgian Strong Ale, maturada por até nove meses em barricas que antes continham o single malt da destilaria Tomintoul, de Perthshire. Após a maturação, a cerveja é engarrafada pelo método champagnoise – em que há segunda fermentação dentro da garrafa – na vinícola Camel Valley, também em Cornwall. O resultado é uma cerveja bastante complexa, que remonta açúcar mascavo, vinho, fumaça, baunilha e caramelo. Ela é levemente azeda por conta de seu processo de maturação, que a faz lembrar uma Lambic. Entretanto, este sabor é equilibrado pelas notas de baunilha e caramelo. A Smuggler’s Grand Cru pode ser encontrada em algumas lojas especializadas, como o Empório […]

O Cão Didático – Cereais usados no Whisky

Conhecimento é sempre bom. Mesmo sobre assuntos enfadonhos, como botânica. Esta foi minha conclusão após uma viagem com alguns amigos para o sítio de um deles, lá pelos meus dezoito anos de idade. Como quase todo adolescente recém-chegado à maioridade legal, nosso foco principal era beber. Beber qualquer coisa. Não tínhamos muitos critérios. Só podia ser natural. Afinal, não havíamos tido tempo de criar quaisquer critérios.  Nosso manifesto de viagem contava com umas quatro garrafas da vodka – da mais barata encontrada no supermercado local – bem como uma dúzia de engradados de uma cerveja que poderia ser definida, de forma muito benevolente, como a pior coisa que já bebi depois de gasolina (leia mais sobre isso aqui). Com o problema líquido solucionado, nosso próximo passo seria decidir o que comer. E ainda que a ideia de adquirir um estoque de salgadinhos fosse tentadora, em um lampejo de consciência, resolvemos que teríamos tempo de sobra para cozinhar. Assim, resolvemos preparar uma massa. Uma pequena caixa de spaghetti e alguns tomates dariam uma refeição decente e descomplicada. No primeiro dia, demos cabo de boa parte da cerveja e duas garrafas daquela maravilha cristalina destilada e – bastante animados – começamos a […]

Drops – Glenfiddich 125 Anniversary Edition

Quer saber como era o sabor dos whiskies há mais de 125 anos, na época em que grande parte das destilarias da Escócia foram fundadas? Então conheça o Glenfiddich 125 Anniversary Edition. Lançado como uma edição limitada para comemorar os cento e vinte e cinco anos de fundação da destilaria, o Glenfiddich 125 foi elaborado por Brian Kinsman – seu malt master – utilzando os mesmos métodos utilizados no século de sua inauguração. Como já explicado por aqui, no século dezoito, era muito comum que a cevada maltada fosse secada em uma fogueira de turfa (peat). Isso dava ao whisky um aroma turfado, de bacon, bastante característico. Este processo é até hoje reproduzido por muitas destilarias, principalmente aquelas localizadas em Islay, mesmo que poucas delas ainda produzam seu próprio malte. O Glenfiddich 125 é, na verdade, uma combinação de barricas de dievrsas idades, de Glenfiddichs defumados e não defumados, proporcionando complexidade e profundidade. A garrafa vem em um estojo de metal, com uma rolha especial de cobre e um certificado de autenticidade. Há também um pequeno livreto, que você pode usar para se distrair enquanto toma uma dose desta maravilha. O Glenfiddich 125 Anniversary Edition podia ser encontrado, até ano […]

Da Arqueologia e Evolução – Glenmorangie Lasanta

Essa semana fiz uma descoberta arqueológica em minha dispensa. Encontrei lá, escondido, num cantinho, atrás das caixas de Macallan Ruby e Glenlivet 18 anos, um panetone. Fechado, na caixa. Totalmente intocado. Uma reminiscência do de nosso último natal. Visualmente, estava intacto, ainda que aparentasse levemente ressecado. Não sei o que me levou a fazer isto. Mas, quando menos percebi, já provava um pedaço. E estava horrível. Não bastasse o leve aroma de gorgonzola que aquela peça arqueológica exalava, havia um exagero de frutas cristalizadas. Não passas. Eu até gosto de uvas passas. Mas uns perdigotos de frutas inominadas. Recobrei minha razão com a primeira mordida. Sério. Quem poderia, em sã consciência, colocar tantas frutas assim num panetone? O pior é que eu realmente, realmente gosto da massa do panetone. Há aquele sabor adocicado, leve, que às vezes remonta a especiarias e às vezes a baunilha. É quase um whisky em formato sólido. Felizmente, alguma mente fértil e com bom gosto idealizou algo que resolveria este problema. O Chocolate. Assim, nascia a versão aprimorada – ou melhor, corrigida – do panetone. O Chocotone. O Chocotone é a salvação para todos aqueles que – assim como eu – gostam muito da massa, […]

Drops – Glenmorangie Pride 1981

  Aí vai um whisky despretensioso para sua tarde de quarta-feira. Este é o Glenmorangie Pride 1981, maturado por 28 anos, uma das mais exclusivas e cobiçadas expressões da destilaria de Tain. A maturação do Glenmorangie Pride ocorreu em duas etapas. Em 1981, seu precioso líquido foi destilado e colocado em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Segundo Bill Lumsden, master distiller da Glenmorangie, a ideia teria sido produzir uma edição especial, maturada por 18 anos. Entretanto, em 1999, a Glenmorangie adquiriu uma pequena quantidade de barricas de carvalho que antes teriam sido usadas para envelhecer um dos mais famosos e caros vinhos sauternes do mundo, o Chateau D’Yquem. Ou seja, joias em forma de barril. Na posse dessas maravilhas, Lumsden então decidiu que produziria um whisky ainda mais especial. Transferiu o conteúdo das barricas de bourbon – que lá já descansavam por 18 anos – para aquelas de Chateau D’Yquem, e lá deixou por mais dez anos. Na época, o maior tempo de finalização (ou maturação extra) já praticada pela Glenmorangie. Segundo Bill “Percebi que se deixasse o whisky nas barricas por mais tempo, sabores resinosos, picantes e de taninos do carvalho francês poderiam começar a […]