Hiperatividade – Jura Origins 10 anos

Sabe, eu sou uma pessoa mais ou menos hiperativa. Para mim, ficar preso em algum lugar sem possibilidade nenhuma de inventar alguma coisa para fazer é quase uma sentença de prisão perpétua. Meu dia ideal é aquele com a agenda limpa e uma miríade de possibilidades. E, para isso, viver em uma cidade grande é excelente. Afinal – resguardado o limite do bom senso e da moralidade – posso fazer praticamente o que tiver vontade. Há infinitos restaurantes, milhares de bares, centenas de cinemas, dezenas de museus e parques. Talvez tenha acordado com a estranha vontade de praticar pelota basca pela primeira vez. Sem problemas, conheço um clube que possui uma quadra. Em oposição, um lugar que não oferece tantas possibilidades me assusta. A proverbial ilha deserta, no meu caso, seria um castigo maior do que a morte. Ainda que eu pudesse levar aquele meu livro e a tal única garrafa de whisky. Porque, afinal, o que eu faria com meu dia após terminar a leitura e secar a garrafa? Bem, se eu fosse Archibald Campbell, e vivesse no século dezenove, eu saberia exatamente o que fazer. Eu fundaria uma destilaria de whisky. Afinal, na lógica de Campbell, nada melhor para […]

Drink do Cão – Blood and Sand

Caso você já acompanhe este blog há algum tempo, terá certamente percebido que uma das minhas paixões – além de whisky – é cinema. Por isso, muitas vezes, costumo relacionar filmes e whiskies. E nem sempre essa é uma tarefa fácil. Os pontos de tangência podem não ser muito claros, e, para ser absolutamente franco, na maioria das vezes, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas no caso do Blood and Sand, coquetel que ensinarei vocês a preparar, eu não precisei fazer nenhum esforço. É que o nome do drink é uma homenagem a um filme mudo homônimo, de 1922, dirigido por Fred Niblo. A película, por sua vez, baseia-se num livro – Sangre y Arena – de Vicente Blasco Ibáñez. A história do filme é curiosa. Ela acompanha Juan, um menino que, contrariando o desejo de sua mãe, torna-se um toureiro. Durante sua ascensão à fama, Juan casa-se com Carmen, sua paixão de infância. Só que mais tarde, ao atingir o status de celebridade nacional, conhece Dona Sol, uma proeminente dama da alta sociedade, e se vê tendo que fazer a difícil escolha entre duas mulheres maravilhosas. O amor por Carmen é sério e acolhedor, enquanto […]

Drops – Glenfiddich Reserve Cask

Você gosta do Glenfiddich 15 anos? Então talvez seja a hora de pegar um avião para ter a oportunidade de experimentar o Glenfiddich Reserve Cask, a expressão intermediária da Glenfiddich Cask Collection, exclusiva para lojas de freeshop de terminais de aeroportos internacionais. As duas outras expressões são o Select Cask (maturado em barricas de carvalho europeu e americano, de ex vinho jerez, vinho tinto e bourbon) e o Vintage Cask, levemente defumado. O Glenfiddich Reserve Cask é inicialmente maturado em barricas de carvalho europeu que antes continham vinho jerez. O conteúdo dessas barricas é então reunido em um enorme tanque de carvalho, conhecido como Solera Vat – processo que ocorre de forma semelhante com o Glenfiddich 15 anos. De acordo com a própria Glenfiddich “desenvolvido por nosso quinto Malt Master, David Stewart, o processo de solera foi inspirado pelos produtores de jerez espanhóis. Barris individuais são escolhidos a dedo por seu sabor, antes de serem reunidos na Solera Vat, especialmente construída, produzindo um single malt incrivelmente complexo e rico. A Solera Vat é sempre mantida cheia, ao menos, até a metade, durante todo o processo, o que assegura um sabor consistente e balanceado“. A Glenfiddich Cask Collection foi desenvolvida pelo […]

Da Padronização – Port Charlotte Scottish Barley

Esses dias me vi com a agenda limpa. Não fazia a mais rasa ideia do que fazer. Assim, naturalmente – após abrir a geladeira algumas vezes para pensar – resolvi que faria uma maratona cinematográfica. O Netflix prontamente me apresentou infinitas opções. Absolutamente tudo, menos qualquer coisa que tinha vontade de assistir. Assim, resolvi que veria algo que não demandasse qualquer esforço. Escolhi um filme do Jason Statham. Linha de Frente. Depois outro, Parker. E o derradeiro foi – apropriadamente batizado – Redenção. E após assistir os três filmes, saí com a desagradável sensação que eram todos iguais. Um agente secreto ou ex-fuzileiro, que tinha que matar todo mundo para resgatar alguém. Uma menina desconhecida, ou sua filha, ou sua própria dignidade. E aí fiquei pensando, esses filmes são assim iguais de propósito. Recheados de ação, mas sem muita surpresa. Isso os torna previsíveis, semelhantes e, consequentemente, meio monótonos. Há uma fórmula que eles seguem. E até é divertido ver o Jason Statham destruindo tudo, mas, depois de um tempo, você percebe que se tiver assistido um filme, terá seguramente já visto todos eles. Grande parte da indústria do whisky não escapa muito à regra. Com o crescente consumo mundial, […]

Sidras Épo Morada (e Fumaça Sídrica)

  Às vezes temos que nos aventurar em novos territórios. Sair da zona de conforto e conhecer algo novo. Isso nos torna mais experientes e destemidos. E, principalmente, mais versáteis. E foi com este espírito que, a convite da BeerManiacs – os mesmos iluminados responsáveis pela importação das cervejas Harviestoun e Brooklyn Brewery – compareci ao lançamento da primeira linha de sidras (é, pô, com S mesmo) artesanais brasileiras, produzidas pela Morada Cia. Etílica, de Curitiba. O evento aconteceu na quarta-feira, dia 10, no Instituto da Cerveja Brasil – ICB. Caso você não saiba, ou caso você ainda ache que sidra é aquela bebida meio rejeitada, que fica lá na prateleira debaixo dos vinhos no supermercado, o Cão explica. Sidras são bebidas fermentadas de maçã. Mais especificamente, no caso das sidras da Morada, maçãs Fuji e Gala, cultivadas na serra gaúcha e de Santa Catarina. Fora do Brasil, são bem famosas e muito frequentes nos pubs ingleses, ao lado das lagers e ales britânicas. Batizadas simpaticamente de Épo – uma brincadeira com o nome da fruta que lhe dá origem em inglês, apple – são três rótulos. Um deles leva abacaxi e hibisco em sua receita; a outra lúpulo, à moda das cervejas; e, a última, […]

Das Lacunas – Ballantine’s 17 anos

  Do que você gosta? Imagino que whisky seja uma resposta óbvia, já que está lendo este blog. Mas quais seus outros interesses? Muitas vezes por aqui já disse que cultura é sempre bom, cultura nunca é demais. Mas como todo ser humano, às vezes não sigo o que penso. Há assuntos que – talvez por preconceito, talvez por preguiça – definitivamente não me interessam. Sou incapaz de falar sobre novelas. A última que assisti foi Rei do Gado. Não tenho a menor condição de conversar sobre moda feminina, e os dois ou três nomes famosos que memorizei de música sertaneja não prestam nem para seis minutos de conversa sobre o assunto. Ah, e futebol. Eu e um bidê temos conhecimento equiparável sobre futebol. Já cinema, carros e whiskies (claro) é outra história. Aliás, whiskies não. Qualquer coisa que seja minimamente potável e que contenha alguma proporção de álcool. São assuntos que naturalmente me fascinam. Mas mesmo aí, mesmo nestes inebriantes (às vezes literalmente) assuntos, há lacunas. Lacunas que prometo a mim mesmo preencher o quanto antes, mas que, novamente por preguiça ou preconceito, não o faço. E ter um blog sobre whisky não ajuda. Não ajuda porque com ele, […]

Drops – Bruichladdich Organic Barley

  Quando ouço falar de comida orgânica, logo penso naqueles vegetais chochos e maltratados, aquelas batatas meio acinzentadas e alface murchinha. Ou na Bela Gil. Na Bela Gil, recomendando substituir alguma coisa deliciosa (como sei lá, bacon crocante) por algo detestável (tipo chips de abobrinha desidratada). Desenvolvi naturalmente uma certa resistência preconceituosa a tudo que é orgânico. Uma exceção, porém, é o Bruichladdich Organic Barley. Produzido em Islay, região da Escócia muito conhecida por seus whiskies com caráter defumado, o Organic Barley é uma criação curiosa. Não há qualquer traço de turfa em seu aroma ou sabor. Mas isso não é novidade para aqueles que conhecem a destilaria Bruichladdich. Ela é, seguramente, uma das mais corajosas destilarias escocesas. Talvez por isso se auto denominem “Progressive Hebridean Distillers” – ou algo como “Destiladores Progressistas das Hébridas”. A cevada, utilizada como matéria prima para a produção do Bruichladdich Organic Barley provém inteiramente de três fazendas certificadas: Mains of Tullibardine, Mid Coull e Coulmore. Segundo a própria Bruichladdich “nos tempos vitorianos, quando a Bruichladdich foi construída, toda cevada escocesa era cultivada de forma orgânica. A relação entre o destilador, o fazendeiro e o solo era íntima e duradoura. Estes laços foram perdidos à medida […]

Sobre Prioridades – Glen Moray Classic

Devemos ter prioridades. Foi a frase dita a mim por meu pai, em tom de negação, quando lhe disse que preferia continuar jogando videogame a ir à escola. E apesar de ter entendido seu sentido muito bem, fingi que não. Ou melhor, resolvi que iria adaptá-lo. Assim, para mim, a necessidade de ter prioridades tornou-se a justificativa para não fazer tudo aquilo que não queria, e – em grande parte das vezes – para justificar algo que desejava. Assim, meu conjunto de prioridades durante a infância englobava tudo aquilo que fosse comestível, e era excludente de todo tipo de higiene pessoal e atividade acadêmica forçada. Outras prioridades, além de comer, incluíam ler, assistir filmes, jogar videogame, procrastinar e contemplar o teto de meu quarto. Quando comecei a apreciar whisky, estabeleci também algumas prioridades. E os single malts da Glen Moray nunca estiveram entre elas. Por algum motivo, possuía pouca curiosidade sobre aquele whisky e, apresentada uma situação em que eu pudesse optar entre ele e um single malt conhecido, minha escolha sempre pendia para o segundo. Por conta disso, demorei muito tempo até experimentar o Glen Moray. A primeira vez foi na Escócia, em um bar próximo à sua destilaria. […]

Drops – Macallan Estate Reserve

Sabe o que James Bond e Harvey Specter tem em comum? Bem, além do terno? Ambos têm como whisky preferido o single malt The Macallan. No Brasil, podemos encontrar três das quatro expressões da The Macallan 1824 Series – o Amber, Sienna e Ruby, todos já revistos nestas páginas caninas. No entanto, além deles, caso você esteja de passagem em algum aeroporto brasileiro com destino para o exterior, poderá encontrar outras expressões da destilaria – Select Oak, Whisky Maker’s Edition, Estate Reserve. Estas são três dos cinco whiskies da 1824 Collection, que também conta com o The Macallan Oscuro e o raríssimo Limited Release MMXII. O Estate Reserve é a versão mais exclusiva da destilaria em nossos aeroportos. Sua composição inclui uma parcela de barricas de carvalho espanhol selecionado que antes foram usadas para envelhecer vinho Jerez – muitas delas, usadas pela primeira vez para whisky. A graduação alcoólica é sensivelmente mais alta do que a tradicional: 45,7%. Além disso, ele não é filtrado a frio, tornando-o bastante oleoso, marca registrada da destilaria. The Macallan é – com razão – um dos single malts mais respeitados do mundo. O cuidado com os detalhes em todo o processo produtivo chega a […]

O Cão Viajante – Whiskies para comprar no Duty Free

Sabe, eu adoro viajar. Conhecer lugares novos, cenários e culturas é uma coisa fantástica.  Cada viagem tem seus pontos fortes, seus charmes. Talvez sejam as ruas de uma bela cidade, as ruínas de uma antiga catedral ou mesmo a praia de areia fininha daquela ilha paradisíaca. Ah, e a gastronomia. Para um Cão como eu, que é absolutamente fascinado por tudo que pode ser deglutido, experimentar novos temperos é uma das melhores experiências do mundo. Tudo sobre viajar é ótimo. Exceto, claro, a parte de chegar ao seu destino. Voar é um saco. Só para esclarecer, não é que eu tenha medo de aviões. Eu não tenho. Não tenho qualquer temor que o avião entre em estol e se arrebente no chão, nem que exploda porque havia alguma rachadura microscópica na fuselagem, muito menos que algum terrorista resolva tomar conta da cabine usando aqueles talheres ridículos de plástico. O que me incomoda mesmo é o voo. Do ponto A ao ponto B, há horas de desconforto, câimbra e uma intimidade nem sempre desejada com o passageiro do lado. Isso sem falar no ar-condicionado. Todo tipo de moléstia – e odor corporal – transmissível pelo ar circula livremente. E esse mesmo ar […]