Oscars 2023 – Relacionando filmes e Whisky

Este é um post sazonal. Para ler as edições passadas, de 2017 , 2018 e 2020 clique nos mencionados aqui.


Todos somos, em algum nível, hedonistas. O que mais muda, é a espécie de prazer. Não sou muito de grandes festas. Nem de shows. E ainda que adore sair, tenho uma séria tendência à eremitania. Aliás, tive que abrir um bar para descobrir o quanto eu gosto de ficar em casa. E nesse clima, facilmente minhas atividades preferidas são beber e ver filmes. Daí que surgiu a primeira edição deste post. De minha necessidade de relacionar duas coisas que amo mas não tem relação direta.

Quer dizer, médio. Provar um whisky novo é, de certa forma, como assistir um filme. Há uma abertura – seja ela metafórica ou física – que eleva, ou reduz, todas as expectativas. Já as primeiras imagens, assim como o aroma, indicam a atmosfera que encontraremos. E à medida que a história se desenrola e tomamos o primeiro gole, os pequenos detalhes aparecem. Referências, sentidos. Aroma e paladar em um, luz e som no outro. É quase complementar.

A verdade é que a arte e a bebida têm mais em comum do que imaginamos. Ambas exigem paciência, dedicação e precisão para se alcançar a perfeição. E é exatamente isso que vamos explorar hoje, nesta jornada sensorial que une a sétima arte ao universo dos whiskies. Escolhi quatro filmes indicados aos Oscars de 2023 – dessa vez, vi todos! – e os relacionei com seus pares líquidos.

Prepare-se para degustar os sabores mais refinados do cinema. Ou não.

Top Gun: Maverick

Antes de mais nada – inclusive, antes de assistir o filme – é importante deixar uma coisa clara. Top Gun: Maverick, não é sobre aeronaves. Ou guerra, ou bombas. Ou o clássico deus-ex-machina, drones versus talento humano ao comandar um caça. Estes elementos são meras formalidades para ressaltar seu real tema. O Tom Cruise.

E tudo bem, porque o cara, com sessenta anos de idade, dispensou dublês e assumiu um papel que ele mesmo, trinta e cinco anos atrás, provavelmente faria pior. Ou não. Se você pensar, há também outro tema escancarado: o poderio bélico das superproduções cinematográficas norte-americanas. Top Gun: Maverick só poderia mesmo ser feito nos EUA. Não faria sentido qualquer outro país produzi-lo. Por isso, ele é, o que seria Tom Cruise se fosse whisky. Jack Daniel’s.

Banshees of Inisherin

Banshees of Inisherin é dirigindo por Martin McDonagh – o mesmo cara de Three Billboards e In Bruges. E, na opinião deste Cão, bem melhor do que eles. Ele conta a história de dois irlandeses que vivem na ilha imaginária (não para o filme) de Inisherin. Padraic (Colin Farrell), é um criador de gado, e Colm (Brendan Gleeson), um violinista taciturno.

Inisherin não é exatamente um lugar fervilhante, cheio de coisas para fazer. Então, Colm e Padraic passam as suas tardes na estalagem local – eu não chamaria aquilo de um pub – bebendo Guinness e fazendo small talk. Fizeram isso por anos, até que Colm, unilateralmente, declara que não gosta mais de Padraic. Este, incrédulo, começa uma campanha para ganhar novamente a amizade do músico – com resultados um tanto improváveis.

O filme apresenta uma série de discussões interessantes, como mortalidade, isolamento, solidão, ego e herança – cultural, mais do que material. Há um ar de fábula, também, e um leve toque histórico. Mas é a construção dos personagens e o cenário inegavelmente irlandês que ganham o espectador. Se Banshees fosse um whisky, seria um Redbreast – irlandês raiz, com um toque de refinamento e uma leve irreverência. Jameson? Não vejo Colm e Padraic num festival de música megalomaníaco.

Avatar: O caminho das Águas

Quinze minutos. O que matam, são os quinze minutos, porque depois de três horas assistindo um filme sobre smurfs aquáticos, cada segundo da sua vida é precioso. Não há nada novo sobre Avatar: O Caminho das Águas. O papo é o mesmo de 2009, assim como os efeitos visuais – que eram ótimos e melhoraram substancialmente, mas, agora, não impressionam tanto mais.

Mas o filme tem seus predicados, também. Ele é feito para agradar a todos. E apesar de durar uma era geológica (será que Pandora já continua um megacontinente?), consegue atingir seu objetivo. Com duas horas a menos, seria bem divertido. Ele é didático, também. Por exemplo, quando um personagem está animado, ele faz “woohoo”. Quando fica aborrecido, grunhe. Por conta de sua didática, e da tentativa de agradar a todos, diria que Avatar é um Buchanan’s 12. Mas que fique claro – prefiro muito mais beber o whisky do que rever essa obra. A primeira, eu faço sem esforço.

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo

Eu tenho opiniões relativamente impopulares, como, por exemplo, não ser fascinado por Nutella, não ligar muito pra pizza e detestar frango, mesmo aquele frango da televisão de cachorro. Mas acho que essa corre o risco de causar mais polêmica. Eu me esforcei muito para gostar de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo – doravante simplesmente referido como “Tudo”, para fins sintético e estéticos deste texto – mas não rolou.

O filme tem vários elementos legais. A temática inclusiva, por exemplo. E as referências cinematográficas: 2001, Matrix, os Goonies e até “In The Mood for Love” de Wong Kar-Wai. Mas, é também justamente o que o título prega. É uma farofa que se espalha por sua duração de uma forma meio maluca, sem sentido e acaba virando um troço automaticamente e imediatamente esquecido no momento que os créditos começam a rolar.

Se fosse um whisky, Tudo não seria um só. Seriam vários. Tipo aquela infinity bottle, que você fica misturando os restinhos das suas garrafas. Tem single malt, tem bourbon, tem whisky defumado, tem blend. É gostoso, é divertido, mas é também uma bagunça meio sem sentido.

6 perguntas para Luciana Lamas – Sócia da Lamas Destilaria

Publicado originalmente em 1969, o livro mais famoso de Mario Puzo permaneceu no topo dos Best-Sellers do New York Times por mais de um ano. Foram vendidas mais de dez milhões de cópias. A obra também deu origem a uma notável trilogia de filmes, que talvez você conheça. Eu nem preciso falar o nome, assistir é quase uma oferta que não se pode recusar.

A dúvida de Michael em assumir os negócios da família é justificada. Especialmente porque envolvem traição, manipulação, chantagem e assassinato. Apesar disso, o rapaz parece ter um talento nato para o ramo, com frieza e calculismo. Tradição era a chave, mas a inovação trazida por Michael foi a que garantiu a sobrevivência de sua família num ramo bem pouco ortodoxo.

No caso da Lamas Destilaria, fundada por Marcio Lamas em Minas Gerais, a transferência da batuta foi bem mais tranquila. Afinal, a natureza do negócio envolvia entusiastas de whisky, e não a máfia siciliana. Inobstante, há uma dificuldade latente. A de seguir com a tradição da destilaria, mas procurar sempre inovação.

Um dos primeiros engarrafamentos do Lamas Nimbus

E é exatamente isso que vamos conhecer hoje. Nessa entrevista com Luciana Lamas, sócia da destilaria, vamos descobrir como a tradição familiar se mistura com inovação para produzir o que este Cão poderia definir como “craft whisky brasileiro”. Então, pegue um copo, sente-se confortavelmente e prepare-se para uma viagem pelo mundo das tradições familiares. E do whisky, óbvio.

Luciana, um prazer ter você aqui hoje conosco, neste auditório virtual! Me conta um pouquinho sobre a Lamas? Como surgiu a ideia de abrir uma destilaria de whisky?

Ei Maurício! Obrigada por me receber aqui. O prazer é meu (só é uma pena que não dá para tomar um “Deus e o Diabo” enquanto batemos esse papo, haha).

Bom, falar da Lamas é algo que me emociona e me enche de orgulho. Nós somos uma destilaria familiar mineira que surgiu inicialmente como um hobby a partir da união de 3 irmãos por uma paixão em comum: as bebidas, mais precisamente o whisky.

Tudo começou de forma bem amadora, mas o perfeccionismo e o desejo de se desafiar são traços de família que acabaram por transformar essa aventura no que hoje é uma empresa séria e comprometida com um vasto portfólio de bebidas destiladas que já somam mais de 50 prêmios conquistados nos mais diversos concursos ao redor do mundo. De todos essas premiações, mais de 40 pertencem aos nossos whiskies!

Como você se envolveu na Lamas?

No início de 2019 eu percebi que a Lamas estava começando a nascer enquanto negócio e que o que se originou como um sonho de 3 irmãos precisaria contar com o apoio de mais pessoas. Quando eles optaram por dar o sobrenome da família à empresa foi como se eu ouvisse um chamado! Foi nesse momento que eu me envolvi, inicialmente assumindo a parte do digital com as mídias sociais e, posteriormente, assumindo também o marketing e o e-commerce.

A responsabilidade dobra de tamanho uma vez que hoje os 3 fundadores passaram o bastão para mim e meus irmãos. Nós temos uma longa trajetória pela frente e muito o que aprimorar para sofisticar ainda mais a nossa operação e potencializar a experiência do nosso consumidor com a nossa marca e produtos. Cada nova conquista nos motiva a querer, cada vez mais, compartilhar a nossa história e produtos com outros apreciadores da bebida.

Alguns whiskies da linha permanente da Lamas, com nosso Caledonia III.

Qual a maior dificuldade de uma destilaria de whisky no Brasil?

O segmento de bebidas é brutalmente competitivo e o mercado é, de forma geral, dominado pelas grandes marcas.

Nós somos uma destilaria muito pequena de modo que a economia de escala é bastante desfavorável quando nos comparamos com as gigantes multinacionais do segmento de bebidas. Alia-se a isto a alta carga tributária sem incentivos fiscais no caso das destilarias nacionais. Tudo isso torna a disputa por mercado e espaço nas prateleiras algo extremamente moroso.

Contudo, é incrível ver que existem pessoas e empresas que estão vorazmente interessados no trabalho que fazemos aqui e que mesmo com tantas marcas tradicionais e consagradas há espaço para o que é novo e diferente. Poder ser um dos agentes disruptivos causadores dessa quebra de paradigma e ajudar a colocar o Brasil no mapa dos produtores de whisky tem valor imensurável.

Defina pra gente em umas poucas (ou muitas!) frases a Destilaria Lamas. Qual a essência da Lamas?

A Lamas prima pelo novo, sem abrir mão da qualidade. Eu diria que a ousadia está no nosso DNA e, por isso, fazer o mesmo que a Escócia já faz tão bem há mais de 500 anos, nunca foi uma opção. O caminho que mais nos atrai é a inovação, a raridade. O compromisso de atingir padrões sensoriais de excelência e que satisfaçam o gosto dos nossos seletos e exigentes clientes.

Além disso, estamos em um estado que tem como marca a qualidade e tradição. Minas Gerais se destaca na produção de bebidas e comidas, na cultura e no artesanato. Essa raiz da qualidade, do valor da produção artesanal, da busca pela perfeição é algo que vimos desde cedo em nossa família e entorno. É com esse cuidado que produzimos tudo aqui. Das montanhas de Minas, já saíram muitas joias e queremos produzir aqui ainda mais raridades.

Alambique da Lamas

Atualmente, a Lamas tem um portfólio bem diversificado. Rum, whisky, gim. Vocês tem planos de expandir este portfólio no futuro?

Sim! Muitos planos, inclusive. Além de nos propormos a trazer sempre alguma inovação em edições limitadas, especialmente na nossa linha de whiskies, uma outra vertente que já estamos testando são as bebidas mistas (tipo licores) e drinks prontos para consumo (RTDs). Ainda são “cenas dos próximos capítulos”, então não vou me delongar muito por enquanto.

Last, but not least. Qual seu produto preferido da Lamas?

Essa pergunta acaba comigo sempre! Haha Vou revelar um “segredo” que talvez não seja tão secreto assim… Eu, particularmente, não tenho o hábito de consumir bebida alcoólica, especialmente destilados. Nesse sentido, eu sou mais da turma do vinho e do espumante.

Contudo, eu frequentemente degusto os rótulos da Lamas (ossos do ofício) e sempre que tenho a oportunidade de ir ao Caledonia me divirto com a carta de drinks (talvez esse seja um momento propício para lembrar o amigo leitor: coma o seu garnish), mas devo admitir que o rum Norma Ouro tem um lugar especial no meu coração!

Coma seu garnish SEMPRE! Exceto se ele for algodón. Muito obrigado por seu tempo, Luciana! Na próxima, será com nosso Deus e o Diabo!

Wild Side – Film Noir

eu não me importo em ter uma quantidade razoável de encrenca” disse Samuel Spade, o investigador vivido por Humphrey Bogart em O Falcão Maltes. Este filme, junto com “The Big Sleep”, foi o embrião do film noir. A receita, hoje, é conhecida – há um tênue cordão invisível que liga todos os elementos, e que se torna evidente apenas no momento final. Um assassinato misterioso. Um detetive ébrio e com problemas de sociabilização. Uma grande cidade, controlada por uma elite corrompida e gananciosa. E tudo de bom: medo, culpa, cinismo, paranoia, insegurança e desolação.

Apesar do cenário macambúzio (vai lá investigar), há algo de reconfortante nos film noir. Gostamos de mistérios e soluções. Observar uma enorme conspiração ser cuidadosamente desvendada por um detetive resoluto – mesmo que tal perseverança às vezes tenha como combustível o álcool – é catártico. Do clássico americano Falcão Maltês ao coreano neo-hitchcockiano Decision to Leave. Vista do sofá, a quantidade razoável de encrenca é uma delícia.

Apesar da sujeita, escovar os dentes é importante também no genero noir.

Eu, como um cinéfilo apaixonado pelos dois gêneros – noir e investigativo – também não me importo de ter uma quantidade razoável de encrenca. Ainda mais quando o objeto de minha investigação é líquido. E, quando recebi, sexta-feira pela manhã, misteriosamente, uma garrafa de um whiskey americano chamado Wild Side, sabia – assim como Spade – onde estava me enfiando. Um entusiasta e um whisky misterioso, recém-chegado à lúgebre metrópole paulistana. Ah, é disso que os sonhos são feitos, diria um famoso detetive.

Primeiro, ao que sabemos do mistério. O Wild Side é um corn whiskey americano. E só. De onde veio, quem o produziu e como são mistérios à altura de um Sportello. Procurar por seu nome na internet, ou interrogar possíveis suspeitos por sua chegada traz pouco esclarecimento. Mais curioso, ainda, o fato de que não há no rótulo frontal, claramente, quem é o produtor de tal artefato. Coube a este Cão farejador descobrir. Leia até o final, porque há uma teoria interessante!

Um pequeno preâmbulo para endereçar a dúvida latente, mas silenciosa. O Wild Side é um corn whiskey, mas não um bourbon. A legislação americana – talvez num momento de inspiração brasileiro – sobre o assunto é confusa. A definição de corn whiskey possui uma intersecção com a de bourbon. Ocorre que, de acordo com o Code of Federal Regulations “bourbon” deve possuir 51% ou mais de milho em sua mashbill. Corn whiskey, por sua vez, tem seu mínimo estabelecido em 80%.

Outros Corn Whiskeys (mais) conhecidos

A lógica diria, então, que, de cinquenta e um a oitenta por cento, temos bourbon. De oitenta para cima, corn whiskey. Seria lindo e tão límpido quanto everclear (já chegaremos lá, guarde essa pista). Entretanto, não é assim. Bourbon pode ter qualquer percentual de milho, de cinquenta e um a cem por cento. Corn, de oitenta a cem. O que os separa, na verdade, é a regra da barrica.

Bourbons, de acordo com o Code of Federal Regulations, devem ser maturados em barricas de carvalho americano virgens e torradas. Corn whiskey não. Corn whiskey pode maturar em barricas que antes contiveram bourbon – o que é mais comum. Ou em barricas virgens não torradas – o que é bem maluco, e desafia a razoabilidade de um sujeito que queria vender algo assim, por isso, quase não existe.

De volta ao mistério. Resolvi recorrer à primordial fase bucal para seguir com minhas investigações. Abri a garrafa e servi uma dose. O aroma é adocicado e alcoolico. Na boca, há notas de caramelo, mel e baunilha. É pouco apimentado – menos do que um bourbon médio – o que talvez torne seu álcool mais aparente. Observei, com cuidado, a embalagem, enquanto degustava o whiskey.

E foi aí que aconteceu. Como em muitos film noirs, a pista mais preciosa estava evidente desde o começo. O rótulo lateral do whiskey. Ele diz, em letras bem diminutas, que fora produzido pela Clear Springs Distilling Company, localizada em 10101 Linn Station Road. Pouco conclusivo, ainda. Graças à tecnologia (obrigado, Google Maps), porém, descobri que o endereço, pertence à Sazerac Company. Então a Clear Springs pertence à Sazerac! Ah, essa é parte da solução! A grande corporação! Mas, de onde veio o whiskey?

Um pouquinho mais de pesquisa revela que a destilaria tem também outros produtos, como um álcool neutro de cereais, com 85% ABV – uma espécie de everclear. E um bourbon, chamado Chestnut Farms. Quase dei um pulo de animação. O Chestnut Farms é feito pela Barton 1792, destilaria localizada no Kentucky, comprada pela Sazerac Company em 2020. Clear Springs é um “nome fictício” utilizado pela Sazerac. E sabe o que mais a Barton 1792 fazia, antes de ser comprada? Pausa dramática.

The stuff dreams…

Um “American Whiskey” chamado Early Times (obrigado, Rodolfo Bob, por lembrar desta maravilha e apresentar a teoria!) Por conta das regras do Code of Federal Regulations, o Early times não era considerado bourbon – especialmente por conta do emprego de barricas previamente usadas. Diz-se que, inclusive, a água usada no Early Times é filtrada em pedra calcário. Imaginem minha surpresa ao ler no rótulo do Wild Side que ele é “destilado dos melhores grãos americanos e finalizado com água de uma fonte filtrada em pedra calcário”.

Como um film noir decente, vou deixar aqui, espaço para dúvida. Mas apostaria em algo próximo do Early Times como a peça central do quebra-cabeças. Respirei aliviado e sentei no sofá com minha generosa dose de Wild Side. O relógio já batia quase dez horas da noite. Fosse um detetive de film noir, jogaria meu chapéu e sobretudo bege no cabideiro e fumaria cigarro com sabor de vitória. Mas, não fumo cigarro, e tampouco acho chapéu e sobretudo uma indumetária razoável para um dia de janeiro em São Paulo. Então, só liguei a televisão e procurei por algo para assistir. Vício Inerente, talvez?

WILD SIDE CORN WHISKEY

Tipo – Corn Whiskey

ABV – 40%

Região: N/A

País: Estados Unidos

Notas de prova

Aroma: adocicado, com bastante baunilha e mel.

Sabor: doce, com mel, baunilha, caramelo e coco.

Drops – Benromach 40 anos

40 anos, first-fill, oloroso, cask strength. As palavras soam como um feitiço para qualquer entusiasta de whisky. A conjunção delas traz quase a certeza que se está diante de algo fora do comum. É o caso do Benromach 40 anos, recentemente provado por este Cão.

Não há nada de ordinário a respeito do Benromach 40 anos. Ele é a expressão mais maturada da linha oficial da Benromach. É uma edição limitada anual, que rende pouco mais de mil garrafas por tiragem. No caso do 2021 – provado por este Cão – foram quatro décadas, desde 1982, maturando em barris de carvalho europeu de ex-jerez oloroso.

A graduação alcoólica é também surpreendente – 57,1% – especialmente considerando sua idade. Scotch whiskies tendem a perder mais álcool do que água durante o processo de maturação. É o famoso angel’s share. Com essa perda, a graduação alcoolica vai se tornando mais baixa. Garantir um ABV alto depende de uma cuidadosa manutenção dos barris.

Foram lançadas pouco mais de mil garrafas mundialmente do Benromach 40, em sua edição de 2021. Apesar da diminuta tiragem, o single malt ganhou prêmio de melhor whisky do mundo em 2022 pela San Fransicso World Spirits Competition. Em sua segunda edição, de 2022, um número semelhante de garrafas foi lançado! Ah, agora sim, vai ser fácil provar esse novamente.

BENROMACH 40 ANOS

Tipo: Single Malt

Destilaria: Benromach

Região: N/A

ABV: 57,1%

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, fumaça, especiarias

Sabor: Frutas vermelhas, café, chocolate. O álcool é extremamente bem integrado, apesar da graduação elevada. Final longo, com fumaça e frutas vemelhas.

Visita à Union – Leviatã

Criaturas mitológicas gigantes povoaram a imaginação humana desde tempos imemoriáveis. São a materialização do temor do desconhecido. Seja por mares jamais navegados ou terras nunca desbravadas. A lista é grande, e se alonga pela mitologia, folclore e literatura. Moby Dick, Kraken, Leviatã, Amarok (o lobo, não o carro). Em comum, seu tamanho gargantual, e a incredulidade de quem os supostamente viu em carne e osso.

A Union Distillery, em Bento Gonçalves, talvez seja uma lenda destas, no folclore do whisky brasileiro. Uma destilaria enorme, instalada em um vale cheio de vinícolas, e capaz de rivalizar em tamanho e capacidade com algumas notáveis fábricas escocesas. Parece material de lendas. Mas, neste caso, por mais cafona que pareça esta introdução, é verdade.

Centro de visitantes da Union

Desavisados que desconhecem a dimensão da Union surpreendem-se. Avisados, também. Vista por fora ou por dentro, a Union é um gigante. Ela produz em torno de 1,5 milhões e meio de litros por ano de single malt, com capacidade máxima de aproximadamente 3,5 milhões.

Importante apontar que a Union possui duas destilarias. Uma menor – a primeira a ser construída – em Veranópolis. E uma maior em Bento Gonçalves. Foi esta que visitamos. A destilaria de Veranópolis não destila mais – entretanto, uma parcela do estoque de barricas permanece lá. Boa parte dos whiskies da Union atualmente no mercado, entretanto, ainda utilizam malte da antiga destilaria.

Números apresentados, a primeira impressão é de incredulidade. Uma destilaria daquele tamanho, com tal capacidade produtiva e tecnologia, jamais poderia estar no Brasil. Nosso mercado de single malts é minúsculo, e nada justificaria um leviatã destes. Ocorre, entretanto, que apenas 1% de tudo que a Union produz, vira single malt com sua marca. Boa parte de sua produção é exportada – especialmente para o Japão. Outra parte, torna-se ingrediente na composição de blends e bebidas compostas à venda no mercado brasileiro.

Prédios de produção à esquerda

A operação da destilaria é, também, bem sofisticada. A água provém de três poços artesianos dentro da propriedade da Union. A cevada é, em boa parte, comprada como commodity, de fornecedores brasileiros. A principal delas é a Agrária. Entretanto, a cevada turfada é importada, adquirida de dois produtores. Boortmalt e Castle. Durante a degustação que participamos, tivemos a oportunidade de provar os três new-makes.

Tanto mash tuns quanto washbacks são feitos de aço inox. Os washbacks, inclusive, foram herdados da vinícola outrora instalada no prédio da Union, que encerrou suas atividades e deu espaço à destilaria. Todo processo de produção da Union é informatizado. A transferência do wash, dos washbacks para o wash still, e do wash still para o spirit still. O processo de destilação, inclusive, tem algumas particularidades interessantes, que explico a seguir.

A Union possui três alambiques. Dois wash stills e um spirit still. O spirit still (de segunda destilação) é maior do que os wash stills (de primeira destilação) – o que é bem incomum. Isso justifica-se por reunir as duas parcelas de low-wines da primeira destilação. Um dos spirit stills foi importado da Escócia, produzido pela famosa Forsyth’s. O outro wash still e o spirit still foram fabricados no Brasil, pela Santa Efigênia, com base nas medidas do escocês.

A carga inicial conjunta na primeira destilação é de aproximadamente trinta e dois mil litros de wash, reduzida para dezesseis mil litros de low-wines na segunda destilação. Os dois wash stills alimentam o único spirit still. Após a segunda destilação, com o corte de cabeça e cauda, sobram mais ou menos três mil e quinhentos litros de new-make spirit. O processo é todo informatizado – da transferência dos washbacks até a separação do coração. Este new make é cortado e colocado nos barris, para maturar.

Os armazéns de maturação da Union também surpreendem. São altíssimos, e a maioria dos barris é armazenada na vertical, paletizados. Isso facilita o acesso, e permite que a destilaria economize um espaço precioso em suas dependências. Ainda assim, há alguns poucos barris armazenados na horizontal, como rickhouses. Há todo tipo de barril na destilaria. A maioria começou sua vida maturando bourbon. Há first-fills e refills, e também alguns poucos barris virgens. Há barris de carvalho americano e europeu, e barris que maturaram vinho. Há também uma salinha especial, com experimentos maravilhosos.

Por fim, a Union conta também com um centro de visitantes muitíssimo bem equipado, com um espaço de degustação e uma loja. Lá, o entusiasta pode comprar a linha completa de produtos, e alguns souvenirs exclusivos, como taças de degustação e uma cerveja. Mais especificamente, um Barleywine, produzido sob encomenda para a Union. Como um bom parque de diversões etílico, o tour começa e termina neste espaço.

Nossa degustação foi um tanto fora da curva. Provamos alguns futuros lançamentos, e parte dos new-makes da destilaria. Porém, para evitar qualquer spoiler, ficarei por aqui, com talvez uma conclusão que resuma toda a experiência perfeitamente. A Union parece tema de folclore – mas não é. Desavisados e avisados se surpreenderiam.

Suburban Cocktail – Dos cavalos

Este é um daqueles posts cuja introdução já vem pronta. O Suburban Cocktail tem uma história tão legal, que é desnecessária qualquer digressão introdutória. Entretanto, em nome da coerencia narrativa, meu preâmbulo envolverá cavalos, investimentos em mineração e uma copiosa quantidade de álcool.

Para entender de onde veio o coquetel, é preciso conhecer James Robert Keene. Um britânico expatriado, que se mudou com sua abastada família para os Estados Unidos, em 1852. Sua vida foi relativamente agitada. Keene começou como jornalista, mas abandonou a profissão para investir em mineração. A estratégia deu certo. Em pouco tempo, Robert possuía uma fortuna. Em pouco tempo, mas não por muito tempo. Perdeu tudo que tinha ao diversificar seus investimentos, focando em grãos.

Um distinto colecionador de bigodes.

Entretanto, em 1884, ele fez um retorno extraordinário. Foi contratado pelo investidor William Havemeyer para gerenciar fundos de investimento. Naquele ponto, Keene já conhecia uma ou outra estratégia de manipulação do mercado – como por exemplo espalhar rumores sobre companhias para inflacionar o preço de suas ações. Logo recobrou sua notoriedade, e foi contratado pelo J. P. Morgan e Rockfeller para gerenciar seus fundos.

Apesar de extremamente talentoso, Keene tornou-se notório não por seu trabalho com fundos de investimento. Mas, sim, cavalos de corrida. Vivendo em Nova Iorque, envolveu-se com criação de puro-sangues, e fez um enorme investimento neles. Alguns de seus animais eram ainda mais notáveis do que ele próprio. Os belos Colin, Peter Pan, Commando, Maskette e Sysonby lhe renderam seis vitórias no Belmont Stakes e uma no Preakness Stakes – parte da Tríplice Coroa.

E aí que está o ponto de conexão com o Suburban. Corrida de cavalos era um passatempo muito popular na classe alta de Nova Iorque. Outro destes passatempos – quiçá mais barato – era beber. Naturalmente, em algum ponto, surgiria um ponto de tangência entre os dois. Coquetéis como o Suburban foram criados em homenagem a estes criadores e entusiastas equestres. Em 1935, uma edição do Old Waldorf-Astoria Bar Book explicitou que “coquetéis como Futurity, Suburban e outros celebravam os triunfos de Robert Keene e seus companheiros de corrida, e outros notáveis proprietários de estábulos ou pistas de corridas“.

É importante apontar, como lembrado por Marcelo Sant’Iago, do Top Cocktails, que o Suburban provavelmente foi criado muito antes – provavelmente, antes da Lei-Seca norte-americana. Há registros do Suburban Stakes – a corrida que empresta o nome ao drink desde 1884. A vitória de James Keene é de 1908, de um cavalo chamado Ballot.

Suburban Stakes é uma corrida anual, que acontece em Nova Iorque

O coquetel seria apenas mais uma criação ligada ao mundo equestre, não fosse o grande David Wondrich. Incluiu a mistura em seu Esquire Drinks, e elevou o coquetel a um elixir. Escreveu que “se você pudesse destilar painéis de carvalho esculpido e poltronas, volumes encadernados em couro e mesas de bilhar com três almofadas, isso é o que você conseguiria.” E, de certa forma, a descrição de Wondrich tem pouco de hiperbólica.

O coquetel tem mais ou menos a estutura de um vieux carré, com boas modificações em seus ingredientes. Leva Rye Whiskey, rum maturado, vinho do porto e bitters aromáticos e de laranja. É intenso e oleoso, mas é menos adocicado na língua do que parece no papel. Claro, o equilíbrio dependerá dos ingredientes. A dica deste Cão é utilizar um rum bem puxado para baunilha, ou bastante aromático, como o Havana Club 7 anos. O porto utilizado aqui foi um Niepoort Tawny sem idade. Mas, sinta-se a vontade para testar com o que tiver. Com vocês, o Suburban.

SUBURBAN COCKTAIL

INGREDIENTES

  • 45ml Rye Whiskey
  • 15ml Rum (Havana Club 7)
  • 15ml vinho do porto
  • 1 dash Orange Bitters
  • 1 dash Angostura Bitters
  • Parafernália para mexer
  • taça coupé, de martini ou Nick & Nora.

PREPARO:

  1. Mexa todos os ingredientes num mixing glass com bastante gelo
  2. desça na taça
  3. beba e comemore a vitória de seus cavalos imaginários.

A História da Glenlivet – Dos Abacaxis

Este é o primeiro de uma série de posts eventuais sobre histórias de marcas de whisky. Quando outras matérias surgirem, você poderá acessá-las por aqui.


Hoje fui ao supermercado e vi um abacaxi. Aliás, um não, vários. Pensei em comprar, mas achei caro. Dez reais. Gosto bastante de abacaxi, mas não tenho nenhum grande fascínio pela fruta. Porém, se eu vivesse na Europa do século dezoito, certamente teria uma opinião bem diferente.

É que naquela época o abacaxi era considerado o supra (desculpem-me pela ambiguidade cretina hifenizada)-sumo do luxo. A mera presença da fruta exalava requinte. Muitas vezes, o abacaxi nem era comido – era apenas uma peça de decoração. E quem não podia comprar um, alugava. Mas tinha que tomar cuidado, porque era capaz de algum convidado comer a peça de decoração.

O abacaxi se tornou tão desejado na Europa do século dezoito, que virou símbolo de hospitalidade. Tanto é que muitas mansões construídas naquela época exibiam esculturas de abacaxi na entrada, para dar as boas vindas a seus visitantes. O abacaxi figurou também em brasões, cabeceiras de cama e pratos de porcelana. Imaginem, então, o sucesso que um whisky com notas de abacaxi teria feito.

Bob Esponja esperto

Bom, e foi exatamente o que aconteceu. Em uma época – meados do século dezenove – em que a vasta maioria das destilarias escocesas produzia maltes defumados e oleosos, um cavalheiro chamado George Smith era uma exceção absoluta. Sua destilaria produzia um whisky mias leve e frutado, com notas reminiscentes de pera e abacaxi. Esta destilaria, mais tarde, passaria a ser conhecida como The Glenlivet – que hoje, figura entre as três com maior volume de vendas da Escócia. Vou contar um pouco de sua história.

Diz-se que a The Glenlivet foi fundada em 1823. Mas isso está longe de ser verdade. Sua história começa bem antes, em 1774, quando o pai de George, Andrew Smith, começa a destilar ilegalmente em sua fazenda, a Upper Drumming. Em 1817, Andrew falece, e George herda a atividade informal, por assim dizer, de seu pai.

Neste ponto da história, apesar da ilegalidade, a destilaria de Drumming já era bem conhecida e respeitada. Convenientemente, a lei que proibia a destilação em território Escocês foi alterada em 1823, graças a um movimento encabeçado por um distinto e ébrio nobre, o Duque de Gordon. A partir daquele ano, os alambiques ilegais espalhados pela Escócia poderiam ser legalmente autorizados a destilar em pequenas quantidades, ao comprar uma licença por dez libras – algo próximo de mil e cem libras, considerando a inflação até os dias de hoje.

E uma das primeiras destilarias que comprou sua licença foi a de George Smith. Essa é uma coincidência interessante. A fazenda Drumming, onde George destilava ilegalmente, pertencia justamente àquele Duque de Gordon. Mas óbvio que o Duque não sabia de nada – ele jamais poderia permitir qualquer atividade ilegal em suas terras. Mais coincidência ainda era o fato de haver no palácio do duque, dezenas de barricas de whisky, produzidas em algum misterioso lugar da região. É, engraçado isso.

George

A legalização da atividade de George, porém, não foi muito bem vista por seus demais colegas alambiqueiros ilegais. Naquela época – 1823 – o contrabando de whisky na Escócia já era um negócio bem fundeado, e que movimentava bastante dinheiro. Pra você ver que o comércio de entorpecentes ilegais sempre foi altamente rentável. Para evitar que a concorrência ilícita literalmente o matasse, George passou a carregar duas pistolas Winchester, que foram utilizadas mais do que uma vez para salvar sua vida.

Em 1858, porém, ocorre uma catástrofe. Como sempre digo, destilarias pegam fogo. E um incêndio atinge a destilaria em Drumming. Mas George Smith não se deixa abalar. Compra a fazenda Minmore, vizinha, e abre uma destilaria que batiza de Glenlivet – graças à sua localização, às margens do famoso rio Livet. Pouco mais de vinte anos depois George falece – de causas naturais, incrivelmente – e é sucedido por John Gordon Smith e George Smith Grant, filho e neto de George, respectivamente.

Aqui, no final do século dezenove, a Glenlivet já era conhecida por toda Escócia e mais querida que abacaxi. Tanto é que diversas outras destilarias teriam decidido embarcar na fama, e utilizar o nome “Glenlivet” como uma denominação de origem. O que era uma prática bem safada, afinal, qual era o limite territorial para uma destilaria se autodenominar Glenlivet?

Uma das últimas destilarias a abandonar o sufixo foi a Tomintoul

George Smith Grant, porém, não se sentia muito à vontade com essa história de outros usarem o nome de sua destilaria, e resolveu processá-los. Após uma longa e intrincada briga judicial, Grant saiu quase vitorioso. Foi decidido que ele teria exclusividade sobre o nome “The Glenlivet”, e que as demais destilarias somente poderiam usar a denominação como um sobrenome, com hífen (como é o caso de “Tomintoul-Glenlivet” e – meu deus, imagine que delícia se isso fosse um blended malt – “Aberlour-Glenlivet”)

Até lá, exceto pelo fogo, The Glenlivet foi uma das poucas destilarias que jamais interrompera sua produção. Ela permaneceu aberta durante a grande depressão norte-americana, que afetou enormemente o mercado de scotch whisky. A primeira vez que sua produção foi suspensa ocorreu somente durante a Segunda Guerra Mundial. A interrupção – mothballing – não durou muito tempo. Ao final da guerra, o Reino Unido estava endividado, e buscava produtos de exportação para acertar a balança comercial. Whisky era perfeito – havia demanda e preço. Assim, a The Glenlivet voltou a funcionar.

Em 1953 a The Glenlivet se juntou a outra destilaria, a Glen Grant, formando um grupo comercial, o brilhantemente batizado The Glenlivet and Glen Grant Distillers, Ltd. E você achando que era falta de criatividade todo mundo se chamar John ou George. Bem, de toda forma, o grupo passou por mais algumas fusões. Em 1970 com a Hill Thomsom e Longmorn, e em 1977 com a Seagram’s. O resto da história é relativamente conhecido, e meio confuso. A Seagram’s foi comprada pela Pernod-Ricard e Diageo em 2000. Seus ativos foram divididos ou vendidos. A Pernod-Ricard ficou com a The Glenlivet. A Glen Grant foi vendida para o grupo Campari.

Com o investimento da Pernod-Ricard, e o crescente interesse por single malts, a The Glenlivet tornou-se rapidamente um gigante. A maior das expansões ocorreu em 2015, e aumentou a capacidade produtiva da destilaria em 75%. Com isso, a The Glenlivet passou a produzir 21 milhões de litros por ano. Estima-se que venda aproximadamente 16 milhões de garrafas, sendo os EUA um dos principais mercados.

Atualmente, The Glenlivet está entre os três single malts mais vendidos do mudo, concorrendo, ombro a ombro, com The Macallan e The Glenfiddich. De sua origem aos tempos atuais, muita coisa mudou. O abacaxi se tornou uma fruta bem mais mundana. Mas a The Glenlivet permaneceu como uma das destilarias mais famosas e queridas do mundo.

A praga que fez o whisky um sucesso

Vou ensinar um estorninho a repetir apenas “Mortimer”, e lho darei de presente, para manter sua raiva ativa“. Quando William Shakespeare pousou sua pluma para escrever a passagem acima, parte da obra Henrique IV, jamais teria aventado que causaria uma catástrofe aérea. Mas, por uma curiosa conjunção de coincidências, foi justamente o que ocorreu. Em Boston, quatro de outubro de 1960. A história, entretanto, começou bem antes, em 1860, com Eugene Schieffelin.

Eugene era um ornitólogo, parte do American Acclimatization Society, um grupo cujo objetivo era introduzir flora e fauna européias nos Estados Unidos, por razões completamente malucas hoje em dia. Eugene era também apaixonado por Shakespeare. Tão apaixonado, que importou todas as aves citadas nas obras do bardo para os EUA. Corujas, cormorões, pardais e cotovias e as soltou pelo país. A maioria delas, entretanto, não prosperou. O clima era diferente, e a adaptação difícil. Uma, entretanto, logrou enorme sucesso. O estorninho. 

Bonitinho e cuzão.

Sucesso tamanho que teve consequências catastróficas. Eugene soltou em torno de 80 casais da ave no Central Park, em Nova York, em 1860. Hoje, estima-se que haja mais de dois milhões de estorninhos no país. E o que ele tem de bonitinho, tem de destruidor. Além de devastar plantações, é um enorme risco para a aviação. Em 1960, um Lockheed Electra do voo 375 caiu, matando 62 de seus 72 ocupantes, após atingir uma revoada deles.

Foi por uma coincidência dessas, também, que a melhor bebida do mundo – o whisky – se tornou também um dos mais importantes. Sem muitas mortes, exceto botânicas. É essa a história que vou contar hoje para vocês. Uma história que será também muito apreciada pelos queridos enólogos e entusiastas do conhaque. Vamos a ela.

Conta ai.

Enquanto Schieffelin libertava sua revoada de aves assassinas, do outro lado do atlântico, um inglês rico bebia conhaque. Pode parecer estranho, mas, era a moda da época. A bebida de preferência dos abastados durante os tempos virotianos era o brandy. E, do público menos endinheirado, o gim. Cidades costeiras também bebiam bastante rum – provenientes das colônias do império no novo mundo. O whisky, em si, tinha pouca penetração, especialmente na Inglaterra. Ou melhor, fora da Escócia.

O maior produtor de brandy na época era a França. O país também – como todo mundo já sabe – tem também uma tradição secular na produção de vinho. Assim, naturalmente, quando colonos franceses migraram para os Estados Unidos, levaram consigo suas videiras. A história é de tal forma maravilhosamente marmorizada, que, muito provavelmente, diversos imigrantes franceses dividiram o convés com Eugene e seus estorninhos. Era a mesma época, no mesmo lugar. Nova Iorque. Mas, estou a divagar.

Ao chegar aos Estados Unidos, os franceses descobriram, com desgosto, que suas uvas não prosperavam. As castas de uvas nativas, entretanto, tinham grande sucesso. Obstinados, os franceses do novo mundo passaram, então, a cultivá-las. E, com o tempo, tiveram a brilhante ideia de exportá-las para seu país de origem. Assim como um apaixonado por Shakespeare que liberta uma centena de aves no Central Park, a ideia soa arrazoada hoje em dia. Mas, na época, parecia absolutamente sã. Videiras americanas na França.

O desastre levou um certo tempo para assumir o palco. O cultivo de uvas norte-americanas no país do croissant já tinha alguns anos, quando os produtores perceberam que suas videiras nativas morriam. A razão demorou para ser descoberta. É que ela tinha menos de dois milímetros de comprimento. A Phylloxera, ou filoxera, um insetinho amarelo, que se alimenta das raízes das videiras, e secreta uma substância nociva a elas. Videiras infectadas, a princípio, param de crescer. Depois, secam e morrem.

O culpado

A infestação, no começo, permaneceu na França, apesar de depois, ter se alastrado pela Europa. As regiões mais atingidas foram, justamente Cognac e Charente – as mais importantes para a produção de brandy na época. A destruição foi tamanha que na década de 1870 o conhaque estava quase extinto do mundo. Apenas a elite da elite conseguia comprar as poucas garrafas remanescentes. A exportação para a Grã-Bretanha do destilado francês estava quase totalmente suspensa.

Porém, como você, querido leitor, já sabe, porque leu nossa História sobre o Rye Whiskey e a Coquetelaria, quando um álcool acaba, ele é rapidamente substituído por outro. Nós, ébrios, temos um gosto bastante fungível em épocas de necessidade. O rareamento do conhaque, então, trouxe duas consequências. A primeira foi a falsificação. Muitos vendedores passaram a destilar qualquer coisa, e a vender como brandy. A qualidade não era das melhores, e podia levar a resultados tão diversos quanto uma dor de barriga, cegueira ou morte.

A segunda foi a popularização da melhor bebida do mundo. O whisky. É curioso como a maioria da população britânica ignorava a existência do destilado escocês. A ignorância era tamanha que um periódico inglês comissionou o escritor Alfred Barnard para um trabalho que todos nós faríamos de graça. Visitar as pouco mais de cem destilarias escocesas do meio do século dezessete, beber de tudo e escrever detalhadamente sobre elas. O resultado foi o primeiro livro do primeiro especialista de whisky do mundo: The Whisky Distilleries of the United Kingdom.

Bonito bigode, Alfred

A obra de Barnard, com o tempo, não apenas apontou uma luz, como colocou o scotch whisky no holofote do Reino Unido. A classe alta, especialmente, rapidamente se adaptou àquela maravilha destilada. Uma minoria de extremo mal-gosto, porém, achou whisky ruim. Estes passaram a beber – adivinhem – jerez. A exportação do vinho fortificado espanhol aumentou enormemente na época. O transporte do jerez acontecia, especialmente, em barris de carvalho europeu. A prática culminou na história que conhecemos: a maturação do scotch whisky em barris de jerez.

Quando a indústria do brandy – e do vinho – se restabeleceu, seu espaço nos copos passou a ser compartilhado. O scotch whisky havia ganhado o coração do mundo. Dos Estados Unidos – que anos mais tarde sofreria novamente com a Lei-Seca – à europa. E apesar de ter sofrido novamente enormes perdas, com as guerras mundiais e o Volstead Act, a indústria sobreviveu. Assim, ao beber sua dose de Macallan Sherry Oak, Aberlour ou Dalmore, faça um brinde a um milimétrico inseto. Não fosse ele, o que estaria em seu copo seria, provavelmente, muito distinto.

Red Hook – Autoparáfrase

Eu já falei uma vez aqui da jornada do herói. É uma estrutura narrativa clássica, dividida em três etapas principais, cada elas, com subdivisões. Harry Potter, Perseu, Rei Leão, Iron Man e Matrix são exemplos de filmes e livros que se inspiram na estrutura, conhecida como Monomito. Aqui, vou pela primeira de duas vezes neste texto, fazer uma digressão arriscada, e me auto-parafrasear.

O termo monomito foi descrito pela primeira vez por Joseph Campbell em seu livro “The Hero With a Thousand Faces”. Campbell pegou o termo emprestado de uma obra de James Joyce, chamada Finnegan’s Wake. O monomito é dividido em três atos: a partida, a iniciação e o retorno. Cada um deles possui subcapítulos, como o mundo cotidiano e a chamada À aventura, a estrada de provas, o momento em que tudo está perdido, a apoteose e o retorno.

Se você pensar na coquetelaria, um drink que funciona exatamente como o monomito é o Manhattan. Ele é um dos coquetéis mais inspiradores de toda a história, com dezenas de variações. É curioso como ele mesmo foi inspirado num Old-Fashioned, mas estendeu seus afluentes por um delta etílco quiçá mais vasto que seu antecessor. Nele estão o Brooklyn, Bronx, Rob Roy, Blackthorn, Remember the Maine e Rapscallion, dentre outros. Um deles é, justamente, o Red Hook, tema desta prova.

O nome, inclusive, é inspirado na cidade de Nova Iorque, assim como seus parentes, caso você não saiba. EU nao sabia. A delimitação sócio-geográfica de bairros norteamericanos não é um grande interesse meu. Mas, enfim, Red Hook é parte do Brooklyn. Foi uma área importante de atividade portuária no começo do século 20, mas, com o tempo, perdeu sua força. Atualmente, é onde está o Red Hook project, o maior projeto de moradias do bairro.

Eu sei que vocês vão googlar

De volta aos copos. Não parece, mas o Red Hook é um drink relativamente jovem. Ele foi criado em 2003 pelo bartender Enzo Errico do Milk & Honey em Nova Iorque. Sua receita leva Rye Whiskey, vermute tinto e licor de maraschino. Pode parecer fácil, mas equilibrá-lo é quase como resolver um cubo mágico. Use um vermute muido doce, e o licor de maraschino se sobressairá. Coloque um rye delicado, e o vermute dominará completamente o paladar. Exagere no licor, e um insuportável sabor de bala artificial virá à tona.

O que me leva à segunda digressão arriscada desta matéria. Abrirei uma exceção para recomendar produtos específicos – algo que tento ao máximo não fazer, para não induzir o querido leitor a comprar a centésima garrafa de alguma mistura que ficará lá, parada na prateleira. Como no capítulo do mentor, no começo da jornada do herói, recomendo seguir meus conselhos parcimônia. Mas saiba, também, que se seu coquetel ficar intragável, a culpa não será minha.

Falou, Gandalf

A parte mais fácil é o licor. Use Luxardo. Todo mundo usa luxardo. Você pode ser rebelde e usar algum outro, como o Bols. Mas não tem nenhum bom motivo pra isso, exceto rebeldia gratuita. Quanto ao vermute, vá de Punt e Mes. Não sou um grande fã da bebida, especificamente, mas ele é o que melhor funcionará na receita, por ser um tantinho mais amargo que a maioria dos vermutes do mercado.

E, por fim, a parte mais complicada e essencial. O Rye Whiskey. Use um rye intenso. Um desses que você provavelmente vai ter que viajar para comprar, como o Bulleit Rye, ou George Dickel Rye. Se for usar um rye mais delicado e equilibrado, como é o caso de nosso querido Jim Beam Rye, reduza a proporção de licor de maraschino. Eu sei que no final das contas você vai fazer isso. Eu fiz.

Mas vamos à virada final de nossa jornada do herói. O retorno com o Elixir. Depois de enfrentar o mixing glass com sua bailarina em punho, receba sua recompensa etílica. Anote aí a receita do excelente Red Hook:

RED HOOK

INGREDIENTES

  • 50ml rye whiskey (Bulleit Rye)
  • 25ml vermute (Punt e Mes)
  • 15ml licor de maraschino (se for usar Bulleit Rye, que eu duvido, pode subir um pouquinho).
  • Parafernáila para misturar

PREPARO:

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass, com bastante gelo. Mexa com auxilio de uma bailaria e coe para uma taça coupe resfriada.
  2. Finalize com uma cereja maraschino. Nem pense na bolota de xuxu. Se não tiver a cereja, vá sem.

Lamas The Dog’s Bollocks – O Quarto Filho

Dar um nome para um ser humano é uma grande responsabilidade. É por meio do nome que a pessoa se relacionará com as demais. O nome é o cerne da identidade individual de cada um – é a marca de um ser distinto, que se identifica por aquela palavra. Diz-se até mesmo que o nome pode influenciar na vida futura profissional e amorosa da pessoa. Faz sentido. Exceto se você for herdeiro de um megaconglomerado aeroespacial, se chamar X Æ A-12 não ajudará muito a encontrar um amor. Ou um emprego.

No Brasil, há uma série de nomes que são, inclusive, proibidos. Dentre eles estão Calcinha, Inexistente, Dita-cuja, Taturana, Cadáver, Suruba, Andarilho, Bizarro, Sujismundo e – maravilhosamente, se você me perguntar – my precious. Triângulo é também um nome proibido. O que é surpreendente, por que as demais formas geométricas tão liberadas. Então, você pode batizar seu bebezinho de hexágono, cilindro, toroide ou octaedro. Mas, triângulo não.

Sméagol também pode.

Dar nome a coisas é bem mais fácil. Quando comecei este blog, não tinha certeza de nada. Mas, o nome O Cão Engarrafado parecia o único possível. E até hoje adoro. Especialmente quando alguem grita “Cão” na rua e eu olho. “Caledonia” para nosso querido bar, também foi assim. E quando a destilaria Lamas, de Minas Gerais, nos chamou para criar a primeira edição colaborativa de um single malt, nada parecia mais natural do que simplesmente estender o nome. “Lamas Caledonia”.

Acontece que descobrimos, surpresos, que Caledonia é um nome controverso para um whisky. Lisongeados, recebemos um puxão de orelha de uma certa associação internacional – a mesma que proibiu a Compass Box de usar ripas de madeira em seu Oak Cross. Um puxão seguido de uma medida mais, diremos assim, contundente. Segundo eles “Caledonia”, no rótulo de um whisky, poderia induzir o consumidor a pensar que se tratava de um scotch whisky. Mesmo com os dizeres “Lamas Destilaria – Minas Gerais” na base.

Por conta disso, o whisky recebeu outro nome, talvez, bem menos polêmico. The Dog’s Bollocks! Uma alusão direta aos documentos do cão, mas, também, uma expressão usada no Reino Unido quando algo é surpreendentemente bom. No final, acredito que a mudança tenha vindo em boa hora. A quarta edição é um tanto diferente das três primeiras, e seria até egoísmo de nossa parte não individualizá-la.

Clachan.

Nosso Dog’s Bollocks é um single malt triple-cask finished. A primeira expressão da Lamas a usar malte turfado, maturado em barris de ex bourbon e finalizado em barris de double IPA, combinado com malte não defumado finalizado em barris de rum, e malte defumado maturado em barricas que foram temperadas na destilaria com vinho moscatel brasileiro. Foram produzidas, ao todo, 500 garrafas. Desta vez, sem números individuais, para não dar briga.

O desenvolvimento do The Dog’s Bollocks seguiu semelhante à dos demais whiskies. A ideia surgiu de produzir um whisky levemente defumado, finalizado em moscatel. Afinal, os moscatéis brasileiros estão em diversos rankings de melhores vinhos do mundo. Aqui, a Lamas se superou. Comprou vinho moscatel especial, e temperou os barris cuidadosamente, para depois colocar seu Nimbus. A finalização levou quase um ano. Trocamos amostras e impressões durante este período. Inclusive, de outros whiskies, que estavam sendo desenvolvidos em paralelo com nosso Dog’s.

Amostras, quase na reta final de criação

Dentre eles, duas amostras chamaram a atenção. Um single malt turfado finalizado em barris de IPA – o primeiro single malt turfado da Lamas. E uma amostra específica de malte não defumado, maturado nos barris do rum Norma. O mesmo do Lamas Rarus. Depois de alguma discussão, muitas doses e testes, resolvemos juntar tudo e acertar a proporção. Metade de Norma, 30% turfado IPA, 20% defumado Moscatel.

O resultado foi um single malt mais leve que as edições anteriores, mas igualmente complexo. O moscatel traz notas de levedura e chocolate branco, com o conhecido sândalo da cevada defumada da Lamas. O rum, coco e alcaçuz. E o turfado, um defumado apimentado e herbal, que amarrou tudo em algo coeso.

Mas faltava um único detalhe. Algo importantíssimo, capaz de determinar o sucesso ou fracasso de nossa criação no mundo. Que, pelo prólogo desta matéria, você já deve ter deduzido o que é. O elemento de identidade. O nome. The Dog’s Bollocks parecia perfeito para uma criação da Lamas Destilaria e deste Cão. É como queremos que as pessoas o chamem. Ou melhor, exclamem, ao tomar uma dose. The Dog’s Bollocks!

LAMAS THE DOG’S BOLLOCKS

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: enfumaçado e adocicado, com própolis e baunilha.

Sabor: frutas amarelas, coco, baunilha. O final vai se tornando progressivamente enfumaçado e apimentado.