Drops – Puni Alba – Single Malt Italiano

Antes de começar a escrever este texto, resolvi fazer um teste. Perguntei a dez pessoas – dentre elas a Cã, o Pai Cão e certos amigos – qual a primeira coisa que vinha à mente quando falava-se daquele curioso e comunicativo país que é a Itália. E a resposta, para minha total estupefação, foi gondoleiros. Gondoleiros. Dentre todas as coisas pelas quais a Itália é famosa, gondoleiros foi a resposta de quatro entre dez pessoas a quem fiz a indagação. Os gondoleiros remaram na frente dos automóveis superesportivos. Dos pratos ricos em carboidratos. De Dante, Virgílio, Correggio – com os cumprimentos do Cão Pai – Da Vinci, e da Mona Lisa. Superaram a tarantella. Sobrepujaram Fellini, Spaghetti Western e Bernardo Bertollucci. Era um resultado que eu jamais esperaria. Eu sabia, por exemplo, que jamais alguém falaria whisky. E esse era justamente o motivo daquele meu experimento. Queria saber quantas coisas poderiam ser evocadas antes de chegar à bebida. Porém, o resultado me demonstrou uma curiosa obsessão de meus conhecidos por estes tão caricatos choferes de canoa. Acontece que, para mim, os gondoleiros ocupam uma posição bem baixa da lista daquilo que define a essência italiana. Uma posição certamente abaixo de […]

Irmão do Meio – Glenlivet 15 anos

Sou filho único. O que, para falar a verdade, não quer dizer muita coisa. Crescer sem irmãos não significa que tenha conseguido tudo que quero. Nem que seja mimado ou estragado, e tampouco egoísta. Quer dizer, exceto com comida. Comida é algo realmente difícil de dividir. Ser filho único, porém, significa que tive que responder mais de um sem fim de vezes a clássica indagação. Se eu não sinto falta de ter irmãos. E minha resposta, desde a mais tenra idade, sempre foi a mesma. É claro que não, afinal, não poderia sentir falta de algo que nunca tive. Minha mãe, no entanto, possui irmãos. E ela está na pior posição possível. Ela é a irmã do meio. O que, para ela, significava ter as refeições roubadas pelo irmão mais velho enquanto era solenemente ignorada pelos pais, em favor do irmão mais novo. Significava não ter idade para fazer algumas coisas que o primogênito fazia, mas ser velha demais para se envolver com as atividades de criancinha do caçula. Segundo ela, galgar espaço como a irmã do meio não era nada, nada fácil. Relembrei disso ao experimentar novamente, após bastante tempo, o Glenlivet 15 anos. O Glenlivet 15 é a expressão […]

Drops – Aultmore 18 anos

A Escócia possui muitas destilarias. Algumas delas são amplamente conhecidas, como Ardbeg, Laphroaig, Macallan, Glenfiddich e Glenlivet. Estas brilham com single malts já bastante renomados e conhecidos até mesmo do público que não é assim, tão fascinado por whiskies. Outras, porém, não são tão conhecidas. E sair da obscuridade para cair nas graças do público não é exatamente uma tarefa simples, ainda que, certas vezes, aconteça. É o caso da Mortlach, que adquiriu fama com seu Flora & Fauna 16 anos, a ponto de ser reposicionada pela Diageo – sua detentora – como um malte super premium, precificado ombro a ombro com The Macallan. Às vezes é preciso um pouco mais do que um bom malte. Um empurrãozinho do pessoal de marketing, por exemplo, ajuda bastante. E aí é que está o Aultmore. Mais especificamente, o Aultmore 18 anos. O Aultmore era – quer dizer, ainda é – um malte bastante usado nos blended whiskies da Bacardi, como o Dewars, mas que não aparecia muito em voo solo. Até que aquela resolveu que o destacaria também como um single malt. Reunindo outras destilarias sob seu comando, a Bacardi criou um grupo com um nome bastante modesto. Os  The Last Great […]

Drops – Royal Brackla 16 anos

  Você sabe o que é um Royal Warrant? Um Royal Warrant é uma espécie de selo de aprovação da família real. Isso, na prática, significa que certa marca – a qual o Royal Warrant é concedido – fornece um serviço ou produto de altíssimo nivel para a corte real. E que, por conta disto, merecem deferência. Ou que a marca – a destilaria, no caso – é profundamente admirada por certa celebridade de sangue azul. A maioria dos países que, em algum momento, adotaram o regime monárquico possuem Royal Warrants. Até mesmo no Brasil isto aconteceu. Ao todo, foi concedido o inacreditável numero de dois. Um para a Granado – sim, aquela que faz os sabonetes – e outra para Henry Poole & Co, alfaiataria britânica que produzia parte das vestimentas de Dom Pedro II. A família real inglesa, porém, não foi tão seletiva. Ao longo de sua história, ela já forneceu milhares de royal warrants. Atualmente, há pouco menos do que novecentos. Companhias em ramos tão diversos quanto a Aston Martin, Nestlé, Twinings e Burberry possuem estes selos. A Brackla foi a primeira destilaria a receber o Royal Warrant. O Royal Warrant da Brackla foi concedido pelo Rei William […]

Whiskies para comprar no Duty Free III

Esta é a terceira edição de um texto sazonal com novidades nos Duty Free shops de aeroportos brasileiros que valem a pena. Confiram aqui o primeiro, e neste link o segundo texto sobre este tema. Esses dias estava vendo uns desenhos com a Cãzinha no YouTube. Depois de alguns episódios de Sara e o Pato e Masha e o Urso (afinal, o que há com jovens meninas e animais?) resolvi mostrá-la alguns desenhos da minha época. Percorremos em bons quarenta minutos coisas como Tom e Jerry, Papa Léguas e Caverna do Dragão. Desenhos que eu julgava adorar. Mas aí eu percebi como eles eram irritantes. Porque o Frajola nunca conseguiu pegar aquele passarinho. E o Coiote descobriu mais de uma centena de formas de morrer – explodido, dilacerado, esmagado, dividido, entre outras – tentando transformar o papa-léguas em almoço. Passei anos e anos de raiva esperando que eles tivessem sucesso. Sucesso que nunca veio. Eu devia ser uma criança estúpida, esperançosa ou muito masoquista mesmo. Mas o pior deles era o que eu julgava ser meu preferido. Caverna do Dragão. Tudo que aquele pessoal queria era voltar para casa. Só que por mais próxima e mais palpável que parecesse a oportunidade, algo sempre acontecia. […]

Drops – Teeling Single Malt Irish Whiskey

Recentemente apresentei por aqui o Corsair Triple Smoke. Um single malt whisky produzido bem longe do frio escocês. No estado do Kentucky, nos Estados Unidos. Agora é a vez de outro single malt concebido em terras estrangeiras. Mais especificamente, a Irlanda. País de James Joyce, Oscar Wilde, Samuel Beckett e – porque não Colin Farrel e Liam Neeson. E, assim como este último, capaz de destruir combatentes de peso. Prova disso é sua nomeação como melhor single malt irlandês, na recente World Whisky Awards de 2017. O Teeling Single Malt é um animal recessivo em seu país de origem. Elaborado exclusivamente de cevada maltada, destilado somente em alambiques de cobre e engarrafado sem filtragem a frio, a 46% – uma graduação relativamente alta para um irish whiskey. Até mesmo na maturação o Teeling Single Malt é pouco convencional. Seu amadurecimento ocorre em barricas antes usadas por bourbon whiskey. Porém, antes de ser engarrafado, o whiskey é finalizado em uma incrível variedade de barris. Fazem parte de seu processo de finalização barricas usadas anteriormente por vinhos do Porto, Madeira, Borgonhês e cabernet sauvignon. Longe de ser o resultado de uma aposta, ou uma marca pouco reconhecida buscando destaque por meio de inovações […]

Macallan Fine Oak 12 anos

O tempo é implacável com certas coisas, mas generoso com outras. Uma vez abordei este assunto, ao falar sobre atemporalidade, a Katy Perry e Like a Virgin. Mas dessa vez, não regressarei nem uma década. Vamos falar de 2012. Em 2012 a música que emplacou a primeira posição da Billboard foi Somebody I used to Know (Em uma tradução literal, e ironicamente na minha opinião, Alguém que eu Costumava Conhecer), de um cara chamado Gotye, com participação ilustre de uma tal de Kimbra. Temos que reconhecer que o acaso tem seu próprio senso de humor. Porque passados cinco anos, o título da canção tornou-se quase uma piada pronta. Depois desse sucesso estrondoso, nunca mais ouvi falar deles. Nem em noticiário de desgraça. Também naquele ano a rainha Elizabeth II celebrou o Jubileu de Diamante de seu reinado. Não poderia afirmar que o tempo tratou bem dela – isso seria ir muito longe.  Mas convenhamos, apesar do intervalo de cinco anos, ela hoje não parece nem um dia mais velha. Talvez porque ela já aparentasse a idade naquela época, ou talvez porque ela seja uma versão feminina e monarca do Highlander. Outra coisa que aconteceu em 2012 foi a saída dos single malts da série Fine Oak […]

Como Whisky é Feito – Parte 3 de 3

Este é o terceiro texto de uma série sobre como whisky – com ênfase em single malts – é produzido. Já abordamos assuntos tão diferenciados quanto crianças curiosas, fabricação de automóveis e nuggets de frango. Falamos de notícias indigestas, cevada, fermentação, destilação, turfa e maturação. Caso você tenha perdido, clique aqui para a primeira parte, ou aqui para a segunda. Senão, fique aqui comigo. Hoje falarei um pouco de botânica – afinal, barricas são feitas de carvalho, que são árvores – e um pouco de química (esteres, aminoácidos, proteínas e tudo aquilo que sua professora ou professor falavam enquanto você dormia, vandalizava a sua mesa como um entalhador-mirim-fora-da-lei ou desenhava). Preparem-se para a derradeira parte de um déja-vu acadêmico. Mas, dessa vez, sobre um assunto bem mais legal. Whisky. MATURAÇÃO 2/2 Scotch whiskies normalmente são maturados em barricas que já foram utilizadas por alguma outra bebida, ainda que haja exceções – o delicioso Laphroaig An Cuan Mór sendo uma delas. A maior parte dos scotch whiskies é envelhecida em barricas de carvalho americano que antes continham Bourbon whiskey, ainda que a frequência de whiskies maturados em barricas que envelheceram Jerez tenha aumentado bastante nos últimos anos. O tempo de maturação para atingir […]

Drops – Ardbeg Corryvreckan – O Cão Engarrafado

Esta não é uma prova. Nem um drops, para ser sincero. É um relato. É que meu primeiro encontro com o Ardbeg Corryvreckan não foi meu. Pois é. Eu estava lá apenas de figurante. Um coadjuvante em uma curiosa cena que havia pouquíssimas vezes tido o prazer de presenciar. Na verdade, a protagonista foi a querida Cã, durante um jantar de nossa viagem à Escócia há alguns anos. Estávamos há algumas quadras do hotel em um restaurante que tínhamos – por muita sorte – conseguido uma mesa. Um daqueles lugares concorridos, que você precisa usar a lanterna do celular para ler o cardápio, e que serve pequenas porções de coisas com ruibarbo e espuma. Mas estávamos animados e com fome. E eu ansioso para provar algum whisky que não conhecia. Afinal, estava na Escócia. Havia uma considerável carta de single malts. Decidi que escolheria algo ao mesmo tempo familiar e estranho. Uma destilaria conhecida por mim, mas uma expressão diferente. Fui pela graduação alcoolica. O Ardbeg Corryvreckan, com 57,1%. Quando a taça chegou, mesmo antes de experimentar, notei o olhar interessado da Cã. Que cheiro bom, o que é? É um Ardbeg forte. Deixa eu provar – pausa, gole – nossa, você precisa […]

Como Whisky é Feito – Parte 2 de 3

Tendo acompanhado as notícias das últimas semanas acabei concluindo que, às vezes, não vale a pena sabermos como as coisas são feitas. Para um apaixonado por churrasco ou um entusiasta dos alimentos processados, as manchetes são, no mínimo – perdão pela ambiguidade cretina – difíceis de engolir. Porém, incentivado por aquelas notícias indigestas (hoje estou genial), tomei coragem para escrever algo que há muito planejava. Um (nem tão) pequeno texto, explicando sobre alguns detalhes e curiosidades sobre a produção da melhor bebida do mundo. Esta é a segunda parte de um especial sobre como o whisky é feito. Na primeira parte, expliquei um pouco sobre a cevada, sua fermentação, o uso da turfa e o processo de destilação. O texto inicial terminou com reticências, no exato momento em que a primeira gota de destilado cintilava no ar, antes de cair dentro de uma barrica. Hoje falarei um pouco mais sobre destilação e maturação. Continuem com este Cão. Destilação 2/2 Single malts costumam ser destilados duas vezes em alambiques de cobre. Normalmente, os alambiques de primeira destilação – chamados wash stills – são um pouco maiores do que os de segunda destilação – os spirit stills – e possuem formatos diferentes. […]