Drops – Craigellachie 13 anos

Você desvia de escadas na rua? Anda por aí como um chaveiro, com olho grego, pimenta e pé de coelho pendurados no pescoço ou na bolsa? Coloca o sal na mesa para a outra pessoa pegar, e, se porventura o saleiro cai, rapidamente joga um pouco para trás, por cima do ombro? E paraskevidekatriaphobia, você tem? Se você não entendeu essa última, eu explico. Paraskevidekatriaphobia é o medo de sexta-feira treze. A palavra foi criada por um psicoterapeuta norte-americano, o Dr. Donald Dossey, e é formada por três elementos – “paraskevi”, “dekatria” e “phobia”, que em grego significam, respectivamente “sexta-feira”, “treze” e “medo”. E como você já deve ter adivinhado pela explicação etimológica, define o medo da sexta-feira treze. Segundo ele, de uma forma bem humorada, quem conseguisse pronunciar a palavra estaria magicamente curado daquela fobia. O Cão Engarrafado, no entanto, tem outra cura. Uma que não exige qualquer habilidade léxica e que também envolve o amaldiçoado número. Tomar uma dose do Craigellachie 13 anos, à venda nos Duty Frees dos aeroportos brasileiros, no embarque e desembarque de voos internacionais. O Craigellachie 13 anos é a espinha dorsal dos single malts da destilaria Craigellachie, localizada em Speyside, e pertencente à Bacardi. Junto dos demais single malts […]

Por que não devemos ignorar blended whiskies

Não sei se você acompanhou essa história, mas a Univerisdade de Oxford elegeu a expressão “pós-verdade” como a mais emblemática de 2016. Segundo eles, pós verdades são “circunstancias em que fatos objetivos são menos importantes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais”. Ou seja, mentiras. Mas não quaisquer mentiras. Mentiras que apelam para a pior parte das pessoas: a emocional. É tipo quando alguém espalhou que a carne do McDonald’s é de minhoca. Ou quando Donald Trump disse que o Obama fundou o Estado Islâmico. Ou ainda quando minha filha disse que não tinha comido macarrão na hora do almoço e que me amava, só pra comer de novo na hora do jantar E ainda que alguns boatos soem mais críveis que outros, sabemos muitos são tão verdadeiros quanto o cabelo do referido presidente eleito. O problema das pós-verdades é que elas estão por toda parte, mas, principalmente, na internet. Porque, na internet, todo mundo tem opinião sobre tudo e nenhum compromisso. Inclusive eu, escrevendo este texto. É como se meu modem equivalesse a um título internacional de especialista na vida. Até assuntos que não deveriam ser nada polêmicos possuem pós-verdades. Como, claro, o […]

Drops – Tobermory 10 Anos

Você gosta de mergulho? E águias? E por que não rali automotivo? Se respondeu sim para as três perguntas, seu lugar no mundo existe. É que essas coisas que aparentemente têm pouca relação são as principais atrações da ilha de Mull, na Escócia. Mull é a segunda maior porção de terra das hébridas interiores – um arquipélago a oeste da parte continental da Escócia – com mais de oitocentos e oitenta quilômetros quadrados de, bem, absolutamente nada. Apesar da extensão territorial, a ilha possui apenas três mil habitantes. Mas além de automóveis off-road, aves de rapina e recifes de coral, Mull também possui uma atração para os amantes de whisky. É a destilaria Tobermory, localizada no vilarejo homônimo, o maior da ilha. A destilaria Tobermory produz duas linhas diferentes de whisky. A primeira, com o mesmo nome da destilaria, é composta de whiskies pouco turfados, com notas cítricas e de especiarias. A outra, Ledaig, é defumada, com sabor de iodo e fumaça. E a espinha dorsal da primeira – Tobermory – é justamente o whisky da foto. O Tobermory 10 anos. O Tobermory 10 é cítrico e levemente defumado. Sua defumação, no entanto, não vem da queima da turfa, mas […]

Drops – Glen Scotia Victoriana

A era vitoriana foi bem esquisita. As pessoas possuíam uma pletora de hábitos estranhos. Por exemplo, como não existia televisão, Netflix, internet, smartphones e toda essa parafernália que nos auxilia a evitar o desagradável contato humano diário, os vitorianos tinham que recorrer a formas alternativas de diversão. Um costume bem comum era o de se fantasiar e posar para os outros. Pode parecer tranquilo, mas você gostaria de ver seu sogro vestido de odalisca? Bom, eu não. Outros hábitos estranhos incluíam fotografar os mortos como se estivessem vivos, correr atrás dos adolescentes até que eles estivessem cansados demais para se masturbar (é sério isso!) e comer cérebro de tartaruga. Credo, que nojo. Apesar dos costumes curiosos, a era vitoriana teve uma  prolífica produção cultural – com escritores como Oscar Wilde e Charles Dickens – e uma inegável evolução econômica e científica. Foi durante aquele período que inventaram coisas como a lâmpada, o telefone, pneus de borracha e a máquina de escrever. O petróleo e seus derivados também passaram a ser mais amplamente utilizados. Mas a maior contribuição da era vitoriana foi, sem dúvida, o whisky. Não é que o whisky foi inventado naquele período, não, claro que não. Ele foi criado muito antes disto. […]

Drops – The Macallan Rare Cask Black

Se você acompanha o Cão Engarrafado, deve ter notado que tenho um certo fraco por whiskies defumados. Aliás, não apenas whiskies. Tudo. Adoro bacon, sou fanático por salmão e hadoque defumado, e um contumaz consumidor de quantidades copiosas de molho barbecue. Nada é tão bom que não possa ficar melhor com um pouco de fumaça. Dentro do infinito rol de coisas que hipoteticamente poderiam ficar melhores com fumaça, estava The Macallan. Eu imaginava, em silêncio, como seria um whisky defumado produzido pela destilaria conhecida como o Rolls-Royce, o Stenway & Sons do single malt. Um dos mais renomados whiskies da Escócia em sua clássica versão puxada para o jerez, mas com um toque de fumaça. Assim, imaginem minha ansiedade quando soube que ela havia finalmente lançado uma versão defumada de seu single malt. O Macallan Rare Cask Black. Aquele desejo jamais proferido por mim havia se tornado real. Por sorte – ou talvez destino – a expressão aterrissou nas lojas de Duty Free no embarque e desembarque de voos internacionais, em nossos aeroportos. Assim, não demorou muito para que eu tivesse a chance de prová-lo, e pudesse novamente dormir sossegado e recobrar a paz de espírito. Segundo a The Macallan, o Rare Cask Black é um […]

Algo Familiar – Singleton of Glen Ord 12 anos

Quando eu estava na quinta série, tive dois coleguinhas de classe que eram gêmeos idênticos. Não apenas geneticamente. Mas visualmente também. Eles tinham o mesmo corte de cabelo e mais ou menos o mesmo peso. Além disso, a mãe deles – que provavelmente se empenhava em criar um sério problema de identidade nos filhos – os vestia da mesma forma. Mas a parte mais louca eram seus nomes.  Luís Alberto e Luiz Antônio. Um dia, conversando com um deles – eu não arriscaria dizer qual Luís – soube que eles eram os primogênitos de uma família de cinco irmãos. Além dos dois, havia o Luís Carlos e o Luís Paulo. E havia também o André, que não era Luís. Eu não entendia aquilo e nem eles,  afinal, depois de quatro Luíses, por que parar agora? E eu fiquei pensando na confusão que era a casa deles. Quando alguém ligasse procurando pelo Luís, ou quando chegasse uma carta com apenas o primeiro nome e sobrenome. Devia ser um caos para todo mundo. Para todo mundo menos o André, claro, que não era Luís. Aliás, será que o André não se sentia excluído, por não ser Luís? Lembrei dessa história há algumas […]

Whiskies para comprar no Duty Free II

Ah, finalmente nos aproximamos do fim do ano. Uma época recheada de contradições. Árvores de natal, neve artificial e calor infernal. Uma agenda cheia de compromissos sociais, e a vontade negativa de frequentá-los. E você até poderia argumentar que tudo bem, que o fim de ano é chato mesmo, mas que ao menos temos os feriados. Só que neste ano, neste lindo ano de dois mil e dezesseis, nem isto serve de alento. Porque tanto o natal quanto o réveillon cairão em um fim de semana. Assim, para nós, restam apenas duas opções.  A primeira é derreter em casa. Lentamente derreter, assistindo pela televisão aos fogos de artifício no Rio de Janeiro, levantar o pé esquerdo e entornar algum espumante, desejando que, em 2017, possamos passar menos calor e descansar ao menos um dia a mais. A segunda é viajar. Talvez para o interior. Ou para outro estado. Ou – idealmente – para outro país. Um país mais frio e com menos gente que conhecemos. Viajar para ver novos lugares, novas culturas e novas bebidas. E, de quebra, comprar alguns whiskies no Freeshop, claro. Assim, aí vai nossa tradicional lista de (desta vez) cinco whiskies que podem ser facilmente encontrados […]

Sobre Prodígios – Talisker 10 anos

Envelhecer é algo curioso. A tendência é que ficamos menos dispostos. As coisas passam a não funcionar tão bem quanto funcionavam antes. Temos dores improváveis em locais quem nem sabíamos que existiam, e tudo vai se tornando progressivamente mais amargo. Inclusive nosso gosto. As manias se agravam e a boa vontade diminui. Tornamo-nos mais metódicos, cerimoniosos e nostálgicos. Mesmo quando não temos nenhum motivo para sentir nostalgia. O tempo tende a atenuar as dores e potencializar os momentos alegres do passado. O que, ainda que assim o pareça, não é necessariamente bom. A idade, na verdade, não nos torna piores, mas nos faz mais complexos. E nisso, seres humanos e whiskies costumam se assemelhar bastante. Só que, para a maioria de nós, o avançar da idade é temeroso. Já no caso da melhor bebida do mundo, ele costuma ser às vezes até mesmo supervalorizado. Temos a falsa impressão de que o whisky mais amadurecido é necessariamente melhor. E que, numa situação em que há dois produtos de idades diferentes e preço semelhante, o jovem deve ser preterido em favor do mais maturado. Acontece que, dentro desta lógica pouco razoável, acabamos negligenciando os prodígios. Prodígios como o Talisker 10 anos, que […]

Exceção – Bruichladdich The Classic Laddie

Quando estava no colégio, uma das minhas aulas preferidas era biologia. Achava interessantíssimo assuntos como evolução, reprodução – sem duplo sentido aqui – e, claro, genética. Aliás, genética provavelmente foi um dos meus pontos mais queridos durante minha formação no ensino médio. Adorava descobrir quais eram os genes recessivos e dominantes, e encontra-los em meus amigos e familiares. Caso você não saiba o que é isto, aí vai uma explicação mais ou menos simples. Genes recessivos são aqueles que não se expressam no estado heterozigótico. Em uma linguagem leiga, acontece o seguinte. Muitos genes – tipo a cor do olho – possuem duas ou mais variações chamadas alelos. Se você tem, diremos, um alelo “azul” e outro “castanho”, e este último é o dominante, então você terá olhos castanhos. Entendeu? Não? Então aqui vão mais alguns exemplos. Se, para você, dipirona não tem gosto de nada, você é recessivo. Cruzar o dedão direito sobre o esquerdo ao encontrar as mãos é recessivo, assim como não conseguir dobrar a língua em U. Por outro lado, se sua orelha tem lóbulo (essa é aquela parte debaixo, perto do maxilar) solto, você é dominante. E ainda isto esteja longe de ser absoluto, geralmente, […]

O Cão Farejador – Caol Ila 12 Anos

Este é mais um post do Cão Farejador. O Cão Farejador é um serviço de utilidade pública, cuja ideia é trazer ao leitor notícias sobre garrafas incomuns, raras ou indisponíveis em nosso país, mas que, por sorte ou destino, este Cão esbarrou durante uma visita a algum bar ou restaurante. A ideia é que você, meu caro, possa experimentar por conta própria whiskies que jamais imaginaria encontrar em nossa terra. Ou melhor, em São Paulo, quartel general deste blog. E a garrafa desta edição é o Caol Ila 12 anos. Se você gosta do Double Black, o Caol Ila é para você. Ele é um dos ingredientes principais do blended whisky da Johnnie Walker, e lhe empresta o sabor defumado, característico daquela expressão. A destilaria Caol Ila é a maior de Islay. Ela foi fundada em Port Askaig em 1846, e hoje pertence à Diageo, a gigante que também detém a marca Johnnie Walker. Sua produção anual é de aproximadamente quatro milhões de litros de whisky, sendo que a maioria é usada para compor blended whiskies. Apenas uma pequena parte – aproximadamente cinco por cento – é engarrafada como single malt, como essa garrafa da foto. O Caol Ila 12 […]