Jack Daniel’s Honey – Sobre hortaliças

Você talvez não saiba o que é Brassica Oleracea. Mas provavelmente já colocou na boca. Colocou na boca e mastigou. É que Brassica Oleracea é o nome científico da mostarda selvagem, uma pequena planta que cresce em rocha vulcânica, especialmente na costa do mediterrâneo e é muito apreciada por nós. Pode parecer uma descrição meio vaga de alguma erva que é obtida à margem da lei. Mas não é. A mostarda selvagem é na verdade a espécie original de uma boa variedade de vegetais que comemos hoje em dia, como o brócolis, a couve-flor, o repolho e a couve de Bruxelas. Estas variações – ou subespécies, para ser mais preciso – foram obtidas ao longo de centenas de anos, por cruzamento seletivo. Artificialmente selecionando mostardas selvagens de folhas cada vez maiores, ou mais suculentas, por exemplo. O engraçado – na verdade, o mais estranho – é que apesar de parecerem vegetais completamente diferentes, inclusive com gostos muitos distintos, eles dividem uma  (desculpe pela ambiguidade besta) raiz comum. Por outro lado, há vegetais que são bastante semelhantes, mas cuja origem é completamente diferente. Mandioca e batata doce, por exemplo, ou coentro e salsa. E, no mundo dos whiskies, o mesmo acontece com […]

Whiskey Mule

  Quando era criança, não ligava muito para modinhas. Nunca encostei em um tazo e nunca colecionei mini-coca-colas. Mas havia uma coisa que me pegava sempre. Kinder Ovo. Pensando friamente, talvez eu nem gostasse tanto do chocolate. O que mais queria era mesmo a surpresa. Porém, o engraçado é que se eu pudesse encontrar a surpresa sem o tradicional envolvimento de seu delicioso recipiente, eu provavelmente não me interessaria por ela também. O genial do Kinder Ovo é a combinação daqueles elementos. As duas coisas juntas, aliadas à expectativa daquilo que está dentro da capsula o tornam algo irresistível para qualquer criança, tenha ela três ou sessenta anos. Ninguém consegue ficar indiferente e não esboçar, nem que seja a menor curiosidade, ao abrir um Kinder Ovo. Ele é a perfeita fusão entre a obsessão gastronômica e a sede acumuladora. Na coquetelaria, um caso muito parecido é o do Moscow Mule, a versão tradicional do coquetel tema deste post. O Whiskey Mule. O Moscow Mule é a reunião de três elementos que ninguém prestava atenção. Mas que, reunidos, resultaram em um dos coquetéis mais famosos do mundo. Sua história começa na década de 30, com um senhor chamado John Martin, presidente da G.F. Heublein & […]

Seis coquetéis refrescantes de whisky para o verão

Ah, o verão. O suor, a praia lotada, a aderência meio nojenta das coisas. Aquela inconveniente temperatura em que é quase impossível beber qualquer coisa a temperatura ambiente. Mesmo porque a temperatura ambiente é a mesma do sétimo círculo do inferno. E ainda que, para mim, beber whisky em qualquer temperatura seja no mínimo agradável, devo assumir que é bem melhor quando ele quase não queima seus lábios. Pensando nisso – e reticente em abandonar o hábito – pedi ao mestre Marco de La Roche que preparasse uma lista de coquetéis refrescantes e que levam whisky. Perfeitos para essa transpirante época do ano. Marco é atualmente um dos expoentes da coquetelaria e mixologia brasileira e tem um currículo e tanto. É proprietário da Drink.Lab, embaixador das marcas YVY Gin e 1883 Maison Routin. Idealizou o projeto Mentes Brilhantes e faz parte do juri do 50 Best Bars. Foi editor chefe da revista Rabo de Galo e é proprietário do website Mixology News – onde, a convite de Marco, este Cão já escreveu uma matéria. Bem, sem mais sudorese verbal. Com vocês, seis coquetéis refrescantes de whisky para o verão. Por Marco de La Roche. E tem até drink exclusivo do Cão! […]

Drink do Cão – Whiskey Sour

Hoje, a caminho do trabalho, meu carro me disse que precisava de revisão. O módulo do controle eletrônico de amortecimento – ou algo assim – não estava funcionando. Chegando lá, liguei para a oficina enquanto preprava um café na nova máquina. Mas me confundi. A secretária atendeu bem na hora em que eu ajustava a temperatura e escolhia se meu expresso seria longo, normal ou ristretto. Acabei fazendo um chafé escaldante. Marquei a revisão do carro às pressas, e, irritado, fui à cafeteria. Pedi um café e um brigadeiro. A caixa então perguntou qual brigadeiro eu queria. Sei lá, brigadeiro não é tudo igual, retruquei. Não, agora temos uma seleção de mais de dez diferentes, tem, por exemplo, paçoca, chocolate belga, pistache, doce de leite, café. Sabe, não sou um nostálgico da desafetação. Mas naquele dia queria apenas um pouco de simplicidade. Um café espresso, um brigadeiro de brigadeiro e um carro que não sabe falar e que não tira peças com nomes esquisitos da sua metafórica cartola eletrônica. Mas eu sei que esse é um movimento natural das coisas em nossa sociedade. Elas começam simples, mas à medida que o tempo passa, vão se sofisticando. É uma característica que não […]

Como identificar um whisky falso (de verdade) – O Cão Engarrafado

Comprei um fone de ouvido. Outro, porque aquele meu fantástico encontrou seu destino ao despencar no chão. Durou menos de dois anos e custou mais caro que prosecco no réveillon. Revoltado, resolvi que compraria algo bem mais em conta, ainda que quisesse também um visual bonito. Um website internacional de réplicas resolveu meu problema. Um belíssimo fone preto, estilo aviador. A marca, não fosse uma vogal de diferença, seria uma das melhores para equipamentos eletrônicos da espécie – Buse. Aquele Buse era quase idêntico ao original. Sério, era quase impossível desmascará-lo. Exceto no que importava. O som. Os baixos eram altos demais, e os altos, muito baixos. O volume máximo era o correspondente àquele atingido por minha filha sussurrando. Mas o pior de tudo era um barulho de chocalho quando eu mexia a cabeça. Provavelmente por conta de algum parafuso lá dentro, que havia caído durante sua viagem intercontinental até chegar à minha mão. Era uma pena. No final das contas o fone quase-original não era original no que mais interessava, apesar da estética quase impecável. E como tudo na minha vida acaba desembocando em whisky, rapidamente um pensamento me ocorreu. Era como whisky falsificado. Assim, embalado por minha (nem […]

Jim Beam Bourbon – Sobre unanimidades

Talvez muitos dos leitores aqui não saibam disso. Já contei uma vez há algum tempo – sou advogado. Meu primeiro trabalho foi em um escritório relativamente grande de São Paulo, na área de Mercado de Capitais – talvez a segunda especialidade com a maior fauna de estereótipos, depois da famigerada trabalhista. A equipe era formada por quatro pessoas. Ou melhor, quatro personagens, todos com jeitos e gostos diferentes. O que, de certa forma, era enriquecedor, porque sempre conseguíamos abordar os problemas com diferentes enfoques, discutir e chegar à melhor saída. A equipe funcionava muito bem graças à essa diversidade. Quer dizer, quase sempre. Menos no almoço de equipe. O almoço de equipe era um conflito quase irresoluto. Um era apaixonado por uma hamburgueria tão cara, mas tão cara, que o preço só se justificaria se os hambúrgueres fossem feitos de carne do rebanho de gado do Senhor Todo Poderoso, se o Senhor Todo Poderoso tivesse um rebanho de gado. Outra sempre queria comida japonesa. O sócio, Sr. Roberto, preferia o árabe, por conta das esfirras de ricota. E eu, recém-formado, com minha carteirinha da ordem meramente ornamental, topava qualquer um que não me transformasse em um camponês medieval, preso à […]

Especial dia dos Namorados – Almas gêmeas do whisky

Olha, isto aqui é um texto sobre o dia dos namorados. Eu sei. E eu sei que o que você espera é que eu indique três ou quatro whiskies perfeitos para data. Ou passe a receita de algum coquetel afrodisíaco que leva a bebida. Mas terei que desapontá-lo. Aqui não há nada disso. Primeiro porque o whisky perfeito para a data é aquele que você mais gosta, e seria muita presunção da minha parte propor algo diferente. Em segundo, porque convenhamos, whisky pode ser quase tudo, mas afrodisíaco é algo que ele não é. Mas a terceira e a mais eminente razão é que eu detesto o dia dos namorados. O dia dos namorados não é bom pra ninguém. Ele é péssimo para quem é solteiro – que se sente excluído das comemorações – e especialmente detestável para alguém que está em uma relação. Para aqueles, é difícil ignorar o dia dos namorados. Para estes, é desaconselhável. Se você discorda, segure em minha proverbial mão e acompanhe-me nesta singela digressão: quantos de vocês já brigaram no dia dos namorados por conta do dia dos namorados? A obrigação de fazer algo especial, dar um presente único – leia-se, caro – ou demonstrar […]

Como Bourbon (e Tennessee Whiskey) é feito – Parte I

Recentemente lancei um texto em três partes sobre a produção de whisky. Naquela oportunidade foquei em single malts. Ou melhor, single malts escoceses. Caso tenha perdido estes textos, leia a primeira, segunda e terceira partes aqui. Agora é a vez do  mais famoso destilado da terra das pós verdades e do alto índice de LDL. Da maior contribuição dos americanos para o mundo da gastronomia, seguida de perto pelo hambúrguer e pelos ovos beneditinos. O Whiskey Americano. Para facilitar, o foco desta vez serão os Bourbon whiskeys – de longe a maior classe de whiskeys nos Estados Unidos. Mas falarei um pouco dos demais tipos e suas especificidades. Antes de explicar o nascimento de um bourbon, aqui vai uma pequena introdução em legislação. Para que um bourbon whiskey possa ser assim chamado, ele deve seguir as seguintes premissas, dispostas no Code of Federal Regulations, title 27, part 5, subpart C. (i) o destilado deve ser produzido nos Estados Unidos, e sair dos destiladores com o máximo de 80% de graduação alcoólica; (ii) deve ser feito com ao menos 51% de milho; (iii) o destilado deve ir para os barris tostados (charred) e virgens de carvalho com o máximo de 62.5% de graduação alcoólica (normalmente diluído […]

Drops – Teeling Single Malt Irish Whiskey

Recentemente apresentei por aqui o Corsair Triple Smoke. Um single malt whisky produzido bem longe do frio escocês. No estado do Kentucky, nos Estados Unidos. Agora é a vez de outro single malt concebido em terras estrangeiras. Mais especificamente, a Irlanda. País de James Joyce, Oscar Wilde, Samuel Beckett e – porque não Colin Farrel e Liam Neeson. E, assim como este último, capaz de destruir combatentes de peso. Prova disso é sua nomeação como melhor single malt irlandês, na recente World Whisky Awards de 2017. O Teeling Single Malt é um animal recessivo em seu país de origem. Elaborado exclusivamente de cevada maltada, destilado somente em alambiques de cobre e engarrafado sem filtragem a frio, a 46% – uma graduação relativamente alta para um irish whiskey. Até mesmo na maturação o Teeling Single Malt é pouco convencional. Seu amadurecimento ocorre em barricas antes usadas por bourbon whiskey. Porém, antes de ser engarrafado, o whiskey é finalizado em uma incrível variedade de barris. Fazem parte de seu processo de finalização barricas usadas anteriormente por vinhos do Porto, Madeira, Borgonhês e cabernet sauvignon. Longe de ser o resultado de uma aposta, ou uma marca pouco reconhecida buscando destaque por meio de inovações […]

Jameson Bartender’s Ball 2017

“segunda feira não é ruim, você que está no lugar errado“. Lembrei-me deste cliché ao chegar ao Estúdio da Tattoo You, em São Paulo, ontem. Mas não para fazer uma tatuagem – ainda que às vezes flerte com a ideia – mas para um dos eventos mais legais do ano. A final do Jameson Bartender’s Ball 2017. Bartender’s Ball é uma competição internacional de bartenders, em que cada um deve criar um coquetel próprio, utilizando Jameson. No ano passado, o vencedor foi Matheus Cunha, do atual Juniper 44º. Seu coquetel – o Sem Medo –  levava Jameson, cerveja preta, vermute e abacaxi. Neste ano, além do concurso, o evento ainda foi complementado por uma interessantíssima palestra preliminar do embaixador da Jameson no Brasil, Lucca Campolina, sobre a história e produção do whisky irlandês mais famoso do mundo. A competição contou com vinte e quatro bartenders brasileiros. No final de abril, foram escolhidos seis, que participaram da final brasileira (ou semifinal mundial) naquele 15 de maio, no estúdio da Tattoo You: Edgard da Silva Jr. (LOL Sport e Bar), Stephanie Marinkovic (Espaço 13), Renan Tarantino (Nakka), Felipe Leite (Jiquitaia), Dio Lucena (Peppino), Vanderlei Nunes (Brexó) e Guilherme Araújo (Vidottinho). Os bartenders deveriam improvisar drinks para três […]