Algonquin Cocktail – Hábito

A vida é repetição. Há uma pletora de coisas que fazemos todos os dias, e que são praticamente incontornáveis. Acordar, comer, trabalhar. Se você for uma pessoa com padrões razoáveis de higiene, tomar banho e escovar os dentes. Algumas vezes, essas coisas nos trazem prazer. Outras, são mera obrigação. Para adicionar um hábito à rotina que não seja absolutamente necessário, ele tem que ser muito bom. Mas muito bom mesmo. Não imagino nada assim, nem, sei lá, beber whisky. E olha que eu realmente gosto de beber whisky. Mas foi isso que aconteceu com um grupo chamado Algonquin Round Table (ou A Távola Redonda de Algonquin) – formado por escritores, dramaturgos, atores e outros artistas que se reuniam praticamente todo dia no hotel Algonquin, em Nova Iorque, para o almoço. O grupo foi fundado pelo agente teatral John Peter Toohey e pelo crítico literário Alexander Wolcott. Ao longo do tempo, outras figuras proeminentes da cultura literária dos Estados Unidos se juntaram aos comensais. Harpo Marx, Dorothy Parker, Franklin Pierce Adams e Harold Ross eram alguns deles. Os almoços – que aconteciam praticamente todos os dias – duraram mais de dez anos, de 1919 até o começo da década de 30. […]

Bowmore Vintner’s Trilogy 18 – Manzanilla Cask – Drops

Talvez você seja um apreciador de vinhos. Ou, talvez, você goste apenas de whisky. Mas há uma coisa inegável. O mundo daqueles possui uma enorme influência no deste. Isso fica claro observando a quantidade de whiskies que possuem alguma espécie de maturação em barricas previamente utilizadas para vinho. Um exemplo é o recente lançamento da Johnnie Walker aqui no Brasil – o Blender’s Batch Wine Cask. Outra, o maravilhoso Port Charlotte MRC:01, finalizado em barris de ex-Mouton Rothschild. Mas não apenas eles. Há uma miríade de maltes e blends envelhecidos em barricas de vinho de diferentes tipos, como jerez, porto, madeira e sauternes. Há, porém, uma certa dificuldade em se trabalhar com barricas de vinho quando se tem um malte predominantemente defumado. Em muitos casos, os aromas e sabores frutados daquele fermentado acabam sobrepujando o enfumaçado do new-make. E, em outros, é o contrário – a fumaça eclipsa a barrica e seu conteúdo prévio. Encontrar um equilíbrio é difícil. Exige conhecimento e tempo. Mas isso, a Bowmore – a mais antiga destilaria da ilha de Islay – tem de sobra. Eles são reconhecidamente uma das destilarias que mais bem trabalha com essas influências aparentemente conflitantes. Prova disso é a Vintner’s […]

Sobre a Transparência no mundo do Whisky

Estamos na era da transparência. Transparência essa, movida em grande parte pela desconfiança generalizada. Duvidamos da mídia, das grandes empresas. E das pequenas também. Desconfiamos das intenções das pessoas e do altruísmo. Duvidamos do troco do taxista, da conta do bar – que para mim é sempre surpreendente – e da nossa filha, quando ela diz que ainda não assistiu Patrulha Canina hoje. Tudo é matéria para escrutínio. Mas apesar disso, é engraçado que aceitamos a pouca informação no mundo do whisky. Porque, se você pensar bem, sabemos muito pouco sobre aquilo que estamos bebendo. Na maioria das vezes aceitamos as meias-informações e nos damos por satisfeitos. Basta que o produto tenha um sabor agradável e seja consistente. E a maioria dos produtores não só está de acordo com isso, como comemora. Sabemos, por exemplo, que a base do Chivas Regal 12 anos é Strathisla. E sabemos que o componente mais jovem lá dentro tem doze anos. Com o Johnnie Walker Blue Label, sabe-se apenas que a base é Royal Lochnagar. Mas não passa muito disso. Não sabemos ao certo quais são os outros maltes e whiskies de grão, tampouco sua idade. A razão disso é uma norma da Scotch […]

Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare Port Ellen

Em 1888, numa mina localizada em Kimberly, na África do Sul, foi feita uma descoberta extraordinária. Extraordinariamente valiosa. O outrora terceiro maior diamante do mundo, de uma translúcida cor de whisky. Batizado de De Beers – por conta da empresa de mineração que o encontrou – o brilhante, depois de lapidado, possuía mais de 230 quilates. Isso é realmente muito, caso você não seja um entusiasta da gemologia. A pedra, que adquirira fama internacional, foi então comprada pelo marajá Bhupinder Singh, da Índia, em 1889. O monarca juntou a gema a mais 2.930 diamantes – alguns deles raríssimos – de sua coleção, e comissionou a Casa Cartier para criar uma das maiores peças de joalheria de todos os tempos. Um colar cerimonial, chamado Patiala. A peça final, produzida com platina, tinha mais de mil quilates. Em seu centro, reluzia o enorme De Beers. Mas – e desculpem pela paráfrase medíocre – nem tudo eram diamantes no céu. Em meados de 1950, o enorme colar desapareceu do tesouro real, e assim permaneceu por mais de quatro décadas. Em 1998 ele foi encontrado pela própria Cartier em uma joalheria de Londres, mas sem suas pedras mais preciosas – dentre elas, o De […]

Jura The Road – Drops

Jura é uma ilha curiosa. Curiosamente pouco populosa. A ilha – uma das maiores das Hébridas Internas, com mais de trezentos e sessenta e sete quilômetros quadrados – já contou com uma população superior a mil habitantes. Porém, atualmente, a ilha abriga em torno de duzentos habitantes. O que dá, numa conta bem porca, dá uma pessoa a cada dois quilômetros. Por conta de sua diminuta população, a ilha possui apenas um hotel e uma única igreja. Além disso, sua malha viária não é exatamente extensa. Há somente uma estada, a A846. Ou melhor, metade de uma. Porque a A846 continua em Islay, ilha vizinha a Jura. Jura, assim, conta apenas com o essencial. Mas o essencial na Escócia, claro, inclui uma destilaria. A Island of Jura, que recentemente lançou uma nova linha de expressões para o mercado de duty free. Seus rótulos homenageiam pontos geográficos importantes de sua ilha natal. E, naturalmente, a A846 não ficou de fora, com o Jura The Road (A Estrada). De acordo com a destilaria “Em Jura, há apenas uma estrada para se dirigir. Ela emerge da região selvagem ao norte, e acompanha a linha da costa em sua jornada sinuosa ao sul, até […]

FEW Bourbon Whiskey – (um pouco mais do que um) Drops.

Lynchburg, Tennessee. Clermont, Kentucky. Quase qualquer apaixonado por whiskeys relacionará, rapidamente, estes lugares à sua bebida favorita. Afinal, lá estão as destilarias das mundialmente famosas Jack Daniel’s e Jim Beam, respectivamente. Mas mesmo se você for um entusiasta do destilado norte-americano, é bem provável que nunca tenha ouvido falar em Evanston, Illinois. Bem, mesmo porque não havia nada de extraordinário em Evanston, Illinois, até 2011. Quer dizer, exceto uma curiosa história sobre a lei-seca norte americana. É que a cidade foi um dos berços do movimento de temperança americano, que, mais tarde, culminou no nobre experimento. A Woman’s Christian Temperance Union – WCTU (algo como a União de Temperança Cristã) teve como sua segunda líder Frances E. Willard, nascida em Evanston. Foi sob sua tutela, a partir de 1879, que o movimento ganhou força, até conseguir, finalmente, que a lei seca fosse adotada nacionalmente. Além disso, depois de sua morte, sua casa se tornou a sede da WCTU. Mas antes disso, Evanston já era uma cidade seca. Em 1855 a cidade inaugurou a Northwestern University. Ao recepcionar seus primeiros alunos, a instituição peticionou ao Estado que determinasse um raio de 4 milhas a partir de seu centro, onde seria proibida […]

Scofflaw Cocktail – Neologismo

Neologismo. A criatividade humana aplicada à linguagem. O berço de palavras, para suprir necessidades ou lacunas. A prova de que a língua não é pétrea ou falecida, mas fluida e viva – em constante mudança. Se você acha que escrevi algo abobado, então dê uma googlada. Eles são onipresentes. O drone comprado no camelódromo. A foto photoshopada da blogueira. O computadorês, aliás, é campeão – deletar, resetar, escanear e (um preferido meu) boostar. Com dois “ós”, por favor, e sem me trollar, porque com um só, é outra coisa. Mas a coquetelaria não fica muito para trás. Coquetel mesmo, a palavra, já foi um neologismo. Ela deriva do inglês cocktail, que, por sua vez, pode ter vindo da corruptela de uma palavra creole – cockley. Ou de uma história bizarra envolvendo gengibre e o derrière (esse nao é um neologismo) de mamíferos de grande porte. Ninguém sabe ao certo. Outro neologismo na coquetelaria – mas em inglês – foi Scofflaw, que pouco tempo depois virou um drink. A palavra, que significa “zomba-lei” era usado para descrever justamente o público alvo do coquetel. Os homens que desafiavam a lei seca e bebiam. A palavra ganhou um concurso promovido por Delcevare King, […]

Bacardi Reserva Limitada – Um rum com alma de whisky.

Certa feita, comentei um pouco sobre o simpático canídeo fotografado na página inicial deste infame blog. O Maverick, meu querido cão de estimação. Na oportunidade, contei que o Maverick nasceu cachorro, mas com alma de gato. O que pouca gente sabe, entretanto, é que possuo outro animal, com o problema diametralmente oposto. Um gato que acha que é cão. Seu nome é Byron – em homenagem ao fidalgo escritor maldito. E, assim como ele, o Byron tem umas obsessões esquisitas. Mas, no caso do felino, a fixação não é sexual. Mas é por fones de ouvido. Só de ver um fone de ouvido, o Byron já fica louco para destroçá-lo em milhares de pedaços – uma atividade que desperta em mim doses iguais de desespero e ódio. Mas isso não importa. O que importa, é que ele acha que é um cachorro. Ele nos recepciona na porta, quer ficar sempre junto, ama lamber nossas mãos e adora, de idolatria, a ração canina que o Maverick despreza. O Byron, por fora, é um gato. Mas, por dentro, há aquele coração inconsequente brincalhão de todo canídeo. Ele é o gato perfeito para qualquer um que ama cachorros. Se fosse um rum, o […]

Bacardi Legacy – Final Nacional

O almoço de segunda-feira é, talvez, a refeição mais detestável da semana. Há a vã tentativa de compensar os excessos do fim de semana com alguma saladinha safada e um suco natural, aliada ao prognóstico de uma longa semana de trabalho. Enfim, uma atividade que não incita muita emoção, nem no campo gastronômico, nem no psicológico. Devo dizer que nunca me empolguei com a previsão de um almoço de segunda-feira. Isto é, até ontem. Porque, à convite da Bacardi, este Cão Engarrafado participou de um almoço bem especial. E bem pouco ortodoxo para o primeiro dia útil da semana: um churrasco na famosa Corrientes 348, em São Paulo, com Jose Sanchez Gavito, Maestro de Ron dos runs da Bacardi. O almoço, acompanhado de uma degustação do incrível novo portfólio da marca no Brasil, marcou o dia da final da etapa nacional do Bacardi Legacy. Um campeonato de coquetelaria internacional, que desafia os bartenders de todo o mundo a criarem o coquetel que tenha o maior potencial de se estabelecer como um clássico e deixando seu legado na coquetelaria, ao lado de drinks como o Daiquiri, Mojito, Cuba Libre e inúmeros outros clássico originalmente criado com rum Bacardi. Na oportunidade – […]

Singleton of Dufftown – Curva de Aprendizado

Quando tinha uns quatorze, quinze anos, resolvi que aprenderia a falar russo. Sei lá porque decidi aprender russo. Talvez porque eu não fosse esquisito o suficiente já, trinta quilos acima do peso, jogando RPG e desenhando no intervalo das aulas do que outrora era conhecido como colegial. Meus pais, sempre dispostos a estimular meus interesses mais excêntricos, logo encontraram uma excelente professora. Fazia duas aulas por semana. Falar já era bem difícil, mas o pior de tudo mesmo era ler. E o alfabeto cirílico não ajudava nem um pouco. Depois de um ano, minha professora me deu um livro pra ler sozinho. Três Porquinhos. Indaguei se não havia uma leitura mais interessante. Meu querido, todo mundo precisa começar do básico. Você não vai entender, se eu te der um Pushkin, Maiaskovski ou Dostô. Acenei com a cabeça. No final, não entendia direito nem mesmo a história do trio de suínos. Mas conhecia a versão em português, e assim consegui preencher as lacunas de minha inabilidade linguística. Essa semana, me vi recordando do conto infantil na língua eslava ao provar um single malt recém chegado ao Brasil. O Singleton of Dufftown – mais um da tríade (não posso deixar de notar […]