Clássico Moderno – Glenlivet 18 anos

Sabe qual o maior problema dos remakes? É que raramente são melhores que os originais. Um claro exemplo disso é o filme Cidade dos Anjos. Caso você não saiba, Cidade dos Anjos é baseado em um filme europeu chamado Asas do Desejo, dirigido por Wim Wenders. Asas do Desejo esteve, por muito tempo, no meu top dez filmes preferidos de todos os tempos. Já Cidade dos Anjos, bem, esse passou longe. O argumento dos dois filmes é praticamente o mesmo. Um anjo que decide abrir mão da existência eterna para tornar-se humano. Em Asas do Desejo, sua motivação é compreender o significado da vida e experimentar e o prazer – e o sofrimento – de ter carne e osso. Essa experiência é personificada em uma bela trapezista de circo, pela qual o anjo se apaixona. O filme é de um existencialismo extremamente sutil, todo em preto e branco, e conta com as antológicas atuações de Bruno Ganz e Solveig Dommartin. Já Cidade dos Anjos é um pouco diferente. Em Cidade dos Anjos, um querubim estrelado por Nicholas Cage desenvolve uma paixão platônica pela Meg Ryan, que é uma médica. Ele não dá a mínima para o significado da vida ou […]

Tabula Rasa – Glenfiddich 18 anos

  Algumas pessoas têm manias estranhas. Quando era criança, tinha um coleguinha que gostava de morder gente. Ele tentava morder todo mundo, sem qualquer distinção de idade ou sexo. E de forma completamente gratuita. Como eu sabia de seu hábito, mantinha uma distância segura. Muito tempo depois, descobri que essa é uma compulsão mais ou menos comum, e que pode continuar durante a vida adulta. Chama-se Dacnomania. Nunca pude perguntar a ele como esse curioso hábito começara. Na verdade, nunca me permiti esta oportunidade – ter um bife arrancado do meu braço não estava nos meus planos. Talvez minha curiosidade mórbida frente um dacnomaníaco fosse menor do que meu instinto de autopreservação. Outra mania bem esquisita que vi – dessa vez em um programa de televisão – era de comer tijolos. Era uma moça, lá pelos seus trinta anos de idade. Seu pitoresco costume consistia em arrancar pequenos pedacinhos de parede, roer e depois engolir. Quando questionada, a moça disse que, quando criança, foi induzida por sua avó a tornar-se a primeira sommelier de paredes do mundo. Sua avó lhe contara que seu pai comia papel de parede e argamassa quando infante. Fascinada pela história, a menina resolveu provar por […]

Drops – Chivas Regal Chivas Revolve

Na semana passada o Cão Engarrafado teve a oportunidade de participar de uma degustação às cegas de blended whiskies, sob o comando do mestre Cesar Adames, e com a participação dos amigos Maurício Salvi, do canal Whisky em Casa, Roberto Montemor, do blog O Toneleiro e Carlos Zibel Costa. Após a prova, Cesar pediu que os participantes escolhessem o melhor. E o eleito foi esta curiosa garrafa da foto. O Chivas Revolve, um blend super-premium da Chivas Regal Brasil, produzido em quantidades limitadas e disponível para compra apenas em Duty-Free shops de aeroportos internacionais. O preço médio é de US$ 85,00 (oitenta e cinco dólares). Apesar de não ter informação de nenhuma fonte confiável, este Cão suspeita que os principais maltes de sua mistura são Strathisla e Aberlour. O Chivas Revolve apresenta sabor de especiarias, mas sem perder o aroma floral característico da marca. Além de ser uma delícia, a garrafa é quase, diremos, lúdica. Ela possui um pino ao centro, tipo um peão. Um peão cheio de um whisky delicioso. Um peão para adultos. Uma variedade de edições do Chivas Revolve foi lançada ao longo dos anos. Havia versões com graduação alcoólica de 50%, e outras com idade estampada […]

O Cão Sofisticado – Royal Salute 21 Anos

Já estamos em dezembro, o mês mais monomaníaco do ano. Em dezembro tudo que se vê e ouve é Natal. Natal é a época de ser espetado pelos galhos de um pinheiro de mentira que você está tentando montar, enquanto passa um calor senegalês. É a época de ouvir músicas insuportáveis em lojas apinhadas, tentando comprar um presente para aquele seu parente distante que você esqueceu que existia. Aliás, nem me venha dizer que você gosta do Natal exatamente porque consegue reencontrar seus parentes mais distantes. Porque eles são seus parentes mais distantes exatamente por isso. Porque se você – ou eles – se esforçasse um pouquinho mais, talvez pudesse vê-los mais de uma vez por ano. Exceto se for longe. Aí você tem uma boa justificativa. Por exemplo, eu. Para mim, neste caso, longe é qualquer lugar depois da drogaria que fica na esquina da minha casa. Mas Dezembro é também o mês da generosidade. O mês de dar e receber presentes. E ainda que eu prefira as pessoas livres do efeito do Valuim que as acomete no Natal, é inegável a satisfação de receber uma boa lembrança. Principalmente de quem você realmente gosta. Mesmo que você não goste […]

Drink do Cão – Green Gimlet

Uma improvável gota de suor escorrendo pela lateral das minhas costas não deixa dúvidas. Estamos quase no verão. O verão é a estação do ano em que tudo gruda. Cadeiras, maçanetas, o metrô, o corrimão da escada e seus braços.  E também aquele seu coleguinha, cujos braços também estão pegajosos, e a uma distância preocupante dos seus. No verão, tudo adquire uma aderência meio porca. O verão é uma prova de enduro físico infinito, em que o troféu é não chegar azedo no final do dia. Ele tem, inclusive, um odor característico. É aquele aroma que está no táxi que você pegou, no vagão do metrô que você entrou e no elevador do seu escritório. É algo que lembra um refogado de alho, cebola e pimenta. Um refogado de alho, cebola e pimenta absolutamente asqueroso. Talvez eu tenha chegado prematuramente à andropausa, mas o calor do verão é quase insuportável. Quase porque eu não tenho opção. Quando está frio, eu posso simplesmente colocar uma jaqueta ou malha. No calor não. No calor, a melhor opção é ficar nu. Mas isso eu só posso fazer em casa e, mesmo assim, correndo o risco de grudar no mobiliário. Além disso, o calor deixa […]

Drops – Old Pulteney 12 anos

Você já experimentou um whisky salgado? Então conheça o Old Pulteney. Sua destilaria, conhecida como a destilaria mais ao norte na porção “continental” da Escócia, fica na cidade de Wick. Existe uma discussão séria sobre a origem do sabor salgado do Old Pulteney. Muitos afirmam que advém de sua maturação. Ele seria o resultado de anos e anos de ondas quebrando no litoral rochoso, ao lado da destilaria, e do efeito da maresia nos barris. Entretanto, os mais céticos afirmam que, para que fosse possível efetivamente sentir sabor de sal, seria necessário adicionar litros e litros de água salgada diretamente dentro de cada barril. Para estes, o gosto salgado do Old Pulteney não é sal. O old Pulteney é um whisky frutado, com sabor de nozes e castanhas. Mas não quaisquer castanhas. Castanhas salgadas. Bem salgadas. Tipo aquelas que você come de tiragosto, enquanto toma whisky. E ainda que este Cão não tenha certeza de onde vem este sabor, uma coisa ele pode afirmar: É bom demais.

Solo Suite – Laphroaig 10 anos

Hoje vou falar de coisa séria. Falarei de cultura. De música erudita. Falarei do Arvo Pärt (pronuncia-se Pért, caso você esteja se perguntando o que um trema está fazendo em cima de um “a”). Arvo Pärt é um compositor nascido na Estônia, em 1935, e vivo até hoje. Arvo é responsável por composições antológicas, que você certamente já ouviu. Certamente já ouviu, mas nunca soube que eram dele. O exemplo mais claro é Spiegel im Spiegel. Spiegel im Spiegel – que, em alemão, significa espelho no espelho – foi composto por Pärt em 1978, logo antes de abandonar a Estônia. A composição figurou em filmes como Gerry, de Gus van Sant e Dans le Noir Du Temps, um curta-metragem de Jean Luc Godard que trata sobre, bom, é difícil dizer com certeza sobre o que trata o curta de Godard. Mas este Cão suspeita que seja sobre a morte do cinema como arte, em uma era que tudo vira mercadoria. A peça clássica foi originalmente escrita para violino e piano, em um estilo chamado tintinnabuli. O estilo, criado pelo próprio Arvo, e cujo nome é uma onomatopeia que beira o ridículo, é caracterizado por duas vozes.  Ambas tonais. Uma delas, […]

Fumaça Negra – Johnnie Walker Double Black

Este texto foi originalmente escrito pelo Cão para a Single Malt Brasil no começo de 2015. Mas coisas boas sempre devem ser relembradas. Afinal, recordar é viver. Vou ser objetivo com vocês. Eu adoro qualquer coisa consumível que seja defumada. Isso inclui sólidos e líquidos. Quer me ver feliz? Faça um jantar que inclua, em algum momento, calabresa defumada, bacon ou salmão defumado. Ou os três. Com um bacontini. Sim, isso é um Martini com bacon. Inclusive, há uns meses atrás, durante uma visita ao supermercado, achei que tinha feito uma descoberta que mudaria para sempre minha vida. Fumaça líquida. Fumaça líquida é uma espécie de essência, que você pode borrifar em cima de alimentos, para deixá-los com um certo aroma de fumaça. Ou seja, delícia líquida. Comprei logo dois vidros. Na minha imaginação, eu poderia defumar tudo agora. Pense em um hambúrguer defumado, com pão defumado, queijo defumado e alface defumado. Perfeito! Meus primeiros testes com a fumaça líquida foram ótimos. Inclusive, fiz um espaguete com azeite, alho, pancetta, fumaça líquida e mais umas coisinhas que ficou bem decente. Só que aí eu comecei a ficar corajoso. E com a coragem, veio naturalmente a estupidez. Alguém aí já tentou […]

O Cão Econômico 3/3 – Famous Grouse Finest

Este é o último post de uma série de três provas sobre whiskies abaixo de R$ 100,00(*). Os outros foram Glen Grant e Teacher’s Highland Cream. Além dele, o Cão já visitou outros três whiskies nessa faixa de preço. Foram White Horse, Johnnie Walker Red Label e Suntory Kakubin. A criatividade do homem é infinita. Ela se manifesta em tudo produzido por nossa mente, seja tangível ou intangível. Das pinturas rupestres a Duchamp, das primeiras tendas aos arranha-céus de Dubai, estamos imersos em um oceano de criatividade. E isso não é novidade para ninguém. Mas há um ramo da inventividade humana que sempre me surpreende. Um ramo em que o homem realmente emprega todo seu potencial. O de nomear produtos. Dê uma olhada nas gôndolas de supermercados. Há uma miríade deles. Cachaças João Andante, torradas Peter Pão, croissants Croasonho, carnes Boi Vivant, tapete higiênico para cachorros Super SeCão. E meu preferido, talvez pelo mau gosto aliado à sutileza de uma britadeira: papeis higiênicos Pacu. Além do nome, há a embalagem. A embalagem é quase um convite para adquirir aquilo que ela carrega. Na época daquela promoção da Coca-Cola, sempre procurava meu nome nas latas. Se encontrasse, não titubearia em levar para casa. Mas […]

O Cão Econômico 2/3 – Teacher’s Highland Cream

Este é o segundo post de uma série de três provas sobre whiskies abaixo de R$ 100,00. O primeiro foi o Glen Grant. Além dele, o Cão já visitou outros três whiskies nessa faixa de preço. Foram White Horse, Johnnie Walker Red Label e Suntory Kakubin. Se você já acompanha o Cão Engarrafado há algum tempo, provavelmente já percebeu que os automóveis estão entre minhas maiores paixões. Sempre gostei de carros. E na aurora deste meu amor, entre quase todas as marcas do mundo, a que provavelmente ocupava a maior área dentro do meu habitáculo mental de obsessões automobilísticas era a Alfa Romeo. Os Alfa Romeos, para mim, eram carros com alma. Carros produzidos por apaixonados por automóveis, para os apaixonados por automóveis. Caros, mas absolutamente geniais. Afinal, quase todos os entusiastas colocavam a montadora em posição de destaque em seu rol de paixões. Antes de fazer dezoito anos e tirar minha carta, dirigir um Alfa era uma das coisas que eu mais queria fazer na vida, e provavelmente o único desse rol de desejos pungentes que não envolveria mais ninguém. Para minha incrível sorte – ou azar – minha avó possuía um Alfa Romeo 164, pouquíssimo rodado e muito […]