Sobre a Força – Glenlivet Founder’s Reserve

Este não é um post sobre whisky. Me desculpem pela decepção. Este é um post sobre um modesto filme que transformou a internet em uma convulsão maníaca. Este é mais um post sobre Star Wars. Mas pode continuar lendo. Eu prometo que não contarei nenhum spoiler para estragar sua experiência. Ou talvez um só. Nada grave. Prometo que valerá a pena. Quando soube que J. J. Abrams dirigiria um novo filme da saga, fiquei apreensivo. Apreensão que só aumentou quando descobri que alguns personagens dos episódios IV, V e VI apareceriam. É que eu realmente gostava dos três primeiros filmes, e não queria ninguém estragando a imagem de Han Solo, Leia e mesmo Luke para as gerações vindouras. Mas assim que me sentei na cadeira de cinema, percebi que meus medos eram completamente infundados. O Despertar da Força é um caso raro de sucesso absoluto. Os números estão aí para comprovar. Ele arrecadou, só nas primeiras semanas, um bilhão de dólares. Foi a abertura de maior sucesso da história do cinema. Na modesta opinião deste ébrio Canídeo, o sucesso reside no equilíbrio. Mas não no equilíbrio da Força. No equilíbrio irretocável entre os elementos clássicos da saga e a inovação […]

Clássico Moderno – Glenlivet 18 anos

Sabe qual o maior problema dos remakes? É que raramente são melhores que os originais. Um claro exemplo disso é o filme Cidade dos Anjos. Caso você não saiba, Cidade dos Anjos é baseado em um filme europeu chamado Asas do Desejo, dirigido por Wim Wenders. Asas do Desejo esteve, por muito tempo, no meu top dez filmes preferidos de todos os tempos. Já Cidade dos Anjos, bem, esse passou longe. O argumento dos dois filmes é praticamente o mesmo. Um anjo que decide abrir mão da existência eterna para tornar-se humano. Em Asas do Desejo, sua motivação é compreender o significado da vida e experimentar e o prazer – e o sofrimento – de ter carne e osso. Essa experiência é personificada em uma bela trapezista de circo, pela qual o anjo se apaixona. O filme é de um existencialismo extremamente sutil, todo em preto e branco, e conta com as antológicas atuações de Bruno Ganz e Solveig Dommartin. Já Cidade dos Anjos é um pouco diferente. Em Cidade dos Anjos, um querubim estrelado por Nicholas Cage desenvolve uma paixão platônica pela Meg Ryan, que é uma médica. Ele não dá a mínima para o significado da vida ou […]

Drops – Armorik Whisky Breton

Já experimentou algum whisky Francês? O país da champanhe e do vinho também produz excelentes single malts. Este é o Armorik, produzido na destilaria Warenghem,na região da Bretanha. A Warenghem, além de whisky, produz também hidromel e algum outros destilados, como um licor de menta e uma espécie de triple sec. O carro chefe, entretanto, é mesmo o whisky. E o Armorik Classic – a expressão aqui retratada – é sua versão de entrada, e, naturalmente, a mais vendida. Apesar de possuir mais de cem anos de idade, a destilaria apenas recentemente ganhou destaque internacional. A razão disso, provavelmente, foi a reformulação do portfólio de whiskies por ela produzidos e o refinamento dos métodos de produção. Entre as mudanças, houve o maior emprego de barricas de ex-jerez e a diversificação de versões. O Armorik é um whisky sem idade definida, maturado em barricas de carvalho americano que contiveram bourbon whisky, com uma pequena parte maturada em barricas de ex-jerez. Ele possui aroma e sabor frutado, com mel, baunilha e açúcar mascavo. Praticamente um Crème Brulée em estado líquido!    

Tabula Rasa – Glenfiddich 18 anos

  Algumas pessoas têm manias estranhas. Quando era criança, tinha um coleguinha que gostava de morder gente. Ele tentava morder todo mundo, sem qualquer distinção de idade ou sexo. E de forma completamente gratuita. Como eu sabia de seu hábito, mantinha uma distância segura. Muito tempo depois, descobri que essa é uma compulsão mais ou menos comum, e que pode continuar durante a vida adulta. Chama-se Dacnomania. Nunca pude perguntar a ele como esse curioso hábito começara. Na verdade, nunca me permiti esta oportunidade – ter um bife arrancado do meu braço não estava nos meus planos. Talvez minha curiosidade mórbida frente um dacnomaníaco fosse menor do que meu instinto de autopreservação. Outra mania bem esquisita que vi – dessa vez em um programa de televisão – era de comer tijolos. Era uma moça, lá pelos seus trinta anos de idade. Seu pitoresco costume consistia em arrancar pequenos pedacinhos de parede, roer e depois engolir. Quando questionada, a moça disse que, quando criança, foi induzida por sua avó a tornar-se a primeira sommelier de paredes do mundo. Sua avó lhe contara que seu pai comia papel de parede e argamassa quando infante. Fascinada pela história, a menina resolveu provar por […]

Solo Suite – Laphroaig 10 anos

Hoje vou falar de coisa séria. Falarei de cultura. De música erudita. Falarei do Arvo Pärt (pronuncia-se Pért, caso você esteja se perguntando o que um trema está fazendo em cima de um “a”). Arvo Pärt é um compositor nascido na Estônia, em 1935, e vivo até hoje. Arvo é responsável por composições antológicas, que você certamente já ouviu. Certamente já ouviu, mas nunca soube que eram dele. O exemplo mais claro é Spiegel im Spiegel. Spiegel im Spiegel – que, em alemão, significa espelho no espelho – foi composto por Pärt em 1978, logo antes de abandonar a Estônia. A composição figurou em filmes como Gerry, de Gus van Sant e Dans le Noir Du Temps, um curta-metragem de Jean Luc Godard que trata sobre, bom, é difícil dizer com certeza sobre o que trata o curta de Godard. Mas este Cão suspeita que seja sobre a morte do cinema como arte, em uma era que tudo vira mercadoria. A peça clássica foi originalmente escrita para violino e piano, em um estilo chamado tintinnabuli. O estilo, criado pelo próprio Arvo, e cujo nome é uma onomatopeia que beira o ridículo, é caracterizado por duas vozes.  Ambas tonais. Uma delas, […]

Goodbye Mr. Hakushu – Hakushu 12 anos

Eu não sou bom com despedidas. Não que eu chore, fique sensível, comece a ouvir Coldplay e a devorar livros de autoajuda e tudo mais. Mas, de alguma forma, aquele abandono me atinge. Atinge quase como um vício. Uma vontade que não pode ser mais aplacada. Algo que estava ao meu alcance, mas que, por alguma razão, desapareceu. Talvez como aquela quase proverbial coceira no membro arrancado. Sinto isso com pessoas. Mas não só com elas. Para mim, ocorre também com músicas, comidas, bebidas. Um exemplo disso é um prato, que comia toda vez que ia a um restaurante próximo de minha casa. Era um restaurante bem caro e mais ou menos metido a besta, o que me irritava um pouco. Me irritava até aquele prato chegar. Porque depois, restava apenas aquele shiatsu de língua. E o engraçado é que o prato não tinha nada de muito difícil. Era uma espécie de talharim escuro, com shimeji, que levava um molho de parmesão batido. A consistência do molho era próxima de uma espuma, um chantilly, mas com bastante sabor de queijo. Essa era a parte genial dele. O molho. O molho era tão genial, mas tão genial, que eu abria mão […]

O Chef Canídeo – Filé Flambado com Whisky Defumado (e risoto de whisky)

Quem me conhece sabe que não tenho grandes restrições alimentares. Sou capaz de comer quase tudo que pode ser considerado um alimento. Quer dizer, quase tudo. Quase tudo porque eu nunca comi grilo, ou barata. E eu sei que na China se come isso como se fosse camarão sete barbas. Mas sabe, em condições normais, eu não vejo nenhum bom motivo pra comer um grilo. Na verdade, vamos impor alguns limites – não existe nenhum bom motivo para comer qualquer inseto. O que muita gente não entende é que, apesar de eu comer quase absolutamente tudo que seja humanamente comestível, eu tenho preferências. Por exemplo, adoro carne mal passada ou crua. Quer me ver feliz? Faça um steak tartar. Gosto muito também de peixe defumado. Aliás, gosto de qualquer coisa – qualquer coisa mesmo – que seja defumada. Sabe, pensando bem, talvez se me servissem grilo defumado, eu comeria. Mas eu também tenho ódios. Detesto frango. Veja bem, não é que eu não coma frango. Eu como. Com desgosto. Também odeio morangos. Morangos estão entre as frutas mais desprezíveis de todo o universo botânico. Eles existem com o único e exclusivo propósito de estragar alimentos que passariam perfeitamente bem sem […]

Sobre Adversidade / O Cão Econômico 1 de 3 – Glen Grant

John Lennon uma vez disse que a vida é o que acontece quando se está ocupado fazendo outros planos. Já William Cowper disse que a variedade é o tempero da vida. É verdade. Se juntarmos os dois, teremos que o verdadeiro tempero da vida é a infinidade de coisas que podem acontecer enquanto fazemos outra coisa. A vida é o que acontece quando você está pronto para dormir, mas pisa nas necessidades que seu cachorro fez no corredor, em sinal de protesto por não o ter levado para passear. Ou quando você está refletindo sobre o que vai beliscar, nu, na frente da geladeira, e ouve sua sogra entrando pela única porta que separa a cozinha do quarto de sua casa. Ou quando você acabou de colocar sua filha no berço, e chuta uma boneca que começa a cantar a música do Frozen. Ou ainda quando você já terminou, mas acabou de descobrir que sua esposa usou todo o papel higiênico e não o repôs. Talvez fosse mais fácil passear com o cachorro, usar uma bermuda, guardar os brinquedos e checar com antecedência o lugar do papel. Mas a verdade é que o imprevisto é a especiaria da vida. Seu […]

Um Não Post / Sobre a Inércia – Glenmorangie Nectar D’Or

  Há dias que realmente não queremos fazer absolutamente nada. Ontem foi um desses. Deitado no sofá, estava eu com uma preguiça petrificante de escrever um post. Eram cinco horas da tarde e eu pensava em tudo aquilo que poderia fazer, caso somente tivesse energia para levantar daquele meu leito. Sem mover sequer um milímetro de qualquer membro de meu corpo, pensava que poderia ir à academia, afinal, não corria há uma semana, e precisava me exercitar. Poderia também cozinhar alguma coisa. Havia comprado ovos, pancetta e uma caixa de spaghettini no supermercado, e com alguma disposição e um pouco de auxílio do mundo digital, poderia improvisar um carbonara para o jantar da Cã e da Cãzinha. Mas não. Porque aquilo exigiria que eu me movesse, e aquele estado de pré-sonolência me embalava de uma forma irresistível. Ao lado do sofá, a poucos centímetros do meu alcance máximo, havia uma garrafa do single malt que deveria ser o tema do post dessa semana. O Glenmorangie Nectar D’Or. Um ótimo whisky. Aliás, um dos três whiskies que fizeram com que eu começasse a me interessar pela bebida. Mas para pegá-lo, seria necessário que eu me esticasse e saísse de minha posição […]

O Cão Sofisticado – Kavalan Solist Vinho Barrique

Hoje vou falar do Kavalan Solist Vinho Barrique, whisky produzido em Taiwan, que ganhou prêmio de melhor whisky do mundo em 2015. Mas antes, vou falar um pouco de cinema. Do cinema. Do senhor cinemà: Jean Luc Godard.  Godard, muito além de uma referência em uma música do Legião Urbana, é, talvez, o melhor cineasta da história. O cinema do mundo inteiro foi influenciado por Godard. É possível ver referências a suas obras em diretores tão diferentes quanto Bernardo Bertollucci e Quentin Tarantino. Mas vou confessar uma coisa: para mim, sentar no sofá e tentar relaxar com um filme do Godard é um exercício de futilidade maior do que tentar encontrar poesia em uma música do Mr. Catra. É que cada plano e cada contraplano de seus filmes tem uma razão de ser. Um objetivo por trás, muito além de simplesmente contar uma história. Cada cena é milimetricamente montada para desconstruir dogmas férreos do audiovisual, ou para deliberadamente tirar o espectador de sua zona de conforto, reafirmando que aquilo é apenas um filme, e que o espectador é o que ele realmente é – um espectador de uma obra de ficção. Isso sem falar da fase Dziga Vertov, em que ele […]