Paris-Manhattan – Desconexão

Todos nós temos problemas. E falar sobre eles quase sempre traz alívio. A maioria de nós escolhe o companheiro, um amigo próximo ou um parente. Estes são nossos confidentes. Na literatura também. E lá, o papel do confidente é duplo. Além de muitas vezes auxiliar o herói, o confidente é uma forma de revelar os pensamentos e aflições do protagonista, sem criar artificialidade. Existem infinitos exemplos, da mais clássica à mais prosaica literatura. Horácio é o confidente de Hamlet, na conhecida obra de Shakespeare. Razumikhin é o de  Raskolnikov, em Crime e Castigo. Dumbledore é mentor e confidente de Harry Potter, assim como Galdalf para Frodo. E não, o mestre dos magos não é confidente de ninguém, porque ele é o Vingador e uma muleta de roteiro bem safada. Até objetos inanimados podem ser confidentes. E não estou falando do pessoal que fica contando segredos no Faceboook pra polemizar. Me refiro ao Wilson, do Náufrago, por exemplo. Ou a Alice. Não a do país das maravilhas. Mas a protagonista de uma comédia romântica chamada Paris-Manhattan. No filme ela tem uma estranha obsessão por Woody Allen, e conta seus segredos para um poster do diretor em seu quarto. Aliás, o filme é uma […]

Drops – Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish (Pinot Noir)

A prática leva à perfeição. Na verdade, nem sempre. Mas, talvez, na indústria do whiskey, isso seja verdade.  Ancorada em métodos tradicionais de produção, leveduras cuidadosamente armazenadas e cultivadas e barricas virgens de carvalho americano, o bourbon whiskey possui um sabor característico, quase temático. Caramelo, baunilha, mel. Um tema que, sinceramente, não precisa de nada a mais para ser um sucesso. Mas isso não significa que, de vez em quando, alguma inovação ou atipicidade surja. É o caso, por exemplo do Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish, ou – pelo seu nome completo – Woodford Reserve Master’s Collection Sonoma Cutrer Finish Pinot Noir. Como a pomposa e extensa denominação sugere, um bourbon whiskey finalizado em barricas de vinho tinto da uva Pinot Noir. O website oficial da Woodford Reseve já diz quase tudo que precisamos saber sobre essa maravilha. Transcrevo. “A cada ano, o master distiller da Brown-Forman, Chris Morris, lança uma edição especial da Woodford Reserve chamada Master’s Collection. Para cada lançamento, Morris muda algum aspecto do processo produtivo do whiskey (p.e. tipo de barril, finalização, grão, processo de fermentação, local de maturação e estilo). E em novembro veremos o nono lançamento da Master’s Collection” “Para o lançamento de 2014, […]

Wild Turkey Rye Whiskey – Cognição

Hoje vou tratar de um assunto que anda em baixa. Ou, para falar a verdade, que talvez nunca esteve em alta. A Capacidade Cognitiva. A capacidade cognitiva é, de uma forma simplificada, nossa capacidade de receber estímulos do meio ambiente e responder a elas. Ela engloba habilidades cada vez mais subutilizadas por nós, como pensamento, raciocínio, linguagem e memória. Vou recorrer a exemplos, para não extenuar a capacidade cognitiva de ninguém aqui. Quando, por exemplo, temos fome e resolvemos fazer um misto quente, usamos a cognição. E ao substituirmos o presunto por peito de peru porque ficamos com preguiça de usar a cognição pra comprar mais, também. Quando bebemos, alteramos nossa capacidade cognitiva. Por isso que às vezes, quando saio, acho que sou o Elon Musk e pago a conta de todo mundo. Ou viro uma versão invertida de James Joyce, que fala coisas profundas que ninguém entende. Mas que, no meu caso, não fazem sentido mesmo e nem são profundas. A capacidade cognitiva dos bartenders brasileiros foi bem exercitada nos últimos anos. Não tínhamos ginger ale para o Moscow Mule, por exemplo – o que exigiu uma bela espuma de criatividade. E tampouco rye whiskey para o Manhattan. Algo […]

Jefferson’s Ocean – Drops

Se você for um apreciador de café, talvez já tenha ouvido falar do famoso Kopi Luwak. Ele é conhecido como o café mais caro do mundo. Uma xícara pode custar até cem dólares, e um quilo passa tranquilamente dos mil dólares. A razão deste preço surreal passa por um pequeno mamífero africano. A civeta. Aliás, literalmente passa. É que o fruto do café é comido, digerido e o grão excretado por esses animais. Os fazendeiros então coletam esses grão – sim, de dentro das belas obras das civetas – e vendem para torradores, que o preparam para o consumo humano. É um método pouco ortodoxo. Porém, de acordo com muitos especialistas, este indigesto processo traz um sabor muito característico para o café. No mundo do whiskey, um bourbon que passa por um processo quase tão esquisito – ainda que menos escatológico – é o Jefferson’s Ocean. É que parte de sua maturação acontece dentro de um navio. Isso – de acordo com a Jefferson’s – o expõe a elementos extremos, como flutuações de temperatura, maresia e o balanço da embarcação, o que acelera a maturação e aumenta sua complexidade. A ideia começou de uma forma modesta. O primeiro lote contou apenas […]

Seelbach Cocktail – Fake News

Às vezes me perguntam como faço para pensar na introdução de cada post do Cão. Respondo, meio jocosamente, que é fácil, porque já acordo pensando na próxima besteira que vou escrever ou falar, e tudo que preciso é um pouco de whisky para catalisar o processo. Mas isso não passa de uma brincadeira. Na realidade, muitas vezes, passo dias pensando na introdução de algum post. Em alguns casos, no entanto, o tema ajuda, e a introdução já vem quase pronta. É o caso do coquetel Seelbach. Um coquetel delicioso e vanguardista. Mas não vanguardista em seu preparo. Mas sim na história de sua concepção. Ou melhor, no falso relato de sua origem. Com detalhes de dar inveja ao Sr. Francisco daquele suco bonzinho, ou ao Vittorio daquela famosa marca de picolés, a narrativa do nascimento do Seelbach foi capaz de convencer até grandes nomes da coquetelaria mundial. Vou contar para vocês. O coquetel primeiro despontou em 1990, quando o bartender Adam Seger, do hotel Seelbach, localizado em Louisville, Kentucky, disse que descobrira a receita em um menu perdido daquele hotel. De acordo com Adam, a receita original do coquetel era anterior à Lei Seca Norte-Americana, e teria sido, naquela remota era, […]

Drops – Booker’s True Barrel Bourbon

O mundo do whisky escocês é cheio de exageros. Single malts com graduação alcoólica superior a 60%. Whiskies maturados por mais de cinco décadas e vendidos a milhares de libras. Maltes insanamente defumados, que preenchem o ambiente com seu característico aroma de fumaça tão logo sejam abertos. Normalmente produzidos em pequenos lotes ou edições limitadas. Há uma certa curiosidade quase doentia nisso. Uma dúvida de até onde se pode chegar e quais seriam os resultados práticos disso. Naturalmente, do outro lado do Atlântico, a indústria do whiskey americano não fica para trás. Bourbons com mais de vinte anos de idade e cujos preços alcançam quatro casas decimais são cada vez mais comuns. Os Pappy Van Winkle provam isso com louvor. Assim como aqueles whiskeys insanamente alcoólicos, mas incrivelmente saborosos. Um dos expoentes máximos deste estilo é o Booker’s, também conhecido como Booker’s True Barrel Bourbon. O Booker’s é um bourbon engarrafado sem filtragem ou diluição (cask strength ou barrel strength, como preferir). A maioria das barricas do Booker’s é selecionada de uma área específica do armazém. As prateleiras do meio – onde, segundo a Jim Beam, as condições de temperatura e umidade são mais favoráveis a criar um whiskey mais […]

Franck’s Ultra Coffee – Café maturado em barricas de whiskey

Se você, assim como este Cão, é um apaixonado por whiskies, mas precisa de muito café para começar seu dia, aqui vai uma excelente notícia. Agora você não precisa esquecer o whiskey nem na aurora de seu dia. Não, este não é um convite para o alcoolismo. E nem um pretexto para você beber um Irish Coffee pela manhã. É que a Franck’s Ultra Coffee, uma marca de cafés brasileira, possui uma linha chamada Barrel Aged, que tem tudo a ver com a melhor bebida do mundo. Como o nome sugere, os cafés da linha Barrel Aged são maturados em barris de whiskey americano antes da torra. Segundo a Franck’s, no estado verde, o café captura boa parte da vanilina e lactonas do carvalho americano. Isso traz ao café notas de baunilha e coco queimado, característicos destas barricas. Além da maturação barricas de whiskey, há também cafés sazonais, que passam por barricas de rum, tequila, cachaça Porto Morretes. Há planos de também maturar café em barris de gim da destilaria brasileira HOF. A Franck’s Ultra Coffee é bem conhecida de muitos cervejeiros. Seus cafés já foram extensamente usados em cervejas brasileiras, como a Dogma EAP, que leva cafés maturados em […]

Backer Três Lobos Single Malt – Promissão

Quando nasci, meu pai tinha um Puma dourado. E desde minha mais tenra infância, eu adorava o carro. E, provavelmente, meu pai também. Porque ele ficou com o Puma por uns bons cinco anos depois de meu nascimento.  O problema é que o carro tinha apenas dois lugares, e eu – como era uma criança – não podia andar no banco da frente. O que, claro, não impedia meu pai de me colocar sentado naquele tablado duro, atrás do banco do passageiro, para dar umas voltas comigo. Nos anos oitenta, cadeirinha, cinto de segurança e bom senso eram opcionais. E as leis da física provavelmente também, porque à medida que crescia, deixava de caber naquele – tão fascinante quanto desconfortável – espaço. Com cinco anos de idade, minha coluna vertebral descrevia a angustiante curva do vidro traseiro, e minha cabeça acompanhava, em batidinhas surdas contra o teto do carro, o péssimo asfalto da cidade. Para falar a verdade, não era só banco traseiro que faltava no Puma. Ele era um automóvel espartano, ainda que muito bem feito. O que, claro, o tornava ainda mais fascinante. Quando meu pai finalmente o trocou por um Monza – em que eu podia me […]

Degustação com Robin Coupar – Global Brand Ambassador Wild Turkey

  Quinta-feira, 14:30. Três taças de whiskey posicionadas à minha frente. Na sala contígua, bartenders preparam coquetéis com whiskey para convidados – entre eles, uma espécie de smash, criado por Paulo Freitas, embaixador brasileiro de Wild Turkey e Campari. Dado o horário e a assemblage etílica, este não é um dia normal de trabalho. É que Robin Coupar, embaixador global da Wild Turkey, esteve no Brasil para uma série de degustações da marca, e este Cão teve o prazer de participar de uma delas. Durante a apresentação, Robin – que é escocês e apaixonado por tudo relacionado a whisky – contou alguns detalhes sobre a história e produção de Wild Turkey. As degustações fazem parte do concurso Behind The Barrel, que contou com 30 participantes brasileiros. A competição é um convite do bourbon Wild Turkey, marca do Campari Group para que bartenders criem um “Coquetel Verdadeiramente Seu”, utilizando Wild Turkey 101. Uma das características mais interessantes é a pouca diluição. O produto da destilação – o white dog – entra nas barricas quase com a força que sai dos destiladores contínuos. Isso faz com que o sabor trazido pela mashbill do whiskey fique mais evidente, mesmo depois de totalmente maturado. Durante o evento, […]

Reminiscência – Jim Beam Black

Sábado, São Paulo, oito horas da manhã. Saudáveis dez graus centígrados. Janela aberta, pouca luminosidade. Nuvens de chuva se formando. Fecho os olhos numa vã tentativa de dormir novamente. Sonho, por uma fração de segundo, na minha ex-professora de geografia, que explica, flutuando sobre uma espécie de algodão doce, a formação dos cirros, cúmulos e nimbos. Caramba, quanta coisa que aprendi e nunca usei. Platelmintos, angiospermas, actinopterígeos, lactobacillus. Trovão. Acordo num ressalto e espio o despertador. Oito e sete. Deslizando como um nematelminto até o chão, me coloco de pé. Banho, dentes. Mas que diazinho mais ou menos para fazer qualquer coisa.  Lembro-me, ainda reminiscente de minha professora voadora, que convidei alguns amigos da época do colegial para tomar alguns coquetéis – temerariamente feitos por mim – e jantar. Era o que precisava: propósito. Decido ir a um supermercado novo que abriu perto de casa. Fico animado a ponto de até dar um discreto salto de resolução. Se você não acha supermercado um programa, então deveria experimentar o tédio e a fome proporcionados por uma manhã de sábado. Vou caminhando e chego em menos de cinco minutos. Lugar amplo, teto alto, prateleiras de madeira. Tem até um pequeno pinheiro – uma gimnosperma […]