Da Atemporalidade – Johnnie Walker Green Label

Trinta de julho de dois mil e três foi um dia triste para os amantes de automóveis. Naquela data, enquanto lágrimas deslizavam de uma forma desnecessariamente dramática sobre as maçãs do rosto de milhares de espectadores, o último Fusca a ser fabricado no mundo também deslizava, ovacionado, para fora da linha de montagem da Volkswagen, em Puebla, no México. Concebido pelo engenheiro Joseph Ganz e desenvolvido por Ferdinand Porsche, o Fusca foi detalhadamente pensado para ser a materialização da praticidade sobre rodas. Todas as suas partes eram facilmente substituíveis e pouco custosas. O motor – refrigerado a ar, para evitar que o conteúdo do radiador congelasse no inverno – era forte o suficiente para cruzar as Autobahns sem esforço. Conhecido internacionalmente como Volkswagen Type 1 ou Volkswagen Beetle, o Fusca tornou-se, em 1972, o automóvel mais vendido da história. Vinte e um milhões, quinhentos e vinte e nove mil, quatrocentos e sessenta e quatro foram fabricados. Seu sucesso era absoluto. Tão absoluto que anos antes de ser descontinuado, já havia um modelo novo em produção, na Alemanha. Era o New Beetle. Mas, ao contrário de seu predecessor, o New Beetle era um objeto de desejo preconcebido. Com desenho retrô, curvas […]

Drops – Macallan Rare Cask

Juvenal – o poeta grego, não o jogador de futebol – escreveu em suas sátiras que “Rara é a união entre o puro e o belo“. Provavelmente Juvenal se referia a algum conceito misógino, ou à pureza inalcançável do homem, corrompido por um mundo impuro. Não sei. Mas se não fosse um hiato temporal de alguns milênios, eu poderia apostar que Juvenal escrevera a frase na presença de uma garrafa do Macallan Rare Cask. O Rare Cask é a quase perfeita fusão entre beleza, pureza e – como o próprio nome indica – a raridade. Nas palavras da The Macallan”muito menos do que 1% das barricas maturando na destilaria foram identificadas como capazes de receber o nome Rare Cask. Com raridade como sua essencia, este é um whisky produzido de barricas tão raras que jamais serão usadas para outro whisky da The Macallan. A combinação de barricas de carvalho americano e espanhol de ex-jerez, sendo grande parte delas de primeiro uso, dão origem a um whisky com coloração esplêndida e incontestavelmente amadeirado (…)” De acordo com a destilaria, o Rare Cask é a combinação dos whiskies maturados em algumas das melhores barricas de The Macallan. E tudo bem que “muito menos de 1%” pode ser qualquer […]

Da Improvisação – Wild Turkey 101 Rye Whiskey

Quando eu era criança, assistia muita televisão. Via todo tipo de programa. Pra falar a verdade, via qualquer coisa que estivesse passando. Mesmo porque eu não tinha muita escolha. Com apenas umas três ou quatro opções de canais, me encontrava constantemente no dilema entre ver jornal, jardinagem ou aquele mesmo filme, reprisado pela centésima vez. Aquele, com uma turminha do barulho, vivendo altas aventuras com Patrick Swayze, Winona Ryder e  Daryl Hannah. Dublado pela VTI-Rio*. Mas havia também aqueles programas que eu realmente gostava. Entre eles, ocupando posição de destaque, estava MacGyver.  Caso você não viva neste mundo, ou tenha nascido após o advento da televisão a cabo, eu explico. MacGyver foi uma série cujo protagonista – Angus MacGyver – era um agente secreto, interpretado por Richard Dean Anderson. Suas missões consistiam, resumidamente, em derrotar inimigos de sua pátria ou prevenir hecatombes. Até aí, MacGyver parecia um agente secreto ordinário da ficção científica, como muitos Bonds e Bornes por aí. Só que Angus era diferente. Por ter sofrido um trauma de infância envolvendo um revólver, ele não utilizava armas. Assim, a solução de seus problemas passava, quase sempre, por preparar alguma gambiarra sinistra, normalmente criada com o auxílio de seu canivete suíço. […]

Especial Jameson Bartenders Ball – Liffey – O Cão Engarrafado

Este é o terceiro e último post sobre os coquetéis provados durante o Jameson Bartenders Ball Bar Crawl, que, a convite da Jameson Irish Whiskey, tivemos o prazer de participar. O primeiro foi o Barrel Cocktail, de Vinícius Gomes e o segundo, Irish Pleasure, de Jean Dall Acqua. O drink dessa semana é o Liffey, elaborado pela bartender Barbara Salles, chefe de bar do Alberta#3. O Liffey é um coquetel cítrico e adocicado. Coincidentemente, é um contraponto perfeito com o coquetel de Dall Acqua (cítrico e com especiarias) ou o de Vinicius (seco e levemente amargo). Há um leve sabor de pimenta, mas que está longe de deixar o coquetel realmente picante. O que é bom. Segundo Bárbara, o coquetel foi elaborado com uma combinação de ingredientes que agradasse o paladar da bartender, mas que fosse também compatível com o gosto da maioria dos brasileiros, que tendem a preferir bebidas doces. Nas palavras de Bárbara “Como a maioria dos brasileiros têm um paladar mais adocicado, pensei em um coquetel que conseguisse satisfazer a todos. O cítrico do limão siciliano ajuda a suavizar o sabor do álcool e escolhi o xarope de maracujá por seguir uma linha mais cítrica, além de bem […]

Drops – Bruichladdich Octomore Scottish Barley

Aí vai mais um whisky para valentes. Este é o Octomore Scottish Barley. Os Octomore são edições limitadas anuais da destilaria Bruichladdich, localizada em Islay, na Escócia. Islay é famosa por seus whiskies turfados, que possuem sabor defumado por conta do processo de secagem da cevada maltada em uma fogueira de turfa. Mas o Scottish Barley não é um defumado qualquer. Veja bem, sua graduação alcoolica é de 57%. Como se isso não bastasse, os Octomore são os whiskies mais defumados do mundo. É que a defumação de um whisky é medida em partes por milhão (ppm) de fenóis. Whiskies turfados, como o Johnnie Walker Double Black, por exemplo, possuem algo em torno de 30ppm. Outros mais defumados, como Ardbeg, entre 40 e 50 ppm. Já o Scottish Barley possui 167ppm. Mais do que o triplo do Ardbeg. E ainda há uma versão de Octomore que chega a 258ppm! O álcool e a defumação extrema dão ao Octomore sabor de bacon, fumaça, pimenta do reino e iodo. Aliás, se você é fã de bacon e sempre sonhou em encontrar uma versão líquida da iguaria, pode parar de procurar. O Scottish Barley é para você. O Cão já fez a prova de […]

Do Eterno Retorno – Chivas Regal 18 anos

Quinta-feira cheguei em casa mais tarde. A querida Cã já havia jantado, e estava deitada na varanda, completamente absorvida por alguma leitura. Aproximei-me e tentei introduzir algum assunto prosaico, ao que ela me respondeu apenas com grunhidos, sem descolar os olhos do livro. Aí resolvi perguntar o que estava lendo. E ela, por duas horas, discorreu sobre a teoria do Eterno Retorno de Nietzsche, combinada com a do multiuniverso. O que, basicamente, minha melhor metade me explicou, traduzido para uma linguagem de boteco, é o seguinte. Segundo a teoria do multiuniverso, não há apenas um universo. Mas infinitos universos paralelos. Haverá universos paralelos absolutamente idênticos. Outros drasticamente diferentes. E alguns, apenas um pouco divergentes daquele em que vivemos. Soma-se a isso o Eterno Retorno, que ensina que, dentro de um leque virtualmente infinito de possibilidades, mesmo o evento mais insólito e improvável se repetirá infinitamente. Neste universo. E também em outros. Difícil? Então deixe-me ilustrar. Por exemplo, em certo universo paralelo, você está vivendo este mesmo sábado, tomando café e lendo este blog. Em outro, talvez não seja café sua bebida, mas whisky. E em outro talvez você esteja ainda lendo este texto, mas flutuando sentado em uma cadeira antigravitacional, […]

Especial Jameson Bartenders Ball – Irish Pleasure

Este é o segundo post de uma série de receitas dos coquetéis provados durante o Jameson Bartenders Ball Bar Crawl, que, a convite da Jameson Irish Whiskey, tivemos o prazer de participar. O primeiro foi o Barrel Cocktail, de Vinícius Gomes. O Coquetel desta semana é o Irish Pleasure, criado pelo bartender Jean Dall Acqua, do restaurante Bossa. O Irish pleasure é um coquetel predominantemente cítrico, à moda de um whisky sour, mas com sabores secundários de nozes e especiarias. A ideia de Jean foi criar um drink com cara brasileira, mas que preservasse o toque irlandês do Jameson Irish Whiskey. Segundo Dall Acqua, “Para criar este coquetel fui pego de surpresa, somente dois dias antes de apresentar o drink, fui avisado sobre o Campeonato da Jameson. (…) basicamente todos os ingredientes eu já tinha em meu local de trabalho, exceto o mel que é temperado com pimenta, tabasco e vinagre de maçã. Acabei achando esse ingrediente em nossa cozinha. (usado no prato Medalha de Tapioca –  uma entrada em nosso restaurante)” Jean diz que, ao provar o mel temperado, notou que era perfeito para o coquetel. O ingrediente era, ao mesmo tempo, cítrico, adocicado e apimentado. Para aguçar o […]

Drops – Talisker Dark Storm

Você sabia que não é só o processo de secagem da cevada maltada utilizando turfa que contribui para o sabor defumado e turfado de alguns whiskies? Pois é. Outro fator que aumenta a impressão de fumaça dos whiskies defumados é a tosta ou torra da barrica. Barricas altamente torradas (existe uma diferença aqui entre torra e tosta) costumam empresar ao whisky que lá maturou notas de fumaça e bacon. É o caso, por exemplo, do Talisker Dark Storm. O Dark Storm é um single malt sem idade definida, produzido pela destilaria Talisker, a única da ilha de Skye. Seu destilado é levemente turfado, mesmo antes de entrar no barril. Mas o que realmente contribui para o sabor defumado, no caso deste whisky, é a maturação em barricas torradas. O sabor emprestado pelas barricas tostadas é levemente diferente daquele proveniente da secagem do malte. As barricas trazem também um sabor residual de caramelo queimado, ou calda de açúcar. A Talisker é a única destilaria localizada na belíssima ilha de Skye, ao noroeste da Escócia. A ilha é famosa por suas paisagens bucólicas e, muitas vezes, é palco de casamentos e luas-de-mel dos escoceses. Atualmente, a destilaria pertence à Diageo, o mesmo grupo […]

Drink do Cão – Wood Aged Boulevardier

Quando fiz quatorze anos resolvi que tocaria um instrumento. Minha escolha foi tão improvável quanto infeliz. Escolhi o violoncelo. Até hoje os motivos que me fizeram tomar esta decisão desafiam minha lógica. Porque é difícil demais. Tocar violoncelo foi provavelmente a coisa mais difícil que eu me propus a fazer durante minha vida inteira. Violoncelo exige disciplina, tempo e estudo. E o meu eu recém púbere não atendia nenhum destes prerrequisitos. Eu era indisciplinado, preguiçoso e preferia ocupar meu tempo com todo tipo de futilidade efêmera. Além de que minha coordenação sempre foi comparável àquela de um canhoto bêbado escrevendo com a mão direita. Por essa razão, nunca fui um bom violoncelista. Depois de muitos anos, o máximo que consegui foi, orgulhosamente, executar de uma forma porca o primeiro movimento do concerto de Elgar. Mas minha versão da peça do compositor clássico inglês mais se assemelhava a uma briga entre um serrote e um pterodátilo. Um pterodátilo com olhos de laser. Pablo Casals, no entanto, foi um dos maiores mestres do violoncelo de todos os tempos. Suas execuções, mesmo das peças mais difíceis do repertório erudito eram absolutamente irretocáveis. E apesar de já ter atingido a perfeição há muito tempo, […]

Especial Jameson Bartenders Ball – Barrel Cocktail

Este é o primeiro de uma série de três posts, com as receitas dos coquetéis que provamos durante o Jameson Bartenders Ball Pub Crawl. Porque falta de tempo – ou preguiça – não deve ser um empecilho para se beber bem. E experimentar coisas novas, claro. Se você perdeu o post introdutório sobre o Jameson Bartenders Ball, confira aqui. Durante o evento, tivemos a oportunidade de conhecer Vinicius Gomes, chefe de bar do Riviera, e criador do coquetel Barrel Cocktail, que participa da competição organizada pela Jameson. O Barrel Cocktail é um drink predominantemente seco, com amargor e cítrico pronunciado. Há um dulçor que surge somente no final. É um coquetel com complexidade e sabor forte, mas que preserva o sabor de sua base – o Jameson Irish Whiskey. Vinícius, com oito anos de experiência atrás do balcão e passagem pelo Beato e Paradiso Bar e Cucina, preparou a rodada de coquetéis que foram servidos com a mesma naturalidade que nos explicou o conceito por trás de sua criação. Aliás, fez as duas coisas ao mesmo tempo. Sem gaguejar. E – mais importante de tudo – sem derramar nada. Segundo Vinicius, o desenvolvimento do coquetel busca responder duas questões básicas […]