Sobrevivência – Chivas Regal 12 anos

Admiro pessoas determinadas a sobreviver. Esses, que atravessam quaisquer revezes, graças à sua inabalável resiliência. E nem estou falando de profissionais, como o Bear Grylls. Porque claro, tudo que você espera do Bear Grylls é mesmo que ele coma uma lesma nojenta, durma dentro de um camelo morto, beba xixi e todas essas coisas asquerosas, afinal essa é a profissão dele. Ninguém assiste o programa dele pra vê-lo tomando um vin de table ao lado da Tour Eiffel, né?

Me refiro aos amadores mesmo. Aqueles que de seus débeis e muitas vezes mutilados corpos conseguiram extrair uma força sobre-humana apenas para passar mais alguns anos nesse nosso medíocre mundo. Como, por exemplo, a Juliane Koepcke. A Juliane Koepcke foi a única sobrevivente do vôo 508 da LANSA. O avião dela foi atingido por um raio e se desintegrou no meio do ar. A Juliane, presa em sua cadeira, foi lançada de uma altura de três mil metros sobre a floresta peruana.

Incrivelmente, Juliane sobreviveu à queda, mas com uma das clavículas quebradas e gravemente ferida. Praticamente rastejando, e alimentando-se de um saquinho de balinhas – a única comida que tinha – Juliane encontrou um riacho. Seu braço estava infeccionado e era diariamente consumido por vermes na floresta. Foram nove dias de sobrevivência agonizante, até que Juliane encontrou um acampamento. Sozinha, preparou curativos e desinfeccionou o braço com gasolina. E então, finalmente foi encontrada por lenhadores que a levaram a um hospital.

Comer verme? MoLESMA…

Se há uma Juliane no mundo do whisky, este é a Chivas Regal. E ainda que o tema desta prova seja o Chivas Regal 12 anos, vou dispender alguns parágrafos para contar a história dessa marca. Uma história de resiliência, independente de quão implacáveis fossem as provações, e ainda que as pessoas importantes de sua história insistissem em falecer prematuramente – ao contrário da Juliane, claro.

Ela começa com sua fundação, em 1801, quando John Forrest abriu um empório e loja de bebidas em Aberdeen. Vinte anos mais tarde, Forrest falece, e a loja é vendida para William Eduard, que se junta a um distinto cavalheiro chamado James Chivas.

Em 1841, Edward também falece, e James se vê obrigado a encontrar um novo sócio. Dessa vez, Charles Stewart. A empresa então é rebatizada de Stewart and Chivas. Apenas dois anos mais tarde – em 1843 – ninguém morre. Mas a Chivas recebe um Royal Warrant da Rainha Victória. Parece que as coisas finalmente ficariam melhores para a empresa. Mas em 1857, por conta de certas divergências, Charles sai do negócio. Quem se junta a James é seu irmão, John Chivas. A empresa é então rebatizada de Chivas Brothers.

O empório em Aberdeen

E eu não sei se é por alguma semelhança sonora com a deusa da destruição hindu, mas o que acontece com a Chivas a partir de 1862 é uma hecatombe. Em 1862 John Chivas falece, seguido por seu irmão, em 1886. A empresa passa para as mãos de Alexander, filho de James. Mas em 1893, Alexander também perece. Sem nenhum Chivas sobrando, a marca – cujo nome permanece inalterado – passa para dois empregados – Smith e Taylor. Com o tempo, Smith adquire o controle, e ao lado do master blender Charles Howard, foca em whiskies ultra-premium. O primeiro lançamento é o Chivas 25 anos, em 1909.

Mas é apenas trinta anos depois, em 1939 que a marca lança seu maior sucesso, e o tema desta prova. O Chivas Regal 12 anos. Com ele, a Chivas encontra finalmente um período de bonança. Em 1997 é lançado o 18 anos, e em 2001 ela é comprada pela gigante Pernod-Ricard. Mas até os dias de hoje, o whisky mais emblemático de sua história – independentemente de quantos rótulos de luxo forem lançados – é mesmo o Chivas 12.

O Chivas Regal 12 é um blended whisky leve e floral, com álcool muito bem integrado para sua idade. Não há qualquer aspereza, tampouco aquele característico amargor dos whiskies de grão pouco maturados. É um whisky extremamente bem feito e capaz de competir ombro a ombro com os melhores blends em sua faixa de preço, e até mesmo de superar certos single malts. Seu coração é o single malt Stathisla – ainda que este Cão aposte que, pelo olfato, há também uma parcela significativa de Longmorn.

A Strathisla

Durante seus quase oitenta anos de vida, o Chivas Regal 12 conquistou diversos prêmios internacionais. Entre eles, medalha de ouro na categoria de blends com idade igual ou inferior a 12 anos em 2015 pela Scotch Whisky Masters, e outro ouro como Blend Deluxe em 2013, pela International Wine and Spirits Competition.

Aqui, eu poderia simplesmente dizer que se você gosta de whiskies leves e florais, deve provar o Chivas Regal 12. Mas não. Porque mesmo que você não goste deles, mesmo que prefira monstros defumados ou maltes oleosos e vínicos, ou mesmo que sua paixão seja pela marca do andarilho, ele é incontornável. Experimente o Chivas Regal 12. E contemple que aquele líquido pouco desafiador e ameno, mas tributário da mais pura e líquida resiliência.

CHIVAS REGAL 12 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 12 anos

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma claramente floral, com balinha de caramelo e mel.

Sabor: suave, nada agressivo. Alcool bem integrado. Sabor floral e maltado. Final com baunilha e caramelo. Defumação imperceptível.

Com água: A agua torna o whisky menos adocicado.

Preço: R$ 150,00 (cento e cinquenta reais)

Monomito – A História do Whiskey Irlandês – Parte 2

Esta é a segunda parte da saga do whiskey irlandês, nosso herói etílico. Se perdeu o começo da jornada, leia aqui. Naquela oportunidade, congelamos a história quando a bebida encontrou suas primeiras dificuldades em seu percurso. O fogo amigo do whisky escocês, que se popularizou com a invenção do destilador contínuo. Retomaremos a partir deste ponto.

Em 1919 ocorreu a independência da Irlanda, que se separou do Reino Unido. Um acontecimento histórico importante, mas que causou instabilidade para o Irish Whiskey. A independência tornou o acesso dos irlandeses aos mercados lucrativos do império britânico mais difícil. Para piorar, o governo irlandês, que considerava as destilarias favoráveis à coroa, impôs taxas pesadas sobre a bebida, tornando seu consumo caro, mesmo dentro da Irlanda.

Soma-se a isso o fato de que o whisky irlandês era importado em massa, dentro de barricas, e engarrafado e cortado no destino. Isso – ainda que fosse uma prática mais econômica – facilitava sua falsificação ou adulteração. O whisky escocês, por outro lado, era importado em garrafas, o que atrapalhava bastante este trabalho.

Mas nem tudo estava perdido. Nosso protagonista, um pouco abalado pelos últimos acontecimentos, ainda andava de cabeça erguida. Afinal, o Whiskey Irlandês ainda possuía fama nos Estados Unidos. Quer dizer, até aquele fatídico ano de 1919, quando foi aprovado o Volstead Act – mais conhecida como a Lei Seca Norte-Americana. Com ela, o maior mercado de Irish Whiskey do mundo simplesmente desapareceu.

Cadê o mercado americano?

E ali estava nosso herói, em seu all-is-lost moment. Não havia mais esperança. A Lei Seca havia minado qualquer chance de sobrevivência para aquele espírito que fora, outrora, um dos mais adorados do mundo. Pisoteado pelo whisky escocês, inibido pelo governo irlandês e rechaçado pelos Estados Unidos, nada mais restara. E os anos se passaram, vendo as destilarias irlandesas fecharem, uma a uma. Em 1960, restavam apenas cinco, do que antes eram centenas: Corelaine, Bushmills, Jameson, Cork Distilleries e John Power & Sons.

Desesperadas para sobreviver, muitas destilarias se uniram. Em 1966, Jameson, Cork e John Powers se juntaram, formando uma liga da justiça – ou melhor, da etílica – irlandesa, chamada Irish Distiller’s Limited. Em 1975, as três suspenderam sua produção, transferindo-a para uma planta única, em Cork, que mais tarde se tornaria a mundialmente conhecida Midleton. No ano seguinte a Colaraine fechou suas portas e a Bushmill’s passou a ser a única destilaria de Irish Whiskey localizada na Irlanda do Norte. E apesar de tudo isso, o consumo de whiskey irlandês continuava a cair.

Mas em 1987 algo admirável aconteceu. Um cavalheiro chamado John Teeling adquiriu uma destilaria química – Ceimici Teoranta – com destiladores em coluna, e instalou lá dois alambiques. Ato contínuo, rebatizou o lugar de Cooley Distillery. Lá nascia a primeira nova destilaria de whiskey irlandês em mais de um século. Paralelamente, a Pernod-Ricard demonstrou interesse na Irish Distiller’s Limited. A compra, que aconteceu em 1988, colocou o whiskey irlandês de volta aos mercados internacionais, e alçou a Jameson a uma fama sem precedentes.

Nosso herói destilado havia atingido sua apoteose. Com a ressurreição da Midleton pela Pernod Ricard, investidores passaram a olhar de forma mais favorável aquele destilado. Até 2016, haviam sido abertas dezessete destilarias. Algumas artesanais – como a Dingle. Outras, bem maiores. A própria Midleton, observando o repentino crescimento de seu produto, investiu mais de cem milhões para duplicar sua capacidade produtiva, naquele ano.

A Midleton (fonte: John Sheehan Photography)

A Pernod não foi a única gigante a voltar seus olhos para o destilado irlandês. A Diageo, em 2013, comprou a Bushmills. A William Grang and Sons – o mesmo império familiar por trás das escocesas Glenfiddich, Balvenie, Kininvie e Ailsa Bay – adquiriu, expandiu e modernizou a gigantesca Tullamore D.E.W. E no ano anterior, a Jim Beam, atual Beam Suntory, comprou a pioneira Cooley.

Em 2018, o número de destilarias continua a crescer. Há dezoito operacionais (ainda que algumas não tenham lançado seus produtos ao mercado), e mais dezesseis em fase de planejamento, de acordo com a Irish Whiskey Association. Com números assim, é impossível não enxergar que o Whiskey Irlandês está em uma fase importantíssima de retomada e redescoberta – O Renascimento do Whiskey Irlandês.

Outro setor indiretamente incentivado pela retomada do Irish Whiskey foi o do turismo. Em 2016, o número de visitantes foi de seiscentos e cinquenta mil, para as destilarias com centros de visitantes. E a projeção é que o número apenas aumente.

Jack Daniel’s Tennessee Calling

Aeroportos são lugares fascinantes. Você pode fazer um monte de atividades em aeroportos. Dá para comer, dormir, fazer compras, beber. Dá até para fazer massagem naquelas cadeiras, que ficam no meio do corredor, enquanto as pessoas te olham esquisito, imaginando que você é alguém totalmente desprovido do senso de ridículo. Aliás, com certo grau de desprendimento e falta de autocrítica, dá para se fazer quase tudo num aeroporto.

Porém, uma coisa que eu nunca imaginei que faria num lugar desses é acompanhar um concurso de coquetelaria. Mas foi justamente o que aconteceu na segunda-feira, dia 23 de julho, com o Jack Daniel’s Tennessee Calling. O evento foi realizado na Arena Congonhas, dentro do aeroporto homônimo. O Tennesee Calling é uma disputa realizada pela Jack Daniel’s que reúne bartenders de todo Brasil. Os três primeiros serão levados ao Tennessee – talvez a temática de aeroportos seja conveniente aqui – para conhecer a destilaria da marca.

Participaram do do torneio os profissionais: Cassio Batista (Meet Me) e Tiago de Oliveira Santos (Jangal), de Belo Horizonte; Adriano Nunes (Grainne’s), de Campinas; Cris Almorin (Punch) e Lutti Andrighetto (Street 44/Gran Torino), de Curitiba; Rodrigo Coelho (Madalena) e Thelmo di Castro (Iz), de Goiânia; Mauro Melo (Bar Em Cima) e Rodrigo Marques (The Queen), do Recife; Sarah Vale (Buckowsky) e Diogo Stanley (The Rock Bar), do Rio de Janeiro; e Beto Rozen (Tex), Gilliard Carneiro (Meza – Mooca), Márcia Martins (Maní), Israel Galdino (Flemings), Ricardo Basseto (D.O.T.), Rodolfo Bob (Axado) e Vinicius Gomes (High Line), da capital.

A Arena

Foram, ao todo, quatro fases. As quatro aconteceram no mesmo dia – ao som de pousos, decolagens, musica eletrônica e rock. E claro, regadas a bastante Jack Daniel’s. Os jurados foram Luiz Schmidt, diretor de Marketing America Latina & Caribe para a Brown-Forman, Marcelo Sant’Iago, editor do Difford’s Guide, Felipe Blumen, editor do site da GQ, e a mixologista Talita Simões.

A primeira fase teve a participação dos 18 profissionais selecionados para o campeonato. Todos tinham como desafio criar um coquetel com Jack Daniel’s Honey ou Jack Daniel’s Fire. Destes, oito passaram para a etapa seguinte, disputada com o rótulo Gentleman Jack. E dali, apenas quatro bartenders se classificaram para terceira fase do campeonato, que os desafiou a pensar um novo drink. Desta vez, com o rótulo premium da marca, o Jack Daniel’s Single Barrel : Vinicius Gomes, Lutti Andrighetto, Rodolfo Bob e Ricardo Basseto. 

E por fim, na última etapa, restaram três, que deveriam produzir um coquetel com o tradicional Jack Daniels Old No. 7. E depois de mais de três horas de competição, o vencedor foi finalmente escolhido. Ricardo Basseto, do D.O.T. Durante as fases, Basseto prestou homenagens a Johnnie Cash – que viveu em Nashville – à culinária da cidade de Lynchburg e à história do Tennessee.

Além dele, se classificaram na segunda e terceira posição, respectivamente, Vinicius Gomes e Lutti Andrighetto. O prêmio final do Tennessee Calling levará os três primeiros colocados da disputa para uma experiência no Tennessee em setembro. Entre as vivências nos Estados Unidos, os vencedores terão um encontro com o mestre-destilador de Jack Daniel’s e Ricardo Basseto irá atuar como Guest Bartender em um dos principais bares de Nashville, capital do Tennessee, por uma noite.

Em ordem: um Mr. Jack pequeno, Ricardo Basseto em tamanho natural e um cartão de embarque muito grande (foto: Lana Pinho)

Nas palavras de Luiz Schmidt – jurado e diretor de Marketing America Latina & Caribe para a Brown-Forman – “Foi uma grande noite para Jack Daniel’s. Só temos de agradecer aos bartenders que aceitaram o convite para o Tennessee Calling e se envolveram tanto neste campeonato, concebido para enaltecer profissionais. São eles que estão em contato com o consumidor e têm a chance de falar da nossa marca“.

Este Cão deseja aos três uma boa viagem, e que aproveitem desmoderadamente a experiência no Tennessee, tanto quanto alguém que aproveita uma massagem no meio de um aeroporto lotado, sem qualquer traço de acanhamento.

The Macallan Edition No. 3 – Aroma Exclusivo

Dama-da-noite tem cheiro de dente quebrado. Não para todo mundo, mas para mim. Sempre que sinto o aroma da flor, passo discretamente a língua sobre minha arcada, enquanto sinto um descompasso de alívio no coração. Ufa, é só a flor, nada caiu dessa vez. É que aos oito anos de idade, quebrei um dente. Corria no jardim da minha avó, ao entardecer, ao lado de alguns vasos de dama da noite. Lembro-me vividamente da luz crepuscular, do aroma de jasmim, e do desequilíbrio sucedido pelo apagão e o gosto de ferrugem na boca. Até hoje, se sinto o aroma de dama-da-noite, sou remetido, involuntária e automaticamente àquela lembrança.

A memória olfativa é algo poderoso. Essa clareza de reminiscência tem um nome. Fenômeno Proustiano. É uma homenagem ao escritor francês Marcel Proust, que descreveu em seu “Em Busca do Tempo Perdido” como o aroma de biscoitos molhados no chá remontava a casa de sua tia. A ciência, inclusive, já se debruçou sobre este fenômeno. De acordo com pesquisadores ingleses, a vividez de lembranças trazidas por odores ocorre por conta de nossa conformação cerebral. A região do cérebro que processa odores está situada no interior do sistema límbico, ligado às emoções.

E essas emoções são tão fortes que podem guiar vidas. Como a do perfumista Roja Dove “Num momento específico há muito perdido, uma molécula fragrante entrou em meu ser e me mudou completamente, meu destino foi forjado, a trilha galvanizada. Não há outro caminho a se trilhar senão aquele da perfumaria, e ao longo desta colorida estrada de tijolos, encontrei o trabalho de gênios poderosos, que permitem que sua criatividade façam parte de nosso núcleo, nosso ser, nosso ‘id’ – quando nos congela em nossos caminhos, traz lágrimas aos olhos ou sorrisos às faces. Como alguém pode não gostar de perfumaria?

 

Esse aroma… me lembra whisky!

É inegável que o olfato também desempenha um papel crucial na apreciação do whisky. É por meio dele que podemos perceber a maioria de suas características sensoriais. Aliás, quase todas. O resto é doce-amargo-salgado-azedo-umami. Então, faria todo sentido convidar um famoso perfumista internacional – Roja, acima mencionado – para auxiliar no processo de criação de um whisky. E foi justamente isso que a prestigiada The Macallan fez, com seu Macallan Edition No. 3, que chega ao Brasil em quantidades bastante limitadas.

Nas palavras da The Macallan “Roja trouxe sua habilidade para a destilaria e o processo criativo, cheirando uma série de amostras de uísques para fornecer seus pensamentos e interpretação do caráter e dos aromas que encontrou. A articulação de aromas de Roja foi então usada na criação do whisky para selecionar notas dominantes que moldam o caráter final da Edição No.3.”

A variedade de barricas utilizadas para compor o Macallan Edition No. 3 demonstra o zelo do perfumista. São botas (isso é um tipo de barril) da tanoaria espanhola Hudosa, barricas de carvalho americano de primeiro uso, barricas de carvalho europeu e americano de refil, barricas de primeiro uso preparadas pela tanoaria Tevasa; barris de carvalho europeu, hogsheads de primeiro uso de carvalho americano que antes contiveram bourbon, e barris de primeiro uso de bourbon. Ou seja, sem nomes próprios, formatos e tamanhos: barricas de primeiro uso e refil, tanto de carvalho europeu quanto americano. Pronto.

Refletindo atentamente sobre as características sensoriais de cada barrica, a impressão é que o The Macallan Edition No. 3 é uma espécie de variação de nosso conhecido Fine Oak. Mas sensorialmente, são expressões relativamente diferentes. A começar pelo perfume. Como era de se esperar, um dos pontos altos do Macallan Edition No. 3 é seu aroma. Talvez, para este Cão, um dos mais interessantes dentre os recentes lançamentos da The Macallan. No nariz, o whisky traz o tradicional vinho jerez, com mais baunilha e caramelo. Seu sabor, por sua vez, é cítrico e floral, com laranja e mais baunilha e caramelo. O final é longo e adocicado.

As edições numeradas da The Macallan, conhecidas  simplesmente como “The Edition Series”, são lançamentos anuais limitados, que exploram a visão da Macallan sobre a produção de whisky, e expões detalhes sobre sua criação. Muitos deles contam com participação de personalidades de outras áreas do conhecimento, como o Edition No. 2 e os irmãos e chefs por trás do mundialmente famoso restaurante El Celler de Can Roca. Segundo a própria destilaria “No coração das Edition Series está nosso desejo em inovar, em ultrapassar as barreiras e desafiar expectativas na criação, experiência e prazer de The Macallan.

Edition Series (fonte: Highestspirits)

A The Macallan, em seu website internacional, diz “Em seguimento à história dos nossos barris de carvalho e a obsessão pela madeira que é fundamental na criação de todos os The Macallan, a Edição Series oferece a liberdade de olhar para além dos estilos tradicionais de barril usados ​​em outros The Macallan. (…)  Colaborando com parceiros de diferentes áreas de especialização, cada lançamento da série é um indivíduo – um verdadeiro casamento entre a maestria da The Macallan e a influência única de diversas origens no processo de fabricação de whisky.

Se você procura um whisky oleoso, vínico, mas ainda assim extremamente equilibrado e com um perfume fantástico, o The Macallan Edition No. 3 é seu achado. Mas corra, porque – de acordo com Maurício Leme, brand manager da marca no Brasil –  apenas algumas poucas garrafas desembarcaram. E seria uma pena deixar de experimentá-lo. Afinal, este é um single malt que ficará em sua memória olfativa por muito, muito tempo.

THE MACALLAN EDITION NO. 3

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 48,3% (aqui está um easter egg para você. A edição no. 1 possuia 48,1%, a segunda, 48,2% . O que será que vai acontecer na 10?)

Notas de prova:

Aroma: jerez, baunilha, caramelo. Um pouquinho de coco. O equilíbrio é incrível – pode-se facilmente fragmentar o aroma apenas atentando para cada um.

Sabor: Caramelo, pimenta do reino. Vinho fortificado. Baunilha. O final é adocicado e longo, com certo apimentado.

Disponibilidade: Lojas brasileiras (média de R$ 600,00 – seiscentos reais)

 

Mafiosa Leave the gun! Take the Cannoli – Beer drops

Improvisar é fácil. Improvisar a ponto de imortalizar algo é que não é. E é justamente isso que aconteceu com uma das mais memoráveis frases de um dos mais memoráveis filmes de todos os tempos. O Poderoso Chefão, e a frase “Deixe a arma e pegue o canoli” (no original “Leave the gun, take the cannoli“). A frase é proferida pelo mafioso Clemenza, interpretado pelo ator Richard S Castellano, logo após seu comparsa Rocco matar outro mafioso – Paulie.

A sequência começa alguns cortes antes. Podemos ver Paulie pegando carona com Clemenza e Rocco – que já tem a intenção de matá-lo, ainda que Paulie obviamente não saiba disso. A esposa de Clemenza lhe lembra, aos berros, de não esquecer de levar um certo cannoli – um doce itaiano, caso você não saiba – para comer na viagem. Essa recomendação da esposa, aliás, também fora uma adição de última hora, feita pelo diretor Francis Ford Coppola.

Temos então alguns planos de ambientação, e uma cena em que Clemenza pede ao motorista que pare, para um chamado da natureza. Quando Clemenza sai do carro, Rocco rapidamente atira três vezes na cabeça de Paulie. E a famosa frase é então dita por Clemenza, enquanto a vítima permanece deitada e ensanguentada sobre o volante do Packard Super 818 1941. Essa cena – uma das mais famosas da película – contou com boa dose de criatividade.  Coppolla concedeu todos os créditos da frase a Richard. “foi ele que improvisou a frase“.

E é com base nesta frase – e com uma boa dose de criatividade também – que a Cervejaria Mafiosa lança sua primeira Russian Imperial Stout. A Leave the gun! Take the Cannoli. Embora com características bem marcantes de uma RIS, encorpada, de cor escura (IBU 70) e teor alcoólico elevado (11%), o lançamento traz experiências sensoriais de uma “Pastry Stout” inspirada na arte da confeitaria.

É até melhor do que comer o doce original!

A inspiração doce é justamente o cannoli, sobremesa clássica italiana mencionada por Clemenza na famosa cena de O Poderoso Chefão. Para reproduzir as características dessa sobremesa na Leave the gun! Take the Cannoli, a Mafiosa trabalhou com maltes que remetem à lembrança de biscoitos – para lembrar o canudo, além da adição de baunilha, cacau, casca de laranja e pistache, esse último utilizado tanto na mosturação, quanto em conjunto com os grãos da maturação, na receita.

Nossa intenção foi utilizar ingredientes essenciais da sobremesa na produção, para trazer o máximo de realidade e complexidade sensorial à cerveja”, comenta Guilherme Matheus, Sócio-Fundador e cervejeiro da Mafiosa, que destaca a Leave the gun! Take the Cannoli como o mais extremo rótulo já produzido pela cervejaria desde sua oficialização, em 2015.

E assim como aconteceu com sua Crooner, já revista por aqui, a Mafiosa separou parte desta produção limitada para descansar em barricas. Desta vez, barricas antes utilizadas para vinho do porto, que servirão de base para um segundo rótulo, ainda sem data prevista para lançamento.

Razões para provar a Leave the gun! Take the Cannoli não faltam. Você pode gostar de Russian Imperial Stouts. Ou de doces italianos. Ou de O Poderoso Chefão. Ou de nenhum dos três, e só quer mesmo uma cerveja bem feita e com personalidade. Seja como for experimente. É bom para você, Pop.

MAFIOSA LEAVE THE GUN! TAKE THE CANNOLI

Cervejaria: Mafiosa

País: Brasil

Estilo: Russian Imperial Stout

ABV: 11%

Notas de Prova:

Aroma: café, caramelo um pouquinho de baunilha. Menta.

Sabor: Encorpada. Baixa carbonatação. Sabor de café, chocolate, açúcar de confeiteiro. Há um cítrico muito interessante, oleoso. Final longo e mais adocicado.

Smokin’ Bob Negroni – Negroni Week

(foto: Tales Hideki)

Uma noite de inverno em Oakland, em 1905.  Frank Epperson, um garoto de onze anos de idade, esquece um copo com água, refresco em pó e um palitinho de misturar do lado de fora de sua casa. Naquele momento, Frank não fazia a menor ideia do que acabara de criar.

No dia seguinte, o menino encontra seu refresco congelado, com um conveniente palito espetado, perfeito para manipulação. Nascia o primeiro picolé do mundo. O próprio Epperson, alguns anos mais tarde, tratou de patentear aquela sua serendipidade.

Um século depois, a criação de Epperson está no mundo todo. E apesar de algumas curvas erradas – as paletas mexicanas e aquele negócio comprido e roliço de iogurte, por exemplo – jamais saiu de moda. É como o Negroni. Quase um século de vida e em perfeita forma.

Volta, que deu ruim.

Aliás, o negroni foi criado também de uma forma bem despretensiosa. Sua história é contada no livro Sulle Tracce del Conte: La Vera Storia del Cocktail Negroni, de Lucca Picchi, bartender do Caffe Rivoire, localizado em Florença, na Itália.

De acordo com o livro, o coquetel foi criado em 1919 no Bar Casoni, também em Florença, quando o conde Camillo Negroni pediu ao bartender Forsco Scarselli que lhe preparasse um Americano, mas substituísse a água com gás por gim. O conde não imaginava que teria acabado de inventar um dos maiores clássicos da coquetelaria. Mas foi justamente o que aconteceu.

Atualmente o coquetel é tão famoso que há até uma semana dedicada a ele. A Negroni Week, apresentada pela Campari e Imbibe Magazine. A semana foi lançada em 2013 e é anual. Neste ano de 2018, ela aconteceu no Brasil de 4 a 10 de junho. Naquele período, os bares participantes criaram variações da receita do Negroni, e parte do valor arrecadado com a venda destes drinks foi revertida para instituições de caridade.

Inspirado pela semana e a pedidos deste Cão, o professor e bartender Rodolfo Bob, do Axado Bar e proprietário do site O Bar Virtual, criou uma versão do coquetel. O Smokin’ Bob Negroni. Assim, queridos leitores, prepara i tuoi quaderni, e tomem nota. É um negroni que leva o único ingrediente que seria capaz de melhorar um coquetel mitológico destes. É claro que estou falando de whisky. E do melhor tipo – o defumado, obviamente.

SMOKIN’ BOB NEGRONI

INGREDIENTES

  • 1 dose de gim
  • 1 dose de vermute (Bob usou Antica Formula)
  • 1 dose de campari
  • 1/2 dose de licor de elderflower (St. Germain)
  • 1/2 dose de Laphroaig Select (você pode tentar substituir por outro whisky defumado. Mas tenha em mente que algo mais enfumaçado dominará o coquetel. Então reduza a quantidade)
  • Flor de sal
  • pétalas de flor desidratada (vou deixar isso aqui como opcional…)
  • parafernália de costume para mexer (bailarina, mixing glass etc.)
  • copo baixo
  • gelo

PREPARO

  1. Misture os ingredientes líquidos (gim, vermute, campari, St. Germain e Laphroaig) em um mixing glass com bastante gelo.
  2. Desça a mistura em um copo baixo, com gelo (de preferência, um gelo grande).
  3. salpique o sal e as pétalas (se decidir usá-las) sobre o gelo. Vá com calma no sal, campeão. Lembre-se que ele derreterá o gelo.

Beer Drops – Maniacs Moscow

Nunca fui muito de futebol. Mas assumo que tenho acompanhado a Copa do Mundo com algum empenho e até torcido com entusiamo em algumas partidas, mesmo que o Brasil tenha sido elimado. Além disso, tenho um certo interesse pela Rússia. Talvez seja por conta de seus grandes escritores – como Gogol, Dostoievski e Tólstoi. Ou pela música, que contava com personalidades como Borodin e Stravinski (que, aliás, era um apaixonado por whisky).

Aliás, a Rússia não é apenas um país de gigantes da literatura e música. Mas é também uma nação de coisas gigantes. O maior avião do mundo, por exemplo, é deles. Seu nome é Antonov An-225, e ele mede mais de oitenta e quatro metros de comprimento. O maior helicópteros – o Mil Mi-26 – também. E um dos maiores cachorros, o pastor caucasiano, que chega a pesar noventa quilos.

Cãozíneo grandíneo.

Nada mais justo, então, que o estilo de cerveja batizado em homenagem ao país seja também superlativo. É a Russian Imperial Stout. Com alta graduação alcoólica e malte torrado, essas cervejas  foram criadas pelos ingleses no século XVIII, e podiam facilmente sobreviver à longa viagem entre o Reino Unido e a Rússia, onde eram consumidas – especialmente pela corte russa.

Embalada pela Copa do Mundo, pelo frio e pela história cervejeira, a Maniacs Brewing Co. lançou recentemente a Moscow, uma Russian Imperial Stout com aromas de café, madeira e baunilha. E claro – como não poderia faltar no Cão Engarrafado – uma finalização longa que remete a bourbon whiskey. Isso se deve ao uso de espirais de carvalho americano envelhecidas em Bourbon, usadas na maturação da cerveja.

A Maniacs Moscow faz parte de uma linha especial da cervejaria, chamada Rebellion. Segundo seu CEO “Nossa linha exclusiva foca em trazer a verdadeira experiência Maniacs. Queremos que todos degustem o que há de melhor no mundo cervejeiro. Com a Maniacs Moscow, temos uma cerveja única, que reúne os melhores maltes e lúpulos para este estilo. E o resultado vocês podem sentir aqui, uma cerveja poderosa, densa e complexa.

A Manacs Moscow utiliza maltes Pilsen, Swaen Aroma, Swaen Chocolate B, Swaen coffee Light e Swaen Black, e lúpulos Magnum e Cascade. A graduação alcóolica – como tudo russo – é hiperbólica. 12,7%. E o vasilhame não fica para trás. A Moscow é vendida em garrafas de 600 ML, para que nenhum russo ou brasileiro, por mais gigante que seja sua sede, reclame.

Se você estiver procurando uma cerveja para acompanhá-lo nesta final da Copa do Mundo, ou apenas para lhe prestar companhia durante um momento de leitura de algum clássico russo, a Maniacs Moscow é uma ideia ótima. Ou melhor. Uma grande ideia.

MANIACS MOSCOW (REBELLION)

Cervejaria: Maniacs Brewing Co.

País: Brasil

Estilo: Russian Imperial Stout (RIS)

ABV: 12,7%

Notas de Prova:

Aroma: café, chocolate. Levemente floral.

Sabor: Encorpada, pouco carbonatada. Café, chocolate meio amargo, um certo malte. Final com baunilha e madeira, bastante longo.

 

Monomito – A História do Whiskey Irlandês – Parte 1

Você sabe o que A Pequena Sereia, O Senhor dos Anéis e Harry Potter tem em comum? Não, não é um protagonista irritante, ainda que isso seja verdade para as três sagas. É o monomito. Também conhecido como a Jornada do Herói, ele é uma estrutura narrativa bastante usada na ficção e, claro, em mitos, como o de Perseu. Se você analisar cuidadosamente, essas histórias – e uma porção de outras – possuem exatamente o mesmo esqueleto.

O termo monomito foi descrito pela primeira vez por Joseph Campbell em seu livro “The Hero With a Thousand Faces”. Campbell pegou o termo emprestado de uma obra de James Joyce, chamada Finnegan’s Wake. O monomito é dividido em três atos: a partida, a iniciação e o retorno. Cada um deles possui subcapítulos, como o mundo cotidiano e a chamada À aventura, a estrada de provas, o momento em que tudo está perdido, a apoteose e o retorno.

E talvez seja porque a Irlanda possui alguns dos mais importantes escritores do mundo – Como Joyce, aliás – ou não. Mas o whiskey irlandês, ao longo dos séculos, descreveu um caminho muito semelhante àquele do monomito. Das portas dos monastérios à gloria e ao posterior declínio, para depois renascer e tomar seu lugar no mundo, o whiskey irlandês é um verdadeiro Perseu das bebidas, enfrentando deuses etílicos. Vou aqui, em duas partes, descrever sua jornada. Prepare-se, leitor, para um Senhor dos Anéis etílico. Mas sem nenhum hobbit chato.

Não adianta chorar.

Nossa jornada começa na Península Ibérica. O processo de destilação de álcool – antes bastante rudimentar – teria sido aperfeiçoado pelos alquimistas árabes do século VIII, na Espanha. Foi daí que surgiu aquilo que podemos considerar o primeiro alambique. Com o tempo, a técnica teria sido passada para monges cristãos de diversos países europeus, e levada por eles para a Irlanda e a Escócia, durante os séculos XI e XII.

Ainda que não exista qualquer documento histórico que comprove esta teoria, a Irlanda provavelmente foi o primeiro lugar a produzir whisky. Foi ela a ilha de escolha para abrigar os monges cristãos, fugidos de outros países europeus por conta das invasões bárbaras. Missionários irlandeses, liderados pelo – atualmente mundialmente famoso – São Patrício, teriam se estabelecido no país e, com isso, trazido a técnica de se produzir a melhor bebida do mundo, aprendida com os árabes na Península Ibérica. Segundo esta teoria, o whisky teria sido levado para a Inglaterra e a Escócia quando o rei Henrique II invadiu a Irlanda e encontrou seus oponentes destemidamente embriagados.

Aliás, a palavra “whisky” é uma redução anglicizada da expressão “uisge beatha”, que significa, literalmente, “água da vida”. Os monges que produziam o destilado acreditavam que ele possuía capacidades medicinais e curativas, e que poderia ser usado para prolongar a vida e melhorar males corriqueiros como a cólica, a varíola e o irremediável tédio existencial causado pela vida em um lugar úmido e congelante sem televisão, internet, smartphones e cinemas.

Ê vidão.

O whisky poderia ter continuado a ser produzido exclusivamente em monastérios por muito tempo, não fosse o Rei Henrique VIII, com sua Supressão dos Monastérios, em 1536. A Supressão foi um conjunto de regras administrativas e legais que ordenava a dissolução daqueles lugares e a apropriação de seus bens e receitas. E é aqui que a jornada de nosso herói etílico, o Whiskey Irlandês, começa. A chamada para a aventura e o abandono do mundo comum. Aqui, não houve espaço para reticência ou medo.

Com a ordem do Rei, os monges cristãos tiveram que, então, enveredar para algo que poderia ser definido hoje em dia como iniciativa privada. Foram obrigados a produzir whisky sozinhos e fora da reclusão monasterial. Porém, algo – nem tão imprevisto assim, já que o assunto é whisky – aconteceu: a popularidade da bebida cresceu imensamente.

Durante o século dezesseis,  novas e novas destilarias surgiram.Estima-se que a Irlanda contava com mais de duzentas destilarias de whiskey na virada para o século dezessete. É curioso, aliás, como naquela época o whiskey irlandês era conhecido como um produto refinado, e o escocês, algo bruto e desequilibrado.

Mas o caminho de nosso herói etílico é permeado de dificuldades. E o primeiro deles, incrivelmente, foi fogo amigo. A invenção do destilador contínuo por um irlandês, chamado Sir Anthony Perrier. A invenção – um tanto rudimentar no começo – foi melhorada pelo escocês Robert Stein, e, posteriormente, aperfeiçoada por outro irlandês. Aeneas Coffey, um fiscal da receita irlandesa, especializado em taxação de bebidas alcoólicas.

Diagrama de um Coffey Still

O destilador contínuo – conhecido como Coffey Still – permitiu que a Escócia criasse uma nova classe de whiskies. O blended scotch whisky. Unindo seus maltes pesados e oleosos com o destilado leve dos destiladores contínuos, os escoceses criaram um produto extremamente palatável e cujo método de produção custava apenas uma fração do método irlandês (a destilação em alambiques). A eficiência produtiva, aliada a incessantes esforços de marketing por conta dos escoceses, reduziram sensivelmente o consumo de whiskey irlandês no mundo.

Mas o futuro guardava ainda mais alguns percalços para o destilado símbolo da Irlanda. Porém, por hoje, o capítulo se encerra. Aguardem que, em breve, teremos o all-is-lost moment e a apoteose de nosso herói etílico. Se quiser ler o final da saga do Irish Whiskey, clique aqui!

Worldclass 2018 – Sobre a Copa

Não foi dessa vez. Lutamos com garra, mas apesar de toda torcida, do canarinho pistola e do russo esquisitão, fomos derrotados pela Bélgica. Numa copa bem atípica, sem Argentina, Alemanha e Espanha, o Brasil também ficou de fora.

Mas apesar de nossa derrota no futebol, ainda podemos trazer a taça para casa. Mas não da Copa do Mundo. De uma outra competição que, na opinião – assumo que um pouco enviesada – desse Cão, é ainda mais importante: o Worldclass Competition.

O Worldclass, pertencente à Diageo, é um dos maiores campeonatos de coquetelaria do Brasil, e dos mais importantes do mundo. São mais de dez anos de competição, em mais de cinquenta países. Nessa década de existência, mais de sessenta mil profissionais participaram do campeonato. Em 2018, foram 250 inscritos apenas em nosso país.

Após diversas etapas, foram selecionados oito semifinalistas. Adriana Pino, Anderson Santos,  Gabriel Santana, Gustavo Guedes, Heitor Marín, Miguel Paes, Rafael Domingues e Romero Brito. Os jurados da final regional foram os reconhecidos bartenders Ale D’Agostino, Fabio la Pietra, Jean Ponce, Márcio Silva e Spencer Amereno.

A final da etapa brasileira do Worldclass aconteceu no restaurante Seen – localizado no último andar do hotel Tívoli Mofarrej, em São Paulo. Lá, os finalistas foram submetidos a diversas provas, como a preparação de um coquetel autoral inspirado em algum país em que o Brasil venceu a copa.

Uma das mais divertidas etapas – ao menos para os espectadores – foi o speed challenge, em que os bartenders participantes deveriam preparar cinco coquetéis distintos em menos de cinco minutos, e, se sobrasse tempo, mais outros nos poucos segundos excedentes. Tudo isso ao som de alguma música tensa (adorei ouvir Misirlou) e os berros da platéia.

Speed challenge

Após a avaliação dos jurados e um já tradicional mistério, a campeã foi anunciada por Nicola Pietroluongo, embaixador da Diageo. Adriana Pino. A atuação de Adriana naquele dia foi extraordinária. Um coquetel inspirado no Japão, que contava até mesmo com um peixe vivo de decoração.

E no speed challenge, ela não apenas preparou cinco coquetéis (Negroni com Tanqueray Nº10, Rabo de Galo com Ypióca 5 Chaves, White Lady feito também com Tanqueray Nº10, Paloma com tequila Don Julio, Cuba Libre com o rum Zacapa) como conseguiu fazer uma capirinha extra, com Ypióca 5 Chaves.

Na área há 14 anos, Adriana passou pelos balcões de casas como Brasserie Erick Jacquin, Brown Sugar, Duke Bistrot (Campinas) e Méz. Hoje, ela atua como consultora, com clientes em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Acre.

Após a premiação houve a grande festa de celebração que contou com um guest bartending estrelado pelos cinco jurados da competição, com incríveis receitas exclusivas. Receitas, que, aliás, você mesmo, querido leitor, poderá experimentar. Os coquetéis dos jurados estarão disponíveis para os clientes do Seen durante todo o mês de julho.

Adriana viajará em outubro para Berlim, para competir na final global do Worldclass. Este Cão deseja a ela boa sorte, boa viagem e que – para compensar nossa campanha na copa do mundo – traga a taça para nossas terras.

Vai Adriana!

 

 

Dadiva Odonata 2018 – Sobre Referências

Finalmente assisti Solo: A Star Wars Story. E não me decepcionei, mas não fiquei muito impressionado. É engraçado, porque não há nada intrinsecamente ruim sobre o filme. Ele é bem dirigido, o ritmo é bacana, e o Alden Ehrenreich está excelente como Han Solo,  a ponto de reproduzir com exatidão até pequenos tiques do personagem de Harrison Ford. Tipo atirar de perna aberta e fazer aquela cara de mau ator tentando expressar surpresa. Tem que ser muito bom ator para parecer mau ator.

O problema, acho, não está no filme. Está na mística. Ou melhor, na ausência dela. É que quando Han contava vantagem para Luke sobre, por exemplo, o fato da Millennium Falcon ter feito o Kessel Run em menos de 12 parsecs, a falta de detalhes fazia nossa imaginação preencher as lacunas. Não sabíamos como a nave tinha conseguido aquele feito. Sabíamos apenas que ela era rápida. Poxa, eu nem sei o que é um parsec, mas isso não importa, porque todos os personagens ficavam impressionados.

Mas ver como a Millenium Falcon conseguiu – ou melhor, Han – acaba destruindo essa mística. Agora a gente sabe como aconteceu, e, longe de mim dar algum spoiler, mas parece um mérito muito mais atribuível ao desespero ou destemor do que efetivamente à espaçonave. Ver Solo: A Star Wars Story é na verdade ouvir explicações sobre uma porrada de coisas que eu não queria explicações.

Aprendam.

Mas esse é o problema de sequências – ou prequels. Sempre esperamos algo tão bom quanto o anterior, ou melhor. Criar uma franquia de sucesso, como Star Wars, é uma grande responsabilidade. E não apenas no cinema. No mundo da bebida também. Como, por exemplo, a Dádiva Odonata. Em 2016, foram três versões, com frutas vermelhas, café e baunilha. E em 2017, mais três edições especiais, maturadas em barricas de carvalho e assinadas por Cesar Adames, Dinah Paula e – a melhor de todas, claro – este Cão.

Após essas seis edições, a expectativa era alta para as edições de 2018. Mas a Dádiva – ao contrário da Disney – conseguiu impressionar. Para este ano, foram produzidas 4 edições. Em parceria com os especialistas Isadora Fornari e Maurício Maia, foram escolhidas quatro madeiras brasileiras para compor as Odonatas, #7 (envelhecida em barricas de Jaqueira), #8 (envelhecida em barricas de Jequitibá), #9 (envelhecida em barricas de Bálsamo) e #10 (envelhecida em barricas de Amburana).

Este Cão teve a oportunidade de provar os quatro lançamentos. É incrível a influência sensorial que apenas as madeiras diferentes causam. Em certas situações – como comparando a #8 com a #10 – a impressão é que são cervejas distintas. Porém, na verdade, compartilham a mesma base. Uma Russian Imperial Stout de 11,5% de graduação alcoólica.

Matt aprova.

A versão #7, com Jaqueira, é relativamente leve, frutada e adocicada. A Odonata #8, com Jequitibá, é mais seca e floral, e adquiriu um curiosíssimo aroma enfumaçado. O Bálsamo, da #9, por sua vez, trouxe um certo hortelã, e uma espécie de amargor de madeira queimada. A Odonata #10, por fim – a preferida deste Cão – apresentou um potente aroma de anis e alcaçuz, que harmonizou perfeitamente com a base da stout.

As Odonatas serão lançadas oficialmente dia 04 de julho, no Empório Alto dos Pinheiros, em chope e garrafa. E assim como Solo, tem sido ansiosamente aguardadas. Porém, ao contrário daquele, não há nenhuma dúvida que a estréia será um absoluto sucesso.

A Disney deveria aprender uma ou duas coisas com a Dádiva.

DÁDIVA ODONATA 2018 (#7, #8, #9 e #10).

Cervejaria: Dádiva

País: Brasil

Estilo: Russian Imperial Stout

ABV: 11,5%