Um Não Post / Sobre a Inércia – Glenmorangie Nectar D’Or

  Há dias que realmente não queremos fazer absolutamente nada. Ontem foi um desses. Deitado no sofá, estava eu com uma preguiça petrificante de escrever um post. Eram cinco horas da tarde e eu pensava em tudo aquilo que poderia fazer, caso somente tivesse energia para levantar daquele meu leito. Sem mover sequer um milímetro de qualquer membro de meu corpo, pensava que poderia ir à academia, afinal, não corria há uma semana, e precisava me exercitar. Poderia também cozinhar alguma coisa. Havia comprado ovos, pancetta e uma caixa de spaghettini no supermercado, e com alguma disposição e um pouco de auxílio do mundo digital, poderia improvisar um carbonara para o jantar da Cã e da Cãzinha. Mas não. Porque aquilo exigiria que eu me movesse, e aquele estado de pré-sonolência me embalava de uma forma irresistível. Ao lado do sofá, a poucos centímetros do meu alcance máximo, havia uma garrafa do single malt que deveria ser o tema do post dessa semana. O Glenmorangie Nectar D’Or. Um ótimo whisky. Aliás, um dos três whiskies que fizeram com que eu começasse a me interessar pela bebida. Mas para pegá-lo, seria necessário que eu me esticasse e saísse de minha posição […]

O Cão Sofisticado – Kavalan Solist Vinho Barrique

Hoje vou falar do Kavalan Solist Vinho Barrique, whisky produzido em Taiwan, que ganhou prêmio de melhor whisky do mundo em 2015. Mas antes, vou falar um pouco de cinema. Do cinema. Do senhor cinemà: Jean Luc Godard.  Godard, muito além de uma referência em uma música do Legião Urbana, é, talvez, o melhor cineasta da história. O cinema do mundo inteiro foi influenciado por Godard. É possível ver referências a suas obras em diretores tão diferentes quanto Bernardo Bertollucci e Quentin Tarantino. Mas vou confessar uma coisa: para mim, sentar no sofá e tentar relaxar com um filme do Godard é um exercício de futilidade maior do que tentar encontrar poesia em uma música do Mr. Catra. É que cada plano e cada contraplano de seus filmes tem uma razão de ser. Um objetivo por trás, muito além de simplesmente contar uma história. Cada cena é milimetricamente montada para desconstruir dogmas férreos do audiovisual, ou para deliberadamente tirar o espectador de sua zona de conforto, reafirmando que aquilo é apenas um filme, e que o espectador é o que ele realmente é – um espectador de uma obra de ficção. Isso sem falar da fase Dziga Vertov, em que ele […]

O Cão Didático – Single Malts para Iniciantes

Quando comecei a escrever o Cão, não sabia absolutamente nada sobre escrever um blog. Para falar a verdade, tinha um preconceito quase natural em relação a blogs. Afinal, o que de especial eu teria para falar não pudesse ser encontrado com uma rápida pesquisa no Google? Absolutamente nada. E eu sei que você espera que eu diga que com o tempo essa impressão foi se esvaindo, até se tornar apenas uma remota lembrança de alguém que não tinha a mais rasa ideia do que estava por começar a fazer. Mas não. Olha, desculpem-me pela quebra de expectativa. Na verdade, eu realmente não tenho nada de novo para falar. Mas ainda que eu seja só mais uma pessoa com um modem e um gosto quase doentio por whiskies, esses meses de vida do Cão trouxeram algo que eu jamais poderia sequer prever. Comecei – na verdade, redescobri – o prazer de escrever. E o que antes era preconceito, virou mania. Então, uns meses atrás, resolvi dar uma pausa em minhas pesquisas e estudos sobre whisky para me dedicar a aprender a escrever um blog. Um blog sobre whisky. E durante minhas explorações, descobri uma série de ferramentas incríveis. Você sabia que […]

Drink do Cão – Boulevardier

Você já tomou Negroni? Negroni é um drink feito, essencialmente, de gim, vermute tinto e Campari. Hoje, acho uma das coisas líquidas mais deliciosas que existe fora do universo do whisky. Mas minha relação com aquele coquetel nem sempre foi assim. A primeira vez que tomei um Negroni tinha pouco mais de dezoito anos. E queria morrer. Achei uma das piores coisas que já tive o desprazer de beber. Incluindo uma vez que acidentalmente tomei um pouco de gasolina tentando fazer um sifão para abastecer meu carro. Sério. Teria preferido fazer qualquer coisa a terminar aquele coquetel. Se, naquele momento, alguém me desse a escolha entre ser atravessado por um cutelo gigante em brasa ou bochechar aquele Negroni, teria preferido o cutelo escaldante. Fácil. Eu devo ser muito teimoso ou absolutamente estúpido, porque aquela experiência horrível não me dissuadiu de experimentar o drink mais uma meia dúzia de vezes. E o mais estranho é que, à medida que tomava, passava a gostar cada vez mais daquele negócio amargo. Até que passei a adorá-lo.     Mais recentemente, comentei com Fernando Lisboa, barman por trás do Bar Cuttelo e dos Coquetéis Treze, que era uma pena que o Negroni não tivesse […]

Inu Engarrafado – Suntory Hibiki 17 anos

Vou confessar a vocês algo difícil. Um desejo profundo, que tenho certeza que todo mundo tem, mas que quase ninguém admite ter. Talvez vocês me condenem depois de saber, ou julguem que seria melhor se eu visitasse um psicanalista. Mas não me importo. Preciso tirar isso do meu peito. Preparem-se, porque aí vai. Às vezes eu queria ser outra pessoa. Mas não qualquer outra pessoa. E não, eu não queria ser um cachorro, apesar do nome do blog. E nem um sheik árabe bilionário, tampouco um astronauta. Quem eu realmente, mas realmente queria ser, se pudesse escolher entre todas as pessoas do mundo inteiro, seria o Bill Murray. E aí você vai argumentar comigo que isso é realmente insano. Afinal, porque alguém quereria ser o Bill Murray, se você pudesse ser, sei lá, o Neymar? Ou o Donald Trump? E aí eu vou responder que é porque nem o Neymar, nem o Donald Trum possuem licença para serem completamente malucos – ainda que ultimamente o Donald Trump tenha tentado bastante – e todo mundo achar normal. Mas o Bill Murray tem. E ele faz isso sem precisar mexer nem um músculo da face. Quase como uma vaca hindu. Para você […]

Macallan Sienna e um Novo Dia para Beber

A ficção está cheia de ébrios. Bons exemplos são Jack Torrence, de O Iluminado, e “O Cara”, interpretado por Jeff Bridges em O Grande Lebowski. Para você ter uma ideia, O Cara, durante os cento e dezessete minutos do filme, toma nove White Russians. Isso equivale a um coquetel a cada treze minutos de filme. Mas o mais célebre atleta ficcional do álcool é, indiscutivelmente, James Bond. O espião bebe mais do que um Escort XR3. Um estudo envolvendo médicos da Universidade de Nottingham mostrou que Bond, no decurso de suas histórias, tomou o equivalente a mil cento e cinquenta doses de álcool, em apenas oitenta e oito dias. Isso equivale a uma garrafa e meia de vinho, ou cinco martinis de vodka, todo dia. Mas James Bond não apenas bebe como se vivesse apenas duas vezes. Ele é uma biblioteca etílica. Prova disso é o diálogo que trava com M e o Sr. Donald Munger, ao tomar um cálice de Jerez pertencente àquele último, em Diamantes são Eternos. Bond diz “temo pelo seu fígado, meu senhor. Este é um Solera excepcional. Safra de 1951, acredito”. M, então, retruca “não há safra para Jerez, 007”, ao que Bond responde “Me […]

Por um Mundo Sustentável – Highland Park 18 anos e Ola Dubh 18

O que você quer ser quando crescer? Durante minha infância, tive várias respostas diferentes para essa pergunta. Lá pelos três, queria ser caminhoneiro. De carreta, daquelas com doze eixos. Depois pensei melhor, e resolvi que seria piloto de carro. Mas como tenho a mesma coordenação de canhoto bêbado escrevendo com a mão direita, decidi que, para evitar o bullying, daria a resposta genérica: astronauta. Hoje, pensando bem, não sei por que eu queria ser astronauta. Ser astronauta deve ser um saco. Pior ainda se for da Estação Espacial Internacional (ISS). Primeiro porque você tem que morar num lugar apertado, desconfortável e frio. E pior, com gente que você nem sabe direito quem é. Imagina ter que passar seis meses, absolutamente confinado lá dentro, na companhia de, sei lá, o Tony Ramos? Será que hoje tem Friboi?! Mas o pior de tudo, de longe, é que você tem que beber seu xixi. É sério. Se eu soubesse disso, teria desistido na hora de ser astronauta. É que a ISS reutiliza 97% da água descartada por seus “habitantes”, por meio de um sistema de centrífuga e fervura. Na prática, isso significa que o suor secretado pelas glândulas pentelhas (sem duplo sentido aqui) […]

Sobre a Criatividade – Glenfarclas 12 Anos

Esses dias me perguntaram qual era meu livro preferido. Fiquei bastante tempo pensando. Um livro só? Não dá para fazer ao menos um top five? Gosto de quase tudo de Dostoievski. Gosto também de Camus, especialmente A Queda, e para os dias de mais testosterona, Hemingway. Vivo, Ian McEwan é excelente, principalmente Serena. Mas uma obra só? Aí acho que terei que escolher Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Para quem nunca leu, o livro trata da trajetória secular de uma família – os Buendía – e do vilarejo por eles fundado, Macondo. Na verdade, a história pode ser interpretada como uma alegoria, em um mundo de realismo fantástico, para a América Latina. Macondo passa, ao longo de sete gerações de Buendías, por quase tudo que passou a América Latina, desde a chegada dos espanhóis. O único problema do livro é entender quem é quem. São mais de cinquenta personagens só da família. Isso faz com que muitos leitores tracem uma arvore genealógica dos Buendía, para auxiliar na leitura. Mas nem assim é fácil. Por dois motivos. Primeiro porque os Buendía não eram lá muito ligados nesse negócio de moralismo, então não adianta você tentar entender quem é […]

O Cão Clássico – Glenlivet 12 anos

Meu trabalho traz a oportunidade de conhecer uma boa dose de loucos. O mundo corporativo está cheio deles, de todas as espécies e graus de loucura. Um dos mais interessantes foi o Sr. Roberto, sócio de um escritório em que trabalhei. O Sr. Roberto era extremamente articulado, relativamente elegante e muito educado. Trabalhava bem e era muito eficiente. Enfim, o Sr. Roberto parecia um cara absolutamente normal. Até você ir almoçar com ele. Na hora da refeição, o Sr. Roberto tinha todo tipo de mania. Uma das mais estranhas era de, durante reuniões mais longas, comer esfihas de ricota, cortadas por nossa copeira em oito pedaços milimetricamente idênticos, como uma pizza. O Sr. Roberto passava reuniões inteiras com um minipedaço de esfiha na mão, e, eventualmente, o comia, pegando outro logo em seguida. Outro cara que tinha manias alimentares tão estranhas quanto as do Sr. Roberto, foi Napoleão Bonaparte. Reza a lenda que Napoleão não comia nada antes das batalhas. Por conta disso, voltava delas com uma fome monstruosa. Seu prato preferido – criado por seu chef pessoal após a batalha de Marengo – era Frango à Marengo. Napoleão gostava tanto daquele prato que sempre o pedia após a luta, […]

World (Whisky) Martini Day

Dia 19 de junho foi o World Martini Day. E ainda que Martini não seja whisky, é um coquetel bem respeitável. Prova disso são seus admiradores. Apenas para citar alguns, temos James Bond, Winston Churchill, Homer Simpson, Frank Sinatra e o comediante americano George Burns. Este último tem uma frase excelente, que, em uma tradução livre, seria algo como “eu nunca pratico corrida. Me faz derrubar meu Martini”. O dia, além de ser um tributo a um dos coquetéis mais famosos da história – e muito possivelmente o mais famoso do mundo do cinema – é uma oportunidade para que bares e bartenders, sejam eles profissionais ou amadores, apresentem suas criações e releituras do tão famoso drink. Talita Simões, consultora e bartender do restaurante Side, em São Paulo, por exemplo, criou um Unusual Martini, com vodka, vermutes e até bitters de chocolate. E como um bom fã de James Bond, Winston Churchill e, principalmente, Homer, este Cão não poderia deixar de fazer sua contribuição. Então, meus caros, sentem-se e peguem seus caderninhos, porque aí vai a primeira lição de mixologia à la Chien embouteillé. Usando whisky, óbvio: SMOKED MARTINI INGREDIENTES: 3 doses de Vodka (este Cão usou Belvedere) ½ dose de […]