“Frankly, my dear, I don’t give a damn.” “Here’s looking at you, kid.” “May the Force be with you.”A lista das frases mais icônicas do cinema, segundo o American Film Institute (AFI), é praticamente um roteiro paralelo da cultura pop. São quase aromas que remetem a alguma experiência, quase involuntariamente. Você lê, e sua televisão mental já projeta a cena, com a entonação perfeita. São frases que sobreviveram às décadas e se tornaram quase aforismos.
A lista da AFI conta com 100 destas frases. Cronologicamente, ela começa em 1927, com The Jazz Singer, e termina em 2002, com o sussurrado “My Precious“, de Senhor dos Anéis. Casablanca é o filme com mais frases, e Humphrey Bogart, o ator. Francis Ford Coppola tem nove frases, sendo que sete vêm de “O Poderoso Chefão”. Tudo isso é divertido, mas é pouco surpreendente. O que mais me espanta é que Samuel L. Jackson não esteja, em nenhuma posição, com algum “Motherfucker“.
Até entendo, por conta da natureza da palavra. Mas não concordo – Motherfucker, na boca de Jackson, não é palavrão. É uma instituição da cultura pop. Tanto é que um filme foi praticamente refeito, só para que ele pudesse proferir “Enough is Enough, I have had it with these motherfucking snakes on this motherfucking plane! A película é, obviamente, Snakes on a Plane, que teve cenas refeitas e classificação etária alterada apenas para encaixar o mantra. A frase é uma combinação perfeita de indignação e carisma.
Puro suco do cinema
E por falar em carisma, ofídios e misturas, há um coquetel que é quase a tradução líquida disso. O Rattlesnake – que combina rye whiskey, limão, xarope de açúcar, absinto e clara de ovo. Ele apareceu pela primeira vez no Saboy Cocktail Book de 1930, com outra frase de efeito. “ela curará uma picada de cascavel, ou matará cascavéis, ou fará com que você as veja“. O drink voltou à – relativa – fama depois de uma adaptação de Will Elliot, de Maison Premiere de Nova York.
Como de costume, devo advertir o incauto leitor sobre alguns detalhes da combinação. Primeiro, um rye whiskey muito seco puxará para o apimentado – o que, se for seu gosto, tudo bem. Mas um Jim Beam Rye ou Wild Turkey Rye funcionam bem. O absinto, no Brasil, é um desafio. Se não encontrar nada interessante, substitua por pastis (como Ricard). A ideia é apenas untar a taça. E, por último, a técnica. Para que o coquetel adquira aquela textura cremosa, com bastante espuma em cima, é preciso bater duas vezes. Primeiro, com gelo. Depois, um dry shake, para que a clara de ovo faça seu papel.
Se o Rattlesnake fosse um personagem de cinema, ele seria um Ordell Robbie. É um drink com personalidade, que mistura a cremosidade de um clássico com o veneno de um vilão carismático. E para quem não gostar, simplesmente recitaria, com elegância “Frankly, my dear, I don’t give a damn.”
RATTLESNAKE COCKTAIL
INGREDIENTES
60 ml de rye whiskey
22 ml de suco de limão
22 ml de xarope simples
2 dashes de absinto (cerca de 2 ml no total, se quiser medir)
1 clara de ovo
parafernália para bater
PREPARO
Coloque o rye, o sumo de limão, a calda de açúcar e a clara de ovo em uma coqueteleira. Chacoalhe bem forte. Isso se chama dry shake. A ideia aqui é formar a espuma característica da clara.
Abra a coqueteleira com cuidado e adicione gelo. Bata vigorosamente.
Eu não vou muito em shows. Não por falta de amor à música, mas porque meu line-up dos sonhos está mais para sessão espírita do que festival. Praticamente todas as bandas que gosto – a ponto de enfrentar fila e passar perrengue chique para ouvir – não existem mais. Jamais ouvirei ao vivo Johnny Cash ou Audioslave, por exemplo. A exceção são os Rolling Stones, que insistem em desafiar a biologia. Mas, ao que tudo indica, essa turnê também está chegando ao fim. Ou não.
Por mais improvável que seja, porém, o mundo do whisky preenche esta lacuna deixada pela música. Ele tem suas próprias lendas vivas – e por conta deste site, as vezes, surge a oportunidade de conversar com uma ou outra. E felizmente, a admiração por algumas delas não só sobrevivem ao encontro presencial como também elevam o volume da música. Fred Noe é assim.
Neto de Jim Beam, filho do lendário Booker, ele comanda a destilaria do bourbon nº 1 do mundo como quem comanda um riff de guitarra. Sentei para entrevistá-lo em sua recente viagem ao Brasil com o mesmo receio de quem vai ao show do Coldplay – o que já seria terrível o suficiente – com culpa no cartório. Mas saí convencido de que certas lendas merecem, sim, ser vistas de perto.
A seguir, você confere a entrevista na íntegra. Sem diluição – em barrel proof – como um bom Booker’s.
Cão: A primeira pergunta, na verdade, é sobre o Booker’s. Me conte um pouco mais sobre ele, eu sei que é um dos seus whiskeys favoritos, certo?
Fred: Ah, com certeza. Meu pai criou o Booker’s como um presente para os nossos distribuidores, há muitos e muitos anos, e o Booker’s Bourbon foi o primeiro destilado sem corte, sem filtragem, lançado ao público. Ninguém tinha algo direto do barril, sem diluição, quando meu pai fez isso. Ele era um pouco maluco.
Booker’s
Você sabe, o consumidor não estava pronto para um destilado com aquela graduação alcoólica. Mas a teoria do meu pai era que você poderia cortá-lo, diluí-lo até o ponto que quisesse beber. Todos os bourbons e destilados são diluídos com água até a graduação de engarrafamento. O Booker’s permite que você dilua até a graduação que mais gosta.
C. Perfeito. Perfeito. E ele criou, e então você herdou a marca, certo?
F. Sim. Ele estava muito doente. E então ele me disse: “Cuide do meu Booker’s”. E eu farei isso.
C. E seu filho está trabalhando – o Freddie está trabalhando na destilaria. Você se sente como seu pai, passando o conhecimento? Como é para você passar o conhecimento para ele e trabalhar em família?
F. Olha, é um momento de muito orgulho para pai e filho. Seguir os passos e ser bem-sucedido. Eu tenho muitos amigos que têm filhos que herdam empresas. E eles passam o negócio adiante. Mas muitas vezes o filho não quer trabalhar duro. Às vezes eles levam o negócio para frente, às vezes mantêm no mesmo lugar, às vezes o negócio anda para trás. O Freddie agarrou a oportunidade que recebeu, e tem feito um trabalho incrível com ideias inovadoras, e criando novos produtos para o futuro.
C. Little Book por exemplo?
F. Essa é uma criação dele, totalmente dele. E é isso que importa: deixar sua marca nesse negócio. Quando eu entrei, seguindo os passos do meu pai, o bourbon estava se movendo devagar. Meu pai lançou o Booker’s e os bourbons small batch, e caiu na estrada promovendo-os. Contando sua história para o público.
Freddie
E quando ele ficou mais velho, chegou um momento em que não queria mais viajar. Então ele me colocou para fazer a mesma coisa, educando os consumidores. Mas, no fim das contas, ainda estamos concentrados no Jim Beam, porque o Jim Beam é o bourbon número um do mundo. E, você sabe, é isso. É o carro-chefe. É ele que nos permite fazer as coisas divertidas. Fazer o Booker’s, o Basil Hayden’s, os Knob Creeks. Todos esses bourbons especiais. Porque sem o Jim Beam mantendo as luzes acesas na destilaria e sendo o número um, nada disso seria possível.
C. É verdade. Vamos falar do Jim Beam. Sobre os 7 anos. Por que mudar para 7 anos?
F. Bem, o Jim Beam Black era 101 meses, originalmente, lá nos anos 1970. Com o tempo, fomos redefinindo a idade, mudando a graduação, sempre tentando encontrar o ponto ideal onde os consumidores mais gostariam dele. E o Freddie foi encarregado pelos nossos líderes: “há alguma forma de melhorar a qualidade do líquido dentro da garrafa do Jim Beam Black?”
Então ele montou uma equipe com funcionários mais antigos. Eu era um deles. Outro era uma senhora que trabalhou no laboratório por 40 anos. E também buscaram gente mais jovem. Sentamos e fizemos degustações às cegas de bourbons diferentes, com idades diferentes, graduações diferentes. E entre o grupo, 7 anos foi quando começamos a sentir a baunilha saindo do barril.
E 90 proof, eu adoro como o Freddie descreve. Ele chama de “canivete suíço dos bourbons”. Porque você pode beber puro, funciona bem com gelo, e também pode colocar em um coquetel.
Meu pai sempre me dizia, quando estava me ensinando o negócio, que leva 7 anos para aquela baunilha começar a sair do barril de carvalho, e dá para ver claramente. Com 7 anos você começa a sentir notas fortes de baunilha, doçura.
Quando o bourbon entra no barril, o milho é muito doce e o whiskey tem uma nota de grão, com gosto de cereal cru. Mas com o tempo, o barril começa a influenciar o sabor. E então essa granulosidade desaparece e você começa a pegar notas de dentro do barril. A baunilha, o doce, as especiarias. E é aí que está o ponto ideal.
Jim Beam Black
E nós testamos mais maturado que 7 anos. Mas 7 anos – foi onde o grupo, como um todo, escolheu. Às cegas! Não sabíamos o que era. Nem a idade nem a graduação.
C. E você acha que os consumidores ainda ligam para “age statement”?
F. Eu acho que, por um tempo, não ligavam tanto. Acho que agora os consumidores estão mais educados e eles gostam de saber o que estão comprando dentro da garrafa. Eu quero saber o que tem lá. Eles estão mais informados. Eles sabem o que procuram e eu acho que a declaração de idade deixa claro o que está dentro daquela garrafa.
C. E sem corantes, sem aromatizantes…
F. Isso é bourbon – não pode adicionar corantes nem aromas. Tudo tem que vir naturalmente do barril de carvalho onde envelhecemos.
C. Ah, ouvi uma história engraçada sobre a levedura. Vocês levam a levedura para casa, certo?
F. Exatamente! Nossa levedura foi capturada pelo meu bisavô, Jim Beam, no quintal da casa onde eu moro hoje. E nós ainda propagamos a levedura no local. Quase nenhuma destilaria ainda propaga a sua levedura. A maioria envia para uma empresa terceirizada produzir. Eles simplesmente recebem um saco grande e jogam no fermentador.
O Freddie e a equipe dele ainda propagam a levedura na fábrica. A mesma cepa que meu bisavô capturou. Quer dizer, quando fazemos nossos bourbons, só temos 3 ingredientes. Água, levedura e grãos – e só. Não adicionamos enzimas para ajudar na fermentação. Sem enzimas na nossa destilaria! Fazemos essencialmente do mesmo jeito que Jim Beam fazia depois da Lei Seca.
E eu acho muito legal que nossa água vem de uma reserva natural. Não usamos água da cidade tratada quimicamente. É água de pedra calcária.
C. E uma última pergunta – o que você realmente ama no seu trabalho e o que você odeia?
F. O que eu amo, eu acho, é carregar esse legado que começamos há mais de 230 anos e deixar a minha marca nele. Passar isso para o meu filho e vê-lo agarrar a oportunidade de levar o negócio adiante. E um dia eu vou me encontrar com as outras gerações – espero que todos iremos para o mesmo lugar – e poder dizer: “Ei, espero que eu não tenha estragado nada!”
E odiar, bem, eu não odeio muita coisa. Às vezes as reuniões, com os grandes gerentes. Quando as pessoas chegam e acham que precisam mudar as coisas para vender mais. Mas quando você é o número 1, só existe uma direção para onde você pode ir – e é para baixo. Então, não mexa em algo que já é número um.
C. Não se muda um time que está ganhando, como a gente diz…
F. É um bom lema, porque é isso que fazemos. Eu não tornei Jim Beam número um. Isso foi trabalho do meu pai e de outros. Eu já nasci no número um, e o meu trabalho é mantê-lo lá. E o do meu filho, Freddie. É isso que fazemos.
C. Vocês estão realmente fazendo um trabalho muito, muito bom.
“Queria sorvete, mas era feijão“; “eu abro a geladeira para pensar“, “eu nunca terminei uma borracha“. Estas eram algumas das comunidades que eu participava, no finado Orkut. A rede foi criada em 2005, há exatos vinte anos, pelo engenheiro de softwares turco, Orkut Büyükkökten – que, num afortunado momento, decidiu batizar sua maior contribuição para a humanidade com seu primeiro nome, e não o último. Porque convenhamos, seria um tantinho mais difícil chegar pra alguém e dizer “Te add no Büyükkökten“.
O Orkut tinha um monte de recursos. Scraps, reputação, depoimentos. Mas o mais legal, de longe, eram as comunidades. Havia umas mega ultra específicas, como, por exemplo “odeio tomar choque no cotovelo” e “eu leio com a mão no mouse“. Outras, questionadoras. Como “500 poodles matam um leão?” – um tataravô do dilema dos cem humanos e um gorila. Uma das minhas favoritas era “Não fui eu, foi meu eu lírico” – que transferia a culpa à poesia inerente a todo ato humano.
Imagina isso hoje em dia
O legal é que por mais peculiar que fosse a ideia, ela ressoava – e criava conexões entre as pessoas. Pensa em “Tô com fome, mas já escovei os dentes“. Era uma exacerbação do cotidiano, que fazia a gente prestar atenção em coisas que fazemos no automático. E ser parte da comunidade era só mesmo entrar no grupo. Não precisava discutir. Só se quisesse.
E foi neste mesmo ano de 2005 que – sem scraps ou testimonials – a Union Distillery preencheu barricas de carvalho americano com seu new-make spirit. Ali, sem GIF piscante nem solicitação de amizade, o destilado passou 17 anos criando seu próprio feed de aromas. Depois, passou mais três anos em carvalho francês, até emergir em nosso presente, como o Union Vintage 2005 II.
Ou de acordo com a Union “Destilado em 2005 e engarrafado em 2025, o novo rótulo permaneceu por 17 anos em barris de carvalho americano e outros três em carvalho francês. Com graduação alcoólica de 50%, a combinação das madeiras confere complexidade e elegância à bebida, marcada por coloração âmbar intensa, densidade rica e aromas envolventes: características que prometem uma experiência sensorial única.”
Há um ponto interessante sobre o Union Vintage 2005 Double Wood II que não é mencionado. A atual destilaria – de Bento Gonçalves – foi inaugurada apenas em 2015. Antes disso, os Union eram produzidos na unidade de Veranópolis, que, atualmente, está tão desativada quanto o Orkut. Assim, este single malt não é apenas um Union de 20 anos de idade. Mas, também, engarrafamento de uma espécie de silent still brasileiro. Afinal, fora produzido por uma destilaria que não existe mais. Destilaria, esta, que tinha alambiques, fermentadores e regime de destilação distintos da atual.
O Union Vintage 2005 Double Wood II é engarrafado a 50% de graduação alcoolica, e não passa por filtragem a frio. A cor é, também, 100% natural. O que leva este Cão a crer que boa parte dos barris usados foram de reuso. Barris de “first-fill” impactariam muito mais na coloração, e provavelmente dominariam também o aroma e sabor, considerando o clima do Rio Grande do Sul. Um whisky brasileiro com duas décadas de maturação em first-fill provavelmente seria desequilibrado para a madeira. E isso não acontece com o Union Vintage 2005 II.
Sensorialmente, o Union Vintage 2005 Double Wood II é seco e apimentado. Ele tem suas notas de caramelo, e baunilha, mas o que sobressai é um agradável apimentado de gengibre e pimenta do reino. Em comparação com seu irmão mais jovem, o Union Vintage 2005 (primeira edição), é mais seco, e também mais puxado para frutas desidratadas – o que faz sentido, considerando as barricas de carvalho europeu.
Veranópolis
Foram produzidas apenas 2005 unidades do Union Vintage 2005 Double Wood II. Um número que pouco parece ser coincidência. A garrafa sai por R$ 895 (oitocentos e noventa e cinco reais) no site oficial da Union. Pode parecer caro a princípio – ainda mais considerando que o Union Vintage 2005 de 16 anos custava metade disso. Mas me pareceu um preço adequado para um single malt com 20 anos, alta graduação alcoólica, sem filtragem e ainda mais de uma (supostamente) lost distillery.
O Orkut se foi, a destilaria de Veranópolis também. Mas o tempo, aquele mesmo que arquiva perfis e silencia alambiques, às vezes devolve presentes. O Union Vintage 2005 Double Wood II é um desses. Um arquivo sensorial que resistiu a duas décadas, e que agora pode ser lido — ou melhor, bebido — como se fosse um daqueles depoimentos eternos. Só que com mais pimenta e bem menos açúcar.
Union Vintage 2005 Double Wood II
Tipo: Single Malt
Destilaria: Union
País: Brasil
ABV: 50%
Notas de prova:
Aroma: gengibre, caramelo, baunilha.
Sabor: Frutado e seco, mel, gengibre. O final é longo e traz mais gengibre e frutas vermelhas.
Esta matéria foi originalmente postada em 2018, e revista e atualizada em junho de 2025 por conta do relançamento do Wild Turkey 101 no Brasil.
Ah, a águia de cabeça branca. Um animal belíssimo, forte e atroz. No topo da cadeia alimentar, ela é temida e respeitada por todos. Não é a toa que foi o animal escolhido para representar os Estados Unidos da América, o maior poderio bélico do mundo, e um país completamente obcecado por poder.
Mas mesmo antes, a águia – e outras aves de rapina de diferentes tamanhos – já era utilizada como um símbolo de força. O império bizantino possuía uma águia de duas cabeças como seu emblema, que, mais tarde, foi adotada também por Ivan III, da Rússia. E no Egito, o falcão era a representação antropozoomórfica de Horus.
Mas não foram apenas nações que adotaram esta imponente ave de rapina como seu símbolo animal. Muitas empresas e organizações também o fizeram. A American Eagle Outfitters, por exemplo. A Eagle Pharmaceuticals. Nada mais apropriado. Somos naturalmente induzidos a relacionar poder e força a este animal – valores bem buscados por corporações.
Uma escolha bem menos óbvia, porém, é o peru selvagem. O peru selvagem é um bicho grande, meio desajeitado, meio feio e meio bonito, mas bem brega. Um bicho que não é muito bom em nada, exceto no prato. E, finalmente, um animal que – ao menos na língua portuguesa – possui um sentido meio ambíguo. Um bicho que quase qualquer pessoa relacionaria mais com farofa e uvas passas do que com um símbolo de poder.
Status
Acontece que o mundo do whisky parece ter uma estranha fixação com o peru. Não estou falando de nada freudiano aqui. Mas simbólico mesmo. Na Escócia, temos a famosa Famous Grouse (tá, eu sei, é um tetraz). E na terra da águia de cabeça branca, há a Wild Turkey, uma das mais conhecidas marcas de whiskey americano, e hoje pertencente ao Grupo Campari.
Talvez você tenha se perguntado por que alguém batizaria seu whisky de peru selvagem. Bem, a história da Wild Turkey começa em 1891, quando um cavalheiro chamado Thomas Ripy construiu a Old Hickory Distillery na cidade de Tyrone, no Kentucky. A destilaria operou até a época da Lei Seca, quando fechou suas portas. Com a queda da proibição, a família de Ripy passou novamente a produzir whisky, e vender a grandes lojas. Por enquanto, não havia qualquer relação com nenhum peru.
Entra em cena Thomas McCarthy, presidente da Austin Nichol’s, importante loja da década de 40, que vendia o bourbon produzido pela Old Hickory. Reza a lenda que Thomas uma vez levou algumas garrafas para uma sessão de caça ao peru selvagem com amigos. E seus confrades gostaram tanto do whiskey que passaram a pedir a ele “aquela garrafa do peru”. O nome pegou, e acabou sendo adotado pela destilaria. A expressão escolhida por Thomas e venerada por seus amigos era, justamente, o Wild Turkey 101, tema desta prova.
O Wild Turkey 101 é, talvez, até hoje, o mais conhecido whiskey do portfólio da marca. Possui graduação alcoólica de 50,5% – bem alta para um bourbon em sua faixa de preço – e é composto por milho (75%), centeio (13%) e cevada maltada (12%). Ele é maturado em barris de carvalho americano virgens e torrados. A torra – de nível quatro – aliás, é bastante intensa. Mas quase tudo isso é característico de outros bourbons.
O maior diferencial da Wild Turkey é um detalhe por muitos olvidado. O “entry proof”, ou seja, a graduação alcoólica de preenchimento dos barris. A maioria das destilarias americanas o faz em 62,5% (125 proof), – que é o limite legal superior. Na Wild Turkey, porém, é 57,5% (115 proof). Na prática, isso significa que há menor diluição antes do engarrafamento – o que traz mais textura e intensidade para o bourbon.
Armazéns da Wild Turkey
O Wild Turkey 101 possui sabor adocicado e ao mesmo tempo picante, com caramelo e mel. O final é médio, seco e também picante. O álcool é um pouco agressivo – mas muito menos do que se poderia esperar de um whiskey com sua graduação alcoólica e faixa de preço. É um bourbon whiskey que funciona tanto para ser tomado puro quanto para coquetelaria, onde sua graduação alcoólica elevada é muito bem vinda.
Se você gosta de bourbon whiskeys com alta octanagem, ou se está procurando algo com perfil de sabor versátil para utilizar em seus coquetéis, o Wild Turkey 101 Bourbon é uma excelente opção. Pode ser que ele não seja lá tão imponente quanto certas águias. Porém, é um peru com tradição, qualidade e preço de combate. Um peru capaz de brigar até com a mais imponente ave de rapina.
WILD TURKEY 101 BOURBON
Tipo: Bourbon Whiskey
Marca: Wild Turkey
Região: N/A
ABV: 50,5%
Notas de prova:
Aroma: Caramelo, açúcar mascavo, bala de avelã.
Sabor: Caramelo e mel, açúcar mascavo, um certo frutado adocicado. Final longo e picante, com álcool relativamente aparente, mas não excessivamente agressivo.
Com Água: A água reduz um pouco a impressão picante.
Normalmente, eu começo as matérias do Cão Engarrafado com um assunto meio sem sentido. Mas, dessa vez, vou ousar, e contar, primeiro, como é que eu conheci o Bedford & Grand. Porque muita gente acha que ter um bar é uma delícia, é como acordar todo dia num hotel cinco estrelas all-inclusive de álcool, mas não é bem assim. Ter um bar dá bastante trabalho, ainda que tenha sócios e uma ótima equipe por trás.
Muita gente – da indústria, inclusive – diz que criar coquetéis é uma arte. Eu acho que não. Eu acho que criar coquetéis é uma ciência quase exata. É um trabalho minucioso de engenharia. Um coquetel bom é o inverso da trágica história da ponte de Tacoma. Deixa eu abrir parêntesis antes de fechar os colchetes para contar esse caso – e talvez seguir minha estrutura usual.
A (primeira) Tacoma Narrows Bridge, apelidada carinhosamente de “Galloping Gertie”, foi inaugurada em julho de 1940 no estado de Washington, nos Estados Unidos. Ela ligava as cidades de Tacoma e Gig Harbor, atravessando o estreito de Puget Sound. Desde o começo, os engenheiros notaram algo curioso: a ponte ondulava com o vento. Literalmente. Não era uma vibração sutil, mas um movimento ondulante visível a olho nu, como se estivesse viva
A ponte
Apesar de tudo, a turma ignorou o fato, e só achou engraçadinho. Quatro meses depois, no dia 07 de novembro, a Gertie começou a se contorcer – tipo uma cobra – até finalmente colapstar. A razão é de uma beleza científica. Sua estrutura entrou em ressonância — um fenômeno em que uma força externa (como o vento) entra em sintonia com a frequência natural de um objeto, amplificando suas oscilações. Por uma coincidencia perfeita, a velocidade do vento sintonizou com a frequência da ponte, e a destruiu.
Gertie é como um drink bom. Não adianta ter o melhor vermute, um malte espetacular, ou colocar a parada toda para centrifugar numa geringonça de laboratório que custa o mesmo que um automóvel popular. É preciso ter equilíbrio. Tudo deve estar em ressonância – não literalmente, óbvio – lá dentro. E, no caso do bar, fora também, porque senão é só um drink bom e caríssimo.
Pois descobri o Bedford & Grand assim, buscando, com meu sócio, coquetéis num famoso site de receitas. Até debatemos um pouquinho, antes de testar, porque eu achava que ficaria amargo, por causa do vermute com quinino. Ele, porém, imaginava que o dulçor seria ressaltado, por causa do maraschino. Embos estávamos equivocados.
O Bedford & Grand foi criado por Sebastian Tollus, diretor de bares do Eleven Madison Park de Nova York, e é um parente de um manhattan, brilhantemente equilibrado com maraschino, jerez fino, vermute com quinino, e rye whiskey. Uma combinação tão hipster que, se fosse uma pessoa, usaria suspensórios e gravata borboleta, e só beberia Bedford & Grands. Mas, também, que funciona perfeitamente.
Os ingredientes podem aparentar, numa primeira leitura, bem específicos. Parece intimidador comprar este monte de coisa só para um drink. Mas, não é bem assim. O Luxardo Maraschino pode ser usado também em um Final Ward – que compartilha o rye – e no meu querido Fancy Free. O jerez fino entra em uma miríade de drinks modernos, dentre eles, o Bamboo e o Tuxedo (preparem-se, dry martini fans…). O único ingrediente quiçá mais limitado é o vermute com quinino. Que, milagorsamente, temos um representante no Brasil – o Mancino Chinato.
Mancino
Ou seja: o Bedford & Grand é como uma boa ponte — não balança, não torce, e te leva exatamente onde precisa ir. Desde que você tenha os ingredientes certos e respeite as proporções, tudo entra em harmonia. Sem mais vibrações, tomem nota.
BEDFORD AND GRAND
INGREDIENTES
50ml Rye Whiskey (usei um High West. Mas pode funcionar com um Wild Turkey. Pense em seu CMV. Ou não)
22,5ml Mancino Vermouth di Torino Chinato (é, você pode tentar com oturo vermute)
15ml jerez fino (Tio Pepe)
5ml Luxardo Maraschino
2 dash Angostura Orange Bitters
Parafernália para mexer.
PREPARO
Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com bastante gelo. Mexa até ficar gelado
“Reservei aquele restaurante português que eu gosto, pra gente comemorar“. O negrito, aqui, simbolizando a ênfase dada pela minha melhor metade. Era dia 12 de junho, logo depois do almoço, e eu havia sido indagado por ela se tinha planejado algo. Diante de minha silenciosa negativa, representada pela mais alva cara de pânico, ela sorriu e deu de ombros. Eu sabia que você ia esquecer.
E agora eu finalmente tinha entendido por que ela, em tantas oportunidades diferentes nas últimas semanas, me mostrara um perfume caro que queria comprar. Estava tão distraído com qualquer outra coisa, que olvidara completamente da data. Depois de quinze anos de casado, com mais cinco de namoro, eu poderia ter argumentado que o amor verdadeiro não é representado por uma fragrância cara.
Amor mesmo era ela fingir que gostava da minha comida. Era já pedir pra tirar a cebola de metade da pizza, porque eu sei que ela detesta. Era saber o CPF do outro de cor, mais do que o seu próprio. Mas não adiantaria, porque, dia doze tinha que amar com recibo fiscal. Além de que, na sequência do questionamento, ela me estendeu uma caixa preta, de uns quarenta por vinte centímetros. Toma, seu presente.
Cheque-mate. Um Glenmorangie Signet, single malt de luxo sem idade declarada, que acabara de chegar ao Brasil. Mas como é que você sabia que eu queria? – Porque eu entrei no seu computador, e vi que tava cheio de anúncios dele. Os cookies te denunciaram. Apertei os lábios. Não sabia se ficava incomodado por ela usar meu notebook, ou se celebrava tamanho ardil para me agradar. Escolhi a segunda opção.
Lembrei que o Signet era produzido pela LVMH. O mesmo grupo que detém participação na mundialmente famosa grife Louis Vuitton, na marca de espumantes Moët Chandon e conhaques Hennessy. E, coincidentemente também, proprietária de perfumes como Dior, Givenchy e Gerlain. Dava para ter presenteado a Cã dentro da mesma estrutura societária.
Comecei a divagar. O diretor de criação da Glenmorangie, Bill Lusmden, é um cara mais ou menos atormentado. Formado em química, Bill passa seu tempo realizando experiências malucas envolvendo a produção e maturação de whisky. Provavelmente sua esposa também passava nervoso no dia dos namorados. Bill até já enviou ampolas de Ardbeg – outro single malt do grupo – para a Estação Espacial Internacional, para estudar os efeitos da gravidade zero sobre o destilado. Em outra oportunidade, desconectou os purificadores da Ardbeg e bagunçou toda produção, só pra ver como ficava o destilado.
Mas mesmo para os padrões de Lumsden, o Glenmorangie Signet é uma criação bastante sofisticada. Ele é produzido com a combinação de dois diferentes tipos de malte. A primeira, conhecida como “chocolate malt”, é, na verdade, malte de cevada maltada altamente torrada. A mesma usada normalmente em cervejas escuras, dos estilos porter e stout. A própria caixa do Signet ressalta que a destilaria tem que parar por uma semana, justamente para produzir o whisky, por conta do tal malte.
A segunda é o malte Cadboll, produzido com cevada retirada das fazendas contíguas à destilaria. Por fim, parte do estoque mais precioso da Glenmorangie é usado em sua composição, com whiskies envelhecidos por aproximadamente trinta anos. A maturação do Glenmorangie Signet ocorre em um conjunto de barris de carvalho europeu que antes continham jerez e barricas altamente tostadas – o que ressalta ainda mais o perfil de café e chocolate – romântico, como um tiramisu.
A destilaria Glenmorangie é conhecida por possuir os alambiques mais altos de toda a Escócia. Quase tão altos quanto uma girafa, ainda que ninguém tenha colocado uma girafa ao lado das alambiques para comparar. A história por trás disso é interessante. Os primeiros alambiques da destilaria teriam sido comprados de uma fábrica de gim. Os atuais são reproduções maiores daqueles primeiros. A altura dos alambiques, aliada a seu formato, fazem com que apenas os vapores mais leves do processo de destilação cheguem ao seu topo, o que produz um whisky leve e elegante.
Não colocaram. É photoshop.
“O que você tá aí olhando pro nada tipo peixe morto de feira?“. Disfarcei, não podia dizer que estava pensando em como o Glenmorangie Signet equilibra a delicadeza do new-make com um perfil claramente achocolatado, com final longo e adocicado, e como aquilo era incomum no mundo do whisky. “Tava pensando que amo você“. Ela fez uma cara de descrença.”Sei, deve estar aí pensando em quando vai abrir o whisky. Mas, antes, vamos jantar, senão a gente perde a reserva“.
Acenei afirmativamente. Na volta, tinha duas missões secretas. Finalmente começar a usar a agenda do celular. E limpar meus cookies de navegação.
“Isso aqui não pode estar certo” disse a Cã, observando uma pequena trilha, que se espremia entre um cemitério e uma linha férrea. Eram cinco horas da tarde, e tínhamos acabado de sair do metrô de North Acton, na zona 3 de Londres. O objetivo era chegar à Bimber, destilaria de whisky britânica, que ficava nos arredores. “Olha, o mapa diz que é isso, a gente está certo” – retruquei. “O mapa também diz que tem um rolê gótico-apocalíptico até chegar lá?“.
A gente sai do Brasil, mas o brasileiro não sai da gente, pensei. Seguimos, observando as belas – e talvez um pouco mórbidas – sombras que as lápides do cemitério de Acton projetava sobre a trilha. Fosse uma série pós-apocalíptica, era aqui que seríamos encurralados por uma espécie nova e aprimorada de zumbi. Mas poucos minutos depois, demos de frente com uma área cheia de armazéns. A Bimber estava em um deles.
Ao chegar à destilaria, qualquer traço de tensão se dissipou. Luke, embaixador da Bimber, nos recebeu logo na porta com uma taça de gim tônica para cada. Um bom começo. Ele explicou que a destilaria foi fundada em 2015 por Darius Plazewski. Darius é polonês, e Bimber significa, literalmente “birita”. Explicou que além de whisky, a Bimber faz também outros destilados. E por fim, pontuou que o drink era refil, e que eu poderia levá-lo durante a visita para não ficar com muita sede. Irreverente, de boca suja (não mais do que eu) e com muito conhecimento, Luke explicou alguns detalhes e curiosidades da Bimber.
A maioria dos engarrafamentos da Bimber são edições limitadas. A mais célebre foi feita em parceria com o metrô de Londres, chamada “spirit of the Underground”. A série começou em 2021, e tem como objetivo final lançar 44 whiskies, cada um homenageando uma das 44 estações de maior movimento na cidade. A primeira edição contou com Waterloo, Baker Street, Oxford Circus e King’s Cross. Algumas dessas garrafas são vendidas, atualmente, por mais de mil libras no mercado secundário.
Whisky-geeking
A destilaria produz em torno de 50 mil litros por ano. É bem pequena, especialmente para padrões britânicos. Uma destilaria de porte médio, na Escócia, produz algo como dois milhões. A The Macallan – um gigante – faz mais de vinte milhões. Mas isso não quer dizer que a Bimber tenha tempo ocioso. Até maio de 2025, dois alambiques portugueses, parecidos com aqueles usados para produzir eau-de-vie, respondiam por toda a produção. Na semana que visitei, um novo wash still, maior, de dois mil litros, acabara de chegar, mas ainda não estava em atividade.
O malte usado pela Bimber é fornecido pela Warminster Maltings. 75% é malte tradicional, sendo, o restante, turfado. Seu mash tun é de inox, e tem capacidade de apenas dois mil litros de wort. A água usada, tanto neste estágio quente, quanto na fermentação, é a do rio Thames. Porém, ela é suavizada, em um processo de desmineralização por osmose. Algo bem comum na indústria da cerveja e do whisky.
O que é bastante imcomum, entretanto, é o tempo de fermentação. 168 horas em tanque aberto. É exatamente o mesmo tempo da Tomatin, destilaria escocesa conhecida por ter uma das fermentações mais longas daquela nação. Por conta desta era fermentativa, a Bimber tem sete washbacks. Um para cada dia da semana. Eles são feitos de carvalho americano, o que é, também, pouco usual. Geralmente, washbacks são de pinho ou de inox.
Washbacks
Um pouco de whisky-geeking aqui. Ou talvez bastante. O cuidado no processo de fermentação busca criar um wash pouco ácido, mas bastante complexo. O tempo longo e o open top abre espaço para fermentação malolática, que reduz a acidez do wash. O objetivo é um whisky menos agressivo, sem muitas arestas pontudas. O que é uma ideia excelente, especialmente para alambiques baixos.
Na destilação, as coisas ficam interessantes. Os antigos alambiques – quem tinham nomes de batismo – foram desenvolvidos especificamente para a Bimber. O wash still tem mil litros, e o spirit still, seiscentos. Eles são – ou eram – aquecidos por fogo direto, mas não possuem os tradicionais rummagers, para evitar a carmelização no fundo. Isso sugere um destilado mais encorpado. Porém, a operação dos alambiques compensa isso. A destilação, de mais de dois dias, é longa, e mira na delicadeza.
Brinquedo novo
A cabeça é recolhida entre 80% e 72%, onde a Bimber começa a recolher o coração. O corte vai até os 65%, ao que, finalmente, a cauda é retirada. Os cortes são feitos manualmente, e não há spirit safe. Estas informações, porém, devem mudar quando o novo alambique estiver ativo – ajustes serão necessários para manter o perfil sensorial semelhante àquele conhecido, mas com o novo equipamento.
A graduação alcoólica de preenchimento dos barris é a mágica 63,5% – usada pela maioria das destilarias. Mais de 80% dos barris são de carvalho americano, provenientes da Woodford Reserve. Dentre os 20% restantes, há barris de vinho jerez e porto – a finalização preferida de Luke. Há também um único barril de mizunara, que descansa, discretamente, em um cantinho do armazém.
A prova
Ao final da visita, degustamos alguns engarrafamentos da Bimber. Dentre eles, o Harmony of Eight, uma das edições mais antigas da Bimber até então. É uma combinação de barris de carvalho americano torrados, com barris de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez PX. Mas uma das experiências mais interessantes foi provar o new-make, recém destilado. O álcool é muito bem integrado, e há uma nota frutada, adocicada, resultado da fermentação e destilação longas.
No fim das contas, não fomos atacados por zumbis, não tropeçamos em nenhuma lápide e nem saímos de lá carregando um espírito do além — só algumas boas doses do “Spirit of the Underground”. Convenhamos: se todo rolê gótico-apocalíptico terminasse com gim tônica, whisky e um Luke, o mundo acabaria com muito mais classe. Ou não.
Domingo, doze graus. Sozinho em casa, não ouço nada além do rouco ronco do meu Nissan Skyline, que dá a trigésima e derradeira volta virtual na Tokyo Expressway. Cruzo a linha de chegada e respiro aliviado. Consigo ouvir “Smooth Operator” tocando na minha mente. Ah, coitado do Carlos Sainz, se me encontrasse um dia na pista. Missão cumprida por hoje – pelo menos na única realidade onde eu tenho alguma relevância.
Sei lá que horas são. Há umas duas horas atrás, a Cã saíra com os cãezinhos para jantar com os pais. Antes de sair, ela ainda indagou “Vamos na pizza, você não vem?“. Mas, observando minhas sobrancelhas notadamente levantadas de tensão, fingiu que era uma pergunta retórica. É que eu tenho muita coisa pra fazer“, ainda respondi, num tom descrente até pra mim “e certeza que vocês vão pedir pizza de rúcula e eu vou ter que comer” – ri. “Não dá pra escapar sempre” foi a enigmática tréplica.
Certeza que não é de rúcula
De volta ao presente, ainda visivelmente animado pelos louros de minha vitória no endurance, caminho decidido até a cozinha. Vou fazer um belo sanduíche para jantar. Mas dou de cara com o pálido fundo do refrigerador. Um limão, meia cebola e uma super bonder. E claro, duas garrafas de vermute, uma de Amaro Averna e meia de jerez amontillado. Preciso rever minhas prioridades, penso.
Sento-me sobre a bancada da pia, para refletir se faço meia cebola frita com tempero cítrico ou morro de inanição com um pouco de dignidade. Resolvo que vou beber alguma coisa, para turbinar a criatividade. A escolha vem natural, sem nem precisar fechar a porta da geladeira. Agarro a garrafa de Amaro Averna. Vou preparar um Black Manhattan.
Escolho um rye whiskey na prateleira. Esse, não falta. Tem até opções. Pondero que o rye deve ser mais equilibrado, talvez não muito seco, para equilibrar o Averna. Um Jim Beam Rye ou Wild Turkey rye funcionariam muito bem, ou até mesmo um Bulleit Bourbon ou 1792. Mas resolvo pegar o Sazerac Rye, que trouxe de minha última viagem, e adoro.
Lembro-me que o Black Manhattan foi criado em 2005, no Bourbon & Branch bar de São Francisco, por um bartender chamado Todd Smith. A genialidade de Todd é de uma singeleza rara. O drink é simplesmente um manhattan clássico, mas com Averna no lugar do vermute. Claro, há uma questão de equilíbrio dos bitters, mas isso é um detalhe tão grande quanto minha fome, neste momento.
Bourbon and Branch
Rye, Averna, bitters. Dá até para fazer um twist, e adicionar umas gotinhas de algum chocolate bitters. Mas sigo aqui a receita clássica. Muito gelo no mixing glass, e desço para a taça coupé. O primeiro gole é redenção. Seria ainda melhor se tivesse algo para comer.
Ouço a porta da rua se abrir, acompanhada da gritaria canina de sempre. “Tem pizza pra você”, anuncia a Cã, com uma leve risadinha. Corro até a bancada e abro a caixa. Rúcula. Não dá mesmo para escapar sempre. Mas que delícia, era bem o que eu queria jantar – só não sabia disso antes.
2 dashes (isso são sacudidelas) de Angostura Aromatic Bitters (você pode aqui usar sua criatividade. Fica legal com um dash a mais de chocolate bitters, ou orange bitters. Teste!)
1 cereja Maraschino
parafernália para mexer
PREPARO
Adicione no mixing glass o rye, Averna e os bitters.
Adicione gelo e misture levemente, utilizando a colher bailarina, por alguns poucos segundos.
Com o auxilio do strainer – para coar o gelo – desça o conteúdo do mixing glass na taça.
Este é o segundo post sobre o Jim Beam Black. A nossa prova da primeira versão pode ser lida neste link. Recomendamos a leitura, porque traz algumas informações técnicas deixadas de lado nesta matéria
Aconteceu o que eu mais temia. Adquiri uma nova mania: café. A história começou inocentemente, de uma forma meio orgânica. Comprei uma dessas máquinas de espresso – com s, porque com xis é o trem – que estava em promoção numa black friday qualquer. Comecei com café em pó, desses gourmet, de supermercado. Sem açúcar, óbvio, porque de doce já tem a vida. Mas aí, me falaram que de gourmet eles só tem o nome, e o bom era o café especial, moído na hora.
Arrumei um moinho manual, e aprendi a regular. Moagem fininha para o espresso, mais grossa para o coado. Comprei também um café especial, de torra clara, porque aprendi que o escuro mascara os defeitos. Ganhei mais tríceps em um mês moendo café do que em dois anos de academia. No final do dia o braço ficava até tremendo, não sei se por causa do esforço, ou da oitava xícara de café. Deu cãimbra, então comprei um moinho elétrico. E uma balancinha de precisão.
Agora, ao escrever este texto e revisitar o assunto, me sinto tentado a abrir uma aba e comprar um Origami. Ou talvez uma french press decente. Mas tenho que resistir, porque quero manter o número de obsessões da minha vida constante. Já sou maluco por whisky, fotografia, cinema e carro. Não tem mais tempo nem dinheiro pra outra coisa. Mas não consigo abandonar tudo e volar à capsula. Seria como me acorrentar de novo à parede da caverna, observando as sombras dos discípulos do Deus Kalita.
Mas por que meu café está tremendo?
As cápsulas, admito, têm seu valor — sobretudo para quem acha que café é só um empurrão químico pra sair da cama. Mas, como quase toda solução moderna, sacrificam alma em nome da eficiência. Os métodos tradicionais dão trabalho, sujam a pia e tomam tempo. Mas devolvem algo que a praticidade pasteurizou: caráter. E caráter, como veremos a seguir, é exatamente o que o Jim Beam Black resolveu recuperar, com seu Jim Beam Black 7 anos.
A nova versão do Jim Beam Black que chegou recentemente ao nosso país foi lançada nos Estados Unidos em Junho de 2024. E não é uma mudança meramente estética – ainda que, na opinião deste Cão, o visual tenha melhorado um tanto. O novo Jim Beam Black agora carrega uma declaração de idade. Ele é composto por whiskies de, no mínimo, 7 anos. Além disso, a graduação alcoólica subiu de 43% para 45%. Esta últma, uma mudança que será celebrada por todos aqueles que gostam de usá-lo em coquetéis. O que permaneceu foi a a mashbill. 75% de milho, 13% de centeio e 12% de cevada maltada.
Curiosamente, esta não é a primeira vez na história que o Jim Beam Black declara sua idade. Na década de 70, ele tinha 8 anos, e era engarrafado a 45% de graduação. Bem semelhante ao atual. Na década de 80, ele perdeu dois graus percentuais de álcool. E em 2014 a idade foi completamente apagada do rótulo – um claro sinal de que o líquido havia ficado mais jovem. Estima-se que algo em torno de seis anos e meio.
Muito se pode discutir sobre a razão de tais mudanças. Sob uma ótica mais inocente, poderia-se argumentar que os estoques de bourbon mais maturados rareavam, e, em nome da padronização, a indústria não teve outra alternativa senão reduzir a idade de seus whiskies. Por um viés menos poliano, porém, poderia afirmar que o objetivo era reduzir custo e alargar as margens. Nada de errado, a indústria do whisky não foi criada para fazer caridade a seus ébrios consumidores.
Ocorre que, em 2014, havia uma divisão mais clara entre bourbons – por assim dizer – de guerra, e aqueles voltados para os entusiastas. A indústria porém, amadureceu, a concorrência aumentou, e escolhas realizadas naquela época não encontram mais justificativa tão facilmente. Isso se deu, em boa parte, por conta dos bares de coquetelaria, que se multiplicaram nesta última decada. E com eles, uma casta de bartenders que sabem, exatamente, o que querem de um bourbon.
De acordo com Fred Noe, master distiller da Jim Beam, a ideia foi “trazer de volta o Jim Beam Black como ele era na época que crescemos ao lado da indústria“. A escolha dos 7 anos e a graduação de 45% foi feita em conjunto com seu filho, Freddie, também master distiller. Os dois provaram, às cegas, diversos Jim Beam de idades e ABVs variados, até chegar a um consenso. Um whisky mais oleoso, e com finalização mais intensa.
Negócio da família
Ao contrário de outros bourbons premium do mercado, o Jim Beam Black é feito de uma mistura de barris, retirados de diferentes andares da rickhouse. A ideia é justamente focar em padronização. Barris de andares mais baixos maturam mais vagarosamente, e trazem um álcool menos pronunciado. Barris do topo conferem mais notas provenientes da maturação, mas trazem também um certo apimentado, a ser balanceado.
No fim das contas, o novo Jim Beam Black talvez seja como aquele café coado que a gente reaprende a valorizar depois de flertar demais com a cápsula: não é revolucionário, não vai mudar sua vida — mas tem substância, tem história, e exige um mínimo de atenção. É um retorno ao básico, só que com consciência. E talvez seja esse o maior luxo da vida adulta: redescobrir o que já era bom, antes de o marketing nos convencer do contrário.
Nomear é um ato de dominação. É o que afirma o professor e teórico cultural Edward Said em seu livro Orientalism. Um exemplo perfeito disso é um animal pitoresco — veja só, já caí na armadilha da linguagem enviesada — a galinha-d’Angola. Ela é, cientificamente, Numida meleagris, e não vive apenas em Angola. Mas, também, em países vizinhos da áfrica subsaariana, como congo e Moçambique.
Antes de ser chamada galinha-d’Angola — nome atribuído pelos colonizadores portugueses — ela provavelmente respondia (ou melhor, era chamada, já que não responde) por alguma designação ancestral em kimbundu. Mesmo hoje, em Angola, ela não é chamada por esse título nobiliárquico que os portugueses lhe atribuíram ao exportá-la. Ela é “galinha-do-mato” ou “capota”.
O nome “galinha-d’Angola” é uma espécie de etiqueta de alfândega cultural: um carimbo europeu colado em penas africanas. Assim como a Francesinha, esse sanduíche lusitano com atributos cardiológicos temerários, que em Paris nem existe. Por lá, come-se croque-monsieur, que provavelmente foi a inspiração para o tradicional prato de do Porto. Diga-se, o Porto cidade, não eu.
Só de ver, já dá extrassístole
O que é de fora parece mais interessante quando envernizado com um nome exótico. Mas, na terra natal, essas iguarias não precisam de passaporte nem sobrenome. E isso também se aplica à passagem do tempo. No final do século XVIII, o Old Fashioned não tinha esse nome. Era apenas um Whiskey Cocktail. Afinal, acabara de nascer — e seria um contrassenso chamá-lo de “à moda antiga”.
O nome Old Fashioned surgiu, na verdade, por oposição. Ao longo de seus mais de duzentos anos de existência, os bartenders começaram a criar variações do Whiskey Cocktail. Surgiram os chamados Improved Whiskey Cocktails, termo que já carrega em si uma falácia linguística: improved, em inglês, significa “melhorado”. Porque, sinceramente, vejo pouquíssimo espaço para melhora em um coquetel que sobreviveu bravamente por mais de dois séculos.
Os clientes que desejavam o coquetel original, sem firulas, passaram então a pedir um Old Fashioned. Os Improveds seguiam a mesma estrutura — whiskey, um agente de dulçor e bitters — mas com variações nos ingredientes. Assim nasceram coquetéis como o Fancy Free e, provavelmente, o próprio Manhattan, que depois virou praticamente uma classe à parte (mas isso é papo para outro dia).
Um Improved Whiskey Cocktail em específico, porém, ganhou o direito involuntário de ser chamado pelo nome próprio — com letra maiúscula. A receita leva bourbon ou rye whiskey, licor de maraschino, xarope de açúcar, absinto e Angostura bitters. A edição de 1887 do Bar-Tender’s Guide or How to Mix Drinks, de Jerry Thomas, traz a primeira menção escrita a ele — bem como às variações com gim (Improved Gin Cocktail) e conhaque (Improved Brandy Cocktail). Talvez fosse mais fácil apenas explicar a estrutura da mistura e dizer que, dali em diante, valia tudo.
All kinds of plain and fancy drinks
Independente de sua nomeação, melhorado ou não, o Improved Whiskey Cocktail é excelente. É também um maravilhoso ponto de partida para qualquer apaixonado por bebidas que esteja se sentindo criativo – algo bem comum, especialmente depois de poucas doses. Assim, querido leitor, teste a receita abaixo. Mas use-a sem moderação, e chame do que quiser — mas beba com reverência.
IMPROVED WHISKEY COCKTAIL
INGREDIENTES
60ml Rye Whiskey ou Bourbon
1 bailarina de Luxardo Maraschino
7,5ml xarope simples
1 dash de bsunto
1 dash de Angostura Aromatic Bitters
Parafernália para misturar
PREPARO
Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com gelo, e misture até ficar gelado
desça em um copo com gelão (ou gelinhos bons)
A guarnição clássica é uma casca de limão siciliano. Mas ouse como preferir. Se for comestível, coma seu garnish. Sempre.