Sobre a Transparência no mundo do Whisky
Estamos na era da transparência. Transparência essa, movida em grande parte pela desconfiança generalizada. Duvidamos da mídia, das grandes empresas. E das pequenas também. Desconfiamos das intenções das pessoas e do altruísmo. Duvidamos do troco do taxista, da conta do bar – que para mim é sempre surpreendente – e da nossa filha, quando ela diz que ainda não assistiu Patrulha Canina hoje. Tudo é matéria para escrutínio.
Mas apesar disso, é engraçado que aceitamos a pouca informação no mundo do whisky. Porque, se você pensar bem, sabemos muito pouco sobre aquilo que estamos bebendo. Na maioria das vezes aceitamos as meias-informações e nos damos por satisfeitos. Basta que o produto tenha um sabor agradável e seja consistente. E a maioria dos produtores não só está de acordo com isso, como comemora.
Sabemos, por exemplo, que a base do Chivas Regal 12 anos é Strathisla. E sabemos que o componente mais jovem lá dentro tem doze anos. Com o Johnnie Walker Blue Label, sabe-se apenas que a base é Royal Lochnagar. Mas não passa muito disso. Não sabemos ao certo quais são os outros maltes e whiskies de grão, tampouco sua idade.

A razão disso é uma norma da Scotch Whisky Association (SWA), que proíbe que um produtor comunique ao consumidor sobre os detalhes da idade dos componentes de um whisky, exceto pelo mais jovem. Assim, um blend com doze anos estampados no rótulo pode, na verdade, conter uma boa parcela de algo bem mais maturado. Mas isso não pode vir expresso em sua embalagem. O produtor também tem a faculdade de esconder a idade. Nesse caso, a única garantia que se tem é que o componente mais novo tem mais de três anos de barril – esta é a idade mínima para que possa ser engarrafado como whisky, de acordo com a própria SWA.
Acontece que há um claro movimento no mercado atual. Os consumidores querem saber mais. Eles querem transparência. Entender quais são os ingredientes em letras pequenas de certo refrigerante. Saber quanto de Tripolifosfato de Sódio e Polifosfato de Sódio tem naquele nugget, ainda que ele não saiba bem para que servem esses elementos. Ou quanto de carne bovina tem no hamburger cem por cento bovino daquela lanchonete famosa. Bem, você entendeu meu ponto.
A TRANSPARÊNCIA
Um dos maiores bastiões na guerra a favor da maior transparência no mundo do whisky é a Compass Box Whisky Co., e seu fundador, John Glaser. A empresa tinha como prática expor, de forma completa e clara, todos os componentes de seus blends. A informação era tão detalhada que seria possível – caso alguém tivesse acesso ilimitado a todos os barris do mundo – reproduzir com exatidão qualquer dos whiskies da empresa.
Era uma coisa linda. Para alguém como eu, saber que meu querido Compass Box Peat Monster continua exatamanete 20% de Ledaig e 40% de Laphroaig era motivo de regojizo toda vez que tomava um gole. Aliás, foi justamente por conta dessa transparência que tive a curiosidade de provar o Peat Monster pela primeira vez. Aquelas eram – e ainda são – duas de minhas destilarias favoritas.

Mas isso, certo dia, teve fim. De acordo com Glaser “Por quase quinze anos contamos às pessoas a idade exata de todos os componentes de nossos blends. Cem por cento, sendo totalmente transparentes. Sabíamos desde o começo que isso não era estritamente legal, mas sentíamos que a lei não servia para o propósito que tinha sido feita. Nós estavamos apenas esperando pelo dia que alguém fosse nos repreender em relação a isso. E esse dia finalmente chegou“. Glaser se referia ao puxão de orelha público que recebeu da SWA, ao divulgar a exata composição de seu This is Not a Luxury Whisky.
Por conta dessa represália, a Compass Box lançou uma campanha propondo mudanças na regulamentação, para obter maior transparência no mundo do whisky. Ela encorajava outros produtores a se juntar, e possuía um abaixo-assinado para consumidores. Em menos de um dia, três mil pessoas haviam assinado a petição, e marcas de renome se juntaram à ela. Uma delas foi a Bruichladdich, famosa destilaria de Islay, conhecida por suas posições progressistas.
SOBRE INTENÇÕES
Para falar a verdade, a campanha de Glaser é multifacetada. Ela pode parecer bem intencionada, e na verdade é. Mas é também autopromocional. A Compass Box Whisky Co. é uma empresa de nicho, com posicionamento iconoclasta, produzindo blended whiskies de altíssima qualidade para um público também nichado – pessoas que sabem e procuram produtos que fogem do mainstream, e que não se importam em pagar mais caro por qualidade. Seu volume de produção e posicionamento de mercado permitem que escolha ingredientes de – literalmente – dar água na boca. E seu público tem esclarecimento suficiente para saber o que querem beber.
Porém, para os grandes produtores, esta transparência é um problema. Muitos consumidores buscam apenas consistência. E para conseguir essa consistência, estes produtores mudam constantemente os ingredientes de seus blends, bem como sua proporção. Por conta disso, uma transparência total seria um absoluto inferno. Imagine justificar para milhares de consumidores por que há menos Talisker e mais Caol Ila naquele lote específico de Double Black, por exemplo.
De certa forma, é a mesma discussão que encontramos ao falar do corante caramelo, já visto por aqui. Muitas empresas – a Compass Box incluída – alardeiam não utilizar o componente em seus produtos. Outras destilarias, como Springbank e Bruichladdich, também. Essa atitude – ainda que pareça um passo de honestidade em direção ao consumidor – é também uma estratégia de marketing. Anunciar que nenhum corante é utilizado em sua produção cria um diferencial e aponta o produto para um público interessado nisso. Ou, de uma forma mais direta, cria um diferencial e destaca o produto para os entusiastas.

De volta à Compass Box. Com o avançar da campanha – e a resistência da SWA e de muitos produtores – a Compass Box então encontrou um meio-termo. A lei não determina total confidencialidade. Os produtores podem divulgar as receitas de seus whiskies na internet, por exemplo, para alguém que expressamente as procure. E foi justamente isso que ela fez. Ainda que não esteja expressa na garrafa, você pode solicitar à empresa, online, que lhe transmita as receitas. Isso, em tese, garante transparência apenas para quem busca transparência.
O PONTO DA SWA
Mas não há maniqueísmo no mundo real. A própria SWA também é bem intencionada. Sua regulamentação, na verdade, busca também proteger o consumidor, mas por outro ângulo. Dar liberdade para o produtor anunciar exatamente o que está em seu blend pode causar um movimento inverso. Imagine, que alguém pode produzir mil litros de um whisky dez anos, e pingar apenas algumas gotas de um single malt com mais de três decadas de idade. Anunciar que aquele seria um blend balzaquiano seria absolutamente injusto. E é justamente essa a proteção que a lei oferece. Balizando por baixo, evita-se que alguém superfature ou supervalorize seu produto. Algo que, discutivelmente, Compass Box e Bruichladdich fazem.
É claro que o inverso também pode acontecer. Imagine um whisky composto 99,4% de single malts com mais de vinte anos de idade, mas com apenas 0,6% de um componente com apenas três anos. Para seu produtor, há apenas duas opções. A primeira, esconder a idade e parecer ainda menos transparente. A outra, estampar orgulhosamente seus três anos no rótulo. A Compass Box Whisky Co. ironizou isso com seu Three Year Old Deluxe. Entenda a história aqui.
Assim, meus queridos leitores, ao invés de apoiarem seus copos na mesa e se prepararem para um combate virtual, sentem-se e reflitam. Mesmo um assunto de tamanha singeleza como quanta informação deve ser passada no rótulo de uma bebida é multifacetada. E como um prisma ou um brilhante, há beleza nisso. É isso que faz o whisky uma bebida tão diversificada, capaz de agradar a um público tão diverso quanto apaixonado. Não importa muito o que está no seu copo – um Springbank puro ou um Cutty Sark com gelo. Levantem-os e brindem à diversidade.




























