Morning Glory Fizz – Da Continuidade

Foto: Tales Hidequi

A última matéria de 2018. Em menos de dois dias, teremos mais trezentos e sessenta e cinco outros para fazer novamente tudo que fizemos de errado nos anteriores. Mas não sem antes aproveitar as últimas horas do ano de uma forma alegremente inconsequente, e desastrosamente otimista. Algo que certamente lhe trará lembranças no dia seguinte. Lembranças, essas, reavivadas pela boca seca, enxaqueca e fotofobia. Feliz veisalgia nova, meu caro leitor.

Assim, talvez a melhor forma de se iniciar um novo ano não seja com falsas promessas. Mas sim reparando a igualmente épica e desastrosa última noite do ano anterior. E é aqui que entra o Morning Glory Fizz. Um café da manhã em forma de coquetel, que leva whisky, absinto (ou pastis), suco de limão, água com gás e, claro, uma clara de ovo, para dar sustento.

Se sua consciência não lhe permite beber um coquetel de café da manhã, ainda que você deseje, deixe-me ajudá-lo a dissipar essa hipocrisia. Durante o século XIX, essa era uma prática muito comum. Os coquetéis traziam mais disposição e vigor aos jovens pela manhã. Muitos drinks que hoje conhecemos nasceram deste hábito, como o Between the Sheets, Pick me Up e o Red Snapper.

Há, inclusive, uma razão científica por trás disso tudo. Como já explicado por aqui, a ressaca pode ser causada por ingestão excessiva de metanol, que vira formaldeído e ácido fórmico dentro de nós. O metanol está presente, em pequena quantidade, em quase todas as bebidas alcoólicas, por ser um produto derivado da fermentação. A melhor forma de expulsar rapidamente o metanol do corpo é – juro que não estou brincando – bebendo mais álcool. Com moderação, claro. A moderação que você não teve na noite anterior.

Que sede que dá!

E foi justamente para isso que o Morning Glory Fizz nasceu. Um remédio para a ressaca. Ele teria sido criado em meados de 1880. Sua primeira aparição foi no livro How to Mix Drinks, de 1884 de um certo Winter. Pouco depois, apareceu em outra publicação, cujo autor é desconhecido, chamada Scientific Barkeeping – o que, suspeito, tenha a ver com o fato do drink ser usado como remédio. Posteriormente, também em obras de Harry Johnson, e, mais recentemente, Dale DeGroff.

Este Cão, porém, descobriu a existência do coquetel apenas há alguns meses – ah, esse incrível e infinito mundo da coquetelaria – e de uma forma gloriosa. Pelas mãos do bartender Spencer Amereno Jr., durante uma degustação de coquetéis com Chivas Regal, organizada pelo Difford’s Guide. Na oportunidade, provamos também o Cameron’s Kick, Trilby #1 e uma interessantíssima leitura do Rob Roy, além de duas expressões recém-lançadas da marca – O Chivas XV e o Ultis. Aquela foi uma noite que merecia um Morning Glory Fizz pela manhã.

Como é de se esperar de um coquetel centenário, há algumas variações da receita do Morning Glory Fizz. A receita abaixo, porém, é uma reprodução daquela divulgada no Difford’s Guide. Com apenas uma diferença na produção. O absinto, ou pastis. A original pede que se bata o absinto junto com os demais ingredientes na coqueteleira. Para o gosto deste Cão, porém, essa alternativa tornará o absinto – ou pastis – forte demais. Algo que também poderá não agradar a maioria dos leitores, com paladar moderno. Assim, a sugestão é que o absinto seja utilizado apenas para untar o copo, e o excesso, descartado – como se faria com um Cocktail a La Louisiane ou Sazerac.

Assim, meus caros, munam-se de uma caneta e abram suas ainda intocadas agendas para este glorioso ano vindouro. E tomem nota. Um coquetel que talvez não seja capaz de apagar todos os seus erros passados. Mas que, certamente, tornará o momento presente muito mais agradável. Uma forma incrível de se iniciar um novo ano. O Morning Glory Fizz.

MORNING GLORY FIZZ

INGREDIENTES

  • 2 doses (60ml) de scotch whisky (Spencer usou Chivas Extra. Use um whisky mais seco, ou vínico. Um whisky muito doce tornará o coquetel desequilibrado, e demandará reduzir o açúcar)
  • 3/4 dose (22,5ml) de suco de limão siciliano
  • 1/2 dose (15ml) de xarope de açúcar
  • 1/2 dose (15ml) de clara de ovo pasteurizada
  • Absinto ou Pastis para untar a taça
  • Água com gás
  • gelo
  • parafernália de sempre para bater
  • copo highball

PREPARO

  1. Adicione um pouco de absinto ou pastis em um copo highball, e vá aos poucos untando suas bordas. Descarte o excesso. Ou beba, afinal, você nem almoçou ainda e já está fazendo um coquetel, deixe de ser hipócrita.
  2. Adicione, em uma coqueteleira, o whisky, o suco de limão, o xarope de açúcar e a clara de ovo. Sem gelo, por enquanto. Bata vigorosamente. Isso é um dry shake e melhorará a textura de seu coquetel. Leia mais sobre isso aqui.
  3. Abra a coqueteleira, adicione gelo e bata novamente. Desça o conteúdo para o copo higball.
  4. Complete com água com gás ou club soda.
  5. Beba e contemple. Um ano que começa com um Morning Glory Fizz tem tudo para ser glorioso.

Se tiver dúvidas sobre o preparo ou preferir algo mais gráfico, confira clicando aqui o vídeo do Clube do Barman, onde Rafael Mariachi, mixologista da Pernod-Ricard, ensina a preparar o drink.

 

 

 

(um pouco mais que um) Drops – Tobermory 15

Uma vez me perguntaram como eu decido o próximo whisky que vou comprar. Fiz uma serena expressão de conteúdo, e respondi com propriedade. Disse que pesquisava extensamente sobre as últimas inovações no mundo do whisky, e procurava aquilo que me tirasse da zona de conforto e que aguçasse minha curiosidade. Porque, afinal, tinha um blog de whisky. E com ele, vinha a responsabilidade de desbravar este etílico mundo da água da vida.

Mas eu menti. Eu menti de uma forma descarada. Porque, pra falar a verdade, minha decisão sobre um whisky passa por dois fatores. O primeiro é eu gostar da destilaria. E o segundo é a garrafa ser bonita. Sério, vocês não tem ideia de quantas vezes relevei um líquido ordinário simplesmente por uma bela ampola.

Acontece, porém, que às vezes com estas regras, eu acerto maravilhosamente. É o caso do Tobermory 15 anos, por exemplo. Uma edição limitada da destilaria homônima, localizada na ilha de Mull, que produz duas linhas diferentes de whisky. A primeira, com o mesmo nome da destilaria, é composta de whiskies pouco turfados, com notas cítricas e de especiarias. A outra, Ledaig, é defumada, com sabor de iodo e fumaça.

A cidade de Tobermory e a destilaria, ao fundo (Fonte: Malt & Oak)

Antes de falar do whisky, neste caso, preciso dedicar um parágrafo ao visual da garrafa e sua embalagem. Feita de vidro assoprado, a garrafa é envolta em uma espécie de papel de presente com a ilustração da baía de Tobermory, feita pela artista escocesa Sonas Maclean. Tudo isso é apresentado em um belíssimo estojo de carvalho recortado, com uma janela no formato da ilha de Mull. Dentro, há também uma caderneta com as notas de prova do whisky e um cartão postal da destilaria. Uma das apresentações mais belas que este Cão já viu – e bem longe da opulência quase kitsh utilizada por algumas (vocês sabem quais!) grandes marcas.

Mas vamos ao líquido. Para seu 15 anos, a Tobermory utiliza um processo por eles batizado de “dual-location-maturation” ou “maturação em dupla localização”. O que é exatamente o que o nome diz. O whisky matura quase toda sua vida na parte continental da Escócia, em barricas de primeiro uso e refill de carvalho americano, utilizadas para maturar bourbon whisky. Ele é então transportado de volta para Mull, onde é transferido para barricas de carvalho europeu de primeiro uso, utilizadas pela Gonzalez-Byass para vinho jerez. É um processo de finalização bem semelhante àquele utilizado por diversas destilarias. Aqui, além do barril, o lugar muda também.

O Tobermory 15 anos é um whisky com oleosidade média, e claramente puxado para o vinho fortificado. Porém, ao contrário de muitos whiskies que passam pelo mesmo processo de maturação, o Tobermory 15 anos ainda conserva uma clara nota de caramelo e baunilha. A influência do jerez está lá para ser notada, mas não é forte o suficiente para esconder as características sensoriais das outras barricas usadas.

Infelizmente, o Tobermory 15 nunca chegou ao Brasil. E já acabou. Mas se encontrar uma garrafa perdida durante alguma expedição internacional, não deixe de experimentar. Não importa muito sua motivação para escolher whiskies. Se você está na vanguarda da ebriedade, ou se simplesmente se sente seduzido pela bela embalagem de um líquido que você já conhece e aprecia. Seja qual for ela, o Tobermory 15 anos será um acerto incrível.

TOBERMORY 15 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida (15 anos)

Destilaria: Tobermory

Região: Ilhas

ABV: 46,3%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, frutado. Um certo aroma de frutas cristalizadas. Panetone e mel.

Sabor: Início adocicado, com um pouco de baunilha e mel, que vai progressivamente se tornando mais licoroso e frutado. Final vínico.

Com água: A água aumenta a impressão adocicada.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Ballantine’s 12 anos – Prioridades

Se há um mês do ano que demonstra como nossas prioridades mudam ao longo da vida, este mês é dezembro. Porque quando eu era criança, eu adorava dezembro. Naquela época, tudo em dezembro terminava num presente, em sono ou em má digestão. E minhas maiores preocupações eram o que eu ia pedir de natal pros meus pais, que dia eu entraria em férias da escola e como é que eu conseguiria comer metade de tudo que estaria na mesa da ceia da minha vó, sem passar mal e sem as pessoas me recriminarem.

Hoje, porém, as coisas mudaram um pouco. Os presentes não são mais tão frequentes, ainda que eu continue comendo absurdamente e me arrependendo depois. Mas há algo que eu passei a receber com abundância em dezembro. Algo que eu nunca recebera, sequer uma vez quando eu era criança. E essa coisa não é whisky – mesmo que eu também não tenha ganhado nenhuma bebida alcoólica na aurora de minha vida, o que é um ponto positivo bem grande para a vida adulta.

São os boletos. Em dezembro, na vida adulta, tudo termina em boleto. Esse ano cheguei até o absurdo de receber o boleto de um clube de assinaturas de cerveja que participo, junto com uma cartinha. Olha só, chegou seu presente de natal, obrigado por estar mais um ano com a gente. Ri, mas ri de desespero. Aí percebi que a cartinha não se referia ao boleto, mas me concedia uns dez por cento de desconto para comprar na loja online. Paguei o boleto da mensalidade e joguei fora a cartinha, porque sabia onde isso terminaria.

Achei mais umas contas pra você pagar aqui…

E tem o blog. No começo do mês, imaginava que poderia comprar algum whisky bem sofisticado para a última prova do ano. Um Johnnie Walker Swing ou um Chivas 25, para me fazer companhia neste calor incivilizado. Mas à medida que chegava na segunda quinzena, percebi que teria que rever minhas prioridades. Minha meta seria encontrar algo com bom custo-benefício, mas que não teria ainda abordado nessas páginas caninas. Felizmente, a solução veio por correio. E não era boleto, mas um Ballantine’s 12 anos – presente de alguns amigos que se compadeceram com minha situação.

O Ballantine’s 12 anos é a segunda expressão do portfólio permanente da Ballantine’s. Além dele, a marca posui o Finest – seu rótulo de entrada, sem idade declarada – e os Ballantine’s 17, 21 e 30 anos. A diferença sensorial entre eles é bem acentuada, ainda que o tema seja sempre o mesmo. A linha Ballantine’s é bem adocicada e frutada. As expressões mais maturadas são mais amadeiradas, e o 17 anos possui um discreto aroma turfado.

A família Ballantine’s (fonte: Glengarry wines)

Aliás, há um claro ganho de complexidade no Ballantine’s 12 anos, se comparado ao Ballantine’s Finest. Ele é mais bem acabado e equilibrado. E na singela opinião deste canídeo, seu custo-benefício é melhor também – ainda que custe mais caro que a versão de entrada. Aliás, este e seu maior trunfo e talvez também seu problema. Em sua faixa de preço, o Ballantine’s 12 anos entrega até mais do que se espera. Porém, por conta de seu irmão mais jovem,  ele não recebe a atenção que merece.

Assim como na versão de entrada, o coração do Ballantine’s 12 é composto por três maltes. Miltonduff, Glentauchers e Glenburgie – essa última, seu lar espiritual. Aliás, se você for um whisky geek com orçamento mais permissivo, saiba que recentemente, a Pernod-Ricard lançou uma linha de single malts, também denominada Ballantine’s, contendo estes whiskies. A ideia da marca é ressaltar e levar os componentes mais proeminantes de seu blend ao conhecimento do público.

Ainda que seja uma marca um pouco negligenciada no Brasil, a Ballantine’s está entre as três maiores em vendas no mundo – as outras são Johnnie Walker e Grant’s. De acordo com a The Spirits Business, a Ballantine’s vendeu mais de sessenta e três milhões de litros de whisky em 2018, considerando todas as expressões de seu portfólio – sendo o maior volume, Ballantine’s Finest  e 12 anos. Mais do que a Chivas Regal, que vendeu aproximadamente trinta e sete milhões. Este é um dado curioso, já que as duas marcas pertencem à gigante Pernod Ricard, e demonstra a força da Ballantine’s.

Assim, se você procura um blended scotch whisky acessível e excelente para sua faixa de preço, talvez o Ballantine’s 12 anos seja sua escolha. É um whisky que servirá tanto como base para seus coquetéis como para ser consumido puro ou com gelo. Enfim, uma bebida versátil, quase criminalmente negligenciada, e que será um excelente companheiro para a segunda atividade mais frequente de dezembro – beber. Porque a primeira, claro, é pagar os boletos.

BALLANTINE’S 12 ANOS (Edição Especial True Music Series)

Tipo: Blended Whisky com idade declarada (12 anos)

Marca: Ballantine’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: futado, nozes, mel.

Sabor: compota de frutas, nozes. Um certo adocicado que lembra xarope de bordo.

 Preço: em torno de R$ 110,00 (cento e dez reais)

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Jack Daniel’s Tennessee Rye – Drops

Poucas marcas de whiskey possuem tantos apaixonados como a Jack Daniel’s. A Jack Daniel’s é praticamente a Harley-Davidson etílica. Ou a Johnnie Walker dos Estados Unidos. Ele  está para o whiskey assim como o Bacon está para os alimentos ricos em colesterol. Ele é, bem, você entendeu o conceito.

Assim, quando uma nova expressão da marca é lançada, é natural que haja uma certa comoção no meio dos entusiastas por whiskey. Principalmente se este lançamento contar com uma receita de mosto diferente daquela tradicionalmente usada. E é justamente isso que acontece com o Jack Daniel’s Tennessee Rye.

O Jack Daniel’s Tennessee Rye é o primeiro lançamento da Jack Daniel’s com uma mashbill – a composição do mosto – diferente desde a época da Lei Seca Norte-americana, que aconteceu de 1920 a 1933. São mais de oitenta anos utilizando uma única receita, e com um sucesso literalmente entorpecedor.

Caso você não saiba, a receita do mosto (mashbill) de um whiskey americano é uma de suas características de produção mais importantes. É ela que ditará boa parte do sabor da bebida e determinará qual sua classificação. Um whiskey com maior quantidade de milho, por exemplo, será mais adocicado – como é o caso dos Jack Daniel’s tradicionais. Enquanto um que tenha mais centeio, terá um amargor e apimentado mais acentuado.

O Jack Daniel’s Tennessee Rye possui uma mashbill de 70% centeio, 18% milho, e 12% cevada maltada. É quase o inverso da receita do onipresente Jack Daniels Old No. 7 ou seu irmão o Gentleman Jack, que leva mais de 80% de milho, 8% de centeio e 12% de cevada maltada. Isso traz ao Tennessee Rye um sabor de especiarias, cravo e canela, além de uma sensação seca, bastante incomum para os Jack Daniel’s.

O Jack Daniel’s Tennessee Rye, assim como os demais Jack Daniel’s, sofre um processo chamado de Lincoln County Process. É isso que que diferencia bourbons de Tennessee Whiskeys – além, claro, do fato dos Tennessee whiskeys serem produzidos no Tennessee. Por este processo, o destilado passa por um filtro de carvão de bordo antes de ir para as barricas. Também conhecido como charcoal mellowing, o processo é subtrativo. O filtro retém partículas maiores, e deixa o whiskey mais leve e menos oleoso.

Charcoal mellowing

A maturação do Jack Daniel’s Tennessee Rye ocorre em barricas virgens de carvalho americano – assim como das demais expressões da Jack Daniel’s. O tempo não é divulgado pela destilaria.

Infelizmente, o Tennessee Rye não está disponível no Brasil. Porém, você pode facilmente encontrá-lo em mercados internacionais, como o dos Estados Unidos. Assim, se tiver oportunidade – mesmo que ela não seja lá muito fácil – experimente o Jack Daniel’s Tennessee Rye. Talvez seja ele o responsável por transformá-lo em mais um legionário do velho Jack.

JACK DANIEL’S TENNESSEE RYE

Tipo: Rye Whiskey

Marca: Jack Daniel’s

Região: N/A

ABV: 45,0%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, pimenta, baunilha.

Sabor: seco, com especiarias, menta, cravo e pimenta do reino. Um certo adocicado de açúcar mascavo. O final é mais adocicado e relativamente curto.

 

Paris-Manhattan – Desconexão

Todos nós temos problemas. E falar sobre eles quase sempre traz alívio. A maioria de nós escolhe o companheiro, um amigo próximo ou um parente. Estes são nossos confidentes. Na literatura também. E lá, o papel do confidente é duplo. Além de muitas vezes auxiliar o herói, o confidente é uma forma de revelar os pensamentos e aflições do protagonista, sem criar artificialidade.

Existem infinitos exemplos, da mais clássica à mais prosaica literatura. Horácio é o confidente de Hamlet, na conhecida obra de Shakespeare. Razumikhin é o de  Raskolnikov, em Crime e Castigo. Dumbledore é mentor e confidente de Harry Potter, assim como Galdalf para Frodo. E não, o mestre dos magos não é confidente de ninguém, porque ele é o Vingador e uma muleta de roteiro bem safada.

Até objetos inanimados podem ser confidentes. E não estou falando do pessoal que fica contando segredos no Faceboook pra polemizar. Me refiro ao Wilson, do Náufrago, por exemplo. Ou a Alice. Não a do país das maravilhas. Mas a protagonista de uma comédia romântica chamada Paris-Manhattan. No filme ela tem uma estranha obsessão por Woody Allen, e conta seus segredos para um poster do diretor em seu quarto.

Aliás, o filme é uma homenagem ao diretor, e conta até mesmo com sua participação, em um momento especial. Porém, ao contrário (da maioria) das películas de Woody Allen, Paris-Manhattan fica entre o medíocre e o engraçadinho. Então, bem, ele é uma não-homenagem.

Minha cara depois de ver o filme.

Aliás, talvez você tenha notado que o título deste post é justamente o nome do filme. Mas – ainda bem – ele não é um tributo à película. E é bem melhor que ela., ainda que isso diga mais sobre o filme do que sobre o tema. Então, bem, peço desculpas por ter lido estes quatro parágrafos de introdução, porque não há qualquer relação entre o filme e o tema aqui abordado, exceto pela coincidência de nomes.

É que Paris-Manhattan é também o nome de um coquetel, uma variação do clássico drink de rye whiskey e vermute, e que leva licor da flor de sabugueiro – ou elderflower – em sua receita. Assim como seu predecessor, o Paris-Manhattan é um coquetel pungente. Porém, neste caso, há um encantador aroma floral e levemente azedo, proveniente do licor.

A origem desta variação é incerta. Porém, a maioria das fontes aponta para Simon Difford, fundador do Difford’s Guide, que criou o coquetel em 2006. A receita lá divulgada pede por 1 dose de licor de elderflower – St. Germain – e 2 doses de (nominalmente) Woodford Reserve Bourbon.

Este Cão, pela primeira vez, terá a petulância de alterar a receita original por conta própria. Não para aprimorá-la, mas para adaptá-la a seu gosto pessoal. A alteração – a redução do elderflower e troca do whiskey de base – tornará o coquetel mais seco e menos cítrico, mas ainda bastante floral. Se não concordar, vá com a receita original.

E se gostar, pode me contar. Ninguém é melhor confidente do que um Cão.

PARIS MANHATTAN

INGREDIENTES

  • 3/4 dose de licor de elderflower (St. Germain)
  • 2 doses de bourbon (Bulleit Bourbon)
  • 1/4 dose de vermute seco (este Cão utilizou o Martini Riserva Speciale Ambrato)
  • 2 dashes de Angostura Bitters
  • Parafernália de sempre para mexer.
  • taça coupé

PREPARO

  1. Unte a taça coupé com o absinto. Descarte o restante (eu sei que você vai descartar na sua boca, tudo bem.).
  2. Adicione, em um mixing glass, bastante gelo e todos os ingredientes líquidos. Mexa por aproximadamente cinco segundos.
  3. Com o auxílio de um strainer, coe a mistura e desça em uma taça coupé

 

White Walker by Johnnie Walker – Whisky Geeking

Sempre fui um pouco nerd. Um pouco não. Acho que bastante. Durante a adolescência, jogava Dungeons & Dragons – e, como vocês sabem, quem joga Dungeons & Dragons não faz muita coisa além de jogar Dungeons & Dragons. Era apaixonado por Senhor dos Anéis e achava um absurdo terem aumentado a participação da Arwen no filme. E também gostava de Lovecraft, a ponto de ter um Ctulhuizinho de miniatura.

Mas preciso confessar um negócio. Nunca assisti Game of Thrones. É, eu sei, a série é incrível e está cheia de criaturas assustadoras, como dragões, monstros de gelo e pré adolescentes chatos. Gente bebendo o tempo todo e gente que ainda não sabe nada. E quando você menos espera, eles vão lá e matam todo mundo que tem algum relacionamento com o Sean Bean, inclusive o Sean Bean. Mas vamos parar com isso antes que eu dê algum spoiler.

Não é desinteresse. É uma certa inércia. E um costume meio esquisito da minha parte. Prefiro ver séries que já acabaram. Quando a última temporada de Breaking Bad foi anunciada, por exemplo, corri como um louco para ver todas as anteriores. Aliás, talvez, agora, comece minha maratona de Game of Thrones.

Mesmo porque tenho um motivo para isso. Um motivo que vêm do mundo do whisky. O White Walker by Johnnie Walker, que acaba de chegar ao Brasil. É uma edição limitada especial que foi lançada em homenagem à ultima temporada da série. O que é bem óbvio, já que a garrafa beiraria o indesculpavelmente brega, se não tivesse um bom pretexto.

De acordo com a marca, o White Walker by Johnnie Walker foi criado especialmente para ser bebido bem gelado. Segundo eles, à medida que a temperatura vai se elevando, o whisky ganha complexidade. Suas notas seriam de frutas vermelhas e frescas, bem como açúcar caramelizado e baunilha. A garrafa, inclusive, utiliza tinta termocrômica, e revela uma imagem especial se submetida a temperaturas baixas – até aqui, sem spoilers.

Os maltes base do White Walker by Johnnie Walker são Clynelish e Cardhu. Mas há, claro, outros whiskies, inclusive o de grão. De acordo com George Harper, o blender por trás da criação, “O ponto de partida para a criação deste blend foi o Norte Congelado. Os uísques da Clynelish suportaram longos invernos escoceses, não muito diferentes dos longos períodos enfrentados pela Patrulha da Noite – então foi o lugar perfeito para começar ao elaborar este uísque exclusivo”.

Há outra curiosidade para os apaixonados pela série. De acordo com Nicola Pietroluongo, embaixador Diageo Reserve no Brasil, a graduação alcoólica do whisky é um easter egg etílico. 41,7%. O número 1 representa o trono de ferro, único, que é disputado pelas sete casas – o 0,7% adicional.

Mas o White Walker by Johnnie Walker não é o único whisky ligado a Game of Thrones. Ele faz parte de um conjunto de lançamentos da Diageo que possuem alguma relação com a série. Há também uma coleção de single malts, que homenageiam as casas de Game of Thrones. Como, por exemplo, um Lagavulin com o brasão dos Lannister, e um Clynelish da House Tyrell.

A coleção

Ao contrário do que acontece com séries televisivas, logo que o White Walker by Johnnie Walker chegou às lojas, tratei de comprar uma garrafa. Fiquei um pouco desconcertado ao fazer a prova do whisky gelado – o que atrapalha bem na análise sensorial, já que a temperatura baixa torna as papilas gustativas menos sensíveis. Mas imaginei que, bem, se ele foi desenhado para essa experiência, nada mais justo do que seguir a recomendação do produtor. Depois, o provei também em temperatura ambiente. E aí está a surpresa.

Em temperatura ambiente, o White Walker by Johnnie Walker é um whisky simples e acessível. Ele é predominantemente frutado, e quase não há a fumaça característica da maioria dos blends da casa Walker. Ele lembra um Gold Label Reserve – mas, como é de se esperar, é um pouco menos complexo e com álcool um pouco mais aparente. Honesto. Mas é gelado que o White Walker by Johnnie Walker mostra suas credenciais. Ele ganha corpo, a agressividade do álcool desaparece e o dulçor se equilibra.

É contra-intuitivo, mas faz sentido. E também é friamente (viu o que eu fiz aqui?) proposital. A temperatura atenua sim nossa percepção de sabores. Mas ela também altera como sentimos o amargo e o adocicado. Quando bebemos algo gelado, o  sabor amargo se acentua, e o doce fica mais discreto. E é justamente o que acontece com o White Walker by Johnnie Walker. Um dulçor que pode parecer exagerado à temperatura normal, fica elegantemente equilibrado quando gelado.

Mas vamos parar com o whisky-geeking, porque nada disso realmente importa.  O sabor é quase conjuntural. Poucas coisas são tão irresistíveis quanto um whisky baseado em uma das séries televisivas mais famosas de todos os tempos. Ainda mais um com uma garrafa que muda de cor, quando gelada. Assim, meus caros leitores, não deixem de experimentar o White Walker by Johnnie Walker. E, se me permitem o conselho, façam isso logo. Nem que seja para dar spoilers para seus conhecidos.

WHITE WALKER BY JOHNNIE WALKER

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 41,7%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com açúcar refinado. A temperatura ambiente, o álcool fica relativamente evidente.

Sabor: Frutas vermelhas, baunilha, balinha de caramelo. Corpo leve. Final adocicado, com baunilha e um pouco alcoólico.

Disponibilidade: disponível no Brasil – R$ 110,00, em média.

Drops – Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish (Pinot Noir)

A prática leva à perfeição. Na verdade, nem sempre. Mas, talvez, na indústria do whiskey, isso seja verdade.  Ancorada em métodos tradicionais de produção, leveduras cuidadosamente armazenadas e cultivadas e barricas virgens de carvalho americano, o bourbon whiskey possui um sabor característico, quase temático. Caramelo, baunilha, mel. Um tema que, sinceramente, não precisa de nada a mais para ser um sucesso.

Mas isso não significa que, de vez em quando, alguma inovação ou atipicidade surja. É o caso, por exemplo do Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish, ou – pelo seu nome completo – Woodford Reserve Master’s Collection Sonoma Cutrer Finish Pinot Noir. Como a pomposa e extensa denominação sugere, um bourbon whiskey finalizado em barricas de vinho tinto da uva Pinot Noir.

O website oficial da Woodford Reseve já diz quase tudo que precisamos saber sobre essa maravilha. Transcrevo. “A cada ano, o master distiller da Brown-Forman, Chris Morris, lança uma edição especial da Woodford Reserve chamada Master’s Collection. Para cada lançamento, Morris muda algum aspecto do processo produtivo do whiskey (p.e. tipo de barril, finalização, grão, processo de fermentação, local de maturação e estilo). E em novembro veremos o nono lançamento da Master’s Collection

Para o lançamento de 2014, Woodford Reserve totalmente maturado e sem diluição (cask strength) foi transferido para barricas de carvalho francês que antes contiveram vinho tinto Pinot Noir da Sonoma-Cutrer (detida pela Brown Forman), onde ele passou outros dez meses. As barricas de vinho viram três vintages (safras do vinho) antes de serem preenchidas com bourbon. Uma vez que o processo de finalização foi completado, o produto final foi engarrafado a 90 proof (o mesmo que Woodford Reserve). Um total de 36.334 garrafas foram produzidas para este lançamento.”

O vinho

Ainda que haja outros bourbons finalizados em barricas de vinho – caso do Angel’s Envy, por exemplo – este é um diferencial bastante interessante do Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish. Porém, não é o único. A destilaria em si possui algumas características bastante atípicas. Como já foi mencionado por aqui, seu processo produtivo é bem incomum. A começar pela fermentação, que ocorre em pequenos washbacks de cipreste, e leva em torno de seis dias (dois dias a mais do que a maioria das destilarias). A graduação do mosto fermentado também é bem alta: 11%.

A composição do mosto do Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish é idêntica àquela do Woodford Reserve tradicional: 72% de milho, 18% de centeio e 10% de cevada maltada. Essa composição, aliada à tripla destilação que acontece em alambiques de cobre na Woodford Reserve e a finalização nas barricas de vinho, trazem ao Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish um sabor de mel, caramelo e açucar mascavo, entremeado por um delicioso frutado cítrico. O vinho pode ser claramente notado e é quase proeminente na finalização.

Aliás, falando em destilação, aqui está um diferencial importante da linha Master’s Collection da Woodford Reserve. Os Woodford tradicionais – Distiller’s Select – são uma combinação de destilado produzido nos alambiques (triplamente destilado) e destilado produzido em destiladores contínuos, de coluna, na planta da Brown-Forman, localizada em Louisville, Kentucky. Os Master’s Collection, no entanto – e em sua maioria – utilizam apenas a porção do destilado produzido em alambiques.

Se você é fã de bourbons, mas procura um whiskey um pouco diferente, mas sem fugir muito deste delicioso tema, o Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish Pinot Noir é uma ótima escolha. Porque claro, a prática realmente leva à perfeição. Mas às vezes, para chegar lá, é preciso antes inovar.

WOODFORD RESERVE SONOMA CUTRER FINISH PINOT NOIR (MASTER’S COLLECTION)

Tipo: Bourbon

Marca: Woodford Reserve

Região: N/A

ABV: 45,2%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo. Açúcar mascavo, frutas vermelhas.

Sabor: Açúcar mascavo, com frutas vermelhas – amoras, framboesa. Final longo, adocicado e progressivamente mais frutado.

Disponibilidade: lojas internacionais

Presentes para quem ama whisky – Ed. 2018

Natal é sempre um problema. Correria para encontrar as pessoas, comprar presentes. Pensar em todo mundo, sem esquecer ninguém. Pensar no que cada uma dessas pessoas gostaria de ganhar. O que elas precisam, ou o que não precisam e querem, mas não tem coragem de comprar.

Alguns são bem fáceis. A Cãzinha, por exemplo. A Cãzinha adora uma certa série de filmes de ficção científica. Então, qualquer coisa daquela franquia funciona. Já a Cã é mais complicada, porque eu nunca sei o que ela quer, e quando ela me dá uma dica, eu não percebo.

Por conta da minha parca capacidade de captar sinais  – e de forma a evitar surpresas menos agradáveis – decidi utilizar a mesma técnica do ano passado. Perguntei a ela o que ela queria ganhar. Só que dessa vez ela disse que não sabia, e replicou. E qual whisky você quer ganhar?

Qual whisky. Não qual presente. Senti que estávamos progredindo. Depois de mais de dez anos, somando o matrimônio ao namoro, ela finalmente havia compreendido duas coisas. Que sou um ser totalmente desprovido de inteligência emocional. E que eu sempre quero receber mesmo um whisky.

Sorri, mas me senti acuado. Não sabia qual whisky queria. E outra, esse ano, nem sabia se queria mesmo um whisky, ou algum presente relacionado. Mas se quisesse algo que não fosse a bebida, talvez indicasse um retrocesso. Então pedi um Laphroaig 10 anos.

Mas aí pensei que muita gente poderia ter esse mesmo problema da Cã. E, por conta disso, resolvi elaborar uma lista de presentes que agradarão a maioria dos monomaníacos por whisky como eu. Com a vantagem de que, por conta dela, o presenteador nem precisará perguntar ao presenteado antes. Vamos a eles.

Tuaq Ice

Para os apaixonados por coquetelaria, ou que preferem beber whisky gelado, a qualidade do gelo é – ou deveria ser – muito importante. Quanto mais cristalino (ou seja, quanto menos ar houver em seu interior), mais vagarosamente e uniformemente ele se diluirá.

A proposta do Tuaq é justamente a de produzir, em casa, o gelo mais cristalino possível. Ele é uma prensa capaz de moldar gelos de diferentes formatos, como diamante e caveira. Além, claro, do tradicional gelo esférico.Mas a parte mais legal é que graças a uma forma de gelo patenteada por eles e batizada de Anuaq, o gelo moldado pelo Tuaq é absolutamente cristalino.

Se você ficou interessado, o Tuaq pode ser adquirido clicando aqui. E graças a uma parceria entre a Tuaq e este infame blog canino, você, querido leitor, tem 10% de desconto. Basta inserir o código CAOENGARRAFADO no campo ao finalizar a compra.

Dadiva EAP Bluberry Bourbon Barrel Aged

Se seu apaixonado por whiskies também admira uma bela cerveja, talvez a Dadiva EAP Bluberry Bourbon Barrel Aged seja o presente perfeito. É uma garrafa de 750ml de uma imperial porter, com 10,3% de graduação alcoólica. Sua receita leva nibs de cacau, aveia e Blueberry. Os aromas e sabores apresentam notas de frutas escuras, chocolate, café leve adocicado.

A Dadiva EAP Bluberry Bourbon Barrel Aged descansou por 8 (oito) meses em barricas de bourbon whiskey, antes de ser engarrafada. Isto lhe trouxe também notas de baunilha, caramelo e coco. Para comprar, visite o Empório Alto dos Pinheiros, ou (cidade de São Paulo) clique aqui

Glencairn Glass do Cão Engarrafado (com tampa)

O Glencairn Glass permite apreciar todos os sabores e aromas do whisky. Ele não ressalta qualquer característica específica, mas potencializa o conjunto de elementos que formam a bebida. Eles são excelentes para qualquer single malt, blended whisky, irish whisky ou mesmo bourbon. Suas bordas estreitas concentram os aromas, e permitem perceber todas as nuances do whisky. E a pequena tampa – além de dar um toque sofisticado – funciona para preservar por mais tempo as características sensoriais das doses nele colocadas.

Hoje, o Glencairn Glass pode ser encontrado em praticamente todas as destilarias da Escócia, Irlanda e Gales, além de boa parte dos Estados Unidos. E na sua casa. É que o Cão Engarrafado, em parceria com a Single Malt Brasil, trouxe uma edição limitada deste belíssimo vasilhame, gravado com a – um tanto singela – logomarca do Cão Engarrafado, e com a tampinha especial. Para comprar, clique aqui.

Backer Três Lobos Single Malt

Se você acha que whisky nacional é ruim, melhor reconsiderar seus conceitos. Porque a cervejaria Backer, de Minas Gerais, lançou em 2018 seu  Backer Três Lobos Single Malt – também conhecido como Experience. É um whisky produzido à moda dos single malts escoceses, em alambiques de cobre especialmente encomendados pela cervejaria para o whisky.

A maturação do whisky acontece em barricas de carvalho americano que antes contiveram o whiskey JIm Beam. O Três Lobos Single Malt remonta um jovem single malt de speyside ou highlands. O aroma é frutado e adocicado, com baunilha. O sabor remete a compota de frutas, com caramelo, canela e um final de especiarias e cereais.

Para comprar pelo site oficial da Backer clique aqui. Se preferir, ele também está à venda na loja física do Empório Alto dos Pinheiros, em São Paulo.

Gim Botanist – Bruichladdich

A Bruichladdich, localizada em Islay, é uma das destilarias mais inventivas de toda Escócia. Isso fica claro ao observarmos seu enorme portfólio, que conta com três linhas de whisky. Uma é razoavelmente defumada (Port Charlotte), outra, sem nenhuma defumação (Bruichladdich) e uma terceira absurdamente defumada (Octomore). E além delas, a Bruichladdich também produz um gim. O Botanist.

A destilação do Botanist acontece em um incomum alambique – que fora recuperado da destilaria Inverleven – e conhecido como Lomond, e carinhosamente apelidado pelos funcionários da destilaria de “Ugly Bett” (Bete, a Feia). O Botanist leva 31 botânicos diferentes, sendo 22 deles nativos da ilha de Islay. É um gim cítrico e floral, com sabor acentuado e perfeito para gim tônicas e Dry Martinis. Para comprar, clique aqui.

 

Ballantine’s Finest – Procrastinação

Se você é um novo leitor do Cão Engarrafado, ou chegou aqui pela primeira vez por meio de alguma ferramenta de busca, talvez não saiba. Então, vou contar novamente. Sou advogado. Trabalhei por uma boa década no mundo corporativo. Minha especialidade era mercado de capitais. Uma área que proporciona oportunidades incríveis para seus profissionais. Como, por exemplo, assistir o  crepúsculo e aurora pela janela de sua sala, enquanto revê duzentas páginas de um prospecto de uma emissão primária de ações de alguma companhia de maçãs.

Quase tudo em mercado de capitais demorava bastante, mas deveria ser feito muito rapidamente. O que levava a intermináveis jornadas de trabalho, noites em claro e todo tipo de delivery. Mas duas das atividades mais infernais e intermináveis eram conhecidas como Back-up e Circle-up. Para evitar que você, querido leitor, morra de tédio, explicarei apenas brevemente. Back-up e Circle-up eram normalmente realizados simultaneamente, por um único advogado, e consistiam em circular, manualmente, todas as informações que deveriam mais tarde ser confirmadas, e numerá-las. De um a mil novecentos e alguma coisa, num documento de quase trezentas páginas. Duas vezes, uma pra cada.

Quando abandonei o mercado de capitais, voltei a contemplar o prazer de uma noite de sono. Mas não sem danos colaterais. No começo, sonhava com um prospecto infinito de folhas tremulando ao vento, e na tinta de minha débil caneta que se esvaía no ar, tão logo concluía a numeração de certa página. Uma risada macabra vindo da pilha de copinhos descartáveis de café completava a angustiante atmosfera de minha ficção noturna.

Expectativa e…

Por conta da natureza e do volume de trabalho, e de minha – assumo – imaturidade profissional, havia apenas uma atividade que me consumia mais tempo do que o back-up e circle-up. A procrastinação. Tudo era motivo. Um e-mail promocional de alguma loja de bebidas, um clipe de musica no youtube ou até mesmo alguma frivolidade nas redes sociais. Aquilo era uma auto-sabotagem, mas, ao mesmo tempo, uma válvula de escape. Tudo que eu não queria fazer, fazia nos intervalos entre procrastinações.

Lembrei dessa minha característica ao resolver que faria a prova de um whisky bastante pedido pelos leitores do Cão Engarrafado. O Ballantine’s Finest. Assumo que levei bons dias para escrevê-la, e entremeei  o tempo dedicado a ela de todo tipo de atividade inútil, dezenas de cafés e centenas de visitas à geladeira. Durante esse tempo, pensava o que poderia escrever sobre ele, porque, para falar a verdade, aquele era como muitos whiskies para mim. Agradável, simples, equilibrado e bem pouco interessante. Talvez por isso tenha produzido cinco parágrafos de introdução.

Pois bem, sem mais procrastinações. O Ballantine’s Finest é o blended scotch whisky de entrada da marca, que atualmente pertence à Pernod Ricard. No Brasil, além dele, há mais quatro expressões, todas com idade declarada: 12, 17, 21 e 30 anos. E ainda que a composição – e obviamente o envelhecimento – de cada rótulo seja diferente, todos giram em torno de um mesmo tema. Um certo adocicado, bastante suave, com mel e caramelo. Mas há diferenças. A expressão de dezessete anos é mais enfumaçada, enquanto o de três décadas, mais profunda e amarga.

Os single malts que compõe o coração do Ballantine’s Finest são Miltonduff, Glentauchers e Glenburgie – essa última, seu lar espiritual. Recentemente, a Pernod-Ricard lançou uma linha de single malts, também denominada Ballantine’s, contendo estes whiskies. A ideia da marca é ressaltar e levar os componentes mais proeminantes de seu blend ao conhecimento do público. Algo semelhante àquilo que a Diageo fez com sua linha de Singletons.

Durante toda sua existência, a Ballantine’s teve apenas cinco diferentes master blenders, responsáveis por elaborar seus whiskies, bem como zelar por sua qualidade e consistência. O atual é Sandy Hyslop, um homem com mais de trinta anos de experiência no ramo. Boa parte do sucesso da Ballantine’s, especialmente em mercados emergenetes, é de Sandy. São dele criações como o Ballantine’s Brasil, Ballantine’s Hard Fired e o exclusivo Ballantine’s 40 anos.

…Realidade.

O Ballantine’s Finest é a expressão mais vendida da família Ballantines. Que, atualmente, é uma das marcas de blended scoth whisky mais vendidas no mundo. Seus maiores mercados estão na Ásia e América Latina, ainda que o whisky possua uma boa popularidade também na Europa.

Se você procura um blended whisky despretensioso, agradável, versátil e com preço de combate, o Ballantine’s Finest talvez seja sua escolha natural.  É um whisky versátil, relativamente barato, pouco agressivo e adocicado. Comparado a outras expressões em sua faixa de preço, ele entrega até mais do que promete. Além disso, funciona bem em coquetéis simples, e é bastante agradável com gelo. É praticamente perfeito em todas as situações em que se é socialmente aceitável beber.

E antes que você me pergunte, não, procrastinar enquanto trabalha não é uma delas.

BALLANTINE’S FINEST

Tipo: Blended Whisky sem idade declarada (NAS)

Marca: Ballantine’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, mel, caramelo.

Sabor: Adocicado no início e maltado. Cereais, mel, um pouco de baunilha. Final médio e doce.

 Preço: em torno de R$ 90,00 (noventa reais)

 

Josefel Zanatás – Cãoquetel

Foto: Elvis Fernandes

Hoje vou contar para vocês a história de um homem fictício singular. Um homem cético, desiludido e traumatizado. E também dono de um duvidoso gosto por vestuário e questionável higiene pessoal. Seu nome é Josefel Zanatás – uma alusão ao amargor do fel, combinada com o nome do tinhoso, escrito do avesso.

Josefel usa terno, capa e cartola. Possui unhas compridas e é obstinado a encontrar a mulher perfeita para gerar, em seu ventre, o mais primoroso filho. O que, pra falar a verdade, com o visual que Josefel possui, é uma tarefa fadada ao fracasso. Josefel não é um homem real. Mas é o nome real do pseudônimo – é, eu sei, é complicado assim mesmo – de José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão.

Marins nasceu em 1936, e criou Josefel em 1963, quando já era cineasta pprofissional. Segundo ele, a ideia de criar o coveiro mais famoso do cinema nacional partiu de um sonho esquisito que teve, e que envolvia sua morte. Quando acordou, ainda lembrava da fantasia, e a utilizou para o primeiro filme de Zé do Caixão. O famoso À Meia Noite Levarei sua Alma.  “Eu fui achando um nome: Josefel – ‘fel’ por ser amargo – e achei também o Zanatas legal, porque de trás para frente dava Satanás” – conta ele.

Positivo, ficou legal!

O amargo Zé do Caixão fez grande sucesso na década de setenta, e ganhou fãs não apenas no Brasil, como também no exterior. Um deles é o cineasta Darren Aronofsky. E apesar dos mais de quarenta anos de criação, o personagem não foi olvidado. Prova disso é a homenagem feita a ele por Marco de La Roche, bartender responsável pela nova carta de drinks do Bar Riviera, um dos mais antigos de São Paulo.

Aliás, a nova carta do Riviera tem como tema as décadas de vida do bar. Desde os anos 50, quando funcionava como casa de Chá, até nossa época atual, os drinks fazem referência a momentos históricos e personagens importantes da história do bar, de São Paulo e do Brasil. “Para celebrar os 70 anos do Riviera, o Marco criou uma carta que passa por todas as décadas, desde a existência do bar, com drinks que não só pelo sabor, contextualizam cada período não só do Riviera, mas dá história do Brasil.

Marco, orgulhoso da criação.

Josefel leva o bourbon whiskey Evan Williams, tequila El Jimador Prata, vermute Carpano Classico, Fernet, Cynar, Angostura e solução marinha. Algo que me chamou a atenção foi a divisão da base do drink entre tequila e bourbon. Conforme Marco “na construção primária do coquetel, não pensei em ingredientes, mas expectativa de sabor. E para esse coquetel, tinha expectativa amadeirada e defumada. E o amadeirado veio do bourbon, enquanto o defumado, da tequila, do agave

Na carta, pode-se ler um pequeno texto, que conta a inspiração para o coquetel. “Período mais amargo da história do Riviera, assim como a década: nebulosa e cheia de fel. Um dos seus clientes mais cults da época se chamava José Mojica Marins, o célebre diretor de “O Zé do Caixão”, que carregava na sua certidão de nascimento o nome de Josefel Zanatas, ou também, Joséfel Satanás. A receita leva gotas de solução marinha – ou as lágrimas dos que atravessaram os mares –, brinca com os demônios dentro de nós e só deve ser bebida por aqueles que estão preparados para terem sua alma levada à meia noite.

Assim, queridos e tenebrosos leitores, nesta data, coloquem suas cartolas sobre a mesa, aparem as unhas e preparem-se para um coquetel amargo como apenas a existência pode ser. Com vocês, o terrível – no bom sentido, claro – Josefel Zanatás.

JOSEFEL ZANATAS

INGREDIENTES

  • 25ml Evan Williams Bourbon
  • 25 ml tequila (Marco usou El Jimador Prata)
  • 25ml vermute tinto (Marco usou Carpano Classico)
  • 25ml Fernet
  • 25ml Cynar
  • 3 dashes de angostura
  • 3 gotas de solução marinha (15 ml de sal para 100 ml de água, ao produzir).
  • azeitona
  • Parafernália de sempre para mexer
  • taça coupé
  • gelo

PREPARO

  1. Em um mixing glass, adicione gelo e todos os ingredientes e mexa bem
  2. verta para uma taça coupé previamente gelada
  3. finalize com azeitona espetada no palito.