Havana Club Unión Cohiba Atmosphere – Crocs de Frango

Comfort food e comfort fashion. Um mundo em que a alta gastronomia e a moda são conjuntamente estraçalhadas, como um comedor voraz faria com pequenos pedaços de frango frito em um balde. Extravagância, colesterol, design e desgosto. Tudo junto, materializado, nos pés dos consumidores. Este foi o resultado de uma das colaborações mais inusitadas do mundo: KFC e Crocs. Sim, você leu certo. A marca de calçados conhecida por seus designs confortáveis e, digamos, peculiares, se uniu à gigante do fast food para criar uma coleção de tamanha ousadia que desafia a lógica e a sanidade. Isso em meados de 2020, quando o mudo já passava um dos maiores perrengues das últimas décadas. O resultado foram sandálias com estampas de frango frito, tamancos com aroma de batata frita e jibitz em forma de baldes de frango. Uma demonstração de que a mente criativa por trás dessa união profana não tinha limites. A combinação, entretanto, até faz sentido – apesar da tenebrosa execução. São marcas enraizadas no conforto. Afinal, comer frango frito de crocs só poderia ser mais confortável se feito nu. Além disso, a colaboração transpira liberdade individual. Essa é, aliás, a grande ideia de collabs entre marcas. Trazer valores […]

Left Hand Cocktail – Mashup

Perdoem-me pelo título impreciso. Mas o tema desta matéria não é coquetelaria. Mas Mashups. Se você nao conhece o jargão, mashup é um trabalho criativo – que pode ser uma música ou um filme – criado a partir da combinação de dois ou mais outras músicas ou filmes. O termo é também usado por webdevelopers para definir “uma aplicação que que usa conteúdo de mais de uma origem para criar um novo serviço disponibilizado em uma única interface gráfica“. Mas, para evitar sonolência, deixarei de discorrer sobre a derradeira definição. Mashups podem ser feitos, virtualmente, de qualquer material audiovisual. A única regra é que combinem, de alguma forma. E, mesmo assim, às vezes, nem precisam. A grande sacada é que, no começo, o mashup traz a impressão de ser algo já conhecido. Mas, aos poucos, ao revelar sua natureza híbrida, distorce essa impressão. Caso não tenha entendido ainda, veja a música abaixo – um mashup de Soundgarden com Green Day. Recomendo fortemente que ouçam à medida que avançam neste texto. De certa forma, mashups podem ser usados na culinária e na coquetelaria, também. Não quando alguém faz uma pizza de sushi, por exemplo. Ou um acarajéburguer, ainda que este último […]

Blue Label Elusive Umami – The Prestige

“Você está procurando o segredo. Mas você não vai encontrar porque, é claro, você não está realmente procurando. Você realmente não quer resolver isso” . Essas são as derradeiras linhas de “The Prestige” – e também, uma valiosa lição de marketing. Aliás, as duas coisas – marketing e mágica – tem muita coisa em comum. Mágicos utilizam diferentes técnicas para distrair sua platéia. Eles empregam prestidigitação, distração, ilusões ópticas e auditivas, adereços especialmente construídos, bem como técnicas psicológicas verbais e não verbais, como sugestão, hipnose e preparação. É uma dança elaborada entre o que é mostrado e o que é escondido, entre o que parece ser e o que realmente é. É parecido, de certa forma, com o marketing. Um bom storytelling pode nos induzir a sentir algo, ainda que aquilo não seja a realidade. De certa forma, é isso que ocorre com o Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami, blended whisky de luxo que acaba de desembarcar no Brasil por, aproximadamente, 2,5 mil reais. O Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami, é uma criação do chef Kobayashi, do restaurante Kei, de tripla estrela Michelin, em Paris, e da master blender Emma Walker. Que curiosamente não é da mesma família […]

The Macallan 25 – Bolo Real

Abro, com o cuidado de quem desarma uma bomba, a fatura de meu cartão de crédito. O fim do ano não ajudou. Faço uma apostinha mental: se for menor que certo valor, fico sem beber hoje. Confiro o número com perplexidade. Clonaram meu cartão – sussurro, severamente, para minha esposa. Não é isso não, é que eu passei o cabelo e a maquiagem da festa de fim de ano nele. Pisco de incredulidade. Mas a turma da maquiagem usou fulerenos endoédricos pra fazer o brilho e justificar esse preço? O que sucedeu foi uma discussão conjugal que culminou numa reflexão óbvia, mas necessária. Cada um tem uma percepção diferente de valor das coisas. Pra mim, é um absurdo pagar o equivalente às reservas de capital de Honduras em uma maquiagem. Mas beber este valor é justificável. E tem gente ainda mais louca. Teve um cara que pagou 7.500 (sete mil e quinhentas libras) por um pedaço de bolo de frutas do casamento da Kate com o Príncipe William. Isso foi em 2014, três anos depois do casamento. Aliás, bolos de frutas e whisky tem vários pontos de tangência. O perfil de sabor é um deles. Outra coisa, é que bolos […]

Como (não) beber whisky – Um post des-educativo

  Antes de tudo, preciso dizer que isto é um não post. Ou melhor, um post deseducativo. Se você veio até aqui a procura de informação, ou de como degustar seu whisky e parecer um especialista, recomendo fortemente que fuja o mais rápido possível. Ou então leia esta matéria aqui. Essa aí sim, é educativa. Comportada e informativa. Esta aqui não. Esta é aquele conselho pernicioso do seu amigo perverso. Passei as últimas semanas relendo um de meus livros preferidos. Cem Anos de Solidão, de Garcia Marquez. Resolvi reler porque queria realmente conhecer os personagens. Da primeira, apenas prestei atenção na história, mas não dei muita importância a quem era quem. Dessa segunda vez não. Dessa vez fiz anotações, montei a árvore genealógica da família e anotava, ao lado do nome, características físicas e de personalidade dos Buendía. Demorei exatos trinta e cinco dias para ler o livro. O mesmo que tinha me levado dez da primeira vez. E fiquei pensando. Eu tinha gostado mais da obra da primeira vez. Quando me ative somente à história. Me pegava torcendo por Macondo e por aquela família. Pensei que fosse por conta da ausência do elemento surpresa – da primeira vez, não […]

Fanciulli Cocktail – Da Ordem

As vezes, não basta talento. É preciso, também, um pouco de sorte. Este foi o caso de Francesco Fanciulli, líder da banda de fuzileiros navais does Estados Unidos, de 1892 até 1897. Inclusive, o breve período de liderança do compositor toscano já sugere que algo imprevisto se deu com sua carreira. Em seu caso “descumprimento de uma ordem oficial, uso de linguagem chula para com um oficial e conduta que prejudica a boa ordem e disciplina“. A verdade é que Fanciulli era um excelente compositor. Mas não tão bom quanto John Philip Souza, seu predecessor. Ainda que sob sua batuta – literalmente – a banda tivesse recebido reconhecimento no meio, inclusive, internacionalmente, quem brilhava ainda era Souza. Tanto é que, em Junho de 1897, Francesco recebeu a ordem de um superior de tocar “El Capitán”, composta por Souza. Fanciulli surtou, e foi colocado sob prisão domiciliar. Foi necessária a intervenção de Theodore Roosevelt – na época secretário da marinha dos Estados Unidos – para que o bom homem voltasse ao trabalho. Apesar disso, em 1897, recebeu a notícia que seu posto não seria renovado. Mas a história – especialmente a etílica – tem uma forma curiosa de corrigir injustiças. Porque, […]

Old Pulteney Huddart – Mitologia

“Não abre essa janela, você está de cabelo molhado, pode entrar um golpe de ar e você ficar resfriado” – todos já ouvimos essa frase de alguém. Provavelmente, no seio de infância, de algum adulto mal-informado. “Cuidado para não engolir o chiclete, porque ele vai ficar grudado pra sempre no seu estômago” é outra. Que é mentira também. O chiclete sai por baixo em alguns dias, totalmente incólume – como o milho. São tantos exemplos que dá pra fazer um texto só deles. Boa parte envolve água, ou a praia. Não pode nadar por uma hora depois de comer qualquer coisa. Depende, se você não comer um boi inteiro e depois bancar o Michael Phelps, não tem muito perigo. Tomar banho quando está chovento forte é arriscado, porque você pode ser eletrocutado por um raio. Não vira o olho esquisito, porque se bater um vento, você fica assim pra sempre – e ainda pega um resfriado, considerando o primeiro mito. A gente acredita em um monte de besteira. São noções passadas de geração a geração, que, em boa parte, servem para não precisar explicar algo complicado. Ou só por estupidez, mesmo. Existem noções assim em todas as áreas de conhecimento, […]

Greenpoint – Aral contra Dudinka

Seis amarelos no Aral contra quatro verdes em Omsk. Ou no Omsk. Tá bom, vai lá, mas vai ter troco, tô com dez na Dudinka. War era divertido, mas era um desserviço pra geografia. Se você me perguntar o que está entre a Russia e a China, vou demorar uns três minutos para lembrar do Cazaquistão. E isso, porque tem o Borat. Mas, na hora, a televisão mental projetará uma imagem do Aral. Very nice! As horas na frente do tabuleiro criaram uma espécie de memória fotográfica falsa de como o mundo é dividido. E nem é só na Asia, não. Aquela Califórnia enorme, esticando até os Grandes Lagos, e Nova Iorque que vai até Miami não ajudam muito. Tampouco a Colômbia, que anexou todos os países do norte da América do Sul. Ou o Chile que finalmente resolveu a celeuma sobre qual melhor pisco, incorporando o Peru. Aliás, falando em nova Iorque, eu aprendi geografia mundial com o War. Mas regional – mais especificamente, de Nova Iorque – com a coquetelaria. E nem foi porque eu viajei pra isso. Foi por causa do Manhattan. É que o coquetel tem infinitas variações – está quase dominando 24 territórios à sua […]

Glenfiddich Grand Cru 23 – Ano Novo

Ah, chegou o ano novo. E com ele, aquelas tradicionais simpatias. Pular sete ondinhas, comer lentilha, assoprar canela, comer romã e guardar as sementinhas junto com a folha de louro na carteira. Colocar dinheiro no sapato e usar branco. Por mais inofensivo que possa parecer, devo, porém, declarar que não vou fazer nada disso. Do jeito que sou azarado, provavelmente espirraria com a canela, tropeçaria e cairia no mar. Arrotaria lentilha de susto, sujaria a roupa e o sapato. O dinheiro na sola ficaria ensopado, assim como minha carteira. Que depois de um tempo começaria a mofar, devido à folha de louro e sementes de romã úmidas, guardadas lá dentro. E meu ano seria péssimo. Por isso, decidi que não vou fazer simpatia nenhuma. Aliás, para não correr riscos, resolvi passar o ano novo bem longe do mar. Num hotel da cidade, vendo algum filme. E sem champagne também, porque a chance de eu acertar meu olho com a rolha é razoável. Ao invés disso, escolhi um single malt maturado em barricas que antes contiveram champagne. Ou quase isso. O Glenfiddich Grand Cru 23 anos. O Glenfiddich Grand Cru 23 chegou ao Brasil sem grandes explosões de rolhas, no final […]

Retrospectiva de Whiskies 2023 – Os Melhores do Ano

Recebi minha retrospectiva do Spotify. E ela é impublicável. É que todo mundo aqui em casa – apesar de ter a própria conta do Spotify – prefere usar a minha. Aí, parece que tenho transtorno borderline em relação a meu gosto musical. Apenas para entender o que quero dizer: minha banda mais ouvida foi BTS, mas o gênero preferido, southern gothic. E a música individual mais escutada foi Ronaldo, do Gato Galático, ouvida trinta e sete vezes num único domingo, seguida por Friendship is Magic, do My Little Pony. Ninguém tem um gosto tão eclético assim sozinho. Mas o que eu queria mesmo ver, era a minha retrospectiva do Ifood – claro, com a contribuição de minha família. Seu restaurante mais pedido foi McDonald’s. O prato individual mais comido foi o Preferido, do Netão. Numa semana, você pediu quatro vezes Brás Pizzaria. Ao todo, juntando todos os hamburgueres e pizzas, você consumiu cinco quilos de pura banha. Seu gênero preferido foi junk food, e a tendência é, certamente, ao infarto do miocárdio. Ou então, da Drogaria SP. Sua retrospectiva chegou! Seu remédio mais pedido este ano foi a dipirona. Mas você é eclético, e tomou bastante esomeprazol, também. Mas a […]