Protagonista – Aberfeldy 12 anos

Tem uns filmes que sempre paro para assistir, quando os encontro passando na televisão. É como se meu cérebro entrasse em modo avião, e confortavelmente se rendesse àquela sensação de familiaridade. Não há nada que eu possa fazer. Não importa quantas vezes já vi cada um, o mundo externo pode esperar. Alguns deles são Casino Royale, Clube da Luta, Orgulho e Preconceito, A Espera de Um Milagre, Gladiador, Melhor Impossível, Máquina Mortífera, Piratas do Caribe, A Supremacia Bourne, A Origem, Gattaca, Sr. e Sra. Smith e Missão Impossível 4. É estranho, porque não há qualquer traço comum entre eles. Exceto o fato de serem hipnóticos.

Mas o mais magnético de todos é Constantine. Constantine é, para mim, o correspondente à Galinha Pintadinha para o Cãozinho. Só que ao invés da Mariana contando até dez, há demônios. E no lugar do borboletão fazendo macarrão para seu irmão, está Lúcifer. Que, diga-se de passagem, merece aqui deferência. Estrelado pelo ator sueco Peter Stormare, o capeta rouba o filme completamente desde a primeira cena em que aparece. Aliás, talvez a graça seja justamente essa. Assistir o Keanu Reeves e esperar que o Cão apareça. Não, eu não. O tinhoso.

#chateado

Algo semelhante ocorre com o Dewar’s 12 anos e seu principal componente de malte, o Aberfeldy 12 anos. Antes colocado em segundo plano e usado principalmente para blended whiskies – especialmente da linha Dewar’s – os Aberfeldy são comparáveis ao capiroto. O capiroto do Constantine.

É que eles passaram recentemente a obter posição de destaque. Graças à Bacardi, proprietária da Dewar’s e das destilarias Aberfeldy, MacDuff, Brackla, Aultmore e Craigellachie, que resolveu finalmente engarrafar seus single malts. O resultado foi o grupo batizado de Last Great Malts of Scotland.

A Bacardi não poderia ter feito decisão melhor. Tirando seus maltes do segundo plano, a marca pôde demonstrar a qualidade e personalidade de cada um dos principais componentes de seus blends. Antes pouquíssimo conhecidos mesmo do público interessado por single malts, estes whiskies então tiveram a oportunidade de brilhar. E alguns, como o Aberfeldy 12 anos, até mesmo roubaram a cena de seus protagonistas.

O Aberfeldy 12 anos é a expressão mais jovem do atual portfólio da Aberfeldy. Além dele, a destilaria possui também um 16, um 18 e um 21 anos, além de certas edições especiais bastante limitadas. O que é curioso na Aberfeldy – e aliás, em todas as destilarias pertencentes à Bacardi – é que não há qualquer engarrafamento sem idade declarada. Uma tendência do mercado, declaradamente rechaçada pela empresa. Quando indagado sobre o assunto, Fraser Campbell, embaixador da Dewar’s, jocosamente cita Tommy Dewar “nós respeitamos muito a idade avançada quando ela é engarrafada”

Aliás, vamos falar de Tommy Dewar. Ainda que a Aberfeldy tenha se revelado para o público apenas recentemente, a destilaria foi um personagem central na história da Dewar’s. Ela foi fundada em meados de 1890, quando Tommy e seu irmão John resolveram que entrariam para o ramo de produção – e não apenas blending- de whisky.

O local escolhido por eles ficava a menos de quatro quilômetros de onde seu pai e fundador da companhia havia nascido. Mas ele não fora escolhido apenas por fins sentimentais. Água é um componente importantíssimo para o whisky, e naquela época, era importante que houvesse uma fonte próxima que pudesse ser utilizada pela destilaria. No caso da Aberfeldy, a fonte era a Pitilie Burn, também famosa por possuir ouro.

Uma das características mais alardeadas do processo produtivo do Aberfeldy 12 anos é a longa fermentação de seu mosto. Ela  leva entre 72 e 88 horas. Um período bem superior à media das destilarias. Segundo a Aberfeldy, é esta fermentação longa que produz os aromas de mel e caramelo característicos do single malt. Os alambiques da Aberfeldy são aquecidos por vapor, e a segunda destilação é também relativamente longa – resultando em um single malt pouco oleoso.

Muito bem, Aberfeldy!

O Aberfeldy 12 anos já recebeu diversas premiações desde seu relativamente recente lançamento. Entre elas está uma medalha de ouro em 2014 pela World Whisky Awards, na categoria de Single Malt das Highlands com idade igual ou inferior a 12 anos. Foi também nomeado “master” pela Scotch Whisky Masters, como whisky das Highlands e Ilhas com idade máxima de 12 anos, no ano de 2013.

Mesmo para aqueles que o experimentam pela primeira vez, o Aberfeldy 12 anos possui um sabor muito familiar. É um whisky herbal, com mel, baunilha e frutas. O final é médio e adocicado. Tomá-lo não exige qualquer esforço, e o próximo gole é quase automático. Sensorialmente, aliás, ele remete mais a um blend adocicado do que efetivamente a um single malt. É quase como aquele filme, que você encontra passando na televisão – você já o viu uma centena de vezes, e não há nada de novo lá.

Mas, em todas as oportunidades ele continuará a exercer aquele mesmo fascínio imobilizador.

ABERFELDY 12 ANOS

Tipo: Single malt com idade declarada – 12 anos

Destilaria: Aberfeldy

Região: Highlands

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Mel, baunilha, floral e leve.

Sabor: Mel, balinha de caramelo com leite, compota de frutas. Final médio, adocicado e com bastante mel.

Drops – Dádiva Odonata 2016

Talvez você não tenha acompanhado a história. Mas há uns meses atrás este Cão Engarrafado fez algo que jamais imaginaria. Em parceria com a Cervejaria Dádiva, lançou uma cerveja. Mas não qualquer cerveja. Uma Russian Imperial Stout. Uma Russian Imperial Stout maturada em barricas de single malt das highlands escocesas. Batizada de Odonata #5, a cerveja ficou absolutamente incrível. E olha, isso até pode parecer um texto autopromocional meio esquisito e constrangedor, mas não é não.

É que o mérito é todo da Dádiva. Mesmo antes do lançamento da minha cerveja, acompanhei de perto a cervejaria. E não havia um rótulo sequer que me decepcionasse. Mergulhei na leveza amarga da Venice Beach. Passei perto de um sugar rush com o coco e a baunilha da Tripel Bock. Quase entrei em insolvência ao tentar comprar todas as garrafas e latas que encontrasse pela frente da Spot e Status Quo. E peregrinei por uma garrafa de Dark Sour. Ah e claro – sofri toda vez que abria alguma das irmãs de minha afilhada – a Odonata #4, maturada em barricas de rum, assinada por Cesar Adames, e a Odonata #6, que passou seus meses em barris de cachaça Quinta das Castanheiras.

Não sei se permitir que apadrinhasse um rótulo foi uma forma meio esquisita de me fidelizar como cliente. Provavelmente não, mas posso garantir que (se fosse o caso) teria funcionado muito bem. Porque consigo afirmar com razoável grau de certeza que provei cada um dos lançamentos da cervejaria no ano de 2017. E um dos que mais me surpreendeu foi também o derradeiro. A Dadiva Odonata 2016 (sim, eu não errei o ano), prima de minha afilhada líquida, e igualmente incrível.

Odonatas 2017

A Odonata 2016 é um blend das três primeiras edições da Russian Imperial Stout, que levaram, respectivamente, frutas vermelhas, baunilha e café. A mistura maturou em barris de carvalho americano de reúso por aproximadamente cinco meses e descansou por quase um ano em barris de inox, para finalmente ser blendada e engarrafada. A mistura rendeu mil garrafas.

Nas palavras da cervejaria “A Odonata com frutas vermelhas tem um toque de acidez, enquanto a versão com baunilha tem nuances mais adocicadas. A versão com café de cultivo orgânico da Fazenda Ambiental Fortaleza, parceira da Cervejaria Dádiva, tem fortes notas de tosta que combinam com a robustez da cerveja.” Com este descritivo, a mistura das três só poderia dar incrivelmente certo.

De acordo com Luiza Tolosa, sócia da Dádiva, a criação foi quase uma serendipidade. Um dia, resolveram que misturariam um pouco de cada uma das odonatas, para experimentar. E o resultado foi tão surpreendentemente bom, que decidiram lançar uma série limitada de garrafas com o blend. A cerveja uniu o cítrico e ácido das frutas vermelhas – a preferida de Luiza – com o dulçor da baunilha e o torrado do café.

Se você gosta de cervejas com graduação alcoolica elevada, encorpadas e muito complexas, a Dadiva Odonata 2016 é para você. E se puder, procure e experimente também as demais versões desta Russian Imperial Stout. Especialmente uma tal Odonata #5. É, talvez esse seja um texto autopromocional meio constrangedor.

DÁDIVA ODONATA 2016

Cervejaria: Dádiva

País: Brasil

Estilo: Russian Imperial Stout

ABV: 12%

Notas de Prova:

Aroma: Chocolate, café. Baunilha e uma certa acidez, muito discreta.

Sabor: Encorpada e com pouca carbonatação. O sabor começa adocicado e floral, e progressivamente vai se tornando ácido. O retrogosto é de café.

 

Drops – Ardbeg Kelpie

Minha filha estava estudando folclore brasileiro na escola. Ontem, ela veio me contar que seu animal folclórico preferido é o Saci. Faz sentido, pensei, já que ela não para quieta por um segundo sequer, e adora aprontar com tudo e todo mundo. Aí ela me perguntou qual era o meu preferido. E eu, para não dar uma resposta genérica sem graça e também ensiná-la algo novo, resolvi pesquisar. Recorri ao google.

E não é que nosso folclore realmente é riquíssimo? Além dos conhecidos boto, curupira, lobisomem, mula e saci, há uma pletora de seres fantásticos que eu jamais poderia imaginar que existissem. Um deles é a Pisadeira. A pisadeira é uma velha que pisa na barriga das pessoas enquanto elas dormem, e causa falta de ar. Especialmente quando as pessoas comeram demais à noite. Olha, quando eu era criança, devo ter dado um belo trabalho pra essa tal Pisadeira.

Mas não é apenas o Brasil que possui criaturas folclóricas, claro. Todos os países têm, e a Escócia não é exceção. Por lá, uma das lendas mais conhecidas é o Kelpie. O Kelpie é um espírito que muda de forma, e habita os lagos escoceses. Normalmente, toma forma de um cavalo. Porém, pode se transformar em pessoa também, para atrair seres humanos para as águas. É o correspondente escocês do boto, mas um pouco menos seletivo – para ele, qualquer pessoa serve.

E foi essa lenda que deu origem à nova edição limitada da Ardbeg, batizada em nome do equino demoníaco. O Ardbeg Kelpie – algo que sugere uma forte influência marítima e salina. Ele foi lançado para comemorar o Ardbeg Day de 2017 em duas versões. Uma de 46% e outra, exclusiva do Ardbeg Committee, com 51,7%.

O Ardbeg Kelpie é maturado em barricas de carvalho do Mar Negro. Segundo o material destinado à imprensa, Bill Lumsden, o Diretor de Destilação, Criação e Estoques da Ardbeg, “em sua busca contínua de barris intrigantes, foi inspirado pela profundidade de sabor transmitida pelos barris do Mar Negro. Crescido e temperado na República Adyghe, que leva à costa do Mar Negro, esses barris conferem sabores incrivelmente profundos.” Seja lá o que for a república Adyghe, e o que profundos significar aqui.

E não é que ela existe?

Ainda, segundo a destilaria, “Seus poderosos aromas de turfa oleosa, algas salgadas e alcatrão foram produzidos por barricas de carvalho virgem do Mar Negro, misturadas com o perfil distintivo de sabor da Ardbeg. As ondas de pimenta preta picante dão lugar a uma deliciosa maré de bacon e chocolate escuro. Incrivelmente profundo.” Essa profundidade intrigante mais mais uma vez.

Este Cão teve a oportunidade de provar o Ardbeg Kelpie em sua visita à destilaria, em Agosto de 2017. E apesar de não ter a menor ideia do que a Ardbeg chama de profundidade, achou o whisky bem interessante. O Kelpie tem uma nota salina bastante pronunciada, e que casa perfeitamente com o caráter enfumaçado e cítrico da destilaria. Talvez seja isso que a destilaria anuncia como profundo.

Você já deve ter imaginado que esta criatura mitológica não será comercializada no Brasil. Pois é. Apesar dos recentes lançamentos e, inclusive, da expansão do portfólio permanente da destilaria com o Ardbeg An Oa, nada mudará por aqui. Em nosso país tropical, a única expressão à venda da destilaria continua sendo o Ardbeg Ten. Uma pena. Talvez a LVMH, proprietária da destilaria, prefira focar em produtos de valor agregado mais baixo, como proseccos, a atender a demanda represada de um mercado exigente, mas nichado.

Porém, se você cruzar com este equino das águas, não deixe de experimentar. É realmente um sabor lendário. Ah, e minha criatura folclórica preferida é o boitatá. Mas isso – assim como a tal alegada profundidade – não tem nada a ver com nada.

ARDBEG KELPIE

Tipo: Single sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Ardbeg

Região: Islay

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Enfumaçado, com algas marinhas e um certo aroma subliminar herbal.

Sabor: Defumado, com carvão, pimenta branca e balinha de caramelo. O final é quase carne de churrasco. É engraçado que o sabor não é tão herbal quanto o aroma.

 Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

 

Como identificar um whisky falso (de verdade) – O Cão Engarrafado

Comprei um fone de ouvido. Outro, porque aquele meu fantástico encontrou seu destino ao despencar no chão. Durou menos de dois anos e custou mais caro que prosecco no réveillon. Revoltado, resolvi que compraria algo bem mais em conta, ainda que quisesse também um visual bonito. Um website internacional de réplicas resolveu meu problema. Um belíssimo fone preto, estilo aviador. A marca, não fosse uma vogal de diferença, seria uma das melhores para equipamentos eletrônicos da espécie – Buse.

Aquele Buse era quase idêntico ao original. Sério, era quase impossível desmascará-lo. Exceto no que importava. O som. Os baixos eram altos demais, e os altos, muito baixos. O volume máximo era o correspondente àquele atingido por minha filha sussurrando. Mas o pior de tudo era um barulho de chocalho quando eu mexia a cabeça. Provavelmente por conta de algum parafuso lá dentro, que havia caído durante sua viagem intercontinental até chegar à minha mão.

Era uma pena. No final das contas o fone quase-original não era original no que mais interessava, apesar da estética quase impecável. E como tudo na minha vida acaba desembocando em whisky, rapidamente um pensamento me ocorreu. Era como whisky falsificado.

Assim, embalado por minha (nem tão) querida nova aquisição, e por uma recente polêmica nas redes sociais, resolvi que produziria um texto explicando sobre whisky falsificado, e como identificá-lo. Assim, caros leitores, preparem-se para mais este texto de utilidade pública – e etílica – deste Cão Engarrafado. Mas preparem-se também para ficar profundamente desiludidos. Sem spoilers, mas precisarei extirpá-los de qualquer esperança sobre um método infalível e simples. Como escreveu Dante, Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate*. Encontrar um whisky falso é como emagrecer. Não tem mágica.

Deixe-me ser mais incisivo. Não adianta balançar o whisky pra ver se faz espuma. Não adianta bater com a caneta no whisky – a não ser que você faça parte de uma banda hipster de percussão – e nem passar o líquido no pão. E a razão disso é bem simples. Existem dezenas de tipos diferentes de falsificações. E nenhum teste funciona universalmente.

Bom, vou explicar de onde vieram cada um destes mitos. A começar por balançar a garrafa, que além de não funcionar, a longo prazo, estraga a bebida, porque estimula a oxidação (leia mais sobre isto aqui). Teoricamente, líquidos mais viscosos produzem mais bolhas persistentes. E o whisky, cujo corte está entre os  62 a 67 de ABV, possui pouca viscosidade. Assim, um whisky original produziria menos bolhas do que um whisky falso, que por relaxo do falsificador ou por alguma razão que me escapa a lógica, seria mais viscoso.

Bróder, não é Nescau pra agitar antes de beber.

O problema é que cada whisky possui uma oleosidade diferente. Aliás, eu nem preciso dizer isso. Vocês já sabem, porque acompanham o Cão Engarrafado. Assim, um The Macallan é muito mais oleoso que um Glenmorangie, por exemplo. E em adição a tudo isso, há a maturação. Os óleos da madeira costumam elevar a viscosidade do whisky. Aí, realmente não é muito fácil julgar se aquelas bolhinhas são normais ou não. A história da caneta passa também por uma lógica semelhante.

O mesmo vale para o teste do pãozinho. Falsificações grosseiras podem utilizar iodo para simular a coloração do whisky verdadeiro. Porém, este método é muito raro hoje em dia, e por motivos óbvios. É ridiculamente fácil de ser desmascarado. Mas, além disso, é anti-econômico e bem mais difícil de ser executado do que outros métodos melhores e mais populares. O princípio é simples. Há uma reação química que ocorre entre o pão e o iodo, que o deixa azulado. Mas, por conta disto mesmo que essa espécie de falsificação tem se tornado cada vez mais rara.

Aliás, a utilização do iodo não apenas é rara, como é obsoleta. Acontece que a maioria dos blended whiskies disponíveis no mercado utiliza corante, só que não iodo. É o conhecidíssimo e polêmico corante caramelo, ou E150. E a ideia não é disfarçar um whisky falso. Mas é padronizar a cor dos produtos originais, para que não causem estranheza para o consumidor sempre acostumado a beber a mesma coisa da mesma cor. E o E150 não aparece no teste do pãozinho. Ainda bem, senão muitos whiskies verdadeiros seriam considerados falsos.

E aí está. Como havia explicado, a maioria destes métodos não funciona. Simplesmente porque a forma mais comum de falsificação hoje em dia usa whisky original. Quer dizer, o whisky falso que você comprou, na realidade, é um whisky legítimo. É legítimo, só que não é aquele declarado na garrafa.

Não é exatamente uma Ferrari, mas é um carro!

Essa é a conhecida falsificação por transposição, ou tranplante. Utiliza-se uma garrafa de algum líquido mais caro – diremos, um Black Label, por exemplo – e preenche-se com outro whisky mais barato. Talvez um  Teacher’s ou um Passport. A garrafa vazia pode até mesmo ser original. Então, tem-se um whisky original dentro de uma garrafa original. Mas um Passport ou um Teacher’s original, dentro de uma garrafa original de Black Label. E aí é que está a genialidade – ou melhor, a safadeza – desse método. Ele não é identificável por qualquer destes testes, porque o whisky é verdadeiro.

Recentemente uma história assim aconteceu com a The Macallan. O hotel Waldhaus em St. Moritz possuía uma garrafa da destilaria datada de 1878. Um hóspede – o escritor chinês Zhang Wei – pagou 9.999,00 francos por uma dose. Porém, o mundo digital começou a desconfiar da autenticidade da garrafa. Por fim, especialistas levantaram a possibilidade do whisky ser falso, já que o rótulo descrevia uma empresa que jamais existira.

Não demorou muito para o mistério ser finalmente revelado. O que havia lá dentro era whisky, mas estava longe de ser um The Macallan do século dezenove. Segundo o laboratório Tatlock and Thomson’s, que realizou uma bateria de testes químicos e físicos, o líquido era provavelmente um blended whisky, criado entre 1970 e 1972. Uma falsificação muitíssimo bem feita. Tão bem feita que enganou a própria destilaria – afinal, ela havia comprado e colocado em seus arquivos garrafas da mesma origem daquela.

O problema da falsificação por transplante, porém, nem é quando se utiliza whisky. Mas quando se utiliza algum destilado produzido sem cuidado e cujo consumo é, bem, não é muito aconselhável. Usa-se este álcool – muitas vezes carregado de metanol e outros produtos tóxicos – para diluir o whisky. É tipo quando você coloca creme de leite no carbonara, pra render. Só que, no caso do whisky, além de render, você morre. Quer dizer, não é assim, imediato. E, afinal, todos nós vamos morrer. Mas dá uma acelerada nesse desagradável processo de falecimento.

Outro mito sobre whisky falso tem a ver com resíduos sólidos. Não, não cocô. Mas cristais, ou pó, que podem se desenvolver dentro da garrafa, ainda que fechada. Uma lenda urbana perpetrou que garrafas assim seriam falsas. Porém, ainda que isto tenha um fundo de verdade – claro, um whisky falso pode sim desenvolver uma certa decantação – essa história está longe de ser uma verdade absoluta. E isso pode acontecer por muitos fenômenos.

Sem pânico. Pode acontecer (Fonte: The Cutting Spirit)

Um deles é a filtragem. Alguns whiskies, especialmente single malts cask strength, passam por uma filtragem muito tímida antes de serem engarrafados. E, daí, um pó – semelhante a cinzas – podem surgir em seu interior ao longo do tempo. São pequenos restos da barrica, que não foram separados durante o processo de filtragem. Para você ter uma ideia, a engarrafadora Blackladder tem até mesmo uma linha de whiskies que não passa por nenhum processo de filtragem. O resultado é um whisky original, quase sempre opaco, e cheio de pequenas e fascinantes partículas boiando em seu interior.

Além disso, há um curioso, porém conhecido, fenômeno químico. É floculação, e ela tem dois tipos. A primeira é a floculação reversível. Essa, a maioria dos amantes dos whiskies com alta graduação alcoólica já presenciaram. Ela ocorre quando a temperatura do whisky cai drasticamente em um curto período de tempo, ou quando se adiciona água para diluí-lo. O whisky contém inúmeros acidos graxos (é sério isso) que lhe emprestam o tão querido sabor. Com a queda da temperatura ou a diluição, estes ácidos precipitam, e tornam o whisky opaco.

A segunda é a floculação irreversível, e é bem mais rara. Ela se manifesta na forma de pequenos cristais no fundo do whisky. Estes cristais são de oxalato de cálcio. E como eu não faço a menor ideia do que é Oxalato de Cálcio, vou me limitar a dizer o que sei. Isso pode ser evitado ou ao menos amenizado durante a produção, utilizando água desmineralizada.

É claro que há contrafações mais grosseiras e outras mais sofisticadas. E é obvio que para uma pequena parcela daqueles whiskies porcamente falsificados serão identificados por estes testes simples. Porém, a verdade é que não há receita infalível para se assegurar que aquilo que está na garrafa é o que o rótulo diz. Assim, meus queridos leitores, peço mais uma vez perdão por desiludí-los. Podem deixar a caneta e o pão francês em casa. Dispensem a parada na padaria ou na papelaria antes de ir para o bar. A realidade é muito mais sofisticada do que uma simples reação química ou o tilintar de uma garrafa de um whisky falso. Não existe nenhuma fórmula para identificar um whisky falso, exceto, é claro, o cuidado.

Na hora de comprar whiskies, estejam atentos aos detalhes e não corram riscos desnecessários. Ah, e se me permitem falar sobre algo que não domino – o mesmo vale para fones de ouvido.

(*abandone toda a esperança vós que entrais aqui)

Autoindulgência – Glenfiddich 26 anos Excellence

Dia desses estava no carro, dirigindo da forma que sempre faço. Como se tivesse roubado o automóvel do tinhoso, e este me perseguisse montado em um míssil tomahawk. Estava na pista expressa de uma marginal sem muito transito, e precisava entrar na local, que estava parada – mas que possuía uma pista de conversão absolutamente livre. Esta pista era pequena, e terminava em um muro.

O que fiz teria sido genial, não fosse totalmente ridículo. Continuei na expressa até o último momento, dando pequenos toquinhos no breque, simulando estar perdido e indeciso. Aí, no último momento, reduzi bastante a velocidade e entrei, agradecendo efusivamente ao carro de trás, que havia me salvado de minha simulada imperícia. Furei fila e ninguém ficou bravo. Naquela hora, não me preocupei muito. Eu estava atrasado para minha reunião, e precisava chegar a tempo.

Em outra oportunidade, estava em uma faixa de conversão numa grande avenida. Minha fila estava parada, mas aquela contígua à minha andava bem. Tão bem que outro carro resolveu abraçar a oportunidade. Ele seguiu por aquela faixa até o momento de virar à direita, e, rapidamente e sem muito sinal, entrou na minha frente. Eu fiquei furioso. Meu caro motorista, você não é esperto. Você é um cretino – pensei. Aí lembrei daquele dia da marginal. Naquele dia eu até podia estar atrasado, mas meu atraso dependia apenas de mim. Eu deveria ter saído de casa mais cedo.

A verdade é que todos nós temos um certo grau de hipocrisia. Ela se manifesta das mais variadas formas e momentos. O trânsito é uma delas. A outra é a hora de fazer compras. No supermercado, sempre convenço a querida Cã a levar a marca genérica mais barata de shampoo, água sanitária e amaciante de roupas. Mas quando compro whisky online, organizo a loja do artigo mais caro pro mais barato. Todo mundo é assim, apenas as prioridades mudam. Somos ao mesmo tempo ultra críticos e autoindulgentes. Uma combinação tão hipócrita quanto natural.

Okey se puder comprar whisky caro depois.

Sou bem permissivo em relação a meus gastos com whisky. E ainda tenho a justificativa mais surreal de todas: é para o blog. Porém, em muitos casos, nem mesmo essa hipocrisia resolve. É o caso do Glenfiddich 26 anos – a mais exclusiva expressão da destilaria no Brasil e talvez, atualmente, o single malt mais caro à venda em nossas terras. Sempre quis provar aquela maravilha. Mas a falta de coragem e, principalmente, o limite de crédito superavam a autoindulgência. Achei que jamais experimentaria aquele malte.

Até que uma oportunidade áurea surgiu. A convite do embaixador da marca para a América Latina, Christiano Protti, e da Caruso Lounge, este Cão participou de uma difícil tarefa. Ainda mais para uma segunda-feira chuvosa. Provar a linha completa da Glenfiddich no Brasil, desembocando naquele incrível 26 anos, em um jantar harmonizado preparado pela masterchef Irina Cordeiro. E com direito a um charuto para finalizar. Tudo – da entrada ao espetacular final – impecável.

Mas vamos ao que todos querem saber. O Glenfiddich 26 anos. O Glenfiddich 26 anos é maturado exclusivamente em barricas de carvalho americano. Mas barricas de carvalho americano muito especiais. Barricas produzidas pela Kelvin Cooperage, do Kentucky, que assim como a Glenfiddich, é até hoje controlada por uma família, desde sua fundação em 1963. Uma família Escocesa, diga-se de passagem. Isso é um detalhe importante. Não porque faz qualquer diferença no destilado – ainda que a qualidade da barrica tenha certa influência. Mas porque traz uma mensagem importante. Ela reflete os valores da própria Glenfiddich, que apesar de ser uma das maiores destilarias da Escócia, é até hoje detida pela família de seu fundador – os Grant.

William: fundador

Aliás, por falar em sua maturação, o Glenfiddich 26 anos é a primeira expressão da destilaria que utiliza exclusivamente carvalho americano. Algo que, para muitos, poderia trazer a impressão de um whisky unidimensional e simples. Mas não é o caso aqui. Ainda que delicado, o Glenfiddich 26 anos apresenta uma complexidade incrível. Seu começo é bastante frutado, com um certo mel e açúcar mascavo muito pronunciados. O paladar, porém, se desenvolve rapidamente, dando origem a algo semelhante a abacaxi e couro (é sério isso). O final é médio e floral, com bastante baunilha. É talvez o mais elegante dos whiskies da linha da Glenfiddich já provada por este Cão.

Aliás, é curioso como um whisky maturado somente em um único tipo de barril pode desenvolver tamanha complexidade. Muito se fala hoje sobre finalização. Whiskies que passam os últimos anos de sua maturação em barricas de diferentes bebidas, de forma a agregar e complementar sabores. Uma forma de, em menos tempo e com certa técnica, criar um produto complexo e, ao mesmo tempo, acessível. O Glenfiddich 26 anos, porém, é o contrário disso. Sua complexidade provém do tempo. De mais de duas décadas e meia de oxidação em barricas de uma única espécie, cuidadosamente selecionadas e misturadas. Isso é o que há de mais incrível nele. Por mais tentador que seja, não há atalhos, e o resultado é impressionante.

No Brasil, o Glenfiddich 26 anos custa a pechincha de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), em média. Isso o torna o single malt mais caro já revisto por aqui e que esteja à venda em nosso país. É bem caro. Com esse valor, você pode comprar aproximadamente sete garrafas do Glenfiddich 18 anos. Ou 12 do querídissimo Glenfiddich 15. E se você quiser dar uma festa, vinte e duas garrafas da expressão de entrada da destilaria, o 12 anos. O que significa, mais ou menos, que uma dose deste belíssimo primogênito equivale a uma garrafa inteira de seu irmão caçula.

Mas tudo isso não importa muito. O Glenfiddich 26 é, na verdade, uma declaração. Uma declaração de que tudo aquilo que é bem feito terá sempre seu lugar. Que a paciência e a atenção aos detalhes ainda podem criar produtos extraordinários, luxuosos e surpreendentes. Mesmo quando a técnica é capaz de – muitas vezes – se equiparar ao tempo, ou quando é tranquilo virar da faixa da esquerda direto pra da direita.

GLENFIDDICH 26 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 26 anos

Destilaria: Glenfiddich

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com baunilha bem aparente e um certo cítrico floral. Nectarinas. Maçã.

Sabor: Frutado e cítrico, com baunilha, canela e maçã. O sabor da madeira está bem aparente, na forma de taninos e uma certa castanha. O whisky começa mais amargo, e progressivamente vai se tornando adocicado até terminar praticamente em baunilha e canela. Final longo.

Com água: a água reduz a impressão dos taninos e potencializa o sabor frutado e floral (baunilha).

Whiskies para Esquecer 2017

2017 foi um ano como qualquer outro. A humanidade, apesar de todos os votos de paz e prosperidade em 2016, pouco evoluiu. Como sempre, presenciamos todo tipo de desgraça. Guerras, fome, êxodo do oriente médio e do norte da África e o recrudescimento de posições anacrônicas, reacionárias e – correndo o risco de ser maquiavélico – simplesmente malignas. A criatividade e a renitência humanas são de se admirar. Ou chorar. É incrível como somos criativos em cometer os mesmos erros do passado de uma forma diferente.

Aliás, vou mais além. Diria que a humanidade involuiu. Começou com a eleição do louco do Trump, no final de 2016. Passou pelo Brexit – que para um amante de whiskies até parece vantajoso, já que a moeda britânica se desvalorizou, mas que a longo prazo é desastroso. E desembocou na quase liderança da música Havana, de uma tal de – olha esse nome – Camila Cabello na Billboard. Uma música que poderia ter sido facilmente composta por minha filha. Com sono. Num daqueles pianinhos de três teclas. Só para você ter uma ideia de como pioramos, em 2014 a musica eleita foi All of Me, do John Legend. Que também não é lá essas coisas, mas pelo menos usa mais do que três notas e duas palavras na composição.

Por conta disso, este Cão resolveu elaborar uma lista para ser lembrada. Ou melhor, antagonicamente, uma lista de whiskies para ajudar a esquecer este ano do capiroto. São quatro whiskies que, se não servirem de panaceia para a amnésia, ao menos melhorarão seu humor para mais um ano daqueles. Ou você acha que 2018 será diferente?

BRUICHLADDICH THE CLASSIC LADDIE

Não se engane pela simpática garrafinha azul-“Tiffany”. O Bruichladdich The Classic Laddie é o single malt com a graduação alcoólica mais alta à venda no Brasil. Cinquenta por cento, para dissolver qualquer memória ruim do ano que acaba. O sabor é de caramelo e baunilha, com final médio e adocicado. E para aqueles que são apaixonados pela fumaça, seu irmão Port Charlotte é tudo que Islay tem de bom: pouca maturação, alto ABV e muita turfa. Perfeito.

DEWAR’S 18 ANOS

Bom, cometer sempre os mesmos erros do passado não significa que você deve sempre beber o mesmo whisky. Então, por favor, diversifique. O Dewar’s 18 anos – assim como praticamente toda a linha da Dewar’s – acabou de chegar ao Brasil, e tem tudo para se dar bem. O sabor é frutado e de especiarias, com final longo e adocicado. Sabe aquele papo de que um namoro novo sempre ajuda a esquecer um antigo? Bom, com whiskies é mais ou menos assim também.

ARDBEG TEN

Que tal fazer o ano de 2017 sumir em uma nuvem de fumaça? Bem, então nada melhor do que o Ardbeg Ten. Um clássico de Islay que transborda aromas enfumaçados e cítricos. Além disso, Ardbeg 10 recebeu prêmio de whisky do ano pela Jim Murray Whisky Bible de 2008 – outro ano que, como todos os outros, esquecemos – uma das mais importantes publicações do ramo.

ROYAL SALUTE 38 ANOS STONE OF DESTINY

Um whisky com trinta e oito anos de idade, para você perceber que, apesar de 2017 ter sido um ano digno do oblívio, as coisas melhoraram bem em três decadas e oito anos. Se você não acredita, reflita comigo. Há trinta e oito anos nascia em Porto Rico uma banda que mudou o conceito de pop latino. Os Menudos. E ao mesmo tempo que a Apple lançava o mais moderno computador compacto do mundo, o Apple II, a indústria automobilística nacional inaugurava o saudoso Ford Corcel II, com o slogan “a nova geração do automóvel”.

É, a gente continua cometendo os mesmos erros. Mas agora com computadores muito mais rápidos e automóveis bem mais tecnológicos. E bom, pensando bem, talvez a música não tenha piorado tanto mesmo.

 

Johnnie Walker Aged 18 years

Você sabe o que é rebranding? Bem, segundo a Wikipedia, “Rebranding é uma estratégia de marketing, no qual uma organização decide alterar a sua denominação, ou o seu logotipo, ou o seu design, ou outros elementos identificativos, para formar uma nova identidade.

Enquanto há centenas de histórias de rebrandings vitoriosos, como é o caso da Apple e da Burberry, essa técnica é arriscada, e pode conduzir a um desastre. Uma história bem conhecida – e hilária – é o do canal Sci-fi, hoje conhecido como Syfy.

É que o Sci-Fi ia bem. Mas em 2009 alguém lá dentro achou que seria uma boa ideia mudar a grafia do nome do canal, para atrair novos espectadores. Aí, depois de uma extensa pesquisa com consultores renomados, a empresa se rebatizou Syfy. Segundo seu confiante presidente “syfy é como você digitaria. É muito mais cool e atualizado“.

E é mesmo. Muito mais atualizado. Mas é também como você se refere à sífilis em muitos países do mundo. Por conta disso, a mudança tornou-se motivo de piada nas redes sociais. Afinal, ter seu nome associado a uma DST nunca é bom. Nem se você for marca de camisinha.

E nem foi de propósito.

Recentemente a Johnnie Walker também passou por um processo de rebranding. Não total, mas de uma de suas expressões – o excelente Platinum Label. O whisky ganhou nova roupagem e foi rebatizado. A referência à cor do rótulo saiu e a sua idade, que sempre foi dezoito anos, ganhou evidência. O Platinum tornou-se o Johnnie Walker Aged 18 Years.

Na verdade, esta não é o primeiro caso de rebranding protagonizado pela Diageo, detentora da marca Johnnie Walker. Em 2003, ocorreu o famoso caso Cardhu. Naquele ano, os estoques do single malt Cardhu estavam rareando. A Diageo, então, de uma forma bastante perspicaz, resolveu que produziria um blended malt – ou seja, uma mistura de diversos single malts – e o batizaria também de Cardhu. Só que, ao invés de “single malt“, utilizaria a expressão “pure malt“. Com a mesma embalagem. E o mesmo rótulo, exceto pela cor. A Scotch Whisky Association, no entanto, percebeu a estratégia, e decidiu que aquilo era uma forma de enganar o consumidor. A Diageo, então, se viu obrigada a retroceder, retirando seu Cardhu Pure Malt do mercado.

Mas isto são águas – ou melhor, whiskies – passadas. No caso do Johnnie Walker Aged 18, o líquido permaneceu inalterado, e o que mudou foi apenas a embalagem. E claro, a história por trás da bebida. Segundo a marca, o Platinum – quero dizer, o Johnnie Walker Aged 18 Years – foi criado pelo master blender Jim Beveridge, e contém até dezoito whiskies de diferentes regiões da Escócia. Segundo ele “maltes muito maturados podem se tornar muito contidos ao longo do tempo, e a chave para destravar estes sabores é o pouco e cuidadoso uso de whisky de grão com dezoito anos das Lowlands“.

Ele continua “Escolhi dezoito whiskies diferentes, com sabor e caráter marcantes, incluindo maltes clássicos de speyside, como Cardhu, Glen Elgin  e Auchroisk, por seu dulçor e elegância; maltes frutados e complexos das Highlands, incluindo Blair Athol e maltes maravilhosamente maturados das ilhas, que me permitem introduzir um subito defumado“. Arriscaria completar a fórmula revelada por Jim com dois palpites educados: Caol Ila e Talisker.

E Jim foi muito bem sucedido nessa missão. Assim como (quase) todos os whiskies da marca, o Johnnie Walker Aged 18 Years é levemente defumado. Porém, ele guarda também um certo dulçor e sabor cítrico que o tornam quase perfeitamente equilibrado. É curioso isso. No caso do Double Black ou do Gold Label Reserve há uma nota predominante – defumado e adocicado, respectivamente. Mas não nesta expressão. O Johnnie Walker Aged 18 Years é um blend sisudo, sofisticado e elegante. Há uma troca clara do apelo pela complexidade.

A serenidade no olhar de quem fez um bom trabalho.

Este Cão teve a oportunidade de provar o Johnnie Walker Aged 18 Years na companhia do embaixador Diageo Reserve, Nicola Pietrolungo. Na opinião de Nicola “o consumidor do Johnnie Walker Aged 18 Years é alguém que já possui um gosto maduro, e busca complexidade“. E para ele, o rebranding veio em bom momento. Em sua opinião, ainda que a declaração de idade não seja um sinônimo de qualidade, é também algo que o consumidor de whiskies premium procura, especialmente em nosso mercado. E evidenciar esta característica é providencial.

Apesar da fumaça e de sua complexidade, o Johnnie Walker Aged 18 Years é um whisky incrivelmente delicado. Parece contraditório, mas não é. O Aged 18 é um whisky que jamais desagradaria qualquer pessoa. Seus sabores estão lá, mas em perfeita harmonia e sutilmente integrados. O conselho deste Cão, inclusive, é que o experimente com o palato limpo.

O Johnnie Walker Aged 18 Years chega às prateleiras brasileiras a partir da semana que vem. E ainda que seja tecnicamente correto dizer que o Johnnie Walker Aged18 Years é um mero rebranding do Platinum, é também injusto. Ele é mais do que isto. Ele não é uma estratégia para elevar o líquido à qualidade da garrafa. Muito pelo contrário. Ele é a redenção do passado. Uma forma de ressaltar, no rótulo, o valor do whisky que já estava lá. Porque ainda que falte clareza, não há como negar – O Johnnie Walker Aged 18 Years sempre foi bom. Mesmo quando ele tinha outro nome.

JOHNNIE WALKER AGED 18 YEARS

Tipo: Blended Whisky com idade definida (18 anos)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma de frutas secas com pouca fumaça e especiarias.

Sabor: cítrico, frutas secas, levemente herbal, com final discretamente e elegantemente defumado.

Com água: A água reduz o sabor e aroma de especiarias e ressalta o final defumado.

Drops – Chivas Regal 12 anos & Chianti Chocommelier

Que tal começar a semana com um presente desses? Uma garrafa de Chivas Regal 12 anos, harmonizada com bombons de chocolate Callebaut 100% belga. Cada um, com um sabor diferente. Há sabores como caramelo e sal, marzipan, doce de leite, grana padano e gengibre, apenas para citar alguns. Este kit de hedonismo divino é uma parceria entre a Chivas Regal e a Chianti Chocommelier.

Capitaneada por Mariana Triveloni, a Chianti é especializada em harmonizar chocolates cem por cento belgas com elementos inusitados, em busca do que definem como o terceiro sabor – algo que é alcançado somente pela combinação de produtos de universos distintos. São kits com chocolates e vinhos, conhaques, cervejas, cafés, azeites e claro – o melhor de todos eles – whisky. Mais especificamente, o clássico Chivas Regal 12 anos que, por conta de seu perfil adocicado e floral, é perfeito para a empreitada.

Aqui, o sabor do whisky não apenas complementa o chocolate. Mas a combinação ressalta elementos dos dois. Ao combinar o whisky com o bombom “mix de nuts” por exemplo, o Chivas adquiriu uma nota mais clara de especiarias, por exemplo. É quase um laboratório de sabores.

Se você conhece algum apaixonado por whiskies, ou se ainda não decidiu como se autopresentear neste Natal, esta é mais uma belíssima sugestão!

Drink Drops – Boilermaker

Quando comecei a beber, meu pai me deu um conselho de ouro sobre como não ficar bêbado. Alternar um gole da bebida com um gole de água. É uma estratégia simples, mas que realmente dá resultado. O álcool desidrata o corpo, e a água é a melhor aliada na briga para reidratá-lo. Com essa dica, poderia passar horas bebendo moderadamente sem sofrer as sórdidas consequências da ressaca.

Uma vez, lendo uma crônica do Luiz Fernando Verísismo – de verdade, não o Luiz Fernando Veríssimo que as pessoas compartilham no Whatsapp – vi que ele tinha a mesma estratégia que eu. E o mesmo desafio. “Tomar um copo de água entre cada copo de bebida – O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida“. Nesse estágio, não sei qual era a pedida do Veríssimo.  Mas minha sempre foi whisky e cerveja. Às vezes ao mesmo tempo.

e depois fazer yoga

Naquela época eu nem sabia, mas esse hábito – de beber um copo de whisky junto com um de cerveja – é bem comum. E tem até um nome. Boilermaker. Apesar do título deste post, acho que o Boilermaker nem poderia ser considerado um drink. Ou um coquetel. Porque ele é simplesmente isso: combinar um golinho de whisky com um de cerveja. O boilermaker é como a felicidade para os livros de autoajuda: não tem receita.

No Reino Unido, o Boilermaker é a combinação de alguma cerveja em pint, normalmente vendida na temperatura ambiente em algum pub, com uma dose de algum whisky bem leve. Nos Estados Unidos, é a união entre uma cerveja suave com algum bourbon ou rye whiskey. Mas para falar bem a verdade, não há muitas regras. O boilermaker é um hábito, não uma regra.

Mas há aqui uma oportunidade de ouro, que, na visão deste Cão, normalmente é desperdiçada. Uma oportunidade que a gourmetização do mundo começou agora a abraçar. A da harmonização. Harmonizar – de forma proposital e não apenas por pura preguiça – whiskies e cervejas. Por suas características sensoriais mesmo.

Este Cão fez uma série de testes. Porters leves com single malts puxados para jerez são algo de outro mundo. Assim como barleywines e whiskies defumados. Mas talvez por conta das temperaturas cada vez mais escaldantes desta inconveniente época do ano, a mais agradável e fácil foi, também, a menos pretensiosa. Uma summer ale – mais especificamente a recém-lançada Maniacs Summer – com Jameson. Jameson Caskmates, para não facilitar muito também.

A Maniacs – com sabor levemente puxado para o amargo, pouco corpo e boa carbonatação funcionou muito bem com o irish whiskey – cujo final também é curto e amargo. Mas o legal aqui é testar. Algo tão prosaico como um boilermaker, no fundo, pode conter um milhar de possibilidades. Experimente. Mas lembre-se sempre da regra áurea. Um copo de água, um de cerveja, um de água, um de whisky, um de cerveja, um de whisky, dois de cerveja…

…ou algo assim.

 

 

 

O Cão Natalino – Presentes de Natal para um Amante de Whisky

Estamos novamente no final do ano. Época de passar calor, da famigerada festa da firma, de ouvir a piada do pavê. Época de rever todo aquele pessoal que você não via o ano todo, encher a cara, abraçar, ficar seminu, passar vergonha e depois ignorar todo mundo que viu por mais um ano. Talvez pela mais pura vergonha, ou talvez pela indiferença da sobriedade. É um negócio quase cíclico. Cíclico e trágico.

Uma vez eu disse que o calor é a pior coisa sobre o final do ano. Bom, não é. A pior coisa é a sudorese do amigo secreto. O amigo secreto é aquela brincadeira em que todo mundo ganha presente, mas que, no fundo, todo mundo perde. Primeiro porque o presente dado é sempre melhor que o recebido. É, eu sei, é um mistério quântico este, o ciclo não fecha.

Em segundo – e o pior de tudo mesmo – é que você descobre que não conhece bem seu amigo, e que seu amigo também não tem a menor noção de como é a sua vida. Dar o presente é uma atividade quase tão decepcionante quanto recebê-lo. Decepção, esta, que somente é superada pelo sorteio do presenteado no começo da brincadeira.

Assim, numa pífia tentativa de evitar um momento constrangedor, este Cão resolveu elaborar uma lista. Uma lista de presentes que pode ser dada para qualquer amante da bebida. Assim, se você tirou um ébrio colega mas não faz a mais rasa ideia de suas preferências no mundo da água da vida, preste atenção nesta lista. Algumas sugestões são whiskies. Outras não. Ainda que haja uma ordem, nada aqui sugere que isto seja um ranking. Todos são presentes incríveis. Vamos a elas.

Glencairn Whisky Glass – Estojo de Viagem

(fonte: http://www.whiskyandale.com.au/)

Sabe, gosto de degustar meus whiskies em casa. Não apenas porque é confortável. Mas porque lá tenho todo equipamento necessário – e o desnecessário – para uma degustação completa. Jarra de água, pipeta e, claro, as taças Glencairn. As Glencairn são as taças oficiais de degustação de whisky, criadas pela empresa Glencairn Crystal, do Reino Unido. Elas foram desenvolvidas especialmente para potencializar as características da bebida.

As Glencairn são quase perfeitas. Quase porque, como toda taça de vidro, elas são delicadas, e realmente não há uma forma muito boa de levá-los sem correr riscos. Quer dizer, não há, exceto se você tiver o estojo oficial da marca. É uma belíssima valise cilíndrica, de couro faux por fora e veludo por dentro, capaz de acondicionar e proteger perfeitamente um par das preciosas taças. Para nós, amantes de whisky errantes, nada poderia ser melhor. Pode ser adquirido pela importadora oficial, em www.lojadewhisky.com.br

The Way of Whisky – Dave Broom

Dave Broom é um dos mais famosos – e confiáveis, note que isso é importante aqui – autores especializados em whisky. Ele possui mais de vinte e cinco anos de experiência com destilados, e trabalha como escritor e jornalista freelancer. Sua principal obra é o Atlas Mundial do Whisky. Porém, além dele, Dave produziu outros livros fantásticos. Um de meus preferidos é The Way of Whisky, onde o jornalista visita e escreve detalhadamente sobre o whisky japonês, muito em voga nos dias de hoje.

O livro é um misto de informações técnicas, história e observações de Dave. A encadernação é belíssima, e as fotos que ilustram cada capítulo são quase como uma viagem à parte etílica do Japão. Um presente perfeito para todo admirador do whisky oriental. Pode ser adquirido via Amazon.com.

The Macallan Rare Cask

Não sei se os multimilionários fazem um amigo secreto entre si (aliás, seria legal saber o que o Jorge Paulo Lemann ganha no amigo secreto da Ambev). Mas se fizerem, The Macallan é o presente perfeito. Afinal, a destilaria detém o recorde da garrafa mais cara arrematada em um leilão. Além disso, é um dos três single malts mais vendidos na Escócia. E se isso não bastasse, é o whisky preferido de James Bond e de Harvey Specter. Como se costuma dizer na internet – é aquele whisky que você respeita.

No Brasil, a The Macallan é importada pela Aurora. Seu rótulo mais exclusivo por aqui é o The Macallan Rare Cask. Ele veio este ano substituir o Macallan Ruby, que deixou de ser produzido pela desilaria. Em suas próprias palavras “muito menos do que 1% das barricas maturando na destilaria foram identificadas como capazes de receber o nome Rare Cask. Com raridade como sua essencia, este é um whisky produzido de barricas tão raras que jamais serão usadas para outro whisky da The Macallan. A combinação de barricas de carvalho americano e espanhol de ex-jerez, sendo grande parte delas de primeiro uso, dão origem a um whisky com coloração esplêndida e incontestavelmente amadeirado (…)”  Vendido em lojas especializadas por, aproximadamente, R$ 2.000,00 (dois mil reais).

Aroma Academy Kits

Já viu aqueles vídeos em que um especialista identifica um monte de aromas incríveis – como baunilha, madeira, herbal, regaliz, medicinal, balsâmico e enfumaçado – na bebida? Se você acha que aquilo é mentira, então prepare-se para esta novidade. Com o Arma Academy Training Kit, você também pode encontrá-los facilmente. E não é propaganda de zero oitocentos.

O Aroma Academy Training Kit é uma caixa com diversas pequenas ampolas, cada uma com um aroma diferente. A ideia é que se compare o perfume puro, contido nos vidrinhos, com o whisky a ser degustado. Isso facilita a identificação e separação dos aromas, e cria memória olfativa. São diversos kits – para vinho, bourbon e whisky – de tamanhos e preços variados. Também importados pela www.lojadewhisky.com.br

Glenlivet 15 anos

Os clássicos nunca saem de moda. É o caso do Glenlivet 15 anos, um single malt que agradará iniciados e iniciantes. Glenlivet é o single malt mais vendido no mundo atualmente. Atualmente, a destilaria vende mais de doze milhões de garrafas por ano.  Parte de sua produção também é utilizada nos blended whiskies pertencentes à Pernod Ricard, sua detentora, como Chivas Regal e Ballantine’s. O produto das melhores barricas, entretanto, é engarrafado como single malt – como o Glenlivet 15.

Aliás, a maturação do Glenlivet 15 anos é um tanto incomum. Ela ocorre predominantemente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Porém, parte do destilado é transferido para barricas de carvalho francês – ou seja, carvalho europeu – da região de Limousin. E isso não teria nada de muito especial, não fosse um pequeno e quase imperceptível detalhe. As barricas de carvalho francês utilizadas pela Glenlivet são virgens. Algo bastante incomum no mundo do scotch whisky, que prefere fazer uso de madeiras que já tenham sido utilizadas para maturar outra bebida.

Vendido em lojas especializadas por, aproximadamente, R$ 300,00 (trezentos reais)