Como identificar um whisky falso (de verdade) – O Cão Engarrafado
Comprei um fone de ouvido. Outro, porque aquele meu fantástico encontrou seu destino ao despencar no chão. Durou menos de dois anos e custou mais caro que prosecco no réveillon. Revoltado, resolvi que compraria algo bem mais em conta, ainda que quisesse também um visual bonito. Um website internacional de réplicas resolveu meu problema. Um belíssimo fone preto, estilo aviador. A marca, não fosse uma vogal de diferença, seria uma das melhores para equipamentos eletrônicos da espécie – Buse.
Aquele Buse era quase idêntico ao original. Sério, era quase impossível desmascará-lo. Exceto no que importava. O som. Os baixos eram altos demais, e os altos, muito baixos. O volume máximo era o correspondente àquele atingido por minha filha sussurrando. Mas o pior de tudo era um barulho de chocalho quando eu mexia a cabeça. Provavelmente por conta de algum parafuso lá dentro, que havia caído durante sua viagem intercontinental até chegar à minha mão.
Era uma pena. No final das contas o fone quase-original não era original no que mais interessava, apesar da estética quase impecável. E como tudo na minha vida acaba desembocando em whisky, rapidamente um pensamento me ocorreu. Era como whisky falsificado.
Assim, embalado por minha (nem tão) querida nova aquisição, e por uma recente polêmica nas redes sociais, resolvi que produziria um texto explicando sobre whisky falsificado, e como identificá-lo. Assim, caros leitores, preparem-se para mais este texto de utilidade pública – e etílica – deste Cão Engarrafado. Mas preparem-se também para ficar profundamente desiludidos. Sem spoilers, mas precisarei extirpá-los de qualquer esperança sobre um método infalível e simples. Como escreveu Dante, Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate*. Encontrar um whisky falso é como emagrecer. Não tem mágica.
Deixe-me ser mais incisivo. Não adianta balançar o whisky pra ver se faz espuma. Não adianta bater com a caneta no whisky – a não ser que você faça parte de uma banda hipster de percussão – e nem passar o líquido no pão. E a razão disso é bem simples. Existem dezenas de tipos diferentes de falsificações. E nenhum teste funciona universalmente.
Bom, vou explicar de onde vieram cada um destes mitos. A começar por balançar a garrafa, que além de não funcionar, a longo prazo, estraga a bebida, porque estimula a oxidação (leia mais sobre isto aqui). Teoricamente, líquidos mais viscosos produzem mais bolhas persistentes. E o whisky, cujo corte está entre os 62 a 67 de ABV, possui pouca viscosidade. Assim, um whisky original produziria menos bolhas do que um whisky falso, que por relaxo do falsificador ou por alguma razão que me escapa a lógica, seria mais viscoso.

O problema é que cada whisky possui uma oleosidade diferente. Aliás, eu nem preciso dizer isso. Vocês já sabem, porque acompanham o Cão Engarrafado. Assim, um The Macallan é muito mais oleoso que um Glenmorangie, por exemplo. E em adição a tudo isso, há a maturação. Os óleos da madeira costumam elevar a viscosidade do whisky. Aí, realmente não é muito fácil julgar se aquelas bolhinhas são normais ou não. A história da caneta passa também por uma lógica semelhante.
O mesmo vale para o teste do pãozinho. Falsificações grosseiras podem utilizar iodo para simular a coloração do whisky verdadeiro. Porém, este método é muito raro hoje em dia, e por motivos óbvios. É ridiculamente fácil de ser desmascarado. Mas, além disso, é anti-econômico e bem mais difícil de ser executado do que outros métodos melhores e mais populares. O princípio é simples. Há uma reação química que ocorre entre o pão e o iodo, que o deixa azulado. Mas, por conta disto mesmo que essa espécie de falsificação tem se tornado cada vez mais rara.
Aliás, a utilização do iodo não apenas é rara, como é obsoleta. Acontece que a maioria dos blended whiskies disponíveis no mercado utiliza corante, só que não iodo. É o conhecidíssimo e polêmico corante caramelo, ou E150. E a ideia não é disfarçar um whisky falso. Mas é padronizar a cor dos produtos originais, para que não causem estranheza para o consumidor sempre acostumado a beber a mesma coisa da mesma cor. E o E150 não aparece no teste do pãozinho. Ainda bem, senão muitos whiskies verdadeiros seriam considerados falsos.
E aí está. Como havia explicado, a maioria destes métodos não funciona. Simplesmente porque a forma mais comum de falsificação hoje em dia usa whisky original. Quer dizer, o whisky falso que você comprou, na realidade, é um whisky legítimo. É legítimo, só que não é aquele declarado na garrafa.

Essa é a conhecida falsificação por transposição, ou tranplante. Utiliza-se uma garrafa de algum líquido mais caro – diremos, um Black Label, por exemplo – e preenche-se com outro whisky mais barato. Talvez um Teacher’s ou um Passport. A garrafa vazia pode até mesmo ser original. Então, tem-se um whisky original dentro de uma garrafa original. Mas um Passport ou um Teacher’s original, dentro de uma garrafa original de Black Label. E aí é que está a genialidade – ou melhor, a safadeza – desse método. Ele não é identificável por qualquer destes testes, porque o whisky é verdadeiro.
Recentemente uma história assim aconteceu com a The Macallan. O hotel Waldhaus em St. Moritz possuía uma garrafa da destilaria datada de 1878. Um hóspede – o escritor chinês Zhang Wei – pagou 9.999,00 francos por uma dose. Porém, o mundo digital começou a desconfiar da autenticidade da garrafa. Por fim, especialistas levantaram a possibilidade do whisky ser falso, já que o rótulo descrevia uma empresa que jamais existira.
Não demorou muito para o mistério ser finalmente revelado. O que havia lá dentro era whisky, mas estava longe de ser um The Macallan do século dezenove. Segundo o laboratório Tatlock and Thomson’s, que realizou uma bateria de testes químicos e físicos, o líquido era provavelmente um blended whisky, criado entre 1970 e 1972. Uma falsificação muitíssimo bem feita. Tão bem feita que enganou a própria destilaria – afinal, ela havia comprado e colocado em seus arquivos garrafas da mesma origem daquela.
O problema da falsificação por transplante, porém, nem é quando se utiliza whisky. Mas quando se utiliza algum destilado produzido sem cuidado e cujo consumo é, bem, não é muito aconselhável. Usa-se este álcool – muitas vezes carregado de metanol e outros produtos tóxicos – para diluir o whisky. É tipo quando você coloca creme de leite no carbonara, pra render. Só que, no caso do whisky, além de render, você morre. Quer dizer, não é assim, imediato. E, afinal, todos nós vamos morrer. Mas dá uma acelerada nesse desagradável processo de falecimento.
Outro mito sobre whisky falso tem a ver com resíduos sólidos. Não, não cocô. Mas cristais, ou pó, que podem se desenvolver dentro da garrafa, ainda que fechada. Uma lenda urbana perpetrou que garrafas assim seriam falsas. Porém, ainda que isto tenha um fundo de verdade – claro, um whisky falso pode sim desenvolver uma certa decantação – essa história está longe de ser uma verdade absoluta. E isso pode acontecer por muitos fenômenos.

Um deles é a filtragem. Alguns whiskies, especialmente single malts cask strength, passam por uma filtragem muito tímida antes de serem engarrafados. E, daí, um pó – semelhante a cinzas – podem surgir em seu interior ao longo do tempo. São pequenos restos da barrica, que não foram separados durante o processo de filtragem. Para você ter uma ideia, a engarrafadora Blackladder tem até mesmo uma linha de whiskies que não passa por nenhum processo de filtragem. O resultado é um whisky original, quase sempre opaco, e cheio de pequenas e fascinantes partículas boiando em seu interior.
Além disso, há um curioso, porém conhecido, fenômeno químico. É floculação, e ela tem dois tipos. A primeira é a floculação reversível. Essa, a maioria dos amantes dos whiskies com alta graduação alcoólica já presenciaram. Ela ocorre quando a temperatura do whisky cai drasticamente em um curto período de tempo, ou quando se adiciona água para diluí-lo. O whisky contém inúmeros acidos graxos (é sério isso) que lhe emprestam o tão querido sabor. Com a queda da temperatura ou a diluição, estes ácidos precipitam, e tornam o whisky opaco.
A segunda é a floculação irreversível, e é bem mais rara. Ela se manifesta na forma de pequenos cristais no fundo do whisky. Estes cristais são de oxalato de cálcio. E como eu não faço a menor ideia do que é Oxalato de Cálcio, vou me limitar a dizer o que sei. Isso pode ser evitado ou ao menos amenizado durante a produção, utilizando água desmineralizada.
É claro que há contrafações mais grosseiras e outras mais sofisticadas. E é obvio que para uma pequena parcela daqueles whiskies porcamente falsificados serão identificados por estes testes simples. Porém, a verdade é que não há receita infalível para se assegurar que aquilo que está na garrafa é o que o rótulo diz. Assim, meus queridos leitores, peço mais uma vez perdão por desiludí-los. Podem deixar a caneta e o pão francês em casa. Dispensem a parada na padaria ou na papelaria antes de ir para o bar. A realidade é muito mais sofisticada do que uma simples reação química ou o tilintar de uma garrafa de um whisky falso. Não existe nenhuma fórmula para identificar um whisky falso, exceto, é claro, o cuidado.
Na hora de comprar whiskies, estejam atentos aos detalhes e não corram riscos desnecessários. Ah, e se me permitem falar sobre algo que não domino – o mesmo vale para fones de ouvido.
(*abandone toda a esperança vós que entrais aqui)




























