Whiskies para comprar no Duty Free

Este é um post sazonal, que já teve três edições. Depois, leia a primeira, segunda e terceira aqui, se quiser.

Ah, o prazer de viajar.  Preparar uma lista de tudo que precisa levar, com cuidado, para não esquecer nada. Escova de dentes, pasta, shampoo, sabonete, desodorante. Camisetas, camisa, blazer, malha. Calça jeans. Meias, sapatos. Calção para praia, se tiver praia, óculos escuros. Checar tudo de novo, e mais uma terceira vez, só para garantir. Passar dois dias arrumando mala, acordar as quatro e meia da manhã para pegar um voo.

Usar seu corpo e boca para bater papo com o taxista por uma hora, enquanto sua alma silenciosamente cochila até chegar ao aeroporto. Fazer força para tirar as malas do táxi. Fazer força para colocá-las no carrinho. Descobrir que a roda direita do carrinho está emperrada e novamente fazer força, para compensar o atrito. Tentar não cair no sono. Tentar não cair. Aproximar-se vagarosamente do guichê. Fazer força ainda mais uma vez para colocar as malas na esteira e despachá-las. Tentar não cair na esteira, duro, dormindo, durante essa inglória tarefa.

Check-in, polícia federal. Aguardar sentado, naquele estado entre o sono e a realidade e equilibrar a cabeça para não se aconchegar confortavelmente em seu vizinho de cadeira, numa intimidade embaraçosa e involuntária. Embarcar. Ser atingido na cabeça pela mala de mão de outra pessoa enquanto tenta acomodar sua própria, no compartimento superior. Passar horas sentado no avião, nariz seco, sem conseguir dormir. Comer aquele salgadinho ou prato requentado, pelando. Queimar a língua. Acordar do sono não dormido, pousar.

Não deu.

Recuperar a mala de mão, desembarcar. Resgatar suas malas despachadas, que foram vandalizadas pelos carregadores do aeroporto na esteira de número nove, que, por acaso, é a mais distante. Imigração. Fazer força tudo de novo para colocar as malas no táxi, chegar no hotel quase desacordado. Desarrumar as malas apenas para descobrir que esqueceu de colocar cuecas, e agora terá que andar esquisito até algum lugar para comprar algumas.

Eu adoro viajar. Mas tudo, da porta da sua casa até o quarto do hotel é privação. Tudo menos o Duty Free. O Duty Free é o oásis. É um dos únicos prazeres conferidos ao apaixonado por whiskies durante essa via-crucis aeronáutica. Ele é muito importante. E é por isso que este Cão, sempre preocupado com a sanidade de seus leitores, preparou uma lista com cinco whiskies à venda em nossos freeshops. Os whiskies estão organizados por preço, do mais caro para o mais barato. Aproveitem.

BRUICHLADDICH BLACK ARTS

O Bruichladdich Black Arts é um mistério. Apenas Jim McEwan, ex master distiller da Bruichladdich, conhece sua composição – e ele provavelmente jamais a revelará. A ideia é que o whisky seja intrigante para o consumidor. A única informação é obtida no website da destilaria, que diz “trabalhando com os melhores carvalhos americanos e franceses para explorar ao máximo a relação esotérica entre destilado e madeira, o Black Art é uma viagem pessoal de Jim McEwan ao coração da Bruichladdich.”

Temos que admitir que a destilaria tem um senso de humor refinado. Assim como pessoas, não há qualquer relação esotérica entre destilado e madeira. E a Bruichladdich sabe disso – tanto é que Jim já admitiu que o Black Arts é quase uma paródia com as histórias muitas vezes hiperbólicas contadas nos rótulos de whiskies de outras destilarias. Além disso, cobrar mais de U$ 300,00 (trezentos dólares) por um whisky sem idade e com pouquíssima informação, é quase uma pegadinha.

Aliás, seria uma pegadinha, se o Black Arts não fosse divino, independente de seu signo do zodíaco. É um whisky carregado no vinho jerez, com especiarias, baunilha e canela. A especialidade da Bruichladdich, cujo armazém é povoado de barricas de vinhos como Mouton Rotschild, Château d’Yquem e Château Margaux. O preço dessa garrafa mágica? US$ 370,00 (trezentos e setenta dólares).

ROYAL BRACKLA 16

O Royal Brackla 16 anos é a realeza engarrafada. Aliás, a destilaria foi a primeira a receber o Royal Warrant – uma espécie de selo de qualidade concedido pela família real, para produtos por eles apreciados. O Royal Warrant da Brackla foi concedido pelo Rei William IV em 1833, quando a destilaria possuía apenas 23 anos de idade. Em 1838 a Rainha Victória renovou o Warrant. Por conta dessa história os whiskies da Brackla até hoje são vendidos com os dizeres “The King’s Own Whisky” ou “O Whisky do Próprio Rei” em seus rótulos.

O Royal Brackla 16 é maturado em barricas de carvalho americano de bourbon whiskey e finalizado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez. É um whisky leve – todo processo da Brackla valoriza o refluxo e busca um destilado pouco oleoso – com caramelo, baunilha e um final floral com vinho fortificado que é absolutamente incrível. Mais sobre ele aqui.

O preço deste líquido real é também digno da realeza. Ainda mais se for em nosso Duty Free – que inflacionou levemente o preço, por conta da novidade. US$ 200,00 (duzentos dólares).

ROYAL SALUTE THE ETERNAL RESERVE

O que pode ser melhor do que um whisky muito envelhecido? Bem, um whisky envelhecido eternamente. E é mais ou menos essa a proposta do Royal Salute The Eternal Reserve, que utiliza um método de maturação semelhante àquele de soleira utilizado por vinhos jerez. O primeiro lote do Eternal Reserve começou com a escolha de 88 barricas de diversas destilarias, que atendessem a dois critérios. Primeiro, que cada um possuísse uma finalização longa que pudesse ser extendida por meio da mistura e maturação, e, em segundo, que pudessem ser harmonizados em cada novo lote, de forma que o caráter do whisky se mantivesse inalterado ao longo do tempo. Isso tudo, e claro, tivessem ao menos 21 anos de idade.

Uma vez selecionados, as barricas são misturadas em uma soleira – um enorme tanque de madeira – e depois recolocados em oitenta e oito barricas, para passar por mais seis meses. Essa mistura é então misturada com outras 88 barricas para completar o primeiro lote. Depois, metade do blend resultante é engarrafado, enquanto a outra metade volta para as 88 barricas até que o próximo lote seja produzido, e assim por diante. Por conta disso, sempre haverá uma pequena parcela do lote original nos lotes subsequentes. Quer saber mais? Clique aqui.

O Royal Salute The Eternal Reserve é um whisky leve e floral, com álcool perfeitamente integrado e quase nenhuma fumaça. Há uma discreta nota cítrica, com alcaçuz e açúcar mascavo. O preço não é infinito, mas chega perto. US$ 180,00 (cento e oitenta dólares).

HIGHLAND PARK SIGURD

A Highland Park tem uma certa monomania com os vikings. Talvez seja por conta de sua localização – a ilha de Orkney, que era povoada por eles na antiguidade. Ou talvez porque alguém, há muito tempo, tivera resolvido batizar os whiskies da destilaria com nomes vikings, e ninguém teve uma ideia melhor desde então. Há uma série de deuses vikings – que conta com Loki, Freya, Odin e toda a turma de divindades que você conhece, porque assistiu Thor. Há outra com sentimentos, como honra viking, orgulho viking e cicatrizes (tá, isso não é uma emoção) vikings. E há a série de guerreiros vikings, da qual o Sigurd faz parte.

O Sigurd é a quarta de seis expressões que fazem parte da “warrior series” da destilaria. O primeiro, Svein, é maturado exclusivamente em barricas de carvalho americano. E a última, Thorfinn, passa apenas por barricas de carvalho espanhol. À moda da série 1824 da Macallan, as quatro expressões intermediárias utilizam as duas barricas, em proporções diferentes. Sigurd é a primeira delas que tem predominância de carvalho espanhol sobre o americano – aproximadamente 60 para 40 por cento. É um whisky levemente enfumaçado, vínico e extremamente equilibrado. Tudo isso por US$ 175,00 (cento e setenta e cinco dólares)

BLACK BOTTLE

Defumado, mas não muito. Adocicado, mas nem tanto. Apimentado, mas na medida. O Black Bottle pode não ser o mais complexo ou sofisticado dos blends, mas é um excelente custo-benefício, em um pacote inegavelmente bonito. Caso você não tenha percebido – o que indicaria uma acentuada falta de perspicácia de sua parte – o nome faz alusão à garrafa preta, adotada desde a época de fundação da marca.

O Black Bottle foi, por muito tempo, um malte inspirado em Islay. Mas desde seu renascimento, em 2013, o whisky perdeu um pouco de seu caráter defumado e marítimo, e passou a primar pelo equilíbrio – ainda que haja um percentual bem razoável de malte turfado. Incrivelmente, o único whisky de Islay utilizado em sua composição não possui qualquer traço de turfa. É o Bunnahabhain.

O preço – bem convidativo, se você me perguntar – é de US$ 33,00 (trinta e três dólares). Pela garrafa grande, não a miniatura da foto. Claro.

 

Beer Drops – Adnam’s Two Bays

Cervejas maturadas em barricas de carvalho ou com chips de carvalho. Nossas televisões mentais projetam, imediatamente, a imagem de alguma imperial stout ou porter, quase tão oleosa quanto petróleo. Se fosse um pouquinho mais densa, nem caberia na proverbial frase de Jânio. Bebo porque é líquido. Ela estaria lá, no limiar dos dois estados físicos. Tipo vidro. Uma vez me disseram que vidro é um líquido de altíssima densidade. Certamente essa pessoa não provou imperial stouts o suficiente para entender o que é a fronteira entre o sólido e o líquido.

É natural. A maioria das cervejas maturadas pertencem a estes estilos. O que não significa, de forma nenhuma, que uma cerveja mais leve não possa sofrer maturação e ficar boa. É o caso, por exemplo, da Two Bays, uma colaborativa entre as cervejarias Cigar City e Adnam’s – que aliás, possui uma belíssima linha de destilados – e que acaba de chegar ao Brasil pelas mãos da Get Trade.

Broadside, um quase-whisky, também produzido pela Adnam’s.

A Adnam’s Two Bays é uma pale ale com graduação alcoolica de 4,4,%, produzida com malte de cevada e aveia, e maturada com chips de carvalho. Os lúpulos utilizados são Citra, Cashmere, Lemondrop, Enigma e Calypso. O website da Adnam’s sugere que a cerveja possua notas de baunilha, coco e groselha. O paladar pouco treinado para cervejas deste Cão, porém, percebe um certo aroma frutado e cítrico, com toranja, e que aos poucos se torna mais adocicado, com baunilha e caramelo.

O nome Two Bays faz referência à localização das duas cervejarias, que colaboraram para produzí-la. A Adnam’s fica em Sole Bay, em Southwold, no Reino Unido. E a Cigar City – famosa por produzir cervejas maturadas em barricas – está instalada na baía de Tampa, na Flórida.

A Adnam’s Two Bays chega ao Brasil com preço médio de R$ 30,00 (trinta reais), bastante convidativo para cervejas maturadas. Mas se você se interessou, é melhor correr e procurar bem. Menos de mil garrafas chegaram às baías de nossas terras em maio. E a expectativa é que acabem bem rápido. Se você gosta daquele característico sabor de caramelo e baunilha, tão comum em nossos queridos whiskies, mas prefere cervejas com corpo mais leve, a Two Bays será um agradável avistamento.

ADNAM’S TWO BAYS

Cervejaria: Adnam’s

País: Reino Unido / Estados Unidos

Estilo: Pale Ale

ABV: 4,4%

Notas de Prova:

Aroma: baunilha, levemente cítrico (grapefruit?) e capim santo.

Sabor: Corpo médio, cítrica, capim santo. Final longo e progressivamente mais adocicado e floral, com baunilha e caramelo.

Commodore – O lado doce da vida

Ah, o excesso. Como diria Oscar Wilde, a moderação é algo fatal. Nada tem tanto sucesso quanto o excesso. E ainda que a frase de Wilde deva ser vista com reticências, e não como uma carta branca para cometer todo tipo de atrocidade, tenho que concordar com ele. O excesso melhora bastante tudo aquilo que já é naturalmente prazeroso. Se você não concorda, deixe-me fartamente exemplificar, com abundâncias corriqueiras.

Dormir até as duas da tarde no domingo. Comer meio bolo de fubá numa sentada. Assistir oito episódios seguidos da sua série favorita na companhia de um pote de sorvete ou pipoca. O clássico quarto – ou quinto – pedaço de pizza. Só mais uma cervejinha de saideira e a gente vai embora. O oitavo cafezinho do dia, depois do jantar. Mas é claro que eu quero a batata e a coca-cola grande com o duplo quarteirão, que pergunta mais óbvia. E coloca aí um chorinho na caipirinha, fazendo favor.

Essa almôndega/polpettone S2

É engraçado como somos atraídos pelo excesso, mas o renegamos. Entendo que em muitas situações, o exagero pode ser extremamente danoso, e nada mais natural do que buscar o equilíbrio. Mas em outras, às vezes, o excesso é bom. Há uma infinidade de whiskies desequilibrados – excessivamente defumados ou vínicos – que são absolutamente deliciosos e bem mais interessantes do que seus pares balanceados. Exemplos são o Bruichladdich Octomore e o Aberlour A’Bunadh.

Na coquetelaria, algo semelhante acontece. Muitos de nós temos uma quase obsessão pelo equilíbrio, que na maioria dos casos faz sentido. Mas isso não impede que um coquetel puxado para o amargo ou para o adocicado, se bem executado, seja prazeroso e tenha seu valor. Mas antes que você me condene, isso não é uma apologia à batida de leite condensado com Halls e vodka e aos Sex-On-The-Beach de balada ruim. Não. Isso é um aceno em direção a um coquetel que poucos conhecemos e que, ainda assim, sofre um enorme preconceito. O Commodore.

O Commodore leva bourbon whiskey, creme de cacau, suco de limão siciliano e grenadine. Só de ler os ingredientes, o nível glicêmico já sobe até a pré-diabetes. O Commodore é um coquetel naturalmente e incontornavelmente doce, apesar do limão. E talvez, neste ponto, você esteja silenciosamente aí me condenando, enquanto se convence que encontrei a receita em alguma revista de receitas de segunda. Mas não. O drink originalmente fez parte do menu do bar do hotel Waldorf-Astoria, na era pré Lei Seca.

É mais velho que o Opala Comodoro!

E esta não é a única referência. O Savoy Cocktail Book também apresentou uma versão do Commodore, mas que levava whiskey canadense ao invés de bourbon, além de xarope de açúcar e bitters de laranja. Mas a receita que apresentarei aqui é mais próxima da original, do Waldorf, com as proporções propostas por David Wondrich. Bem, por que? Porque é a receita que eu mais gosto, independente de ser equilibrada ou não. Nas palavras do próprio Wondrich “Eu amo o Commodore. Por que? Porque é delicioso. E é apenas um coquetel“.

Assim, meus caros, podem deixar de lado seus leite condensados, esqueçam o picolé de manga e nem pensem em abrir aquele pacote de drops de hortelã. Tomem nota de um coquetel que adoçará a vida de vocês sem nenhuma culpa. Porque às vezes mesmo, tudo que precisamos é um pouquinho de excesso.

COMMODORE

INGREDIENTES

  • 1 e 1/2 doses de bourbon whiskey
  • 1 dose de creme de cacao (a receita de wondrich não especifica qual. Este Cão preferiu com creme de cacao branco)
  • 1 dose de suco de limão siciliano
  • 1 colher de café de grenadine
  • Taça de Martini
  • parafernália usual para bater (shaker, coador, gelo).

PREPARO

  1. adicione todos os ingredientes na coqueteleira, com bastante gelo.
  2. Bata até gelar
  3. Desça, coando, em uma taça de martini ou coupé.

 

Drops – AnCnoc Blas

Guardamos relação sentimental com uma porção de coisas. Aquele carro que nos acompanhou numa viagem incrível, aquele filme que assistimos com certa companhia especial e aquela música que pautou algum grande desafio. Não é necessariamente algo bom ou ruim. Mas é uma sensação de que aquilo é especial somente para você, por mais prosaico que possa aparentar para todas as outras pessoas. São aquelas coisas que participaram de momentos de epifania, ou que marcaram alguma passagem em nossas vidas.

Um dos whiskies que guarda espaço especial em minha memória etílica é o AnCnoc. O AnCnoc foi meu predileto na degustação mais importante que participei em minha primeira viagem à Escócia.  Fiquei tão impressionado que a última coisa que fiz, vinte minutos antes de embarcar de volta para o Brasil, foi correr em uma loja do Duty Free para levar uma garrafa para casa – um AnCnoc 16 anos.

Naturalmente, imaginei que com o tempo e depois de provar outros maltes, a sensação se dissiparia. Mas, na verdade, ela se manteve. Depois daquele 18 anos, tive mais umas quatro garrafas diferentes. E gostei de todas elas. Todas guardavam a mesma característica de suavidade, de uma oleosidade quase de manteiga derretida, que me fascinava. Mas a minha preferida dentre todas é este AnCnoc Blas – cujo nome significa “sabor” em gaélico.

O AnCnoc Blas é uma versão turbinada – em uma palavra mais técnica, Cask Strength – do clássico perfil de sua destilaria. Que, aliás, não se chama AnCnoc, mas sim Knockdhu. A incomum diferença entre o nome do whisky e da destilaria possui uma razão bem clara. É para evitar que os ébrios amantes de whisky o confundam com a Knockando, outra destilaria, cujos whiskies se chamam também Kockando.

A Knockdhu localiza-se em Aberdeenshire, nas Highlands escocesas, e possui uma impressionante e variada gama de expressões. Há whiskies sem idade – como o Blas – e outros bastante maturados, como um incrível 25 anos. Há também edições especiais turfadas, que possuem diferentes níveis de defumação. A destilaria é bastante versátil e, na opinião parcial deste canídeo,  uma das mais injustiçadas da Escócia, juntamente com a Ben Nevis.

O AnCnoc Blas é uma edição especial da Knockdhu, em colaboração com o estilista escocês Patrick Grant. Se você acha esquisito que um estilista tenha se envolvido na produção de um single malt, eu explico. É que Grant ficou responsável por ilustrar a embalagem e o rótulo do whisky. Segundo o desenhista, “passei bastante tempo na Knockdhu, não apenas observando a paisagem e os arredores, mas conhecendo as pessoas que trabalham lá e os métodos que utilizam. Tudo na gravura é da montanha, da vila de Knock ou de dentro da destilaria, e conta a história da produçao do Blas. Eu tentei interpretar a história e tradição da AnCnoc de uma forma moderna, e espero que isso tenha sido traduzido pela estética da garrafa”.

Patrick e o Blas

Não é a primeira vez que a Kockdhu se une a uma personalidade para uma colaboração improvável. Outras edições limitadas da destilaria contaram com ilustrações de Peter Arkle, conhecido ilustrador escocês. Mas se você acha que todo esse papo de desenho é uma besteira, acalme-se. O AnCnoc Blas não é diferente apenas em sua roupagem. Como mencionado acima, ele é engarrafado diretamente do barril, sem qualquer diluição, e possui 54% de graduação alcoólica – algo bem incomum para os AnCnocs.

Talvez eu esteja exagerando. Talvez o AnCnoc Blas seja apenas mais um bom whisky, dentre tantos whiskies bons. Talvez ele tenha se beneficiado de um momento extraordinário. Afinal, é mais fácil apaixonar-se na Escócia do que na sala de casa. Mas é justamente esta dúvida, esta sensação de que ele é melhor para mim do que para todo mundo, que o torna ainda mais especial.

ANCNOC BLAS

Tipo: Single malt sem idade definida

Destilaria: Knockdhu

Região: Highlands

ABV: 54%

Notas de prova:

Aroma: Mel, baunilha, castanhas caramelizadas.

Sabor: Frutado, levemente cítrico, com mel, baunilha e capim santo. O final é adocicado e muito suave.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais

Seis whiskies que fazem muita falta no Brasil

Hiraeth. Não poderia começar este post de outra forma, senão por hiraeth. O correspondente galês de nossa intraduzível saudade. Mas com um significado extra. Hiraeth também se refere àquele vazio existencial causado pelo desejo de algo que você jamais teve. As saudades que um filho único sente de seu irmão que jamais nascera. Ou que eu tenho de possuir um Bowmore 1957 de 54 anos. Ah, que me falta faz esse Bowmore.

De certa forma, hiraeth é um sentimento um pouco paradoxal. É a nostalgia de tudo aquilo que não vemos e não podemos ter. Mas pior que ela, é mesmo aquela saudade de algo que já tivemos, mas que acabou. Um amor, uma época da vida. E claro, uma garrafa de whisky. Aquela, que trouxe de uma viagem, e que bebi sofrendo a cada gotinha que escorria no copo à medida que a garrafa esvaziava.

Como um brasileiro apaixonado por whiskies, devo dizer que exerço bastante esse sentimento. Vontade de provar de novo um rótulo que já tive. Ou de poder abrir um que jamais provei, mas que não posso, porque ele simplesmente in existe em nossas terras.

Neste post, selecionei seis especiais. São aqueles que já tivemos mas foram embora, ou que jamais desembarcaram por aqui. Mas deveriam. Acompanhe-me, querido leitor, nesta jornada de nostalgia, e vamos passar vontade juntos.

LAGAVULIN 16

Não poderia começar a lista de outra forma. O Lagavulin é um clássico absoluto dos single malts, e talvez o mais nobre e proeminente representante de Islay e seus whiskies enfumaçados e medicinais. Assim como para muitas pessoas, foi ele o responsável por acender minha paixão por whiskies.

Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin. Quiçá no futuro.

SPRINGBANK (LONGROW & HAZELBURN)

A Springbank possui status de malte cult entre os entusiastas, e suas edições limitadas praticamente sublimam das estantes, quase instantaneamente depois de terem sido lançadas. É também uma das únicas destilarias independentes de toda a Escócia, e uma das poucas que realiza todo o processo – da maltagem ao engarrafamento – totalmente em casa. Eles possuem três linhas diferentes de single malts. Springbank (levemente defumado), Longrow (indiscutivelmente defumado) e Hazelburn (triplamente destilado).

Longrows

A Springbank é uma das únicas três destilarias sobreviventes de Campbeltown, cidade que fora, por muito tempo, considerada a capital mundial do whisky. A região, que chegou a contar com trinta e quatro destilarias durante a década de cinquenta, hoje possui apenas três delas. As outras duas são Glengyle e Glen Scotia. Infelizmente, o sucesso da Springbank é tanto que sua produção está absolutamente alocada, e não há planos para vir para terras tupiniquins. Ao menos por enquanto.

BUFFALO TRACE (EAGLE RARE & BLANTONS)

Eagle Rare

A Buffalo Trace é uma das maiores destilarias de todos os Estados Unidos, e é responsável por marcas de renome, como George T. Stagg, E. H. Taylor, W. L. Weller, Sazerac Rye, a preciosíssima linha de Pappy Van Winkle e os Blanton’s e Stagg. Jr. Um de seus bourbons mais queridos – e com custo benefício fantástico em sua terra natal – é o Eagle Rare. Ele foi o único whiskey a conseguir cinco medalhas de duplo ouro na San Francisco Spirits Competition, sendo que três delas foram concedidas em anos consecutivos – de 2003 a 2005.

Infelizmente, nenhum Buffalo Trace desembarca no Brasil. Nem mesmo os mais humildes. A marca não possui contrato com qualquer importadora, e nenhuma representação em nosso país.

COMPASS BOX

A Compass Box Whisky Co. foi criada por John Glaser, executivo que antes trabalhou como diretor de marketing na Johnnie Walker. Glaser resolveu abandonar a empresa e fundar sua própria marca, dedicando-se a produzir apenas whiskies de altíssima qualidade, especialmente blended malts. Atualmente, a empresa possui cinco expressões em seu portfólio permanente (Asyla, Oak Cross, Hedonism, Spice Tree e Peat Monster), além da linha Great King Street. Além disso, constantemente lança edições limitadas especiais. E são todos uma delícia.

Edição Limitada The Lost Blend

Apesar de serem facilmente encontráveis em países vizinhos, como a Argentina, a Compass Box nunca desembarcou em nosso país. Sorte minha: entraria em insolvência instantânea tentando comprar todas as garrafas que encontrasse, especialmente de seu Peat Monster.

SUNTORY (HIBIKI, YAMAZAKI, HAKUSHU)

A Suntory, fundada na década de vinte por Shinjiro Torii, um japonês maluco que resolveu que produziria whisky no Japão. Atualmente, a empresa é a maior produtora da bebida naquele país, e tem sob seu guarda-chuvas os incríveis Yamazaki, Hakushu, Kakubin, Toki e Chita, para citar alguns. Os produtos são mundialmente reconhecidos, e foram também os principais responsáveis pela febre de consumo dos whiskies japoneses ao redor do globo.

Alguns produtos da Suntory – como o Kakubin, Yamazaki e Hakushu 12 anos – até chegaram às nossas remotas terras tupiniquins. Porém, a importação (que era feita pela Tradbrás) foi pouco a pouco suspensa, e a Suntory resolveu focar seus produtos em mercados emergentes, como a Ásia. Com sorte – ou algum garimpo – ainda se pode encontrar uma ou outra garrafa dessas maravilhas em empórios e mercados da vida. Mas o preço muito provavelmente será o equivalente a uma passagem de ida e volta pro Japão.

OUTRO IRLANDÊS

É isso mesmo. O único whisky irlandês a desembarcar em nossas terras é o Jameson. E tudo bem, porque ele é bem bom, muito versátil e tem preço de combate.

Mas para aqueles que apreciam variedade, isso é quase um suicídio. Um outro rótulo da própria marca – como o Black Barrel – já ajudaria bastante. Ou, talvez, o Tullamore Dew, que em muitos países é uma alternativa ao nosso conhecido irish whiskey. Sonhando mais alto, não seria nada mal ter um Midleton ou Redbreast por nossas terras.

Chivas Masters – Final

Ah, sempre segunda-feira. Desde que comecei a escrever este blog, minhas segundas-feiras têm sido bem mais animadas. É que segunda é o dia preferido para os mais diferentes eventos de coquetelaria. Talvez porque muitos bares não abram. Ou talvez porque os organizadores têm a mesma sensação que eu – que uma semana que começa numa segunda feira dessas não pode ser ruim.

E nessa segunda, 11 de junho, aconteceu na Lions Club a final do Chivas Masters, uma competiçao global, que pela primeira vez teve participação brasileira. Ela celebra bartenders que demonstram conhecimento e criatividade, e compartilham dos valores como comunidade, colaboração e generosidade. A ideia do campeonato é justamente reforçar estes valores, tidos como pilares da marca.

Para o Chivas Masters, o bartender deveria criar um coquetel que contivesse na receita, ao menos, trinta mililitros de Chivas Regal – no Brasil, a regra ditava que o rótulo deveria ser o Chivas Extra. O concurso engajou 100 casas de coquetelaria pelo Brasil inteiro.

Após avaliação de Marina Rufino, embaixadora da marca, e outros mixologistas experientes (como Rafael Mariachi e João Morandi, ambos da Pernod Ricard), e uma semifinal (leia mais sobre ela aqui) foram escolhidos cinco finalistas: Alex Sepulchro, do Frank Bar (São Paulo – SP), Bento Mattos, do Cocktelitas House of Drinks (Fortaleza – CE), Dilton Sales, do Borsói Café Clube Pina (Recife – PE), Eduardo Amorim, do Butchery BBQ & Drinks (Goiânia – GO) e Nicola Bara, do Subastor (São Paulo – SP).

Os jurados da final foram Jessica Sanchez, Zulu, Marcelo Serrano e Patrícia Ferraz, além do embaixador global de Chivas, Max Warner. E após apresentações excelentes dos cinco competidores, o vencedor foi finalmente anunciado. Alex Sepulchro, do Frank Bar, com seu coquetel “Amereno”, que homenageia Spencer Amereno. O coquetel de Alex leva, além do whisky Chivas Extra, xarope artesanal de café e especiarias, bitter de chocolate, grade de caramelo artesanal, grão de café e cardamomo.

Jurados e João Morandi

Alex se formou em hotelaria e foi conhecendo o mundo da coquetelaria durante seus estágios na faculdade. Desde que se apaixonou por esse mundo, Alex investiu no aperfeiçoamento na área com cursos no Barones, ABB, Senac e Academia de Bartenders. Ele também fez um intercâmbio na Austrália e diversos cursos na área. Foi bartender do Skye do Unique, head bartender do Grand Hyatt e desde de 2017 é subchefe no Frank.

Alex montando seu Amereno

Este Cão deseja a Alex boa sorte na final global, e, acima de tudo, uma excelente viagem para o país natal da melhor bebida do mundo.

 

Palestra – O Renascimento do Whiskey Irlandês

(fonte: Irish Whiskey Museum)

Prezados leitores, interrompemos nossa programação normal para um anúncio de enorme importância.

Na próxima quinta-feira, dia 14, este Cão realizará uma palestra sobre a história e o renascimento do Irish Whiskey na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista. A palestra é parte de um projeto conjunto entre O Cão Engarrafado e a agência de viagens Freeway: Uma viagem para a Irlanda, com foco no whiskey irlandês.

Durante a palestra, este Cão também abordará o roteiro da viagem, que conta com visitas a destilarias como Jameson, Teeling, Tullamore D.E.W. e Waterford – uma destilaria que é fechada para visitantes, mas que aceitou nos acolher. Mas nem tudo é whiskey. Visitaremos castelos incríveis, faremos uma parada estratégica na fábrica da mundialmente famosa cerveja Guinness, e aprenderemos sobre o Poitin, um curioso destilado produzido no país.

Se quiser saber mais detalhes, ou ouvir um pouquinho sobre Irish Whiskey, é necessário confirmar presença encaminhando e-mail para confirmacao@freeway.tur.br . Mais detalhes sobre o evento e a viagem abaixo ou clicando aqui.


Você gosta de viajar? Apreciar Whiskey? Viver novas experiências? Conhecer novos amigos? Tudo na companhia de um especialista…então essa palestra e viagem são para você!

A Irlanda. O país de James Joyce, Oscar Wilde, Samuel Beckett e – porque não Colin Farrel e Liam Neeson. Uma nação fundada nos costumes e na cultura celta, mas com um enorme apetite pela inovação. E claro, pelo whiskey.

A Irlanda possui tradição secular na produção de whiskey, inclusive, com técnicas e identidade próprias. Ela é tão importante que até mesmo compete com a Escócia pelo título de quem inventou a chamada “água da vida”.

Atualmente, a indústria passa por movimento conhecido como “O Renascimento do Whiskey Irlandês”. Atualmente, o Irish Whiskey é o destilado cujo consumo mais cresce no mundo, graças à fundação de diversas novas – e inovadoras – destilarias. Estima-se que entre 2014 e 2019, a indústria do Whiskey Irlandês cresça 60%!

Neste roteiro, elaborado pela Freeway e o especialista em whiskies Maurício Porto, autor do blog O Cão Engarrafado e formado pela Wine and Spirits Education Trust de Londres, você terá a oportunidade de conhecer, a fundo, o sabor do destilado símbolo deste país e entender seu sucesso.

Serão 10 dias, 6 destilarias e 2 cervejarias, museus e paisagens naturais incríveis. Uma viagem (às vezes literalmente) inebriante e inesquecível.

QUANDO: 14 de Junho às 19h
ONDE: Livraria Martins Fontes – Av. Paulista, 509 (próximo ao metrô Brigadeiro)
QUANTO: Gratuito. Confirmação com Kelly pelo email confirmacao@freeway.tur.br. VAGAS LIMITADAS.

Wild Turkey 81 – Sobre aves granjeiras

 

Não é segredo pra ninguém que eu odeio frango. Não é que eu não como frango, porque eu como quase qualquer coisa. Sério, se você me servir algo bem nojento, como, sei lá, olho de bode ou aquele ovo verde chinês, talvez eu tenha alguns segundos de ponderação. Mas, depois disso, há uma enorme possibilidade que eu vá provar. Aí, talvez, depois, eu vá dizer que aquele negócio é bem ruim ou absolutamente asqueroso, e ele entre no rol de coisas que eu provavelmente vou comer de novo porque sou teimoso, mas não gosto.

E o frango está aí. Eu como frango com desgosto. Não é um preconceito – preconceito seria se eu nunca tivesse provado – mas um pós-conceito. Eu já comi frango. Várias vezes. Em. Infinitos. Lugares. E é sempre ruim. Eu odeio tanto frango que uma vez fui pra uma fazenda no interior e visitei um galinheiro. Uma galinha, talvez farejando (galinhas farejam?) o ódio no ar, não pensou duas vezes. Me atacou em um voo tão agressivo quanto ridículo. E aí passei a não gostar de frango vivo, também.

Mas a beleza do mundo é a diversidade. Do outro lado do espectro da ojeriza por frangos, está Matteo Tranchellini. Matteo é um fotógrafo italiano que adora galináceos. Tanto é que ele tem um projeto – meio brega, se você me perguntar – em que fotografou mais de uma centena de galinhas e galos, ressaltando suas (discutíveis) belezas. Há aves de todos os jeitos. Umas bem empenadas, outras pernudas, outras com uma crista enorme. Tem até uma bem ridícula, que parece o Chewbacca.

Wookie ou frango?

Mas acho que o esquisito sou eu. Porque as pessoas gostam de galináceos. Tanto é que um dos whiskeys mais famosos e vendidos do mundo é nomeado em homenagem a um. O Wild Turkey, ou peru selvagem. Sua destilaria é uma das mais importantes dos Estados Unidos, e seus dois bourbons mais conhecidos são o 101 – já revisto aqui – e o 81, tema desta prova.

Talvez você esteja se perguntando porque a marca do peru selvagem resolveu batizar seus whiskeys com números. Bem, os algarismos se referem à graduação alcoólica do bourbon. Só que ao invés de utilizar a métrica do ABV (Alcohol By Volume, como usado atualmente no Reino Unido), a marca optou pelo proof – que é simplesmente o dobro da graduação expressa em ABV. Assim, o Wild Turkey 101 possui 50,5% e 81, 40,5% de graduação alcoólica.

Aliás, para mudar um pouco o papo sobre as galinhas, talvez essa seja uma oportunidade legal para contar a história sobre “proof“.O termo foi cunhado no século 16, na Inglaterra, quando as bebidas eram taxadas de acordo com seu volume de álcool. Os destilados eram testados molhando um pouco de pólvora com eles. Se a pólvora ainda pudesse queimar, então a bebida era taxada com maior severidade, por estar acima daquela prova (proof). Naquela época, o proof se referia a 1,75 vezes a graduação alcoólica. Quando o conceito foi transportado para a terra do frango frito – pelo jeito, frango é um assunto incontornável – passou a ser o dobro, exatamente.

De volta ao bourbon. O Wild Turkey 81 foi lançado em 2011, para comemorar o trigésimo ano de Eddie Russell – filho do master distiller Jimmy Russell e gerente da destilaria – na Wild Turkey. Quatro anos mais tarde, Jimmy juntou-se a seu pai no papel de master distiller, somando mais de noventa anos de experiência no processo de fabricação de bourbon. Em 2016 a identidade visual do whiskey foi revista, e o 81 foi rebatizado para simplesmente Wild Turkey Bourbon. Um nome tão bom quanto vago.

Novo visual

Como em todo bourbon whiskey, o cereal predominante na mashbill do Wild Turkey 81 é o milho – o preferido das detestáveis aves granjeiras que não mencionarei o nome novamente. A receita é a mesma de seu irmão 101: 75% de milho, 13% de centeio e 12% de cevada maltada. A maturação ocorre em barricas de carvalho americano virgens e torradas. A torra é  mais alta possível, e conhecida como “alligator char”, por conta do aspecto da madeira após o processo, que remonta a pele do réptil.  O Whiskey é retirado das barricas com graduação alcoolica média de  54,5%, e é posteriormente diluído com água para chegar aos 40,5%.

O Wild Turkey 81 é um whiskey bastante adocicado, nada agressivo, e com um claro sabor de caramelo, açúcar mascavo e baunilha. Por conta de seu sabor e da graduação alcoólica baixa, é uma bebida pouquíssimo desafiadora. Mesmo aqueles que não estão acostumados a beber whisky puro, não terão qualquer dificuldade em experimentá-lo desta forma. Assim, se você está começando no mundo dos whiskeys americanos, ou se simplesmente procura algo para bebericar sem muita preocupação e dificuldade, o Wild Turkey 81 é para você.

Ah, se todos os galináceos fossem iguais a este.

WILD TURKEY 81 BOURBON

Tipo: Bourbon Whiskey

Marca: Wild Turkey

Região: N/A

ABV: 40,5%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo, açúcar mascavo, baunilha.

Sabor: Caramelo e mel, açúcar mascavo, baunilha. Final médio, muito suave, com mais baunilha e balinha de caramelo.

Com Água: A água torna o bourbon um pouco menos adocicado, e ressalta a baunilha.

Drops – Innis & Gunn Original Oak Aged

 

Hoje falarei de um assunto polêmico, mas frequente. Um assunto discutido em quase todas as mesas de bar do Brasil. Algo que todo mundo faz, ainda que, às vezes, a gente prefira acreditar o contrário. Vou falar de cocô. Isso mesmo. Porque toda conversa de adultos regada a álcool termina, invariavelmente, em algo escatológico. Ou sexo.

Cocô é quase tudo aquilo que ingerimos, mas que não é aproveitado por nosso organismo. Não importa o quão gostoso ou sofisticado foi seu prato. Aquele frango (que nojo), o spaghetti a bolonhesa, o medalhão de kobe beef e o caviar Almas de esturjão albino, todos eles, virarão a mesma repugnante coisa. E você sabe qual é.

O que não significa, é claro, que ele não possa ser aproveitado por outras criaturas. É uma extensão do conhecido provérbio “lixo de uns, luxo dos outros”. Há bactérias que se alimentam das fezes. Vegetais retiram delas algumas substâncias importantíssimas para seu crescimento. Tirando o quase inevitável preconceito nojento, é uma história linda, na verdade. Uma história de aproveitamento, de ciclo e de eternidade. Seria quase transcendental, se não envolvesse titica.

Mas não é apenas no vaso que histórias de reaproveitamento de – desculpe se algo gráfico vier à mente – dar gosto acontecem. Elas ocorrem também na indústria das bebidas alcoólicas. Uma vez já comentei sobre isso, ao falar da Highland Park e da cervejaria Harviestoun. Um caso muito semelhante, mas bem mais engraçado, ocorreu entre a segunda maior destilaria do mundo, a Glenfiddich, e a cervejaria Innis & Gunn.

Ah, e pensar que eu te jogava fora! (foto: Telegraph.co.uk)

Reza a lenda que em 2003 Douglas Sharp, o mestre-cervejeiro da Innis & Gunn (que na época nem era a Innis & Gunn, mas apenas uma pequena cervejaria local) fora contratado pela destilaria escocesa Glenfiddich para produzir uma cerveja qualquer, cujo único objetivo era maturar por um tempo nos barris de carvalho americano da destilaria, somente para condicionar os barris. Depois, a cerveja seria descartada.

Mas Doulgas era um cara caprichoso. Mais do que uma “cerveja qualquer”, Sharp desenvolveu uma receita especial de Ale, bastante encorpada, que aumentaria muito a eficiência do condicionamento e traria para o whisky as incríveis notas pretendidas pela Glenfiddich. Mas, mesmo assim, a cerveja continuaria a ser jogada fora ao esvaziar os barris.

Um gerente da Innis & Gunn, então, que claramente achava aquilo um desperdício, resolveu ingerir aquele descarte. Ele achou tão bom que ligou para Sharp imediatamente. E Sharp, ao invés de demitir o gerente que estava se embriagando com lixo industrial durante o expediente, notou a oportunidade que estava em suas mãos. Assim, ele desenvolveu uma série de cervejas maturadas em diferentes barris.

As cervejas maturadas em barricas de carvalho americano de bourbon lançadas por Sharp fizeram sucesso. Tanto sucesso que o mestre-cervejeiro resolveu fundar a Innis & Gunn. Atualmente, a cervejaria possui – além de sua fábrica – quatro bares na Escócia e um portfólo considerável, entre edições perenes e permanentes. A original, batizada de Oak Aged – que deu origem a toda essa história – é a que ilustra este post.

A Innis & Gunn Oak Aged é uma cerveja clara, com carbonatação média, e um sabor incrivelmente pronunciado de baunilha e madeira. Se você gosta de cervejas encorpadas e daquele irresistível sabor de bourbon whisky, você se apaixonará facilmente por ela. Mesmo que, fatal e inariavelmente, ela vá virar xixi. Pois é. Todo papo etílico de adulto termina mesmo nisso.

INNIS & GUNN OAK AGED

País: Escócia

Cervejaria: Innis & Gunn

Tipo: Ale

ABV: 6,6%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, com um certo aroma de malte bem presente.

Sabor: Balinha de caramelo, herbal. Bastante encorpada. O final puxa incrivelmente para taninos e baunilha provenientes da barrica.

 

Estrelas da Música que amam whisky

Pensem em um advogado. Se você não for um, provavelmente recorrerá a um ficcional. Como, sei lá, o John Milton (Al Pacino), Martin Vail (Richard Gere), Harvey Specter e aquela doida do Jessica Jones que só quer ver o mundo pegar fogo. Todos tem o mesmo estereótipo. Egoístas, obstinados, oportunistas. Geralmente alcoólatras ou meio drogados. Não existem muitas variações para o advogado ficcional. Vêm tudo num pacote.

É, eu sei que há uns tantos outros que são o oposto, como o Atticus Finch e o Fred Gailey, mas ninguém pensa neles. Na cultura popular, nós – é, eu sou advogado – somos os operadores do apocalipse. Tipo os leprechauns irlandeses, mas ao invés de gorrinho e camisa verde, a gente usa terno e gravata. E ao invés de esconder a faca do bolo ou quebrar aquele copo, somos responsáveis por arruinar vidas.

Outra profissão com um estereótipo bem forte é a de músico. Músico normalmente é um advogado, mas menos egoísta e com mais talento musical. Em comum, temos o estereotipado hábito de enxugar qualquer garrafa que contenha álcool. Porém, ao contrário do que acontece com advogados (ressalvado o Harvey Specter aqui), as pessoas realmente querem saber o que seus ídolos musicais bebem. Por conta disso – e a pedidos – resolvi elaborar uma eclética lista com alguns expoentes da música e suas preferências etílicas. Aqui, tentei ser o mais eclético possível na escolha dos músicos. Porém, em breve, haverá uma nova edição apenas com ícones do rock.

Assim, meus caros, abram seus Jack Daniel’s (parece ser uma preferência no meio musical), escolham seu couvert artístico preferido e aproveitem. Estas são seis estrelas da música que, como você, adoram whisky.

BONO

Quando ele não está salvando criancinhas famintas, levantando capital para campanhas filantrópicas ou cantando, Bono – que nasceu na Irlanda – toma whiskey. Mas não irlandês, apesar do uso do E na grafia. Bono, que na maioria das vezes faz o papel do moço comportado e altruísta, tem um gosto bem rebelde pela bebida. O vocalista do U2 prefere Jack Daniel’s, o famosíssimo whiskey americano.

LADY GAGA

Stefani Joanne Angelina Germanotta, ou melhor, a Lady Gaga, é praticamente uma criatura conjurada pela cultura pop. Visual eclético (isso é um eufemismo), atitudes polêmicas, gostos pouco ortodoxos. Menos para whiskey – mais uma vez, com “e”. Ao contrário de Bono, Gaga – que é americana – é apaixonada por Jameson, o mais tradicional whiskey irlandês.

MUMFORD AND SONS

Se você sabe o que é uma bergamota, alcaçuz, gosta de ruibarbo e usa echarpe, certamente conhece a banda formada por Marcus Mumford, Ben Lovett, Ted Dwane e Winston Marshall. O conjunto britânico de folk rock é um expoente hipster.

Apesar disso, as preferências etílicas do grupo passam longe do gim-tônica. Os integrantes gostam tanto de whisky que prometeram criar seu próprio rótulo no futuro. I will wait.

RIHANNA

Tenho que assumir que acho as músicas da Rihanna meio chatas. A pior delas é Diamond. Porque, bom, porque diamantes não voam, então a metáfora “como diamantes no céu” só funciona se você tiver sob o efeito de drogas pesadas, ou for completamente ignorante sobre astrofísica.

Apesar disso, Rihanna tem bom gosto quando o assunto é álcool. Sua bebida de preferência – assim como Gaga – é Jameson. Ela até cita o whiskey em uma de suas músicas, que dedicou a “todos os semi-alcoolatras do mundo“. Me senti representado. É, talvez ela não seja tão chata assim.

FRANK SINATRA

Bom, quando o assunto é álcool, as celebridades podem ser separadas entre amadores e profissionais. E o Frank Sinatra. Frank – em conjunto com seus amiguinhos do Rat Pack – enxugavam qualquer coisa etílica que cruzasse seus caminhos.

Apesar do gosto (realmente) eclético por bebida, reza a lenda que a preferência de Frank Sinatra era o tennessee whiskey Jack Daniel’s. Ele o tomava em copo baixo, com pouco ou sem gelo. Na verdade, ele tomava de qualquer jeito, em qualquer copo. Ele gostava tanto, mas tanto do Tennessee Whiskey, que a marca homenageou seu célebre ébrio com a edição especial “Sinatra’s Select”.

KEITH RICHARDS

Todo ano alguém diz que Keith morreu. E todo ano a notícia é desmentida. Keith é praticamente o Gandalf dos guitarristas. Se o Gandalf enchesse a cara como se não houvesse amanhã e usasse todo tipo de substâncias lícitas, mágicas e ilícitas. Assim como Frank – outro profissional dos copos – a preferência de Keith é clara. Jack Daniel’s.