Royal Lochnagar – Herói Anonimo

26 de Setembro de 1983 foi uma data histórica para o iatismo. Depois de cento e trinta e dois anos de hegemonia dos Estados Unidos no America’s Cup, uma equipe Australiana finalmente gannhara a competição. Foi uma vitória gloriosa – mas, nem de longe, o acontecimento mais importante do dia. Este ocorreu algumas horas depois, do outro lado do Atlântico, no centro de comando Serpukhov-15, Rússia. Ele foi protagonizado por um tenente-coronel chamado Stanislav Petrov.

Petrov trabalhava como analista de sistemas e especialista em alerta precoce. Seu – tedioso – trabalho era monitorar o lançamento de misseis balísticos intercontinentais pelos Estados Unidos que pudessem ser direcionados à USSR. Se detectasse algum míssil, deveria alertar seus superiores, que seriam responsáveis por retaliar com centenas de ogivas nucleares, desencadeando a terceira guerra mundial. Que desembocaria no fim da humanidade. E, posteriormente, numa versão realista de Fallout, sem pseudo-zumbis e axolotes gigantes.

Okey dokey

Naquele dia – ou melhor, no meio da noite – os computadores monitorados por Petrov identificaram cinco mísseis nucleares americanos, que voavam em direção a Moscou. Incrédulo, o tenente-coronel resolveu quebrar o protocolo, e não avisou ninguém. Os cinco minutos seguintes foram de agonia. Mais quatro alertas surgiram. Mesmo assim, Stan não fez nada. E no fim, sua aposta tinha sido acertada. Era um erro do sistema, causado pelos reflexos do sol em nuvens.

Fosse Stanislav Petrov um pouco menos passivo, o mundo acabaria naquele dia. E ainda que tivesse salvado a humanidade, jamais recebera o reconhecimento que deveria. Pelo contrário – Petrov foi repreendido por superiores, por quebrar o protocolo e usar o bom senso. Um herói anônimo, jamais devidamente reconhecido. Como, por exemplo, um certo whisky, chamado Royal Lochnagar. Pouco conhecido como single malt – mas o principal ingrediente de um dos blends mais cobiçados do mundo. O Johnnie Walker Blue Label.

Engarrafamentos de Royal Lochnagar não são fáceis, mesmo fora de nosso país. No Brasil, há apenas um, trazido oficialmente pela Single Malt Brasil, e em pequena quantidade – o Royal Lochnagar 12 anos, tema desta prova. Além dele, há, no exterior, algumas edições dos Diageo Special Releases, bem como uma versão do Game of Thrones.

O Royal Lochnagar 12 anos, que faz parte do core range da destilaria, e é provavelmente seu whisky mais conhecido. Sua maturação acontece numa combinação de barris de carvalho americano de ex bourbon, e barricas de ex-jerez. O perfil sensorial é frutado e adocicado, com um certo aroma de pão, e floral de alcaçuz no fundo. Sensorialmente, não há qualquer traço de turfa – ainda que algumas fontes afirmem que a destilaria usa uma pequena parte de malte turfado.

Se alguém visitasse a Lochnagar sem ter provado seu whisky previamente, poderia jurar que produz um new make pesado e sulfúrico, como Craigellachie, ou até mesmo The Macallan. A destilaria possui alambiques baixos, e emprega worm tubs em seus condensadores. Porém, o que faz toda a diferença é a operação. A destilação é lenta, e os worm tubs são aquecidos durante esse processo. O objetivo é incentivar o refluxo, e criar um destilado leve, ora herbal, ora floral. Algo que podemos notar até mesmo quando misturado no todo poderoso Blue Label.

Os alambiques da Lochnagar

Talvez você tenha notado o prenome “Royal”, nos parágrafos anteriores. É que, atualmente, o whisky é pouco conhecido. Mas nem sempre foi assim. Ele já foi um dos mais apreciados pela realeza britânica. Era o whisky favorito da rainha Victória e do príncipe albert. Foi esse que conecedeu um que concedeu um Royal Warrant à destilaria, em 1848, e permitiu que usasse “Royal” em seu rótulo, justamente para alardear o título.

Para aqueles que buscam um single malt floral, equilibrado e com influência de jerez, mas sem exagero, o Royal Lochnagar é perfeito. E também para os apaixonados pelo Johnnie Walker Blue Label, que queerm mais intensidade e oleosidade. Assim como Stanislav Petrov, o Royal Lochnagar é uma figura subestimada de importância monumental. Ambos desempenham – ou desempenharam – papéis cruciais nos bastidores. Ambos nos ensinam que o valor nem sempre está no que brilha intensamente, mas naquilo que sustenta e equilibra, garantindo que o mundo – ou o copo – continue em harmonia.

ROYAL LOCHNAGAR 12 ANOS

Tipo: Single Malt

Destilaria: Balvenie

Região: Highlands

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutas cristalizadas, alcaçuz, pão, mel.

Sabor: compota de frutas, mel, pão molhado. Final médio, com alcaçuz e baunilha.

Brainstorm Cocktail – Instinto de sobrevivência

Pronto, morri“, foi o que pensei, à medida que o cavalo galopava em direção a uma curva fechada, depois de disparar, contra minha vontade, numa estradinha de terra que levava à cocheira. Eu tinha uns doze ou treze anos de idade, e costumava passar as férias de julho em um sítio que minha família tinha no interior. Como todo pré-adolescente revoltadinho sem motivo, e apesar de protestos de minha progenitora, eu insistia em montar um pangaré mal-adestrado que se chamava Danúbio. Ele andava meio de lado e, claramente, tinha um sério problema com autoridade.

Meu fascínio pelo bicho talvez se explicasse pelo compartilhamento de características. Exceto por andar reto, eu também era mal-humorado, meio chucro, e pouco obediente. Mas a parte mais interessante da história não é essa. É a que descobri que não era o tipo que lutava pela vida. Ao perigosamente me aproximar da curva, já me consolara que não teria forças para segurar a rédea. De fato, ela já descansava, totalmente solta, ao lado do pito, enquanto o estribo também balançava sem qualquer tensão de minha perna.

Não sou eu, definitivamente

a gente se sente mais vivo quando está perto da morte” – disse uma vez James Hunt. Não, eu não. Eu já estava morto segundos antes de sentir um empurrão brusco para frente. Resultado da inércia do cavalo, que estancara as quatro patas no chão, ao notar a iminência da curva. Bati o peito no pito, mas, sobrevivi, ainda que desmoralizado ao descobrir que tenho zero instinto de sobrevivência.

O mesmo não pode ser dito sobre o Irish Whiskey. Antes de ser completamente obliterado por uma conjunção maluca de fatores na década de 20, a bebida passara por uma época gloriosa. Mais vivo do que nunca, e amplamente consumido na Europa e nos Estados Unidos, tornara-se também matéria prima de coquetéis clássicos importantes, como como Blackthorn, Tipperary e o – um pouco menos famoso – Brainstorm, tema da prova atual.

O Brainstorm foi criado por Hugo Richard Ensslin, um bartender alemão expatriado, que trabalhou no Wallick Hotel, de Nova Iorque, por 1915. Em 1916, Ensslin publicou seu livro de receitas “Recipes for Mixed Drinks” que ganhou notoriedade por conter a primeira versão escrita do famigerado Aviation. Curiosamente, o livro se tornou o último guia de coquetelaria publicado em Nova Iorque antes do Volstead Act entrar em vigor – a famosa lei-seca norte-americana.

A receita publicada de Ensslin pede partes iguais de Benedictine e Vermute – lá, descritos como “dois dashes” – e uma parte generosa – “one drink” – de irish whiskey. Mais tarde, com a lei seca revogada, o coquetel figurou no The Savoy Cocktail Book de Harry Craddock de 1930. Craddock manteve as mesmas proporções, mas traduziu “one drink” para “1/2 wine glass”. Se me permitem uma digressão, boa parte dos coquetéis de Craddock foram, justamente, espólio da era pré-lei seca, mas, certas vezes, com ingredientes vigentes na época de sua publicação.

O Brainstorm ganhou (novamente) fama contemporânea nas mãos de Al Sotack, bartender que trabalhou em bares como Death & Co, Pouring Ribbons e Jupiter Disco. De acordo com Sotack, em matéria para a Punch Drink, os bartenders da época do Volstead Act usavam o Irish Whiskey de uma forma muito específica. “O Irish Whiskey é leve, e a razão pela qual ele não é muito usado em coquetéis é porque ele é facilmente superado”. Mas, não no Brainstorm. Esse, nenhuma curva segura.

BRAINSTORM

INGREDIENTES

  • 60ml Irish Whiskey (é gente, só tem Jameson. Mas sintam-se a vontade de usar outra coisa, se tiver em casa).
  • 15ml vermute seco (Sotack usa Dolin Dry)
  • 15ml Benedictine (esse licor sumiu de nosso mercado há alguns meses. Mas era algo relativamente fácil de encontrar)
  • Parafernália para misturar
  • taça coupe ou de martini

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes no mixing glass e mexa com bastante gelo
  2. desça em uma taça coupe ou de martini
  3. finalize com os óleos essenciais de uma casca de limão siciliano

5 Lançamentos de whisky no Brasil (um mal começou!)

A fortuna favorece os audazes, teria escrito Virgílio. Só quem arrisca ir longe demais descobre até onde pode chegar, completaria T.S. Eliot. Destemido foi aquele que primeiro comeu uma ostra, arremataria Jonathan Swift. Com tanta gente importante dando conselhos motivacionais, duvido que o leitor não se sinta compelido a tentar algo novo.

E por algo novo, não quero dizer nada imprudente. Mantenha seus documentos bem guardados, evite dar – e receber – cadeiradas, e sempre olhe para os dois lados antes de atravessar a rua. Consuma seu espírito de aventura provando um whisky diferente, por exemplo.

Para o mercado brasileiro, os últimos meses foram bastante prolíficos, em lançamentos. Tivemos o primeiro bourbon maturado em barris de vinho; um whisky japonês raríssimo; um blend inovador, dentre outros. Essa lista reúne alguns destes lançamentos, para que você, querido leitor, possa extinguir o décimo terceiro que nem recebeu. Viva perigosamente.

Glenmorangie 18 Infinita

Por muito tempo, a Glenmorangie apostou em sua linha básica no Brasil. 10 anos, e mais três whiskies com finalizações diversas. Atualmente, o portfólio foi expandido, com a adição do Glenmorangie 18 The Inifnita. É o mesmo líquido do antigo 18 Extremely Rare, mas com uma roupagem mais coerente com o novo visual da marca.

A maturação do Glenmoranige 18 the Infinita ocorre em uma combinação de barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey, e carvalho europeu, que maturou vinho jerez. É um dos preferidos do diretor de criação de whiskies da Glenmorangie, Dr. Bill Lumsden. “Para mim, o Glenmorangie Infinita encapsula cada elemento do nosso estilo de casa em perfeita harmonia e é nossa criação mais deliciosamente complexa. 

Angel’s Envy Bourbon

O maior diferencial do Angel’s Envy Bourbon – assim como seu irmão, o Angel’s Envy Finished Rye, já revisto por aqui – é justamente sua maturação um tanto incomum. O whiskey, depois de passar em torno de cinco anos em barris de carvalho americano virgens e tostados, é finalizado por um período de três a seis meses em barricas de vinho do porto. Isso traz ao whiskey um certo aroma vínico doce e frutado.

Isso é bem incomum no mundo dos bourbons, tanto é que tem gente que até acha que a técnica é proibida. Whiskies americanos tendem a maturar em barricas virgens de carvalho americano torradas. Isso se dá por conta da legislação do país – que obriga que todo bourbon, rye ou wheat whiskey estagie nessas barricas. Para os apaixonados por bourbons super-premium, este é escolha certa.

Suntory Hibiki 21

Sempre digo isso quando conduzo eventos com este whisky, e repito aqui. É inacreditável que o Hibiki 21 esteja à venda no mercado brasileiro. É um whisky extremamente raro e concorrido, mesmo em mercados internacionais, bem menos burocráticos e nichados que o nosso. O que indica que, talvez, esta seja a última vez que veremos essa maravilha por aqui.

O Hibiki 21 anos é um blended whisky cujo coração é o single malt Yamazaki, e que leva whiskies das destilarias Hakushu – single malt – e Chita – grain whisky. Whiskies, estes, maturados em barricas de carvalho americano, europeu e japonês – o famoso Mizunara. O componente mais novo tem 21 anos, mas, o aroma e paladar sugerem um overaging relevante. É daqueles capazes de converter até o mais ferrenho entusiasta de single malts para o mundo dos blends.

Macallan Night On Earth

Este é parte de três whiskies da The Macallan que estrearam recentemente no Brasil. O Night On Earth faz uma estranha promessa: “um unboxing espetacular“. São duas caixas, uma dentro da outra, com ilustrações da artista chinesa Nini Sum.

Na composição, o The Macallan Night on Earth leva barricas de carvalho americano de ex-jerez, europeu de ex-jerez e americano de ex-bourbon, algo que acontecia na finada linha Triple Cask. É um whisky sem idade declarada. Sensorialmente, traz notas de frutas e um certo caramelo queimado, ou bala toffee, que é bem agradável, e o destaca dos atuais The Macallan à venda no Brasil. É um malte que sempre convida ao próximo gole.

Royal Salute 21 Miami

Esse nem chegou direito aqui. O que, talvez, faça disso um spoiler. O whisky foi criado por Sandy Hyslop, master blender da Royal Salute. Depois de composto, o blend é finalizado em uma mistura de barris first-fill, previamente usadas para maturar bourbon e rye whiskey. É a primeira vez que a Royal Salute utiliza essa combinação.

Sensorialmente, o Royal Salute Miami Polo Edition é adocicado e levemente apimentado, com uma curiosa nota herbal, que relembra menta fresca, no fundo. Este aroma está mais presente na finalização. O whisky é delicado – mas não tão delicado quanto o tradicional Royal Salute Signature Blend. Em seu coração, ainda está o single malt base de Royal Salute, Strathisla, que também traz um floral perfumado ao blended whisky.

Halloween Whiskies – Travessuras

Eu poderia começar este post declarando minha indiferença pelo Halloween. Argumentar que é uma festa que pouco tem a ver com nossa cultura, e evocar algum colonalismo psicológico que temos. Mas, não vou fazer isso, porque todo mundo faz. Não tem novidade, é bem chato. E tenho pouca fé no poder reformador da palavra. Ainda mais quando escrita em um site sobre whisky. Então, vou falar de uma pequena fração da festa pagã – doces ou travessuras.

Ninguem sabe de onde veio essa história de doces ou travessuras – trick or treat, no original. Mas há algumas teorias. Uma delas diz que durante Samhain (o ano novo celta), as pessoas deixavam comida do lado de fora de casa, para agradar aos espíritos que perambulavam pela terra à noite. Não teria demorado muito até que alguém começasse a se vestir de espírito, pra garantir uma boca livre.

Sou um fantasma. É verdade esse bilete.

Outra especulação vem da idade média. Crianças e adultos com poucos recursos recolhiam alimentos durante o Dia de Todas as Almas, em troca da terceirização da fé. Ou seja, rezar pelos mortos de quem lhes doasse os alimentos. Afinal, rezar não é atividade fim, e tá liberado ceder para a iniciativa privada. Ao longo dos anos, porém, as pessoas trocaram as rezas por música, piadas e outros truques. Parece meio prosaico, mas menhum morto voltou pra reclamar da ausência de suas preces.

Seja como for, a ideia de se fantasiar e trocar doces por travessuras parece divertida. Porém, para que seja ainda mais proveitosa, respeitosamente, sugiro duas pequenas mudanças. A primeira, não se fantasiar. Dá trabalho, é caro, e normalmente as fantasias são quentes, e a gente fica com calor. Então, pode ir de roupa normal mesmo. Em segundo, trocar os doces por whisky. Mas não qualquer whisky. Um whisky temático. Algo que remonte ao sobrentural. Por isso, fiz uma pequena lista de whiskies que – ao contrário de mim – não tem preguiça de se fantasiar no Halloween. Vamos a eles.

É importante mencionar que apenas um dos quatro abaixo está à venda oficialmente no Brasil. Os demais, são pura curiosidade e contemplação.

LMDW Whisky of Mystery – Ben Nevis

Este é um engarrafamento independente, pela La Maison du Whisky – provavelmente a loja com maior variedade de whiskies na Europa, fora do Reino Unido. O whisky tem apenas cinco anos de idade, e foi maturado em barricas de ex-jerez. Porém, tem um perfil intenso frutado, que chega a lembrar maracujá, em alguns momentos.

É curioso que o whisky declara ter sido maturado em “refill sherry butts”, ou seja, barricas de jerez que já foram previamente usadas para maturar whisky antes. O que, pela lógica, indicaria que há pouca influência do vinho em sua maturação. De onde vem estes sabores? Deve ser feitiçaria.

Bowmore No Corners to Hide

Não há muita coisa no vilarejo de Bowmore, exceto pela destilaria homônima, e uma igreja de 1769 com paredes redondas. O templo fora construído desta forma para que o capiroto não tivesse cantos para se esconder. O que se mostrou fortuito, porque, de acordo com o folclore local, o tinhoso efetivamente vistiou o povoado, em 1837, e tentou dessacrar a igreja.

Porém, sem quinas para se esconder, ele foi expulso do local sagrado pelos habitantes de Bowmore, e correu para se esconder na destilaria. A turma até tentou, mas não encontrou o príncipe das trevas, que provavelmente conseguira escapar dentro de um barril de single malt. Dessa história, surgiram algumas edições da Bowmore: O No Corners to Hide, ilustrada por Frank Quietly, e a linha Devil’s Cask.

Tomatin Cu Bocan

Eu sei, a quinta série que vive em mim também não consegue evitar o falso cognato. É até mais engraçado que o tal Mazda Laputa, que foi introdução de uma matéria, há algumas semanas. Mas veja, Cu Bocan não tem nada a ver com os dois pontos extremos do sistema digestivo. Mas é uma expressão em gaélico, que significa “Cachorro Fantasma”.

Cu Bocan é descrito como um cão espectral, preto, com olhos em chamas. Seu papel varia de versão para versão, mas geralmente, ele é um gaurdião de túmulos e locais sagrados. No contexto da Tomatin, é um single malt defumado e mais intenso. As primeiras versões, inclusive, tinham o cãozinho espectral a-la Donnie Darko desenhado no rótulo.

Johnnie Walker Ghost & Rare

Estes são fantasmas do bem. O “Ghost” no nome não tem nada de sobrenatural. Ele faz referência às destilarias que foram fechadas, mas cujo estoque permaneceu. 1983 foi um ano especialmente bom para isso. Port Ellen e Brora – duas destilarias extremamente cobiçadas atualmente – deixaram de funcionar.

Uma década e muito depois, a Diageo, sua proprietária, resolveu lançar uma série de whiskies homenageando tais raridades. Daí surgiu a linha Ghost & Rare, que conta com um blends com base em Port Ellen, Brora e Glenury Royal. Dos whiskies citados, é o único que chegou oficialmente ao Brasil.

Royal Salute Miami Polo Edition – Jardinagem

Quando eu tinha uns treze anos, viajei com meus pais para Miami. E eu adoraria dizer que lembro-me de descer Miami Beach numa Ferrari Daytona preta, à la Miami Vice, ouvindo a música do Will Smith ou do LMFAO, enquanto apreciava a bela arquitetura Art-Decô das boates daquela praia. Mas eu não fiz nada disso.

O que eu fiz foi falar portunhol com todo mundo – ainda que tentasse antes o inglês – e comer horrores. Lembro-me também de passar horas entediado, ao lado do meu pai, em alguma Wallgreens, enquanto minha mãe se regojizava entre os milhares de cremes e maquiagens. Então, não vou falar da minha fastidiosa viagem. Mas vou falar de uma coisa que todo mundo gosta em Miami – e em todo lugar, pra falar a verdade. Ficar pelado.

Aliás, vi uma matéria recente no Miami Herald que a cidade foi nomeada a Capital da Jardinagem Nua da América. A honra foi concedida pelo site LawnStarter, especializado no cultivo de plantas. O prêmio decorreu de uma extensa pesquisa em mais de cem cidades, capitaneada pelo portal. E descobriu-se que os habitantes da maior capital brasileira fora do Brasil amam utilizar grandes tesouras de jardinagem ao lado de suas proeminentes partes íntimas. Houve até uma festa, comemorando a honraria, no dia 01 de maio.

passatempo arriscado

Outra coisa importante que aconteceu em Miami há alguns meses – ainda que com bem mais roupas – foi o lançamento do novo Royal Salute Miami Polo Edition. Numa cor apropriada, considerando o passatempo dos floridianos. Um rosa, quase cor da pele. O lançamento aconteceu em Palm Beach e contou com celebridades como Harry e Meghan, e o jogador profissional de polo e embaixador mundial de Royal Salute Malcolm Borwick – que já foi entrevistado por aqui.

O whisky foi criado por Sandy Hyslop, master blender da Royal Salute (também já entrevistado pelo Cão) e inspirado na “energia ensolarada de Miami”. O blend, depois de composto, é finalizado em uma mistura de barris first-fill, previamente usadas para maturar bourbon e rye whiskey. É a primeira vez que a Royal Salute utiliza essa combinação. A caixa é uma atração à parte: com design art-deco, em homenagem a Miami Beach.

Em uma entrevista concecida ao website Moodie Davitt, Aisling Tobin, chefe de marketing de “travel retail” da Pernod Ricard para as Américas, disse: “Estamos no início de um novo momento emocionante para a Royal Salute. A marca tem tido muito crescimento em mercados nacionais como Brasil, Argentina, República Dominicana e outros, e as pessoas querem ser vistas com a marca. “Um novo tipo de consumidor de luxo está descobrindo a marca.”

Borwick no Brasil, para o lançamento do Snow Polo

Sensorialmente, o Royal Salute Miami Polo Edition é adocicado e levemente apimentado, com uma curiosa nota herbal, que relembra menta fresca, no fundo. Este aroma está mais presente na finalização. O whisky é delicado – mas não tão delicado quanto o tradicional Royal Salute Signature Blend. Em seu coração, ainda está o single malt base de Royal Salute, Strathisla, que também traz um floral perfumado ao blended whisky.

O Royal Salute Miami Polo Edition chega ao Brasil ainda no primeiro semestre de 2024, e terá um preço sensivelmente mais elevado do que os whiskies da linha perene da marca: o Malts Blend e Signature Blend. Ele é a sexta edição da coleção de Polo da Royal Salute, e a quarta a ser lançada oficialmente no Brasil.

O Royal Salute Miami Polo Edition é um blend que te convida a fazer uma viagem sem sair do lugar. Inspirado pela capital brasileira dos Estados Unidos, é perfeito para beber com ou sem roupa, acompanhado ou sozinho, tesoura de jardinagem ou não. Com menos menos portunhol, e – felizmente – bem menos lojas de departamento. Só não esqueça do protetor solar.

ROYAL SALUTE MIAMI POLO EDITION

Tipo: Blended whisky
Marca: Royal Salute
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: 21 anos

Notas de prova:

Aroma: Adocicado e herbal. Menta e pimenta do reino
Sabor: adocicado, com baunilha, mel e gengibre. O final é apimentado e mais seco, com um leve mentolado.

Old Pal – Negroni Month

Pronto, acabou. Não estamos mais no mês do Negroni – o que não poderia tornar esta matéria mais tempestiva. É engraçado que, ano passado, era uma semana só. Agora já tem um mês. Inteiro. Ano que vem teremos o semestre do Negroni, tenho certeza. Ele irá de agosto até o reveillon. E vai ser ótimo, além de super prático, porque já vai estar tudo vermelho, aí não vai precisar mudar a paleta pro Natal.

Medo de dar ideia e alguém gostar

Negroni é um drink interessante. Vi esses dias uma postagem que trazia algumas definições engraçadas do coquetel. Dentre elas, “a forma mais fácil de fazer pessoas normais detestarem coquetéis” ; “diabetes entrelaçada com amargor” e meu absolutamente preferido “Tipo um boulevardier, mas piorado“. A verdade é que Negroni é o pior drink mais viciante que tem. E, certamente o que mais evoca a paixão entre seus entusiastas.

Nada mais natural, então, que ele tenha ramificado para diversas variações, ao longo de sua história. A mais conhecida delas é, alegadamente, o Boulevardier, que troca o gim pelo whiskey. Algo que, convenhamos, deveria ter sido feito desde o primeiro dia. Mas há incontáveis outras. Sbagliato, Negroni Bianco, Last Man Standing, Drunk Uncle, South By Southwest e Valentino, para citar algumas poucas.

O Old Pal é uma dessas. Sua criação é atribuída a Harry MacElhone, do Harrry’s New York Bar de Paris, em 1922. Ele foi uma homenagem do bartender a William “Sparrow” Robertson, jornalista editor do New York Herald de Paris. Seu estilo de escrita fora descrito por outros como “desprovido de sintaxe e ainda mais de gramática elementar“. Porém, independente do mérito literário, Robertson era uma celebridade, um entusiasta do álcool, e um grande camarada de Harry. Por isso, o “Old Pal” – Velho Amigo.

Robertson

A receita original do Old Pal pede partes iguais de Campari, rye whiskey e vermute seco. Este Cão, porém, talvez prefira uma medida mais moderna, que coloca o whiskey em evidência. Dois do destilado americano para um de cada uma das demais partes. Note, entretanto, que isso se baseia em gosto pessoal, e depende muito dos ingredientes específicos usados. Um rye com mais centeio em sua mashbill talvez possa ter uma proporção menor. A dica é que vá experimentando em diversas proporções, até chegar a sua receita perfeita.

Para aqueles que, como eu, gostam de um negroni, mas buscam algo mais equilibrado e fresco, o Old Pal é uma escolha perfeita. Por conta do vermute seco, há menos dulçor, e a impressão é de que o corpo – do drink e o seu – fica mais leve. Mas, sem mais tergiversações, vamos a ele.

OLD PAL

INGREDIENTES

  • 60ml Rye Whiskey
  • 30ml Campari
  • 30ml vermute seco (este Cão usou Dolin Dry)
  • parafernália para mexer
  • Taça coupe ou copo baixo com gelo

PREPARO

  • Adicione os ingredientes líquidos ao mixing glass, e mexa com bastante gelo
  • Desça numa taça coupe previamente resfriada, ou um copo baixo com gelo. A versão clássica pede coupe.

Glenmorangie 16 The Nectar – Maçãs e Laranjas

Hoje vou convidá-lo a um exercício diferente, mas interessantíssimo. Pule até a imagem dos sucos abaixo, e tente encontrar ao menos uma maçã em cada um dos rótulos. Alguns são bem fáceis. Outros, uma verdadeira obra de arte em forma de marketing. É que boa parte deles contém maçã, mesmo sendo de outra coisa completamente diferente, como uva e laranja. A maçã funciona como um agente natural de dulçor, e também reduz o custo de produção da bebida.

Quando isso acontece, as produtoras devem, por lei, incluir a imagem de uma maçã. Para, discutivelmente, mostrar ao consumidor que o suco contém mais de uma fruta. A regra, entretanto, nao especifica muito como. Então, as marcas encontraram formas – as vezes maravilhosamente ardilosas – de atender à obrigação. Volte à imagem do peixinho abaixo e preste atenção às barbatanas. Nem se Van Gogh, Brueghel e Manet se juntassem, fariam uma natureza morta deste nível.

Mas, às vezes, o que não está no rótulo é tão importante quanto o que está. É o caso do – mais ou menos – novo The Glenmorangie 16 The Nectar. Previamente denominado Nectar D’Or, e sem idade declarada, o whisky maturava em barricas de carvalho americano, para, depois, finalizar alguns anos em barris previamente usados para vinho Sauternes francês. Mais especificamente, Chateau D’Yquem. No rótulo anterior, a declaração “Sauternes Cask” foi substituída por “Sweet Wine Casks”.

E ainda que o rótulo não declare, a informação não é difícil de ser encontrada. Ao invés de finalizar exclusivamente em barricas de Sauternes, o whisky, agora, combina quatro vinhos doces diferentes. Sauternes e Montbazillac da França, Moscatel da Espanha e Tokaji, da Hungria. De acordo com a Glenmorangie, cada um contribui com notas distintas, para chegar ao máximo de equilíbrio. De fato, o The Nectar não parece apenas um Nectar D’Or mais maturado. Mas, sim, um whisky diferente.

Sensorialmente, ele é adocicado, com notas de brioche, maçã, amêndoas e mel. É indiscutivelmente doce, mas não a ponto de ser enjoativo. Isso, em boa parte, por conta do new-make spirit da Glenmorangie, que é bastante leve, e deixa a finalização transparecer sem pesar demais. Aliás, em comparação com o antigo, é ainda mais leve, mais floral e menos frutado.

Glenmorangie: ao lado do mar, mas não é salgado.

A maior surpresa, porém, está no bolso. Apesar de ter se tornado um whisky mais maturado, o Glenmorangie 16 The Nectar teve uma redução de preço considerável. O whisky pode ser encontrado por, aproximadamente, 600 reais em pontos de venda. Bem menos do que os setecentos e muito, praticados na versão anterior sem idade. Isso se refletiu, também, nos outros rótulos da Glenmorangie, como o Lasanta e Quinta Ruban.

Para aqueles que procuram um single malt floral, leve e com excelente drinkability, o Glenmorangie 16 será uma grata escolha. Não somente por seu perfil sensorial, mas também, por custar menos do que sua versão anterioralvez, no fim das contas, as transformações discretas no visual sejam menos importantes do que as mudanças que realmente importam. E sem maçãzinha no rótulo.

GLENMORANGIE 16 THE NECTAR

Tipo: Single Malt Whisky

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, floral. Alcaçuz, chocolate branco, coco.

Sabor: levemente cítrico, com chocolate branco e coco. Bastante adocicado, mas longe de ser enjoativo. Final médio para prolongado, picante e floral.

Man O’ War – Esperança

“A única coisa que devemos temer é o próprio medo” – declarou Franklin D. Roosevelt, em seu discurso de posse como presidente dos EUA, em 1933. Não era para menos. O país estava por quatro anos mergulhado na pior crise econômica de sua história até então, a famosa Grande Depressão. Quatro anos antes, em 1929, a bolsa de Nova Iorque colapsara, levando consigo o sistema bancário e o emprego de milhares de norte-americanos. E ainda que, naquela época, isso estivesse longe de ser uma prioridade, nem beber era uma opção. A Lei-Seca estava em vigor.

Neste cenário devastado, surgiu um improvável bastião da esperança. Um cavalo de corrida – sim, pasmem – chamado Seabiscuit. Não por qualquer motivo prático, porque, obviamente, estava longe da capacidade do equino resolver qualquer problema sócio-econômico dos Estados Unidos. Aquilo não era um capítulo de Bojack. Mas por ser uma espécie de personificação – ou melhor, cavalização – da esperança. Seabiscuit era pequeno e subestimado, e teve um difícil início de carreira. Porém, guiado por Tom Smith e Red Pollard – seu treinador e jóquei, respectivamente – se tornou símbolo da luta para superar as adversidades e vencer.

O que poucos sabem – ou não – é que Seabiscuit foi neto de um dos maiores campeões da história do turfe americano, Man O’ War. O cavalo competiu entre 1919 e 1920, e venceu 20 das 21 corridas que participou. Dentre elas Preakness Stakes e Belmont Stakes, parte da tríplice coroa. Deixou de correr o Kentucky Derby por estratégia, e sua única derrota foi por menos de uma cabeça, no Stanford Memorial Stakes.

Com este nome e currículo, naturalmente, Man O’ War não demorou para ser homenagado com um coquetel. No final do século XIX e começo do XX, a corrida de cavalos estava em alta, e muitos coquetéis foram batizados em homenagem aos feitos na pista de corrida. Outro exemplo é o Suburban, já revisto por aqui, e o Futurity. O que, de certa forma, me decepciona. Teria sido muito mais legal se o batismo tivesse se dado por conta da banda, ou de algum enorme navio do século XVI. Mas estou a divagar.

É engraçado que, com essa história, ninguém saiba ao certo quem foi o autor do Man O’ War. Mas isso importa muito pouco. Como a maioria dos coquetéis clássicos, não há qualquer pré-preparo elaborado em sua receita, o que provavelmente contribuiu para que se alastrasse rapidamente. Apenas limão, triple sec, vermute doce e, claro, Bourbon Whiskey – talvez uma referência a Churchill Downs.

O lugar

A escolha dos ingredientes, como sempre, é importante, porque impactará em um drink mais equilibrado. Este Cão escolheu Woodford Reserve, por conta de seu perfil mais equilibrado, e o vermute Dolin, para não dominar o coquetel. O limão deve ser espremido e fresco – é um produto que oxida rápido, e a receita demanda um certo frescor para ficar interessante. O triple sec é a escolha mais fácil. Cointreau. Ainda que, psicografando, em um palpite educado, Cointreau Noir possa dar uma boa profundidade. Tenho até medo de propor uma versão clarificada disso. Deus me livre e quem me dera, para usar um lugar-comum.

Man O’ War é um coquetel distinto. Não apenas por seu perfil de sabor e relativa simplicidade. Mas, também, por toda a história que o envolve. Parte da experiência da coquetelaria é isso. Criar uma experiência atemporal, mas que seja o retrato autêntico de sua época. Vamos à receita.

MAN O’ WAR

INGREDIENTES

  • 60ml Bourbon Whiskey
  • 30ml triple sec (algumas receitas pedem curaçao Não há qualquer boa razão para arruinar seu drink, exceto se tiver acesso a um curaçao muito bom)
  • 45ml vermute doce
  • 45ml suco de limão siciliano fresco (não tenha preguiça)
  • Parafernália para bater
  • Taça coupé

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes na coqueteleira. Menos a taça. Isso é importante, porque pode tornar este, potencialmente, o último drink da sua vida.
  2. Bata vigorosamente e desça na taça coupé previamente resfriada
  3. Se estiver se sentindo elegante, decore com uma maraschino ou um twist de siciliano

Glenmorangie 18 The Infinita

Em 1726, Jonathan Swift descreveu em As Viagens de Gulliver um curioso território insular que flutuava sobre o ficcional reino de Balnibarbi. A ilha, com sua base magnética de adamântio, era habitada pela realeza e nobreza de Balnibarbi. Seres extremamente inteligentes, mas totalmente desconectados da realidade prática. Absorvidos por ideias abstratas e complexas, se viam incapazes de preparar uma refeição sem algum auxílio de humanos mais pragmáticos. Swift, que escrevera a obra em inglês, nomeou a ilha de Laputa.

O nome, entretanto, teria passado despercebido pelos anais literários, não tivesse sido resgatado pela Mazda. Em 1999, a fábrica japonesa de automóveis lançou um novo carro, e, inspirada pela erudita referência, decidiu que seria uma boa ideia batizá-lo de Laputa. O que, na cabeça de seus executivos – que muito bem poderiam ser habitantes da ilha ficcional – evocava um ar de inovação e sofisticação flutuante.

Com placa personalizada

Assim surgiu o Mazda Laputa, que rapidamente se tornou uma piada pronta para nós, afortunados falantes de línguas latinas. Diante do constrangimento, a Mazda tomou a decisão de reintroduzir o carro com o nome de Verisa. Que foi escolhido pela sonoridade, não significa nada, e – nem de longe – é tão legal quanto Laputa. Seja pelo real significado, inspirado na literatura, ou pela referência vulgar.

E talvez você se lembre que há alguns anos, fiz uma notinha sobre o Glenmorangie 18 anos, que, na época, ostentava o nome de Extremely Rare. Naquele ano, o whisky não era vendido oficialmente no Brasil, e fazia juz a sua alcunha. Não era nada fácil de encontrar. Há um par de anos, porém, a destilaria decidiu que ser extremamente raro não era uma boa. Em um drift de rebranding, então, resolveram o oposto: que ele seria infinito – o que, nem de longe, evoca o ar de exclusividade da denominação anterior. Rebatizado de Glenmorangie 18 The Infinita, o single malt acaba de chegar oficialmente às prateleiras brasileiras.

Curiosamente, exceto por agora carregar o peso da eternidade, nada mudou no líquido do Glenmorangie 18 anos – que continua excepcional. Seja infinitamente raro ou só infinito mesmo, o Glenmorangie 18 anos traz notas de mel, frutas secas, baunilha e caramelo. O álcool é extremamente bem integrado e delicado. A finalização no paladar, ainda que não seja infinita, é longa e adocicada. É uma garrafa perigosamente fácil de percorrer. O que torna ainda mais irônica a referência ao infinito.

A maturação do Glenmoranige 18 the Infinite ocorre em uma combinação de barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey, e carvalho europeu, que maturou vinho jerez. O processo consiste em maturar, por um certo tempo, o destilado em barricas de ex-bourbon, e depois transferir aproximadamente 30% dele para barricas de ex-jerez. As duas partes então passam mais alguns anos nestas barricas distintas, até serem reunidas novamente, cortadas e engarrafadas. Atualmente, é um processo de maturação bastante tradicional, e cria um contraponto com os demais whiskies da linha permanente da Glenmorangie, que utilizam barricas mais incomuns, como Sauternes e vinho do Porto.

A antiga garrafa

O Infinita é um dos preferidos do diretor de criação de whiskies da Glenmorangie, Dr. Bill Lumsden. “Para mim, o Glenmorangie Infinita encapsula cada elemento do nosso estilo de casa em perfeita harmonia e é nossa criação mais deliciosamente complexa. Um favorito entre os amantes de uísque antigos e novos, ele une perfeitamente toques sutis de barril de xerez e notas amadeiradas de sua grande idade, com o caráter suave e frutado característico da nossa destilaria. O resultado é um single malt lindamente equilibrado, tão multicamadas que é como se você estivesse bebendo um uísque diferente a cada vez” – disse ele.

No Brasil, uma garrafa de Glenmorangie 18 Infinita custa em torno de R$ 1.000. É um ótimo preço, considerando que o único single malt com essa idade, e preço inferior, é o The Glenlivet 18 anos. E, sensorialmente, ele não deixa nada a desejar. Traz uma nota cítrica, de casca de laranja, e um final longo e delicado. É bem distinto de seus irmãos mais novos.

Assim como a ilha de Laputa, cuja sofisticação intelectual era, por vezes, desconectada da realidade, o Glenmorangie 18 Infinita carrega um nome que pode parecer audacioso demais para alguns. Mas, ao contrário dos laputianos, esse single malt prova que, por trás do novo rótulo, há substância de sobra. Bem que ele podia ser, de fato, infinito.

GLENMORANGIE 18 ANOS THE INIFINITA

Tipo: Single Malt Scotch Whisky

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado, cítrico, com aroma de casca de laranja

Sabor: seco e delicado, com nota de laranjas e damasco. Final longo, delicado e frutado

Entrevista com Elizabeth McCall, Master Distiller da Woodford Reserve

Sentado no bar, lá pelas tantas, um conhecido meu surge com uma analogia sobre a vida. “Olha, imagina que sua vida é um pote enorme. E você tem na sua frente, duas porções de bolinhas de gude. Numa delas, todas são transparentes. Já a outra, têm bolinhas de várias cores” – um gole na cerveja, antes de seguir, para fins dramáticos – “No final de cada dia, você têm que colocar uma bolinha no pote. Se você fez algo legal, relevante, põe uma colorida. Mas se ficou lá, só flanando, deslizando pela sua rotina, tem que usar uma transparente.” – disse, apertando os lábios.

E aí, você vai ver que no final, vai ter muito mais bolinha transparente do que colorida“. Levantei as sobrancelhas “Tá, e tomar cerveja aqui, conta como colorido ou transparente?“. Pela revirada de olhos, notei que ele não gostou da coça. Mas a analogia, no fundo, era boa. Poderia induzir a comportamentos imprudentes, mas era, basicamente, aquele papo que a Jack Daniel’s tinha, há uns anos. “Make it Count“.

Making it count

E tive uma prova prática dessa filosofia ao viajar com a Brown Forman para os Estados Unidos. O objetivo era conhecer as destilarias do grupo e as pessoas por trás de suas marcas. Foram apenas cinco dias, mas com cada minuto preenchido. Passamos por quatro cidades, conhecemos três destilarias e participamos de uma corrida de cavalos em Churchill Downs – como espectadores, obviamente. Dormimos em três lugares diferentes, dentre eles, um trailer camp bem no meio da Jack. Visitamos bares, casas históricas e até um cemitério.

Mas o ponto alto de toda a experiência, sem a menor dúvida, foi conhecer as pessoas por trás dessas marcas icônicas. Ver que o whiskey no copo é, na verdade, a soma do conhecimento de dezenas de profissionais excepcionais. Como, por exemplo, Elizabeth McCall, a master distiller da Woodford Reserve. E este Cão teve a oportunidade de entrevistar McCall, logo após uma visita à destilaria. O resultado – porcamente traduzido – você vê aqui.

Esse foi, certamente, o dia de uma bolinha colorida.

Como você vê os consumidores bebendo whiskey hoje em dia?

Meus amigos não bebiam whiskey porque são inacessíveis sensorialmente, ou alto teor alcoólico. Então, se você ensina as pessoas a reduzi-lo a coquetéis simples, ele se torna mais acessível. Meu coquetel favorito é um Manhattan. Mas no verão, fazemos uma limonada de whiskey com Woodford Bourbon. É muito bom porque ele estica, reduz o teor alcoólico e é uma boa bebida para um dia quente. Então, há muitas maneiras de tomá-lo, que não são muito alcoólicas.

Qual é sua maneira favorita de beber whiskey?

Seria com gelo, como quando eu bebo em casa. Eu apenas encho um copo com gelo e, em seguida, completo com Woodford.

E qual é sua expressão favorita de Woodford Reserve?

Ah, é o Double Oaked. Na verdade, foi ele que tomei, da primeira vez que bebi whiskey com gelo. Não em um coquetel – só com gelo, mesmo. Talvez tivesse um pouco de limão, mas era só isso. Acho que foi em 2012 ou 2013. Estávamos em um jantar de trabalho com colegas e um deles pediu. Eu pensei “olha lá, acho que vou experimentar isso daí”.

Eu já estava trabalhando para a Brown-Forman na época. Mas eu ainda estava no laboratório de pesquisa e desenvolvimento em controle de qualidade. Então eu não estava trabalhando na destilaria. Eu trabalhei com todas as marcas (da Brown-Forman). Mas eu sempre tive uma queda pela Woodford. É uma marca linda em todos os sentidos possíveis.

Você de alguma forma previu que se tornaria master distiller?

Não! Quando comecei, ela (Woodford) era muito pequena. Mas sempre foi essa marca boutique de alto luxo, alta qualidade e aspiracional. Sempre foi algo que você pensa “isso é bom, eu quero isso no meu backbar e quero fazer parte disso”. E agora, trabalhar para a marca é como um sonho que se tornou realidade.

E como isso aconteceu?

Foi uma evolução da oportunidade de ser o “master taster”. Fui promovida a embaixadora da marca. Aí, tive oportunidade de trabalhar com o master distiller (Chris Morris – já entrevistado pelo Cão), e conhecer e provar nossos produtos e ajudar com a inovação. E comecei a trabalhar em mais qualidade aqui. Trabalhei na produção em Woodford, e isso me levou a ser master distiller. Mas nunca foi minha escolha quando comecei a trabalhar.

Morris

Qual é o maior desafio em ser um master distiller?

Acho que o maior desafio agora é a inovação e lançar as coisas o mais rápido possível. E isso é muito difícil. Só de pensar em novas maneiras interessantes de apresentar nosso whiskey, que não pareçam uma trapaça, ou não seja apenas para chamar a atenção. Mas que realmente permaneça fiel à marca e ao coração e à alma de Woodford. Porque há tantas tendências por aí.

Há pessoas que simplesmente aderem à tendência. E você sabe que não é autêntico para a marca. Então, o desafio é: “Como você se mantém fresco na mente dos consumidores, ainda mantém a inovação, mas é sincero?”

Como é o processo criativo de criação dessas inovações?

É realmente tirar inspiração do mundo. No que as pessoas estão interessadas? E então, também, o que está ao seu alcance. Tipo, o que podemos fazer? Então, quando eu estava mencionando acabamentos de barril, por exemplo. Temos uma vinícola com a qual trabalhamos. É da família Brown-Forman (Sonoma Cutrer). Então, há uma oportunidade aí! E também, nós sustentamos de documentos históricos o que podemos trazer de volta à vida. Então, há muitas áreas com as quais você pode brincar.

Qual produto seria novo de Woodford?

Acabamos de produzir um whiskey de chocolate com caramelo. Isso sairá em 10 anos a partir de agora. Você tem que esperar muito tempo, mas talvez menos. Mas o mínimo de 5 anos, então você só tem que esperar muito tempo, então quando inovamos hoje, isso nos toma muito.

Mas vai mais rápido do que você pensa. E então e então algumas das outras coisas são apenas misturas divertidas que fizemos olhando no depósito. Que estoque temos em excesso ou barris restantes de algo e você começa a pensar no laboratório e a juntar lotes e se divertir!