Uma vez, li uma matéria sobre como as montadoras escolhem os nomes de seus automóveis. É interessantíssimo. E complicado. O que parece natural é, na verdade, um complexo processo criativo. Primeiro, as companhias consultam seus departamentos de marketing para determinar palavras que refletem o perfil do veículo. Literalmente centenas de ideias são concebidas.
Depois, especialistas de diversas áreas escolhem os nomes com base nos mais distintos critérios. Por exemplo, não pode ser uma marca registrada de alguma outra empresa. Não pode ser uma gíria, não pode ser um palavrão em outra língua e tem que soar bem. Isso tudo significa que por trás de todo Ford Pinto, Kia Besta, Mazda Laputa, Lancia Marica e Fiat Punto (experimentem arrancar o “n”) há uma equipe de dezenas de pessoas que falhou miseravelmente.
Recentemente, uma das mais famosas marcas de single malt do mundo correu o mesmo risco. A The Macallan, ao lançar sua coleção Quest. A antiga linha 1824 foi substituída por uma de produtos com denominações, diremos assim, mais criativas – Quest, Lumina, Terra e Enigma. E tudo bem, porque os nomes soam bem e, de certa forma, transmitem a noção de sofisticação que a marca pretende passar. Porém – e na singela opinião deste canídeo – há um pequeno problema. Assim como no caso do Fiat Linea, Hyundai Azera e Honda Accord, os nomes não significam nada. Afinal, luz é menos ou mais sofisticado que terra e enigma?
fail (veja a placa)
Por sorte, a The Macallan compensou rebatizando algumas de suas linhas com nomes bem concretos. Como, por exemplo, a Fine Oak – que passou a se chamar Triple Cask. E as demais linhas com maturação mínima estampada no rótulo, também. Sherry Oak, Double Cask e Triple Cask, acompanhados da declaração mínima de idade. Tudo (quase) que o consumidor quer saber já está declarado lá, no nome – sem correr o risco de trocadilhos idiomáticos ou muita abstração. Como é o caso do Macallan Triple Cask 15 anos, matéria desta prova.
Vamos a ele. Nas palavras da The Macallan “Amadurecido em uma combinação única e complexa de barris, a linha Macallan Triple Cask Matured oferece um caráter extraordinariamente suave e delicado, porém complexo, extraído de barris de carvalho temperados com xerez europeu e americano e barris de carvalho americano ex-bourbon. Anteriormente conhecida como The Macallan Fine Oak, a linha oferece o mesmo whisky com um novo nome e uma nova garrafa; refletindo a qualidade de nossos uísques e revelando as habilidades e habilidade dos Mestres Macallan.”
Neste ponto, você já deve ter intuído uma coisa ou duas sobre o Macallan Triple Cask 15 anos. A primeira é que, bem, a idade do malte mais jovem em sua mistura é 15 anos. E a segunda, é que o whisky utiliza três tipos distintos de barricas. Aqui, no caso, barricas de carvalho americano e europeu que antes contiveram vinho jerez, e barricas de carvalho americano que antes maturaram bourbon whiskey. Bem objetivo – sem alcunhas rebuscadas.
A linha Triple Cask – outrora batizada Fine Oak – foi lançada em 2004, e trouxe algo novo aos whiskies da The Macallan. O uso de barricas de carvalho americano de ex-bourbon. É que tradicionalmente a destilaria utilizava predominantemente barris de ex-jerez. No entanto, o aumento da produção, aliado ao custo e à busca por novos consumidores – que muitas vezes desejam whiskies mais delicados – fez com que a The Macallan diversificasse sua oferta de whiskies.
As três linhas
E ainda que o nome seja de uma singeleza cristalina, o líquido é de uma sofisticação rara. O Macallan Triple Cask 15 anos é um single malt de aroma extremamente equilibrado, com notas de caramelo, baunilha, mel, creme brulee, pimenta do reino e um toque de frutas secas. Tudo está lá exatamente onde deveria – nenhum dos aromas supera o outro. O paladar, por sua vez, acompanha o aroma, e traz a característica oleosidade tão conhecida dos The Macallan.
A textura do The Macallan Triple Cask 15 anos se deve, especialmente, aos alambiques da The Macallan. São os mais baixos de toda a Escócia. Seus lyne arms são voltados para baixo, para maximizar a condensação e reduzir o refluxo. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso. Para contrabalancear uma hipotética agressividade, o corte do coração da The Macallan é justíssimo: Apenas dezesseis por cento do destilado – produzido no meio do processo de destilação no alambique – vira single malt.
Dentro da linha Triple Cask da The Macallan, o 15 anos é talvez o favorito deste Cão Engarrafado – especialmente por conta do mencionado equilíbrio de barris e new-make. E, também, de Dave Broom! De acordo com o renomado jornalista “ele leva tempo para abrir, mas vale a pena a espera. É o pacote completo, e, discutivelmente, o melhor. Nota 9 e 1/4 de 10.”
Se você procura um whisky sofisticado, com aroma equilibrado e ao mesmo tempo personalidade, o Macallan 15 Triple Cask é a sua escolha. Sem nomes rebuscados de significados enigmáticos. Apenas um single malt extremamente bem feito e lapidado, capaz de agradar tanto o ferrenho entusiasta quanto o mais eventual bebedor.
Tom Freston uma vez disse que a inovação e pegar duas coisas que já existem e juntá-las de uma forma nova. O que é verdade. Mas o que Freston se furtou a dizer é que, às vezes, a história não dá muito certo. Como por exemplo um certo carro voador, o Ave Mizar, já mencionado por aqui. O Mizar era a prova de que a soma entre duas coisas ruins sempre resulta em algo muito pior.
Por outro lado, o resultado da reunião de duas coisas boas – por uma mente criativa, aliando técnica e conhecimento – geralmente se torna maior do que a soma de suas partes. É o caso, por exemplo, do hambúrguer. E, na indústria do bourbon whiskey, de uma série de produtos da Woodford Reserve. E a mente criativa por trás da marca de enorme renome é Chris Morris.
Chris Morris não é um master distiller qualquer. Ele é o criador de produtos incríveis como o Woodford Reserve Double Oaked e o Woodford Rye. É também responsável pela Master’s Collection – uma série de edições períodicas limitadas da Woodford Reserve, que introduzem inovações no mundo do whiskey americano, como um single malt maturado em barricas virgens, um bourbon finalizado em barris de vinho tinto e um borbon que leva cevada defumada na mashbill.
Sonoma-Cutrer – Bourbon finalizado em Pinot Noir
Chris começou sua carreira em 1976 na própria Brown-Forman, a multinacional que detém a Woodford Reserve. Em 1997, tornou-se aluno de Lincoln Henderson, o primeiro Master Distiller da Woodford Reserve. Em 2003, tornou-se o segundo – e é esta a posição que ocupa até os dias de hoje.
Entrevistar Morris não é exatamente fácil. A tentação é perguntar sobre todas as inovações já produzidas, e sobre os planos para o futuro. Ainda mais em um papo exclusivo. Afinal, a Woodford Reserve é aquele tipo de marca que dita tendências – que transforma a inovação em algo palpável – e, bem, palatável. O resultado da entrevista você confere a seguir.
Você é um dos mais respeitados master distillers da indústria do Bourbon. Como alguém vira um master distiller? Como foi seu começo?
Chris Morris: Servir como master distiller da Woodford Reserve é uma grande honra e uma grande responsabilidade. Minha jornada começou em 1976, quando iniciei minha carreira em nosso laboratório analítico e sensorial da destilaria. De lá, trabalhei na parte de engarrafamento, nossa tanoaria de barris, destilaria, nos armazéns de maturação e guarda de barris, bem como em vendas e marketing.
Em outras palavras, tive uma ampla gama de experiências em nosso setor. Durante essa jornada, também tive o privilégio de trabalhar uma quantidade significativa de tempo nas destilarias de scotch, irish whiskey e tequila. Minha última função antes de ser nomeado master distiller foi “Master Distiller in Training”. Isso me permitiu a oportunidade de dedicar 100% do meu tempo na preparação para a minha função atual. Foram necessários 28 anos de preparação e experiência, dois diplomas de pós-graduação e participação em vários seminários antes de minha promoção a master distiller em março de 2003.
A Woodford Reserve é parte da Brown-Forman, que também é proprietária da Jack Daniel’s. No entanto, a Woodford é vista como uma destilaria “craft”, artesanal. Como você mantém a característica “artesanal” ainda que faça parte de uma empresa tão grande?
Chris Morris: Woodford Reserve é capaz de permanecer “craft” dentro de uma grande empresa global, Brown-Forman, devido à estrutura da empresa. Na Brown-Forman, cada marca e sua destilaria operam como um negócio independente dentro do negócio maior. Woodford tem sua própria equipe de gerenciamento de marca, de produção e times locais específicos de vendas e marketing em todo o mundo. O diretor global de marca e eu somos parceiros encarregados de manter a qualidade da marca e seu desempenho nos negócios. Isso nos permite seguir nossa vocação, que se concentra na apresentação do sabor do produto.
Como membro de uma empresa multinacional (Brown-Forman), a Woodford Reserve se beneficia de sua rede de distribuição global (da Brown). Isso nos permite expor a Woodford a um número maior de consumidores em todo o mundo. Também nos ajuda a fazer avaliações precisas do volume da demanda do mercado por país. Isso é necessário para nós à medida que construímos nossos planos de destilação de longo prazo e estoque de barris.
O que faz Woodford Reserve tão especial, em sua opinião? Em outras palavras, como você convenceria alguém a beber Woodford ao invés de outro bourbon?
Chris Morris: Woodford Reserve é especial e se destaca de outros grandes bourbons do Kentucky por uma série de razões. A chave do seu sucesso é o nosso conceito Five Sources of Whisky Flavor e o equilíbrio resultante das Five Areas of Whisky Flavor. Nossa destilaria é a primeira nos Estados Unidos a utilizar a tripla destilação em alambiques de cobre (feitos na Escócia), a fermentar o dobro do tempo das outras, a usar a cepa de levedura Woodford Reserve e a amadurecer em barris personalizados de nossa própria tanoaria. Estas características de produção exclusivas permitem que o Woodford Reserve tenha um equilíbrio complexo de notas aromáticas doces, frutas e florais, especiarias, madeira e grãos.
Os Alambiques da Woodford (fonte: Whisky.com)
Até peço desculpas antecipadas pela declaração – mas eu adoro misturar Woodford Reserve. Acho uma ótima base para coquetéis. O que você acha de coquetéis com Woodford?
Chris Morris: Sou um grande fã de usar Woodford Reserve nos coquetéis. A melhor maneira de fazer um ótimo coquetel é usar a melhor base nesse coquetel. Começando em 1999, quando o Woodford Reserve foi nomeado o primeiro “Bourbon Oficial” do Kentucky Derby, nos tornamos perfeccionistas em Mint Julep. O Mint Julep adquiriu ao longo dos anos uma imagem bastante ruim e era raramente servido em bares e restaurantes por muito tempo. Devido aos esforços de Woodford, agora é possível desfrutar de um Mint Julep nos Estados Unidos e em muitos outros países.
Woodford também estabeleceu a competição Woodford Reserve Manhattan há 12 anos. Esta se tornou uma das competições de coquetéis de whiskey mais prestigiadas do mundo. Recentemente, Woodford foi nomeado o “Bourbon Oficial da Old Fashioned Week” em uma plataforma global. Assim, fica evidente que Woodford Reserve teve um papel importante no retorno de “Cocktails Clássicos” à popularidade.
A Woodford Reserve tem um Single Malt, certo? É como um single malt escocês ou há diferenças na produção e sensorial?
Chris Morris: A Woodford Reserve lançou o primeiro Single Malt Whiskey do Kentucky (Kentucky Single Malt) em 2009 por meio de nossa linha de produtos Masters Collection. Foi oferecido em duas expressões – uma envelhecida em barris previamente utilizados para maturar outra bebida, como muitos single malts escoceses e outra envelhecida em barris novos. Para mim, o malte envelhecido em barril virgem era o mais complexo dos dois.
Desde então, o novo movimento de microdestilarias nos EUA tem defendido Single Malts. Eu não queria que parecêssemos um seguidor em vez de os pioneiros que somos, então criamos o primeiro e único single malt do Kentucky. A utilização de milho e centeio na receita, bem como de uma barrica virgem carbonizada, resultou em um perfil de sabor que considero único no universo do whiskey.
Não poderia concordar mais! Agora, sobre finalização. Glenmorangie e Balvenie foram pioneiros na técnica de “finishing” (transferir um whisky para um tipo distinto de barril para agregar complexidade sensorial). A Woodford Reserve é pioneira nessa técnica nos Estados Unidos – com o chardonnay cask. Como vocês tiveram essa ideia? E…. continua sendo bourbon?
Meu interesse em finalização (de barricas, finish) começou com minha experiência na indústria de Single Malt Scotch. Notei que o uso de barris de vinho fortificado (porto, xerez, madeira etc.) era bastante comum. Por que ninguém estava usando barris de vinho varietal, eu me perguntei? Isso me levou a adquirir barris de chardonnay, pinot, cabernet, zinfandel e outros para testar a finalização.
Depois de muitas tentativas e erros, colocamos nosso aprendizado à prova com o lançamento do Chardonnay Finish da Masters Collection em 2007 e, apesar da tempestade que causou entre os aficionados dos bourbon, foi um grande sucesso. Desde então, também somos os pioneiros no acabamento Pinot Noir e, com nossas credenciais de acabamento estabelecidas, passamos para os acabamentos de vinho fortificado menos controversos.
Água fria num dia quente. Água quente num dia frio. O lado geladinho do travesseiro. O cheiro de carro novo, de lareira em brasa e de grama molhada. Tirar o sapato apertado. Despertar no meio da noite apenas para notar que ainda falta mais de quatro horas para o despertador tocar – e adormecer novamente. Aliás. Adormecer. Anestesia de dentista. Ou qualquer anestesia.
Há coisas tão simples no mundo, mas que, ao mesmo tempo, dentro de sua infinita singeleza, são absolutamente deliciosas. São pequenos grandes prazeres, provavelmente os únicos consensos absolutos. Afinal, é impossível não gostar de tirar um sapato apertado.
De Bacon a Vida
Dentro do mundo das comidas, um destes consensos é bacon. E olha, nem estou falando sempre do bacon suíno, porque você pode ser vegetariano ou vegano, eu eu respeito isso. Considere, neste caso, que me refiro a um bacon de berinjela, ou batata, sei lá. Mas aquele sabor característico de fumaça, aliado ao salgado, com crocância e apenas um toque de maciez é impossível de odiar. O bacon é um dos únicos alimentos irretocáveis do mundo.
Mas, mesmo assim, nos atrevemos a modificá-lo. Talvez não para aprimorá-lo, mas para transformar em algo tão maravilhoso quanto, só que um pouquinho distinto. E, para isso, adicionamos outra coisa que é irretocável. Bourbon whiskey. E maple syrup, só para adocar. E como um megazord da perfeição, criamos esta receita. Um Whiskey Bacon. Perfeito para ser degustado ao lado de sua dose favorita, ou, quiçá, em um BLT.
Assim, preparem seus cadernos mentais e tomem nota. Uma receita tão simples quanto virar o travesseiro do lado frio, mas tão deliciosa quanto o aroma de lareira em brasa. Porque os melhores prazeres são os menores prazeres.
BOURBON WHISKEY BACON
INGREDIENTES
250g bacon
30ml açúcar mascavo
30ml maple syrup
15ml bourbon whiskey
PREPARO
Pré-aqueça seu forno, fogo alto.
Misture, em um pote, o açúcar mascavo, maple syrup e whiskey até que fique homogêneo.
glaceie o bacon com a mistura de maple-whiskey-açúcar mascavo
prepare uma assadeira com papel alumínio e coloque o bacon sobre ele. Leve ao forno por aproximadamente 20 minutos, ou até que o bacon fique crocante. Tome cuidado, os ultimos minutos são cruciais!
É engraçado como, às vezes, uma pequena fração de algo se torna quase tão célebre quanto seu todo. Um bom exemplo é uma singela frase que Tolstoi, em certo ponto de sua obra prima Anna Karenina, coloca na boca de uma personagem. “Se você procurar por perfeição, nunca estará satisfeito“.
A declaração, promovida a aforismo, é um trecho de um papo entre Lvov e sua esposa, lá pelo meio da obra. Mas hoje, pouca gente sabe de onde veio a simples mas significativa frase. É como se Tolstoi, em pessoa, a tivesse proferido, em algum momento marcante de sua vida. Descontextualizar a declaração da esposa de Lvov não a faz perder o sentido. Pelo contrário – eleva e expande seu significado.
Talvez seja isso que torne Anna Karenina tão clássico. Apesar da barreira da linguagem – afinal, falar russo não é nada simples – e da época em que foi escrito. O livro é o ícone de uma era e de um estilo, e, mesmo assim, continua atual e significativo.
Ao contrário desse filme maluco
Se pudesse traçar um paralelo entre a obra-prima de Tólstoi e um coquetel, escolheria o Manhattan. O Manhattan é um coquetel clássico, um dos maiores ícones de uma época que viu um enorme avanço na coquetelaria. Mas, apesar de sua idade, o Manhattan resistiu ao tempo. À Lei Seca, a duas grandes guerras, à queda e à ascensão da coquetelaria. E hoje, continua uma das misturas mais pedidas do mundo.
Claro que, com o tempo, houveram algumas adaptações. A primeira receita levava whiskey de centeio – rye whiskey – que era o destilado mais comum nos Estados Unidos na época de sua criação. Depois da lei seca, com o desaparecimento dos produtores de Rye em Maryland e Pennsilvania, e com a popularização dos bourbons do Kentucky e Tennessee, o coquetel ganhou uma nova base. O Bourbon. Que, no final das contas, acabou se tornando seu ingrediente mais frequente.
Mas ocorre que nós, aqui no Cão Engarrafado, gostamos de contar histórias. E bebê-las. Por isso, pedimos ao Patrón Perfeccionist (trocadilho intencional) Rodolfo Bob, consultor de nosso bar Caledonia Whisky & Co. e autor do site O Bar Virtual, adaptar uma versão com rye whiskey do clássico. Escolhemos Jim Beam Rye, lançamento no Brasil, como base de nosso coquetel e uma variação clássica do clássico – o Perfect Manhattan.
Jim Beam Rye
A receita tradicional do Perfect Manhattan leva partes iguais de vermute tinto e seco. A base poderia ser tanto bourbon quanto rye. Porém, almejando a perfeição, Bob alterou um pouco a receita, para que pudesse utilizar uma gama maior de vermutes. E claro, como dito, utilizou Jim Beam Rye. Porque ninguém é perfeito, mas isso não quer dizer que não podemos tentar criar um coquetel assim.
O resultado é o Perfect Manhattan da receita abaixo. Com partes desiguais de vermute, e com rye whiskey ao invés de bourbon – numa forma de resgatar a receita clássica, pré-lei-seca do drink. Nós adoramos o resultado. Mas, se você não gostar, não tem problema. Mas lembre-se que se você procurar por perfeição, nunca estará satisfeito.
JIM BEAM RYE PERFECT MANHATTAN
INGREDIENTES
60 ml de Jim Beam Rye
15 ml de vermute tinto
10 ml de vermute seco
2 dashs de angostura
coin de laranja (isso é uma tampinha da casca da laranja)
Parafernália para misturar (mixing glass, bailarina etc. etc.)
PREPARO
juntar os ingredientes no mixing glass. Acrescentar gelo e mexer .
passar o líquido sem o gelo para uma taça previamente gelada.
aromatizar com um coin de laranja Bahia e servir junto com o coquetel
Se você gosta do Ashton Kutcher, talvez esteja familiarizado com uma importante conceito da teoria do caos. O Efeito Borboleta. De uma forma (bem) simplificada, a formulação estabelece que pequenos eventos podem ter efeitos não-lineares em sistemas muito complexos. Por não-lineares, leia-se, enormes ou insignificantes. Deixa eu dar um exemplo, sem usar o clichê da tal borboleta que causa um furacão.
Há um provérbio alemão – mais tarde transformado em verso por Benjamin Franklin – que conta a história de um prego solto na ferradura de um cavalo. Um prego que poderia ter causado a queda de um cavaleiro, que levaria à ruína de uma batalha, que desembocaria na perda de uma guerra, e finalmente, na destruição de um reinado. Ou não. Porque, considerando todas as infinitas variáveis daquele momento – dentre elas um único prego na ferradura de um cavalo – seria impossível de dizer ao certo.
E foi provavelmente, por conta do Efeito Borboleta – desta vez, em nosso favor – que lançamos um whisky. Sim, nosso primeiro whisky, com o rótulo do Caledonia Whisky & Co – nosso bar em São Paulo. O Lamas Nimbus Caledonia. Um single malt produzido em Minas Gerais pela destilaria Lamas. Uma edição limitada a duzentas e cinquenta garrafas de um litro – inteiro, pra não ter miséria – numeradas.
Detalhe da numeração
A história do Lamas Nimbus Caledonia é engraçada. Em 2014 criamos um blog de whisky com uma pegada de coquetelaria e cerveja – porque a gente sempre gostou de beber whisky, coquetel e cerveja. Desde então, o blog deu uma crescida. E o mercado brasileiro também. Novas destilarias foram fundadas, e antigas destilarias lançaram novos produtos. Eventos, feiras e palestras (de cerveja, whisky e coquetelaria) aconteceram. Dentre elas, o Bar Convent Brasil, em 2018.
E foi lá, que por uma conjunção de fatores imprevisíveis, que conhecemos a Lamas Destilaria. Não haveria outra forma de explicar o encontro, senão pelo efeito borboleta. A fundação de uma destilaria em Minas Gerais, que teria se interessado por participar de um evento em São Paulo voltado para o mundo dos coquetéis. Ao mesmo tempo que nós, desavisados, recebíamos o convite para palestrar lá. Um prego no pneu do táxi, um voo atrasado, poderia ter mudado tudo. Mas não mudou. E de uma conversa no primeiro dia, lá, no meio da feira, surgiu essa criança – que, nos próximos dois anos, na base do diálogo e troca de amostras, nasceu.
O Lamas Nimbus Caledonia compartilha as mesmas bases do Lamas Nimbus (defumado) e do Verus (frutado). É um single malt que junta new-makes defumado e não defumado, finalizado por quase um ano em barricas de carvalho que antes contiveram vinho licoroso, semelhantes a vinho do porto. A graduação alcoólica – tema de bastante discussão – é de 50%. Para garantir que o bebedor possa prová-lo como preferir. Com ou sem água.
A parcela enfumaçada do malte do Lamas Nimbus Caledonia passa por um curioso e inovador processo de defumação usando madeira de reflorestamento. A destilaria umedece novamente os grãos secos do malte, para, em seguida, os secar de novo num defumador projetado especialmente para esse trabalho. A madeira, quando queimada, libera compostos com aldeídos e fenóis, tornando o malte enfumaçado – um enfumaçado bem diferente daquele da turfa. Mais picante e amadeirado, e menos medicinal.
Alambiques da Lamas
Sensorialmente, o Lamas Nimbus Caledonia remete ao Nimbus tradicional – com sua característica fumaça de incenso. Porém, a finalização em vinho fortificado reduz a sensação defumada. A graduação alcoólica eleva o dulçor, mas também o apimentado. O retrogosto é longo, e remete a incenso, pimenta e cerejas em calda, com uma boa parcela de iodo. É um whisky bem intenso – mas achamos que essa itensidade funcionou muito bem com a influência vínica.
O Lamas Nimbus Caledonia está à venda no nosso bar em São Paulo, o Caledonia Whisky & Co., e em breve por contato direto com a destilaria. O preço é R$ 230,00 – pelo litro, lembrem-se disso. Além dele, o bar também possui, para São Paulo, doses de todos os whiskies do portfólio da Lamas – Nimbus, Verus, Plenus e Canem.
Efeitos não-lineares podem ser causados por pequenos eventos. Como, por exemplo, você, querido leitor, que, ao ler esta prova, descobriu a existência de nosso whisky. Foram centenas de pequenas coincidências – lançarmos um blog, termos um whisky, você gostar de whisky, e ter o mau gosto de nos ler. Então, se me permite uma sugestão para prestigiar este momento – Prove o Lamas Nimbus Caledonia. Ou não. Afinal, um prego na ferradura de um cavalo pode mudar o curso de uma guerra.
LAMAS NIMBUS CALEDONIA
Tipo: Single Malt
Destilaria: Lamas
País: Brasil
ABV: 50%
Notas de prova:
Aroma: baunilha, caramelo, um enfumaçado de lareira, cedro, cerejas e figos em calda.
Sabor: Frutas em calda – cerejas, ameixas e figos. Fumaça de incenso. O final é longo e progressivamente defumado, com iodo e pimenta do reino.
Sábado, dez horas da manhã. Interfone toca. Dois pacotes na portaria. Dou um discreto salto de antecipação enquanto, quase que simultaneamente, chamo o elevador e amarro a máscara sobre os inevitáveis mullets de quarentena. Adoro receber o que comprei pela internet – a distinção de tempo entre pagar e receber faz tudo parecer um presente.
Resgato os dois pacotes, abro o primeiro. Sinto meu semblante de antecipação derreter lentamente para um de decepção. Um quebra-cabeças, comprado pela Cã. Hábito antigo, de criança, que voltou que graças ao tédio proporcionado pela reclusão social. Entendo. É um passatempo perfeito para dois mil e vinte – barato, intelectualmente desafiador e cem por cento compatível com o distanciamento social. Não é à toa que a tradição de montar quebra-cabeças está voltando. Mas acho um saco.
Me volto para o segundo pacote, ainda com resquícios de decepção do primeiro. Mas, aqui, a história muda. Meus olhos brilham quando vejo o pescoço verde de uma garrafa que há muito antecipei. O Jim Beam Rye – que acaba de chegar ao Brasil oficialmente. Ignoro o horário – ainda é antes do almoço – e já vou logo abrindo a garrafa. Adoro whiskey de centeio. Aliás, falando sobre tradições que renasceram, o rye whiskey é, provavelmente, uma das melhores.
E esse cabelinho uma das piores.
É que rye whiskey era o estilo predominante nos Estados Unidos antes da Lei Seca. O centro da produção estava nos estados de Maryland e Pennsylvania. Porém, por conta do Volstead Act, a vasta maioria das destilarias encerrou sua produção. Quando o nobre experimento foi revogado, a produção voltou-se para o Bourbon whiskey e o Rye foi praticamente esquecido. O estilo voltou à voga recentemente, com o renascimento da coquetelaria, e a busca dos bartenders por receitas clássicas pré-lei seca. E desse movimento, surgiu o Jim Beam Rye.
De acordo com a própria Jim Beam, numa tradução adaptada “o Jim Beam Rye é um rye de estilo semelhante àquele anterior à Lei Seca, que presta tributo a uma das receitas mais antigas de nossa família, e é destilado de acordo com os mesmos padrões que nortearam a Jim Beam por mais de duzentos anos. Hoje, ele se tornou essencial para bartender procurando por um whiskey de perfil mais arrojado como os antigos, e uma finalização suave de tempos modernos“
A maturação do Jim Beam Rye acontece em barricas virgens de carvalho americano por tempo não divulgado. Aliás, há pouca informação oficial sobre a produção do rótulo. Além da maturação, a receita exata de seu mosto – a mashbill – é outro mistério. Um palpite educado, porém, é que o percentual de centeio esteja um pouco além dos 51% exigidos por lei.
Ainda que o Jim Beam Rye seja uma revisitação de um estilo clássico, esta não é a primeira vez que a Jim Beam produz um Rye Whiskey. Antes do rótulo atual, havia outro rye, com outro rótulo. Além disso, a destilaria também lançou em 2016 o Booker’s Rye – o primeiro whiskey de centeio de sua linha super-premium, com 68,1%.
Booker’s Rye
O Jim Beam Rye é um whiskey apimentado e de corpo médio, com notas de pimenta do reino, cravo, canela, açúcar mascavo e pimenta do reino. Há um equilíbrio interessante entre o dulçor do milho e o amargor do centeio. Por conta disso, bebê-lo puro é uma experiência bem divertida – ao contrário de muitos outros rye whiskeys mais monotemáticos.
Se você procura um whiskey americano versátil, que trará personalidade para seus coquetéis mas, ao mesmo tempo, pode ser aproveitado puro, o Jim Beam Rye é uma excelente escolha. É como aquele hábito antigo, perdido pelo tempo, e resgatado pelo acaso – algo familiar e novo ao mesmo tempo. Mas, ao contrário de quebra-cabeças, absolutamente bem-vindo.
JIM BEAM RYE
Tipo: Rye Whiskey
Marca: jim Beam
Região: N/A
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: Cravo, canela, pimenta.
Sabor: Aveia, grãos, pimenta, canela. O final é adocicado, mas ao mesmo tempo picante.
“A simplicidade é a chave para o brilhantismo”. Da primeira vez que ouvi a frase atribuída a Bruce Lee, estranhei. Não pelo teor da citação, que carrega em si uma simplicidade que facilmente poderia ser transformada em vinte laudas de um ensaio sobre a complexidade de tudo que é – ou que parece -descomplicado.
Mas por conta de seu autor. Sempre pensei em Bruce Lee como o ícone das artes marciais, o invencível protagonista do Dragão Chinês e da Fúria do Dragão. O cara que praticamente lançou o Kung-Fu no mundo, muito mais do que qualquer panda.
Mas o que poucos sabem – inclusive eu, antes de pesquisar o tema para esta matéria – é que Lee tinha também um cérebro de aço (e não apenas os punhos). Ele se formou na Universidade de Washington em filosofia, e criou toda uma doutrina – Jet Kune Do. Daí, surgiram frases espetaculares, como essa da simplicidade. Ou a célebre “a água pode fluir ou pode bater. Seja água, meu amigo” perfeita como punchline de qualquer livro de autoajuda.
Lembrei da tal frase ao tentar definir, em uma conversa com um par de amigos, sobre uma receita que aprendi há muito tempo nem me lembro onde, e que resolvi praticar durante meu tempo livre em dois mil e vinte. Brownies de whisky. É que a receita em si não é nada demais – é um brownie como todos os outros que levam apenas matérias primas lícitas. Mas, talvez pela proporção, ou talvez pela adição de whiskey, ele fica brilhante. Aliás, certamente é pela adição de whiskey. Whiskey é um abrilhantador da vida.
Bruce concorda.
Mas enfim. Em benefício da simplicidade desta matéria, vamos logo à receita desta maravilha doce. Como disse o grande Dragão, esvazie sua mente. E vamos ao mis-en-place.
INGREDIENTES
200g chocolate meio-amargo – pelo bom mestre do Wing Chun, escolham um chocolate decente para os brownies. Este Cão sugere Callebaut para confeitaria.
100g de manteiga
1 xícara de chá de farinha
1/2 xícara de chá de açúcar
2 ovos
Nozes (não vou indicar a quantidade. Depende de quanto você gosta de nozes. Qualquer coisa até 1 xícara parece decente).
Derreta o chocolate com a manteiga em uma panela. Pré-aqueça o forno. Derreta antes mesmo do passo 2. Se você derreter depois, quando for juntar, a temperatura da mistura vai cozinhar os ovos e os brownies vão ficar com uma textura esquisita. Deixe esfriar.
Bater (a mão! Tenha punhos de aço, meu amigo) os ovos, o açúcar e a farinha até ficar esbranquiçado. Nem adianta pegar atalhos. Não fica igual na batedeira. Confia em mim, eu tentei, eu tenho preguiça também.
Adicione o whiskey.
Misture os dois (chocolate e mistura de farinha)
Adicione as nozes. Misture mais até ficar homogeneo.
Coloque no forno. O tempo dependerá do equipamento. Aqui, 15 minutos no fogo alto e 40 no fogo baixo são o ponto perfeito. Os brownies têm que ficar bem molhados, quase crus, dentro.
Poucas pessoas no mundo prescindem apresentações. São aquelas cuja contribuição, cujas criações, têm vida independente de seu criador. Produtos que adquiriram tamanha notoriedade que falam por si.
No mundo do whisky, uma destas – poucas – pessoas é Colin Scott. Colin é uma lenda viva na indústria do whisky. Trabalhou para a Chivas Regal por quarenta e sete anos. Deu suas mãos – ou melhor, nariz – surgiram criações incríveis.
Mesmo que você não seja um entusiasta do mundo do whisky, você conhece Colin Scott. É dele a assinatura que estampa o pescoço de um dos blended scotch whiskies mais admirados do mundo. O Chivas Regal 18 anos. E a rubrica não é um simples artifício decorativo. Foi Scott que criou o lendário blend em 1996.
E depois de quarenta e sete anos de excepcionais préstimos para a indústria do Scotch Whisky, Colin finalmente está se aposentando. Mas não sem antes uma entrevista exclusiva – gentilmente organizada pela Pernod-Ricard Prestige no Brasil – com este Cão Engarrafado. Por uma hora, tínhamos o famoso master blender apenas para nós!
Vamos ao papo.
É uma honra ter você aqui. Você é um herói para muitos entusiastas do whisky como eu. E acho que todos se perguntam a mesma coisa. Como começar como blender? Como foi sua iniciação?
Meu avô, meu pai e eu estamos há cem anos no business de whisky. Meu avô tinha um negócio em Glasgow, mas eu nunca o conheci. Meu pai estava na mesma empresa. Ele então me ensinou sobre destilação , e eu basicamente cresci em uma destilaria. Então, na realidade, suponho que o scotch faça parte do meu sangue, está no DNA.
Em 1973, ingressei na destilaria Glenlivet em Edimburgo. A Seagram’s na América eram nossos agentes. A Seagram já havia comprado a Chivas Brothers em 1949, e comprou a destilaria The Glenlivet em 1978 por quarenta milhões. E então me tornei parte do grupo Chivas-Glenlivet. E isso me levou ao setor de engarrafamento. Tínhamos fábricas em Leith e perto do aeroporto de Edimburgo. Edimburgo fechou, mas Leith continuou e me tornei gerente de qualidade de embalagem.
Lá eu me envolvi na qualidade do destilado. Era uma equipe muito pequena naquela época. E isso me apresentou aos blenders, e eles me convidaram para me juntar à equipe de blendagem nos anos 1980, sob a liderança de Jimmy Lang. Ele era o master blender. Aprendi tudo sobre a herança, as tradições e a produção de Chivas Regal, nosso carro-chefe. Tudo sobre os sabores, diferenças entre scotches de todas as destilarias diferentes.
E em 1988 Lang se aposentou. E eu me tornei o master blender em 1989. Naquela época, tínhamos apenas o Chivas Regal 12 anos e o Royal Salute 21 anos como nossos principais blends. E então, agora, com inovação, marketing, entusiasmo pelo scotch nas redes sociais, Sandy Hyslop, nossa diretor de blending, tem agora a tarefa de inovar e apresentar expressões e extensões de linha para Chivas. E hoje, como custodian master Blender, posso garantir que todos os nossos produtos estão nas mais competentes mãos, com o Sandy Hyslop e sua equipe.
E, em particular, Kevin Balmforth. Eu o entrevistei em 1999.Ele está comigo há muito tempo e ele é excelente Blender do time Chivas. Agora posso ficar tranquilo porque o futuro é realmente seguro. É disso que se trata a profissão de blender. Somos os guardiões do passado, do presente e do futuro. Porque recebemos o que destilamos há 12, 15, 21 anos, o passado, e o trazemos para nossas expressões atuais de Chivas.
O blending team da Chivas Regal. Ao centro, Sandy Hyslop
E enquanto isso, hoje, todos os anos, estamos controlando, avaliando e verificando todos os new-makes e tonéis de hoje. Assim, à medida que maturarem, se tornarão whiskies de primeira qualidade. Por causa deste cuidado, temos um dos melhores estoques de whiskies em maturação do mercado.
Mas isso é o que somos. Somos os guardiões do estoque, mas garantimos a consistência, a qualidade e a experiência de sabor de todos os nossos Chivas Regals. Então, quando você beber seu Chivas Regal 18 hoje, garantimos que amanhã será igual, e no próximo ano também. Esteja você em São Paulo, Tóquio ou Londres. Isso é ser um master Blender.
Conta um pouco sobre a sua primeira experiência com Scotch Whisky, e o que é preciso para se tornar um master Blender.
Bem, isso é bastante interessante, porque temos um ótimo programa de consumo responsável e de convívio na Pernod!
Sobre minha primeira experiência. Meu pai era muito rígido em relação a aprendermos sobre o álcool e experimentarmos o álcool. E não podíamos beber álcool antes dos dezoito anos. Mas eu experimentei um pouquinho antes. Mas não fiquei impressionado com o whisky na época! Hoje, scotch é bebida de convívio. É uma bebida para todas as ocasiões, para todos. Mas temos que beber com responsabilidade.
Para se tornar um master blender, você precisa de tempo. Sandy (também entrevisado por este Cão, aqui) está no ramo há 35 anos. Kevin há 29. Estou há 47. O tempo está aí – temos que aprender tudo sobre como os whiskies amadurecem, seus perfis, os barris e como eles se misturam. Cada vez que você pega uma amostra, você tem que construir a memória, você entende o whisky e isso chega à sua memória enciclopédica. Todos nós temos nossa própria linguagem, mas todos nós entendemos o que falamos no blending room.
Mas é importante ter paixão pelo scotch. Essa é uma grande porcentagem do que é preciso para se tornar um bom Blender.
Bem, eu tenho a paixão, mas não tenho certeza se tenho o nariz…
Isso é outra coisa que você precisa. Você precisa ter um bom nariz. Todos os anos fazemos testes de nariz. É necessário para apoiar a qualidade do produto. Dia assustador, mas é necessário e é bom. No final das contas, você tem que entender que está trabalhando com algo que é 100% natural. Scotch é malte, grão, cereal, água, fermento. E o barril. A partir daí, centenas de milhares de sabores se integram em tais scotches. Então, todo dia é dia de aula no blending room.
Um dia de trabalho produtivo.
Sobre todas as expressões. Como você começa a criar um blend? Você sabe para onde está indo? Ou você acorda e diz “ok, vou começar a blendar aqui e ver aonde isso me leva“?
Bem, se você está começando uma nova empresa, provavelmente é assim que funciona, haha! Mas, em Chivas Regal, quando me tornei blender depois de Jimmy Lang, ele me guiou por todas as tradições, e herança – que nos levam até John e James Chivas. Eles foram blenders pioneiros em 1850-1860. E eles criaram um estilo de blends.
A partir daí, Charles pegou essa herança e tradições e criou o Chivas Regal 25 em 1909. E então o Chivas 12 foi criado em 1938 respeitando este perfil. E então, em 1996, quando foi decidido que iríamos estender o Chivas Regal para um 18, já tínhamos o 12 como carro chefe. O que fizemos foi pegar esse estilo e essa tradição e estender aos 18 anos. Isso nos deu um irmão mais velho de 12 anos. Tratava-se de selecionar diferentes whiskies para mudar o equilíbrio de sabores e criar uma nova expressão sensorialmente falando, mas com o mesmo estilo doce e suave do Chivas Regal.
Então foi assim que abordamos. Tivemos algumas ideias considerando aquilo que estava disponível no inventário e fizemos alguns pequenos ajustes, mudamos um pouco isso e aquilo, e então finalmente tivemos um produto na família do Chivas 12. O 18 anos foi lançado em 1997 no Japão – foi o nosso segundo maior Mercado Chivas Regal.
Ou seja, quando você está criando um novo blend, é tudo sobre o estilo, a família. Você deve preservar o estilo e as tradições dessa casa. Quando você consegue um acabamento em barril, como tequila e conhaque, você está adicionando uma pequena dimensão de sabor àquela família de Chivas Regal. É tudo uma questão de controlar os sabores para preservar o estilo da casa de Chivas. É por isso que você tem todas essas expressões diferentes. Temos diferentes tonéis para fazer acabamentos seletivos. Este é um mundo muito emocionante para se estar, hoje!
Conte-me um pouco sobre o 25. De acordo com Alfred Barnard, a maioria das destilarias de whisky na virada do século estava produzindo whiskies turfados. Mas o 25 é adocicado e floral. Então, ele foi desenvolvido com base num registro ou de acordo com o estilo da casa Chivas?
Acontece que ainda hoje não temos uma garrafa de 25 anos de 1909. Temos uma ideia de como era, mas não sabemos ao certo. Houve algumas mudanças, mas é tudo uma questão de fazer parte e preservar o estilo e a tradição de Chivas, e criar a extensão desse estilo. Mas também criando uma experiência de degustação diferente, selecionando diferentes whiskies. E por trás de tudo isso, temos Strathisla, o nosso coração, o single malte big e pesado, com seu nozes, com amêndoas, e uma espécie de ameixa, damasco, frutado. É a base perfeita para iniciar o seu blend.
Chivas Regal 25
Vamos falar um pouco sobre degustação e, bem, beber. Existe um jeito certo de beber e apreciar whisky?
O jeito certo é como você gosta do seu whisky. Para mim, pessoalmente, quando despejo o whisky no copo, é um trabalho feito. Você tem o whiskypara você aproveitar. Alguns gostam de puro, alguns gostam de água, alguns com gelo e alguns com misturadores. E o Chivas também é perfeito para coquetéis. Então, para mim, não existem regras. E seu humor pode mudar! Um dia, você pode gostar de tê-lo limpo. Outro, em um highball, por exemplo.
Mas, na sala de blend, fazemos nossas avaliações a 20% do volume. Então, para mim, seria 50-50 com água. Água à temperatura ambiente, sem gelo. Mas em alguns lugares fica bastante quente. Então, às vezes, eu adicionaria cerca de 2 cubos de gelo. Para mim, pessoalmente, acho que é importante não esfriar. Mas tudo se resume à sua preferência.
Para os iniciantes, qual seria sua dica para começar?
Quer dizer, geralmente as pessoas começam com os maltes. Eu escolheria Glenlivet nos maltes e, em seguida, Chivas 12. Basta despejar e, se você achar que é muito agressivo, adicione um pouco de água e continue adicionando um pouco até atingir uma força que goste. É tudo uma questão de experiência.
Outra forma seria com um coquetel. Como o Chivas Cooler. (Que é) Chivas 12 e ginger ale com um pouco de gelo e limão espremido. É um coquetel fresco e refrescante. E o gengibre equilibra o frutado e o dulçor de mel do Chivas 12. Mas, como eu disse – experimente!
E sobre o Mizunara? Qual é a história por trás dele?
Isso tem a ver com nossa relação com o Japão. Temos estado intimamente associados ao Japão. Sandy e sua equipe adquiriram os barris de mizunara no Japão. São barris virgens de carvalho japonês, que são importados para a Escócia. Sandy os preenche o blend da Chivas e monitora cada barril muito estritamente porque é um carvalho poderoso. A cada duas semanas, eles monitoram esses tonéis.
(o Mizunara) primeiro foi lançado apenas para o Japão. Mas as pessoas ficaram tão empolgadas que decidimos lançá-lo em outros países. Sandy e sua equipe realmente acertaram. É muito emocionante ter essas oportunidades de inovar.
Foi como quando criei o Chivas 18. Foi uma grande emoção. E hoje, ele demostra por si mesmo esse sucesso. E Mizunara também – alguns anos depois, é um grande sucesso. Quando essas coisas acontecem, é ótimo. Aliás, você deve experimentar Chivas Mizunara no Brasil em um pouco de highball, com água com gás ou um pouco de refrigerante de limão!
Mizunara. Katana não inclusa.
Já provei e é incrível. Os sabores realmente se complementam! Agora, a pergunta clássica sobre a ilha deserta. Qual whisky você tomaria? Um blend e um single malt?
Bem, se fosse para a tal ilha deserta, levaria comigo Chivas Regal 18. É um whisky que você pode beber facilmente a qualquer hora do dia. E você pode tomá-lo em um drink mais longo ou em um Old Fashioned. É fantástico em um Old Fashioned.
Quanto ao single malt, por algum tempo, seria Longmorn ou Glenlivet. Mas agora acho que levaria Scapa. Scapa 16 é simplesmente delicioso e me lembra de casa. Agora, 16 foi descontinuado, então, eu iria para o Scapa Skyren.
Longmorn é um dos meus favoritos há muito tempo. E agora Scapa me pegou. Ele se tornou parte do portfólio da Chivas em 2005. E é uma pequena destilaria fabulosa. E (apesar da localização, na ilha de Orkney) é mais como um speyside do que um representante das ilhas. Não é um whisky esfumaçado. Tem um pouco de sal, urze, frutado – um frutado tropical.
E essa (Orkney, onde Scapa está localizada) é minha casa. Onde eu cresci. Cada vez que voava para fora da Ilha, passava por Scapa. Faz parte de toda minha vida de uma forma engraçada. E eu recomendo totalmente. Todo mundo adora.
Bem, infelizmente, nosso tempo está se esgotando! Muito obrigado pelo seu tempo e pelo bate-papo, Colin! Disseram que você está se aposentando. Algum plano de aposentadoria?
Haha, eu não tenho planos por enquanto. Mas o que é muito importante é que nos últimos 40 anos ou mais eu tenho pulado da cama para ir trabalhar. Então eu acho que é importante ter alguns pequenos projetos para me manter ocupado. Sei que há muito o que fazer, mas de uma forma relaxante. Eu não posso acreditar que está ao virar da esquina!
Essa é a segunda prova do Yamazaki 12 anos neste blog. A primeira foi escrita em 2015 (leia a original aqui). Porém, devido à volta deste desejado rótulo às nossas terras, resolvemos revisitá-lo e fazer uma prova completamente nova.
Se você tem um iPhone, abra seu teclado e procure o emoji de onda. Observe com atenção e deixe-me explicar porque esta imagem lhe parece tão familiar. O desenho é baseado em uma obra de arte clássica japonesa do período Edo. A Grande Onda de Kanagawa, uma xilogravura do artista Katsushika Hokusai – parte de sua icônica série de trinta e seis vistas do monte Fuji. Ela é provavelmente a obra de arte mais reproduzida do mundo. Está em muros, sapatos, camisetas, carteiras e até mesmo emojis.
Ao longo dos séculos, a obra de Hokusai influenciou grupos e movimentos inteiros da arte. Como a Ar Nouveau, o Simbolismo, os Nabis e os pós-impressionistas. Suas xilogravuras trouxeram a noção de que a pintura é algo bidimensional. A ilusão de profundidade – quando há – é dada somente pela cor. Uma técnica tão importante que foi usada tanto por artistas tradicionalistas, como os primitivos italianos, quanto por ícones da arte moderna, como David Hockney – basta observar por dois segundos seu famoso A Bigger Splash.
Just Hokusai it.
Hokusai foi, provavelmente, o mais importante artista japonês da época, e teve grande reconhecimento em vida. Seu sucesso se deu por um afastamento da tradição aliado a uma versatilidade literalmente oriental. A arte clássica do período retratava cortesãs e figuras humanas, essencialmente. Mas Hokusai – sob diversos pseudônimos – pintou quase tudo. De animais mitológicos a grandes paisagens passando por temas tradicionais e até mesmo pornografia de gosto duvidoso, como O Sonho da Mulher do Pescador (podem clicar, é da Wikipedia. Eu sei que vocês querem saber o que é isso).
Se A Grande Onda de Kanagawa pudesse ser comparada a uma garrafa de whisky, ela seria, com toda certeza, o Suntory Yamazaki 12 anos – que acaba de chegar ao Brasil pela Beam-Suntory. Ele foi o primeiro single malt japonês, lançado em 1984, e até hoje é um sucesso mundial. Foi ele, e seu irmão, o Yamazaki Sherry Cask, que desafiaram a noção de que whiskies excelentes poderiam ser produzidos espelhando a técnica dos escoceses, mas fora da Escócia e colocaram o Japão no mapa dos mais importantes produtores da bebida do mundo.
Engarrafado a 43% de graduação alcóolica, o Suntory Yamazaki 12 anos é maturado em barricas de carvalho americano, carvalho japonês – conhecido como Mizunara – e barricas usadas anteriormente para maturar xerez. Inclusive, a ideia de usar o carvalho Mizunara começou com a destilaria Yamazaki, em meados de 1940, quando por conta da Segunda Guerra Mundial, o fornecimento de outras madeiras era insuficiente.
A Yamazaki foi a primeira destilaria do Japão. Ela foi fundada em 1923 no vilarejo de homônimo, entre as cidades de Kyoto e Osaka. Sua localização foi especialmente escolhida – e bem debatida (leia mais sobre isso em nossa prova original do Yamazaki aqui) por ser a convergência dos rios Katsura, Uji e Kizu. Isso permitiu que, em uma época em que o acesso a recursos era mais difícil, não houvesse falta de uma das mais importantes matérias-primas para produção de whisky: água. Além disso, a variação térmica e umidade criam condições favoráveis à maturação – Yamazaki é mais quente que a média escocesa.
Há algumas especificidades interessantes sobre a Yamazaki para o whisky-geek, resultado da história de polarização da indústria de whisky no Japão. Por exemplo, a destilaria possui dezesseis alambiques, de sete diferentes formatos e tamanhos – algo quase sem paralelo na Escócia. Além disso, a destilaria utiliza dois diferentes processos de fermentação, com washbacks de madeira e de aço inoxidável de cinquenta mil litros. A fermentação leva em torno de 65 horas.
Por fim, a Yamazaki conta com mais de quinhentos mil barricas em maturação (trinta mil delas, na própria destilaria), de tipos distintos. São principalmente barris de carvalho americano de ex-bourbon, puncheons de carvalho americano de produção própria, hogsheads, barricas de carvalho europeu de ex-jerez e vinho tinto e, claro, de carvalho japonês – o famoso e desejado Mizunara.
Tamanha variedade tem uma razão. É que, como não há intercâmbio de whiskies entre grupos econômicos distintos, e poucas destilarias no país, cada destilaria é obrigada a produzir uma gama muito maior de produtos. New-make-spirits de oleosidades distintas e whiskies diferentes permitem atender às necessidades dos blends de sua empresa mãe, a Suntory – que é totalmente autossuficiente na produção da bebida.
Alambiques da Yamazaki (fonte: Jake Emen/The Whiskey Wash)
No Brasil, uma garrafa de Yamazaki 12 anos custa um pouco menos de mil reais. É um valor alto, mas, é também, curiosamente inferior à média mundial. Fora de nosso país e em mercados aquecidos, devido à escassez do rótulo, certas garrafas chegam a ser vendidas por mais de trezentas libras.
Sensorialmente, o Suntory Yamazaki 12 é um single malt frutado e adocicado, com corpo médio para alto. Há um equilíbrio fino entre o característico sabor de compota de frutas e de passas – provavelmente, proveniente do uso de barris de ex-jerez. Se há qualquer defumação, este Cão não pôde senti-la.
Se você procura um single malt equilibrado e frutado, ou se quer entender o que é um whisky japonês, o Yamazaki 12 anos é a escolha perfeita. Ele é como uma obra-prima de Hokusai. Inegavelmente japonesa, mas capaz de surpreender positivamente apreciadores do mundo todo.
YAMAZAKI 12 ANOS
Tipo: Single Malt 12 anos
Destilaria: Yamazaki
País/Região: Japão
ABV: 43%
Notas de prova:
Aroma: Frutado. Banana e pera, com um leve toque cítrico.
Sabor: Frutado e doce, com nozes, compota de frutas, pera e maçã. Final com baunilha, pimenta do reino e nozes. Um pouco de passas.
“Continuarei tentando subir até atingir o topo, ainda que ninguém saiba onde o topo é”. A frase é do nonagenário Jiro Ono, protagonista de um documentário que recentemente assisti na Amazon: Jiro Dreams of Sushi. Jiro é o proprietário e chef de um restaurante que serve apenas sushi, chamado Sukiyasbashi Jiro. O espaço, de apenas dez lugares, manteve de 2007 a 2019 uma avaliação de três estrelas pelo Guia Michelin – a premiação máxima. Em 2019 o Sukiyasbashi Jiro perdeu suas estrelas. Mas não por demérito. Mas porque ficou tão famoso que deixou de abrir reservas para o público em geral.
O documentário, lançado em 2012, mostra o cristalino devotamento do chef por sua ocupação. Jiro obceca sobre o posicionamento das esteiras em seu balcão e aponta onde cada cliente deve sentar. Jiro massageia cada polvo por no mínimo quarenta e cinco minutos, para tornar as peças mais suculentas. Jiro sabe a exata história de cada peça consumida em seu estabelecimento, e observa com diligência seus comensais – um piscar de olhos mais prolongado talvez seja sinal de que algo mudou. Jiro nasceu para fazer sushi. Seu sucesso é quase uma extensão natural de si.
E aí, Barack, tá gostoso o peixinho?
É algo que, de certa forma, poderia também dizer da Suntory, maior produtora de whiskies do Japão. Seu primeiro rótulo foi lançado em 1929. Atualmente, seu sucesso é incontestável. Os produtos da marca são tão desejados que as expressões mais maturadas até tiveram que ser descontinuadas. Pudera – a atenção aos detalhes, do líquido à embalagem, é tão meticulosa que parece até aquela de um sushiman premiado.
E depois de um longo hiato, dois rótulos da Suntory finalmente chegaram ao Brasil, para completar o portfólio com os já presentes Roku Gin, Haku Vodka e The Chita. São o single malt Yamazaki Distiller’s Reserve – parte de uma futura prova deste Cão – e o Hibiki Japanese Harmony, blended whisky e tema desta matéria.
De acordo com a Suntory, o Hibiki Japanese Harmony é considerado como a pedra fundamental da linha de blends Hibiki, e leva os mesmos maltes-base e whisky de grão das expressões mais maturadas, o Hibiki 17 e 21 anos. São três. Yamazaki, responsável por boa parte das notas adocicadas e de frutas cristalizadas do blend; Hakushu, que traz uma leve impressão de fumaça e iodo e The Chita, que traz dulçor e equilíbrio à mistura – “daishi” como define a própria empresa.
A maturação de seus componentes ocorre em cinco tipos diferentes de barricas, de três espécies distintas de carvalho. O americano de ex-bourbon serve de base – com dulçor e baunilha. Já o carvalho europeu previamente utilizado para vinho jerez traz tempero, assim como o raro carvalho japonês, conhecido como mizunara.
Observar o Hibiki Japanese Harmony mostra como é complexa a criação de um blended whisky, e o nível de conhecimento de seu master blender, Shinji Fukuyo. Seus compomentes devem ser combinados de forma a trazer harmonia, drinkability, mas, ao mesmo tempo, personalidade. Parafraseando Jiro Ono “existe equilíbrio entre o peixe e o arroz. Se não tiver em perfeita harmonia, não ficará bom”. Deve-se atentar ao equilíbrio, para evitar que certo whisky não se sobressaia, mas, também, deixar que parte do caráter de cada um seja notado. Esse a é na verdade o grande desafio de todo blender do mundo.
Shinji Fukuyo, sonhando com sushi
Mas, no caso dos japoneses, há ainda outro percalço. A matéria prima é incrivelmente escassa, porque há uma busca enorme por maltes japoneses no mundo. E o blend deve ter padronização, constância – Hibikis Japanese Harmonies devem sempre possuir o mesmo perfil sensorial. Conseguir isso com recursos limitados não é um trabalho trivial.
Há uma simbologia interessante por trás, também, do frasco. O nome Hibiki significa “ressonância” ou “harmonia”. É como se o Japanese Harmony fosse duplamente harmônico. As garrafa possui vinte e quatro faces distintas, que simbolizam vinte e quatro estações do ano do calendário tradicional japonês.
Sensorialmente, o Hibiki Japanese Harmony é um whisky bastante equilibrado, frutado e floral. Há notas cítricas, bem como baunilha, canela, pimenta do reino e coco. A intensidade de sabor é maior do que a média dos blended whiskies, mas quase não há agressividade. A textura de certa forma remonta uma irmã distante, a Haku Vodka. É curioso como o Hibiki Japanese Harmony é essencialmente um blend de luxo, mas que apela sensorialmente também para o entusiasta por conta de sua intensidade.
No Brasil, uma garrafa do Hibiki Japanese Harmony sai por, aproximadamente, 700 reais. Não é barato – mas é um preço condizente com outros blends de luxo. Alguns deles, também sem idade declarada no rótulo.
O Hibiki Japanese Harmony é, de certa forma, o resumo mais perfeito da técnica e dedicação dos japoneses em produzir whiskies. Nem mesmo seus magníficos single malts – com meu querido Hakushu – são testemunho melhor de sua técnica. Olha, meu caro Jiro, eu também não sei bem onde que o topo é – mas o Hibiki está perto dele.
SUNTORY HIBIKI JAPANESE HARMONY
Tipo: Blended Whisky sem idade clarada (NAS)
Marca: Suntory
Região: N/A
ABV: 43%
Notas de prova:
Aroma: frutas cítricas, baunilha. Canela e coco no background.
Sabor: Mel, frutas cristalizadas, floral, baunilha. Final persistente, com coco, canela e um pouco de pimenta do reino.