Quando tinha uns quatorze, quinze anos, resolvi que aprenderia a falar russo. Sei lá porque decidi aprender russo. Talvez porque eu não fosse esquisito o suficiente já, trinta quilos acima do peso, jogando RPG e desenhando no intervalo das aulas do que outrora era conhecido como colegial.
Meus pais, sempre dispostos a estimular meus interesses mais excêntricos, logo encontraram uma excelente professora. Fazia duas aulas por semana. Falar já era bem difícil, mas o pior de tudo mesmo era ler. E o alfabeto cirílico não ajudava nem um pouco.
Depois de um ano, minha professora me deu um livro pra ler sozinho. Três Porquinhos. Indaguei se não havia uma leitura mais interessante. Meu querido, todo mundo precisa começar do básico. Você não vai entender, se eu te der um Pushkin, Maiaskovski ou Dostô. Acenei com a cabeça. No final, não entendia direito nem mesmo a história do trio de suínos. Mas conhecia a versão em português, e assim consegui preencher as lacunas de minha inabilidade linguística.
три свиньи
Essa semana, me vi recordando do conto infantil na língua eslava ao provar um single malt recém chegado ao Brasil. O Singleton of Dufftown – mais um da tríade (não posso deixar de notar a coincidência com o número de porcos) de Singletons que desembarcou em nosso país.
Os Singletons são um grupo de expressões de diferentes destilarias pertencentes à Diageo, cujos rótulos são destinados a iniciantes neste inebriante mundo dos single malts. Além de Dufftown, fazem parte do conjunto Glen Ord e Glendullan.
Como o nome sugere, o Singleton of Dufftown é produzido na destilaria Dufftown, na cidade homônima. Tipo aquele filme do Adam Driver, em que tudo tem o mesmo nome, só que com menos poesia, e mais álcool. Naquela cidade, também se localizam destilarias bastante conhecidas, como Glenfiddich, Mortlach, Balvenie, Glendullan e Kininvie.
A destilaria Dufftown é uma das maiores em volume de produção do portfólio da Diageo – perdendo apenas para a Caol Ila e a gigante Roseisle. Apesar disso, menos de 5% de sua produção é engarrafada como single malt. O restante é destinado a blends, especialmente o conhecido Bell’s.
Sensorialmente, o Singleton of Dufftown é um single malt bem simples, adocicado e que aparenta pouco maturado. Ele não chega a ser agressivo – aliás, longe disso. Mas também, não há muita profundidade. Seu perfil de sabor foi feito para agradar, não surpreender – assim como o conhecido conto infantil. Ou por acaso foi um plot twist pra você, o lobo não conseguir derrubar a casa de tijolos?
Aliás, combina super bem com os protagonistas!
A maturação do Singleton of Dufftown acontece em barricas de carvalho americano de ex-bourbon whiskey, “com uma alta proporção de barricas de carvalho europeu“. Essa última frase é da própria destilaria – tão empolgante quanto vaga. Afinal, qual a proporção? E o que havia dentro dessas barricas antes de receber o new-make ou whisky?
De qualquer forma, se você está começando no mundo dos single malts, e procura uma aposta segura e pouco custosa, o Singleton of Dufftown é seu whisky. Só não procure muita novidade – é um malte que oferece uma experiência bem semelhante a um blended scotch whisky premium padrão. Mas talvez isso nem seja ruim. Melhor partir de terra firme. Tchekhov e sua gaivota que nos aguarde
SINGLETON OF DUFFTOWN 12 ANOS
Tipo: Single Malt Whisky com idade definida (12 anos)
Destilaria: Dufftown
Região: Speyside
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: adocicado, com mel, açúcar, baunilha.
Sabor: mel, amêndoas, malte, grãos. Final médio e adocicado
Com água: A água ressalta a base de grãos
Disponibilidade: a venda em lojas brasileiras, inclusive na Caledonia Store.
Deixe-me começar o texto de hoje com um pouco de autoajuda. O importante é reconhecer os próprios erros. Mas não apenas isso. Porque, bom, eu reconheço uma infinidade de coisas, como que exagerei no almoço ou que bebi demais certo dia. E apesar disso, apesar de jurar, de barriga estourando e embriagado, que jamais farei isso novamente, sei que isso é uma mentira tão efêmera quanto minha sensação de enfastiamento e vertigem.
O importante não é perceber que errou. O importante é mudar. E ainda que meu empenho não seja dos melhores, o da Mortlach – famosa destilaria localizada em Speyside – é.
É que há alguns anos, um dos rótulos mais disputados da linha Flora & Fauna da Diageo era um certo Mortlach 16 anos – já revisto aqui. Era um whisky pungente, vínico e ao mesmo tempo sulfuroso. Tão bom que elevou a fama da Mortlach e levou sua proprietária e reformular seu portfólio, dando destaque à destilaria.
O problema é que a outrora nova linha não era, nem de perto, tão boa quanto a expressão predecessora. A maturação em ex-bourbon – predominante naquela linha – não agradou. Tampouco o preço, que se elevara a ponto de tornar os Mortlach tão ou mais caros do que as mais custosas destilarias da Escócia.
Levou alguns anos, mas a Diageo notou que havia algo errado. E inspirando-se na fama daquele primeiro Flora & Fauna, lançou um novo portfólio. Com um novo dezesseis anos, que presta tributo direto àquela primeira expressão, tão admirada.
Flora e Fauna
Segundo a Mortlach “Por 70 anos a Mortlach foi o segredo mais bem guardado do mundo do whisky. Durante este tempo, ele fou usado quase exclusivamente como base para scotch whiskies (…). Finalmente, em 1992, decidimos que era hora de libertar ‘o monstro de Dufftown’, e lançar um elegante 16 anos, permitindo que poucos privilegiados (…) pudessem experimentar o caráter complexo de Mortlach“
“Este Single Malt Scotch Whisky é inspirado pela icônica e gratificante primeira expressão do 16 anos. Ela foi maturada somente em barricas de jerez para trazer notas apimentadas e adocicadas, sobre uma complexidade brutal, sinônimo de Mortlach.”
Assim como seu predecessor, o Mortlach 16 anos é vínico e apimentado, com aroma elegantemente sulfuroso – algo característico da destilaria e de seu incomum processo de destilação. Porém, ainda que seja um whisky excelente, o Flora & Fauna – se comparado lado a lado – é mais complexo e bem acabado.
De qualquer modo, o Mortlach 16 anos – e toda nova linha da destilaria – é uma corajosa assunção de um erro, e uma tentativa louvável de recuperar o respeito que a destilaria ganhara no passado – não pela propaganda, mas pelo sabor. E isso somente já seria motivo suficiente para experimentá-lo.
MORTLACH 16 ANOS
Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 16 anos
Destilaria: Mortlach
Região: Speyside
ABV: 43,4%
Notas de prova:
Aroma: frutado, com influência vínica e frutada. Levemente sulfúrico
Sabor: Oleoso. Frutado e vínico. Vinho fortificado. Final longo e sulfurico
Este é um post sazonal. Para ler as edições passadas, de 2017 e 2018, clique nos mencionados aqui.
Uns bebem para esquecer. Outros bebem para lembrar. A frase, repetida em cancões de Ben Harper e dos Eagles, se aplica perfeitamente ao whisky. Mas poderia, também, muito bem funcionar para o cinema.
Porque muitos assistem filmes para esquecer de seus problemas. Parabolicamente sair do corpo e viver outra vida. Outros, porém, usam as telas para relembrar. De seu passado, ou do pretérito do mundo. Refletir sobre questões importantes ou entender o status quo.
Os indicados ao Oscar de melhor filme de 2019 atendem aos dois públicos. E a todos no meio do caminho. Seja pelo ora visceral, ora romântico retrato da sociedade mexicana da década de setenta em Roma, seja pelo lugar comum bem executado de Nasce uma Estrela.
E para acompanhar estes longas, nada melhor do que, bem, whisky. Mas não qualquer whisky. Um que harmonize por semelhança com a película. Que lhe ressalte as características. Ou que amplie a sensação de conforto, paixão ou intensidade trazida por eles.
Assim, ai vão quatro filmes assistidos por este Cão e devidamente combinados com o melhor destilado do mundo. Tudo, meu caro leitor, para que você tenha a melhor experiencia – etílica e cinematográfica – possível.
GREEN BOOK
Green Book, dirigido por Peter Farelly, conta uma história alegadamente real. Da jornada de um pianista negro – Don Shirley, vivido por Mahershala Ali – pelo sul dos Estados Unidos no ano de 1962. Seu motorista e segurança é Anthony Vallelonga (Viggo Mortensen), um descendente de italianos violento e deseducado, que cria um contraponto com Don, um homem instruído e sofisticado.
A história é uma espécie de bromance entre os personagens, em um mundo hostil e preconceituoso. Aliás, o maior mérito de Green Book talvez seja, porém, seu maior defeito. Que é o de tratar com leveza e graça assuntos que devem ser abordados com severidade. Como a segregação racial nos Estados Unidos na década de sessenta e o papel da educação formal na estratificação social. Para isso, ele às vezes usa subterfúgios um tanto baratos, como, diremos, frango frito.
Seja como for, é um filme que agradará tanto aqueles que assistem para pensar quanto aqueles que o veem apenas para se divertir. Neste sentido, ele é muito parecido com certo Royal Salute 38 Anos – um blended scotch whisky sofisticado e complexo, mas também muito agradável e fácil de ser bebido.
A FAVORITA
O nome do filme – The Favorite, em inglês, que não indica o gênero – é quase uma provocação clarividente de sua indicação ao Oscar. É uma tragicomédia dirigida por Yorgos Lanthimos, que trata de ciúmes e poder na corte da rainha Ana, monarca inglesa do século XVIII. Em seu centro estão a rainha, sua confidente e melhor amiga, Sarah Churchill (Rachel Weisz) e Abigail, uma ex-fidalga que encontra seu rumo ao lado de Sarah e, mais tarde, Ana.
Há aqui dois elementos que tornam A Favorita quase, bem, o favorito. A cinematografia de Robbie Ryan, que evidencia o hermeticismo da vida na corte, e a atuação de Olivia Colman como uma rainha debilitada, mentalmente desequilibrada e carente. Aliás. Não assistam a Favorita pelo roteiro. Nem mesmo pela cinematografia. Assistam pela atuação de Olivia Colman. É boa assim.
A direção de Lanthimos também é boa, ainda que em mais ou menos meia dúzia de cenas, sentisse que a piada pertencia mais a um A Louca Louca História de Robin Hood do que a uma bela película de época.
Se fosse um whisky, A Favorita seria um Dalmore 18 anos. Belo, encorpado e com o vinho jerez quase roubando a cena toda.
A STAR IS BORN
A Star Is Born, filme de estréia de Bradley Cooper como diretor, é uma conhecida fábula de Hollywood. Aliás, conhecida até demais. Essa é a terceira regravação da história. Mas, para meu alento, longe de ser a pior – este troféu pertence àquela da Barbara Streisand.
A película conta a história de Ally, interpretada pela Lady Gaga, uma garçonete com potencial enorme de se tornar uma estrela pop, e Jack, que a apadrinha e ensina os caminhos do show-business, vivido por Bradley Cooper. Jack é um conhecido cantor, mas que já viu dias melhores.
É a clássica história da ascensão e declínio de uma celebridade. A ascensão de Ally e o declínio de Jack. Por cento e trinta e cinco minutos. Sendo que, desses, uns bons cem são usados apresentando músicas inteiras, ou explicando coisas que não deviam ser explicadas para o expectador, exceto se o expectador nao for um homo sapiens sapiens.
De qualquer modo, o filme funciona, e as performances são bem sólidas. Se fosse um whisky, A Star is Born provavelmente seria um Jack Daniel’s 150th Anniversary Edition: mais do mesmo com diferenças conjunturais, mas bem executado.
VICE
Vice é bom por quase um paradoxo. Porque ele parece que não se leva a sério. Mas se leva, com uma linguagem que não se leva a sério. Entendeu?
O filme conta a história da subida ao poder de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante a gestão de George W. Bush. Apesar de ser fortemente galgado em fatos reais, a película constantemente quebra a quarta parede, mostrando que, bem, aquilo aconteceu de verdade, mas não daquele jeito, porque mesmo um filme sobre uma história real é uma obra de ficção.
O maior mérito de Vice – além da direção poderosa mas descontraída de Adam McKay – são as atuações. Christian Bale está praticamente irreconhecível como Cheney. E Sam Rockwell, genial como sempre, interpreta um Bush até melhor do que o Bush de verdade.
Se fosse um whisky, Vice seria um Famous Grouse. Um whisky sério, numa embalagem, assim, no mínimo descontraída.
Lacoste, Puma, Linux, Ferrari, Dodge, Nestlé, Jaguar, Lamborghini, Red Bull, MGM e Bacardi. Poderia continuar esta lista por mais cinquenta nomes sem muito esforço. São as marcas que utilizam animais em seus logos, ou em seus materiais publicitários.
Mesmo no mundo do whisky, isso é bem comum. White Horse, Glenfiddich, Famous Grouse, Wild Turkey e Murray McDavid são exemplos. Mas poucas dessas empresas possuem embaixadores peludos, empenados ou escamados tão famosos quanto uma certa Black & White, e seus dois terriers.
A história por trás do uso dos cãezinhos é interessante. Diz-se que James Buchanan, fundador da Black & White, teria visitado uma exposição de cães e lá tivera a ideia de utilizar um West Highland Terrier e um Scottish Terrier como seus mascotes. As duas raças, obviamente, originárias da Escócia.
Se fosse brasileiro, seria metade tremedeira, metade ódio.
O nome Black & White, porém, nada tem a ver com os cachorros, e pre-data a época em que eram usados na linguagem visual da marca. O Black & White nasceu na verdade como Buchanan’s Blend, um whisky que caiu no gosto da House of Commons do parlamento inglês.
James, então, aproveitando o marketing gratuito, o rebatizou de House of Commons Finest Old Highland whisky, e mudou sua embalagem – agora, uma prestigiosa garrafa escura com rótulo branco. Os comensais então começaram se referir ao whisky como “o whisky branco e preto” – “black and white whisky”, o que, mais tarde, culminou em seu rebatismo, em 1902.
No coração do Black & White está o single malt Dalwhinnie. Sua destilaria, cujo whisky faz parte dos Classic Malts da Diageo, está localizado nas Highlands escocesas, próximo à vila homônima à destilaria. O papel central de Dalwhinnie no Black & White, aliás, não é nenhum segredo – A Dalwhinnie, inclusive, lhe serve como lar espiritual.
Apesar da inspiração canina, os fofos terriers somente passaram a figurar no rótulo do Black & White em 2013, ainda que sua carreira como garotos – digo, cães – propaganda da marca seja bastante anterior. Foi na década de vinte que se tornaram parte do marketing do whisky, aparecendo em posteres e propagandas da época.
Cães desengarrafados (note que não há a imagem dos terriers no rótulo)
O Black & White é talvez um dos whiskies mais referenciados na cultura popular. Apareceu nas mãos de Jessica Jones, na série da Netflix e em Tender is the Night, livro de F. Scot Fitzgerald. Era o scotch de preferência do lendário Walt Disney, e foi apreciado pelo agente secreto mais famoso do mundo, Bond, no filme Moonraker. Nem metade das celebridades do mundo têm tantas e tão ecléticas aparições.
Atualmente, o Black & White faz parte do portfólio da gigante Diageo, a mesma por trás de marcas como Johnnie Walker, Buchanan’s e Old Parr, e aproximadamente trinta destilarias escocesas. Historicamente desenvolvido para o paladar britânico, curiosamente, o Black & White passou a ter como seus maiores consumidores os mercados estrangeiros, como a América Latina e a Ásia.
Sensorialmente, o Black & White é bastante doce e nada enfumaçado. Não é um blend muito multifacetado, mas, também, o que lhe falta em complexidade é compensado em suavidade. O Black & White é dócil e despretensioso. Tão dócil como dois bons cãezinhos.
BLACK & WHITE BLENDED SCOTCH WHISKY
Tipo: Blended Whisky sem idade definida
Marca: Black & White
Região: N/A
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: mel, amendoas, baunilha.
Sabor: mel, malte, amêndoas, caramelo. Tudo doce. Final médio, doce e com cereais.
Com água: A água torna o whisky menos doce, mas lhe rouba um pouco o sabor.
Hoje vou inverter o texto. É que vou falar de um coquetel que ninguém conhece bem a história. Um drink que leva orgeat, limão siciliano e dois tipos de whisky – irlandês e escocês. Mas cuja origem é totalmente desconhecida. E a razão do nome, mais ainda. O Cameron’s Kick. Nem grandes estudiosos da coquetelaria possuem a mais rasa ideia de quem era esse tal de Cameron. E por que o coquetel teria sido batizado em homenagem a um chute do ilustre desconhecido. A nós, resta apenas especular.
Talvez o drink seja uma homenagem ao diretor James Cameron, e a vontade que eu tenho de chutar a cabeça dele depois de ter perdido três horas da minha vida vendo Avatar. Aliás, sei lá porque eu resolvi ver Avatar, já que eu sabia que o filme tinha três horas e era dirigido pelo mesmo cara que me fez perder outras cinco horas e meia, ao todo, assistindo o Titanic e o Segredo do Abismo. Pelo menos tem True Lies e Terminator. Que não compensam o naufrágio que são os outros dois filmes. Mas deixam a situação um pouco melhor.
Gente, mesmo com um cara voando num míssil, esse filme é melhor.
Pode ser também que tenha sido um tributo ao ex-primeiro ministro inglês David Cameron, e sua incrível capacidade de chutar – e ser chutado – por todo mundo, independente de credo ou origem, ganhando o ódio de grupos tão distintos quanto o Estado Islâmico, a União Européia e a Escócia.
A teoria mais plausível, entretanto – considerando a data em que o drink primeiro figurou na literatura especializada – é que ele tenha sido batizado em louvor à batalha de Inverlochy, quando o Clan Cameron lutou lado a lado com os irlandeses e derrotou o Clan Campbell, em 1645. O que faz sentido, já que a receita leva tanto Irish quanto Scotch Whisky.
Seja como for, a primeira aparição do Cameron’s Kick foi no Savoy Cocktail Book de Harry Craddock, em 1930. Mais tarde, em 2005, a mistura figurou no Killer Cocktails, de David Wondrich. Este Cão, porém, tomou conhecimento do drink durante um evento organizado pelo Difford’s Guide, que contou com o mestre Spencer Amereno atrás do balcão – o Discerning Drinker’s Club. Na oportunidade, o bartender preparou uma receita sensivelmente diferente, com orgeat de baru.
O Cameron’s Kick é aquela espécie de coquetel que tem tudo para dar errado. Porém, o drink se mostra inacreditavelmente equilibrado e complexo. O orgeat – calda de amêndoas – cria um contraponto excelente com o limão, e ressalta a característica amadeirada dos whiskies. Há, porém, um ponto curioso, que talvez mereça um pouco mais de atenção. A dupla base, que conta com irish whiskey e scotch whisky em proporções iguais. É algo que não faz muito sentido – há whiskies tanto escoceses quanto irlandeses que, sozinhos, poderiam suprir a falta do outro na mistura.
Assim como o nome do coquetel, nos resta especular. Este Cão, porém, possui uma teoria. É que antes de 1930, especialmente durante a época da lei seca norte-americana, boa parte das destilarias escocesas produzia malte defumado. Essa era uma característica de muitos whiskies de Campbeltown – a cidade que outrora foi considerada a capital mundial do whisky, e contava com mais de vinte destilarias. Então, talvez, esta seja a intenção por trás da curiosa dupla base. Talvez seu criador tenha pensado em algum whisky defumado, mas ao escrever a receita, especificou apenas whisky escocês – que teria sua pungência aliviada pelo irlandês.
Nossa, que interessante.
Outro ponto que merece atenção é a calda de amêndoas, conhecida como orgeat. Há produtos industriais que podem economizar seu tempo nesse estágio, ainda mais se você estiver com pressa para beber. Porém, estas caldas possuem um dulçor muito superior àquele que seria o resultado de um produto artesanal. Então, se utilizar uma delas, tome cuidado para que o coquetel não fique excessivamente doce. Reduza a quantidade, ou dilua um pouco a calda.
Enfim, minha intenção aqui não é desperdiçar seu tempo, meu caro – se fosse isso, te recomendaria ir ver Titanic ou O Segredo do Abismo ou quase qualquer coisa do James Cameron sem o Schwarzenegger. Minha intenção é que você beba melhor. Então, sem mais especulações ou planos sequência, aí vai a receita do tão misterioso quanto excelente Cameron’s Kick. Seja lá quem for esse sujeito.
CAMERON’S KICK
INGREDIENTES
30ml irish whiskey
30ml scotch whisky
15ml suco de limão siciliano
10ml orgeat
gelo
parafernália para bater
taça coupé
PREPARO
Adicione, em uma coqueteleira, todos os ingredientes com bastante gelo
bata vigorosamente
desça o conteúdo da coqueteleira em uma taça coupé.
Quando ela pedia whisky, sempre escolhia Tullamore Dew. Se você é fã de literatura sueca, provavelmente está familiarizado com a citação anterior. Ou não. Porque, também, há coisas mais importantes para atentar enquanto se lê um livro do que as preferências etílicas dos personagens. Quer dizer, a não ser que você seja eu.
A citação vem do bestseller “The Girl With a Dragon Tattoo”, miseravelmente traduzido como “Os homens que não amavam as mulheres”, talvez em uma brincadeira sem o menor sentido com um filme do Truffaut. Seja como for, o livro é um belo romance policial, que alçou fama após uma excelente adaptação do cinema sueco, e foi posteriormente (quase) arruinado por uma (quase) medíocre versão americana.
A frase faz referência ao whiskey preferido de Lisbeth Salander, uma das personagens centrais da trama. A referência ao Tullamore D.E.W. é tão importante – e relembrada ao longo da obra – que a Tullamore Dew a estampou em seu website por bastante tempo.
A Tullamore D.E.W. é a segunda maior destilaria de whiskey da Irlanda em volume de vendas – apenas atrás da Midleton, responsável pela Jameson. Ela foi fundada por Daniel E. Williams – por isso as iniciais D.E.W. – e atualmente pertence à William Grant & Sons, a mesma proprietária da Glenfiddich, Balvenie e da recente e monstruosa Ailsa Bay.
A Tullamore
O Tullamore D.E.W. é composto de três tipos de whiskey, se assim pudermos chamá-los. Malte de cevada, à moda dos single malts, grão destilado em alambiques de cobre, e grão destilado em destiladores contínuos. As três porções são produzidas praticamente sob o mesmo teto. A maturação e o engarrafamento também ocorrem in-loco, o que faz com que a destilaria tenha controle sobre praticamente todos os estágios de produção do whiskey.
Sensorialmente, é um whiskey leve, com notas herbais, de baunilha e caramelo. Não há fumaça, e o corpo é bem leve. Aliás, em matéria de aroma e sabor, é muito próximo de seu maior concorrente – o Jameson. E para apreciá-lo, você não precisa ser uma hacker durona. É um whiskey que não demanda qualquer esforço para ser bebido e que agradará a maioria dos paladares.
TULLAMORE D.E.W.
Tipo: Irish Whiskey
Marca: Tullamore
Região: N/A
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: Frutado, adocicado, baunilha.
Sabor: Frutado, adocicado. Final médio, com caramelo, madeira e baunilha.
“Menos é mais somente quando mais é demais“. A máxima, quase um trava-línguas, é de Frank Lloyd Wright, e uma provocação a Mies van der Rohe e a Bauhaus.
O renomado arquiteto acreditava que a forma deveria acompanhar a função. Wright também dizia que cada projeto deveria ser individual, de acordo com sua localização e sua finalidade. As edificações projetadas por Wright são sofisticadas e belas, mas de uma sofisticação orgânica, quase natural. É como se fizessem parte do ambiente, e dele tivessem nascido e evoluído.
Uma de suas obras mais célebres é o museu Guggenheim, em Nova Iorque. Ele foi projetado e construído entre 1943 e 1959 – seis meses após o falecimento de Wright. Linhas infrequentemente retas e uma rampa que lhe serve de espinha dorsal – e que também permite que o visitante vá, aos poucos, experimentando e descobrindo o prédio – o fazem incrivelmente impactante. Até hoje o Guggenheim continua como um dos mais expressivos prédios da metrópole, ao mesmo tempo orgânico e impactante para sua localização.
Se fosse um whisky, o museu Guggenheim provavelmente seria o Chivas Regal 25 anos. Sofisticado, mas ao mesmo tempo equilibrado e harmônico. E, assim como o museu, com seus alicerces fortemente fincados no solo da maior metrópole americana – Nova Iorque. O blend original fora criado em 1909 pelo master blender Charles Howard, e voltado para a alta sociedade daquela cidade. Com alto percentual de single malts, a ideia da marca era oferecer uma experiência mais complexa, sofisticada e elegante seus exigentes consumidores.
O blend original
Por um breve período, o Chivas Regal 25 anos – muitas vezes referido como o primeiro scotch whisky de luxo do mundo – foi um enorme sucesso. Porém, em 1914, por conta da Primeira Guerra Mundial, as rotas de exportação para os Estados Unidos foram comprometidas. E a Chivas Regal, que encontrara no mercado norte-americano sua maior base de consumidores, deixou de exportar seu whisky.
O atual Chivas 25 anos é um tributo àquela primeira expressão da Chivas Regal, que também possuía um quarto de seculo de maturação. Noventa e oito anos depois, em 2007, a Chivas Regal relançou aquela que teria sido sua mais sofisticada e célebre expressão. Seu evento de lançamento não poderia ter ocorrido em outro lugar senão, claro, Nova Iorque. A cidade que lhe alçou à fama internacional.
O responsável pela composição do atual Chivas Regal 25 anos foi Colin Scott, atual master blender da Chivas Regal. Aliás, Colin trabalha para a marca desde 1973, e se tornou master blender em 1989. Incrivelmente, sua trajetória na Chivas Regal é mais longeva até mesmo do que sua luxuosa criação.
O coração do atual Chivas Regal 25 anos é o single malt Strathisla. A destilaria homônima, onde é produzido, é uma das mais antigas da Escócia, e passou a desempenhar um papel central nos blends da marca ao ser adquirida pela Seagram’s, em 1950. Localizada na região de Speyside, ela é também o lar espiritual da Chivas Regal. Seus whiskies são extremamente aromáticos, e possuem sabor frutado, floral e de especiarias. Nas palavras de Colin Scott, “este clássico single malt de Speyside é profundamente frutado, com uma gama de sabores de nozes e flores, e é o coração de todos os blends da Chivas Regal”
Colin Scott no lançamento de uma edição limitada do Chivas Regal 25, em Dubai.
Sensorialmente, o Chivas 25 anos é delicado e floral e quase organicamente equilibrado. Nenhuma nota se sobressai de forma artificial. Há um certo sabor de malte, equilibrado pela madeira, que traz nozes e frutas vermelhas. O final é longo e remete a anis e frutas em calda. E por mais difícil que seja declarar isto, a defumação é imperceptível – se existir – e não faz a menor falta neste blend.
O Chivas Regal 25 anos foi extremamente bem recebido, tanto pelo público quanto pela mídia especializada. Jim Murray, em sua Whisky Bible de 2010, lhe atribuiu 95 pontos, elegendo-o como o melhor blended scotch whisky com idade superior a dezoito anos. Além disso, o whisky recebeu medalha dupla de outro na San Francisco World Spirits Competition em 2013 na categoria de Blended Scotch, e prata na International Wine & Spirits Competition de 2017 na categoria de blends de luxo.
No Brasil, uma garrafa do Chivas Regal 25 anos custa em torno de R$ 1.900,00 (mil e novecentos reais). Nesta faixa, é um exercício de futilidade falar sobre custo-benefício. O que se compra – e o que se recebe com louvor – é a exclusividade, o refinamento e a sofisticação. Assim como o Guggenheim museum somente poderia ter sido construído em Nova Iorque, o Chivas Regal 25 somente poderia ter nascido da Chivas. Uma marca com centenária experiência no mercado de luxo. Os criadores do primeiro blended whisky de luxo do mundo.
CHIVAS REGAL 25 ANOS
Tipo: Blended Whisky com idade definida – 25 anos
Marca: Chivas Regal
Região: N/A
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: floral e amadeirado, com amêndoas e alcaçuz.
Sabor: suave e equilibrado, com frutas vermelhas, amêndoas, madeira. Poucas especiarias. Final longo e progressivamente mais adocicado, com mais alcaçuz.
Se você é um apaixonado por whiskey americano, talvez você saiba que sua época embrionária não foi nada gloriosa. De fato, apenas uma pequena fração do que era destilado no século dezenove na América poderia hoje ser considerado um american whiskey, de acordo com nossos padrões atuais. O publico também não ajudava muito – os cowboys estavam longe de serem grandes degustadores sofisticados.
O que importava era, bem, ficar bêbado. Então qualquer coisa que envolvesse muito álcool era bem recebida nos saloons. Muitas vezes, o que se bebia nem era whisky. Mas sim álcool neutro misturado com algo que lhe desse cor ou algum sabor, para emular a bebida real. Essas fusões podiam incluir uma pletora de coisas, desde melaço até glicerina e ácido sulfúrico. Aliás, boa parte dos casos de pessoas que ficaram cegas bebendo algo que acreditavam ser whiskey – como reza a lenda – aconteceu por conta dessas combinações.
Uma das tentativas de resolver a questão – e fazer o público deseducado beber melhor – partiu do Governo Federal dos Estados Unidos. Em 1897, foi promulgado o “Bottled in Bond Act”. De acordo com esta lei, whiskies que atendessem a certos requisitos de qualidade poderiam estampar, orgulhosamente, em seus rótulos, a expressão “Bottled in Bond”. Os requisitos eram (a) ser produzido em uma única temporada de destilação (de janeiro a junho, ou de junho a dezembro), por uma única destilaria; (b) maturar em uma “bonded warehouse” sob a supervisão do governo por no mínimo 4 anos; e (c) possuir 50% de graduação alcoólica.
O Jack Daniels Bottled In Bond, tema desta prova, presta homenagem a esta lei. Aliás, engarrafamentos “Bottled in Bond” têm sido uma tendência. De acordo com a destilaria “Durante a decada de 1890, o Sr. Jack Daniel’s engarrafou seu whiskey na hoje familiar garrafa quadrada, para garantir sua qualidade “Até que o selo fosse violado”. O governo dos Estados Unidos então entrou na onda, e divulgou o “Bottled in Bond Act” identificando whiskey produzido em uma unica destilaria, de uma única temporada, maturado em um armazém alfandegário e engarrafado a 100 proof (50% ABV).”
Outros rótulos Bottled in Bond (foto: Serious Eats / Vicky Wasik)
A história real, porém, não é bem assim. O Governo norteamericano não promulgou a lei porque o lendário Jack teria colocado seu whiskey na garrafa quadrada. A garrafa foi criada apenas para identificar o produto da Jack Daniel’s mais facilmente, atestando sua qualidade. Em outras palavras, não há uma relação direta entre a garrafa quadrada e o Bottled in Bond Act. Exceto que as duas coisas aconteceram em um intervalo de tempo de menos de três anos e que, discutivelmente, participaram da mesma tendência. A garrafa quadrada da Jack Daniel’s é datada de 1895, e o Bottled in Bond Act, de 1897.
Além de prestar homenagem à lei, como seria de se esperar, o Jack Daniel’s Bottled in Bond segue todos seus requisitos. O que, sensorialmente, não faz muita diferença, se compararmos com o tradicional Jack Daniel’s Old No. 7. Exceto por um detalhe bem importante. A graduação alcoólica. O Jack Daniel’s Bottled In Bond possui 10 pontos percentuais a mais de álcool, se comparado ao seu irmão mais comum. Algo mais do que notável.
Sensorialmente, o Jack Daniel’s Bottled in Bond é mais apimentado e alcoólico que o Old No. 7 – o que é de se esperar. Ele é também um pouco mais adocicado. Na verdade, a expressão que mais se compara a ele não é o mais tradicional dos Jack Daniel’s, mas sim uma edição especial. O Jack Daniel’s 150th Anniversary Edition, que também possui 50% ABV. Comparado a ele, o Bottled in Bond parece menos amadeirado e mais doce, ainda que essa diferença seja quase marginal, e somente perceptível com mais clareza se bebidos lado a lado.
Ainda que tenha o visual vintage do Old No. 7 , o Jack Daniel’s Bottled in Bond é bem recente. Ele foi lançado no segundo semestre de 2018. Porém, já está disponível nos principais aeroportos com terminal internacional no Brasil, nas lojas de Duty Free. Seu preço é de US$ 42,00 (um pouco superior àquele do Old No. 7, mas, ainda assim, razoável).
Se você é um fanático pelos produtos da Jack Daniel’s, gosta de whiskeys com graduação alcoólica relativamente alta ou apenas aprecia uma boa história, não deixe de conferir o Jack Daniel’s Bottled in Bond. E ao contrário do whiskey servido no tempo das diligências, a gente te garante que a única cegueira que ele poderá te dar é aquela da admiração.
Hoje irei direto ao ponto. Sem longas introduções ou comparações, mesmo porque haverá oportunidade para isto no meio deste texto.
Há alguns dias lancei um post sobre um coquetel que sou apaixonado. O Rusty Compass. Ele é resultado do cruzamento entre um Blood and Sand e um Rusty Nail, e leva whisky turfado. Uma bela proporção de whisky insanamente turfado, capaz de superar o dulçor trazido pelo Drambuie. Depois de testar quase à exaustão e embriaguez, joguei a metafórica toalha e admiti – o melhor resultado levava Ardbeg. Um single malt de mais de trezentos reais. Era um drink tão delicioso quanto desesperadoramente caro.
Resolvi lançá-lo no Cão com essa ressalva. Relativizei um pouco a história, e até mesmo recomendei misturar outro whisky, e reduzir o Drambuie. Já esperava receber alguma repreensão de algum leitor, mas uma delas me pegou desguarnecido. É um pecado misturar whisky, whisky é pra tomar puro, já é cheio de sabor, ainda mais single malt. Me surpreendi. Eu não posso preparar coquetéis com whisky?
Meu futuro, depois de ter feito um Rusty Compass.
Deixe-me mudar o objeto para outro destilado. A vodka. Dave Wondrich uma vez disse que a ”A vodka é o peito de frango desossado e sem pele da coquetelaria – tudo tem a ver com o tempero“. Isso porque a vodka é um destilado cujo objetivo é ter o sabor mais neutro possível – ainda que, na prática, possamos notar até mesmo diferenças sensoriais por conta do terroir, como apontou Marcelo Sant’Iago, do Difford’s Guide.
Aliás, ela diverge da maioria dos destilados justamente por conta dessa característica, da busca pela neutralidade. Enquanto buscamos complexidade sensorial em destilados sofisticados, como whiskies e conhaques caros, procuramos o contrário na vodka. Quanto mais pura e neutra – ou seja, quanto menos sabor – mais sofisticada ela será.
Em relação à vodka, não há qualquer polêmica. Tanto entusiastas da vodka – devo confessar que conheço poucos – quanto produtores não veem qualquer problema em utilizar o destilado em coquetéis. Aliás, o mercado da vodka sempre foi essencialmente baseado na coquetelaria. Quando o consumo de gim aumentou, graças à preparação de coquetéis com o destilado, há alguns anos, o de vodka encontrou seu declínio.
Talvez isso tenha a ver com o fato da vodka ser, justamente, um destilado neutro. O que lhe dá sabor é a mistura. O whisky, porém, é uma bebida carregada de sabor. Seja por conta de seu new-make spirit defumado, no caso de certos maltes e blends, seja por conta de sua maturação em diferentes tipos de barricas, o whisky, sozinho, já possui imensa complexidade sensorial. Assim, alegadamente, utilizá-lo em um coquetel seria uma frivolidade.
Isso, no entanto, é uma tremenda simplificação. Talvez por preguiça, ou talvez pela enorme oferta de informações, em contraste com a escassez de tempo, somos induzidos a pensar – e escolher – entre pólos de dicotomias. Não há exceção ou ponderação, apenas absolutos. A é oposto a B, e só há A e B. Não há tons de cinza, exceto na subliteratura. E isso não apenas empobrece o discurso, como cria falácias. Mas já que você, querido leitor, chegou até este ponto do texto, vejo que esta é uma boa oportunidade para conduzir uma saudável – e cada vez mais rara – reflexão.
QUALQUER WHISK(E)Y.
Vou começar por uma observação simples. A Scotch Whisky Association (SWA) – a entidade de autorregulação escocesa responsável por produzir as mais importantes regras sobre Scotch Whisky – em seu website oficial, menciona a utilização de whisky em coquetéis. Segundo ela “não há regras para que tipo de scotch whisky deve ser usado em um coquetel, ainda que você vá descobrir que os blended scotch whiskies funcionam bem e são os mais comummente utilizados“. A associação, inclusive, enumera e ensina a preparar algumas receitas. Então, bem, se a associação oficial escocesa responsável pela produção de whisky disse que pode, então, quem seria este canídeo para discordar?
Sede da SWA, onde todo mundo vai pro inferno quando morrer.
Além disso, há o argumento histórico. O (discutivelmente) primeiro coquetel do mundo – O Old Fashioned – utilizava whiskey. Whiskey, bitters, açúcar e gelo. Não há vodka, halls ou picolé. Drinks clássicos importantíssimos e muito mais antigos do que esta discussão purista, também. Como o Manhattan e o La Louisiane. Na realidade, o debate sobre o uso ou não de whisky como um insumo da coquetelaria nem deveria existir. O que deveria existir é uma discussão sobre qual whisky.
Para isto, deixe-me lançar mão de outra parábola. Imagine que você vá preparar um spaghetti carbonara. Há uma receita que pede queijo grana padano – que, aqui no Brasil, tem oferta escassa e preço um tanto elevado. Você, então, resolve substituir por parmesão. Não é a mesma coisa, mas a diferença não será tão gritante, exceto se seu paladar for muito treinado ou refinado. A receita vai funcionar. Talvez não tão bem quanto aquela de grana padano, mas ficará agradável. Porém, se você usar outro queijo muito diferente, um queijo frescal, por exemplo, ou requeijão, o resultado será muito diferente.
Você não precisa utilizar o queijo mais caro do supermercado, curado desde os tempos faraônicos e extraído das tetas de uma cabra virgem. Mas tampouco o mais barato. O custo de certo ingrediente é importante, mas não pode ser o único critério. Sua escolha deve se balizar no sabor da sua refeição. Em qual resultado você quer obter. Talvez um queijo mais curado e forte seja melhor do que algo mais delicado e cremoso para aquela receita. Da mesma forma – e voltando para o mundo do whisky – um coquetel como o La Louisiane exige um whiskey mais seco e picante – algo como um Bulleit ou Wild Turkey Rye – sob pena de ficar muito doce por conta do Benedictine.
OK. MAS NÃO COM SINGLE MALTS.
Bem, não é apenas a SWA que promove o uso de whisky na coquetelaria. Muitas marcas renomadas também o fazem. E nem estou falando de blends. A Glenfiddich, por exemplo, em seu website, enumera algumas receitas de drinks que levam seus maltes. Há, inclusive, uma criada pelo embaixador brasileiro da Glenfiddich, Christiano Protti. A Glenlivet, em seu website internacional, possui uma aba inteira apenas de coquetéis com seu malte – uma delas, inclusive, leva Glenlivet 15 anos, para aqueles que imaginam que apenas rótulos de entrada devem ser usados. A Auchentoshan, conhecido single malt das Lowlands escocesas, foi além. Desenvolveu um rótulo com o auxílio de bartenders, justamente para o uso em coquetéis – o Bartender’s Malt.
Todos os envolvidos também irão para o inferno.
Mas tudo bem, porque talvez você imagine que tudo isso é meramente marketing, e que whisky deve ser tomado apenas puro. Porque, sei lá, talvez não faça mesmo sentido usar um Glenfiddich onde se pode usar algo mais humilde. Há, entretanto, um elemento que deveria superar qualquer polêmica e abrir o gradiente entre o branco e o preto. Um elemento cada vez menos usado nos dias de hoje. O bom senso. Algo capaz de enriquecer a experiência sensorial. E não apenas por futilidade ou ostentação, como seria o caso de utilizar um whisky caro só por seu preço – mas por propósito. Meu caso, justamente, com o Rusty Compass.
Em certos casos, você somente conseguirá atingir determinado perfil sensorial se utilizar um single malt. Outro exemplo é um dos meus coquetéis favoritos – o Penicillin. O Penicillin é basicamente o remédio pra garganta da sua avó, se sua avó for uma entusiasta do whisky. Ele leva gengibre, mel, limão e dois tipos de whisky. Um frutado e outro bastante defumado – na receita original, o Compass Box Peat Monster, um blended malt de nicho, bastante defumado. Porém, por falta deste whisky no Brasil, as únicas opções que temos com perfil semelhante são single malts. Ardbeg 10 e Laphroaig 10.
Em casos como este, o uso do single malt não atende um capricho. Mas tem um propósito claro. Sensorialmente, é impossível atingir o mesmo resultado utilizando um whisky de outra categoria. É uma situação distinta da troca de um whisky mais em conta por outro mais caro – ou um single malt – com o mesmo perfil de sabor.
No final, o que mais importa é que a experiência seja boa. Da mesma forma que um entusiasta de whiskies investirá mais em uma garrafa mais sofisticada para ter uma experiência mais complexa, alguém que preza por seus coquetéis escolherá com esmero e propósito o whisky de sua receita, pelo mesmo motivo. A classificação nem importa tanto, ou, ao menos, não deveria importar.
O que todos buscamos é satisfação e alegria. E, para isso, há muito mais caminhos do que simplesmente A ou B.
Gosto é um negócio engraçado. Porque há uma miríade de coisas que eu sempre gostei. Peixe e western, por exemplo. Há outras que quis gostar, assim, voluntariamente. E aí passei a admirá-las por insistência. Como negroni e aquela cebola grelhada incrível com um pouquinho de azeite e sal.
Mas há outras coisas que não consigo gostar, independente de minha pertinácia. Uma delas é jazz. Eu chego às vezes até a ouvir um Miles Davis ou Thelonious Monk enquanto fumo um charuto, só pelo bem do cliché. E nessas situações, ainda que me sinta bem, quase não presto atenção na música. Jazz não me agride, mas não me seduz. E eu queria que fascinasse.
Outra dessas coisas é vinho. Queria muito gostar e conhecer vinho. Mas em parte por conta de minha natureza, em parte por uma questão de ter que escolher frentes de combate, sei muito pouco sobre vinho. Tanto é que minha bússola sensorial é invertida. Uma vez, me serviram um Jerez oloroso. Experimentei com atenção e logo concluí. Tem gosto de Macallan. Ou Aberlour, talvez.
E é curioso isso, porque a esfera dos vinhos não apenas tangencia a do whisky, como nela desempenha um papel importantíssimo. Há centenas de whiskies maturados em barricas previamente usadas por vinho. Não apenas single malts. Há blends que buscam inspiração no mundo dos vinhos. Um desses é o novo Johnnie Walker Wine Cask Blend, que acaba de chegar ao Brasil.
O Johnnie Walker Wine Cask Blend faz parte da série Blender’s Batch da Johnnie Walker, que produz rótulos – no conceito deles – experimentais. Como, por exemplo, o Johnnie Walker Red Rye Cask Finish, já revisto por aqui. No caso do Wine Cask Blend, a experiência fica por conta do uso de whiskies que passaram parte de sua maturação em barricas previamente utilizadas para maturar diferentes tipos de vinho.
Nas palavras da Johnnie Walker, mal traduzidas por este Cão “este blend único é influenciado pela experimentação da maturação em barricas de vinho, um projeto iniciado pelo master blender da Johnnie Walker, Jim Beveridge, há quase uma década. Em 2015, Aimee Gibson, do time de blenders da Johnnie Walker, assumiu parte do projeto e por experiências próprias, desenvolveu um maravilhoso novo whisky para a série Blender’s Batch“.
Aimee e sua criação
A empresa continua “Este blend acessível inclui whiskies maturados em barris de vinho. Ele é produzido com maltes das highlands, como Clynelish, e speyside, como Roseisle. Ele também inclui whiskies de grão bastante cremosos, como os de Cameronbridge. O resultado é um whisky leve e vibrante, com notas de frutas do pomar e do bosque“.
É uma declaração triplamente curiosa. Em primeiro, porque não há nada de experimental em maturar whiskies em barricas de vinho. A Glenmorangie, por exemplo, dedica boa parte de seu portfólio permanente a expressões finalizadas em diferentes tipos de vinho, como sauternes, jerez e porto. A Benromach até possui versões maturadas em Sassicaia e Chateau Sissac, e a Bruichladdich acaba de lançar o divino Port Charlotte MRC:01, defumado e parcialmente maturado em barricas de ex-Mouton Rothschild. Esta é uma prática relativamente comum, ainda que seja, talvez, um pouco mais rara com blended whiskies.
Em segundo lugar, a declaração não aponta de quais vinhos vieram as barricas do Wine Cask Blend, e nem qual a proporção dos whiskies maturados nessas barricas. E isso é estranho, porque Sauternes, Porto, Madeira, Jerez, Merlot, Dolcettos e Moscatel são todos vinhos. E, em sua boa maioria, tão distintos quanto um Laphroaig é de um Glenfiddich. Talvez a Johnnie Walker se refira a tintos. Mas isso é tão vago quanto especulativo.
E, finalmente, por conta de Roseisle. Para este Cão, esta é a primeira vez que a empresa menciona sua enorme destilaria de Speyside. Inaugurada em 2010, a planta é capaz de produzir quase dez milhões de litros por ano – um pouco menos do que a Glenfiddich – e foi projetada para fornecer diferentes tipos de single malt especialmente para a elaboração de blends sob a égide da Diageo.
Roseisle (veja os alambiques no interior da estrutura de vidro)
Sensorialmente, o Johnnie Walker Wine Cask Blend é um whisky leve e agradável. O álcool está relativamente bem integrado – mas talvez menos do que no Red Rye Cask Finish – e a influência vínica é discreta, ainda que perceptível. Há uma predominância leve do dulçor do mel e da baunilha, vindo do whisky de grão e parte dos componentes de malte sobre o frutado e apimentado das barricas de vinho. Enfim, um whisky muito fácil de ser bebido. Um bebedor desatento seria capaz de percorrer quase um terço da garrafa sem qualquer esforço.
Se você é apaixonado pela Johnnie Walker, procura um whisky com excelente custo benefício, ou gosta de vinhos, experimente o Wine Cask Blend. Alás, experimente mesmo se não for um enófilo e mesmo se não gostar da marca do andarilho. É um whisky que – apesar da singeleza – entrega uma experiência bem agradável e além de honesta. Pensando bem, talvez agora eu me arrisque a dizer que realmente gosto de vinhos. O jazz que me aguarde.
JOHNNIE WALKER BLENDER’S BATCH WINE CASK BLEND
Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)
Marca: Johnnie Walker
Região: N/A
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: Doce e frutado, com creme de baunilha.
Sabor: Mais creme de baunilha, malte, discretamente turfado. Final adocicado e frutado, com baunilha.
Disponibilidade: disponível no Brasil – Preço médio de R$ 110,00.