Suntory Roku Gin – Filosofia oriental

A estética e a cultura japonesa estão intimamente refletidas em sua linguagem. Os japoneses possuem palavras simples que definem conceitos incrivelmente complexos. Por exemplo, wabi-sabi, que define a apreciação das imperfeições de tudo que é natural. Ou omotenashi – que poderia ser traduzido como hospitalidade. É a virtude de antecipar as necessidades dos outros e atendê-las. A tradição de certos restaurantes japoneses de entregar uma toalhinha quente e úmida para o comensal antes da refeição é baseada nesse princípio.

Há umas palavras bem específicas, também. Como tsundoku, que define a tendência de certa pessoa comprar e colecionar mais livros do que consegue ler. É quando a sede de conhecimento supera o tempo disponível. Feliz, ou infelizmente, não há nenhuma palavra que se aplique ao irresistível impulso de comprar dezenas de garrafas de whisky sem nem ter fígado ou tempo para bebê-las.

Que é um jeito bonito de dizer acumulador.

E há também Shun – a filosofia de se apreciar certo prato ou bebida em sua estação do ano certa, e somente quando estiver na epítome de seu sabor. E foi com base neste conceito e em omotenashi, a hospitalidade, que a House of Suntory criou o gim Roku, que acaba de chegar ao nosso país.

O Roku é o primeiro gim da lendária Suntory, a maior – e primeira – produtora de whisky do Japão. A mesma responsável por maravilhas como o Suntory Hibiki, Yamazaki e Hakushu. Ele foi lançado em 2017 por lá, mas somente chegou ao Brasil recentemente. Seu nome é traduzido como “seis”, em japonês. E não é necessário ter um poder de dedução sobre-humano para observar a referência ao número. Ela fica óbvia quando examinamos a garrafa, que é hexagonal e decorada com alguns dos botânicos usados no processo.

Mas a simbologia não está presente apenas na garrafa. O Roku Gin utiliza quatorze botânicos. Seis deles, japoneses, que simbolizam as quatro estações do ano – justamente com base em Shun. Folhas e flores de cerejeira (sakura) para a primavera, chás senchea e gyokuro para o verão, pimenta sansho para o outono e casca de yuzu – aquele limãozinho japonês – para o inverno. Além deles, há também, claro, botânicos tradicionais na produção de gim, como o obrigatório zimbro, bem como cascas de laranja, limão, coentro e canela. Os botânicos são destilados em quatro destiladores diferentes, para garantir que cada grupo mantenha suas características mais vivas.

– A produção do Roku Gin acontece em uma destilaria localizada em Kaigandori, Osaka, pertencente à Suntory – bem próximo à Yamazaki, onde é produzido o maravilhoso sigle malt homônimo. O espaço também é conhecido como o “Atelier de Bebidas da Suntory“. Lá são produzidos diversos outros destilados do portfólio da empresa japonesa.

O atelier

Sensorialmente, o Roku é um gim marcante, que funciona melhor como personagem principal do que coadjuvante em coquetéis. O álcool é elegante e bem integrado, e seu perfil pende para o cítrico, com o amargor do zimbro e a pimenta trazendo força. No gim tônica, o Roku ficou bem interessante, mas foi no dry martini que – na singela opinião deste canídeo – o destilado se encontrou.

Você não precisa ser um tsundoku de garrafas. Mas, meu conselho, é que seu exerça seu “auto” omotenashi, e prove o Roku. É um gim que certamente irá surpreendê-lo. Por sorte, beber um belo gim é um hábito que podemos fazer o ano inteiro.

ROKU GIN

Tipo: Gin
Marca: Suntory
País/Região: Japão – N/
ABV: 46%
Idade: N/A

Notas de prova:

Aroma: floral e levemente cíttrico. Canela
Sabor: Cítrico e amargo, com laranja, limão, canela e coentro. Há um floral de fundo muito interessante.

Disponibilidade – lojas brasileiras como a Caledonia Store.

Laphroaig Select – Dissonância

Sem nenhuma dúvida, um dos maiores compositores da virada do século 19 foi Igor Stravinsky. Mais do que um excelente músico, o maestro desafiou dogmas seculares da música clássica. Seu trabalho revolucionou a estrutura rítmica da música erudita, e foi largamente responsável pela consagração do dodecafonismo e serialismo como técnicas de composição. Mas fique tranquilo, isso não é um texto sobre música clássica.

Além de gênio musical, Stravinsky era também um homem de bom gosto, e muito espirituoso. A prova disso é sua frase “Meu Deus, tanto gosto de beber whisky que as vezes penso que meu nome é Igor Stra-whisky”.

Mas nem sempre as coisas foram fáceis para Stra-whisky. Durante sua vida, muitos de seus trabalhos geraram enorme polêmica. A história mais conhecida é da estreia do ballet “A Sagração da Primavera”, que ocorreu em 1913 no Théâtre des Champs-Élysées de Paris, e foi uma das primeiras obras dissonantes do mundo. Já no início do espetáculo, a plateia assoviava e vaiava. Até que, em uma escalada de fazer inveja a qualquer torcida organizada de futebol, os ouvintes começaram a chutar-se mutuamente, aos berros, arrancando poltronas e as arremessando nas cabeças uns dos outros.

Enfim, um ballet tranquilo, com gente equilibrada.

Théâtre des Champs-Élysées depois do balé de Stravinsky

Um fenômeno parecido ocorreu recentemente com a Laphroaig, localizada na ilha de Islay, na Escócia, e famosa por seus whiskies com aroma defumado e bastante encorpados. No ano passado, a destilaria lançou o Laphroaig Select, uma versão mais democrática de sua obra já consagrada. E isso gerou muita polêmica entre seus fãs.

A maior crítica seria que a Laphroaig, ao invés de presentear seus fiéis com outra variação sobre o mesmo tema, teria preferido criar algo mais suave, menos encorpado e menos defumado. Um Laphroaig uma oitava acima. Na cabeça dos críticos, a ideia teria sido tentar agradar ao público ainda não fidelizado e aumentar as vendas da destilaria. Por conta disso, a reação de seus fãs foi também uma versão suavizada de “A Sagração da Primavera”. Sem descontrole físico-emocional e arremesso de cadeiras. Mas com muita gritaria.

No meu caso, a polêmica internacional despertou uma curiosidade quase doentia de experimentá-lo. Mas como sou fã de whiskies defumados, e especialmente da Laphroaig, imaginei que não passaria da primeira dose. Só que não foi o que aconteceu.

Se comparado às demais expressões da destilaria, o Laphroaig Select é, de fato, um whisky mais suave. Os aromas defumado e de maresia estão lá, só que mais discretos. E o sabor picante também, ainda que também suavizado, principalmente por conta da graduação alcoólica de apenas 40%. No entanto, o Select continua, sem dúvida nenhuma, a ser um Laphroaig. Tipo catupiry light. Continua sendo catupiry, só que mais leve.

Pensando bem, não. Catupiry light é qualquer coisa, menos catupiry.

Sério, o que é isso?

O Laphroaig Select é composto por um pouco de quase tudo que existe no atual portfólio da Laphroaig. Em sua fórmula estão o Laphroaig PX, maturado em barricas de ex-jerez, o QA Cask, que utiliza barricas de carvalho branco americano, o Triple Wood, que é uma versão do Quarter Cask maturada em barricas de jerez, bem como o clássico Laphroaig 10 anos. Estes whiskies, depois de combinados, são maturados em barricas virgens de carvalho americano.

É inegável que, assim como “A Sagração da Primavera” de Stravinsky o Laphroaig Select destoa dos demais whiskies da destilaria. Mas não vá lançando seu mobiliário nele só por conta disto. Experimente. Se você, como eu, é cachorro velho frente aos single malts de Islay, abaixe suas orelhas e reconheça: poucas vezes a Laphroaig produziu algo tão versátil sem comprometer a complexidade, e com um preço tão convidativo.

Agora, se você for um iniciante nos whiskies defumados, o Select é simplesmente imperdível para você. É sério. Se Igor tivesse experimentado, mudaria seu sobrenome para Laphro-vinsky.

LAPHROAIG SELECT

Tipo: Single Malt sem idade definida
Destilaria: Laphroaig
Região: Islay
ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: medicinal e defumado, mas não tanto quanto o Laphroaig Quarter Cask ou o 18 anos. Aroma de madeira queimada e frutas cítricas.

Sabor: defumado e levemente cítrico (limão siciliano), com capim santo, e final amargo e longo. Ao contrário da maioria dos Laphroaigs, há pouco defumado no sabor residual.

Com água: adicionando-se agua, o aroma defumado torna-se muito mais leve, e o limão siciliano fica mais evidente. O sabor de capim-santo também é ressaltado.

Disponibilidade: lojas brasileiras como a Caledonia Store

Whiskies jovens (ou sem idade declarada) muito bons

Foto: Tales Hideki

“O tempo é a substância da qual sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me devora, mas sou o tigre; é um fogo que me consome, mas sou o fogo” escreveu Borges em sua Nova Refutação do Tempo. Desgraçadamente – para continuar no tema Borgiano – tenho tido bastante tempo para pensar nele mesmo. Não em Borges. Mas no tempo.

Ultimamente, a passagem do tempo tem me trazido ansiedade. Almejo que tudo passe logo, para voltar àquele status quo. Trabalho normal, vida corrida. Aquele em que o tempo passa tão rapidamente que nosso anseio se torna justamente o contrário – que ele demore mais. Normalmente, a passagem do tempo não é muito querida. Exceto quando em quarentena e durante alguma aula chata de matemática. E – de acordo com o senso comum – com whiskies.

É que muita gente acha que idade é sinônimo de qualidade em whisky. Mas este pensamento está absolutamente equivocado. Há características sensoriais de whiskies jovens que são praticamente irreplicáveis em whiskies mais maturados. A turfa, por exemplo. Whiskies turfados são, sensorialmente, muito mais turfados quando há pouca maturação. A influência sensorial da turfa decai com a idade. Um mesmo whisky turfado com dez anos é muito mais enfumaçado e medicinal do que seu par com meio século de idade.

E há, também, aqueles que são jovens, acessíveis e absolutamente surpreendentes. Whiskies ora delicados, ora um pouquinho agressivos, mas que – aliando casualidade e qualidade – ganham o coração de qualquer entusiasta. Fiz aqui uma lista de quatro deles. De whiskies jovens bem acessíveis àqueles que, apesar da pouca idade, custam o mesmo que o meu fígado. O meu fígado jovem, claro, porque, agora, ele só serve para fazer foie gras. Enfim, vamos a eles.

FAMOUS GROUSE FINEST

Poderia utilizar o clichê “bom, bonito e barato” para descrever o Famous Grouse, não fosse sua garrafa horrorosa com um símbolo ainda mais feio. O que, em termos práticos, não importa nem um pouco. O líquido é sensorialmente excelente, e o preço o torna ainda melhor. O Famous Grouse Finest é a prova de que whiskies sem idade e acessíveis podem, sim, ser muito bons.

Sensorialmente, é um blend relativamente encorpado, bastante equilibrado, levemente puxado para o adocicado e com nenhuma – ou talvez pouquíssima – defumação.  Os principais single malts em sua fórmula são Glenturret, The Macallan e Highland Park. Uma tríade que, convenhamos, não poderia ser melhor. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

CHIVAS REGAL EXTRA

Desenvolvido pelo master blender Colin Scott, o Chivas Extra é um blended whisky sem idade definida, composto por single malts e grain whiskies. Sua base é o Strathisla, importante destilaria pertencente ao grupo Chivas, e considerada o lar espiritual da marca. O diferencial fica por conta do uso generoso de barricas de carvalho europeu de ex-jerez.

Ainda que isso não seja divulgado, este Cão tem um palpite educado sobre o Extra. Barricas de carvalho europeu tendem a atingir seu ponto de equilíbrio mais rapidamente do que de carvalho americano. Assim, utilizando whiskies jovens, a Chivas Regal consegue atingir um equilíbrio melhor em seu blend, e dar escala de produção a ele. Quer saber mais? Clica aqui.

GLENLIVET FOUNDER’S RESERVE

A Glenlivet é uma das maiores destilarias em volume de venda na Escócia. E sua expressão mais vendida – e quiçá responsável por seu crescimento nos últimos anos – é justamente o Glenlivet Founder’s Reserve. Lançado em 2015, o Founder’s assumiu o papel de whisky de entrada do portfólio da Glenlivet – função outrora desempenhada pelo respeitado 12 anos.

o Founder’s Reserve é maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano de primeiro uso, que antes continham Bourbon whisky, com outras barricas de carvalho americano que já haviam maturado The Glenlivet antes. Essa combinação permitiu que Alan Winchester, o master distiller da marca, produzisse um whisky consistente, escolhendo e combinando as barricas pelo sabor, e não pelo tempo de maturação em seus armazéns. Quer saber mais sobre ele? Clica aqui.

PORT CHARLOTTE SCOTTISH BARLEY

Olha, eu não poderia terminar minha lista de outra forma. O Port Charlotte Scottish Barley é tudo que um bom whisky de Islay é – bastante alcoolico, insanamente defumado e timidamente maturado. Ele é a essência de tudo aquilo que esperamos de um whisky medicinal, salino e enfumaçado.

Tudo isso, graças à sua juventude. Por conta da maturação – que não passa de dez anos – seu new-make spirit é evidente. E que new-make. Iodado e defumado, o Port Charlotte Scottish Barley é um dos rótulos à venda no Brasil mais queridos deste Cão Engarrafado. Mas como tudo tem um ponto negativo, ele não é exatamente barato. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

San Basile White Dog – Raio X

Quando era criança, bati a cabeça bem forte. O que, num parêntesis, é uma explicação bem verossímil para certos comportamentos que tenho hoje. Eu estava me preparando para dormir, saí correndo e pulei na cama, mas devia estar empolgado demais, porque errei o alvo e fui direto na parede. Quanto aterrizei no travesseiro, não sentia metade da testa, mas percebia um líquido quente e viscoso que descia pelas minha têmpora esquerda, até a orelha. O resto foi drama. Mãe gritando, carro, hospital, raio-x.

Raio-X. Quando o médico chegou com a imagem do raio-x na mão, minha mãe ficou aliviada. Nada demais, apenas uma meia dúzia de pontos na testa, que mais tarde se tornariam uma pequena cicatriz. Mas, mais do que isso, eu fiquei maravilhado com aquela foto. Então era assim que eu era por dentro. Uma intrincada combinação de pedaços que mais pareciam um vaso de porcelana quebrado e depois colado.

Anos mais tarde – e sem qualquer relação direta com o acidente – vi uma série de outras imagens de raio-x, de coisas e bichos aleatórios. Achei bem legal. Um celular não é muito mais do que uma chapa cheia de furinhos e circuitos. E um pinguim – pasme – possui joelhos. Mas eles estão escondidos dentro da barriga. É engraçado como tudo parece diferente, mais claro, mais facilmente isolável, quando na máquina de raio-x.

A prova.

E se pudesse comparar o raio-x com alguma bebida (talvez isso tenha sido uma sequela daquela batida) diria que ele é o White Dog da San Basile, uma recém-inaugurada destilaria brasileira, focada em produtos de coquetelaria.

É que o White Dog da San Basile oferece uma experiência curiosa. A de provar, com boa fidedignidade, qual seria o sabor do new-make spirit de um single malt, totalmente isolado de qualquer influência da madeira. Como você sabe – já que acompanha o Cão Engarrafado – há diferenças entre new-makes. Mas a possibilidade de provar um já dá uma ótima ideia do tamanho da ação que o barril tem no sabor final do produto. E, ainda mais interessante e menos óbvio que isso, como o produto recém-destilado já possui congêneres e carrega sabor.

A base do White Dog da San Basile é cevada maltada – igualzinho um single malt escocês. O que é relativamente incomum para um white dog, e o torna ainda mais único. A denominação geralmente é utilizada para definir os destilados sem maturação norte-americanos. A maioria deles, com predominância de milho ou centeio em seu mosto. “Nós fizemos alguns protótipos com milho, com centeio. O milho sem envelhecimento tem um sabor, eu diria, indesejado. Então no final decidimos fazer algo só de malte, um único malte” – conta Renato Chiappetta, mestre alambiqueiro da San Basile.

Renato Chiappetta

A destilação do White Dog da San Basile é bem semelhante àquela de single malts escoceses. São duas destilações, a primeira, sem cortes, a segunda, separando cabeça e cauda. Os alambiques são também parecidos, de pescoço de cisne. “White dogs são uma coisa mais americana, mas em perfil de paladar, nosso produto se aproxima mais da Escócia” – continua Renato.

De acordo com a San Basile “A tradição de destilar a noite, sob a luz da lua, para fugir da fiscalização durante a era da Lei Seca nos Estados Unidos fez nascer o Moonshine, essa bebida originária dos Apalaches, na Carolina do Norte e na Geórgia. Hoje esse “whiskey branco” está sendo redescoberto e valorizado por novos consumidores no mundo todo. Intenso e levemente adocicado, o White Dog é uma aguardente elaborada à partir da destilação do mosto fermentado de cevada maltada. “

Sensorialmente, o White Dog da San Basile é adocicado e levemente apimentado. Há um sabor de cereais, ou pão, que é bastante identificável também quando bebemos whiskies com pouca maturação – mas que, em certos casos, é bem difícil de isolar. Assim, se você é um whisky-geek como este Cão, ou se tem uma curiosidade meio inexplicável de entender como um single malt seria se não passasse por qualquer madeira, o white dog da San Basile é perfeito. E acredite em mim – é ainda mais surpreendente que descobrir que pinguins tem joelhos.

SAN BASILE WHITE DOG


Tipo: New-make-spirit / white dog
Destilaria: San Basile
País/Região: Brasil – São Paulo
ABV: 40%
Idade: N/A

Notas de prova:

Aroma: cereais, pão, especiarias.
Sabor: corpo médio, cereais, pimenta do reino. Final apimentado e com especiarias.

Gold Rush – Sobre ideias geniais e óbvias

Ultimamente, tenho tido tempo razoável para rever uma série de filmes. Prerrogativa da quarentena. Essa semana, revi Segundas Intenções. Sei lá porque, também. E olha, é bem ruim. Você pode argumentar que não, que isso é um absurdo, porque é um clássico. Afinal, é uma adatação pop do romance Les liaisons dangereuses, de Pierre de Laclos, e integrante da corrente de grandes filmes baseados no romance, como Ligações Perigosas do Stephen Frears e Os Sonhadores de Bertolucci.

Você pode argumentar. Mas, se o fizer, você está equivocado. Ligações Perigosas sempre foi bom, e envelheceu bem. Os Sonhadores, ao ser lançado, foi arrebatador, a ponto de se tornar um clássico instantâneo. Mas não Segundas Intenções. Segundas Intenções era ruim, apelativo, afetado e raso. Melhorou um pouco, mas não é porque algo ruim envelheceu bem, que se tornou bom.

E teve sequência, com um poster que parece de softcore.

Em resumo, nem tudo que é antigo é clássico. É necessário ter qualidade. Um diferencial, algo que proteja do oblívio e dialogue com as pessoas – independente da era em que foi criado.

Mas há coisas que são tão boas, mas tão boas, que prescindem a passagem do tempo para virarem clássicos. Algumas – poucas – películas são assim (Os Sonhadores, por exemplo). E a coquetelaria, também, é povoada por clássicos modernos. Um deles é o Gold Rush. Ele foi criado na virada de nosso milênio, durante os primeiros anos do bar Milk & Honey, em Nova York. Seu criador foi o bartender T. J. Siegal. A primeira publicação que fez menção ao drink foi o PDT COcktail Book de Jim Meehan.

O Gold Rush é aquele tipo de criação que parece tão genial, mas tão óbvia ao mesmo tempo, que você mesmo começa a se perguntar porque não teve essa ideia antes. Ele é, basicamente, um whiskey sour. Só que o xarope de açúcar é substituído por uma calda de mel – na realidade, quase mel puro, diluído com um pouco de água morna apenas para garantir que não encapsule. Além disso, não há clara de ovo na receita do gold rush – o que o torna uma alternativa interessante para aqueles que não consomem o emulsificante de origem aviária.

A piada “devia se chamar Terceiras Intenções” é tão boa quanto o filme.

É engraçado como o Gold Rush possui semelhanças com diversos coquetéis conhecidos, alguns mais antigos, outros ainda mais recentes que ele. Um destes é o Bees Knees – basicamente, a mesma coisa que o Gold Rush, só que com gim. Outro – dessa vez, posterior – é o maravilhosamente delicioso (é, este é um quase-pleonasmo proposital) Penicillin. Que, aliás, foi criado por um outro bartender que passou pelo Milk & Honey – o lendário Sam Ross.

Sensorialmente, a maior diferença entre o Whiskey Sour e o Gold Rush está, justamente, na calda de mel. Assim, investir em um mel de qualidade é importante. Além disso, a recomendação deste Cão é que o coquetel seja produzido com um whiskey americano adocicado e com álcool bem integrado – como, por exemplo, o Jack Daniel’s Gentleman Jack que utilizamos. O mel – que funciona como um agente de dulçor – possui uma enorme complexidade, ainda que delicada. Um whisky muito forte iria, certamente, esconder essa complexidade.

Assim, meus caros, preparem seus shakers e seus meles (como adoro o plural de mel). Hoje prepararemos um coquetel genial de tão óbvio, e muito melhor do que qualquer coisa filmada com a Sarah Michelle Gellar. O clássico instantâneo, o incrivel – e incrivelmente singelo – Goldrush.

GOLD RUSH

(receita revista por Rodolfo Bob do O Bar Virtual)

INGREDIENTES

  • 20ml de Xarope de Mel (2 de mel para 1 de água está ótimo!)
  • 30ml suco de limão siciliano fresco
  • 60ml Bourbon Whiskey ou Tennessee Whiskey (aqui, recomendaríamos algo adocicado e delicado. Fizemos com Gentleman Jack)
  • Parafernália para bater
  • copo baixo
  • gelo

PREPARO:

  1. Coloque todos os ingredientes na coquetelaria, com bastante gelo.
  2. Bata até ficar cansado (você tem se exercitado durante a quarentena?), desenvolver bursite ou sentir uma leve condensação do lado de fora do shaker.
  3. Desça em um copo baixo com gelo.

Suntory The Chita – Carpe Diem

Uma amiga colocou uma imagem bonita. Fonte cursiva, aurora do dia, com a mensagem “que o hoje seja aproveitado sem o peso do ontem ou a expectativa do amanhã“. Balancei a cabeça com desgosto. Isso não é catártico, é infantil e egoísta. Se eu aproveitar o hoje sem o peso do ontem ou a expectativa do amanhã, vou torrar minha conta bancária com whisky sem pensar na minha família. Não vou tomar banho e vou esquecer de cortar a unha, porque, poxa, que perda de tempo cortar a unha, deixa pra amanhã, hoje tá boa pra coçar atrás da orelha.

Aquilo que pode aparentar libertador, talvez seja apenas infantil e irresponsável. Quase todas as nossas atitudes são alicerçadas em experiências passadas. Recorremos ao passado para planejar nosso futuro. Não viver no presente é ser racional. Nós não vencemos como espécie por viver no presente – mas por planejar nosso futuro.

E tem a parte do whisky. É que se todos pensássemos assim, somente no agora, não haveria whisky. Whisky demanda planejamento e paciência. Talvez o exemplo mais clássico aqui seja o fenômeno que ocorreu, há alguns anos, com os whiskies japoneses. Os bons whiskies japoneses – ao menos single malts e blends – sumiram das estantes, substituídos por outros um tanto oportunistas. Em boa parte, porque não haviam se preparado para o próprio avassalador sucesso.

E talvez você não saiba, mas há um ponto bem angustiante sobre whiskies japoneses. Acontece que quase não há leis no Japão relativas à produção e comercialização de whisky. E, por conta disso, é permitido – ou melhor, não é ilegal – que um whisky destilado e maturado em outro país e engarrafado no Japão seja rotulado como whisky japonês. Isso dá oportunidade a novos empreendedores. Empreendedores no ramo de ludibriar o consumidor, engarrafando whiskies medíocres e cobrando o preço de japoneses.

Katherine Hepburn – tão japonesa quanto alguns whiskies japoneses

Os produtores sérios – Nikka, Suntory e uma meia dúzia de outros – porém, tiveram que buscar outra saída. Uma delas, foi lançar whiskies sem idade declarada (NAS) e aguardar que seu estoque envelhecesse novamente. Afinal, nenhum whisky chega aos dezoito anos sem que se tenham passado dezoito anos. Outra, foi lançar produtos alternativos. Gins, por exemplo, como o Toki. E whisky de grão. E é aqui que entra o Suntory The Chita.

A destilaria Chita, fundada em 1973, pertencente ao grupo Suntory, foi, por muito tempo, uma heroína anônima. Poucas vezes lembrada, mas parte indissociável de blends japoneses de renome, como os Hibiki. Em 2015, porém, movida pela escassez de whiskies japoneses no mercado, a Suntory resolveu colocá-la em evidência. O The Chita, um single grain japonês sem idade foi lançado.

A ideia da Suntory é que o The Chita, leve e aromático, pudesse ser usado para elaborar highballs, muito populares no Japão. Aos poucos, porém, incentivado pela expansão da coquetelaria no mundo, o The Chita passou a ser exportado.  Inclusive para o Brasil.

Há pouca informação sobre o processo de produção do The Chita para nós, mortais. Porém, de acordo com o website Malt, que faz referência ao livro Whisky Rising, de Stefan van Eycken, a destilaria utiliza milho como seu cereal base. A destilação acontece em destiladores contínuos, que podem ser combinados de diferentes formas para atingir oleosidades diferentes de seu new-make.

Colunas de destilação da Chita

Para aumentar a complexidade, uma combinação de barricas – dentre elas, jerez, vinho tinto e bourbon – é empregada. Algo que, convenhamos, é bem raro no mundo dos whiskies de grão. Isso torna o The Chita um whisky muito leve e adocicado, com notas de coco e frutas tropicais, especialmente banana. Ele é pouquíssimo agressivo, bem agradável, fácil, e realmente perfeito como base de coquetéis, especialmente os de perfil mais cítrico.

Se você procura um whisky leve e adocicado para preparação de drinks, mas com perfil diferente dos bourbons, o The Chita será uma agradável surpresa. E, se me permite, experimente o The Chita também puro. Porque, bom, devemos sempre pensar no futuro para todas as decisões que tomamos. Mas somente às vezes, em raríssimos casos, nos sentimos confortáveis o suficiente para viver no presente, despretensiosamente relaxar, embarcar no momento e deixar as expectativas de lado. E o The Chita é um desses casos.

SUNTORY THE CHITA

Tipo: Single Grain Whisky

Destilaria: Chita 

País: Japão

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, coco, caramelo, banana.

Sabor: Coco bastante aparente, mel, banana, frutas amarelas. O final é médio e com bastante baunilha.

Disponibilidade: lojas brasileiras, como a Caledonia Store

Highball Cocktail – Simplicidade Intrincada

Foto: Tales Hideki

Há coisas que parecem simples, mas são, na verdade, extremamente intrincadas. Os japoneses tem até uma palavra pra isso. Shibusa – ou shibui. Que na minha (assumo, limitada) interpretação da cultura oriental, poderia ser traduzido – não sem alguma perda – como “austero”. Shibusa definiria algo que fosse despojado de ornamentação excessiva. Algo que tivesse um equilíbrio fino entre o elegante e o bruto, o formal e o espontâneo. Entre o simples e o complexo.

A palavra é, geralmente, aplicada a objetos – mais frequentemente, arte e moda. Ainda que quase tudo possa ser Shibusa. Pode ser uma comida. Que, aliás, cunhou o termo “shibui”, até hoje utilizado como sinônimo de adstringente. Uma bebida ou um coquetel, também. Por exemplo – e como não poderia deixar de ser – o Highball.

O Highball é o tipo de coquetel que é incrivelmente fácil e ao mesmo tempo, inacreditavelmente intrincado. Se a frase anterior lhe parece um paradoxo, deixe-me explicar. Produzir um whisky-soda, ou melhor, misturar whisky com qualquer coisa com bolhas, é bem fácil. Se meu cachorro tivesse polegares opositores, ele provavelmente faria tranquilamente. A questão, aqui, são os detalhes que permeiam os ingredientes, e o cuidado no preparo.

Em primeiro, é preferível que o copo – tradicionalmente uma caneca alta – esteja bem gelado. Aliás, é melhor que esteja tudo bem gelado: club soda, whisky, copo e (já que estamos falando obviedades) o gelo. Atenção especial para este ingrediente. Um gelo opaco, com muito ar represado em seu interior, poderá diluir muito rapidamente, e atrapalhar na carbonatação (as bolhinhas).

Tá, vai com calma, campeão!

Prefira um gelo mais translúcido – não necessariamente grande. Aliás, falando nas bolhinhas, este é outro ponto importante. Use club soda, ou uma água com gás neutra com bastante gás. Bastante mesmo, a ponto de ser quase imbebível pura. A temperatura baixa, aliada à diluição com gelo e whisky tratarão de equilibrar o gás.

Tradicionalmente, o highball leva apenas gelo, whisky e club soda. Porém, nada impede que você sofistique sua receita. No Caledonia Whisky & Co., nosso bar em São Paulo, por exemplo, servimos com uma lasca de gengibre e uma folha de limoeiro. Essas adições aromáticas são super bem vindas, e ajudam a trazer complexidade para a mistura. Um chá delicado também pode ser uma boa ideia, mas cuidado para não exagerar – lembre-se de shibui. A nota predominante deve ser do whisky, com a leveza da água carbonatada.

Como muitos coquetéis clássicos, a origem do highball é discutível. A ideia de misturar uma bebida alcoolica com algo carbonatado data do final do século dezenove nos Estados Unidos (há um coquetel chamado Simplificatore no Bartender’s Manual de Harry Johnson, de 1900). Porém, os responsáveis por sua popularização são, indiscutivelmente, os japoneses. Na década de vinte os japoneses já consumiam whisky com club soda. Em meados de 1960, Shinjiro Torii, fundador da Suntory, abriu uma cadeia de bares chamados “Torys”, que serviam o drink. Aí, a popularidade da mistura decolou.

Mas vamos deixar este post simples. Aí vai uma receita tão simples quanto misturar whisky e água com gás, mas tão intrincada quanto fazer um niguiri.

Talvez mais.

HIGHBALL (AKA HAIBORU):

INGREDIENTES

  • 1 dose (30ml) de Whisky (escolha um whisky que tenha uma influência clara de madeira ou turfa. Se pegar algo delicado, a tendência é que ele perca força por conta da água carbonatada).
  • 3 doses (90ml) de Club Soda ou água com gás (escolha uma que tenha bastante gás!)
  • Gelo bom
  • Copo alto ou caneca previamente gelada
  • adições aromáticas (seja criativo)
  • aparato para mexer

PREPARO

  1. Gele tudo. Copo, whisky, água com gás. Gele até o gelo, só pra ter certeza.
  2. Adicione na caneca (ou copo) gelada, o gelo. Ele deve ser suficiente para cobrir quase todo copo. Se conseguir produzir um gelo grande e comprido, melhor. Senão, vá com pedras grandes – isso vai garantir que a diuluição e a carbonatação estejam corretas.
  3. adicione o whisky e a club soda
  4. mexa suavemente com a colher bailarina, como se puxando o whisky do fundo para cima. Não exagere.
  5. Se quiser, adicione uma lasca de gengibre, ou algum elemento aromático que você goste. Lembre-se que o higball é um coquetel delicado!

Aberlour A’Bunadh Alba – Drops

Há uma analogia bem conhecida, utilizada para comparar single malts e blended whiskies. Diz-se que single malts são como um solista tocando uma música para um único instrumento. Como um violoncelo, executando a Suíte No. 1 de Bach. Há um único tema, um fio condutor, uma única nota maravilhosamente – ou não – tocada por vez.

Já blends são uma orquestra. Há diversas notas de naturezas distintas ecoando ao mesmo tempo. O que compõe o som é a harmonia. Cada instrumento possui sua função, e contribui um pouquinho para o equilíbrio do arranjo. É difícil isolar uma única nota da orquestra – como é difícil separar um único malte de um blend – mas isso não importa. O que importa é o som do conjunto.

Se pudesse estender a analogia, diria que o Aberlour A’Bunadh é como Mistlav Rostropovitch tocando um único – e maravilhoso – lá em seu violoncelo. Com vibrato e tudo. Pouquíssimos single malts tem um tema mais definido do que o Aberlour A’Bunadh. No caso, um tema vínico, profundo e alcoólico. O Aberlour A’Bunadh clássico é o epitome de um whisky maturado em carvalho europeu de ex-jerez – nenhum outro single malt define melhor o estilo.

A’Bunadhs

No entanto, sempre me pareceu curioso que a Aberlour não tivesse a contrapartida em carvalho americano de bourbon whiskey. Até poderia fazer sentido – afinal, o carvalho europeu aporta mais complexidade – mas aquilo soava como uma oportunidade desperdiçada. Até agora. A Aberlour lançou em 2019, exclusivamente no mercado americano, o Aberlour A’Bunadh Alba.

O Aberlour A’Bunadh Alba é produzido exatamente da mesma forma que o clássico A’Bunadh. Sem corante caramelo, filtragem a frio ou qualquer diluição. E com maturação em um único tipo de barril. Mas, no caso, carvalho americano que antes contivera bourbon whiskey. Por isso, inclusive, o nome “Alba” – um trocadilho engraçadinho com “quercus alba”, o nome científico do carvalho americano, e o nome gaélico pelo qual a Escócia era conhecida.

Sensorialmente, o Aberlour A’Bunadh Alba traz notas de caramelo, baunilha, mel e pimenta do reino. Porém, o álcool é bem presente. Ainda mais do que na versão original, maturada em carvalho europeu. Para sentir as notas mais delicadas, é necessário aguardar algum tempo com o whisky no copo e adicionar água. Aliás, bastante água. Mas, a partir daí, o whisky se torna menos interessante também. No caso específico do A’Bunadh, o carvalho americano de ex-bourbon funciona bem como uma tela em branco, mas, sozinho, não se sustenta tão bem como o europeu.

Infelizmente, nem o Alba nem o A’Bunadh original estão à venda oficialmente no Brasil. É uma pena. Ele apresenta uma oportunidade interessante, especialmente para os entusiastas do mundo do whisky. Comparar como determinada madeira influencia nas características sensoriais do whisky, mesmo com um new-make de personalidade. Compará-lo com o A’Bunadh tradicional é divertido e interessante, e, só por isso, justifica sua existência. De volta à nossa analogia. Como um violoncelo solo, ele talvez não funcione tão bem. Mas numa dupla de cordas, é absolutamente perfeito.

ABERLOUR A’BUNADH ALBA (Batch 1)

Tipo: Single Malt com sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Aberlour

Região: Speyside

ABV: 57,1% (variável de acordo com o lote)

Notas de prova:

Aroma: caramelo, açúcar mascavo, compota de frutas.

Sabor: frutas amarelas, caramelo, mel, baunilha, pimenta do reino. Final longo e muito picante.

Com água: o sabor fica mais adocicado e menos picante.

Disponibilidade: Lojas internacionais

Fettercairn 12 – Brilho do Sol

A vida moderna, também, é geralmente uma opressão mecânica, e o álcool é o único alívio mecânico” uma vez escrever o velho Ernst, em tom quase profético. Opressora e compressora, essa vida moderna. Ainda mais no último mês. Comprimido em casa, sem poder sair, realmente, uma dose de whisky é quase um abraço – hábito que, aliás, também está oprimido.

Talvez seja por isso que tenha bebido tanto whisky ultimamente. Graças à quarentena, meu novo hábito etílico prescinde horários. Uma da tarde é um momento totalmente aceitável para começar. O sol a pino, escondido por trás da laje, exige algo floral e delicado. Algo com um certo frescor, sofisticado, porém com um perfil de sabor casual. Como, por exemplo, o single malt Fettercairn 12 anos, recém chegado ao Brasil.

O Fettercairn 12 anos é um whisky perfeito para qualquer momento. Sensorialmente, traz frutas maduras e cítricas, e um toque de pimenta do reino. Não chega a ser um whisky delicado, mas está aquém da intensidade de um Dalmore, ou algum monstro defumado de Islay. De certa forma, faz sentido. A Fettercairn está posicionada como uma marca super-premium. Nada mais natural que, sensorialmente, seja acessível mesmo para o leigo, acostumado com produtos de luxo.

A Fettercairn possui algumas características bastante incomuns em sua produção – para um whisky geek, muitíssimo interessantes. Por exemplo, entre 1995 e 2009, os condensadores de seus alambiques eram feitos de aço inoxidável, ao invés de cobre, o que trazia uma nota sulfúrica para o whisky. Em 2009, os condensadores passaram a ser de cobre. Para auxiliar na condensação do new-make, há (até hoje) uma espécie de anel de canos perfurados, que derramam água sobre o braço do alambique, para resfriá-lo e incentivar a condensação. Isso o torna um pouco mais leve – há mais refluxo.

Alambique da Fettercairn com água descendo pelo pescoço (fonte: Whisky Exchange Blog)

Além disso, no passado, os alambiques de primeira destilação eram preenchidos de mosto quase até seu limite de volume. Para evitar que o mosto vazasse, a destilaria empregava reservatórios de sabão neutro, não perfumado, que era despejado sobre o mosto em aquecimento para evitar que produzisse muita espuma e transbordasse. Isso mesmo, sabão. Atualmente, porém, esses alambiques são operados de uma forma diferente – seu volume é de vinte e cinco mil litros, e a carga, treze mil litros.

Há pouquíssimos engarrafamentos oficiais da Fettercairn. O malte sempre foi utilizado largamente na indústria de blended whiskies, como matéria prima – especialmente nos blends da Whyte & Mackay. Além do 12 anos, tema desta prova e única expressão que desembarca no Brasil, a marca possui também três rótulos super-maturados: 28, 40 e 50 anos.

No Brasil, uma garrafa de Fettercairn 12 anos custa, em média, R$ 550,00 (quinhentos e cinquenta reais). É um preço bem elevado, que o coloca ombro a ombro com outros rótulos super-premium no mercado, como o Macallan Double Cask 12 e o – fogo amigo – Dalmore 12 anos. Porém, comparativamente a eles, o Fettercairn é bem mais delicado, adocicado e floral. Aqui, há um claro tradeoff – a intensidade dá espaço para a drinkability.

Assim, se você procura um whisky sensorialmente delicado e extremamente bebível, o Fettercairn é perfeito. Ele é praticamente aquele abraço que não podemos mais dar. E só para fechar com Shaw o que comecei com Heminway: ele é brilho de sol líquido – infelizmente, o único brilho possível.

FETTERCAIRN 12 ANOS


Tipo: Single Malt
Destilaria: Dalmore
País/Região: Escócia – Higlands
ABV: 43%
Idade: 12 anos

Notas de prova:

Aroma: caramelo, açúcar mascavo.
Sabor: caramelo,açúcar de confeiteiro. Pimenta do reino. Final médio e adocicado.

Disponibilidade: lojas brasileiras, como a Caledonia Store

Code Nine Single Malt – Produtividade

Shakespeare escreveu King Lear durante a quarentena da peste bubônica. Já Isaac Newton desenvolveu o alicerce de sua teoria da gravidade. E Giovanni Boccaccio escreveu uma de suas mais famosas obras. O Decameron: uma coletânea de mais de cem contos contados por um grupo de sete pessoas que se refugiavam da Morte Negra em Florença. O livro, mais tarde, tornou-se também uma das mais clássicas obras do cinema, dirigido por Pasolini.

Eu, por outro lado, ganhei um quilo e meio e fiz uma porção de descobertas. Todas elas, baseadas na mais pura e entediante contemplação. Como, por exemplo, que o rei de copas é o único dos quatro naipes que tem bigode. Que morcegos ficam de ponta cabeça mas fazem xixi com o rabo pra baixo. E também que crianças fazem em torno de duzentas e noventa perguntas por dia – exceto pelas minhas, que devem fazer umas quatro mil. Quatro mil cada uma.

E ainda fecha o olhinho de alívio.

E tem também a tensão do bar fechado. Só de pensar no Caledonia de portas cerradas, me dá uma angústia e falta de ar mesmo sem COVID-19. Para aliviar um pouco a tensão, estabeleci uma meta. De experimentar – no sentido amplo de experiência – uma coisa nova por dia, no mínimo. Pode ser um filme, um prato, uma bebida. Pode até ser um shampoo, ainda que eu não me veja como alguém interessado em testes cosméticos. Já fiz sushi caseiro, provei uma itubaína com marca de supermercado e provavelmente assisti umas cem horas de filme. E, nessa toada, experimentei um whisky bem inusual que há algum tempo pretendia provar. O Code Nine – um single malt brasileiro produzido em Blumenau.

Seu criador é Bruno Mafra, que também produz o licor de canela Witch On Fire, já revisto em nosso Instagram. De acordo com Bruno, “A história do code da Witch on Fire se misturam. Porque o Code Nine surgiu justamente pela busca da melhor formula possível do witch. Foram dois anos, em que a gente testou rye, bourbon, single malt. E o último fornecedor que tivemos acesso, com um blend específico de barris, nos impressionou muito. As notas eram bem diferenciadas e tinha qualidade. O custo era maior que esperávamos mas compensava. O Code Nine a gente bebe faz tempo, aliás. A gente recebia amigos em casa que conheciam whisky e elogiavam bastante o produto“

“Somos uma marca cigana, focada em entregar produto de qualidade com melhor custo benefício possível. Acreditamos que conseguimos um custo-benefício bom até mesmo para a produção de drinks“. De acordo com Bruno, este é um ponto importante: os bartenders possuem um trabalho de educação, de apresentação e valorização do produto para o público, que de outra forma não seria atingido. Produzir um drink com Code Nine leva o amante de coquetelaria a conhecer e experimentar o produto.

Witch on Fire, licor de canela produzido com a base do Code 9

A destilação ocorre numa destilaria que loca sua capacidade ociosa para a empresa de Bruno – a Xanadu. É uma destilaria de cachaça artesanal, localizada em Blumenau, Santa Catarina. No mundo cervejeiro, isso é bem comum. Cervejarias bastante conceituadas utilizam o espaço de outras para produzir suas cervejas – o trabalho é elaborar a receita e supervisionar a produção. São as chamadas “ciganas”.

A maturação do Code Nine passa por barricas de carvalho americano de ex-bourbon e barris de carvalho europeu e americano de reuso. Esses barris – americanos e europeus de reuso – passam por uma raspagem e nova torra. A Xanadu também realiza o corte (a diluição do whisky para atingir a graduação etílica de engarrafamento). Segundo Bruno, nos primeiros lotes, não foi usado corante caramelo, ainda que o rótulo indique o produto – a ideia é que a embalagem esteja em conformidade com qualquer alteração por conta de padronização.

Sensorialmente, o Code Nine é um whisky adocicado, com uma curiosa nota de chocolate, que me remete a outro whisky bem pouco ortodoxo – o australiano Starward. Ainda que seja um whisky jovem, com o new-make spirit aparente, a maturação é bem resolvida, e o álcool não incomoda nem um pouco. Há notas de ameixas e uvas passas, açúcar mascavo e baunilha. O final é adocicado e pouco apimentado.

Se você procura um whisky que foge do comum, mas que entrega um ótimo custo-benefício, o Code Nine talvez seja uma boa pedida. Você não precisa ser Newton, Boccaccio ou Shakespeare para transformar sua quarentena em um período de ótimas descobertas – ainda que etílicas.

CODE NINE SINGLE MALT

Tipo: Single Malt

Destilaria: Xanadu/Code9

País: Brasil

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: açúcar mascavo, chocolate, mel, uvas passas.

Sabor: Bastante adocicado, com sabor que remonta chocolate. Uvas e ameixas passas. Final longo, levemente alcoolico e apimentado, mas também achocolatado.

Disponibilidade – à venda na Caledonia Store